11/04/2009

Herbie Hancock - Thrust (1974)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

O estudante de engenharia eletrônica Herbert Jeffrey Hancock (diz-se que daí vem o seu gosto pela eletrônica na música que começou a criar no começo dos anos setenta) forma, junto com Chick Corea e Keith Jarret, a santíssima trindade dos pianistas mais influentes do jazz da era pós-Bill Evans e seu estilo
cool

Herbie tocou na famosa banda de Miles Davis entre 1963 e 1968, juntamente com vários outros músicos talentosos do free jazz que, como ele, também iriam despontar posteriormente para um maior reconhecimento, gravando com eles álbuns clássicos do post bop e do free, tais como Nefertiti (1968), Miles in the Sky (1968) e In a Silent Way (1969).

A partir dos anos setenta (após dois ótimos trabalhos solo -
Mwandishi (1971) e Crossings (1972) - porém ainda bastante experimentais em relação ao que estaria por vir), quando realmente emerge o estilo fusion através de pilares do movimento, como a Mahavishnu Orchestra, Weather Report e Return to Forever, e o jazz elétrico de Miles, Hancock foi pegando cada vez mais o gosto por pianos elétricos, teclados eletrônicos e sintetizadores (apesar de nunca ter abandonado o jazz acústico por completo), lapidando e consolidando de vez sua bem-sucedida mistura de jazz funk nessa época, principalmente a partir do disco Sextant, de 1972. Muitos inclusive o consideram o único pianista do jazz contemporâneo no qual se fez perceber sensível influência de Jimi Hendrix, talvez no que diga respeito à explorações de novas sonoridades, timbres e ruídos de seus teclados eletrônicos, principalmente nos seus intuitivos improvisos em sintetizadores.

Thrust, de 1974, poderia ser considerado o álbum onde ele alcança o auge desta nova química musical proposta em Sextant, tanto em termos de inovação e elaboração, quanto de bom gosto - assim como os posteriores, Man-Child (1975) e a trilha do filme Death Wish (também de 1974, mas com expressão mais orquestral) que, contudo, apesar de ótimos também, já seriam apenas uma continuidade da chama de originalidade trazida por Thrust

O disco foi lançado logo após o estrondoso sucesso do fabuloso Head Hunters e, além de novamente apresentar revolucionários grooves e novas linhas rítmicas de Mike Clark (sugerindo um novo conceito dentro do fusion), nos traz músicas com arranjos mais intrincados e trabalhados, além de performances mais complexas que o seu antecessor. O line-up é praticamente o mesmo de Head Hunters, à exceção de Mike Clark no lugar de Harvey Mason.

Principalmente nas duas primeiras faixas, “Palm Grease” e “Actual Proof”, e também na última, “Spank-a-Lee”, as criativas e elásticas linhas do saliente baixo de Paul Jackson (fundamental na estrutura musical), aliadas aos quebrados andamentos da segura bateria de Mike Clark, se entrelaçam e se combinam de modo sinérgico com as swingadas harmonias e timbres repletos de efeitos como
phaser, flanger e wah-wah dos teclados de Hancock e as melodias dos metais de Bennie Maupin, propondo uma espécie de diálogo bastante inventivo e sugestivo entre os instrumentos. Os sofisticados improvisos, principalmente por parte de Hancock (em seu Fender Rhodes) e Maupin, são, como sempre, muito competentes. “Butterfly” seria o som mais cool do disco, apresentando um ótimo improviso de Bennie Maupin em seu sax soprano.

Desta maneira, é proposta à música uma sonoridade bem inovadora (para a época), descontraída e por vezes um tanto cômica, um traço típico da música negra norte-americana. É o puro jazz funk em ação.

Faixas:
A1. Palm Grease 10:38
A2. Actual Proof 9:42

B1. Butterfly 11:17
B2. Spank-A-Lee 7:12


Discos Fundamentais: Bang - Bang (1971)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Apelidado por muitos colecionadores como "o Black Sabbath americano", o Bang foi formado em 1971 na Filadélfia e tem uma carreira dividida em duas fases distintas. A primeira engloba o período de 1971 a 1973, anos nos quais o grupo lançou quatro discos:
Death of a Country e Bang em 1971, Mother / Bow to the King em 1972 e Music em 1973. Depois disso a banda se separou, voltando a se reunir apenas em 1999, ano em que lançaram o mediano RTZ - Return to Zero e, mais recentemente, o bom The Maze em 2004.

Na primeira e clássica encarnação, dois álbuns se destacam:
Bang e Mother / Bow to the King. O disco que dá nome à banda, lançado originalmente em 1971, traz em suas oito faixas um hard rock cadenciado, cujas principais características são o peso extremo das guitarras e o talento diferenciado de Gilcken para compor riffs pegajosos e que não saem da cabeça. Ou seja, um som muito similar ao do Black Sabbath e, em alguns aspectos, até mesmo um pouco à frente do grupo de Tony Iommi, já que Bang foi lançado no mesmo ano de Master of Reality. Quando eu falo que o Bang estava à frente do Sabbath eu me refiro ao peso dos riffs, porque naquela época o Black Sabbath ainda não havia consolidado este aspecto como um dos principais elementos da sua música, fato que iria ocorrer justamente com seus lançamentos posteriores, Vol 4 e Sabbath Bloody Sabbath.

