27/02/2009

Black Metal: A Descendência dos Traidores


Por Filipi Pompeu
Colecionador

Atualmente, o black metal atravessa uma fase de transição: as velhas e ortodoxas raízes do norte gelado se chocam com os novos ideais e diferenças dentro do estilo que hoje se espalha pelo mundo. Os descendentes diretos da antiga ideologia acusam as inovações e os inovadores de falsos e posers, enquanto novos tipos e estilos brotam da neve, abandonando as antigas temáticas e assumindo um caráter mais genérico, mas sem comprometer as características que configuraram o black metal como ele é. Acho que, como amantes do black metal, nada é mais justo do que tentarmos entender a sua formação e expansão através do mundo. 

Podemos dividir o black metal em duas épocas (é claro, não existe um consenso em relação a isso, mas criei essa divisão pra facilitar o meu estudo): a idade de ouro, com o lançamento do álbum "Black Metal" pelo Venom em 1982, passando pela polarização da cena nos países do norte europeu (isto não é uma regra, observar Sarcófago e Mortuary Drape), pelo surto ideológico e dogmático do Inner Circle, a globalização do metal no fim da década de 80, a formação das Les Legions Noire por volta de 1992-19933 e o fim da própria em 1996-1998.
Em seguida, já no início do novo milênio, a transição se tornou mais clara, modificando conceitos e música como um todo (período de transição – Renovação). 

Podemos notar algumas bandas que atuam com mais referências nesse momento, mas também não será um consenso. É preciso tempo para alguma banda realmente se tornar consagrada no gênero, ainda mais com os antigos ideais que persistem. Todavia, vou citar algumas onde eu notei uma inovação mais aparente: Leviathan, Xasthur, Gris, Anorexia Nervosa, Marblebog, Nokturnal Mortum, Lurker of Chalice, Samael, The Axis of Perdition.

Como isso aconteceu? Como ocorreu a mudança no pensar e na música? Qual o motivo? Pra chegarmos nisso, temos que fazer uma análise do local onde tudo aconteceu com mais ênfase: a terra nórdica.Os países da região do norte da Europa se caracterizam pelo índice de desenvolvimento humano extremamente elevado, por ser uma região próspera, rica, mas também pelo seu altíssimo número de suicídios. É comprovado que uma vida sem desafios reais tende a ser depressiva e triste, porque o indivíduo não vê nenhuma função para sua existência. 

Também é fato relevante de todos nós notarmos certa insatisfação com a vida quando entramos na adolescência, idade em que a maior parte dos músicos começa a tocar seus instrumentos e formar bandas e, é claro, as brancas paisagens desoladas que, por si só, formam um espetáculo natural e misantropo. Em algum momento, esses indivíduos, influenciados principalmente por bandas de death e pelo satanismo convicto do Venom, associaram essas características à realidade onde viviam (ou onde imaginavam viver) e, usando “máscaras de guerra” (creio eu, uma influência do Kiss), criaram as primeiras bandas de black metal.  

Então, temos um estilo musical novo, onde ódio, misantropia, depressão, suicídio, satanismo e anti-cristianismo são temas comuns. Onde a música sofreu influência de outros estilos, como o heavy e o death, mas se consagrou ao criar um gênero totalmente próprio. Porque isso? Porque o que rege o mundo do black metal é primariamente a sua ideologia.


Os vocais são gritados, expressam ódio e desespero. As guitarras são distorcidas, tensas, com escalas que criam atmosferas, por vezes violentas, por vezes tristes. A bateria dando velocidade inumana e brutalidade ao todo que se apresenta. Basicamente, o black metal da antiga geração é isso. Ele foi totalmente construído em volta da sua ideologia, e não do que as massas globalizadas iriam achar; ele foi construído de forma pura, por pessoas que acreditavam naquilo que estavam fazendo, e assim foi mantido por grupos relativamente grandes na época de ouro e espalhados ao redor do globo até hoje. A ideologia surgiu antes da música, e a partir disso a música se construiu por si própria, totalmente sozinha. Os músicos são apenas vetores dessa transformação. 

Há quem diga que uma música tem seu valor por ser música simplesmente. Bom, creio que isso vá de cada um, mas o black metal é completamente diferente nesse lado. Se o black metal não é ideologia, porque toda a carga visual, musical e lírica? Porque o black metal difere tanto dos outros estilos? Dou um exemplo lógico, dentro da nossa realidade nacional: a música “Para Não Dizer Que Não Falei das Flores”, composta por Geraldo Vandré. Todo mundo conhece essa composição: “
Caminhando e cantando e seguindo a canção, somos todos iguais, braços dados ou não”. Ela foi feita com um ideal, o fim da ditadura e das torturas; então ela foi construída em volta de um modo de pensar. O black metal não é diferente. Quem ouve black metal sem nenhum preconceito talvez mereça a energia sonora, mas não merece a ideologia que aquilo tenta passar, e é fácil conviver com isso.Isso sempre me impressionou no black metal: a sua originalidade lírica e musical. 

Entretanto, aqui chegamos a um problema ético. O black metal é o emissor de uma mensagem que, para a nova geração, é vazia, sem sentido. A música em si não é simplesmente um arquivo virtual, ela representa algo. O músico imprimiu uma opinião ou um sentimento naquilo. É importante para ele. Então, isso deveria nos fazer sentir culpados. Talvez não estejamos dando o devido merecimento, porque aquilo não fala de sentimentos com os quais nos identifiquemos, nós só gostamos da batida e pronto. Isso é hipocrisia. O artista gastou tempo da vida dele fazendo isso e nós simplesmente ignoramos essa mensagem, ela virou mais um arquivo no iPod. 


