20/02/2009

Colírio: Yes - Close to the Edge (Japanese Paper Sleeve Mini Vinyl LP Replica) (1972)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

"Close to the Edge", lançado em 08 de setembro de 1972, é o quinto e, provavelmente, mais conhecido disco do Yes. Um clássico do rock progressivo, um dos discos definitivos do gênero que marcou os anos setenta.

Essa versão japonesa, em mini vinil, é literalmente de babar. Lançada em comemoração ao cinquentenário da Atlantic Records, o disquinho é um primor, reproduzindo a arte original nos mínimos detalhes. A capa dupla original foi mantida aqui, revelando em todo o seu esplendor a magnífica ilustração de Roger Dean, tão característica nos álbuns do Yes.

Além disso, o álbum vem com todas as letras, e, para deleite dos colecionadores fetichistas, com um lindo obi. 

Anote o cat number: AMCY-2732.







Exclusivo - Ugo Medeiros entrevista o filho de deus: Ravi Coltrane


Por Ugo Medeiros
Colecionador
Coluna Blues Rock

Enganam-se os que pensam que esta matéria falará sobre Jesus Cristo. Ravi Coltrane é filho de um dos maiores nomes do jazz de todos os tempos, John Coltrane, e da pianista Alice Coltrane. Apesar de a sua carreira solo ter pouco tempo, Ravi faz jus ao sobrenome e já é considerado o melhor saxofonista tenor da atualidade, segundo a revista Downbeat.

Pela primeira vez no Brasil, o saxofonista encantou o público. O show, que teve músicas do álbum "In Flux" (2005), beirou a perfeição. Caminhando entre o virtuosismo, Ravi esbanjou elegância e deu uma verdadeira aula de jazz. Após o shows, nos deu a honra de um papo bem à vontade.

Ugo Medeiros – Como foi crescer sendo filho de dois grandes nomes do jazz?

Ravi Coltrane – Bem, minha vida foi muito normal. Tive uma infância bem comum. Fazia tudo o que as outras crianças faziam: andava de bicicleta, ia pra escola, etc ... Nunca tive tratamento diferenciado, por isso agradeço imensamente à minha família, principalmente ao meu pai e à minha mãe. Tive uma infância simples, mas muito feliz.

Como foi, de fato, o seu primeiro contato com o jazz?

Foi com a minha mãe. Ela foi a grande responsável. A todo momento colocava música na casa, principalmente as gravações do meu pai. Lá também tinha um estúdio. No colégio, eu comecei a tocar clarinete e posteriormente saxofone soprano.

Você já foi comparado ao seu pai, profissionalmente?

Assim como todo músico de jazz é comparado a John Coltrane (risos). Todo músico se molda em alguém mais velho. Sempre precisamos de um tipo de guia ou influências, mas cada um precisa encontrar o seu caminho, assim como John Coltrane o fez. A minha carreira é a minha carreira; a minha música é a minha música. Nós amamos a música e tantos músicos, mas sempre tentamos ser nós mesmos.

Você fez parte da banda do Elvin Jones, que também tocou com o seu pai durante muito tempo no John Coltrane Quartet. De que forma ele te influenciou enquanto músico?

Ele era um tremendo baterista; um tremendo músico. Ele era uma grande pessoa com um grande coração. Tudo sobre ele era maior. Foi muito importante pra ver o quanto ele era maravilhoso e o quanto amava a música. Ele queria apenas tocar a bateria com amor. Não estava preocupado com o seu legado, sua história, fama ou capacidade de compor. Apenas tocava pelo prazer de tocar. Isso me ensinou bastante.

Como você vê o atual cenário do jazz? Qual músico tem se destacado?

Há grandes nomes, grandes compositores no cenário jazzístico. Eu me interesso por novos músicos que tentam ser agressivos e, ao mesmo tempo, originais, que tenham suas próprias idéias. Não me interesso por músicos que querem tocar o jazz tradicional, como se vivessem em 1950/60. Gosto quando pensam no futuro.

Então você crê em inovações, novas tendências, dentro do jazz?

Acredito que tudo seja possível. Por exemplo, a língua pode mudar ou se misturar com outra. Sempre há espaço para o novo.

O que te fez abrir a sua própria gravadora, a RKN Music?

Bem, o motivo foi simples: eu amo a música (risos)! Adoro gravar música e estar em constante contato com músicos que querem criar. Foi algo que fiz por diversão.

O que você acha dos músicos brasileiros?

Sem dúvida estão entre os melhores músicos do mundo, são excelentes. Gosto muito de Amon Tobin (DJ), Hermeto Pascoal, Tom Jobim, entre outros.


Discoteca Básica Bizz#019: Kraftwerk - Radio-Activity (1975)


(Peter Price / Thomas Pappon / Bia Abramo, Bizz#019, fevereiro de 1987)

Kraftwerk - o primeiro grupo pop moderno. Dizemos moderno para associá-lo à era contemporânea, à era da máquina, da eletrônica e do computador. "Radio-Activity" trata de um dos aspectos mais marcantes da contemporaneidade - as revoluções ocorridas no campo da comunicações.

