20/03/2009

Música Pesada para Tempos Duros


Por Sérgio Martins
Jornalista
Texto publicado originalmente no site da Revista Veja

Com turnês lucrativas e discos nas paradas, as bandas de heavy metal compõem a trilha sonora da crise econômica. E não será a primeira vez que isso acontece.


Vocalista do sexteto inglês Iron Maiden – que desembarca nesta semana no Brasil para apresentações em várias capitais –, Bruce Dickinson encontrou uma definição hiperbólica para seu gênero musical. "O heavy metal é a ópera da classe operária", disse ele em entrevista a VEJA. Nem todo fã do rock pesado será um proletário. Mas esse é, sim, um público predominantemente masculino e de classe média baixa, sempre duramente atingido pelas crises econômicas. Com suas guitarras e sua gritaria, o heavy metal é o meio perfeito para essa turma ventilar frustrações. O gênero parece florescer com mais vigor em tempos difíceis. A nova onda do heavy metal britânico, na qual despontaram Def Leppard e Iron Maiden, surgiu no caos econômico-sindical da Inglaterra do fim dos anos setenta – que eclodiu com mais estrondo ainda no punk. E o auge do chamado "hair metal" – o hard rock xaroposo de bandas como Mötley Crüe – coincide mais ou menos com uma grande queda da bolsa americana, em 1987. A crise mundial detonada pela implosão do crédito americano pode estar impulsionando um revival metaleiro.

O show que o Iron Maiden traz agora para o Brasil esteve entre as cinquenta turnês recentes mais lucrativas dos Estados Unidos – nas quais se incluem outras bandas pesadas, como Kiss e Bon Jovi. Comercializado apenas na rede popular Wal-Mart,
Black Ice, da banda australiana AC/DC, tornou-se um dos CDs mais vendidos no mercado americano em 2008 – e o segundo do mundo. O Metallica também vem frequentando as paradas com Death Magnetic. Haverá outras razões para o renascimento metaleiro – como o jogo Guitar Hero, que popularizou o rock pesado entre as novas gerações –, mas a crise talvez seja o fator determinante.


Quase toda a crise econômica do século XX teve sua trilha musical. O suingue das
big bands animou os anos tristes da Grande Depressão, e a disco music amainou as angústias causadas pela alta do petróleo e pela inflação na década de setenta. Na aparência, são gêneros muito diferentes – a discoteca, que teve origem em boates gays de Nova York, parece representar o oposto da masculinidade ostensiva de um show de metal. Mas há um ponto em comum: são músicas de grande apelo corporal. Houve várias danças frenéticas para acompanhar o suingue – caso do jitterbug, com seus tremeliques nervosos. As coreografias da disco ficaram famosas na interpretação de John Travolta (cujo personagem em Os Embalos de Sábado à Noite conhecia a dureza de perto). E o metal, embora não convide à dança, pede vigorosas sacudidas de cabeça. A música tem sua clara função catártica: quanto mais o corpo balança, menos sente o aperto econômico.

Os metaleiros contam com uma forte identidade de grupo, que proporciona abrigo em tempos de arrocho. O comportamento tribal, a indumentária de couro e rebites e os dedos erguidos para lembrar os chifres do "senhor das trevas" não contribuem para sua reputação. Mas Bruce Dickinson protesta:
"Os fãs de rock pesado não são burros nem violentos. Isso é um estereótipo". A associação entre o metal e a violência é, de fato, equivocada – os fãs de metal raramente brigam em shows. Suas caras de mau disfarçam uma índole em geral pacífica. É a crise que é mesmo o capeta.


Martin Popoff - Gettin´ Tighter: Deep Purple ´68-´76


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: *****

Duzentas e quarenta e quatro páginas, escritas por um dos melhores e mais respeitados jornalistas musicais do mundo, abrangendo todos os álbuns lançados por uma das mais importantes e influentes bandas da história do rock, entre os anos de 1968 e 1976. Ou seja, o período em o Deep Purple produziu o seu material clássico e de maior impacto, os discos contendo as músicas que os transformaram em ícones eternos da música pesada.

Martin Popoff, estudioso dedicado do heavy metal e do hard rock, destrincha os trabalhos lançados pelo grupo de Ritchie Blackmore e Jon Lord desde
Shades of Deep Purple (1968) até Made in Europe (1976), além de uma passagem rápida, mas não menos competente, pelos discos gravados pelos integrantes do Purple após o primeiro fim do grupo, incluindo álbuns do Rainbow, Whitesnake, Paice Ashton Lord, Ian Gillan Band, Hughes Thrall e discos solo. Ou seja, se você é fã do Deep Purple, Gettin´ Tighter é um livro obrigatório. Se você é um fã de música pesada, é uma obra fundamental. Se você gosta de música, é uma leitura didática e sensacional.

Popoff, dono de um texto repleto de personalidade, vai fundo em cada um dos discos analisados, contando as histórias de bastidores e as curiosidades por trás de cada um deles. Além disso, analisa, com muito conhecimento de causa, cada um dos álbuns em questão, seu lugar na discografia do Purple, seu impacto e sua influência para a música, tanto no período em que foram lançados quanto nos dias atuais, onde o distanciamento do tempo torna o entendimento da obra do conjunto mais fácil de ser assimilada e absorvida.

