08/08/2009

Discos Fundamentais: Ben Harper - Both Sides of the Gun (2006)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Diamonds on the Inside, lançado por Ben Harper em 2003, tornou o vocalista, guitarrista e compositor norte-americano conhecido pelo grande público brasileiro. O trabalho de qualidade que já era apreciado pelos fãs chegou aos ouvidos do ouvinte casual, através de hits como "She´s Only Happy in the Sun" e a faixa-título.

Pois então, no momento de maior exposição de sua carreira, Harper optou pelo caminho mais difícil, colocando o apelo pop de Diamonds on the Inside em segundo plano, embaixo do tapete. Both Sides of the Gun, lançado logo após o multi-platinado disco citado no parágrafo anterior, é um álbum duplo, dividido em dois CDs bastante distintos entre si.

No primeiro temos o lado acústico que sempre esteve presente nos trabalhos do cantor, e que no passado gerou clássicos arrepiantes e repletos de sentimento como "Another Lonely Day" e "Burn One Down". Os destaques deste CD vão para a bela "Morning Yearning" - dona de um belíssima arranjo -, "Never Leave Lonely Alone", "Picture in a Frame" e "Waiting For You".

Mas é no disco dois que estão os melhores momentos de Both Sides of the Gun. O lado elétrico do álbum mostra todo o talento de Ben Harper, que sabe unir como poucos influências de rock setentista, soul, reggae, blues e até jazz em seu caldeirão sonoro, resultando em uma sonoridade ímpar e pra lá de cativante. Aos menos avisados, fazendo uma comparação simplista para quem não conhece o trabalho de Harper, basta dizer que Lenny Kravitz soaria como ele se tivesse inspiração e muito mais, mas muito mesmo, talento.

O single "Better Way" abre esta segunda parte do trabalho, mas os destaques vão para a linda faixa-título, para o groove de "Gather´Round the Stone" - que remete aos cantos rurais dos escravos norte-americanos, que originaram o blues -, e para a sensacional "Black Rain", que canta em seus versos a tragédia causada durante a passagem do furacão Katrina por New Orleans, dizimando a cidade que é um dos berços da riquíssima música dos Estados Unidos.

Tradicionalmente, os álbuns de Ben Harper vêm se mantendo com um nível de qualidade alto.
Both Sides of the Gun mantém esta tradição, estando em pé de igualdade com outro disco sublime do cantor, Fight For Your Mind, de 1995. Para mim, o melhor registro desse genial artista, um dos poucos músicos que ainda colocam o coração na ponta dos dedos quando empunha o seu instrumento.

Fundamental é pouco!


Faixas:
CD 1
1 Morning Yearning 4:09
2 Waiting for You 3:33
3 Picture in a Frame 4:37
4 Never Leave Lonely Alone 2:52
5 Sweet Nothing Serenade 2:45
6 Reason to Mourn 4:26
7 More Than Sorry 3:23
8 Cryin' Won't Help You Now 2:35
9 Happy Everafter in Your Eyes 2:31

CD 2
1 Better Way 3:58
2 Both Sides of the Gun 2:44
3 Engraved Invitation 2:55
4 Black Rain 2:56
5 Gather 'Round the Stone 3:05
6 Please Don't Talk About Murder While I'm Eating 2:34
7 Get It Like You Like It 3:28
8 The Way You Found Me 2:53
9 Serve Your Soul 8:22


Discoteca Básica Bizz#144: Hüsker Dü - Warehouse: Songs and Stories (1987)


(Marcelo Orozco, Bizz#144, julho de 1997)

Uma grande banda que acaba antes da decadência e ainda faz uma obra-prima no último disco. Sonho de roqueiro obsessivo? Não, existiu o Hüsker Dü.
Warehouse: Songs and Histories saiu em 1987. O Dü foi para turnê, o empresário (David Savoy, um daqueles caras que colocam a tranqueira no furgão) se matou, o trio de Saint Paul (Estados Unidos) descobriu que não se topava mais e o óbito chegou. Mas em Warehouse, eles mandam bala naquilo que os Pixies souberam trabalhar depois - e que o Nirvana incorporou para se tornar a maior banda do mundo (em 1991, Bob Mould recusou o convite do então verdinho Kurt Cobain para produzir Nevermind. Sobrou para Butch Vig).

Desde 1979 o Dü capitaneava a legião “vamos-lá-na-raça" do rock independente. Os primeiros discos do trio formado por Bob Mould (guitarra, vocais), Grant Hart (bateria, vocais) e Greg Norton (baixo) não passavam de coices hardcore - em Land Speed Record (1981), seu álbum de estreia, eles executam dezessete canções em meros 26 minutos. Um dia o trio estalou que podia juntar barulho com uma sacada pop, coisa que outros nem sabiam (por preconceito, rebeldia ou falta de talento) que era possível, e acabou por entrar definitivamente na história do punk rock americano.

