(Ivan Miziara, Bizz#131, junho de 1996)
O heavy metal nasceu no início dos anos setenta a partir de três bandas fundamentais: Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Enquanto o Zep sempre teve mais prestígio e o Sabbath mais fãs, o Deep Purple levou algum tempo para construir sua reputação. Um dos motivos, seguramente, foi a falta de definição quanto aos rumos musicais que o grupo deveria tomar. Depois de dois anos sob a batuta intelectual de Jon Lord (teclados), gastos na realização de experimentos com jazz e música clássica (que culminaram no famigerado Concert for Group and Orchestra, de 1970), o Purple mudou totalmente de direção.
Com a entrada de Ian Gillan (vocais) e Roger Glover (baixo), aliados a Ritchie Blackmore (guitarras) e Ian Paice (bateria), a banda passou a fazer um som monolítico, pesado e agressivo, que renderia Machine Head, o ápice da carreira do Deep Purple, um disco perfeito. Poucas vezes na história do rock egos tão monstruosos conseguiram conviver de forma tão explosiva e harmônica.
São apenas sete faixas, uma melhor que a outra. Já na abertura o Purple despeja potência com o clássico "Highway Star". Em seguida vem "Maybe I´m a Leo". A estrutura jazzística da canção permite que cada elemento do grupo mostre seu talento, inclusive com um solo cristalino de Jon Lord. "Pictures of Home", a faixa seguinte, é uma música pouco lembrada pelos fãs do Purple, mas seu andamento marcial, comandado pela marcação precisa da bateria, serviu de modelo para inúmeras bandas do thrash metal atual. "Never Before" é um rock de acento latino cuja maior virtude é quebrar a seriedade do disco.
O riff magistral de "Smoke on the Water" anuncia o lado B. Apesar do trabalho de criação estupendo de Blackmore, merece destaque a disposição dos instrumentos no arranjo escrito por Lord. As pinceladas nos pratos, a marcação na caixa, os toques paquidérmicos do baixo e os acordes norteados vão sendo induzidos um a um, forjando um intenso clima de expectativa. Ian Gillan, para realçar a qualidade da composição, teve de se conter ao máximo. Acabou obtendo uma interpretação excepcional.
"Lazy" é quase um retomo às origens do Purple. A introdução clássica do órgão de Lord poderia, sem susto, ser tocada em uma igreja medieval. Mas logo a seguir Blackmore e Paice entram em cena incorporando um balanço insuspeitado à música. Daí para a frente, o show fica por conta do virtuosismo de cada músico, numa jam nunca menos que deliciosa.
O disco fecha com "Space Truckin", um hard futurista cheio de ginga. Em termos experimentais talvez seja a canção mais instigante deste álbum seminal que ajudou a lançar as bases do som pesado que viria a ser feito nas décadas seguintes.
Para dizer o mínimo, uma obra-prima.






5 comentários:
Sempre achei essa discoteca básica uma das mais fracas, por discordar de muito do que o jornalista falou, principalmente o "famigerado" do Concerto, mas eram bons tempos onde tinhamos as fichinhas da bizz para conhecer um pouo a história das bandas
Mairon, na verdade existem escolhas na Discoteca Básica da Bizz bem questionáveis, como o disco do Soft Cell que eu publiquei ontem, mas são bons textos, alguns realmente muito acima da média, que não devem ficar restritos às páginas da revista, na minha opinião.
A Discoteca Básica teve seu conceito mudado ao longo das décadas.
Primeiro, eles não permitiam falar de duas obra-primas de um mesmo artista, argumentando que a idéia era falar do maior número de artistas possíveis. Uma medida inteligente, porém, questionável.
As primeiras resenhas eram excelentes e me influenciaram muito.
A partir do meio da década de 90 apareceram alugmas feitas por gente não tão gabaritada e de qualidade duvidosa. Essa do Purple eu não conhecia, mas achei fraca também.
Ótimo comentário, Rubão. Realmente ,no início quase todas, pra nao dizer todas, as resenhas eram sensacionais, e com o tempo foram decaindo, apesar de que ainda há muito material legal para ser publicado.
Abraço.
Eu tenho a coleção da revista Bizz e ShowBizz desde o seu primeiro número até quando ela deixou de existir em meados dos anos 2000.
E tenho todas as fichinhas colecionáveis. Essa coluna me tras muitas boas lembranças. Muito legal.
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