Além dos textos, destaque também para as dezenas de imagens impressas em suas páginas, como anúncios da época, imagens do grupo, singles e as obrigatórias capas dos trabalhos analisados. Uma pena é que o livro seja em preto e branco e não colorido, não mantendo assim a exuberância das obras recentes de Popoff, como
Run for Cover: The Art of Derek Riggs, já analisado aqui no site.

Mesmo assim, sobram motivos para ter
Gettin´ Tighter em casa. Mais do que uma mera obra literária, Popoff conseguiu elaborar um verdadeiro estudo acadêmico sobre a carreira do Deep Purple, com muitas informações e dados sobre o grupo. A influência do Purple, que ao lado do Black Sabbath e do Led Zeppelin formou a santíssima trindade do rock pesado no início da década de setenta, não se apagou com o tempo, muito pelo contrário. Até hoje a força de sua música continua impressionante, batendo forte na cabeça de novos ouvintes e sendo redescoberta por rockers veteranos, que ao ouvir aqueles discos que os acompanharam por toda a vida percebem novos detalhes e novas nuances nas composições do conjunto.

Além de tudo isso,
Gettin´ Tighter - Deep Purple: ´68-´76 deveria servir de bíblia e exemplo para grande parte da crítica especializada brasileira, formada mais por torcedores do que por jornalistas dispostos a analisar, de forma séria e isenta, a obra de seus ídolos. Popoff consegue fazer isso com extrema naturalidade, nunca perdendo a força de seu texto e sempre transparecendo o amor e o tesão que sente pelo grupo.

Obrigatório, clássico e fundamental!

Compre o livro direto com Martin Popoff, acessando o seu site.


Discos Fundamentais: Johnny Winter - The Progressive Blues Experiment (1969)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Primogênito de John e Edwina Winter, John Dawson Winter III é um dos mais importantes e influentes músicos de blues do século XX. Sua guitarra fez história, elevando-o à condição de lenda viva, status esse esculpido a ferro e fogo pelas
highways de sua vida.

Albino como o seu irmão menos famoso, Edgar, Johnny começou a tocar muito cedo, e, aos 15 anos, já havia gravado seu primeiro álbum,
School Boy Blues, creditado ao grupo Johnny and the Jammers, hoje disputado mais por ser um raro souvenir do que propriamente por sua qualidade artística. Ainda durante a adolescência, Winter teve a oportunidade de assistir ao vivo ícones como Muddy Waters e B.B. King, fundamentais na sua formação.

Em 1968, Johnny Winter formou um trio com o baixista Tommy Shannon e o baterista Uncle Joe Turner. Os shows do grupo chamaram a atenção e deram uma certa reputação à banda, levando o jornalista Larry Sepulvado a escrever sobre o conjunto para a então nascente revista
Rolling Stone. A matéria de Sepulvado gerou interesse em Winter, tornando os shows do grupo ainda mais concorridos.

Em abril de 1969 chegou às lojas
The Progressive Blues Experiment, lançado pela Imperial Records, trazendo uma sonoridade crua e rude, que ajudou a definir o tipo de música que seria associada, mais tarde, à vertente do gênero proveniente do estado norte-americano do Texas. Trazendo apenas quatro faixas próprias ("Tribute to Muddy", "Bad Luck and Trouble", "Mean Town Blues" e "Black Cat Bone"), o álbum contém competentíssimas releituras de clássicos de autoria de Muddy Waters ("Rollin´ and Tumblin´"), Sonny Boy Williamson ("Help Me"), Slim Harpo ("I Got Love If You Want It"), B.B. King ("It´s My Own Fault") e Howlin´ Wolf ("Forty-Four"), deixando claras as influências que acompanhariam Winter em toda a sua longa trajetória.

Clássico incontestável, o álbum mostrou ao mundo o estilo único de Johnny Winter, seja no slide de "Rollin´ and Tumblin´", no tempero country de "Bad Luck and Trouble", nos solos inspirados de "Tribute to Muddy" e na aproximação com o hard rock de "Mean Town Blues", seguindo a mesma linha que o Led Zeppelin exploria com brilhantismo ímpar durante a primeira metade dos
seventies.

Se você gosta de blues ou de rock, esse é um disco imperdível.

Faixas:
A1. Rollin' and Tumblin' - 3:09
A2. Tribute to Muddy - 6:20
A3. I Got Love if You Want It - 3:52
A4. Bad Luck and Trouble - 3:43
A5. Help Me - 3:46

B1. Mean Town Blues - 4:25
B2. Broke Down Engine - 3:25
B3. Black Cat Bone - 3:46
B4. It's My Own Fault - 7:20
B5. Forty-Four - 3:28


Discoteca Básica Bizz#035: James Brown - Live at the Apollo (1963)


(Pepe Escobar, Bizz#035, junho de 1988)

Se o verdadeiro e único Godfather é o "
haaaaaardest working man in the show business" - como anunciam seus mestres de cerimônia há três décadas - Live at the Apollo é o melhooooooooor LP ao vivo na história do show business. Mas qual deles? Todos. Sim, porque existem três. O primeiro é absoluta lenda: gravado em dezembro de 1962, saiu pela King em janeiro de 1963 e foi relançado pela Solid Smoke em 1980. O segundo é um LP duplo, gravado em junho de 1968; saiu pela King dois meses depois e foi relançado em 1986 pela Rhino, da Califórnia, como dois LPs separados (Live at the Apollo Volume 2, Parts 1 and 2). O terceiro também é um LP duplo, gravado em 21 e 22 de julho de 1971, e lançado em dezembro do mesmo ano pela Polydor.

