11/07/2009

Discoteca Básica Bizz#121: John Lennon - John Lennon / Plastic Ono Band (1970)


(José Emilio Rondeau, Bizz#121, agosto de 1995)

Em 1970, John Lennon estava sofrendo de um acúmulo de tudo ao mesmo tempo, agora. Com os Beatles reduzidos a ruínas após anos musicalmente brilhantes, mas que deixaram os quatro ex-integrantes da banda marcados por um desgaste físico, psicológico e artístico de proporções inéditas no rock, Lennon via-se num momento de transição, no qual suas convicções pessoais, prioridades profissionais e emoções foram radicalmente reavaliadas.

Recém-saído de sessões de terapia primal em Los Angeles com o doutor Arthur Janov, que pregava a libertação emocional através da exteriorização de sentimentos reprimidos desde a infância, John era um nervo exposto armado de uma metralhadora giratória apontada para tudo que ele havia construído até então – seu trabalho, sua obra musical, suas alianças pessoais – e para aquilo que, no seu entender, aprisionava-o: a idolatria, as drogas, a política e, sobretudo, os Beatles.

Com a cabeleira raspada em um ato simbólico cheio de significados para a época, ele se apresentava não mais como o "
beatle ferino e mordaz" (que na verdade acabava sendo um produto de consumo em massa), mas como um herói da classe operária que emergia de um longo torpor induzido pela fama e muita grana. E chegava cheio de raiva.

Este disco veio de uma catarse pessoal tornada pública, sem paralelos no rock. Algo realmente chocante para o mundo daquele tempo, quando o tudo bem da geração paz e amor triunfava em Woodstock. Gravado da forma mais crua possível por Lennon e um reduzido núcleo de músicos (Klaus Voorman no baixo, Ringo Starr na bateria e Billy Preston nos teclados), o álbum se tornou tão imediato e urgente quanto a sua realização: no máximo uma ou duas passadas por música antes de ser gravada e entregue a Phil Spector para mixar. Ao invés dos arranjos elaborados que marcaram os últimos lançamentos dos Beatles, um som descarnado, brutal. Que, curiosamente, veio a ser registrado no estúdio Abbey Road, em Londres, onde o quarteto trabalhou em suas mais célebres gravações.

Nas letras das canções, em vez dos inteligentíssimos jogos de palavras que eram a marca registrada de John, estavam diatribes aliadas às confissões íntimas, nas quais Lennon tornava pública- pela primeira vez - a falta que sentia do pai (que o abandonou ainda bebê) e da mãe (morta quando ele era garoto). E ainda revelava o seu plano de ação para o futuro: "O sonho acabou", decretava ele na faixa "God", depois de avisar ao mundo que já não acreditava mais em Elvis, nem em Bob Dylan ou nos Beatles, apenas nele mesmo e em Yoko ; "isso é a realidade".

Até as canções de amor dedicadas à sua mulher teimavam em pingar algumas gotas de fel contra o mundo: "
Segure firme, Yoko", dizia ele nos versos de "Hold On", "tudo vai ficar bem, venceremos a luta".


Faixas:
A1. Mother - 5:29
A2. Hold On (John) - 1:49
A3. I Found Out - 3:33
A4. Working Class Hero - 3:44
A5. Isolation - 2:48

B1. Remember - 4:29
B2. Love - 3:17
B3. Well Well Well - 5:52
B4. Look at Me - 2:49
B5. God - 4:04
B6. My Mummy's Dead - 0:48


09/07/2009

Discoteca Básica Bizz#120: Nuggets: Original Artyfacts From the First Psychedelic Era 1965-1968 (1972)


(Paulo Cavalcanti, Bizz#120, julho de 1995)

Não é costume uma coletânea constar desta seção, só que
Nuggets: Original Artyfacts From the First Psychedelic Era 1965-1968 é uma honrosa exceção. O disco, compilado e idealizado por Lenny Kaye (crítico de rock e ex-marido e guitarrista do grupo de Patti Smith), virou sinônimo de determinado tipo de música e atitude, chamando a atenção para um importante extrato da cultura pop americana dos anos sessenta - as bandas de garagem.

Kaye foi audacioso ao lançar o disco. Em 1972, frescura e pretensão alcançavam o ponto máximo no rock. Então, por que levantar a bola de grupos imitadores, barulhentos, cujas canções mal chegaram às paradas? Bom, aí estava a graça.

Desde seu começo, o rock foi anti-social e espontâneo. Ninguém fez isso melhor do que estas bandas. E ponto final. No meio do anos 60, qualquer bando de garotos suburbanos americanos achava que poderia competir com a invasão britânica. Deixavam os cabelos crescer, compravam instrumentos vagabundos (guitarras Danelectro, com muito fuzz, e orgãos Farfisa) e arrumavam contratos com pequenas gravadoras. O que viesse pela frente era lucro.