O LP é de 1975, mas é impressionante como o disco vai ficando cada vez mais atual a cada ano que passa. Ele serve para mostrar a posição única do grupo como o pioneiro da música eletrônica dentro do cenário pop. A eletrônica já estava invadindo a música alemã desde a década de 50, no centro de pesquisas eletrônicas de Darmstadt, fundado por Stockhausen. Foi deste centro de pesquisas que saíram Holger Czukay e Schmidt para fundar o Can. Ao lado do Kraftwerk, o Can foi a outra espinha dorsal do rock alemão da década de setenta, embora os dois grupos propusessem utilizações diferentes da eletrônica.

Os integrantes do Kraftwerk são de Düsseldorf. Começaram no início dos anos 70 como uma dupla, formada por Ralf Hütter e Florian Schneider, ambos de formação clássica. No começo, usavam instrumentos eletrônicos ao lado de equipamentos convencionais. Tornaram-se totalmente eletrônicos por volta de 1973, quando entraram Karl Bartos e Wolfgang Flur na percussão eletrônica. Eles montaram um estúdio próprio, o Kling Klang, que hoje em dia é totalmente computadorizado e portátil.

Kraftwerk - o primeiro grupo pop contemporâneo. O mundo, nos últimos 86 anos, mudou mais rápida e irreversivelmente do que em qualquer outro período da história. A música neste século também sofreu esse processo de mudanças. Os instrumentos acústicos, que nos acompanham durante séculos, evocam associações com uma realidade que era relativamente estável. Neste século, a progressiva substituição do mundo natural pelas criações do homem provocou rupturas na concepção de realidade, que passo a ser vista como construção do homem.

É interessante notar que os integrantes do Kraftwerk se consideram tanto músicos quanto técnicos - capazes, portanto, de inventar e/ou alterar a realidade. A simples eletrificação dos instrumentos, ocorrida neste século, produziu alterações radicais em nosso ambiente sonoro. Mas a ruptura efetiva com o passado só foi ocorrer com o aparecimento do som eletrônico. O Kraftwerk realizou essa ruptura no campo do pop. Sua influência se estendeu para o rock anglo-americano dos anos oitenta - para citar alguns, David Bowie, Ultravox, Afrika Bambaata e New Order.

"Radio-Activity" é o sexto LP do grupo. A faixa-título começa com uma pulsação. Entra um coro celestial. Começa a melodia e declara-se que estamos num mundo transformado. Nos intervalos da música, um código morse. É uma delícia. As melodias e letras são simples e se repetem muito. Vão se insinuando na cabeça e ficam lá. "Radioland", com sua batida que lembra um ritual, liga esse novo mundo às nossas origens.

Cada faixa tem um papel e uma função acabada. "Airwaves" é uma celebração de potencial, de parâmetros alargados. Tem um pique meio de rock, com efeito hilariante. Do lado B, "Antenna" é uma amostra linda da originalidade dos sons produzidos por instrumentos eletrônicos. Sons que derretem, arranham e viram do avesso, mil coisas que não caberiam na música até então. "Radio Stars" é penetrante. Dois anéis de som, fora de sincronia, são revolvidos na mixagem e se repetem infinitamente. Duas vozes os acompanham. Uma é praticamente um zumbido. A outra declama em cima, fortemente distorcida e ligada a um teclado. É uma maravilha de música.

Kraftwerk - o primeiro grupo plenamente do século XX. O primeiro grupo no contexto do pop a tomar consciência do problema do "moderno", da contemporaneidade, e o primeiro a descobrir a solução.

Faixas:
A1. Geiger Counter - 1:04
A2. Radioactivity - 6:44
A3. Radioland - 5:53
A4. Airwaves - 4:53
A5. Intermission - 0:15
A6. News - 1:31

B1. The Voice of Energy - 0:54
B2. Antenna - 3:45
B3. Radio Stars - 3:38
B4. Uranium - 1:24
B5. Transistor - 2:15
B6. Ohm Sweet Ohm - 5:40



19/02/2009

Colírio: Judas Priest - Sad Wings of Destiny (Japanese Paper Sleeve Mini Vinyl LP Replica) (1975)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Discos que nos fazem ficar babando. É isso que essa nova sessão da Collector´s Room, batizada como "Colírio", irá mostrar. Vamos focar em edições especiais que enchem os olhos, geralmente esvaziam os bolsos, e trazem em seus sulcos alguns dos melhores momentos que a música produziu nas últimas décadas.

Pra começar, "Sad Wings of Destiny", o mais do que clássico segundo álbum do Judas Priest, que contém alguns dos maiores clássicos da carreira dos ingleses, como "Tyrant", "Genocide", "The Ripper" e a sensacional "Victim of Changes". Esse disco é obrigatório em qualquer coleção, pois representa um dos ápices do heavy setentista, antecipando em alguns anos os caminhos que a música pesada seguiria durante a década de oitenta.

Essa reedição japonsesa, lançada em 21 de setembro de 2001 com o cat number TECI-24074, é de babar. O disco reproduz nos mínimos detalhes o vinil original inglês, conta com um encarte com a arte em preto e branco - o que dá um ar vintage charmosíssimo ao disco -, isso sem falar na excelência gráfica e sonora que os lançamentos japoneses tradicionalmente possuem.