O contraponto pode ser feito em alguns lances: músicas que representem mais de um ideal, mas nos identificamos com um só. Por exemplo: o anti-cristianismo e a natureza. Ou, então, o autor da música pode ter sido tão hipócrita quanto nós, de modo que fez a música como um modo de se galgar fama e dinheiro; logo, ela não representa nada.

Porém, com o avanço da globalização, o black metal não poderia ficar oculto nas sombras da masmorra para sempre. Tudo o que é novo e brilhante (como couro preto com rebites metálicos) atrai a atenção, principalmente se igrejas são queimadas. A popularização do black metal é culpa daqueles mesmos que o criaram. A cegueira dogmática que os guiava os levou a serem vistos pelo mundo; as portas estavam abertas e entraram infiéis. Logo, as bandas começaram a se multiplicar, mas um mínimo delas seguia a doutrina. O black metal se tornou popular, espalhou- se ainda mais pelo mundo, e o pior finalmente aconteceu: ele se tornou uma atividade rentável.

O capitalismo inexorável agarrou o black metal e se fundiu a ele, e o black metal nunca mais foi o mesmo. As bandas sobem ao palco por dinheiro, os festivais só ocorrem quando se sabe que haverá público e as gravadoras só lançam as demos quando tem certeza da relação investimento/lucro. Não podemos culpar os traidores, eles não tinham a mesma mentalidade dos pioneiros, eles viviam em outro mundo e trouxeram o capitalismo com eles na sua mudança. Além do mais, é muito mais fácil comprar instrumentos e alugar estúdios num país de primeiro mundo. No gelado norte europeu, o black metal era auto-sustentável. Mas quando ele se globalizou, a venda do estilo se tornou uma necessidade para as bandas de países menos desenvolvidos.

(A propósito, não podemos culpar nossos irmãos índios por gostar de outras culturas e até mesmo assimilar elas. A globalização destruiu e fortaleceu culturas ao mesmo tempo. Enquanto existem pessoas que se identificam com outras mitologias (sim, estou falando dos blacks), existem as pessoas que erguem e endurecem suas características raciais e locais. No caso do black metal, a associação foi feita porque simplesmente estava relacionada com o black metal. Isso ocorre com força na música e, mais uma vez usando um exemplo nacional, com o futebol. É de praxe ver fotos de pessoas do mundo todo usando camisetas do Brasil quando há jogos da Seleção na Copa do Mundo).


Essa onda de traição aos velhos costumes teve suas origens na popularização do black metal, no início da década de 90 e, excetuando o surgimento das Legiões Negras na França, em 1992-1993, essa evolução só aumenta. Aos poucos, o black metal vai sendo implementado, com novas tentativas musicais, novas influencias líricas. Em algum momento do fim da década de noventa, morria nas florestas do sul da França a última semente pura do black metal. Foi a última tentativa de se fazer black metal na velha forma, e essa tentativa falhou miseravelmente.

Assim, o black metal sofreu uma forte conturbação na década de 1990-2000. Foi o início da era psicodélica do black metal. Drogas e misturas musicais novas explodiram durante esse período, mas o black metal nunca se distanciou muito das suas raízes no todo (é importante salientar isso, o black metal ainda é ideologia). Estranhamente, a interação com o mundo externo foi tamanha que até mesmo se permitiu a formação de bandas de white metal. Usando as mesmas temáticas visuais, defendiam a cruz de Cristo e a cristandade contra o black metal (Antestor, fundada em 1991). Não sei como classificar isso senão de duas formas: ou beatismo sincero dos membros da banda ou necessidade de auto-afirmação dentro de um mundo onde floresciam novas idéias. Não sei, mas é um ótimo exemplo de como o black metal se transfigurou até mesmo numa forma ideologicamente oposta.

Atualmente estamos no meio dessa explosão de estilos, e os radicais antigos atacam aqueles que são filhos da nova geração, reafirmando o que sempre foi afirmado por eles. Eles são muito, muito importantes para nós (me considero da nova geração). Na verdade, só somos completos quando eles vem nos lembrar dos ideais do passado. Não podemos negar que o que ouvimos hoje foi invenção deles, podem parecer irracionais no que falam, mas as bandas que tocam em nossos MP3 tem seus fundamentos nas bandas antigas da cena, que acreditavam no que estavam fazendo. Só porque Fantoft Stave foi queimada e Euronymous assassinado que nós conhecemos o black metal. Eles fazem parte do mesmo grupo que nós, só que pensam no black metal com o purismo de como ele era. Eles pararam no tempo. E a verdade é essa: quem quebra os dogmas do black metal é um descendente dos traidores que entraram com as inovações. O novo black metal, necessariamente, não é black metal. Na forma mais simples de se entender: somos descendentes dos traidores.

Mas o mundo gira, o black metal tende a evoluir mais e mais, conforme o tempo, e devemos nos sentir felizes de poder acompanhar isso, porque não deixamos nosso espírito se curvar sobre o que não faz sentido na nossa realidade. Eu amo black metal, amo as bandas antigas e amo as bandas novas. Não ouço só black metal, mas o black metal é o meu chão. Se isso vai mudar, eu não sei, mas sou isso hoje.

Respeito aos velhos ancestrais do norte! Respeito às novas bandas que surgirão!