Quer dizer então que o Bang influenciou o Black Sabbath? Não sei, sinceramente. O que sei é que este disco é um biscoito fino para todo e qualquer fã de hard rock setentista. É impossível ouvir faixas como "Lions, Christians", "The Queen", "Come With Me", "Future Shock", "Questions" e "Redman" e não começar a bater cabeça, mesmo que instintivamente. Pra completar, o timbre de Frank Ferrara, além de suas linhas vocais, lembram muito o que Ozzy Osbourne fazia naqueles primeiros anos do Sabbath.

Mesmo assim, o Bang apresenta nesse seu segundo disco um trabalho com uma qualidade bastante elevada, que não deve nada aos hoje clássicos álbuns gravados e colocados no mercado naquele ano de 1971, e que com o passar dos anos se transformaram em clássicos indiscutíveis entre os admiradores de um bom hardão setentista.

Potencial e motivos para isso
Bang tem. Ouça e tenho certeza de que você concordará comigo.

Faixas:
A1. Lions, Christians - 3:58
A2. The Queen - 5:24
A3. Last Will and Testament - 4:09
A4. Come with Me - 4:12

B1. Our Home - 3:26
B2. Future Shock - 4:38
B3. Questions - 3:50
B4. Redman - 4:58


Discoteca Básica Bizz#052: Sam Cooke - The Man and His Music (1986)

(José Augusto Lemos, Bizz#052, novembro de 1989)

Entre as dezenas de coletâneas disponíveis, esta tem bons motivos para ser considerada a antologia definitiva do Mr Soul. Além da remasterização digital de todas as gravações, é a única que privilegia composições do próprio Sam Cooke, e que inclui - antes do desfile de hits clássicos - faixas de sua fase gospel.
 
Segundo a bíblia do assunto,
The Gospel Sound - Good News and Bad Times, de Anthony Heilbut, os Soul Stirres foram os verdadeiros criadores do som do quarteto vocal - um dos modelos tradicionais da gospel music que, transplantado para o terreno pop, daria o doo wop. Sam Cooke tinha 19 anos quando recebeu o convite para ingressar nos Stirrers, substituindo o solista R.H. Harris, em 1950. Em pouco tempo tornou-se uma das maiores estrelas do circuito gospel com os mesmos ingredientes que impulsionaram sua meteórica carreira pop: carisma sofisticado e tranquilo em uma voz capaz de rasgar, delirar, sobrevoar, sempre sem o menor esforço. Keith Richards: "Sam Cooke é alguém com quem todos os cantores tem de se medir, e a maioria acaba voltando para o emprego no posto de gasolina". Um dos maiores lugares comuns: "Todos os cantores de soul, de Otis Redding a Marvin Gaye, devem quase tudo a Sam Cooke".
 
The Man and His Music abre com dois dos maiores sucessos dos Soul Stirrers, compostos por Cooke e gravados em 1956, seu último ano à frente do quarteto. "Touch the Hem of His Garment", o primeiro deles, desvela a aspereza aveludada de um êxtase que só o genuíno cantor de gospel pode exibir, e que os Terence D´Arby da vida tentam simular. Quando, duas faixas depois, entra "You Send Me" - seu primeiro clássico pop, um estouro imediato em outubro de 1957 -, a leveza e a contenção, o estado de graça transferido para canções de amor apontam na direção oposta, sem perder uma gota de intensidade. 

Ao longo de sua carreira, Sam chegaria a mesclar os dois sentimentos, às vezes num só compasso - caso de duas das últimas faixas desta coletânea em que sua formação gospel aflora dilacerando "Bring it on Home to Me" e "A Change is Gonna Come". Talvez sejam suas duas maiores obras-primas, o equilíbrio e a perfeição matutados em seus últimos anos (1960-1964), na RCA, sempre secundado pelas orquestrações de René Hall. "A Change is Gonna Come"- um lamento esperançoso pelo fim do racismo e da miséria, composto sob a influência de Bob Dylan - tornou-se o epitáfio de Cooke, assassinado com três tiros pela gerente de um motel barato, numa história até hoje muito mal contada.

Na RCA, Sam conquistara total autonomia de trabalho e, paralelamente, acabou montando seu próprio selo (gravando os Soul Stirres e lançando a família Womack, entre outros) e a sua editora. Pouco depois, Barry Gordy Jr seguiria o exemplo e fundaria o império Motown, marcando uma nova era para a música negra americana. 

Sam nunca foi perdoado pelo público de gospel por ter "vendido sua alma" à "música profana", mas, para os cantores de blues e r&b acostumados a vender suas músicas por uma ninharia, sua atitude foi uma bênção. Não tinha o menor pudor em capitalizar em cima de modismos descartados num piscar de olhos e eternizá-los com sua interpretação desumana, porque divina - caso de "Twistin'the Night Away" e "Everbody Likes to Cha Cha Cha". 

Neste disco duplo está uma série de canções das demais "comerciais" e mais sublimes da história - "Wonderful Wold", "Only Sixteen", "Chain Gang". Em suma: o mapa da mina.