Assim, tínhamos bandas xerocando Yardbirds com mais fúria do que o grupo original (The Shadows of Knight, The Count Five) ou ecoando Bob Dylan em sua fase rosnante (Mouse and The Traps). Se o trio The Strangeloves atacava com "Night Time" e The Blues Magoos iam de "Tobacco Road", The Knickerboxers faziam a melhor música que os Beatles não gravaram, a notável "Lies". Sem contar The Chocolate Watch Band detonando seu machismo adolescente em "Let´s Talk About Girls". E para escolher ao menos um grupo como exemplo daquela época, poderiam ser citados os arrogantes e censurados The Standells, presentes no disco com a canção "Dirty Water".

As drogas psicodélicas eram o combustível das bandas e o período deu ao rock´n´roll dois de seus cidadãos mais doidões: Roky Erickson (13th Floor Elevators) e Sky Saxon (The Seeds). Futuros superstars como Todd Rundgren e Ted Nugent tiveram o seu treinamento básico tocando com os grupos Nazz e The Amboy Dukes, respectivamente.

Para resumir a influência destas bandas: nos anos 60 o estilo já era chamado de punk rock e o termo garage band foi outra coisa que se ouviu muito a partir do começo dos anos 90.


A1 The Electric Prunes - I Had Too Much to Dream (Last Night) 2:55
A2 The Standells - Dirty Water 2:47
A3 The Strangeloves - Night Time 3:05
A4 The Knickerbockers - Lies 2:41
A5 The Vagrants - Respect 2:13
A6 Mouse and the Traps - A Public Execution 2:43
A7 The Blues Project - No Time Like the Right Time 2:49

B1 The Shadows of Knight - Oh Yeah 2:44
B2 The Seeds - Pushin' Too Hard 3:03
B3 The Barbarians - Moulty 2:29
B4 The Remains - Don't Look Back 2:35
B5 The Magicians - Invitation to Cry 2:55
B6 The Castaways - Liar, Liar 1:52
B7 The 13th Floor Elevators - You're Gonna Miss Me 2:24

C1 Count Five - Psychotic Reaction 2:56
C2 The Leaves - Hey Joe 2:47
C3 Michael & the Messengers - Just Like Romeo and Juliet 2:06
C4 The Cryan' Shames - Sugar and Spice 2:26
C5 The Amboy Dukes - Baby Please Don't Go 5:32
C6 The Blues Magoos - Tobacco Road 4:39

D1 The Chocolate Watchband - Let's Talk About Girls 2:41
D2 The Mojo Men - Sit Down I Think I Love You 2:16
D3 The Third Rail - Run Run Run 2:00
D4 Sagittarius - My World Fell Down 3:45
D5 Nazz - Open My Eyes 2:48
D6 The Premiers - Farmer John 3:46
D7 The Magic Mushrooms - It's-a-Happening 2:40


08/07/2009

Discoteca Básica Bizz#119: Steppenwolf - Steppenwolf (1968)


(Fernando Naporano, Bizz#119, junho de 1995)

Em sua autobiografia, John Kay diz: "
Estávamos encurralados numa sufocante imagem de uma banda de motoqueiros machões".

O estrondoso sucesso da canção "Bom to Be Wild", de certa forma, ofuscou a decisiva obra do quinteto Steppenwolf. Mas nunca é tarde pará redescobrir que, ladeando um tesouro musical - que se alinhou como um hino de escapismo de uma época que despontava a guerra do Vietnã, os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King, mais a ascensão de Richard Nixon -, residia um autêntico oceano de maestria.

Criado a partir das cinzas do Sparrow, grupo que de 1965 a 1967 vestiu o blues e o folk nas mais chapadas improvisações, o Steppenwolf era pilotado através da voz gutural de Kay (nascido em 1944 na cidade de Tilsit, na ex-Alemanha Oriental, e exilado no Canadá a partir de 1958). O grupo lançou 21 compactos, nove álbuns originais, um disco ao vivo e quatro compilações. De 1967 a 1972, eles gravaram álbuns prolíficos (como 7, de 1970), conceituais (For Ladies Only, de 1971) e políticos (Monster, de 1969). E de 1974 a 1976 registraram esquecidas pérolas (vide Slaw Flux, de 1974), mas nada tão contundente quanto o primeiro álbum - Kay depois diria que eles jamais conseguiram recuperar o raw sound daquele disco.

Pura verdade. A bateria de Jerry Edmonton, os teclados de Goldy McJohn, o baixo de Rushton Moreve e a guitarra de Michael Monarch, junto à garganta de ferro de Kay, profetizavam diretrizes para o heavy rock, enaltecendo e tranfigurando o blues e - como decór - se lançando numa psicodelia ocasional e cáustica.