Delicie-se com as fotos, e, se encontrar um deles por aí, não pense duas vezes antes de comprar.





Discoteca Básica Bizz#018: Iggy Pop - The Idiot (1977)


(José Augusto Lemos, Bizz#018, janeiro de 1987)

Uma escolha insegura. Afinal, os dois LPs com os Stooges são punk puro sete anos antes dos Sex Pistols. "Raw Power" (1972) é uma escarrada anfetaminada na cara do flower power. O semi-pirata "Metallic K.O." (1976) é demência pura. O mundo dos espetáculos não via esse desprezo insolente pelo bem ou pelo mal desde as conferências vociferadas por Antonin Artaud na década de 30. Segundo o Iggy de hoje, 39 anos de idade, talvez não precise mesmo ver de novo. Artaud morreu internado. Iggy foi salvo por David Bowie.

Gravado nos estúdios Hansa (Berlim Ocidental) e do Chateau D´Herouville (Paris), "The Idiot" tem, de fato, uma mão de Bowie além do que gostariam os radicais fãs do iguana. Na famosa "centena básica" do New Musical Express só entrou o posterior, "Lust for Life" (também de 1977). No lançamento, a crítica desceu a lenha, irritada pelo mesmo motivo.

O disco não esconde. "
Música composta por Iggy Pop e sua banda, gravada por David Bowie" são os créditos dados na capa, e as oito faixas são atribuídas à parceria Bowie/Pop (ou Jones/Osterberg).

"Sister Midnight" abre, dando o tom e a paisagem gerais do disco: paredes ondulantes montadas à base de guitarras distorcidas e sobrepostas em vários canais, uma ou outra intervenção eletrônica à moda de Brian Eno - com quem Bowie começava a gravar a
trilogia berlinense. Em "Lodger" (1979), inclusive - o terceiro da série -, "Sister Midnight" aparece com o título "Red Money" e uma nova letra, feita por Bowie.

Na história da "Irmã Meia-Noite", porém, irrompe o segundo delírio edípico da história do rock'n'roll, tão denso quanto o de Jim Morrison. Em suas memórias, "I Need More", Iggy conta a fonte de inspiração. Uma vez, quando quase adolescente, estava começando a se entender com a filha de uma família vizinha, quando seu pai o chamou e o proibiu de chegar perto da garota. "
Chamando irmã meia-noite / sabe, tive um sonho essa noite / mamãe estava na minha cama / e eu fazia amor com ela / meu pai veio me caçar com sua pistola de seis tiros / chamando irmã meia-noite / que é que eu posso fazer com meus sonhos?"

Na sequência, a música que seria a faixa-título de um LP também antológico, de Grace Jones. "Nightclubbing" poderia ser o hino do vampirismo e das madrugadas viradas em festa, mas tem um andamento lento, quase fúnebre. Iggy se esparrama sobre ele como o
crooner que Peter Murphy adoraria ser. "Nightclubbing estamos nightclubbing, andamos como um fantasma / aprendemos novas danças, como a bomba nuclear."

A faixa seguinte, "Funtime" (título do segundo dos Stooges), faz uma ponta no filme "The Hunger" ("Fome de Viver") e não só pelo verso "
a noite passada, estive no laboratório / conversando com Drácula e sua turma". Entre ela e "Nightclubbing", a mesma rede de conexões entre diversão e cinismo, que vai avolumando como uma nuvem cinza-chumbo no primeiro lado do disco para baixar a chuva ácida, que vem do outro.

Antes, porém, mais duas faixas. "Baby" sai do tom de lamento para cantar: "
Baby, você é tão limpa / por favor, continue limpa / baby, você é tão jovem / por favor, continue jovem / baby, não chore / nós já choramos". A última o mundo inteiro conhece na gravação de Bowie, que foi hit em 1983 (segundo consta, só os direitos autorais de "China Girl" tiraram Iggy de uma situação de penúria eterna). Aqui, ela obedece ao tom do LP, simultaneamente mais lúgubre e mais sóbria que a de Bowie.

O lado B tem apenas três faixas. "Tiny Girls" é uma pérola de romantismo e decepção, com um belo solo de sax do anjo da guarda salvador. Está encravada entre "Dum Dum Boys", um olhar nostálgico para os Stooges, e a tecno-esquizóide "Mass Production". Ambas longas e soturnas, e Iggy bufa com o sopro do demo. Mas para se chegar ao oásis de "Tiny Girls" você precisa passar por uma das duas.

Faixas:
A1. Sister Midnight - 4:19
A2. Nightclubbing - 4:14
A3. Funtime - 2:54
A4. Baby - 3:24
A5. China Girl - 5:08

B1. Dum Dum Boys - 7:12
B2. Tiny Girls - 2:59
B3. Mass Production - 8:24


18/02/2009

Campanha "Assine já a poeira Zine!"


Por Ricardo Seelig
Colecionador

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Minha Coleção: Maurício Rigotto


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Collector´s Room - Você me disse que coleciona discos desde os doze anos de idade. Como isso começou?

