
Por Ricardo Seelig
Colecionador
Batemos um longo papo com Eduardo de Souza Bonadia, um dos desbravadores do heavy metal em nosso país, co-fundador da revista Rock Brigade e hoje editor da Stryke Magazine. Bonadia contou histórias do começo da Brigade e de como era a cena nacional nos anos oitenta, além de nos mostrar a sua coleção.
A entrevista ficou sensacional, espero que curtam!

Collector´s Room - Bonadia, você se considera um colecionador de discos? Tem quantos na sua casa?
Você guarda algumas demos ou material da época em que começou a trabalhar com jornalismo musical?
Infelizmente não, ficaram todas as demos na redação da Rock Bridade, e por estupidez de quem ficou por lá foram utilizadas para gravação de LPs (!!!), perdendo-se assim um tesouro incalculável. Tanto material antigo raríssimo, de qualidade, literalmente jogado fora!!! Não faria isso nunca!!!
Você foi um dos fundadores da Rock Brigade. Como surgiu a idéia da revista?
Comecei a trocar correspondência com várias pessoas através de um anúncio colocado na saudosa revista Somtrês, e entre estas pessoas estava o Antônio D. Pirani (Toninho), além de outros não menos importantes que foram o embrião da Rock Brigade. Comecei, especialmente com o Toninho, a trocar correspondência mais a fundo no aspecto musical. Ficamos muito amigos, emprestávamos LPs um para o outro constantemente - ele me passava mais material dos anos 60 e 70, e eu emprestava anos 70 e algumas coisas mais pesadas que ele não conhecia bem (Motorhead, Girlschool, etc).
Com o tempo, e como ele recebia na época a excelente revista britânica Kerrang - que começava a falar muito do "novo" movimento NWOBHM - New Wave Of British Heavy Metal - e tempos depois, no início dos anos oitenta, um zine norte americano chamado KAM, que foi a base de informação para nós no início.
Assim como os outros componentes do staff, éramos amigos de correspondência ou até mesmo amigos de bairro que alimentavam o amor pela música pesada.
Quem deu o nome da publicação, baseado, é claro, na música do Def Leppard, foi o Ricardo H. Oyama, que na época tornou-se um grande fã do então quase desconhecido Iron Maiden!!!
Quando a revista surgiu, não havia essa facilidade ao acesso de informações que temos hoje. De onde vocês pegavam as informações para produzir as matérias daquelas primeiras edições da Brigade?
Não existia nada, era tudo feito na base da raça, do amor pelo metal (a música, não o dinheiro). Bem no início as fontes de informação eram realmente as mencionadas, Kerrang e KAM, mas com o tempo tornei-me o "relações públicas internacionais" e os contatos eram feitos por mim diretamente com as bandas, gravadoras, etc, e as matérias eram fresquinhas.
Onde ficava e como era a redação da Brigade naqueles primeiros tempos?
O endereço de correspondência no início era a minha casa (no Cambuci). Inclusive os leitores eram tratados como sócios, com carteirinha e tudo o mais, e a Rock Brigade era um fã-clube de heavy metal, mas as reuniões do staff eram feitas na casa do Toninho (em Santa Cecília) semanalmente. Somente em 1986/87 (não me lembro bem a época) a sede passou a ser na Avenida Paulista, no Conjunto Nacional (chique não??! risos)
Como era impressa a revista naqueles primeiros dias?
Era "xerocopiada" e grampeada toscamente, tudo feito na escuridão da madrugada pela namorada do Toninho, na empresa aonde ambos trabalhavam. Devem ter dado um prejuízo legal para a empresa com isso (risos).
A Rock Brigade tinha uma postura super radical, que era exemplificada pelos adjetivos criados para classificar os grupos metálicos e a escolha em escrever os nomes daa bandas que não eram do metal de uma forma propositalmente incorreta. Quem teve essa idéia e como ela era recebida pelos fãs?
Nada foi feito artificialmente, era tudo feito de coração, era o verdadeiro feeling, sentimento de quem estava escrevendo, e no geral a idéia era muito bem recebida entre os leitores. Todos realmente amavam as bandas, os álbuns, ou odiavam mesmo, havia um radicalismo, mas era uma coisa mais saudável, não esta estupidez atual. Mas hoje em dia eu não falaria mal de vários artistas que eu malhei na época. Amadureci (risos).
Vocês enviavam a revista para fora do Brasil? Como era o intercâmbio com a galera do exterior?