Qualquer
brownnófilo sério precisa ter os três, claro (como a negada, que já o transformou no "the most sampled man in show business"). O terceiro é fácil de ser encontrado no mercado. Mas não é tão arrasador quanto o segundo, o relançado em duas partes pela Rhino, também facilmente encontrável. Quanto ao primeiro, mate ou morra, mas não consuma o resto de sua existência sem incorporá-lo à sua discoteca.

No terceiro LP temos o Godfather na fase em que a estrutura harmônica de suas músicas, já em um strip-tease acelerado, cai em um exercício modal em cima de um só acorde (com a banda tocando um verdadeiro bilhar polirrítmico). No segundo LP temos James Brown à frente de uma de suas superbandas massacrantes (incluindo Maceo Parker e o pai da guitarra funk, Jimmy Nolen, com Brown de 1965 até sua morte, de ataque cardíaco, em 1983), atacando standards ("Think", "I Feel Good", "Cold Sweat", "Try Me", "Please, Please, Please") e clássicos alheios, como "Kansas City". 

E no primeiro LP temos um homem fazendo história: as sincopadas que se tornariam o som dos anos sessenta (e base para todos os sons negros e brancos bem informados subsequentes), os grooves de arrebentar, os ritmos entrecruzados, o scratch percussivo da guitarra, as tonalidades bebop da sessão de metais - gospel mixado com jazz licks, cujo filho pródigo foi chamado de soul music e, claro, com riff impagável por cima, por baixo, em volta e através desta elaborada estrutura em movimento de ritmo incessante, aquela voz infernal, pontuada por soluços, gritos, uivos, grunhidos, berros, pedaços de palavras mastigadas e o imperativo "take it to the bridge!"

James Brown define seu som: "De onde vem, é um segredo entre Deus e eu". Right on. Mas por que gravar no Apollo? JB explica em sua autobiografia (gritem para ser traduzida aí): "O Apollo era um lugar especial. O lugar para artistas negros. Você podia fazer seis ou sete shows num dia só. Você comia lá, dormia lá, e continuava ensaiando quando não estava no palco. A platéia era muito dura. Se eles não gostavam, davam a entender. Na hora."

Para quem tinha pacto com o Lord lá em cima e fazia 350 shows por ano, o Apollo foi uma manha. James Brown pagou a gravação ao vivo do primeiro LP do próprio bolso (5.700 dólares, um monte de $$$ na época). Foi gravado em duas pistas, ou seja, com mixagem quase que instantânea. Usaram apenas oito microfones, dos quais três para a platéia. JB queria lançar um LP ao vivo para que as pessoas, na época, pudessem pelo menos escutar o seu show, já lendário. 

Live at the Apollo, o primeiro, é o evangelho segundo o Godfather. Ele lembra, na biografia: "Assim que eu entrei em 'I'll Go Crazy' eu sabia que era um daqueles dias". Uma mãozinha extra do Lord lá em cima, que é tarado por soul e funk (quando não está de mau humor), JB, no Apollo, estabeleceu-se definitivamente no Olimpo. Good God, sock it to me, uuuuuuuuh!

Faixas:
A1. Introduction and Theme - 2:04
A2. I'll Go Crazy - 1:42
A3. Try Me/Theme - 2:21
A4. Think/Theme - 1:53
A5. I Don't Mind/Theme - 2:35
A6. Song Titles Interlude - 0:43
A7. Lost Someone Part 1 - 4:01

B1. Lost Someone Part 2 - 5:54
B2. Medley: - 6:25
a. Please, Please, Please
b. You've Got the Power
c. I Found Someone (I Know It's True)
d. Why Do You Do Me
e. (You Made Me Love You) I Want You So Bad
f. I Love You, Yes I Do
g. Why Does Everything Happen to Me (Strange Things Happen)
h. Bewildered
i. Please, Please, Please
B3. Night Train - 2:45

Leia também: Tim Maia - Racional Vol 1 (1974)


19/03/2009

Discos Fundamentais: Bad Company - Bad Company (1974)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Sem dúvida alguma este é um dos melhores discos que eu já ouvi. Após o encerramento das atividades do Free, poucos acreditavam que Paul Rodgers e Simon Kirke poderiam lançar algo tão bom em tão pouco tempo. Claro que estávamos falando de músicos excepcionais, especialmente Rodgers, mas o processo que leva ao encerramento das atividades de uma banda é estressante, cansativo e avassalador, principalmente em um caso como o do Free, onde Rodgers, Kirke e Andy Fraser viram a amizade entre os integrantes ser devastada pela dependência química de Paul Kossoff.

Na ressaca de todo esse processo surgiu o Bad Company. Do Free vieram Paul Rodgers e Simon Kirke. Do Mott the Hoople veio o guitarrista Mick Ralphs, enquanto o King Crimson havia sido a banda anterior do baixista Boz Burrell. Essa formação fez com que a imprensa logo os rotulasse como um supergrupo, característica que ficou ainda mais forte após Peter Grant, o lendário empresário do Led Zeppelin, anunciar que também seria
manager do grupo. Essa ponte entre as duas bandas fez com que o Bad Company fosse o primeiro contratado e lançasse o primeiro disco do Swan Song, o selo fundado por Page, Plant e companhia.