Faixas:
A1. Touch the Hem of His Garment - 2:01
A2. That's Heaven to Me - 2:01
A3. I'll Come Running Back to You - 2:11
A4. You Send Me - 2:45
A5. Win Your Love for Me - 2:54
A6. Just for You - 2:20
A7. Chain Gang - 2:34

B1. When a Boy Falls in Love - 2:32
B2. Only Sixteen - 1:54
B3. Wonderful World - 2:04
B4. Cupid - 2:30
B5. Nothing Can Change This Love - 2:36
B6. Rome Wasn't Built in a Day - 2:29
B7. Love Will Find a Way - 2:15

C1. Everybody Loves to Cha Cha Cha - 2:36
C2. Another Saturday Night - 2:25
C3. Meet Me at Mary's Place - 2:41
C4. Having a Party - 2:27
C5. Good Times - 2:27
C6. Twistin' the Night Away - 2:40
C7. Shake - 2:48

D1. Somebody Have Mercy - 3:02
D2. Sad Mood - 2:28
D3. Ain't That Good News - 2:30
D4. Bring It Home to Me - 2:41
D5. Soothe Me - 2:11
D6. That's Where It's At - 2:36
D7. A Change Is Gonna Come - 3:14


10/04/2009

Discoteca Básica Bizz#051: The Byrds - Younger Than Yesterday (1967)


(Arthur G. Couto Duarte, Bizz#051, outubro de 1989)

Tentar apontar o melhor grupo do rock ianque dos anos sessenta poderia nos levar a uma infindável discussão. Mas, se em vez disto tivéssemos de eleger o mais influente, os Byrds certamente seriam um nome de consenso, graças a seu relevante papel na moldagem de boa parte das grandes bandas surgidas nos anos seguintes.

A eclosão dos Beatles e a repercussão do rock inglês nos Estados Unidos acabaram dando ao rhythm'n'blues - então em franca decadência - um novo alento, levando dezenas de jovens músicos a abandonarem a majoritária cena folk. Foi o que ocorreu também com os futuros membros dos Byrds, na ocasião dispersos em vários grupo acústicos: Jim (aliás, Roger) McGuinn nos Limelighters, Gene Clark nos New Christy Minstrels, Chris Hillman nos Hilmen e David Crosby nos Lex Baxter Balladeers.

Assim, McGuinn, Clark e Crosby formaram o Jet Set em Los Angeles, que, com a entrada de Hillman no baixo e Michael Clarke (um velho amigo de Crosby) na bateria, originou o Beefeater. McGuinn descreveu o som deste embrião como uma síntese de Dylan e Beatles, algo que se comprova pelos tapes mais tarde reunidos no LP
Preflyte (1969). Já como The Byrds, um remake de Dylan - "Mr Tambourine Man" - os levou ao topo das paradas dos dois lados do Atlântico. Ao misturar dois itens até então tão imiscíveis quanto óleo, esta gravação foi a irrefutável gênese do folk rock.

The Byrds foi considerado um grupo de singles até 1966, quando tornou-se precursor do som ácido californiano. Esta nova fase pautou-se pelo abandono da primazia folk (Gene Clark, autor principal nos álbuns
Mr Tambourine Man e Turn! Turn! Turn!, ambos de 1965, os deixou aí) em favor de trucagens eletrônicas e outras inovações, como a introdução da cítara no rock e o primeiro light show de que se tem notícia (no Village Gate, em Nova York).

Apesar da aparente bizarria, tal momento catalisou três discos que capturaram os Byrds no auge da criatividade:
Fifth Dimension (1966), Younger Than Yesterday (1967) e Notorious Byrd Brothers (1968). Destes, o segundo foi o mais bem-sucedido, não só pela maturação de Crosby e Hillman como compositores, mas também por elevar as harmonias vocais, o padrão "Rickenbacker doze cordas" (especialmente através de McGuinn) e o requinte instrumental do grupo como um todo, em nível jamais igualado. Ofuscado pelo lançamento de Sgt Pepper's e com os Byrds passando por um período de baixa popularidade e rusgas internas, Younger Than Yesterday acabou se tornando um dos mais subestimados discos da história do rock.

A amargura com este estado de coisas surge logo na faixa "So You Want to Be a Rock'n'Roll Star" que, com frases como "venda sua alma para a companhia" tornou-se uma cáustica exceção em meio às boas vibrações da nascente "hippilândia". Levando ao máximo o uso da eletrônica apenas insinuado no LP Fifth Dimension, a faixa "CTA 102", por sua vez, era uma curiosa homenagem de McGuinn aos Quasars. 

Também a fixação com os Beatles se resolveria aí, num par de baladas de Hillman, "Have You Ever Seen Her Face?" e "Time Between", enquanto Crosby criaria épicos barrocos em "Renaissance Fair" e "Everybody's Been Burned", além da surpreendente tecnologia de "Mind Gardens". Num clássico destes, Dylan não poderia faltar e "My Back Pages" foi uma das mais sensíveis releituras feitas pelo grupo.

Os Byrds nunca soaram tão coesos como em
Younger Than Yesterday e, ainda que suas produções seguintes tivessem sido apenas medianas, seu legado já estava consolidado de forma seminal no rock das duas décadas seguintes.