O Hüsker Dü foi uma das primeiras bandas pós-punk americanas dos anos 80 a assinar com uma grande gravadora - o império Warner o capturou em 1986. Depois de soltarem o belo (e surpreendentemente otimista) Candy Apple Grey, Mould e Hart abriram o registro para jorrar Warehouse.

O som do LP, segundo álbum duplo da carreira do Hüsker Dü (o primeiro foi a obra de barulheira conceitual
Zen Arcade), é de chorar. Paredes de guitarra mouldiana como reboco da cozinha firme de Norton e Hart, vocais humanos (de urros a sussurros) com harmonias bastardas dos Beatles. E coloridos de ritmo em que convivem valsa-punk ("She Floated Away"), 1-2-3-4 ramonesístico (a suprema "Could You Be the One") e rockabilly desnorteado ("Actual Condiction").

As letras seguram ainda mais. O Dü montou um mosaico da vida corriqueira: ansiedades, paixões em desenvolvimento e/ou mal resolvidas ("Could You Be the One", "Standing in the Rain", "Ice Cold Ice"), responsabilidades assumidas ("Charity, Chastity, Prudence and Hope"), desmoronamentos emocionais ("She Floated Away"), pequenas alegrias ("These Important Years").

Mould, homossexual discreto que se recusa a levantar bandeiras, tem sensibilidade para escrever feridas abertas que se aplicam a heteros, homos e pessoas que assistem a comerciais das facas Ginsu de madrugada. Basta prestar atenção no cenário descrito em "Standing in the Rain", que narra o fora levado por Mould num encontro - quem não passou por uma situação dessas? Hart não fica atrás. Com compositores desses, como a banda acabou?

Como? Não sei. Acabou. Mould formou e separou o Sugar no meio de sua carreira solo. Hart montou uma banda, Nova Mob, que entrou em parafuso e está só também. O bigodudo Greg Norton hoje é um mero chefe de cozinha depois que o Hüsker Dü passou a ter começo, meio e fim.


Faixas:
1 These Important Years 3:49
2 Charity, Chastity, Prudence, and Hope 3:11
3 Standing in the Rain 3:41
4 Back From Somewhere 2:16
5 Ice Cold Ice 4:23
6 You're a Soldier 3:03
7 Could You Be the One? 2:32
8 Too Much Spice 2:57
9 Friend, You've Got to Fall 3:20
10 Visionary 2:30
11 She Floated Away 3:32
12 Bed of Nails 4:44
13 Tell You Why Tomorrow 2:42
14 It's Not Peculiar 4:06
15 Actual Condition 1:50
16 No Reservations 3:40
17 Turn It Around 4:32
18 She's a Woman (And Now He Is a Man) 3:19
19 Up in the Air 3:03
20 You Can Live at Home 5:25


07/08/2009

Discoteca Básica Bizz#143: Pixies - Doolittle (1989)


(Pedro Só, Bizz#143, junho de 1997)

A confissão de Kurt Cobain bate com o depoimento de outro monstro sagrado, David Bowie: "Fiquei puto quando escutei
Nevermind pela primeira vez. A dinâmica das músicas era totalmente roubada dos Pixies!"

Essa genial brincadeira não é invenção do cantor e guitarrista Charles Michael Kitteridge Thompson IV. Indubitavelmente, porém, foi o quarteto que ele fundou em Boston, há onze anos, que a elevou ao status de arte pop. Filho de pentecostais, Charles - ou Black Francis, como assinava na época - era um gordinho esquisito que amava Hüsker Dü (outra influência decisiva do Nirvana), ficção científica e a língua espanhola (fez intercâmbio em Porto Rico). Quando se juntou ao guitarrista Joey Santiago (filipino de nascimento), à baixista Kim Deal e ao baterista David Lovering para formar o Pixies, finalmente conseguiu botar para fora a confusão reprimida que insistia em gargalhar além de seu subconsciente.

Há quem prefira Surfer Rosa, primeiro álbum do grupo, que ajudou a criar o mito do produtor Steve Albini. Mas o segundo, Doolittle, de 1989, tem um apelo irresistível. Contrariando o esnobismo underground do selo inglês 4AD, com quem tinham contrato, os Pixies trabalharam com som limpo, estruturas simples, senso melódico apurado (Elton John elogiou) e refrões fortes.