Lançado em 15 de junho de 1974,
Bad Company foi um sucesso tremendo, com o álbum atingindo o primeiro posto nos charts da Billboard. Os singles do álbum também fizeram bonito, com “Can´t Get Enough” alcançando a posição de número cinco e “Movin´ On” a dezenove.

Realmente, as oito faixas que formam o álbum apresentam uma qualidade indiscutível. A já citada “Can´t Get Enough” é uma pedrada hard guiada pela guitarra de Ralphs; “Rock Steady” é um hard blues onde toda a banda se destaca, com destaque para Ralphs e para a magnífica interpretação de Rodgers; a balada “Ready for Love” se transformou em um dos maiores clássicos do grupo, e é de uma simplicidade tocante.

A música que dá nome ao grupo e ao disco, “Bad Company”, é uma densa balada blues que contém uma das melhores interpretações de toda a carreira de Paul Rodgers, um vocalista que deveria ser muito mais reconhecido do que é. Marca registrada da banda, até hoje é um dos pontos altos dos shows do conjunto. “The Way I Choose” revela momentos lindos em suas linhas vocais e em seu arranjo, emocionando todo e qualquer apreciador de música. O álbum fecha com o single “Movin´ On”, que traz enormes influências do Free, e a clássica “Seagull”, uma das mais emblemáticas composições do grupo.

Após essa estréia, o Bad Company lançaria mais quatro ótimos discos -
Straight Shooter em 1975, Run With the Pack em 1976, Burnin´ Sky em 1977 e Desolation Angels em 1979, sendo que os três primeiros são fundamentais em qualquer coleção de respeito.

Paul Rodgers sairia da banda am 1982, sendo substituído por Brian Howe (Ted Nugent), e durante a sua ausência o Bad Company enveredou por caminhos sonoros discutíveis, deixando de lado o blues rock e o hard que o haviam consagrado e investindo em uma sonoridade mais pop, que visava exclusivamente o crescimento do grupo no mercado norte-americano. Rodgers voltou à banda em 1998, e desde então o Bad Company tem realizado shows frequentes, mantendo vivo o seu legado como um dos mais importantes grupos de hard rock dos anos setenta.

Faixas:
A1. Can't Get Enough - 4:16
A2. Rock Steady - 3:47
A3. Ready for Love - 5:02
A4. Don't Let Me Down - 4:21

B1. Bad Company - 4:50
B2. The Way I Choose - 5:05
B3. Movin' On - 3:24
B4. Seagull - 4:02


Discoteca Básica Bizz#034: Love - Forever Changes (1967)


(Fernando Naporano, Bizz#034, maio de 1988)

Com o neopsicodelismo inglês, que vem desde a passagem da década (Echo & the Bunnymen, Teardrop Explodes, Monochrome Set) e até a recente consolidação das bandas assumidamente regressivas (Primal Scream, Weather Prophets, Primitives, Brilliant Corners, Razorcuts, Mighty Lemondrops, Shamen) - onde reconstitui-se com uma nova roupagem a estética dos anos sessenta -, uma lado mais obscuro da geração psicodélica passou a ser fortemente reverenciado. Tornou-se
fashion rebuscar as melhores doses de inspiração não apenas nos expoentes da West Coast Music (Jefferson Airplane, Grateful Dead, Doors) como também nas bandas de folk rock (Buffalo Springfield, Byrds) e em obscuros e insólitos cult groups californianos como H.P. Lovecraft, Strawberry Alarm O´Clock, Spirit e Smoke.

A mais cultuada e reconhecida fonte de idéias, entretanto, foi o Love, grupo criado pelo guitarrista e vocalista Arthur Lee, que em 1964 largou sua terra natal (Memphis) e se picou para L.A., onde recrutou os guitarristas Bryan McLean e John Echols, o baixista Ken Forssi e o baterista Don Conka (logo substituído por Alban "Snoopy" Pfisterer). Contratados pela Elektra, debutaram em vinil com o LP Love (1966), que conta com canções inesquecíveis como a ode lisérgica "Signed D.C." e duas covers, uma de Burt Bacharach/Hal David ("My Little Red Book") e outra infernal do clássico "Hey Joe". 

No segundo disco, Da Capo, que conta com o acréscimo de Tjay Cantarelli nos sopros e Snoopy (substituído na bateria por Michael Stuart) comandando os teclados, o Love solidificou sua musicalidade - ritmos e melodias de uma psicodelia pouco ortodoxa, condensada por idiossincráticos elementos de folk rock e turvas passagens de rhythm'n'blues que, aliadas a tons de balada, fizeram de seu som um dos mais originais e peculiares do desbunde americano.

O disco em questão é o seguinte: Forever Changes, lançado no final de 1967 e considerado um dos mais importantes dos anos sessenta e o mais significativo do Love. A partir deste LP, a banda original dissolveu-se, cabendo a Lee carregá-la nas costas por mais quatro álbuns que, embora interessantes, já não continham mais a expressividade que os havia caracterizado.

Produzido em conjunto por Bruce Bostnick (que depois produziria o L.A. Woman dos Doors), é um LP voltado às transformações que, literalmente, revolucionaram boa parte do cenário pop. Desde a inclusão de sopros e cordas até o turbilhão eclético que permeia os arranjos das onze faixas, pode-se dizer que Forever Changes é o Sgt Pepper's do Love, ou seja, a ruptura com elementos mais formais e uma recriação do toda a psicoparafernália do cérebro - queimado de ácido - de Lee. As letras, iluminadas pela aura surrealista, divagam, entre trocadilhos elegantes e rimas aparentemente ingênuas em torno do desassossego, da dúvida e do comportamento (re)visto por uma ótica chumbada de lindos sonhos dourados.