Faixas:
A1. So You Want to Be a Rock 'n' Roll Star - 2:08
A2. Have You Seen Her Face - 2:27
A3. C.T.A. - 102 - 2:30
A4. Renaissance Fair - 1:54
A5. Time Between - 1:55
A6. Everybody's Been Burned - 3:01

B1. Thoughts and Words - 2:57
B2. Mind Gardens - 3:29
B3. My Back Pages - 3:10
B4. The Girl With No Name - 1:52
B5. Why - 2:46


09/04/2009

poeiraCast#002 no ar


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A segunda edição do poeiraCast já está no ar. Para baixar, clique aqui.

Mais uma vez, um bate papo agradável, repleto de opiniões às vezes polêmicas mas sempre divertidas. Nessa nova edição, o quarteto formado por Bento Araújo, José Damiano, Ricardo e Sérgio Alpendre disserta a respeito do Motorhead, dos artistas americanos que não conseguiriam uma cerveja na Inglaterra (e vice-versa), além de diversas histórias curiosas a respeito do rock and roll.

Audição recomendadíssima!


As Aventuras do Bolha: Collector´s Room é a nossa casa!


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Mais uma charge do nosso alter-ego, o Bolha, produzida pelo nosso colaborador Prof Borges. Estou pensando em fazer uma camiseta com essa arte. O que vocês acham?

E outra: com quem da nossa comunidade o Bolha mais se parece?


Discos Fundamentais: Herbie Hancock - Head Hunters (1973)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Um dos músicos mais populares e influentes da história do jazz, Herbert Jeffrey Hancock nasceu em Chicago em 1940 e desde cedo esteve em contato com a música. Aos sete anos Herbie já estudava música clássica, e aos onze deixou boquiabertos todos que presenciaram sua performance tocando o "Concerto para Piano Número 5 em D Menor" de Mozart, ao lado da Orquestra de Chicago.

Como outros prodígios do gênero, o jovem Herbie nunca teve um professor que lhe ensinasse os fundamentos práticos e teóricos do jazz. Hancock se interessou pelo gênero ao entrar em contato com gravações de Oscar Peterson e George Shearing. Extremamente atraído pelas contruções harmônicas e melódicas do estilo, se embrenhou no estudo teórico das composições de Peterson, Shearing e outros nomes fundamentais, principalmente Miles Davis e John Coltrane.

A carreira de Herbie Hancock tomou um novo rumo quando, em 1963, juntou-se ao novo grupo de Miles, considerado pelos críticos como o "segundo grande quinteto" do trompetista. Ao seu lado estavam o baixista Ron Carter, o baterista Tony Williams (então com apenas 17 anos) e Wayne Shorter no saxofone. A parceria com Miles rendeu ótimos frutos para os dois lados, com o trompetista gravando mais alguns capítulos fundamentais da história do jazz ao lado de Herbie, como
In a Silent Way (1969), A Tribute to Jack Johnson (1971) e On the Corner (1972).

Mesmo quando estava ao lado de Davis, Herbie Hancock já dava seus próprios passos lançando uma série de discos solos. Entre eles, merecem atenção especial
Inventions and Dimensions de 1963, Empyrean Isles de 1964 e Maiden Voyage de 1965. Mas foi apenas em 1973 que Herbie passou de um excelente instrumentista para um dos músicos mais importantes e influentes do jazz. O culpado por essa transformação foi Head Hunters.

Lançado em 13 de outubro de 1973,
Head Hunters é um dos álbuns mais vendidos da história do jazz, ao lado de clássicos como Time Out do Dave Brubeck Quartet e Bitches Brew de Miles Davis. São apenas quatro faixas, mas que valem muito.

O groove contagiante de "Chameleon" abre o disco de forma sensacional. São quase dezesseis minutos hipnóticos, com camadas sonoras se sobrepondo umas às outras, construindo uma faixa que, já em seus primeiros momentos, antecipa a maravilha que Herbie Hancock e sua gangue nos prepararam. O início doce de "Watermelon Man" mantém o nível nas alturas, introduzindo um funkaço de rachar o chão. O entrosamento do quinteto é absurdo, com cada músico entregando algumas das melhores performances de suas carreiras.

"Sly" e "Vein Melter" completam a bolacha com mais ritmos animais, harmonias que fogem do comum e arranjos complexos que conseguem a proeza de soar simples aos ouvidos. Herbie Hancock usa toda a sua técnica espetacular para compor um trabalho que pega as raízes da música negra, pesca elementos das ruas, mantendo toda a autenticidade e a força do funk, mas acrescentando um requinte que poucas vezes esse gênero alcançou em sua história.

Maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!!! E tenho dito.

Faixas:
A1. Chameleon - 15:41
A2. Watermelon Man - 6:29

B1. Sly - 10:18
B2. Vein Melter - 9:10


Discoteca Básica Bizz#050: The Clash - London Calling (1979)


(Ana Maria Bahiana, Bizz#050, setembro de 1989)

Três anos depois do verão punk, o
establishiment pop ainda lambia suas feridas. Aqueles Sex Pistols de Malcolm McLaren eram uma brincadeira de mau gosto? E - impensável - se eles fossem importantes, mesmo sendo uma brincadeira de mau gosto? Aliás, se tudo aquilo fosse importante exatamente por ser uma bricadeira de mau gosto?