Popular e doentio, quando saiu Doolittle foi interpretado pelo Melody Maker como um disco que tematizava a inutilidade da linguagem e a repulsa ao corpo. Parece pretensioso, mas faz sentido. E, igualmente importante, é divertidíssimo. O título referiria-se ao Dr. Doolittle, que, quem teve infância sabe, tinha o dom de falar com os animais. Era para ser Whore (prostituta), mas Francis achou "católico demais, ou bobamente anticatólico". Preferiu o homem que falava com as bestas, conceito que traduz seu estilo adoravelmente demente de cantar, um diálogo com monstros interiores.

Já na primeira faixa, "Debaser", Black Francis incorpora um freak adolescente urrando de excitação depois de ter assistido ao filme Un Chien Andalou, de Luis Buñuel, e tentando transmiti-la para uma colega: "Garotinha, é tão legal... ha ha ha ho! Fatiando os globos oculares... ha ha ha ho! Não sei de você, mas eu sou ‘un... chien andalousia’! Quero crescer para ser um pervertor." A voz de Kim Deal ecoa Francis ironicamente sexy: "Pervertor!"

Em "Hey", os grunhidos e gemidos dos dois fazendo sexo animal - a música é mais nirvanesca do que o próprio Nirvana - encaixaria perfeita em In Utero, com as vozes de Kurt e Courtney. "Tame" começa falando em "lábios de Cinderela", mas em poucos segundos explode num grito psicopata: "Você é tão mansa!". Kim geme, Francis arfa, as guitarras uivam, e todos (inclusive o ouvinte) chegam juntos a um orgasmo sonoro.

Em várias faixas as guitarras surf de Joey e Black prenunciam o revival promovido pelo locadora boy Quentin Tarantino. David Lovering canta um delicioso deboche sixties, "La La Love You".

"Monkey Gone to Heaven" tem celos, cordas, backing vocals celestiais de Kim Deal e uma desconcertante equação na letra: primata em desacerto com a natureza + numerologia bíblica = apocalipse. A poesia de Francis é tão brilhante quanto os desenhos melódicos de sua guitarra: "Beijei sereias, cavalguei o El Niño, andei pela areia com crustáceos, numa onda de mutilação". O produtor Gil Norton chegou a ficar assustado com alguns versos, mas Francis o tranquilizou: "É tudo bobagem, eles não querem dizer nada, são só sons que eu junto". Pois sim. Confiram a travadíssima "I Bleed": "Alto feito o inferno, um sino toca atrás do meu sorriso, sacode meus dentes e, esse tempo todo, enquanto os vampiros se alimentam, eu sangro".


Faixas:
1 Debaser 2:52
2 Tame 1:55
3 Wave of Mutilation 2:04
4 I Bleed 2:34
5 Here Comes Your Man 3:21
6 Dead 2:21
7 Monkey Gone to Heaven 2:56
8 Mr. Grieves 2:05
9 Crackity Jones 1:24
10 La La Love You 2:43
11 No. 13 Baby 3:51
12 There Goes My Gun 1:49
13 Hey 3:31
14 Silver 2:25
15 Gouge Away 2:44


06/08/2009

A falta de legendas nos DVDs musicais lançados no Brasil


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Eu moro no Brasil. Eu falo português. É, aquela língua do "
Ivo-viu-a-uva" que ensinam no colégio. Tenho TV a cabo em casa, e quando assisto a qualquer programa com áudio em inglês ou outras línguas, aparecem legendas para eu entender o que os caras estão falando. Quando vou na locadora e pego um filme é a mesma coisa: é só selecionar a legenda e apertar o play. Mas, quando chegamos na música, parece que moramos na Inglaterra, nos EUA ou em qualquer outro país, menos no Brasil.

Os DVDs musicais evoluíram muito nos últimos tempos. Na primeira leva dessa mídia, geralmente os títulos eram compostos por apenas um disco, que trazia, na maioria das vezes, apenas um show musical. Mas, com o passar do tempo, o público ficou mais exigente, as gravadoras perceberam o imenso filão de mercado que se abria, e esses dois fatores levaram à produção de itens cada vez mais sofisticados e complexos.

Hoje, praticamente a maioria dos DVDs musicais lançados contém dois discos. O primeiro traz o show, e o segundo os já obrigatórios extras, como documentários, cenas de backstages, entrevistas com músicos e fãs, enfim, uma quantidade enorme de material interessante, mas que nós, brasileiros que falamos português, na grande maioria das vezes somos privados de entender. Porque? Somos burros? Não, não somos. As gravadoras é que são, já que pensam que, aqui no Brasil, as pessoas falam inglês, e, por causa disso, não legendam todos esses extras.