Quanto às canções, encontramos baladas flamenco-orquestrais como "Alone Again Or" e "Maybe the People Would Be the Times or Between Clark and Hilldale", o bucolismo folk de "Old Man" e "Live and Let Live" (essa é bem à la Donovan), as baladas-romântico-psicopop "Andmoreagain" e "The Good Humor Man He Sees Everything Like This", as complexas texturas psicoclássicas que discutem as situações do homem perante a existência na legendária "The Red Telephone", as sofisticações psicodélicas com inesperadas ou ásperas mudanças e distintas modulações nas harmonias presentes em "A House is not a Motel", "The Daily Planet" e "You Set the Scene" e o curioso
dylanesco semi-rap-psicodélico "Bummer in the Summer". Essas canções eram mais ou menos assim. 

Hoje tenho muitas saudades desse Amor derretido por excesso de ácido e criatividade.

Faixas:
A1. Alone Again Or - 3:18
A2. A House Is Not a Motel - 3:32
A3. Andmoreagain - 3:21
A4. The Daily Planet - 3:31
A5. Old Man - 3:02
A6. The Red Telephone - 4:45

B1. Maybe the People Would Be the Times or Between Clark and Hilldale - 3:35
B2. Live and Let Live - 5:27
B3. The Good Humor Man He Sees Everything Like This - 3:08
B4. Bummer in the Summer - 2:24
B5. You Set the Scene - 6:49



Pé D´Orelha - Pé D´Orelha Volume Um (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

O Pé D´Orelha nasceu de uma banda cover de blues que tocava na noite carioca. O entrosamento entre os músicos foi tão harmonioso que o grupo começou a compor material próprio, e o resultado é um hard rock com sabor setentista, que deve agradar em cheio quem gosta de um bom e honesto rock and roll.

Formada por Eduardo Kazan no vocal, Daniel Costa na guitarra e violão, Beto Brown no baixo e Alexandre Baca na bateria, o grupo chega a seu primeiro play com
Pé D´Orelha Volume Um, lançado em 2007. Um bom disco, que transparece paixão e amor pela música em cada uma de suas doze faixas.

"Guaia" abre o trabalho com um bom riff; "Tudo por Dez Reais" tem um ótimo refrão e uma letra sacana, que conta a história de uma menina que prometia fazer qualquer um feliz por meros dez reais; um riff pesadão apresenta "Deixe o Medo", com ótimas guitarras e backing vocals que lembram o Barão Vermelho em seus melhores momentos. 

A melhor faixa do CD vem a seguir: "Sigo Pronde Sopra o Vento" é um blues muito bom, com ecos de Celso Blues Boy tanto nas guitarras quanto nos vocais, e que cativa já na primeira ouvida; se eu tivesse um programa de rádio ou qualquer coisa semelhante, tocaria essa sem dúvida, lá por perto da meia-noite.

O disco segue com o riff totalmente setentista de "Murro em Ponta de Faca", com um refrão muito legal; m seguida surgem os metais da meio ska "O Lodo", dona de um refrão hilário e que apresenta uma discreta influência de Chico Science e Nação Zumbi. 

O trampo do guitarrista Daniel Costa se destaca, despejando uma tonelada de bons riffs durante todo o disco, como em "Não" e "Vício Maldito", essa última com uma linha vocal bem chicletona. "O Trato" é outro grande momento, com a guitarreira comendo solta, com um monte de efeitos, e letra contando a história de um cara que fez um trato com diabo. O álbum fecha com "Mundo Louco" uma das mais pesadas do disco, com outra letra bem sacada, e "Caos Social", que tem sei riff emprestado de "Space Truckin´", do Deep Purple.

No geral esse primeiro registro do Pé D´Orelha aresenta canções bem construídas, com linhas vocais bem desenvolvidas, pontes antes dos refrães, arranjos bem definidos, que passam a impressão de terem sido trabalhados exaustivamente. Um trabalho bem feito, sem dúvida, repleto de algo que anda em falta nos tempos atuais: paixão e tesão pelo rock. Precisa mais do que isso?

Faixas:
1. Guaia - 2:47
2. Tudo por Dez Reais - 2:40
3. Deixe o Medo - 2:44
4. Sigo Pronde Sopra o Vento - 4:33
5. Murro em Ponta de Faca - 3:00
6. O Lodo - 2:30
7. Não - 2:44
8. O Trato - 4:05
9. Vício Maldito - 3:38
10. Dor De - 4:42
11. Mundo Louco - 3:47
12. Caos Social - 3:20

www.pedorelha.com.br


V/A - Extreme Brazilian Alliance (2008)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***

Extreme Brazilian Alliance é uma compilação organizada pela Nihilistic Music, do Rio de Janeiro, que traz dez bandas de metal extremo de todo o Brasil.