À parte a imortal "Bom to Be Wild" (composição do ex-Sparrow Mars Bonfire, irmão de Jerry), haviam ainda recriações de clássicos ("Hoochie Coochie Man”, de Willie Dixon), resgate de gênios obscuros (“The Pusher”, controversa ode à maconha de Hoyt Axton), baladas existenciais (“Desperation”, que se transformou na mais brilhante cover do Humble Pie) e até pop psicodélico (“A Girl I Knew”).

Também foi neste álbum que Kay se afirmou como um real militante da contracultura. O meio-ambiente ("The Ostrich"), a liberdade ("Berry Rides Again") e o inconformismo ("Take What You Need") eram as pautas deste obstinado justiceiro que, mesmo na pior fase da sua vida - de 1980 a 1984, quando diversos impostores e ex-integrantes regurgitavam para se apropriar do nome do grupo -, defendeu a qualquer custo a sua imaculada concepção: um animal chamado Steppenwolf.


Faixas:
A1. Sookie Sookie - 3:17
A2. Everybody's Next One - 3:00
A3. Berry Rides Again - 2:52
A4. Hoochie Coochie Man - 5:15
A5. Born to Be Wild - 3:32
A6. Your Wall's Too High - 5:48

B1. Desperation - 5:47
B2. The Pusher - 5:52
B3. A Girl I Knew - 2:42
B4. Take What You Need - 3:31
B5. The Ostrich - 5:45


07/07/2009

Top#20 Roadie Crew Melhores Álbuns de Hard Rock e Heavy Metal


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A Roadie Crew, a principal revista brasileira dedicada ao hard rock e ao heavy metal, mantém um ranking dos melhores discos de hard e metal de todos os tempos.

Mas, ao contrário da imensa maioria das listas publicadas por aí, essa da Roadie Crew se diferencia devido a uma particularidade muito interessante: cada músico entrevistado pela revista cita quais seriam os seus cinco discos preferidos de todos os tempos, e daí esses votos são computados, gerando um top#20 com os álbuns mais citados, que seriam aqueles mais importantes segundo os próprios músicos de hard rock e heavy metal.

Apesar de não ter lá grandes surpresas e se limitar a um número bastante restrito de grupos, a lista é interessante e serve de parâmetro para saber, pelo menos, quais foram as bandas e os trabalhos mais influentes para toda uma geração de instrumentistas que agora está à frente de seus próprios conjuntos.

Vamos lá então:

1. Slayer - Reign in Blood (1986) - 155 votos
2. Metallica - Master of Puppets (1986) - 103 votos
3. Queensryche - Operation: Mindcrime (1988) - 89 votos
4. Iron Maiden - The Number of the Beast (1982) - 68 votos
5. Black Sabbath - Heaven and Hell (1980) - 59 votos
6. Morbid Angel - Altars of Madness (1989) - 58 votos
7. AC/DC - Back in Black (1980) - 56 votos
8. Iron Maiden - Piece of Mind (1983) - 53 votos
9. Iron Maiden - Powerslave (1984) - 49 votos
10. Judas Priest - Painkiller (1990) - 48 votos
11. Metallica - Black Album (1991) - 46 votos
12. Judas Priest - Screaming for Vengeance (1982) - 42 votos
13. Deep Purple - Machine Head (1972) - 42 votos
14. Van Halen - Van Halen (1978) - 42 votos
15. Dream Theater - Images & Words (1992) - 40 votos
16. Metallica - Ride the Lightning (1984) - 39 votos
17. Iron Maiden - Killers (1981) - 38 votos
18. Black Sabbath - Black Sabbath (1970) - 36 votos
19. Led Zeppelin - Led Zeppelin (1969) - 35 votos
20. AC/DC - Highway to Hell (1979) - 35 votos

E daí, o que você acha? Concorda com a lista, ou discorda completamente? Deixe a sua opinião nos comentários e participe.


Discoteca Básica Bizz#118: John Coltrane - A Love Supreme (1965)


(Jean Yves de Neufville, Bizz#118, maio de 1995)

Eleito Disco do Ano pela crítica especializada quando lançado, em fevereiro de 1965, consagrado hoje por jazz rappers (na coletânea
Red, Hot & Cool), A Love Supreme, a obra-prima de John Williams Coltrane (1926-1967), ultrapassa os limites de seu estilo e tem uma sintonia extraordinária com os anos oventa. Talvez por ser um exemplo raro de expressão da espiritualidade na música moderna, Coltrane permanece a grande referência de todo músico interessado em desenvolver as técnicas de improvisação e, com isso, expressar "algo mais" por meio de seu instrumento.