Maurício Rigotto - Creio que me tornei um colecionador de discos aos doze anos. Eu já tinha alguns LPs e, nessa idade, surgiu um hábito que se tornou uma compulsão: ir diariamente às lojas de discos para ver as capas, ler os encartes e, naturalmente, ouvir os discos nos headphones. A partir dali, todo dinheiro que caía na minha mão era investido em discos. Não lembro precisamente qual foi o primeiro, mas recordo que entre meus primeiros LPs estavam o "Led Zeppelin II"; Pink Floyd ("More", "The Wall" e "A Collection of Great Dance Songs"); Bob Dylan ("At Budokan", "Infidels" e "Greatest Hits"); Santana; Clash ("Combat Rock") e um compacto da Eletric Light Orchestra que eu ouvia muito na época.

Quantos discos você tem?

Imagino que em torno de dois mil LPs, dois mil CDs, duzentas fitas VHS e uns duzentos DVDs, mas nunca parei para contar, não tenho essa curiosidade. Os discos são para ser ouvidos e isso eu faço o tempo todo, não perderia um sábado contabilizando-os, contando-os um por um (... 801, 802, 803 ...). Se quisesse impressionar pela quantidade, seria fácil comprar centenas de LPs baratos em sebos, mas a qualidade deve sempre ser mais importante que a quantidade. Se puder aliar as duas coisas, perfeito.

A divisão de sua coleção entre vinis e CDs é mais ou menos proporcional, mas, mesmo assim, você tem uma preferência clara pelos LPs. Porque isso, Maurício?

Talvez tenha a ver com memória afetiva, pois quando comecei a comprar discos ainda não existia CD. Quando o CD surgiu, foi como se os LPs tivessem sido traídos, vendeu-se uma idéia que o som do CD seria superior, definição digital, eliminação de chiados, e as pessoas acreditaram e acabaram com o vinil. O CD só tem o som melhor que o vinil se comparado aos LPs de fabricação nacional, que sempre deixaram a desejar, mas se comparado ao vinil importado, de 180 gramas, o LP ganha disparado, pois todas as definições, tanto de graves ou agudos, são mais nítidas. Também acho que a arte gráfica perdeu muito, pois capas e encartes belíssimos em LP perderam todo o encanto em suas reproduções minúsculas para o CD. 

Por outro lado, o CD trouxe vantagens incontestáveis, como a praticidade para carregar e não ter que interromper seus afazeres para virar o disco. Outra vantagem é que acabaram as raridades, tudo foi relançado e é relativamente fácil encontrar ou importar títulos que estavam esgotados e fora de catálogo em vinil. Acho que a principal vantagem foi para os compradores de discos compulsivos, que cada vez que chegavam em casa com um novo LP eram recriminados pelos pais, pois, com o CD, é só coloca-lo sob o casaco que ninguém vê. 

De que artistas você possui mais material?

Tenho a coleção completa dos Rolling Stones em vinil, incluindo solos e coletâneas; todos dos Beatles, incluindo os solos de cada integrante; tudo do Led Zeppelin, The Who, Pink Floyd, Raul Seixas, Eric Clapton, Lou Reed, David Bowie, Bob Dylan e Neil Young, incluindo bootlegs e outros lançamentos não oficiais em LP e CD. Talvez Rolling Stones e Bob Dylan sejam os artistas que mais possuo material. 

O seu maior ídolo é Bob Dylan. Queria que você falasse o porque dessa admiração, e qual é, na sua opinião, a importância de Bob Dylan na história da música.

Bob Dylan é o Shakespeare do rock. É o compositor mais influente do século XX, influenciou praticamente todo o planeta e é um dos artistas mais regravados do mundo. Com suas letras de inteligência ímpar e uma lucidez sem precedentes, Bob Dylan deu ao rock o status de arte, tanto quanto um livro de Oscar Wilde ou um quadro de Van Gogh. Considero que o rock teve dois grandes gênios: Bob Dylan e Jimi Hendrix. Infelizmente esse último faleceu precocemente, praticamente um garoto. 

Além dos LPs e CDs, você também possui muitos livros sobre música. Você poderia nos falar um pouco sobre eles?

Além da música (e do cinema), minha outra paixão é a literatura. Desde garoto tenho o bom hábito da leitura, e possuo uma boa biblioteca, com diversas obras que vão dos escritores beatniks como Kerouac e Ginsberg a grandes nomes da literatura mundial, como Dostoiévksi, Hemingway, Huxley, Orwell, Sartre, Nietzsche e outros. Como sou um fã de rock que gosta de saber como as coisas aconteceram, um curioso no que tange às histórias dos bastidores, gosto de ler livros sobre rock e biografias sobre pessoas que admiro. Uma parte da estante de livros é dedicada aos compêndios sobre rock. Recomendo as recentes biografias de Bob Dylan, a ótima autobiografia de Eric Clapton e "Please Kill me" ("Mate-me Por Favor"), um delicioso livro sobre a história do punk. 

Qual o item mais raro da sua coleção?

Não sei, tenho alguns compactos raros, como os originais de "Jumping Jack Flash" e "Flowers" dos Stones, vários compactos dos Beatles, incluindo picture discs e uma edição japonesa que ganhei de presente. Em LPs, "Live at Star Club", "In Hamburg" e "Live at Hollywood Bowl" dos Beatles; o 1° LP dos Animals; um Elvis Presley original de 1957; o "A Nice Pair" do Pink Floyd; e uma caixa com os seis primeiros dos Stones (nunca vi outra igual a minha) são alguns que me ocorrem no momento.