Isso é ridículo! Isso é patético! Isso é vergonhoso! Isso é uma falta de respeito! Você pode não saber, não se dar conta, mas formamos um grupo muito grande de consumidores. O mercado de DVDs cresceu enormemente nos últimos anos, em um ritmo muito maior do que o de CDs. Os preços, mesmo ainda discutíveis em alguns casos, caíram bastante, e hoje é possível comprar itens interessantíssimos e excelentes por um preço muito atraente. Ou seja, tudo evoluiu, a não ser as legendas!

Eu não sei o que se passa dentro das gravadoras. Nunca fui em nenhuma delas, nunca passei de suas portas, mas, cada vez mais, penso que seus executivos, seus manda-chuvas, vivem em cavernas, em um mundo muito, muito, muito distante do seu público. Sim, eu prefiro me agarrar à metáforas para explicar isso, porque só mesmo neandertais deslocados no tempo seriam capazes de lançar materiais em um país que fala português sem legendar estes itens. Você tem uma explicação melhor? Alguém, alguém???

Nós moramos no Brasil! Nós falamos português! Nós compramos DVDs! Chega dessa falta de respeito! Nós queremos o pacote completo! De que adianta comprar discos duplos, triplos, quádruplos, se só conseguimos aproveitar um deles, o que tem o show?!?!? Se é para ser assim comecem a lançar apenas DVDs simples, comecem a vendê-los por dez reais nas bancas, porque não existe sentido em comprar um box cheios de extras, sendo que estes extras vêm em uma língua que não entendemos!!!

Dois exemplos recentes exemplificam muito bem esse paradoxo. O DVD
Remember that Night – Live at the Royal Albert Hall, do guitarrista David Gilmour, foi lançado no Brasil em uma embalagem belíssima em digipack, com slipcase, com um acabamento gráfico excelente. O pacote, é claro, vem com dois discos, o primeiro com o show e o segundo cheio de extras, incluindo um ótimo documentário. O material, pasmem, veio com legendas em português (é, essa língua mesmo que nós falamos aqui no Brasil), o que faz com que nós, rockeiros, amantes da música, consumidores, possamos nos deliciar com um dos melhores lançamentos que o formato já nos presenteou.

Porém, no lado oposto, temos exemplos como
One Cold Winter´s Night, da excelente banda norte-americana Kamelot. A apresentação que esse título, lançado no Brasil pela Hellion Records, traz, é um dos melhores itens disponíveis no mercado para quem curte heavy metal. O DVD é excelente, um clássico instantâneo. O título é duplo, claro, mas o segundo disco não traz NENHUMA legenda, NENHUMA mísera letra para que posssamos entender todo o extenso material colocado ali pelo grupo! E isso, infelizmente, ocorre com aproximadamente 90% dos títulos lançados em nosso país.

Hellion Records, Rock Brigade Records, Century Media, Nuclear Blast, EMI, Universal, Sony, Warner, todas as gravadoras, acordem!!! Deixem de brincadeira, tratem seus consumidores com respeito!!! Queremos entender o que os nossos ídolos falam. Queremos DVDs com legendas na língua que nós, brasileiros que falam português, falamos. Parem de ser hipócritas, deixem de ser surdas. Legendar um DVD é um processo simples, fácil e barato. O que falta é apenas vontade e respeito com os consumidores.

Mas respeito, no mercado brasileiro de música, é, sempre foi e, provavelmente, continuará sendo um produto em falta.


Discos Fundamentais: Scorpions - Lovedrive (1979)


Por Bento Araújo
Colecionador e Jornalista
(texto publicado originalmente na edição #119 da revista Cover Guitarra)

Para quem cresceu nos anos oitenta, o nome Scorpions era sinônimo de garra e de um bom rock pesado. Discos como Blackout (1982) e Love at First Sting (1984) iniciaram milhares de garotos no ofício de ouvir boa música, mas foi com o álbum Lovedrive, lançado em 1979, que a banda alemã deu o pontapé inicial na fase mais popular de sua carreira.

O Scorpions dos anos 70 era capitaneado pelo guitarrista virtuoso Uli Jon Roth, uma espécie de Hendrix alemão. Roth, a maior atração da banda até então, abandonou o barco logo após uma bem sucedida tour japonesa, que gerou o impecável Tokyo Tapes (1978).

Apesar de o Japão estar na mão do Scorpions, nos Estados Unidos eles era ilustres desconhecidos. Além disso, os anos 80 estavam por vir e toda uma geração estava sedenta por guitarras afiadas. A era de Eddie Van Halen e Randy Rhoads estava apenas começando.