Um bom retrato do underground, com alguns grupos promissores, como é o caso dos baianos do Inside Hatred, com um death brutal; o Tempestilence, de Campinas, que executa um black metal bem interessante, bebendo nas raízes do estilo, com destaque para o vocal de Fábio Lima, também guitarrista; os cariocas do As Dramatic Homage, com um death bastante técnico, com boas melodias e ótima performance dos músicos; os também cariocas da Dark Tower, death metal influenciado elo thrash; o bom death dos mineiros do Sepulcro; o black metal totalmente
old school dos também mineiros Blasphemical Proceation.

Completam o disco a Angerise de Belo Horizonte, o Inhumane Rites de Sorocaba, os paulistas do Dead Crush (com uma proposta muita interessante, que é fazer um som extremo tendo como ponto de partida ícones do cinema de terror - tanto que o nome da faixa aqui presente é "Michael Myers", o assassino da clássica série de filmes
Halloween) e os paranaenses do Waking for Darkness.

Parabéns a Nihilistic pela iniciativa desse interessante lançamento, que mostra que existe muito metal de qualidade sendo feito no Brasil, e que está, infelizmente, longe do alcance da maioria dos fãs.
Extreme Brazilian Alliance ajuda a diminuir um pouco esse distanciamento, e revela nomes que tem tudo para causar um estrago muito maior em um futuro próximo.

Faixas:
1. Inside Hatred - Empire in Decadence
2. Tempestilence - Cold Dark Era
3. Angerise - Killing One by One / Merciless War
4. Inhumane Rites - Dawn of Unholy Rebellion
5. As Dramatic Homage - Ominous Force For Ascension
6. Dark Tower - Human Like Fire
7. Sepulcro - Perpétuo Domínio
8. Blasphemical Procreation - Satan With Me
9. Blasphemical Procreation - Transcomunication
10. Dead Crush - Michael Myers
11. Waking For Darkness - Lamentation



18/03/2009

Umbra et Imago - Die Welt brennt (2002)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***1/2

O Umbra et Imago nasceu em 1991 na cidade alemã de Karlsruhe, já lançou uma dezena de álbuns e conquistou uma fiel legião de fãs no underground europeu.
Die Welt brennt, lançado originalmente em 2002 no velho mundo, finalmente ganha versão nacional, e é um item no mínimo interessante.

Liderado pelo vocalista Manuel Munz, conhecido como Mozart, o grupo faz um gothic rock muito competente, bastante soturno e climático, que cai bem aos ouvidos. Visualmente a banda explora muitos elementos teatrais e performáticos em seus shows, e usa e abusa da sexualidade como fator dominante de sua obra. Mulheres nuas entram no palco, algumas estão em gaiolas suspensas, outras interagem com o vocalista, levando a platéia ao delírio.

É inegável que a performance da banda impressiona. Algumas vezes ficamos chocados, outras achamos interessante, e em alguns momentos tudo não parece passar de um teatro um tanto quanto ridículo, mas, de maneira geral, o show do grupo é um todo muito bem montado e pensado, que alcança com propriedade aquilo que se propõe a fazer: explorar até o limite a dramaticidade de sua música, somada a uma sexualidade extrema. O tema vampirismo é mais do que relevante aqui, tanto na forma da banda se vestir e postar, quanto de seu próprio público, repleto de figuras estranhas.

Assistir aos extras do DVD é fundamental para entender mais sobre o Umbra et Imago e seu mundo próprio. Venerado pelos fãs, Mozart assume a postura de apóstolo gótico, um personagem enigmático e bastante complexo. O sexo é o tema principal da obra do conjunto, e shows sadomasoquistas complementam as entrevistas, com cenas que podem chocar os mais puritanos, mas que revelam o quanto um considerável segmento de adeptos da música pesada mergulhou nos recantos mais soturnos do gênero, temperando-o com aspectos controversos de outras manifestações artísticas, gerando um resultado final bastante interessante. Ainda que a Hellion Records, seguindo o seu padrão ridículo de qualidade e respeito aos consumidores, tenha feito o favor de não legendar as entrevistas - que são em alemão -, mesmo assim dá pra entrar no clima. Pelo menos o DVD vem com um ótimo CD bônus ao vivo com o áudio do show.

Tem gente que vai odiar, tem gente que vai amar, mas é inegável que
Die Welt brennt é um item curioso e diferenciado, que serve como referência de uma cena que se torna cada vez mais popular na Europa.

Vale a pena dar uma conferida, sem dúvida alguma.


Arcturus - Shipwrecked in Oslo (2006)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ****

O Arcturus nasceu em 1987 em Oslo, e desde o início se destacou por fazer um som extremo aberto a influências de outros gêneros musicais, notadamente o rock progressivo. Passagens atmosféricas e climáticas são frequentes na música desses talentosíssimos noruegueses, extremamente técnicos e donos de um bom gosto absurdo em suas composições.

Shipwrecked in Oslo, gravado ao vivo no dia 17 de setembro de 2005 na capital norueguesa e lançado em maio de 2006 na Europa, ganha agora uma versão nacional disponibilizada pela Somber Music e deixa claro que o grupo se transformou em uma entidade interessantíssima, que, ainda que tenha partido do metal extremo, hoje está distante dele, agregando elementos de música folclórica, do já citado progressivo e até mesmo de space rock em sua complexa sonoridade.