Discoteca Básica Bizz#022: Television - Marquee Moon (1977)


(Celso Pucci e Thomas Pappon, Bizz#022, maio de 1987)

Malcolm McLaren sabia que os pais da matéria estavam nos Estados Unidos. Foi lá que ele buscou inspiração para que o movimento punk acontecesse - de forma concentrada - na Inglaterra. O que seria do punk sem o despojamento dos New York Dolls, a demência dos Stooges, o antilirismo do Velvet Underground e a agressividade do MC5? 

E não foram só estas - todas elas, bandas extintas anos antes do punk - as fundamentais. Nova York fervilhava de grupos que acabariam traçando os moldes do que viria depois do punk. Eram as bandas new wave de Nova York e, dessas, a mais importante, ao lado dos Talking Heads e dos Voidoids de Richard Hell, foi o Television.

A história deles começa com o grupo Neon Boys, fundado por Tom Verlaine (guitarra e vocais) e Richard Hell (baixo e vocais) em 1971. Richard Lloyd (guitarra) e Billy Ficca (bateria) completavam o grupo, que alguns anos depois mudaria de nome para Television. Hell saiu por volta de 74, e Fred Smith, ex-baixista do Blondie, foi chamado para substitui-lo. Em 1974, o Television gravou um single e em 1977 eles assinaram com a Elektra para gravar "Marquee Moon", o seu primeiro LP.

Em meio à avalanche punk em que a maioria das bandas fazia um som rápido e primário (Ramones, Dead Boys) ou flertava com o pop (Blondie, Marbles), o Television optava por uma linha musical mais elaborada, com melodias harmoniosas, convivendo com ruídos e faixas longas que, ao vivo, se transformavam em verdadeiras jam sessions.

O som do Television remete à uma gama de referências musicais, que vão de Byrds a Neil Young, de Doors a Velvet Underground. Não que o grupo soasse como uma das bandas citadas. Ela parecia querer ser todas elas ao mesmo tempo, e um pouco mais.

A música de "Marquee Moon" é leve em seus ingredientes e pesada em sua atitude. Os instrumentistas não usam efeitos ou pedais. É rock'n'roll puro, de uma fluidez impressionante. Verlaine e Lloyd formam uma das duplas de guitarristas de rock que mais deram certo. Ambos solam, se alternam em riffs, bases e harmonias. Ambas as guitarras - principalmente a de Verlaine - alcançam sonoridades que às vezes parecem com guinchos, grunhidos e gritos. Ficca e Smith formam uma cozinha "à francesa", leve, com toques jazzísticos, sem abusos.

As letras - todas de Verlaine - sugerem mais do que dizem, como na faixa de abertura "See No Evil" ("Eu entendo tudo / a destruição urge /ela parece tão perfeita /eu vejo /eu não vejo nenhum mal"). As texturas sonoras são molduras perfeitas para as letras, como na faixa seguinte, a balada "Venus", em que Verlaine cai direto nos braços da Vênus de Milo. Em "Friction" o destaque vai para o solo esquizofrênico de Verlaine, assim como na comprida "Marquee Moon" (que, aliás, tem um belíssimo falso gran finale).

O lado B começa com uma jóia, "Elevation" ("
A última palavra /é a palavra perdida /por que você não a diz então?"), onde o junkie Lloyd faz um solo emocionante. "Guiding Light" (única co-parceria de Verlaine no disco - com Lloyd) é mais uma balada que demonstra a sensibilidade harmônica de Verlaine. Em "Prove It", a combinação de base sonora simples com o caleidoscópio de images evocadas por Verlaine é mais uma vez perfeita. Em "Tom Curtain", a última música do disco, outra magnífica combinação: a voz chorosa de Verlaine relembra os anos passados, enquanto sua guitarra estridente rola suas lágrimas mais amargas.

Nem o Television (que acabou em 1979) nem seus integrantes em carreira solo conseguiram fazer um disco à altura de "Marquee Moon" (que na edição nacional saiu com um ridículo carimbo de "punk rock" na capa). É este o disco que prova que eles eram, instrumentalmente, uma das bandas mais integradas da década de setenta, e não há músico ou não-músico - de qualquer gênero - que, ao ouvir o disco, não se convença disto.

Faixas:
A1. See No Evil - 3:53
A2. Venus - 3:51
A3. Friction - 4:44
A4. Marquee Moon - 10:40

B1. Elevation - 5:07
B2. Guiding Light - 5:35
B3. Prove It - 5:02
B4. Torn Curtain - 6:56


26/02/2009

Como comprar: Jazz para Iniciantes


Por Ricardo Seelig
Colecionador

O objetivo dessa lista não é elencar os melhores e mais importantes discos da história do jazz. O que ela se propõe é apenas mostrar dez álbuns que servem de porta de entrada para esse maravilhoso e apaixonante gênero musical. Assim, o requisito básico para figurar nessa dezena de trabalhos foi a acessibilidade, muito mais que a influência e a importância história.

Há, claro, clássicos fundamentais, como "Kind of Blue", "Time Out" e "A Love Supreme", mas também estão ausentes gravações mais do clássicas, como "The Black Saint and the Sinner Lady", "In a Silent Way" e "My Favorite Things". 

E, claro, artistas ficaram de fora, como os sensacionais Duke Ellington, Horace Silver, Sonny Rollins, Louis Armstrong e inúmeros outros, afinal seria impossível listar todos que contrubuíram para o desenvolvimento de um gênero tão rico como o jazz em apenas dez discos.

Enfim, esses são os álbuns que, na minha opinão, formam uma excelente porta de entrada para o jazz, apresentando o estilo com primazia a novos ouvintes, cativando-os e fazendo-os ir atrás dos discos e dos artistas que, como citei, ficaram de fora. Além disso, após ouvir esses trabalhos tenho certeza que a sua maneira de ouvir música sofrerá uma transformação, e pode ter certeza que será para melhor.