Desfalcados justamente de seu guitarrista solo, o jeito que Rudolf Schenker achou para virar a mesa foi chamar seu irmão Michael (que havia debandado do UFO) para participar da gravação do novo disco de estúdio do grupo. Michael era um ídolo na América, cultuado por todo iniciante da guitarra. Seu nome associado ao dos Scorpions seria um belo atrativo (Michael havia gravado somente o primeiro disco do grupo, Lonesome Crow, de 1972).

Como Michael já vinha traçando a criação de seu novo time (o MSG), fez questão de deixar bem claro que daria somente uma forcinha. Ficava evidente que os Scorpions precisariam de um guitarrista fixo, alguém que vestisse a camisa e tivesse bala na agulha para competir com os Rhoads e Halens da vida. A banda anunciou na Melody Maker que estava procurando por um guitarrista solo. Depois de audições com cerca de 140 músicos, Matthias Jabs ganhou a parada. Com três guitarristas, o Scorpions estava preparado para o que der e vier.

Resultado: Lovedrive, seu melhor disco de estúdio até hoje. Michael Schenker aparecia em três faixas que já faziam valer o álbum: a faixa-título (uma espécie de "Achilles Last Stand" do Scorpions), "Another Piece of Meat" e a maravilhosa "Coast to Coast". Outros destaques ficam por conta da irresistível levada de "Loving You Sunday Morning", o reggae (sim, alemães fazendo reggae!!!) de "Is There Anybody There?", a paulada "Can´t Get Enough" e as baladas "Holiday" e "Always Somewhere".

A sonoridade captava com agressividade os timbres azeitados não só das guitarras, mas também da voz altíssima de Klaus Meine e da cozinha simples, porém correta, de Francis Buchholz e Herman Rarebell.

Lovedrive foi o primeiro disco da banda a alcançar ouro nos States. Uma nova era começava para eles, a era dos mega-festivais, dos quais os principais dos anos oitenta o Scorpions esteve presente: Rock in Rio, Monsters of Rock e U.S. Festival.


Faixas:
A1 Loving You Sunday Morning 5:35
A2 Another Piece of Meat 3:30
A3 Always Somewhere 4:54
A4 Coast to Coast 4:40

B1 Can't Get Enough 2:35
B2 Is There Anybody There? 3:55
B3 Lovedrive 4:48
B4 Holiday 6:31


Discos Fundamentais: Jeff Buckley - Grace: 10th Anniversary Legacy Edition (2004)


Por Tiago Rolim
Colecionador
Collector´s Room

Agosto de 1994. Há quatro meses, o mundo perdia o último ídolo do rock. Concordem ou não, Kurt Cobain foi sim este herói, e desde sua morte que existem candidatos à vaga.

E essa busca começou logo após a sua morte, pois justamente em agosto de 1994 saía um disco de um artista novo, que nunca ninguém tinha ouvido falar, a não ser em pequenos circuitos sem repercussão. Seu nome era Jeff Buckley, e o álbum, Grace.

Claro que ele foi vendido como um novo Kurt, foi incensado pelos maiores nomes da música, entre eles Bono, Paul McCartney, Bob Dylan, entre outros. Mas isso não foi suficiente, e o disco não vendeu bem. Mas isso não quer dizer que ele não tinha qualidades, e elas estavam lá, para quem quisesse ouvir.

A principal diferença é que
Grace não era um disco fácil, não era um álbum grunge (lembrem-se que estávamos em 1994), portanto foi solenemente ignorado pelo público. Acontece que os ouvintes nem sempre sabem reconhecer uma obra-prima. Sim, por que músicas como "Grace", "Last Goodbye" e "Mojo Pin" são obras-primas, lindas em sua melancolia, delicadas e com uma tensão difícil de explicar, mas que está lá para quem quiser ouvir e se emocionar um pouco. Todas autorais e defendidas com um sentimento poucas vezes ouvido nos loucos anos 1990. E o que falar do cover de Leonard Cohen, "Hallelujah"? Uma das versões mais emocionantes que você vai ouvir na sua vida, pode ter certeza. Acontece que o tempo faz justiça, e ao longo dos anos Grace foi descoberto e redescoberto pelas gerações futuras, que o elevaram ao status de clássico.