Nos anos cinquenta, John Coltrane cruzou seu sax tenor sucessivamente com os trompetes de Dizzy Gillespie e Miles Davis e com o piano de Thelonious Monk. Com o primeiro aprendeu a lidar com influências musicais do resto do mundo. Com o segundo chegou à perfeição formal de sua expressão, enquanto o terceiro ensinou-lhe a ousadia. Além de gravar discos tão importantes quanto
Kind of Blue (com Miles em 1959), Coltrane forjou uma técnica musical revolucionária que lhe permitiu explorar tonalidades nas escalas altas e desencadear avalanches de harmonias em níveis inéditos.

Fruto do trabalho de aprimoramento em conseguir alcançar estados de puro transe obsessivo, essa técnica de execução: (1) levou o instrumentista a tocar solos cada vez mais longos; (2) fez com que os músicos de seu conjunto tocassem simultaneamente linhas melódicas diferentes, o que acabou desembocando no free jazz, movimento do qual Coltrane foi mentor; (3) facilitou as combinaçães de sua música com as escalas orientais, as texturas sonoras e os ritmos vindos da Índia e da África.

Alternando o sax tenor e o soprano a partir de 1960, na busca de um leque maior de cores, Coltrane alcançou a plenitude artística ao formar seu quarteto definitivo: Elvin Jones (bateria), McCoy Tyner (piano) e Jimmy Garrison (baixo), algo expresso nas quatro peças de A Love Supreme, onde mescla a energia do bop e a suavidade do cool. Os temas criam uma nova ordem modal, onde silêncio, texturas e moods valorizam-se numa estrutura aberta, livre. Coltrane administra o caos para instaurar uma dimensão cósmica.

Trinta anos depois, as possibilidades do disco ainda estão para ser exploradas, quando o pop enfrenta um tremendo impasse criativo.


Faixas:
A1. A Love Supreme, Pt. 1: Acknowledgement - 7:39
A2. A Love Supreme, Pt. 2: Resolution - 7:15

B. A Love Supreme, Pt. 3: Pursuance / A Love Supreme, Pt. 4: Psalm - 17:40


06/07/2009

Mofo: Dead Kennedys


Rubens Leme da Costa
Colecionador

Que Johnny Rotten que nada! Se você quer saber quem foi o verdadeiro anti-cristo do rock, leia esse texto. Ninguém merece mais esse título do que Jello Biafra. Ninguém incomodou mais a conservadora e retrógrada sociedade norte-americana do que o ex-líder do Dead Kennedys. Jello foi (e ainda é) um dos maiores agitadores da cultura alternativa mundial, e por causa disso foi processado inúmeras vezes, inclusive por seus próprios colegas de banda, que lhe tomaram o nome do grupo e limparam seus bolsos. Em protesto a isso falarei apenas do período em que o Dead Kennedys teve Jello Biafra em seu line-up, porque o que sobrou dos Dead Kennedys é tão relevante quanto seria a volta dos Smiths sem Morrissey.

Se tem um cara que sabe incomodar é Jello Biafra. Líder da mais anarquista banda de todos os tempos, ele é também um dos maiores lutadores contra as grandes organizações multinacionais. Jello luta pelo utópico: melhor distribuição de renda, fim do racismo, da violência. Perto dele, Bono é apenas um seminarista.


Eric Boucher (seu nome real) sempre foi uma pessoa que resolveu lutar contra o sistema e a mediocridade. Jello (ou Eric) nasceu em Boulder, estado do Colorado, e, assim que conseguiu, largou a medíocre vida que levava.

Acabou parando em San Francisco, a meca dos hippies nos anos sessenta e um dos lugares mais improváveis para Jello, que odiava toda a mística dos anos 60´s - "Eu jamais consegui ser afetado ou gostar de Grateful Dead, um bando de velhos idiotas que ficam se drogando e masturbando suas guitarras" - e resolveu adotar o estranho codinome Jello Biafra após ler sobre a vergonhosa guerra civil na Nigéria, especialmente em Biafra, na Nigéria, que tentou se tornar independente em 1967, proclamando a República de Biafra. O resultado de tal ousadia foi o massacre da etnia dos ibos, que após 32 meses de batalhas, mortes e bloqueios resultou na morte de 1 milhão de pessoas e a perda da liberdade, em 1970.

E desde cedo Jello começou a se identificar com o espírito dos punks, embora não sentisse um paralelo com os grupos de então. "Eu comecei prestando atenção nos New York Dolls e em David Bowie, mas os Dolls eram muito coloridos para o público médio de heavy metal da América e não fizeram sucesso. Mas suas músicas eram simples e fáceis de serem tocadas, e sua postura agressiva me estimulou. Uma das minhas primeiras influências foi o Ramones, que vi em um show em Denver, no Colorado, abrindo para uma banda de merda chamada Night City, com uma plateia cheia de flores e que parecia formada por fãs do country de Joni Mitchell. Foi lindo ver Johnny colocando sua guitarra no volume dez e dando aqueles acordes avisando que estavam no palco. Mas a melhor coisa deles era passar aquela mensagem de que qualquer um de nós poderia fazer aquele tipo de som e que podíamos vencer toda aquela merda que imperava nas rádios."