Qual você bateu o olho, deixou pra pegar depois e, quando voltou, já tinham chegado antes?

Isso acontecia com frequência, pois nem sempre a grana era suficiente para comprar o que surgia pela frente. Às vezes optava por um disco e deixava outros para pegar depois, então alguém chegava antes e já era. Tem discos que se você não comprar no momento que encontrar, talvez nunca mais volte a achá-los. Lembro que certa vez, ainda nos anos oitenta, eu estava em um sebo quando chegou um cara vendendo todos do Ten Years After. Deixei para pegar no dia seguinte e quando fui buscá-los alguém já havia comprado. Tenho todos em CD, mas até hoje ainda faltam alguns em LP. 

De onde vem a melhor prensagem de vinil?

Acredito que são os ingleses e os norte-americanos. Também tenho algumas edições holandesas e alemãs que são fenomenais.


Já encontrou algum ídolo pessoalmente? Como foi?

Somente em shows. Sempre tentei adentrar em camarins e conhecer os caras, mas o máximo que consegui foi cumprimentar alguns rapidamente. Tive frente a frente com Bob Dylan em Porto Alegre, vi os Stones de perto em Buenos Aires, conheci Raul Seixas dois meses antes de sua morte, mas conversar mesmo só com o Supergrass, no Campari Rock Festival, onde batemos um bom papo e bebemos algumas cervejas juntos. Assisti shows de Dylan, Clapton (duas vezes), Stones (duas vezes), Robert Plant, Roger Waters, Deep Purple (três vezes), Doors, Aerosmith, Santana, Joe Cocker, Eric Burdon, Jethro Tull. O último foi o do Chuck Berry em junho de 2008, onde me emocionei profundamente vendo o pai do rock and roll na minha frente, tocando guitarra aos 81 anos.

Qual a maior loucura que você já cometeu pela sua coleção?

Nada demais. Na adolescência era muito compulsivo, gastava tudo que ganhava em discos, hoje sou mais comedido, pois tenho outros compromissos e nem sempre sobra grana. Acho que sempre vivi além do que meus proventos me permitiam. A maior loucura? Talvez algumas viagens à Porto Alegre, Curitiba e São Paulo para comprar discos, mas isso aos olhos dos outros, pois para mim loucura teria sido não ter feito essas viagens. Algumas vezes gastei até o dinheiro da passagem de volta em discos, tive que ir para o trevo pedir carona com os LPs embaixo do braço.

O que falta ainda conseguir para a sua coleção?

Muita coisa! Nossa, ainda não tenho quase nada. Isso que é legal em colecionar discos, é infinito, a coleção nunca estará completa, sempre terão itens faltando para tentarmos conseguir, senão perderia a graça.

Já perdeu o sono por não ter comprado algum item? Qual?

Muitas vezes. Lembro de alguns, como "Wheels of Fire" do Cream, "Hot Rats" do Frank Zappa, "Axis, Bold as Love" de Jimi Hendrix, "Pet Sounds" dos Beach Boys e "Music from Big Pink" da The Band. Demorei anos para encontrá-los novamente.

Como é ser um colecionador em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul (no caso, Passo Fundo), longe do principal centro musical do Brasil, que é São Paulo?

Agora nem lojas de discos existem mais aqui, comprar discos somente em viagens. Por outro lado, a internet se tornou o grande recurso de busca pelos álbuns, a gente acha preciosidades a preços acessíveis nesses sites tipo Mercado Livre. Hoje em dia baixo os lançamentos pela internet e o que mais me agradar eu vou atrás para conseguir o original. Quando vou à Porto Alegre sempre visito a Boca do Disco e a Stoned Discos, que inclusive ficam no mesmo quarteirão; e em São Paulo não deixo de visitar a Galeria do Rock, principalmente a Baratos Afins, do Calanca.

Qual foi a melhor loja de discos que você já conheceu?

Acho que é a Baratos Afins, mas nunca esqueço que em 1995 um amigo me levou em um sebo em Curitiba que eu fiquei deslumbrado, passei a tarde lá e o proprietário teve que me mandar embora na hora de fechar. Ouvi dizer que não existe mais.

Onde você compra seus discos?

Ultimamente nem tenho comprado, pois fui atingido pela crise financeira mundial, salvo alguma coisa pela internet e nessas lojas que citei, mas onde surgir um bom negócio estarei lá para conferir.

Maurício, quando eu o conheci você era vendedor de uma loja de discos. Como é para um colecionador ver todos aqueles plays na sua frente? Dá vontade de levar tudo pra casa?

Lógico, era difícil dominar o vício, frequentemente comprometia todo o meu salário e ainda ficava devendo para o mês seguinte, mas foi um período que deixou muita saudade, foi o emprego mais prazeroso que já tive, pena que se ganhava pouco. Imagine só, ser pago para ficar ouvindo discos durante o expediente, seus colegas de trabalho são os seus melhores amigos e todas as novidades chegavam primeiro em nossas mãos, e ainda ganhávamos um bom desconto. Fiz muitas amizades com clientes como você, aficionados por música que frequentemente passavam horas na loja trocando informações, e conservo essas amizades até hoje. Outra vantagem é que dificilmente entravam clientes chatos e mal humorados, como é frequente em outros ramos, pois se o sujeito não está alegre, de bem com a vida, não vai ter humor para ir a uma loja de discos procurar por música.