Desde os Beatles, os anos sessenta e a politização/psicodelização do rock, a indústria não via questões tão profundas e tão graves ameaçando as regras do (seu ) jogo. A primeira metade dos anos setenta trouxe uma paz confortadora, em que bons negócios eram possíveis com um mínimo de tumultos e confrontos. A indústria tinha um produto de aceitação certa e imediata, e os consumidores pareciam felizes. Por que e de onde vinha essa insurreição? E que momento péssimo haviam escolhido para atacar: exatamente quando, dos clubes gay underground, a disco music avançava sobre as hordas de adolescentes. Mas o pior ainda estava por vir: em 1979 o
establishiment descobriu que a rebelião tinha um cérebro além de uma voz. E foi London Calling, do Clash, que proclamou isto.

O Clash surgira na primeira hora do verão londrino de 1976, reunindo Joe Strummer, com uma carreira de performances no metrô e à frente de uma banda de pubs (os 101'ers); Paul Simonon, um estudante de arte que jamais havia pegado num baixo; e Mick Jones, que também vinha da cena de pubs. Primeiro Tory Crimes, e depois com Topper Headon na bateria (e por pouco tempo com o guitarrista Keith Levene, futuro PIL, completando um quinteto), o Clash abriu concertos dos Pistols em 1976 e, um ano depois, assinou um contrato vultoso para a época, com duzentos mil dólares de adiantamento. 

Os dois primeiros discos desse contrato, The Clash (1977) e Give'Em Enough Rope (1978) - já revelavam claramente o que o Clash pretendia: de dentro da barragem alucinante de decibéis erguida por Jones, Strummer cantava articuladamente uma inquietação social e política que os Pistols conheciam, mas tratavam com um ódio brutal e amorfo. Mas, na época, a forma triunfou sobre o conteúdo, iludindo a todos, sem sequer antecipar o que seria London Calling.

Lançado em meados de 1979, o disco foi um clarão de lucidez e coerência que nem o rock nem o Clash conheceriam depois. As dezenove faixas do álbum duplo - a última, "Train in Vain", não está creditada na capa - interligam-se para formar ao mesmo tempo um painel da Inglatera sobre Margaret Thatcher - relutantemente multirracial, bacia de fermentação de ódios e frustrações - e de um mundo apenas aparentemente sob controle, mas impulsionado por armas, drogas e guerras sob encomenda. A música tem uma riqueza de texturas que o punk desconhecia. O Clash canta o ska e o reggae pesado da Londres negra ("The Guns of Brixton", "Rudie Can't Fail". "Wrong Em Boyo") e puxa o longo fio ancestral que vai até os anos cinquenta ("Brand New Cadillac") e o jazz ("Jimmy Jazz").

O impacto de
London Calling abriu clareiras em todas as frentes. Para as platéias punk ele disse que a fúria podia e devia ser organizada, e que a lucidez e a curiosidade eram as únicas saídas estéticas possíveis antes da caricatura e da dissolução. Para o resto do público, o álbum restaurou a fé num gênero em visível decadência, o rock. Para o próprio Clash o disco foi a bateria energética que o impulsionou freneticamente durante um inacreditável par de anos - e o álbum triplo Sandinista! (1980) - até caírem exaustos ao chão das realidades mesquinhas do business, ícaros modernos deixando no ar o traço do seu vôo.

Faixas:
A1. London Calling - 3:19
A2. Brand New Cadillac - 2:09
A3. Jimmy Jazz - 3:51
A4. Hateful - 2:47
A5. Rudie Can't Fail - 3:26

B1. Spanish Bombs - 3:18
B2. The Right Profile - 4:00
B3. Lost in the Supermarket - 3:47
B4. Clampdown - 3:50
B5. The Guns of Brixton - 3:07

C1. Wrong 'Em Boyo - 3:10
C2. Death or Glory - 3:55
C3. Koka Kola - 1:45
C4. The Card Cheat - 3:51

D1. Lover's Rock - 4:01
D2. Four Horsemen - 3:00
D3. I'm Not Down - 3:00
D4. Revolution Rock - 5:37
D5. Train in Vain - 3:11


08/04/2009

Nova edição da revista Rio Rock & Blues


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A revista Rio Rock & Blues está com nova edição no ar. A publicação, que é editada pelo nosso colaborador Ugo Medeiros, traz este mês capa com o Blind Faith, banda formada por Eric Clapton, Ginger Baker e Steve Winwood. Ainda há matérias sobre Frank Zappa - review do álbum
Hot Rats, escrito por mim -, The Raconteurs, Pat Martino e uma entrevista com o guitarrista texano Buddy Whittington.

Para ler a revista, basta clicar aqui.

E boas novidades estão a caminho, já que em breve a revista será impressa! 


Miles Davis - Pangaea (1976)


Por Tiago Rolim
Colecionador
Collector´s Room

Quando nós pensamos em discos irmãos, sempre vem à mente álbuns de rock, como por exemplo,
Rubber Soul e Revolver dos rapazes de Liverpool (se você não sabe quem são, lamento), Use Your Illusion I e II do Guns´N Roses, os famigerados Load e Reload do Metallica, entre outros, certo?