Mas Jello não queria fazer parte de uma banda punk que falava apenas de namoradas e crises juvenis. Queria abordar temas políticos, incomodar, falar o que ninguém ousava. Dessa maneira, nascia em 1978 o Dead Kennedys com Jello nos vocais, Klaus Flouride (baixo), East Bay Ray (guitarra) e Ted (bateria). Logo também entraria um segundo guitarrista que seria conhecido apenas como 6025.


Desde o nome, o Dead Kennedys queria incomodar. Seu som era mais violento do que o dos Ramones, suas letras muito mais pesadas e Jello parecia que tinha tomado sucessivos choques elétricos antes de pisar no palco. Com seu gestual nervoso e não deixando a plateia um segundo em paz, o grupo começou a tocar pela região, e em 1979 lançou o explosivo compacto com as canções "California Über Alles" e "Man With the Dogs", onde desciam o pau no governador Jerry Brown.


O compacto chamou a atenção e o grupo lançou outro ainda mais poderoso, com "Holiday in Cambodia" e "Police Truck". Jello fez algo que chocou a conservadora sociedade norte-americana: lançou-se candidato à prefeito da cidade nas eleições, ficando em quarto lugar com mais de 6 mil votos. Entre suas propostas, queria que os policiais fossem escolhidos pela população e que os políticos se vestissem com roupas de palhaço.


Em 1980 assinam com a gravadora independente I.R.S. (que seria o primeiro lar do R.E.M.) e o mundo conhece a grande obra-prima do hardcore: Fresh Fruit for Rotting Vegetables. O disco é um petardo em todos os sentidos, começando pelas canções, com temas que falam de drogas ("Drug Me"), aluguel ("Let's Lynch the Landlord"), matança dos pobres ("Kill the Poor"), alistamento militar ("When Ya Get Drafted"), além, claro, de "California Über Alles" e "Holiday in Cambodia".

As letras eram de outro mundo; com sua ironia, cinismo e contundência, Jello mostrava o lado podre da América, aquele que não era mostrado na televisão. Mas o disco tinha um outro item especial: um belíssimo poster colorido que o grupo trabalhou durante 16 horas seguidas em sua confecção.

Jello era um caso raro entre os punks. Apesar de tanta raiva incontida, o cantor abominava o uso de drogas e não gostava das posturas radicais de seus fãs nos shows: "Às vezes a linha que separa os fãs do fascismo é muito tênue. Eu prego um rompimento com essa mediocridade, mas não prego a violência."

Logo após o lançamento, o baterista Ted sai, entrando D.H. Pelligro em seu lugar, um baterista negro e que gostava dos Dead Kennedys.


Mas Jello não queria ficar preso a um contrato com uma gravadora que considerava tão comercial quanto qualquer outra - "Assim que fizerem dinheiro serão apenas mais uma" - e resolve montar seu próprio selo, o Alternative Tentacles. "Eu não posso falar de algo alternativo e gravar por uma grande companhia como faz o Clash, que se diz um grupo político mas que só está interessado em dinheiro, drogas e sexo. Eu não trairia meus fãs dessa maneira."


Um dos motivos que fez Jello sair do selo foi o lançamento, pela I.R.S., do disco com uma capa toda laranja, o que o irritou o cantor. "Eles acabaram com a capa e fizeram isso sem nos avisar, apenas para venderem mais. Disseram que podiam fazer uma capa diferente para a edição americana e outra para a importada. Mandamos mudarem na hora." O grupo era representado na Inglaterra e Europa pela minúscula Cherry Red.


O primeiro lançamento pela Alternative Tentacles foi o EP In God We Trust Inc, em 1981. Enquanto isso, Fresh Fruit for Rotting Vegetables acabou fazendo furor na Europa, conseguindo ser disco de ouro na Inglaterra, e o compacto Too Drunk to Fuck / The Prey, lançado logo em seguida, ficou entre as 40 mais tocadas daquele país, apesar de ter sido banida das rádios.


O grupo colecionou uma grande confusão quando lançou um compacto pela Subterranean Records com a música "Nazi Punks Fuck Off", que estava no EP. A polêmica aconteceu por dois motivos: primeiro porque um apresentador de televisão chamado Phil Donahue afirmou que o grupo estava abraçando o nazismo. Mas Phil acabou sendo corrigido por um telespectador ainda ao vivo. E a segunda polêmica era a própria letra. Jello e os demais estavam cansados de ver os nazistas dizerem que eram fãs da banda e provocarem um festival de violência nos shows.