E, claro, a indústria entendeu o recado e inundou o mercado com reedições e mais reedições do disco, e é aí que eu quero chegar, pois a reedição comemorativa aos dez anos de Grace é maravilhosa. Essa edição especial vem com um disco bônus com 12 faixas, sendo que sete nunca tinham sido lançadas antes (aliás, há de se observar a quantidade absurda de músicas inéditas que Jeff deixou; neste ponto ele lembra Kurt Cobain, que também deixou uma enorme quantidade de sobras, vide os lançamentos póstumos do Nirvana). Dentre os destaques deste disco bônus, que é composto basicamente de covers, temos uma catarse coletiva chamada "Kanga-Roo", que dura mais que 15 minutos; uma versão de "Kick Out the Jams" ao vivo, em que Jeff deixa transparecer seu lado mais agressivo; e "Alligator Wine", um blues arretado, como se diz no nordeste do Brasil. Tá achando pouco? Pois ainda tem um DVD com cinco clipes e um documentário, onde os músicos e o produtor relembram os tempos de Grace.

Enfim, é um caça-níqueis? Sim, mas um daqueles irresistíveis para quem é colecionador e apreciador da pequena, mas importante obra deste músico, que nos deixou em 1997 numa destas tragédias difíceis de entender: morreu nadando enquanto cantarolava "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin.

(Nota do editor: ou seja, um cara com uma morte assim merece ser conhecido, vocês não concordam?)


Faixas:
CD 1
1. Mojo Pin
2. Grace
3. Last Goodbye
4. Lilac Wine
5. So Real
6. Hallelujah
7. Lover, You Should've Come Over
8. Corpus Christi Carol
9. Eternal Life
10. Dream Brother

CD 2
1. Forget Her
2. Lost Highway
3. Alligator Wine
4. Mama, You Been On My Mind
5. Parchman Farm Blues / Preachin' Blues
6. The Other Woman
7. Kanga-Roo
8. I Want Someone Badly
9. Eternal Life- Road Version
10. Kick Out The Jams- Live
11. Dream Brother- Nag Champa Mix

DVD
1. Grace (Live)
2. Last Goodbye (Live)
3. So Real (Live)
4. Eternal Life (Live)
5. Forget Her (Live)


Discoteca Básica Bizz#142: Banda Black Rio - Maria Fumaça (1977)


(Antônio Carlos Miguel, Bizz#142, maio de 1997)

Tio Sam ainda confundia samba com rumba naquela época, mas a tal mistura de chiclete com banana cantada por Jackson do Pandeiro - e posteriormente por Gilberto Gil - ganhou a sua melhor expressão na Banda Black Rio. Samba, funk, jazz, gafieira: uma arrebatadora simbiose sonora como poucas vezes se ouviu no Brasil.

Exatos vinte anos depois, Maria Fumaça, álbum de estreia do grupo, continua insuperável. Tanto que agora, nos anos 90, DJs e músicos londrinos da cena acid jazz descobriram seu som. A Banda Black Rio é uma das fontes onde beberam grupos como Incognito, Brand New Heavies e James Taylor Quartet, que vagam nas ruas de Portobello Road, em Londres, à procura de álbuns da trupe carioca. Pena que a Black Rio tenha encerrado suas atividades em 1984, quando seu fundador e mentor, o saxofonista Oberdan Magalhães, morreu num acidente de automóvel.

No Brasil, apesar de cultuada por alguns poucos, a banda penou para sobreviver. E sofreu ataques pesados de críticos xenófobos que não percebiam a singular e original receita criada por aqueles cobras. Para rebater tais cobranças nacionalóides, Oberdan Magalhães costumava lembrar Pixinguinha e seus Oito Batutas que, já nos anos 20, também beberam do jazz sem demérito algum.

Formado na tradição dos grupos de bailes nos subúrbios cariocas, Oberdan liderou nos anos sessenta o Impacto 8. Depois passou pelo grupo Abolição, do pianista Dom Salvador (músico que a partir do início dos anos 70 se radicou nos EUA), no qual também tocavam o baterista Luis Carlos, o trombonista Lúcio e o trompetista Barrosinho. Com eles, o saxofonista partiria para a Banda Black Rio, completada pelo guitarrista Cláudio Stevenson (o único branco da turma, que também morreu precocemente, em 1985), Jamil Joanes (baixo) e Cristovão Bastos (teclados).