Mas existem outros discos que podem ser considerados irmãos pelas mais diversas razões, tais quais os citados acima, mas nenhum deles são ao vivo,
live albums. Este, assim como seu “irmão”, é ao vivo, e como. Estou falando dos ábuns Pangaea e Agharta de Miles Davis, ambos lançados em 1976 e gravados no mesmo dia, em 1º de fevereiro de 1975. Enquanto Agharta foi gravado na tarde desse fatídico dia, Pangaea foi registrado à noite. O Agharta já foi muito bem resenhado aqui antes, então vou me ater ao Pangaea.

Enquanto o
Agharta, assim como uma tarde, é quente, rápido e transpira frescor, é impressionante, como em questão de horas, tudo muda. Pangaea é um disco longo até para os padrões de Miles Davis. Composto de apenas duas músicas, onde a menor beira os 42 minutos de duração, ele transborda dor e sofrimento em seus sulcos. Não foi à toa que, depois desses shows, Miles se retiraria da música por seis anos.

As faixas que compõem o disco são, por ordem, "Zimbabwe" e "Gondwana". Pelos títulos se vê que ele estava mergulhado em suas raízes africanas, o que fica claro no som, repleto de percussões alucinadas, cortesia da dupla Mtume e Al Foster, respectivamente percursionista e baterista de Miles à época.

Enquanto "Zimbabwe" é mais energética, começando com um violento solo de bateria e guitarra, fazendo a cama para o bruxo entrar apavorando como sempre e levando a faixa, e os músicos, até os limites do inferno, resgatando ambos momentos depois para novamente guiá-los por diferentes caminhos até que, enfim, ele se acalma e lentamente vai sumindo em nossos ouvidos, depois de 42 minutos que passam voando.

No segundo disco, "Gondwana" tem um começo calmo com uma flauta, mas aos poucos se torna densa e aflitiva, sendo possível até mesmo escutar a voz de Miles reclamando de algo em pleno palco. Mais uma vez fica claro o poder hipnótico de Miles Davis, pois a música não cansa, mesmo tendo 46 minutos de duração. Mesmo nos momentos atonias e mais espaçados ele prende sua atenção com um talento incomum. Esta faixa, e o disco por tabela, terminam de uma maneira aflitiva e densa, como um som irritante de uma alma gemendo, chorando, pedindo socorro.

Pangaea e Agharta são o limite da fase elétrica de Miles Davis. Aquilo que começou discretamente em Neferetti (1968) e evolui em In a Silent Way (1969) foi se tornando um monstro que encontrou sua morte em fevereiro de 1975. Daí em diante Miles se retirou da música, voltou, mas nunca mais encontrou este monstro novamente.

Faixas:
A. Zimbabwe Part 1

B. Zimbabwe Part 2

C. Gondwana Part 1

D. Gondwana Part 2


Discos Fundamentais: War - The World is a Ghetto (1972)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O War foi um dos mais importantes grupos da black music setentista. Formada em 1969 em Los Angeles, a banda conseguiu unir em seu som elementos de rock, funk, jazz, música latina, blues e reggae, construindo uma sonoridade única e muito influente.

O maior sucesso do War, "Low Rider", é figura fácil nas coletâneas dedicadas aos anos setenta. Você já ouviu essa música, mesmo que pense não conhecê-la. O Barão Vermelho, uma das principais bandas de rock do Brasil, surrupiou a levada e a melodia de "Low Rider", usando-a como base (não creditada) de sua releitura de "Malandragem Dá Um Tempo", popular na voz de Bezerra da Silva.

"The World is a Ghetto" é o terceiro disco do War, e chegou ao mercado em novembro de 1972. Nele, as experimentações do grupo com variados gêneros musicais ficam ainda mais evidentes. "The Cisco Kid" abre o álbum fundindo funk e música latina, em uma batida pra lá de contagiante. Já "Where Was You At" é funk da melhor estirpe. O jazz bate cartão na longa e hipnótica "City, Country, City", carregada com uma musicalidade chapante. 

"Four Cornered Room" é um funk jazz atmosférico, enquanto "The World is a Ghetto" batiza o disco e, além de mostrar a visão de mundo do grupo, tem uma sessão de metais inspiradíssima, caindo em uma levada relaxante que chega a lembrar Barry White em certas passagens. O LP fecha com "Beetles in the Bog".

Algumas curiosidades a respeito de "The World is a Ghetto": a revista
Rolling Stone classificou o disco na posição 449 de sua lista sobre os 500 maiores álbuns de todos os tempos; e, para os audiófilos e colecionadores, o LP foi lançado em uma versão quadrofônica (Cat# UA-DA178-H), bastante rara hoje em dia.

Discaço de uma banda que merece respeito e reverência até hoje.