Em 1982 o grupo lançou seu segundo LP, Plastic Surgery Disasters, e resolveu dar um tempo. Jello aproveitou e começou a trabalhar sua gravadora para se tornar um nome forte no underground norte-americano e mundial, começando então a lançar várias coletâneas de bandas punks e hardcore, tornando-se um embaixador dos artistas independentes no mundo todo. Jello continuava sua luta pelo direito de expressão: "O termo punk é aceito como um termo perigoso e as pessoas gostam de dizer que o punk está morto, mas que as grandes bandas de rock não estão. O punk não morrerá até que algo mais perigoso o substitua. E isso irá demorar."

Os anos seguintes foram gastos com excursões e divulgação das idéias anárquicas do grupo. Mas Jello enfrentava também problemas dentro da banda. Por ser o único membro a não consumir drogas - "Elas são tão nocivas quanto a religião" - o vocalista enfrentava o estranhamento de seus colegas. E, pior, via vários fãs morrendo de overdose. "Algumas pessoas tentam se livrar das drogas indo para a religião. É uma postura ridícula. Você sai de um estado de alienação e entra em outro. A América é extremamente perigosa hoje. Esses malditos pastores de televisão se entopem de cocaína e depois ficam pregando e afirmando que estão vendo uma iluminação. Devem estar é viajando."


Ainda em 1982 a Alternative lança uma coletânea fundamental para a massificação do gênero na América, Let Them Eat Jellybeans, com as bandas novatas Black Flag, Flipper, Circle Jerks, Bad Brains e Voice Farm.

E já nessa época Jello começa a brigar com um outro tipo de pessoa que não o deixaria em paz: os pirateiros. Biafra reclamava que estava sendo roubado por gente do seu próprio meio, que vendia os direitos de seus discos, sem avisá-lo, para o estrangeiro, e faturava em cima. Um exemplo disso, segundo o cantor, foi o lançamento de Fresh Fruit for Rotting Vegetables no Brasil, quando ele já havia deixado a banda. "Quando me falaram que o disco havia saído no Brasil fiquei furioso, porque nunca me pediram autorização e não vi um centavo da grana."


Mas polêmica mesmo eles iriam arranjar com o próximo disco, Frankenchrist. E o grande motivo foi o poster interno. A banda tinha usado uma ilustração do artista suíço H. R. Giger chamada Landscape No. 20: Where We Are Coming From, onde havia ilustrações de pênis e ânus. Se a arte por si só já era ofensiva, tomou um rumo pior quando uma mãe pegou o disco que sua filha de 13 anos havia comprado para dar de presente a seu irmão de 11 e viu aquilo.


Imediatamente a banda se viu no maior processo criminal de sua carreira, e que se arrastaria por dois anos. Processados por obscenidade e por distribuição de pornografia a menores, o Dead Kennedys parou suas atividades, assim como o selo.

Jello foi violentamente acordado, teve sua casa invadida por policiais, foi preso e cópias do disco foram apreendidas. Foi também vetada a prensagem de novas cópias do álbum. Mas Jello não aceitou e resolveu literalmente ir pro pau, sendo um dos fundadores da No More Censorship Defense Fund, uma organização que lutava pelo direito de expressão e que tentava juntar artistas que também sofriam esse tipo de perseguição. O apoio veio basicamente de jovens e gente desconhecida, mas virou manchete quando três nomes importantes apoiaram sua luta: Frank Zappa, Little Steven e Paul Kantner.


A luta durou dois anos e nesse meio tempo o Dead Kennedys lançou o último disco com Jello, em 1986,
Bedtime for Democracy, que se mostrou uma decepção. A tensão do processo e as brigas internas resultaram em um disco fraco.

Em 1987 Jello conseguiu o que tanto queria: a absolvição. Por 7 votos a 5 foi considerado inocente, vencendo sua alegação com a afirmação de que o encarte estava dentro do contexto artístico do disco, e que o grupo não estava obrigando ninguém a comprar seu trabalho.


Mas o Dead Kennedys já não existia mais e Jello Biafra iniciou a sua carreira-solo fazendo shows por conta própria, já que os demais integrantes não o suportavam mais. Ainda nesse ano saiu uma coletânea editada pelo cantor,
Give Me Convenience or Give Me Death.

Jello saiu do julgamento como o grande vencedor, além de ter virado um herói (literalmente falando) dos mais fracos. Mas o que ele não esperava é que, anos depois, quando o grupo não mais existia, fosse enfrentar um outro julgamento contra seus ex-companheiros. Os demais integrantes alegavam que Jello não havia pago corretamente os direitos autorais anteriormente e o processaram, mesmo tendo sido feito um acordo, com o cantor admitindo a contabilidade errada e os ressarcindo. Ainda assim, os demais contrataram um advogado especializado em direitos autorais e pleitearam (e venceram) um processo em que levaram US$ 200 mil.

