Por Marcos Garcia
Professor de Física e Baixista
Collector´s Room
Professor de Física e Baixista
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No meio dos bangers, a palavra Deus causa ojeriza em muitos e admiração em tantos outros. O mesmo se aplica a palavra Diabo, já que é indelével o estigma que o rock’n’roll (e por tabela o heavy metal) sofre desde sua origem, nos anos 50: ser coisa do capeta. No Brasil, país religioso e de maioria proeminentemente cristã, esta frase plenamente non sense possui um número de seguidores, crédulos em sua valia, tanto em meios roqueiros (tanto que alguns dos fãs batem no peito se dizendo seguidores do capeta com orgulho!) quanto nos meios não roqueiros. E acreditem, pelo que vejo, no meio roqueiro isso é bem maior do que se pensa por aí, e anda causando divisões por pura ignorância ...
De um lado, os fãs dos estilos mais extremados do metal (em especial o black metal) dizem travar uma guerra contra Deus e seus seguidores, porque estes perverteram algo que eles próprios não sabem dizer o que é. Que me perdoem os mais fundamentalistas do estilo, mas basta poucas palavras para se por um percentual de 90% de seus seguidores e membros de “hordas” (ainda prefiro o termo banda, tradicional no meio) de cara na lama de sua própria ignorância, por conta da falta de conhecimento daquilo que dizem odiar e se opor, bem como daquilo que dizem amar e total falta de propostas para mudanças. Se opor ao que não se conhece é uma grande prova de falta de mente atrofiada por valores que nada dizem à nosso país, mentalidade de um povo colonizado.
Do outro, os fãs de white metal, com suas mensagens panfletárias, que usam o mesmo argumento acima para defender os pecadores contra Satã e suas hostes infernais, que desejam precipitar a humanidade nos poços do inferno. Mas como perguntar não ofende, vem logo à mente a clássica pergunta que desmonta todo um sistema ideológico montado em prol de facínoras que só desejam uma vida fácil, mesmo custando o sacrifício de seu próximo: Se Jesus fez sua opção sempre pelos pobres e era todo doação e amor, por que os que dizem seguí-lo de perto não tomam providências para que o mundo como um todo melhore, mas apenas sustentam o sistema injusto e excludente em que vivemos?
Ou seja, ambos os lados estão plenos de erros crassos e falhas, usadas para esconder o mais sujo e pérfido dos sentimentos humanos: a necessidade de se estar certo sempre, de se sentir superior, mas às custas da razão alheia, ou seja, é o velho pensamento tacanho de “se estou certo, o outro está errado e deve ser convertido completamente para meu lado, nem que seja à força!”
Longe de mim criticar a crença pessoal de quem quer que seja, mas do jeito que a situação se apresenta não é mais a crença particular em algo metafísico superior, mas pura idolatria a algo que desconhecem e é a pura expressão de mentes a muito condicionadas apenas a ver, aceitar e copiar, e não a pensar por si mesmas, a expor qualquer informação que lhes caia na mão a um questionamento saudável, a uma filtragem mais que necessária! Não há sentido algum nos fãs de black metal defenderem uma entidade (ou entidades) que não possuem sentido dentro do contexto histórico de nosso povo, como o mesmo vale para os cristãos, já que a cultura de raiz no Brasil é a do nosso indígena, belíssima, mas sempre discriminada e excluída de nosso conhecimento geral.
Satã, cujo nome vem do hebraico e significa “opositor”, nem mesmo sendo um nome próprio, mas um adjetivo, e Javé (e não Jeová! Por favor, aprendam o nome certo de uma vez, já que esta pronúncia é a mais próxima do original em hebraico, que foi mal traduzida por Martin Lutero em 1517), cujo nome significa “Eu Sou” estão longe de nossa Alma Mater, mas o brasileiro, seja cristão ou anti-cristão, faz questão de idolatrar porque ambos fazem parte do pensamento colonizador europeu (judaíco-cristão é o raio que os parta, já que a sede do cristianismo como um todo se situa em Roma, e não em Israel), daquela visão que tudo que vem da metrópole é melhor do que o que existe por aqui, ou seja, Javé e Satã seriam superiores aos deuses indígenas daqui. Basta ver que até mesmo as bandas de pagan black metal tupiniquins cansam de fazer referências a lendas européias, mas falar de vikings, Tor, Satã, Javé, florestas geladas, cultos celtas e sei lá mais o que por aqui é o verdadeiro non sense, puro sinal de mentes totalmente carcomidas por todo um aparato ideológico que vem da Europa, e que no caso de lixo, quase sempre desemboca nas praias brasileiras e é tido como tesouro intelectual.
Mas há um terceiro lado que preciso citar: o direito à crença e à liberdade de expressão de cada um, inalienável e garantido pela Constituição Brasileira promulgada em 1988, que de forma alguma desejo perverter ou mesmo desvirtuar, já que estou apenas questionando, direito supremo e dever de uma mente dita pensante. O que desejo dizer a todos é: se desejam se opor a uma idéia, porque antes de tudo não aprendem o que ela em verdade significa? Medo de ser convertido à verdade do outro? Será que suas convicções religiosas e/ou morais não lhes permitem conhecer o que o outro pensa, e mesmo em ouvi-lo com paciência e respeito?
Tenho grandes amigos satanistas engajados (e que nada têm com o bando de panacas da Noruega que viviam ofendendo Anton Szandor La Vey, atitude essa que os brasileiros fãs do metal negro repetem ad infinitum, como um papagaio repete as palavras de seu dono por um simples biscoito), bem como amigos religiosos cristãos em várias vertentes, e sempre procuro dialogar com ambos, sem colocar barreiras ou querem impor minha opinião à ninguém.
Isso é possível? Sim, óbvio que é, bastando apenas o respeito mútuo, que desapareceu do país depois que Euronymous apareceu na mídia. Sim, porque antes dos colonizados verem a cara do europeu raça pura sabe-tudo, não era raro ver um sujeito que ouvisse Morbid Angel e Sinister ouvindo Mortification, sem se importar com as letras de um lado ou do outro, e depois, todo mundo quer expurgar os discos do Mortification do país, fazendo-se agora o radical black metal. Consenso ou pura falta de identidade pessoal?
Gostaria de deixar claro que não sou anti isso ou aquilo, e que espero que o fã de metal brasileiro pense por si e esqueça as mitologias e ideologias oriundas da Europa ou dos EUA. em que teima em crer e defender com sua vida, e passe a valorizar mais aquilo que aqui está, que é tão bom ou melhor até do que vem de lá, tanto em matéria de som (as bandas brasileiras são maravilhosas e merecem atenção do público) quanto de pensamento filosófico (existem verdadeiros intelectuais no rock brasileiro, como Raul Seixas, Cazuza, Carlos Lopes, entre tantos outros), e que estão extremamente ligados à nossa realidade social/política/econômica, pois apesar de tudo, o Brasil possui identidade nacional.




3 comentários:
Otimo texto !!! sem duvida e mostra as diferentes faces do metal e tbm em outros acpectos . apesar de haver falhas no contexto religioso Satanista e tbm no cristão , porem os seguidores nao tendem as estudar a fundo suas doutrinas e na maioria das vezes criam mitos e inverdades para apoiar suas teses.Na minha humilde opinião acho valido o estudo de religiões aprofundado a fim de desmistificar o assunto .
Parabens ao autor exelente post .
Muito bom texto!
esse texto foi muito bom, parabens ao autor. eu como grande fã de heavy metal me sinto envergonhado com a cena de metal extremo de hoje... muita pose e pouca inteligência.
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