Sim, esta era minha responsabilidade também. O Toninho ficava doido com o dinheiro que gastávamos com o envio das revistas para o exterior (risos), mas se não fosse isso a Rock Brigade não teria chegado ao patamar de ser uma grande e respeitada publicação, conhecida entre muitos no exterior. Era muito legal. Graças à isso eu fiquei muito amigo de muitas pessoas de bandas, da mídia, de gravadoras, e os agradecimentos à Rock Brigade naquela época encontram-se em antigos álbuns de artistas como Helloween, Artillery, Celtic Frost, Running Wild, Flotsam & Jetsam, Cirith Ungol, e muitos outros.
Tem alguma curiosidade ou história dos anos oitenta, quando o metal começou a se popularizar aqui no Brasil, que você poderia dividir com a gente?
Realmente não me lembro muito bem, mas o que lembro é que algumas pessoas não acreditavam na gente, não valorizavam o que estávamos fazendo, não davam bola. Uma pessoa que admiro e que também foi um desbravador é o Walcir Chalas, da Woodstock Discos. Ele chegou a amassar na minha frente uma filipeta de divulgação da Rock Brigade, isso em 1981, ainda lembro muito bem disso (risos).
Pra você, qual foi a importância da Rock Brigade para a cena metálica brasileira?
De suma importância em muitos sentidos. Nós não traduzíamos outras publicações inteiras para nacionalizá-las. Trouxemos e divulgamos aos leitores muitas novas e ótimas bandas (inclusive Metallica, Manowar, etc), até então desconhecidos ou conhecidos apenas por quem tinha dinheiro para comprar LPs importados caríssimos. Demos a cara pra bater, e tem muita gente seguindo os passos e copiando a forma que escrevíamos na época.
Uma das principais críticas dos leitores durante os anos noventa foi a maior abertura que a Brigade começou a ter, publicando matérias não só de grupos de metal, mas também de punk, hardcore e grunge. Qual a sua opinião sobre isso?
O princípio do fim. Pra mim foi um período negro, abominava e abomino essa abertura.
Você sabe quem tem os arquivos originais das primeiras edições da Brigade?
Talvez o Toninho, não sei.
Quando e porque você deixou a Rock Brigade?
Acho que em 1987. Prefiro não falar a respeito, mas nunca me arrependi.

Você mantém contato com a galera que produzia a revista em seus primeiros anos? Sabe o que cada um deles está fazendo?
Só com o Toninho, o restante do pessoal sumiu. Tres grandes amigos da época, o Ricardo Oyama, o Adrian Gomes e o Berrah de Alencar sumiram! Wilson D. LÚcio foi expulso ainda na minha época e não quero vÊ-lo nem pintado de azul. Os irmãos Slemer (grandes pessoas e que tiveram papel importantíssimo no início da revista) tive algum contato graças ao Orkut, mas sumiram também.
Você continuou acompanhando a Rock Brigade ao longo dos anos, mesmo depois de se afastar da revista?
Sim, até hpje, mas sem nenhuma paixão. Nem acompanho todas as edições, não me interesso mais, apenas uma leitura a mais "de vez em nunca".
A Rock Brigade passou por uma grande turbulência nos últimos anos, quase fechando as portas. O que você sentiu quando viu a revista que fez nascer quase chegar ao seu fim?
A Rock Brigade passou por uma grande turbulência nos últimos anos, quase fechando as portas. O que você sentiu quando viu a revista que fez nascer quase chegar ao seu fim?
Sinceramente não senti nada. A Rock Brigade é apenas um reflexo pálido do que já foi! Naquela época era tudo feito com o coração, hojw é feito pelo dinheiro. Os anos oitenta foram áureos para a publicação, depois o espírito se perdeu.

Após sair da Brigade você fundou a Strike. Conta pra gente como surgiu essa idéia e um pouco da história da revista.
A idéia da Strike, hoje Stryke, era e é seguir uma linha não tendenciosa, sem pretensão comercial descarada, honesta até os ossos, focalizando somente os estilos que os componentes do staff realmente gostam, sem ter o rabo preso, sem puxação de saco com gravadora, banda, etc. Honestidade acima de tudo.
A idéia surgiu em 1995 juntamente com um ex-amigo e ex-proprietário de loja na Galeria do Rock, mas ele me deixou na mão logo depois da primeira edição, aí segurei as pontas sozinho até a sétima edição, e em 1999 a Strike passou a ser virtual (www.strikemet.com e www.myspace.com/strikemg).
Quais os pontos positivos e negativos em ter uma publicação musical segmentada no Brasil?