Nessa mesma loja, você era colega do Beto Bruno, que hoje é conhecido como o vocalista da Cachorro Grande, e do Jerônimo Bocudo, ex-Cachorro e atual Locomotores. Além disso, você é amigo dos dois até os dias atuais. Lembro que ambos, principalmente o Beto, também era um ávido colecionador de discos. O que você pode nos contar a respeito disso?

O Beto é um dos meus melhores amigos desde a infância, muito antes de trabalharmos juntos, temos uma relação que é de irmãos. Sem dúvida, é um dos irmãos que eu não tive, inclusive nos influenciamos muito em nossa formação musical. Uma referência fundamental quando eu era um garoto foi o pai do Beto, que é um ex-hippie que morou em Londres no final dos anos sessenta a trouxe milhares de discos de lá. Foi a primeira vez que eu vi alguém ter em casa a mesma quantidade de discos que eu via nas lojas, e imediatamente eu soube que era isso que eu queria para mim. Eu e o Beto passávamos as tardes ouvindo os discos do pai dele e se não fosse ele, muita coisa eu só iria conhecer com uma década de atraso, pois a maioria daqueles discos importados que ele possuía nós não teríamos acesso de outra forma. 

Tivemos nossa primeira banda juntos, e na época da loja de discos ele e o Jerônimo eram dos Malvados Azuis, morávamos praticamente todos juntos em uma casa onde a banda ensaiava, ou seja, acabava o expediente e continuávamos juntos, ouvindo discos, bebendo, entre outras coisas. 

Continuamos muito amigos, sempre que possível nos visitamos, inclusive passei o Natal e o Ano Novo com a família dele. Sou muito amigo de todos da Cachorro Grande e às vezes viajo com eles quando tem shows aqui pelo sul. O Jerônimo também é um grande amigo, além de ser um dos melhores contrabaixistas que já vi. Hoje ele toca nos Locomotores, juntamente com o Maurício Chaise, outro velho amigo que também tocava nos Malvados Azuis, e o Márcio Petracco, que era do TNT.

Uma das suas principais características, e que inclusive rendeu um texto seu para o Whiplash, é o fato de você curtir muito o rock clássico das décadas de sessenta e setenta, mas não conseguir curtir nada de heavy metal. Porque você acha que isso acontece?

Gosto pessoal, não tem outra explicação. Eu gosto de rock and roll e não de heavy metal. E não é bem assim, depende o ponto de vista. Tenho todos os discos do Deep Purple dos anos setenta, tenho os discos do Black Sabbath da época em que o Ozzy era o vocalista, discos do Uriap Heep. Quando comecei a comprar LPs era isso que chamavam de metal. Acho que o Metallica tem algumas coisas bem interessantes, embora ouça pouco, mas realmente não gosto dessas bandas como Megadeth, Helloween, Sepultura, mas não tenho nada contra, respeito os caras e acredito que são bons no que se propõem a fazer. Se não agradam o meu gosto pessoal, evidentemente não é culpa deles. 

Quanto ao texto que você se referiu, minhas palavras foram extremamente mal interpretadas, apenas expressei meu gosto, não quis com isso ofender, desrespeitar ou depreciar o trabalho ou o gosto de ninguém, mas recebi milhares de e-mails me xingando e pedindo a minha cabeça numa bandeja, até comunidade no Orkut criaram para prolifer o ódio e exigir a minha execução, mas são águas passadas.

Cara, já passei por isso inúmeras vezes também, e sei bem como é, mas não dá pra esquentar a cabeça. Defina a sua relação com a música em poucas palavras.

A música é a trilha sonora da minha existência, é uma arte que pode ser apreciada sem que se tenha de parar de fazer outras coisas. Posso ouvir música no trabalho, no carro, nas caminhadas, no banho, em quase todo lugar, então eu diria que a minha vida tem trilha sonora, e das boas.

O que faz com que nós, colecionadores, sejamos diferentes da grande maioria dos ouvintes de música?

A gente vive isso, não é algo secundário como para as pessoas que simplesmente ouvem música e compram um ou outro disco ocasionalmente. Gostamos de saber os detalhes, ler os encartes e saber que músicos participam de cada gravação, de acompanhar as trajetórias dos artistas, enfim, coisas que não despertam o interesse da maioria das pessoas. Outro diferencial é que somos seres compulsivos.

Na era do MP3, pessoas como nós, que ainda compram discos e se dedicam às suas coleções, são a exceção ou a salvação da indústria?

Acho que somos exceções, pessoas em extinção. Quando morrermos seremos empalhados e colocados em um museu com a inscrição “essa pessoa comprava discos”. Observo que hoje apenas caras como nós, que já passaram dos trinta anos, compram discos. Os mais jovens apenas baixam e trocam arquivos de MP3, o que realmente é muito mais prático e menos oneroso, mas a maioria não conhece as capas, não sabe em que disco tal música foi lançada originalmente, esses detalhes se perdem. 