Jello respondeu, irônico, que eles pagaram o advogado com o próprio dinheiro que ele havia desembolsado para acertar com os outros músicos. Por causa disso foi criado até um site chamado
Dead Kennedys News, onde os demais músicos (que ficaram com o nome) mostram todos os passos do processo, e, não satisfeitos, saíram maculando o legado com shows em que aparecem com um cantor qualquer e faturando em cima do legado.

Mas essa parte não entrará aqui por respeito a Jello. Um abraço e até a próxima coluna.


Castiga!: a brilhante tacada de estreia do Babe Ruth


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

First Base do Babe Ruth é daqueles discos que me conquistaram logo na primeira orelhada. O álbum, lançado pelo selo Harvest (EMI) em 1973, é a brilhante estreia da banda inglesa de Hatfield, e traz em suas seis faixas uma interessante combinação de estilos, reunindo características do hard rock, rock progressivo, jazz e música pop.

Criado em 1971 pelo guitarrista Alan Shacklock e conhecido inicialmente como Shacklock, o grupo logo teve seu nome alterado para Babe Ruth em homenagem ao lendário jogador de baseball norte-americano George Herman “Babe Ruth”. Mudanças no line-up, cinco discos oficiais lançados entre 1973 e 1976, um longo recesso e o retorno em 2002 – quando começaram a compor o álbum Que Pasa, só finalizado em 2006. O certo é que o combo nunca mais alcançou o mesmo nível de qualidade musical de First Base.


A formação neste debut discográfico incluia Alan Shacklock (guitarra, vocais, órgão e percussão), Janita “Jenny” Haan (vocal), Dave Hewitt (baixo), Dick Powell (bateria e percussão) e Dave Punshon (piano e piano elétrico). Outros músicos que marcaram presença no Abbey Road Studios, em Londres, foram Gaspar Lawal (congas, bongos, kabasa), Brent Carter (saxofone) e Harry Mier (oboé), além de um quarteto de violoncelistas composto por Peter Halling, Clive Anstee, Manny Fox e Boris Rickleman.

Com arranjos bem estruturados, a arquitetura sonora era moldada por uma cozinha robusta, passagens sutis e estilosas de teclados, riffs e frases precisas a cargo do guitarrista Alan Shacklock (que também fez os arranjos e escreveu boa parte das composições) e, claro, pelo poderoso e marcante vocal de Janita Haan. Seu canto, pode-se dizer, é algo próximo de uma mistura dos timbres vocais de Robert Plant e Janis Joplin. Um arraso!


O álbum abre com a faixa “Wells Fargo”, numa pegada hard rock mas com piano elétrico constante, intervenções maneiras de sax e um instrumental refinado que dá um revigorante aspecto jazzístico à composição. “The Runaways” tem estruturas harmônica e melódica de intensa beleza, realçadas por instrumentos de cordas, oboé e o piano elétrico de Punshon. Agora a voz expressiva de Janita Haan passeia em meio a uma balada mezzo folk, mezzo progressiva, com uma sonoridade que se assemelha aos conterrâneos do Renaissance. Nesta faixa primorosa, a bateria é pilotada por Jeff Allen. Encerrando o lado A do vinil, uma versão simples e honesta de “King Kong” – obra de Frank Zappa, gravada com o Mothers of Invention originalmente no álbum Lumpy Gravy (1968) e retomada com maior consistência no duplo Uncle Meat (1969). Um clássico zappiano gravado sem nenhum overdubbing ou qualquer tramóia eletrônica, conforme indica a contra-capa do disco. Grande homenagem ao mestre!


O lado B tem início com “Black Dog”, outra bela canção interpretada de forma sublime por Janita, que mais uma vez é muito bem assessorada por teclados, guitarra e uma condução rítmica impecável. Mas o maior destaque do álbum é a faixa “The Mexican”, trazendo à tona a clássica “Per Qualche Dollaro in Piu”, tema western spaghetti do compositor e maestro italiano Ennio Morricone, numa versão original e simplesmente espetacular. Não é exagero afirmar que esta é uma das minhas músicas prediletas em todos os tempos. Fechando o disco, “Joker” engatilha outro hard rock fulminante, com ótimos fraseados e riffs de guitarra, base percussiva animal e a voz contundente de Janita – aliás, bem parecida também com o timbre da vocalista Inga Rumpf, da banda alemã Frumpy. Sonzeira!

Apesar das críticas favoráveis na época de seu lançamento o álbum obteve pouco sucesso comercial na Grã-Bretanha, só alcançando relativo sucesso nos Estados Unidos e no Canadá.