Contado com Simen Hestnaes nos vocais (o ICS Vortex do Dimmu Borgir), Tore Moren e Knut Magne Valle nas guitarras, Hugh Mingay no baixo, Steinar Johnsen nos teclados e Jan Axel Blomberg - o lendário Hellhammer do Mayhem - na bateria, o Arcturus mais parece um verdadeiro
dream team do metal extremo norueguês. É muito interessante ver esses músicos, que exploram caminhos distintos em suas bandas, trilharem estradas totalmente diferentes com o Arcturus. A pluralidade e a riqueza sonora são evidentes, bem-vindas e fundamentais. Não há limites para a criatividade, a música não fica presa nas cercas de um determinado gênero musical. A diferença aqui é a soma de elementos aparantemente antagônicos na construção de uma sonoridade única. Assim, há desde black metal da melhor qualidade até música eletrônica na mistura promovida por esses nórdicos malucos. Mas, com certeza, o principal ingrediente, e que faz toda a diferença para que o prato desça redondo, é o talento sobrenatural do sexteto. Sem ele, teríamos apenas uma massaroca mal costurada e indigesta. Graças a ele, temos uma música única, espantosa e cativante, sem parâmetro no heavy metal.

Falar da performance individual dos músicos é desnecessário, pois todos são fenomenais. A recomendação para qualquer banger é colocar o DVD no player, sentar no sofá e viajar junto com a banda. A forma como o show, e o DVD, foram montados, ajuda muito nessa jornada. Dançarinas com máscaras invadem o set, seres estranhos surgem tanto na platéia quanto em cima do palco, imagens se fundem às cenas do grupo tocando. Tudo conspira para levar o telespectador em um mergulho profundo no mundo todo próprio da banda, mostrando que os caras pensaram o show como um evento multimídia, onde cada recurso se soma aos demais, formando um painel denso e psicótico.

Usar o velho recurso de destacar essa ou aquela música não se aplica aqui. O DVD foi pensado como um todo, e ele funciona muitíssimo bem assim. Se você é daqueles ouvintes preconceituosos, que pensa que o black metal é apenas barulho feito por gente que não sabe tocar nada, assista esse DVD. Ele vai muito além do gênero. Aliás,
Shipwrecked in Oslo é indicado não aos fãs de música extrema, mas sim aqueles que curtem a multiplicidade e a técnica do rock progressivo. Se você é um fã de prog, irá pirar com esse DVD. Se for um true from hell, recomendo os recentes vídeos do Dark Funeral e do Marduk, porque certamente você não irá curtir esse do Arcturus.

Enfim, um produto de altíssima qualidade, que exemplifica, nos mínimos detalhes, o quanto o heavy metal se tornou, com o passar dos anos, um gênero amplo e sem limites estilísticos.

Faixas:
1. Introduction
2. Ad Absurdium
3. Nightmare Heaven
4. Shipwrecked Frontier Pioneer
5. Alone
6. Deception Genesis
7. Chaos Path
8. Tore Guitar Solo
9. Deamon Painter
10. Nocturnal Vision Revisited
11. Painting My Horror
12. Steinar Keyboard Solo
13. Hufsa
14. Master of Disguise
15. Knut Guitar Solo
16. White Noise Monster
17. Reflections
18. Raudt og Svart
19. Credits

Bonus
1. Video Clip
2. Rehearsal
3. Slideshow Gallery


Discoteca Básica Bizz#033: Walter Franco - Revolver (1976)


(Lívio Tragtemberg, Bizz#033, abril de 1988)

"
Apesar de tudo muito leve", cantava esse paulista de formação universitária em plena época da barra-pesada. A sabedoria de Walter Franco está reunida em Revolver e no seu precursor, o enigmático "disco da mosca", de 1973, que tem as antológicas "Me Deixe Mudo" e "Cabeça" (defendida por ele, grande campeão de vaias, no último FIC da TV Globo). Os dois discos são fundamentais, mas foi Revolver que antecedeu e indicou direções mais atuais - ainda - para a música popular brasileira, graças ao tratamento mais roqueiro (arranjos eletrificados, uso de efeitos e outros recursos de estúdio) dado a suas composições.

Como um trovador extraviado da geléia geral da tropicália, ele cria miniaturas, paisagens sonoras independentes entre si, dando corpo a um trabalho extremamente rico na combinação de poesia e música (os arranjos ficaram a cargo do baixista Rodolpho Grani Jr). No fundo, a concepção entre palavra e som na música de Walter Franco é indissolúvel e indivisível. Ele trabalha o ritmo da palavra, desdobrando-a com pausas curtas e respirações alongadas, criando novos sentidos a partir de frases breves, como na lancinante "Apesar de Tudo é Muito Leve". 

Walter já tinha evoluído muito além da letra colegial/adolescente, que marca o rock dos anos oitenta. "Nothing" é um exemplo da construção complexa que faz a partir de elementos extremamente simples: "Nothing to see / Nothing to do / Nothing today / About me / I am not happy now / I am not sad". Junto com "Feito Gente" - ambas deste LP - e "Canalha" (de 1979) forma o tríptico pré-punk anos antes do retardatário punk tupiniquim.

A poesia de Walter evoluiu em duas direções: uma decorrente da influência da filosofia oriental e outra que aborda a agressividade urbana. Da primeira ele herdou a utilização da forma mântrica-circular da frase que retorna sobre si mesma, ou que se revela por etapas, palavra por palavra, como em "Mamãe D´Água" (o verso "
Yara eu" vai sendo acrescido de palavras até formar "Yara eu te amo muito mas agora é tarde, eu vou dormir") e no famoso hai-kai caleidoscópico de "Eternamente" ("Eternamente /É ter na mente /Éter na mente /Eterna mente/ Eternamente"). Como se vê, novos significados vão surgindo a cada nova palavra que se desdobra a partir da inicial. É um procedimento em sintonia com a poesia moderna, em especial, pelos minimalistas americanos, como Gertrude Stein, E. E. Cummings e, no teatro, Bob Wilson.