Faixas:
A1. The Cisco Kid - 4:35
A2. Where Was You At - 3:25
A3. City Country City - 13:18

B1. Four Cornered Room - 8:30
B2. The World is a Ghetto - 10:10
B3. Beetles in the Bog - 3:51


Discoteca Básica Bizz#049: Tom Zé - Estudando o Samba (1976)


(Ayrton Mugnaini Jr., Bizz#049, agosto de 1989)

O Brasil é a casa onde os santos menos fazem milagres, uma estranha espécie de instituto de pesos e medidas em que a cultura brasileira é "brega" e qualquer rebotalho estrangeiro é cultuado incondicionalmente. O que menos se macaqueia de fora é a ausência de preconceitos musicais, sendo um belo exemplo disso o nosso amigo David "Talking Heads" Byrne, sempre atento aos sons de todo o planeta, e que não conteve a sua admiração ao conhecer o trabalho de Tom Zé (uma espécie de seu equivalente brasileiro, pois, não tão mal comparando assim, ele poderia ser considerado um "David Byrne que não deu certo", que nunca teve o apoio de uma grande gravadora), mais precisamente a partir deste LP.

Tom Zé, para quem não se lembra, veio da Bahia junto com Caetano, Gal e Gil, sendo tão importante quanto eles, mas não tão famoso, por uma série de fatores: além de sempre ter sido mais caseiro - deixando escapar a chance de se projetar em Londres com eles, e se fixando em São Paulo numa época em que tudo parecia acontecer no Rio -, Tom Zé nunca sofreu a compulsão de se curvar perante os modismos ou pendurar melancia no pescoço para aparecer. Além disso, ele sempre gravou por selos menos fortes que as gravadoras multinacionais (Rozemblit, RGE, Continental, exceto um obscuro primeiro compacto e algumas faixas inéditas pela RCA, em 1965), conseguindo fazer apenas sete LPs durante dezesseis anos, quase todos grandes raridades. E este
Estudando o Samba é o menos comercial deles.

Tom Zé - normalmente eclético e flertando com diversos gêneros de música popular - fez deste LP um verdadeiro curso de samba, em todos os seus andamentos, estilos e épocas, sempre filtrando-os por sua ótica pessoal: o samba de morro (na faixa "Se"), o samba amaxixado do inicio do século ("Você Inventa") e o sambão ("Tô"). Mas ele também enveredou pela bossa nova em "A Felicidade", de Tom e Vinícius - a única faixa do disco não composta por Tom Zé e transformada em uma "bossa-valsa"! -, e até pelo minimalismo, com um pé no rock e outro nas ladainhas do norte/nordeste (não fosse Tom Zé um bom baiano), como demonstrou em "Mã", a música que incluía os famosos cavaquinhos em afinações estranhas, marcando obsessivamente o ritmo.

Em seu estudo do samba, Tom Zé se revelou um aluno exemplar. Aquele que até chega a ensinar algo aos mestres, alguns dos quais, por sinal, participam do disco: Heraldo do Monte no violão e guitarra, o maestro José Briamonte nos arranjos orquestrais, o sambista Elton Medeiros na parceria em duas faixas ("Tô" e "Mãe Solteira"), e o percussionista Téo da Cuíca (tocando tambor d'água e outros instrumentos de sua invenção).

Já as letras de Tom Zé formaram um capítulo à parte, em que ele esbanjou sua ironia, provocação e irreverência, como em "Tô" ("
Tô te explicando pra te confundir / Tô te confundindo pra te esclarecer"), "Se" ("Ah! Se maldade vendesse na farmácia / Que bela fortuna você faria... Me contem / Como escrever de novo / Um jornal de ontem"), "Você Inventa" ("Você inventa Deus e eu invento a fé / Você inventa o pecado e eu fico no inferno") e até mesmo os momentos mais líricos, como "Mãe Solteira" ("Dorme, dorme meu pecado / Minha culpa, minha salvação").

O próprio Tom Zé iria relembrar posteriormente que, na época, Heraldo do Monte não conteve uma expressão de espanto semelhante à feita por David Byrne, doze anos depois, ao conhecer a originalidade de seu trabalho. Pois bem, quem se dispuser a estudar o samba tem que obrigatoriamente consultar este LP, no qual Tom Zé defendeu brilhantemente a sua tese sobre a versatilidade, a energia e a eternidade do gênero.

Faixas:
A1. Mã - 3:56
A2. A Felicidade - 3:18
A3. Toc - 2:59
A4. Tô - 2:50
A5. Vai (Menina Amanhã de Manhã) - 2:19
A6. Ui! (Você Inventa) - 3:02

B1. Dói - 3:33
B2. Mãe (Mãe Solteira) - 3:43
B3. Hein? - 3:42
B4. Só (Solidão) - 4:27
B5. Se - 2:30
B6. Índice - 1:26


07/04/2009

Castiga! - A estreia do funk espacial do Parliament / Funkadelic


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

Rápido e certeiro, a dica da vez é o álbum Osmium (1970), estréia do Parliament, clássica trupe formada em Detroit e comandada por Mr George Clinton. Lembro que quando achei este LP mal pude acreditar que a busca de anos havia terminado: vinil lacrado de 180 gramas, prensagem italiana impecável, capa dupla, encarte … e de “brinde” uma coleção de grandes canções. Quem conhece os discos do Parliament e do Funkadelic não tem dúvidas em apontar George Clinton como um dos maiores inovadores do funk, ao lado de James Brown e Sly Stone, outros monstros sagrados do estilo.