A primeira, e melhor, formação da Banda Black Rio gravou, entre o final de 1976 e o começo de 1977, este Maria Fumaça. Liminha, que depois se afirmaria como o principal produtor do pop brasileiro, tinha acabado de entrar para a então nascente Warner brasileira e cuidou da produção. No disco ele está creditado como diretor de estúdio. A faixa-título e de abertura, assinada por Oberdan e Luiz Carlos, dá uma boa noção do que o álbum traz: naipes de metais suingados trocando figurinhas com a guitarra soul carioca de Stevenson e a cuíca de um dos quatro percussionistas da sessão rítmica; o baixo funk manemolente de Jamil; a bateria nota dez de Luiz Carlos e os teclados jazzísticos de Cristovão (que na época já tocava com Paulinho da Viola e hoje também trabalha com Chico Buarque e Edu Lobo). Eles alternaram temas originais, como "Mr. Funky Samba", "Caminho da Roça" (Oberdan e Barrosinho), "Metalúrgica" (Stevenson e Bastos), "Leblon Via Vaz Lobo" (Oberdan) e a balada "Júnia" (Jamil), com clássicos da MPB. "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso), por exemplo, é a síntese do samba-jazz-funk que marcaria a receita da banda, enquanto "Casa Forte" (Edu Lobo), com sua alternância de ritmos, concretiza muito do que os adeptos de fusion algum dia sonharam fazer.

Depois de Maria Fumaça a primeira formação da Banda Black Rio começaria a se desfazer. Até seu fim, em 1984, mais de quinze músicos passaram pelo grupo, que lançou ainda Gafieira Universal (1978) e Saci Pererê (1980), ambos com ótimos momentos, mas sem a magia e a perfeição do seu clássico de estreia.


Faixas:
1 Maria Fumaça 2:20
2 Na Baixa do Sapateiro 3:26
3 Mr. Funky Samba 3:39
4 Caminho da Roça 3:02
5 Metalúrgica 3:01
6 Baião 2:59
7 Casa Forte 2:22
8 Leblon Via Vaz Lobo 2:32
9 Urubu Malandro 2:31
10 Junia 3:40


05/08/2009

Discos Fundamentais: Bewitched - At the Gates of Hell (1999)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O Bewitched á uma veterana banda sueca formada em 1995 e que gravou, até o momento, seis álbuns em sua carreira. At the Gates of Hell, lançado originalmente em 1999, é considerado o melhor trabalho do grupo, ao lado da estreia com Diabolical Desecration (1996) e do segundo disco, Pentagram Prayer, de 1997. Com um atraso de "apenas" oito anos, At the Gates of Hell ganhou em 2007 finalmente uma edição nacional em uma iniciativa da Kill Again Records que merece aplausos de toda a nação headbanger brasileira.

O som do Bewitched é um heavy metal tradicional com temática predominantemente satanista, o que faz com que muitos classifiquem o grupo como heavy/black/thrash, ou seja, um rótulo pra lá de genérico cunhado por mentes preguiçosas.

Na época do lançamento de
At the Gates of Hell a banda contava em sua formação com Vargher (vocais e guitarra), Wrathyr (baixo e vocais) e Stormlord (bateria), um line-up que, mesmo cercado pelas limitações impostas por um power trio, executava com perfeição o metal tradicional a que se propunha.

Proliferam, nas dez faixas do disco, riffs empolgantes de guitarra, uma bateria pesada e um baixo marcante, no melhor estilo dos álbuns clássicos do estilo. Esse relançamento em pleno 2007 soa como um bálsamo aos ouvidos, porque não há nenhuma tentativa, mesmo que ínfima, em se inovar ou adicionar novos elementos ao heavy metal clássico, muito pelo contrário, já que todas as músicas de
At the Gates of Hell parecem querer reafirmar toda a energia e vibração que um bom disco de metal deve transmitir ao seu ouvinte.

Destaques óbvios para as faixas "Heaven is Falling", "Lucifer´s Legacy", "Sabbath of Sin" (um dos grandes clássicos da banda) e para a versão de "Let the Blood Run Red" do Thor, com a presença do próprio como vocalista.

At the Gates of Hell é um grande álbum esquecido do metal dos anos 90, indicado principalmente para quem curte o som que era feito na década de oitenta. Se você é uma dessas pessoas, pode comprar de olhos fechados.


Faixas:
1 Sabbath of Sin 4:42
2 Heaven Is Falling 4:13
3 Black Mass 3:21
4 The Devil's Daughters 3:42
5 At the Gates of Hell 4:45
6 Let the Blood Run Red 3:51
7 Lucifer's Legacy 4:02
8 The Sinner and the Saint 4:11
9 Enemy of God 3:55
10 Infernal Necromancy 4:08


Discos Fundamentais: Rage - Speak of the Dead (2006)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A música é, sem sombra de dúvida, a forma de arte mais apaixonante que existe. Acessível a todos, é capaz de levar mente e corpo em experiências inesquecíveis e transformadoras. Chegar em casa, abrir um CD, colocá-lo no player e ouvir até onde a imaginação de nossos artistas preferidos foi capaz de ir é uma sensação maravilhosa.