Na concepção musical do LP, tentou-se esgotar as possibilidades de um estúdio de dezesseis canais, com utilização de
playbacks em sentido contrário, saturação de frequências e pré-mixagens. A complexidade do trabalho desenvolvido com a sonoridade da bateria - que além de usar filtros de frequências, serve-se às vezes de outra bateria - levou a utilizar dois bateristas nos shows. A combinação dos instrumentos acústicos - principalmente os tambores e tumbadoras que reforçam o clima tribal/meditativo de algumas letras - com os teclados e guitarras, sintetiza as boas influências da música contemporânea e do rock.

Os últimos vinte anos de música no Brasil atestam que
Revolver não perdeu sua atualidade. Continua pulsando de idéias, novas até para o ouvido da era digital. O percurso posterior de Walter Franco seguiu outras direções, principalmente o caminho das baladas meditativas. Mas de quem elaborou dois LPs de tamanha criatividade e inteligência, podem-se esperar sempre novas surpresas. Por enquanto, a Continental Discos bem que poderia relançar Revolver (ele já chegou a ser relançado em 1979, mas é muito difícil encontrá-lo hoje nas lojas) e o "disco da mosca" (também conhecido como Ou Não), que está igualmente fora de catálogo e é outra pérola da música popular brasileira.





17/03/2009

Edições Especiais: Easy Rider OST Deluxe Edition (2004)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Com o fim da indústria da música como a conhecíamos, as gravadoras perceberam que, para continuar vendendo discos para a parcela de ouvintes que ainda se dispõe a isso - onde nós, colecionadores, somos essenciais -, mais e mais edições especiais de álbuns lançados há tempos estão chegando às lojas.

Aqui, nessa nova sessão da Collector´s Room, iremos indicar e recomendar alguns desses lançamentos, que, na nossa opinião, valem a pena ser readquiridos pelos novos atrativos que apresentam.

Pra começar, vamos falar de uma das mais célebres trilhas sonoras do rock, a do clássico filme Easy Rider, lançada originalmente em 1969. A trilha original ficou famosa por conter um dos maiores hinos da história do rock, a marcante "Born to Be Wild", interpretada pelo Steppenwolf. Só essa faixa já tornaria disco fundamental, mas ele ainda contém canções dos Byrds, Jimi Hendrix Experience, Roger McGuinn, Electric Prunes e uma interessante versão de "The Weight", da The Band, interpretada por Smith, já que não foi possível colocar a versão original do grupo canadense na trilha original por problemas contratuais.

Essa Deluxe Edition, lançada em 23 de março de 2004, é dupla, vem acondicionada em um slipcase, e traz no primeiro CD a trilha original e no segundo disco uma bela compilação das canções mais representativas do período 1967-1969, um dos mais criativos e representativos do rock and roll. Ali estão faixas de nomes como The Animals, Jefferson Airplane, The Who, Procol Harum , Chambers Brothers, Blue Cheer, Moody Blues e Flying Burrito Brothers, além de pérolas de obscuridades como The Seeds, Blues Magoos e Sir Douglas Quintet. A cereja do bolo é a versão original da linda "The Weight" pela The Band, uma das mais belas e emocionantes canções já escritas.

Vale a pena?  Não precisa nem perguntar!  Além de uma das mais importantes e clássicas trilhas sonoras já lançadas, você leva ainda um belo apanhado do que de melhor e mais relevante se produziu na segunda metade dos sixties, resultando em uma verdadeira aula sobre o rock and roll.

Faixas:

Disc One - The Original Soundtrack Album

1. Steppenwolf - The Pusher
2. Steppenwolf - Born to Be Wild
3. Smith - The Weight
4. The Byrds - Wasn't Born to Follow
5. The Holy Modal Rounders - If You Want to Be a Bird
6. The Fraternity of Man - Don't Bogart Me
7. Jimi Hendrix - If 6 Were 9
8. The Electric Prunes - Kyrie Eleison / Mardi Gras
9. Roger McGuinn - It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)
10. Roger McGuinn - The Ballad of Easy Rider

Disc Two - Something in the Air, 1967 to 1969

1967
1. The Seeds - Pushin' Too Hard
2. The Electric Prunes - I Had Too Much to Dream Last Night
3. Blues Magoos - We Ain't Got Nothin' Yet
4. The Animals - San Franciscan Nights
5. Jefferson Airplane - White Rabbit
6. The Who - I Can See for Miles
7. Procol Harum - Whiter Shade of Pale
8. The Young Rascals - Groovin'
9. Richie Havens - High Flyin' Bird

1968
10. The Band - The Weight
11. The Byrds - You Ain't Going Nowhere
12. The Chambers Brothers - The Time Has Come Today
13. Joe Cocker - With a Little Help From My Friends
14. Blue Cheer - Summertime Blues
15. The Moody Blues - Nights in White Satin

1969
16. Sir Douglas Quintet - Mendocino
17. The Youngbloods - Get Together
18. The Flying Burrito Bros - My Uncle
19. Thunderclap Newman - Something in the Air