No que diz respeito à carreira de George Clinton, The Parliaments foi a primeira encarnação musical sob custódia do genial produtor, compositor e arranjador americano. Inspirado nos Temptations, o grupo vocal de doo-wop foi criado na segunda metade dos anos cinquenta, em New Jersey, e costumava se apresentar na barbearia onde Clinton trabalhava. Depois de algumas alterações, a formação com Clinton, Raymond Davis, Clarence Fuzzy Haskins, Calvin Simon e Grady Thomas se estabilizou. A trupe atravessou os anos sessenta realizando apresentações não só na barbearia de New Jersey, como também em bares e clubes noturnos de Detroit. Nesse compasso, o grupo acumulava gravações demos, singles fracassados e mudanças de gravadora.


Em 1967 o quinteto finalmente conseguiu emplacar o primeiro hit nas paradas norte-americanas, com o single “(I Wanna) Testify”, tema lançado em compacto pelo selo Revilot. Mas a alegria dos rapazes com o sucesso repentino durou pouco. Em 1968 a poderosa gravadora Motown comprou o pequeno selo e conquistou todos os direitos autorais da canção, deixando a trupe sem música, sem nome, sem selo e, o que é pior, sem grana. Só quando George Clinton assinou com os selos Invictus (que contratou o Parliament, já com a pequena alteração no nome) e Westbound Records (que acolheu sua nova criação, o Funkadelic) é que a doutrina P-Funk se estabeleceu e se solidificou.

A partir daí fica difícil desassociar o coletivo Parliament / Funkadelic. Duas indústrias sonoras com características diferentes, mas objetivos bem comuns: fabricar o groove em escala espacial. De um lado o Funkadelic, estremecendo os alicerces do funk com seu som experimental, pesado e psicodélico, totalmente influenciado pelo balanço black ‘n’ roll de Sly & Family Stone e pela guitarra ácida de Jimi Hendrix. Do outro, o Parliament, trazendo uma estrutura sônica mais acessível, com uma levada mais dançante e funky, onde as linhas de baixo e os metais aparecem com maior destaque do que as guitarras.


Na metade dos anos setenta, a sonoridade do coletivo se aproxima de tal forma que fica difícil diferenciar uma banda da outra. Um fator que contribuiu para essa equação foi a união dos integrantes das duas facções para celebrar, por diversas vezes, a instituição P-Funk. Shows intermináveis e apresentações energéticas que poderiam durar até o amanhecer, contando em média com mais de vinte integrantes. Só para se ter uma idéia, algumas apresentações contavam com até cinco guitarristas, dois tecladistas, dois bateristas e dois baixistas, além dos vocalistas e da tropa de metais (no caso, os Horny Horns de Fred Wesley e Maceo Parker). Acrescente a isso tudo cenários e figurinos surreais (óculos futuristas, chapéus de todos os formatos, perucas espalhafatosas, calçados com saltos enormes, capas e plumas coloridas, maquiagens). Doideira geral!

Mas voltando a falar sobre o álbum
Osmium, a formação que marca a estréia do combo Parliament agrupava o famigerado quinteto vocal das antigas (Clinton, Raymond Davis, Fuzzy Haskins, Calvin Simon e Grady Thomas), mais o reforço do pessoal do Funkadelic para incrementar as gravações: Bernie Worrell (teclados); Eddie Hazel (guitarra solo); Tawl Ross e Garry Shider (guitarra rítmica); William ‘Billy Bass’ Nelson (baixo); e Tiki Fulwood e Tyrone Lampkin (bateria). Vale lembrar que o lendário baixista William “Bootsy” Collins, só entraria para turma de Mr Clinton em 1972, participando ativamente das duas agremiações. Mais P-Funk que isso, impossível! 


Musicalmente falando, o álbum mostra uma eclética coleção de estilos, com George Clinton maquinando as bases para futuros temas do Funkadelic. Na verdade, o que se ouve é um som bem diferente do balanço arrasa-quarteirão dos álbuns seguintes do Parliament. Está muito mais para um álbum do Funkadelic do que do Parliament. Um funk encharcado de psicodelia black power (“Moonshine Heather” e “Funk Woman”), com guitarras e vocais energeticamente poderosos (“I Call My Baby Pussycat” é uma das minhas preferidas), em meio a paródias country (sério mesmo, escutem “Little Ole Country Boy” ou “My Automobile” e comprovem) e repleto de corais e temas gospel (“Oh Lord, Why Lord / Prayer”, “Livin’ the Life” e “The Silent Boatman” são para entrar em transe espiritual).

Destaque para as belas vocalizações da trupe, além das sensacionais intervenções guitarrísticas de Eddie Hazel (que usa e abusa dos pedais de efeito) e dos teclados maneiros de Bernie Worrell. Um disco sensacional que não dá para desprezar nenhuma das faixas. 

Nos anos noventa, Osmium foi relançado e distribuído por diversos selos nos Estados Unidos, Europa e Japão. As novidades ficam por conta dos títulos alternativos na capa (Rhenium e First Thangs) e das faixas bônus (singles e trilhas) que foram subtraídas do álbum original. Vale a pena correr atrás não só deste mas de outros títulos orquestrados pela mente fantástica de George Clinton, simplesmente o Frank Zappa do funk. P-Funk rules!!!