A indústria fonográfica até merece esse revés que vem sofrendo. Culpam os pirateiros e os baixadores de músicas, mas esquecem que foi a própria indústria que incentivou essa prática com seus preços exorbitantes. Quando lançaram os CDs, as pessoas tiveram que recomprar suas coleções inteiras no novo formato. A indústria acabou com os compactos e colocou o CD custando o dobro do que se pagava pelo vinil, o que era injustificável, já que não precisavam gastar com estúdios de gravação, tudo já estava pronto, era só passar para digital. Foi muito lucrativo em curto prazo, mas agora estão pagando o preço pela ambição desenfreada, creio que estarão extintas em pouco tempo.

Pra fechar: se pudesse perguntar qualquer coisa para Bob Dylan, o que seria?

Agora você me pegou. O que perguntar para Bob Dylan? Nem consigo imaginar o que poderia ser. Poderia ser alguma pergunta filosófica ou existencial sobre a profundidade da letra de determinada canção, ou se ele prefere pizza calabresa ou mussarela ... Ele é avesso a entrevistas e sempre afirmou que tudo o que tinha para dizer está em seus discos. Provavelmente me responderia: “the answer, my friend, is blowin’ in the wind, the answer is blowin’ in the wind.”

Assista abaixo uma entrevista em que Maurício mostra a sua coleção:




Discoteca Básica Bizz#017 - Robert Johnson - King of the Delta Blues Singers (1961)


(Ana Maria Bahiana, Bizz#017, dezembro de 1986)

No quarto de um hotel de segunda, em San Antonio, Texas, o garoto negro, alto, magro e elegante senta-se voltado para a parede, um enorme microfone à sua frente, o violão de aço National-Steel sobre o joelho. Um fio corre pelo chão de madeira até o outro quartinho, onde, concentrados, atentos, maravilhados, dois homens brancos de meia-idade manipulam pesados gravadores de rolo. 

Faz frio, uma fria noite de novembro de 1936. Olhos fechados, o garoto toca - alguém na sala de controle comenta que não é possível: deve haver mais alguém com ele no quarto. Como é que estamos ouvindo acompanhamento e solo ao mesmo tempo? Mais que isso - que tristeza, que tristeza infinita, que doçura angustiada nessas cordas. O garoto canta, uma voz aguda e ligeiramente fanhosa, e a primeira impressão é de transe, trânsito, fuga, como capturar o vento. Depois, abre-se um universo escuro, um poço das mais absolutas paixões - cada blue é curto, curto, dois minutos e pouco, cantado com quem perseguisse ou fosse perseguido. Nem amor, nem desejo, nem desespero: um pouco de cada uma dessas emoções e mais alguma outra coisa, alguma coisa que remonta à mais básica humanidade, fatalidade, destino, morte.

O garoto é Robert Johnson, 25 anos, nascido (presumivelmente) no vilarejo de Hazelhürst, Mississipi. Os homens são o pesquisador John Hammond e o então diretor artístico da gravadora Columbia, Don Law. O que eles estão gravando é a primeira parte do único registro da obra do virtual cristalizador do blues moderno; um ano depois, num "estúdio" improvisado no galpão de um prédio em Dallas, Texas, Hammond e Law fariam uma segunda sessão.

Quando, cinco meses depois, Hammond desceu de Nova York ao Sul em busca de Johnson para um grande concerto de blues programado para o Carnegie Hall, voltou apenas com a notícia: ele morrera em circunstâncias misteriosas, aos 27 anos, possivelmente assassinado por veneno, por alguma amante vingativa ou por algum marido ciumento. Isso é blues, baby.

Os dois LPs obtidos dessas sessões são, até hoje, os mais importantes discos de blues que existem, álbuns de cabeceira de Eric Clapton, Jimmy Page, Jeff Beck, John Mayall, Pete Townshend, Ron Wood, Keith Richards, Mick Jagger, Elvis Costello, Nick Cave. Neles estão blues gravados infinitas vezes por artistas contemporâneos - "Love in Vain", "Crossroads Blues", "Terraplane Blues", "Me and the Devil Blues", "Ramblin´ on My Mind", "Stop Breaking Down". Estão neles, também, dezenas de licks - fraseados solistas da guitarra - e riffs - séries de compassos rítmicos -, copiados nota a nota, milhares de vezes, por dúzias de músicos de blues, de jazz, de heavy metal, de rhythm'n'blues, de rock, de todas as tendências. E está nesses discos, sobretudo, uma das poesias mais intensas e ousadas da história da cultura popular internacional. 

Clichê algum descreve a negra lira de Robert Johnson: não se trata de "lamento de raça", não se trata de "hino da salvação", não se trata de "lirismo popular". Trata-se de um mergulho sem amarras nos mais escuros desvãos da alma humana, lá onde mora o verdadeiro devil, o que comercia com as paixões, propõe negócios irremediáveis e não aceita tréguas. Havia uma lenda, já durante o tempo em que Johnson vivia, de que ele teria feito um "pacto com o diabo" em troca de seu notável talento com a música e sucesso com as mulheres. Vista de outro ângulo, a lenda vive: era com seu mais íntimo diabo, aquele que o mundo branco das leis e das normas trata de suprimir, que ele dialogava em seus blues.