Delicie-se, que a satisfação é garantida!

Cannonball Adderley - Somethin' Else (1958) *****

Um dos grandes álbuns da história do jazz, "Somethin´ Else" une um time de músicos primoroso a um repertório irretocável. Ao lado de Julian "Cannonball" Adderley estão Miles Davis, o pianista Hank Jones, o baixista Sam Jones e o baterista Art Blakey. 

Está no álbum a minha versão preferida de "Autumn Leaves", com mais de onze minutos de melodias e harmonias deslizantes, construindo uma experiência singular. Somada à ela, temos ainda "Live for Sale", outro standard do jazz, executada com precisão cirúrgica pelo quinteto. A faixa que dá nome ao play é um exercício de groove estonteante, com o sax de Cannonball e o trompete de Miles em primeiro plano. A malícia deliciosa de "One for Daddy-O" é reconfortante , enquanto "Dancing in the Dark" acaricia nossos ouvidos. 

Enfim, um disco obrigatório em qualquer coleção que se preze. 

Dave Brubeck Quartet - Time Out (1959) *****

Além de ser um dos álbuns mais populares da história do jazz, "Time Out" é também um trabalho fundamental. Gravado ao lado dos excepcionais Paul Desmond e Joe Morello, o quarteto era completado pelo seguro Eugene Wright no baixo.

O disco tem sete faixas, sendo que duas delas são clássicos fundamentais do estilo. "Blue Rondo A La Turk" contém um arranjo matemático, com Brubeck desenvolvendo variações dentro do arranjo. O estilo de Dave, que toca o seu piano de uma forma quase percussiva, funciona como o coração da canção, criando uma base sólida para os demais integrantes alçarem vôos sem limites. 

Paul Desmond, instrumentista brilhante e criativo, é, ao lado de Brubeck, o personagem principal de "Time Out". A liberdade e a sensibilidade que saem de cada nota de seu sax são tão grandes que, mesmo ouvindo o álbum inúmeras vezes, a cada nova audição somos surpreendidos por sensações inéditas. O brilho de Desmond fica escancarado em "Take Five", composição sua e uma das mais conhecidas do jazz. Brilhante e única, "Take Five" por si só justificaria a inclusão de "Time Out" entre os grandes álbuns do século XX. 

O piano de Dave Brubeck, preciso e repleto de malícia e feeling em diversos momentos do álbum, conduz "Time Out" ao posto de álbum fundamental da história da música. Além disso, o disco tem a rara qualidade de ser um trabalho que cativa e agrada até o ouvinte não habituado ao estilo, e, por essa razão, é indicado por muitos como porta de entrada para o jazz.

Miles Davis - Kind of Blue (1959) *****

O clássicos dos clássicos. "Kind of Blue" é, provavelmente, o mais conhecido, importante e influente álbum de jazz de toda a história. Aqui o gênero encontrou a sua melhor tradução e interpretação. 

Construído totalmente a partir do improviso, traz Miles Davis ao lado dos saxofonistas John Coltrane e Cannonball Adderley, dos pianistas Bill Evans e Wynton Kelly, e da cozinha formada pelo baixista Paul Chambers e pela bateria de James Cobb.

Esse disco marca também o nascimento do cool, uma resposta de Miles à velocidade que havia invadido os álbuns de jazz, com os músicos extravasando a sua técnica através de dezenas de notas por compasso. Aqui, o clima é calmo, relaxante, divino, transcedental.

"Kind of Blue" é um álbum milagroso, um exercício de criatividade, o documento definitivo da genialidade de um músico sem igual.

Charles Mingus - Blues & Roots (1960) ****

"Blues & Roots" é um dos meus álbuns prediletos de jazz. Nele não há, por exemplo, a sutileza das construções melódicas e harmônicas de Dave Brubeck, nem as inovações e improvisações de Miles Davis. Charles Mingus era um artista mais visceral, feroz, sanguíneo, e sua música era uma extensão disso.

Como o próprio título anuncia, "Blues & Roots" traz o contrabaixista olhando para o passado em busca de suas raízes. As seis faixas do álbum trazem o som característico de Mingus, repleto de agressividade e paixão, carregado de influências do blues, gênero musical que, para muitos, é quase um irmão do jazz.

O disco abre com o baixo de Mingus criando o groove para os demais instrumentos entrarem e quebrarem tudo em "Wednesday Night Prayer Meeting". Já de saída fica escancarada outra característica marcante da música de Mingus, que são os seus gritos de empolgação, ao fundo dos instrumentos, satisfeito com o desenvolvimento da canção.

"Cryin´ Blues" acalma os ânimos e traz um belo solo de Mingus, enquanto a maravilhosa "Moanin´" tem início com um groove saído dos trombones de Willie Dennis e Jimmie Knepper e se transforma em uma contagiante e deliciosa jam. Já "Tensions" é outro momento mais relax, antecipando "My Jelly Roll Soul", faixa em que Charles Mingus homenageia o lendário Jelly Roll Morton, uma das primeiras lendas do jazz, seguindo o seu estilo de composição em toda a música. O álbum fecha com "E´s Flat Ah´s Flat Too", na linha de "Wednesday Night Prayer Meeting", agressiva e com demonstrações explícitas de todo o talento dos músicos envolvidos.

"Blues & Roots", por suas particularidades, é um álbum recomendado a qualquer iniciante no gênero, pois apresenta as características básicas do jazz somadas à influência do blues, tudo isso embalado pelo estilo visceral de Charles Mingus, o que o transforma em um trabalho pesado e empolgante.