Não dá pra agradar a todo o mundo ao mesmo tempo. Brasileiro não gosta de ler, há muita competição não saudável. O pessoal continua a ser radical, mas de uma forma muito radical, estúpida e violenta, lembrando-me muito torcidas de futebol. As gravadoras querem te comprar de qualquer jeito pra que você fale bem de seus artistas, isso sem falar na dificuldade para se conseguir anunciantes ...
Não dá pra agradar a todo o mundo ao mesmo tempo. Brasileiro não gosta de ler, há muita competição não saudável. O pessoal continua a ser radical, mas de uma forma muito radical, estúpida e violenta, lembrando-me muito torcidas de futebol. As gravadoras querem te comprar de qualquer jeito pra que você fale bem de seus artistas, isso sem falar na dificuldade para se conseguir anunciantes ...
As revistas de música sobreviverão por muito tempo ou elas estão com os dias contados?
Sobreviverão. O acesso à internet ainda não é acessível a todos e muitas pessoas gostam de uma boa e velha revista impressa - eu mesmo sou um destes.
Eu também. Você, o André Cagni, o Antônio Pirani, o Leopoldo Rey, o Walcyr Chalas e inímeros outros que eu não vou lembrar agora – o que é uma injustiça, diga-se de passagem – foram uma espécie de professores para toda uma geração de consumidores de mísica, que liam seus textos e críticas e as seguiam quase reliogiosamente. Você tem noção do tamanho da influência daquele trabalho desenvolvido naqueles primeiros anos na formação musical de um monte de gente? E como você se sente sobre isso?
É muito legal ler resenhas, matérias em publicações e vê-las repletas de citações e vícios de linguagem que você ajudou na criação. Não só isso, mas muita gente curte X estilo ou X banda(s) porque através de resenhas a fizemos conhecida. Muita gente já me falou isso. Gostaria somente que todos nós, mídia, bandas, etc, que ajudaram neste desbravamento, fossem mais conhecidos e divulgados de alguma forma entre a garotada de hoje. O legal é que toda esta gente faz parte da história do metal e do rock brasileiros.
Você tem saudades de algo da cena metálica brasileira dos anos oitenta?
De tudo. Das bandas, da sonoridade, da originalidade e da união da cena nacional (quanta coisa boa!!), dos meus cabelos longos (risos) e aí vai.

O que mudou na sua relação com a música nesses mais de vinte anos de envolvimento tão intenso com ela?
Sou muito cauteloso e desconfiado no que tange ao que a mídia especializada costuma dizer que é "a banda do momento". Não confio em resenhas de CDs de revistas, se tenho que comprar, compro pra ouvir, nada como o MySpace. Não gosto de nada que soe moderno, não gosto de misturas, não gosto de som extremo, de cara de mau (risos).
Quando você olha para trás, do que se arrepende e do que tem mais orgulho?
Do que me arrependo? De não ter cuidado melhor dos meus cabelos (risos). Brincadeira! De nada, sinceramente. De não ter tido algumas atitudes mais profissionais em alguns assuntos do passado. Orgulho: de fazer parte da história da cena metal/rock do Brasil e do mundo.
Você ainda ouve heavy metal?
Siiiiiiiiiimmm, e muito. Minha esposa fica doida (risos). Somente 10% da minha coleção é de rock progressivo, classic rock, hard rock, melodic rock, o restante é tudo som bate cabeça!!! Agora mesmo estou ouvindo!!! Estou com 46 anos de idade e vou morrer ouvindo metal!!!
Bonadia, você já pensou em escrever um livro contando todas as histórias que viveu e presenciou em toda a sua carreira?
Sim, gostaria, até comecei a fazer isso num link da Stryke, mas meu webmaster perdeu o texto e aí desanimei, mas já tem gente boa fazendo isso e minha participação já foi gravada (www.brasilheavymetal.com). Quem sabe mais tarde, contando com alguém que possa mesmo compor o texto.
Na sua opinião, quais grupos brasileiros tiveram uma grande influência e importância na história da música pesada mundial?
Não é minha praia, mas primeiramente o Sepultura, por ser o desbravador em termos de divulgação no exterior, mas com importância menor sei que a cena extrema mineira influenciou muita gente lá fora; Viper e Angra; muita gente com os quais troquei LPs na Europa e nos Estados Unidos amavam bandas como Centúrias, Harppia, Vulcano, etc.
Eduardo, e o futuro? Quais são os seus planos?