A capa (com um desenho futurista que sugere uma partida de baseball em pleno espaço sideral ou, quem sabe, na escuridão do fundo do mar) tem a assinatura de ninguém menos que Roger Dean, o cultuado designer e ilustrador inglês, responsável pela criação de capas antológicas de álbuns do Yes, Uriah Heep, Budgie, Greenslade, Osibisa, Atomic Rooster e Asia, entre tantos outros grupos de respeito. É só a embalagem de uma obra indispensável para os amantes da boa música e item obrigatório numa coleção de respeito. Já tinha o CD velho de guerra e no começo do ano consegui o vinil original (made in Canadá) em excelente estado e por um preço pra lá de camarada. Tacada de mestre!


Discos Esquecidos: Target - Target (1976)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Cotação: ***

Discos Esquecidos é a nova coluna da Collector´s Room, e nela falaremos de álbuns perdidos no tempo, conhecidos apenas por poucas pessoas e, muitas vezes, renegados até pelos seus próprios autores.

Então, tire a poeira da vitrola e venha nessa viagem pelo tempo com a gente!

O Target foi a primeira banda de Jimi Jamison, que ficou conhecido em todo o mundo quando esteve à frente do Survivor entre 1984 e 1989, um dos períodos de maior popularidade do grupo de Chicago, onde, embalados pela projeção da trilha do filme
Rocky IV, a banda conseguiu colocar o single "Burning Heart" no segundo posto da Billboard ("Eye of the Tiger" fez parte da trilha de Rocky III e foi incluída no disco com a trilha sonora da quarta aventura do personagem de Sylvester Stallone devido ao enorme sucesso que alcançou na terra do Tio Sam, chegando ao primeiro posto da Billboard. Aqui vale um lembrete: os vocais de "Eye of the Tiger", a canção mais famosa do Survivor, não são de Jimi Jamison, mas sim do vocalista original do grupo, David Bickler).

O som do Target é bastante diferente do hard rock de arena que o Survivor explorou quando Jamison esteve no grupo. Natural da região de Memphis, a banda fazia um hard bem direto e influenciado pelo southern rock, que naquela época vivia um período de grande exposição na mídia norte-americana, com o Lynyrd Skynyrd original à frente - só lembrando: o acidente que marcou a carreira dos pais do southern rock e tirou a vida do vocalista Ronnie Van Zandt e do guitarrista Steve Gaines aconteceria mais tarde, em 17 de outubro de 1977.

Nessa estreia do Target já se percebe o talento de Jimi Jamison, que canta com uma paixão arrebatadora, mostrando a técnica que desenvolveria mais tarde, até atingir o topo com o Survivor. Fica evidente também a atenção especial dada às guitarras de Paul Cannon e Buddy Davis, que duelam e arriscam até mesmo algumas harmonias com guitarras gêmeas na linha do Thin Lizzy e Wishbone Ash, mas, é claro, bem menos complexas.

Você vai ouvir no disco desde hardões como "Bad Boy" até momentos mais calmos, como a bela "Let Me Live", que foi lançada como single em 1976 e chegou até a dar certa projeção ao grupo. Outros boas faixas são "Just a Little to Much", "Can´t Fake It" (com um riff bem legal) e "Are You Ready" (outra que ganhou single).

O Target lançou mais um disco,
Captured, em 1977 (de onde saiu o single "It´s Only Love", daquele mesmo ano), e encerrou suas atividades em 1979. Até onde eu sei, os discos do grupo não ganharam versões em CD, mas eu posso estar enganado.

Jimi Jamison partiu para uma nova aventura, formando o Cobra, grupo que lançou apenas um LP, First Strike, em 1983, e logo depois foi para o Survivor fazer história.


Faixas:
A1. Love Just Won't Quit
A2. Bad Boy
A3. Let Me Live
A4. Just a Little Too Much
A5. Can't Fake It

B1. 99 ½
B2. You Need a Woman
B3. Let Me Down Easy
B4. Workin' Song
B5. Are You Ready

Line-up:
Jimi Jamison - Vocais
Paul Cannon - Guitarra
Buddy Davis - Guitarra
Tommy Cathey - Baixo
David Spain - Bateria

Álbuns:
Target (LP, A&M, SP 4607, 1976)
Captured (LP, A&M, SP 4652, 1977)

Singles:
Let Me Live (7" Vinyl, A&M, 1905, 1976)
Are You Ready (7" Vinyl, A&M, 1929, 1976)
It´s Only Love (7" Vinyl, A&M, 1995, 1977)


Podcast Collector´s Room#009


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Nova edição do podcast da Collector´s Room no ar.


Sugestões e dicas são sempre bem-vindas.

Deixem as suas opiniões nos comentários, e espero que vocês curtam-