Chet Baker - Chet Is Back! (1962) ****1/2

A conceituada revista Q colocou esse álbum entre os três mais importantes da história do jazz, ao lado de "Kind of Blue" e "A Love Supreme". Basta uma única audição para entender porque. Recém liberado da prisão na Itália, onde foi detido e cumpriu pena por uma das várias vezes em que foi pego com heroína, Chet Baker retornou de forma triunfal com um trabalho que o recolocou, de imediato, entre os principais nomes do estilo, apesar do período em que esteve ausente, mofando em uma cela na velha bota.

Todos os músicos que acompanham Chet são italianos, o que dá ao trabalho um clima mais europeu que os outros plays de Chet. Entre as faixas, destaques para "These Foolish Things", "Over the Rainbow" e para a sensacional "Ballata in Forma di Blues", que, como o título entrega, foi construída sobre uma estrutura de blues, que faz a cama para performances sensacionais de todos músicos envolvidos.

John Coltrane - A Love Supreme (1965) *****

"A Love Supreme" é uma oração musical. Recém saído de uma batalha infernal contra o vício em heroína, que o estava devastando física e emocionalmente, John Coltrane entrou em estúdio disposto a provar que ainda era capaz de fazer música do mais altíssimo nível. E como ele provou ...

Ao lado de McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, três dos maiores nomes da história do jazz, Coltrane ressurgiu das trevas com um álbum que é a sua redenção. As notas que saem de seu instrumento soam doloridas, fortes e cheias de sentimentos. Apesar de conter quatro faixas, "A Love Supreme" é na verdade uma grande suíte, e deve ser ouvido como tal. Seus trinta e poucos minutos contém alguns dos ápices musicais do século XX. 

Ter esse disco é um ato básico para qualquer pessoa que diz gostar de música.

Thelonious Monk - Underground (1968) ****1/2

A capa, com Thelonious Monk posando com um legítimo e ameaçador representante da resistência francesa às forças nazistas, impressiona e mostra o lado provocador desse genial pianista, faceta que o acompanhou em toda a sua carreira.

Musicalmente, o que chama atenção é a atmosfera mais solta imposta por Monk, que toca seu piano de maneira menos angulosa, floreando as teclas de modo mais delicado que o usual. Os demais instrumentistas seguem a mesma linha de raciocínio de seu líder, e não protagonizam a posição deixada em aberto. O resultado é uma audição bem mais acessível, sem a tensão normalmente imposta pelas famosas marteladas no teclado. Os raros vocais empregados nas composições de Monk - aqui entoados por Jon Hendricks - garantem um item de exclusividade a mais a ser verificado.

Há, portanto, algo além da capa a se atentar neste intrigante título, e é o que de mais belo existe nesse mundo: música divina, que toca a alma e alimenta o coração.

Miles Davis - Bitches Brew (1970) *****

Nesse álbum - um dos mais influentes, geniais e polêmicos da história da música - a densidade absoluta é quase sinfônica. 

Tudo em "Bitches Brew" é improvisação, livre, dinâmica a total. Há influências de jazz modal, free jazz, cool jazz, música indiana, árabe e africana, funk, psicodelismo, rock e blues. Um caldeirão efervecente e borbulhando criatividade infinitamente, que fez nascer um novo estilo, uma nova forma de música. "Bitches Brew" é o marco zero do fusion, o álbum que definiu o gênero e o apresentou ao mundo.

O álbum original, lançado em abril de 1970, vendeu 500 mil cópias em um ano, entrou no top#10 americano - feito raríssimo para um disco de jazz - e levou o nome de Miles muito além dos limites do estilo, transformando-o em um mito.

Para quem consome música, seja qual for o gênero, "Bitches Brew" é uma audição obrigatória, básica e fundamental para perceber que não há limites para a criatividade, e também para romper algumas barreiras que a gente coloca, mesmo que inconscientemente, na nossa cabeça. 

Mahavishnu Orchestra - The Inner Mounting Flame (1971) ****1/2

"The Inner Mouting Flame" é o primeiro disco da Mahavishnu Orchestra, grupo liderado pelo espetacular guitarrista inglês John McLaughlin.  Lançado em agosto de 1971,  foi automaticamente considerado pela crítica como um clássico. Motivos para isso não faltam. Suas oito faixas mostram uma imensa, inspiradíssima e definitiva simbiose entre rock, música clássica, jazz, blues e até mesmo elementos de música celta. 

Totalmente instrumental, o álbum tem como elemento principal a guitarra de braço duplo de John McLaughlin, que é o instrumento central de todas as composições. A partir de seus acordes os arranjos evoluem, caminhando por um mundo próprio onde não há diferenças e nem limites entre os gêneros musicais.

Pra lá de técnicos e extremamente virtuosos, todos os cinco músicos, principalmente McLaughlin, Billy Cobham e Jan Hammer, despejam notas rapidíssimas, mas que fazem total sentido nas composições. Há momentos sublimes, principalmente a abertura com "Meeting of the Spirits", as camadas de melodia de "Dawn", a sensacional "The Dance of Maya" e seu contraponto, a calma "You Know You Know".

"Inner Mounting Flame" é um dos discos mais incríveis que eu tive o privilégio de ouvir em quase vinte e cinco anos como consumidor e colecionador de música.

Herbie Hancock - Head Hunters (1973) ****1/2

Lançado em 13 de outubro de 1973, "Head Hunters" é um dos álbuns mais vendidos da história do jazz, ao lado de clássicos como "Time Out" e "Kind of Blue" de Miles Davis, ambos de 1959. São apenas quatro faixas, mas que valem muito.

