On the Road: Overdose de blues em Rio das Ostras


Por Ugo Medeiros
Colecionador e Jornalista

Pelo terceiro ano seguido cobri o
Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. Em sua sétima edição, o evento montou um elenco refinado de jazz. Nomes como Ari Borger, Jason Miles e Spyro Gyra deram um toque de qualidade ao festival em seus shows. Entretanto, o casting de blues estava sensacional!


Na segunda noite, Jefferson Gonçalves apimentou o palco de Costa Azul (o principal). Em uma apresentação matadora, o carioca que flerta com ritmos nordestinos mostrou que a sua música amadurece a cada dia. O repertório, composto majoritariamente por canções do seu trabalho mais recente - Ar Puro (Blues Times Records) – levou os expectadores a loucura com o seu “blues arretado” e fez com que boa parte dos presentes dançasse ao som de "Baião para Jú". Após, a banda executou "500 Miles" e um cover fantástico de Bob Dylan, "All Along the Watchtower". Ainda houve espaço para uma participação inusitada em "Wild Girl Blue": um baixista de apenas 13 anos, menor que o próprio instrumento. Michael Pipoquinha provou que tem um enorme talento, apesar da pouca idade (e tamanho).

Entretanto, o concerto guardou a maior surpresa para o final. Ao começar a saidera, "Melow Down Easy", desabou uma tempestade.O que, teoricamente, espantaria as pessoas, serviu para deixar o clima em ebulição. Durante uma grande medley com citações de diversas composições regionais, caso de "Asa Branca", o público dançou, cantou, pulou, enfim, se divertiu embalado com boa música.


Um dia depois da viagem de Jefferson pelo nordeste, o público assistiu a um verdadeiro show de blues. Coco Montoya, ex-integrante dos Bluesbreakers de John Mayall, colocou todo o feeling para fora através da sua Stratocaster, ao lado de uma banda sólida, com um baterista com pegada rock e um excelente tecladista. Sendo bastante sincero, eu estava com receio, já que os seus discos solo não chegam a me empolgar muito. Felizmente ele mostrou que ao subir no palco e ao plugar sua guitarra o mundo para e curte o bom e velho blues. Sua pegada blues rock, suas bases precisas e paletadas levemente agressivas deixaram todos boquiabertos. A apresentação foi uma aula de blues.


Até então os espectadores tinham visto uma apresentação de blues tipicamente brasileiro e uma de blues rock. Encerrando o festival, nada melhor que voltar às origens. O experiente John Hammond Jr, um dos últimos remanescentes do blues tradicional, subiu ao palco e mostrou como o blues deve ser tocado.

Nossa, foi difícil crer que aquele senhor, que já tocou com os maiores nomes do blues e ajudou nas carreiras de Duane Allman, Jimi Hendrix, Eric Clapton e The Band, estava a alguns metros de mim. Vê-lo em ação foi fazer uma volta aos anos sessenta, época do revival do blues, quando o estilo era uma verdadeira febre entre os jovens que buscavam uma música vinda do coração e com bases no folk.

Sua forma de tocar é uma aula aos guitarristas que pretendem ter uma pegada raiz. O seu estilo de cantar é outro caso a parte: o grito, marca registrada dos escravos que criaram o blues, seguido de uma frase mais calma e melódica. Ver uma lenda da música norte-americana como o Sr Hammond é um privilégio para poucos.

Durante cinco dias a cidade de Rio das Ostras respirou boa música. Quem compareceu, com certeza, irá voltar. O maior e melhor festival de blues e jazz do Brasil cresce a cada ano. Esperamos ansiosos por 2010!

E vem aí entrevistas com Coco Montoya e John Hammond!!!

Comentários

  1. Show de bola sua matéria Ugo.

    O show do Coco Montoya foi sensacional, mas o do Jefferson, mesmo com aquele temporal no final foi maravilhoso ! Nosso mestre da gaita está melhor a cada dia, e você disse tudo, All Allong the Watchtower ficou eletrizante com o sotaque brasileiro.

    Pena que a chuva não deu trégua e que não pude ver o show do John Hammond, mas destacaria também o animado show da Big Time Orchestra.

    Não tenho nada mais a falar a não ser que chegue logo 2010 !

    Abração,

    Sergio Duarte
    www.rocflu.com.br

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