Como nunca vivi de música e nem pretendo (sou funcionário público), a música é um grande amor. Pretendo continuar com a Stryke enquanto tiver saúde, inspiração pra escrever e pessoas/amigos no staff pra me ajudarem, e muito, na tarefa.
Em algum momento você chegou a sentir ultrapassado, com medo de não conseguir acompanhar o que as novas gerações de fãs de música consomem?
Não, de maneira alguma. Não acompanho as modas, elas não me incomodam, sei que num momento elas vão embora. Estou nessa desde 1973 e já vi e presenciei muito coisa.
Qual o futuro da música? Ainda compraremos discos ou tudo será virtual daqui pra frente?
Voltar às raízes, como já tem acontecido na Europa. Heavy metal puro e simples, sem vocais eruditos, misturebas, afinações baixas, arrghhh. Espero que os CDs resistam ao tempo. Pelo numero de CDs que recebo pela Stryke tenho certeza que ainda vão ter longa vida. Abomino esta história de baixar músicas.
Bonadia, muito obrigado pelo papo e pela disposição, um grande abraço e sucesso.
Eu que tenho que agradecer. Valeu e tudo de bom. Pessoal, acompanhem a Stryke, e bandas/gravadoras enviem-nos material. Estamos aqui para divulgar.
Sou muito cauteloso e desconfiado no que tange ao que a mídia especializada costuma dizer que é "a banda do momento". Não confio em resenhas de CDs de revistas, se tenho que comprar, compro pra ouvir, nada como o MySpace. Não gosto de nada que soe moderno, não gosto de misturas, não gosto de som extremo, de cara de mau (risos).
Quando você olha para trás, do que se arrepende e do que tem mais orgulho?
Do que me arrependo? De não ter cuidado melhor dos meus cabelos (risos). Brincadeira! De nada, sinceramente. De não ter tido algumas atitudes mais profissionais em alguns assuntos do passado. Orgulho: de fazer parte da história da cena metal/rock do Brasil e do mundo.
Você ainda ouve heavy metal?
Siiiiiiiiiimmm, e muito. Minha esposa fica doida (risos). Somente 10% da minha coleção é de rock progressivo, classic rock, hard rock, melodic rock, o restante é tudo som bate cabeça!!! Agora mesmo estou ouvindo!!! Estou com 46 anos de idade e vou morrer ouvindo metal!!!
Bonadia, você já pensou em escrever um livro contando todas as histórias que viveu e presenciou em toda a sua carreira?
Sim, gostaria, até comecei a fazer isso num link da Stryke, mas meu webmaster perdeu o texto e aí desanimei, mas já tem gente boa fazendo isso e minha participação já foi gravada (www.brasilheavymetal.com). Quem sabe mais tarde, contando com alguém que possa mesmo compor o texto.
Na sua opinião, quais grupos brasileiros tiveram uma grande influência e importância na história da música pesada mundial?
Não é minha praia, mas primeiramente o Sepultura, por ser o desbravador em termos de divulgação no exterior, mas com importância menor sei que a cena extrema mineira influenciou muita gente lá fora; Viper e Angra; muita gente com os quais troquei LPs na Europa e nos Estados Unidos amavam bandas como Centúrias, Harppia, Vulcano, etc.
Eduardo, e o futuro? Quais são os seus planos?
Como nunca vivi de música e nem pretendo (sou funcionário público), a música é um grande amor. Pretendo continuar com a Stryke enquanto tiver saúde, inspiração pra escrever e pessoas/amigos no staff pra me ajudarem, e muito, na tarefa.
Em algum momento você chegou a sentir ultrapassado, com medo de não conseguir acompanhar o que as novas gerações de fãs de música consomem?
Não, de maneira alguma. Não acompanho as modas, elas não me incomodam, sei que num momento elas vão embora. Estou nessa desde 1973 e já vi e presenciei muito coisa.
Qual o futuro da música? Ainda compraremos discos ou tudo será virtual daqui pra frente?
Voltar às raízes, como já tem acontecido na Europa. Heavy metal puro e simples, sem vocais eruditos, misturebas, afinações baixas, arrghhh. Espero que os CDs resistam ao tempo. Pelo numero de CDs que recebo pela Stryke tenho certeza que ainda vão ter longa vida. Abomino esta história de baixar músicas.
Bonadia, muito obrigado pelo papo e pela disposição, um grande abraço e sucesso.
Eu que tenho que agradecer. Valeu e tudo de bom. Pessoal, acompanhem a Stryke, e bandas/gravadoras enviem-nos material. Estamos aqui para divulgar.