O groove contagiante de "Chameleon" abre o disco de forma sensacional. São quase dezesseis minutos hipnóticos, com camadas sonoras se sobrepondo umas às outras, construindo uma faixa que, já em seus primeiros momentos, antecipa a maravilha que Herbie Hancock e sua gangue cometeram.

O início doce de "Watermelon Man" mantém o nível nas alturas, introduzindo um funkaço de rachar o chão. O entrosamento do quinteto é absurdo, com cada músico entregando algumas das melhores performances de suas carreiras.

"Sly" e "Vein Melter" completam a bolacha com mais ritmos animais, harmonias que fogem do comum e arranjos complexos que conseguem a proeza de soar simples aos ouvidos. Herbie usa toda a sua técnica espetacular para compor um trabalho que pega as raízes da música negra, pesca esses elementos das ruas, mantendo toda a autenticidade e a força do funk, mas acrescentando um requinte que poucas vezes esse gênero alcançou em sua história.

Maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!!! 

E tenho dito.


Discoteca Básica Bizz#021: Pink Floyd - The Dark Side of the Moon (1973)


(Jean-Yves de Neufville, Bizz#021, abril de 1987)

Polêmico, este disco. Gravita entre a absoluta adoração de sues fiéis e a crítica não menos feroz dos seus detratores. É bom sinal. Será mesmo a grande obra de Roger Waters (baixo, vocal), Rick Wright (teclados), David Gilmour (guitarra, vocal) e Nick Mason (bateria)? 

Alguns poderão preferir "The Piper at the Gates of Dawn", de 1967, o primeiro LP da banda, quando seu líder era um louco iluminado e genial chamado Syd Barrett, ou ainda "Ummagumma", de 1970, a soma definitiva do rock psicodélico. Quem sabe os mais de 20 milhões de cópias de "Dark Side of the Moon" vendidas no mundo inteiro e sua permanência por 630 semanas consecutivas nas listas dos mais vendidos da Billboard - recorde absoluto - possam ratificar essa escolha. Mesmo que as más línguas digam que muitos o adquiriram apenas para testar a estéreo-quadrifonia de seu equipamento de som, o que não deixa de ser um elogio, de certa forma.

Foram oito meses de gestação nos famosos estúdios Abbey Road de Londres, em clima geral de renovação. A palavra de ordem: a música deveria ser mais amarrada, mais próxima à urgência do rock. No final de 1972, o material estava pronto. Para fazer a mixagem, Roger Waters chama Chris Thomas, que já havia participado da mixagem do duplo álbum branco dos Beatles e produzido os LPs "Grand Hotel", do Procol Harum, e "For Your Pleasure", do Roxy Music. 

"Cada um tinha uma idéia diferente do que devia ser feito. Precisávamos fazer a síntese de tudo isso." Todos concordavam com pelo menos uma coisa - a ordem dos títulos deveria transmitir uma idéia de progressão e variação em torno de um mesmo tema: "São todas as pressões da vida moderna que podem nos levar à loucura. Essas pressões tem por nome dinheiro, viagens, planejamento, que nós músicos sentimos muito mais que o homem da rua. Quando tudo vacila, chega-se ao estado patológico do lunático" (David Gilmour). Pela primeira vez o Pink Floyd aderia ao álbum conceitual.

Todas as faixas foram concebidas como filmes sonoros, feitos de bandas magnéticas preparadas por Nick Mason. Batidas de coração, respiração, passos, relógios, risos histéricos, gritos, moedas caindo e caixas registradoras não somente servem de ilustração como se integram à própria estrutura rítmica da cada composição, em particular na seqüência "Speak With Me" / "Breathe" / "On The Run", e em "Money", hit entre os hits. Se a força da evocação desses sons é extraordinária, eles não interferem com os momentos mais líricos do álbum, como em "The Great Gig in the Sky", onde, sobre o fundo de piano e órgão Hammond, Clare Torry edifica uma interpretação vocal que figura entre as mais pungentes e líricas da década. Em "Brain Damage", Roger Waters tece uma vibrante homenagem a Syd Barrett, numa reconstituição poética atormentada do universo da alienação.

Se "Dark Side of the Moon" parece trazer uma certa pasteurização do som do grupo, se os caleidoscópios de cores que dominavam as longas viagens lisérgicas dos LPs precedentes se transformaram num prisma de onde as cores surgem ordenadas e limpas (uma metáfora certeira para descrever a nova importância do estúdio, agora transformado em espaço central de criação, o que torna a música mais artificial e deixa seus autores mais distantes), em compensação, os avanços técnicos primorosos exibidos por este álbum - em particular a tomada de som, a cargo de um certo Alan Parsons - ajudaram a banda a alcançar uma força de expressão cósmica capaz de unir o passado à modernidade, que só encontra paralelo num disco lançado por coincidência no mesmo ano, a trilha sonora de "Laranja Mecânica".

Levantando as barreiras que opunham até então as gerações musicais, o Pink Floyd jogou as bases para a criação de uma música ao mesmo tempo moderna e universal.

Faixas:
A1. Speak to Me - 1:30
A2. Breathe - 2:43
A3. On the Run - 3:30
A4. Time - 6:53
A5. The Great Gig in the Sky - 4:15

B1. Money - 6:30
B2. Us and Them - 7:34
B3. Any Colour You Like - 3:24
B4. Brain Damage - 3:50
B5. Eclipse - 1:45


Prêmio Selo Dardos de Reconhecimento


Fomos indicados ao Prêmio Selo Dardos de Reconhecimento, um dos mais importantes prêmios destinados aos blogs da internet brasileira.