E em seus blues resume-se sua biografia. Robert Johnson nasceu, amou, tocou, morreu. No espaço de 27 anos. Nos dois minutos de um blues.

Faixas:
A1. Cross Road Blues - 2:31
A2. Terraplane Blues - 3:03
A3. Come on in My Kitchen - 2:53
A4. Walkin' Blues - 2:32
A5. Last Fair Deal Gone Down - 2:40
A6. 32-20 Blues - 2:52
A7. Kind Hearted Woman Blues - 2:52
A8. If I Had Possession Over Judgement Day - 2:37

B1. Preachin' Blues (Up Jumped the Devil) - 2:53
B2. When You Got a Good Friend - 2:40
B3. Ramblin' on My Mind - 2:53
B4. Stones in My Passway - 2:30
B5. Traveling Riverside Blues - 2:48
B6. Milkcow's Calf Blues - 2:19
B7. Me and the Devil Blues - 2:36
B8. Hell Hound on My Trail - 2:40




17/02/2009

Herege - Herege (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Why Dontcha

Cotação: ****

O grupo gaúcho Herege, formado na cidade de Cruz Alta, chega ao seu primeiro disco e surpreeende. Surpreende porque o que se ouve em suas dez faixas é um heavy metal executado com brilhantismo, com ótimas composições, muito bem construídas e repletas de inspiração.

O grupo já mostra a que veio na excelente "Last Day of the Fuhrer", que abre o play, após uma pequena introdução chamada "Blitzkrieg", revelando as características de seu som: linhas vocais carismáticas, duetos de guitarra na melhor tradição da
New Wave of British Heavy Metal e uma cozinha bastante agressiva, com alguns elementos de estilos mais extremos, como o thrash metal. Além disso, cai muito bem aos ouvidos escutar a narrativa dos últimos momentos de Adolf Hitler devidamente amparada por uma pesadíssima parede sonora que nos transporta para as trincheiras da 2a Guerra Mundial.

Impressiona como Dennis Lima (vocal), Dalton Castro (guitarra), Rodrigo Dantas (baixo) e Maurício Velasco (bateria), além de ótimos instrumentistas, souberam pegar elementos consagrados e tão ilustrativos do heavy metal, como as introduções acústicas e climáticas, as melodias das guitarras gêmeas, os vocais que se alternam entre falsetes e momentos mais agressivos, a bateria repleta de viradas e inúmeros outros, e os unir em uma sonoridade própria, cativante e repleta de energia. 

"Congress Cellars" empolga qualquer headbanger veterano com suas passagens totalmente oitentistas; "Warfare" tem guitarras pra lá de pesadas, que aproximam o som do grupo do já citado thrash; os riffs incendiários de "Turn Off the TV", além de excelentes, com certeza devem ser um dos momentos altos nos shows do quarteto; a épica "Plastic Flowers", com mais de nove minutos de duração, não fica devendo NADA, NADA MESMO, a nomes consagrados e muito mais badalados da música pesada, e chega a ter ecos de Judas Priest, como se a clássica "Beyond the Realms of Death" tivesse sido gravada por uma banda nascida em meados da década de noventa.

A parte final do álbum ainda entrega três ótimas composições. A cadenciada "Free Yourself" conta com excelentes guitarras, provavelmente as mais pesadas de todo o disco, e linhas vocais criativas, que a colocam em um nível superior. Um baixo repleto de efeitos dá início à "Limit", outra em que o grupo aposta em um andamento mais cadenciado e em generosas doses de peso, resultando em heavy metal que, mesmo calcado firmemente nas raízes do estilo, soa atual e, mais importante do que tudo, extremamente sólido. O disco fecha com "The Letter", uma pedrada onde o grande destaque são os vocais de Dennis Lima.

Gravado em Caxias do Sul, nos estúdios NitroSS com produção de Roger Fingle e da própria banda, "Herege", o disco, mostra que o quarteto gaúcho tem potencial para ir muito, muito além. Seus integrantes possuem grande talento, tem ótimas referências e, acima de tudo, sabem como usá-las para criar um som com identidade própria e extremamente empolgante. O Herege é uma banda competente, que demonstra grande entrega e paixão pela música pesada, características essas que ficam explícitas nessa sua estréia.

O único ponto negativo do trabalho, se é que posso chamar assim, é que ele marca a saída do ótimo vocalista Dennis Lima, que já foi substituído por Alex Finckler. Além disso, a banda conta agora com dois guitarristas, com a adição do argentino Nestor Rodriguez. Espero que esse novo line-up mantenha o excelente nível apresentado nesse debut, que abre os olhos da nação headbanger para o grupo e os credencia, sem dúvida alguma, como uma das grandes promessas do heavy metal nacional.

Boa sorte, vocês estão no caminho certo!

Faixas:
1. Blitzkrieg - 2:03
2. Last Day of the Fuhrer - 5:24
3. Bear Versus Eagle - 3:27
4. Congress Cellars - 6:24
5. Warfare - 5:13
6. Turn Off the TV - 6:26
7. Plastic Flowers - 9:07
8. Free Yourself - 4:10
9. Limit - 4:29
10. The Letter - 5:19

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