Ficamos muito honrados com esse reconhecimento, o que mostra que todo o trabalho que produzimos nesses cinco meses do blog está no caminho certo.

As regras do prêmio:

1. Colocar a imagem do selo no blog

2. Linkar o blog que nos indicou

3. Indicar mais 15 blogs ao prêmio

4. Comentar no blog dos indicados sobre essa postagem

Nossos indicados são:
















25/02/2009

Castiga! - O progressivo italiano do Semiramis


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador
Sinister Salad Musikal

Banda obscura e pouco conhecida do progressivo italiano, o Semiramis lançou um só disco em 1973, para desgraça dos bolhas de plantão e aficionados pelos bons sons. Falo desgraça porque parece não haver mesmo qualquer outro registro do grupo (se alguém souber de outro, me avisa) e os fãs têm que se contentar com as sete faixas do disco "Dedicato a Frazz", material belíssimo e de qualidade excepcional!

Músicos jovens e de raro talento, como Michelle Zarrillo, guitarrista e vocalista que, apesar de seus dezesseis anos à época, possuía uma maturidade técnica impressionante para sua idade, impondo riffs calibrados e solos na medida certa. Seu irmão Maurizio Zarrillo é outro que detona, criando seqüências rítmicas cabulosas no piano e sintetizador. Completam o line-up Paolo Faenza (bateria, percussão e vibrafone), Marcello Reddavide (baixo) e Giampiero Artegiani (violões clássico e de 12 cordas e sintetizador), todos moleques na faixa dos 17/18 anos, todos mandando muito bem.

O que se ouve é o equilíbrio entre o peso e a leveza, arranjos dissolvidos em esquartejantes quebras de andamento, encaixes precisos de teclados e violões nas linhas harmônicas e intervenções maneiras de vibrafone nas melodias. Destaques para as faixas “La Bottega del Rrigattiere”, “Luna Park”, “Dietro Una Porta di Carta” e “Frazz”, com passagens rítmicas de tirar o fôlego. Uma dica é escutar várias vezes para se acostumar com a sonoridade e complexidade musicais inerentes à obra.

Destaque também para a arte gráfica de Gordon Faggetter, presente na capa e capa interna, ilustrando personagens sugeridos nas letras. Se não bastasse ser discoteca básica, tenho que confessar que sou um bolha de sorte: achei o vinil verde … Beleza sinfônica, tão imponente quanto o hino do Palestra Itália …
tutti buena gente!

Faixas:
1. La bottega del rigattiere - 6:03
2. Luna Park - 4:31
3. Uno zoo di vetro - 5:59
4. Per una strada affoliata - 5:03
5. Dietro una porta di carta - 5:44
6. Frazz - 5:11
7. Clown - 4:34


Hardão 70: o lendário power trio sueco November


Por Marcos A. M. Cruz
Colecionador

Era desnecessário observar atentamente aquele casal para perceber sua condição de gringos, pois uma das características que diferenciam os cariocas (tanto os da gema quanto os imigrantes) é sua tolerância ao calor, que faz com que as pessoas não acostumadas transpirem abundantemente, ao mesmo tempo em que deixam sua pele com uma coloração rosadamente desconfortável.

Não posso falar muito, pois apesar de nascido no Rio, como estou fora há muitos anos já desacostumei com o calor esturricante que naquele dia acometia a Cidade Maravilhosa, algo que, embora não seja muito agradável, paradoxalmente se trata de um dos maiores atrativos para os turistas, que tem no clima um dos aliados aos encantos naturais que sobrepujam por lá (com certeza só perde para o nordeste nestes quesitos).

De fato, torcia para chegar minha vez de adentrar o caixa do banco 24 horas por causa do ar condicionado, quando o casal se aproximou e disse algo que soou mais ou menos assim aos meus ouvidos: "Xursstiluwjhgusejklohyttouzziqzolâbyudfissikqsp". 

Achando que os ruídos urbanos fossem responsáveis por aquela profusão de sons incompreensíveis, ou mesmo que minha audição estivesse desgringolando perante os gringos, disse-lhes "Como?", e obtive como retorno "Pqiy om värld tçhv längt krqkj gmndopw"."

Putz, tô ficando surdo!" pensei, mas imediatamente me desfiz da idéia, pois estava ouvindo tudo perfeitamente, só não compreendia patavinas, o que me fez concluir que sequer inglês estavam falando, senão com certeza teria entendido alguma coisa. De qualquer forma, apelei para a língua do Tio Sam em versão macarrônica, no sentido de estabelecer uma comunicação com eles, ambos na faixa dos 25-30 anos, aparentando se tratar de origem européia, que continuavam com a verborragia incessante, tanto comigo quanto entre si, o que me chamou atenção para o fato de estarem um tanto quanto descontrolados.

Foi quando, no meio da profusão de palavras ininteligíveis que diziam, apareceu uma frase que serviu como chave para elucidação do mistério: "Jag kup yghm en ny tid är här vatten asthamahgurchk". Perguntei: "Are you swedish?" e obtive resposta positiva, num inglês cheio de sotaque e típico de aeroporto, mas que tornou as coisas mais fáceis, ao mesmo tempo em que os acalmou o suficiente para que conseguíssemos estabelecer uma certa conversação. Resumo da ópera: se tratava realmente de um casal de suecos que estava passando uns dias no Brasil, e havia se perdido do intérprete, mas daí em diante bastou chamar um táxi e encaminhá-los de volta ao hotel, que a muito custo consegui compreender qual se tratava, para dar o caso como encerrado, e ir embora com a sensação de ter feito minha boa ação do dia.


Tudo isso para falar do grupo sueco November. Posso estar enganado, mas o conjunto se trata de uma espécie de banda meio underground, pois praticamente não há nenhuma informação disponível sobre eles na internet, tampouco textos mais consistentes em enciclopédias. Boa parte das parcas informações aqui constantes foram extraídas de encartes de CDs, usados também como fonte para alguns poucos websites em inglês, que por sinal se limitam somente a transcrever o texto palavra por palavra!

Mesmo apelando para um sueco residente nos Estados Unidos, que foi quem me arrumou um exemplar do terceiro disco de estúdio deles, não consegui descobrir o paradeiro atual dos seus integrantes; e me valendo dos Googles da vida, descobri que curiosamente existe na Suécia um certo Richard Rolf, que se trata de um luthier conceituadíssimo por aquelas plagas, mas não posso afirmar que se trata da mesma pessoa ou de um homônimo.

A história do November começa a ser delineada em 1968 num clube nos subúrbios de Estocolmo, a partir de uma banda chamada The Imps, formada por Christer Ståhlbrandt (vocal e baixo) e Björn Inge (bateria), que dura apenas alguns meses, pois no início daquele ano Christer decide sair e montar outro grupo chamado Train, que contava inicialmente com Teo Salsberg na bateria e o inglês Snowy White (futuro Thin Lizzy) na guitarra. Entretanto, ainda em 1968 Teo decide sair, e Christer convida o ex-colega de banda Björn para ocupar seu lugar. Nesta época eles ainda mesclavam faixas cantadas em inglês e em sueco, até que no ano seguinte, White retorna para a Inglaterra, e em seu lugar ingressa o guitarrista Richard Rolf.

Com isto, a banda, que agora só contava com integrantes suecos, decide cantar somente em sua língua natal, ao mesmo tempo em que decide mudar de nome. Como sua reestreia se daria no dia 1º de novembro de 1969, ao abrir um show do Fleetwood Mac na cidade de Gotemburgo, acabam por adotar o nome November.


Retornando a Estocolmo, são convidados a gravar algumas faixas ao vivo no estúdio de uma rádio, que são transmitidas e retransmitidas país afora, e fazem bastante sucesso local. Com isto, acabam voltando ao tal estúdio e registrando dez músicas que sairíam no seu álbum de estréia, intitulado "En Ny Tid Är Här..." 

Uma pena que exista a barreira natural da língua, pois se cantado em inglês, este seria com certeza um dos grandes clássicos dos anos setenta, pois mescla de forma magistral sons pesados com passagens acústicas e suaves, entremeadas de uma flauta pontuando alguns acordes e servindo de introdução a canções melódicas e ao mesmo tempo hards, cortesia de um músico chamado Jan Kling, um dos vários amigos que acompanhavam a banda em suas turnês. Considero uma das faixas em especial - "En Annan Vårld" - uma verdadeira obra prima. Se alguém quer saber o que acho que é o tal de "hardão setentista", basta ouví-la e tirar suas conclusões.

É lançado também nesta época um single, com "Mount Everest" e "Cinderella", esta última não editada no disco e inédita em formato digital até os dias de hoje.


Após algumas turnês pela Suécia, o grupo entra em estúdio e registra seu segundo álbum, "2:a November", que sairía em meados de 1971 ainda trazendo a mesma sonoridade do anterior, embora sem tantas composições inspiradas. 

Pouco antes havia sido editado um single com "Mount Everest" e "Nobodys Hands To Hold", ambas cantadas em inglês, com objetivo de tentar atingir o mercado fora da Suécia (tanto que ele saiu também no Japão e na França). Este é outro material até hoje inédito em formato digital.

Logo após ter sido lançado o segundo disco de estúdio, o grupo parte para uma turnê bem-sucedida pela Europa, onde tocam ao lado de vários artistas famosos em países como Inglaterra. Ainda no final do ano, são lançados mais dois singles: um trazendo faixas do segundo álbum, e o outro com versões de estúdio de "Tillbaks Till Stockholm" e "Sista Resan", até hoje não disponíveis em edição digital.


No ano seguinte é a vez de mais um trabalho, "6:e November", que trata-se de um disco mais elaborado que os anteriores, mas a banda decide encerrar atividades após uma apresentação de despedida ocorrida num clube em Estocolmo, na noite de ano novo de 1973.

Richard, que se mudaria para a Noruega, acaba por formar naquele país uma banda chamada Nature, e anos depois parte para carreira solo. Björn monta em 1974 o Energy, que deixa alguns trabalhos gravados, e encerra atividades nos anos oitenta. Christer se junta a outros músicos recrutados em Estocolmo e grava também em 1974 o único auto-intitulado álbum do Saga, que segue praticamente a mesma linha do último disco de estúdio do November, e foi relançado em CD pela gravadora Green Tree.


1993 ficaria marcado como o ano em que houve um espécie de renascimento do November, pois além de seu primeiro trabalho ter sido reeditado em CD, houve também o lançamento do "November Live" (editado também em formato LP num belíssimo picture disc), que compila apresentações ao vivo entre 1970 e 1971, e resultaria numa reunião do trio original num clube de Estocolmo, num evento que teria sido filmado, mas até hoje não foi lançado comercialmente.

Por sinal, se alguém souber onde arrumar uma cópia deste vídeo, por favor entre em contato, pois cada vez que ouço o November me sinto como se estivesse "
en annan värld" (em outro mundo)...