O novo álbum do Rage,
Speak of the Dead, é um exemplo claro disso. A evolução pela qual a banda liderada por Peter "Peavy" Wagner vem passando nos últimos anos é uma das mais impressionantes da história do heavy metal. O power metal vigoroso de tempos atrás deu lugar a uma sonoridade intricada, técnica e cheia de energia, com enormes influências da música clássica, sem perder em nenhum momento o peso que sempre marcou o som do grupo.

Este desejo em unir o rock e o metal à música clássica, levando os dois gêneros até o limite da criatividade dos músicos e compositores, nunca alcançou frutos dignos de nota. As tentativas furadas do Metallica e do Scorpions, por exemplo, só serviram para dar novas roupagens a velhos hits, empurrando novas versões de seus clássicos garganta abaixo dos fãs. Enquanto grupos como o Deep Purple primaram muito mais pela originalidade e ineditismo da fusão do que pelo resultado alcançado, bandas como Blind Guardian e Rhapsody desde sempre pensaram e desenvolveram arranjos épicos influenciadíssimos pelas idéias de inúmeros compositores clássicos. Mas, em nenhum dos casos citados, esta união soou tão orgânica, tão grandiosa, tão competente, como a que ouvimos neste álbum do Rage.

Em um gênero tão populoso, e em certos aspectos, tão saturado como o heavy metal, a expressão elaborada por Charles Darwin no século XIX soa mais forte do que nunca. Só os fortes sobrevivem, só quem tem talento será lembrado, apenas os que não tem medo de experimentar terão o seu lugar assegurado na história. Peter “Peavy” Wagner, Victor Smolski e Mike Terrana conquistaram o seu com
Speak of the Dead.

O álbum é dividido em duas partes distintas. A primeira, a incrível "Suite Lingua Mortis", é apresentada em oito partes e mostra até onde vai a capacidade criativa do trio. Nela, o principal destaque é a coesão absurda entre o grupo e Orquestra de Minsk, também conhecida como Orchestra Lingua Mortis. Quem encara a música não apenas como um elemento de lazer e entretenimento, mas principalmente como uma forma de expressão e arte, ficará de queixo caído. Arranjos fascinantes, andamentos surpreendentes e, por mais que eu tente encontrar novos adjetivos, ficaria horas tentando colocar em palavras tudo o que esta primeira parte de
Speak of the Dead me fez sentir.

A segunda apresenta um Rage mais tradicional, executando com perfeição o heavy metal que o conduziu à fama. Músicas com andamentos rápidos, riffs despejando peso e o vocal primoroso de Peavy trazem um grande sorriso ao rosto de qualquer headbanger. "No Fear", "Soul Survivor", "Kill Your Gods" e "Speak of the Dead" são os títulos de algumas faixas que figurarão desde já entre as preferidas dos fãs.

O grupo transpôs este cuidado com as composições também para a parte gráfica do trabalho. A capa e todo o encarte apresentam uma direção de arte que salta aos olhos, e que torna ainda mais completa a experiência de ouvir o álbum.

Não sei o que o futuro preparou para o Rage. Não sei para onde o talento destes três músicos fantásticos pode levá-los daqui para frente. Mas uma coisa está bem clara: em Speak of the Dead" o Rage atingiu o seu topo criativo até o momento e gravou não apenas o seu melhor álbum, como também um dos melhores discos de heavy metal dos ano 2000.

Sem exagero algum, um trabalho que já nasce clássico e obrigatório, como poucos que ouvi em toda a minha vida.


Faixas:
1 Morituri te Salutant (Instrumental) 0:57
2 Prelude of Souls (Instrumental) 2:46
3 Innocent 5:36
4 Depression (Instrumental) 1:12
5 No Regrets 4:52
6 Confusion (Instrumental) 1:45
7 Black (Instrumental) 0:51
8 Beauty 3:54
9 No Fear 5:32
10 Soul Survivor 3:41
11 Full Moon 4:54
12 Kill Your Gods 5:13
13 Turn My World Around 3:58
14 Be With Me or Be Gone 3:47
15 Speak of the Dead 4:06


Discoteca Básica Bizz#141: The Smiths - The Queen is Dead (1986)


(José Augusto Lemos, Bizz#141, abril de 1997)

TaIvez ainda seja cedo demais para avaliar o verdadeiro impacto dos Smiths na história do rock e da cultura pop. Poucas vezes foi tão rápido e fácil conquistar a adulação simultânea de público e crítica, pelo menos na velha Grã-Bretanha. E as primeiras manifestações mágicas da parceria Morrissey/Marr - singles preciosos como "Hand in Glove" e "What Difference Does It Make?" - já chegaram com sabor de clássicos instantâneos. Por outro lado, não é nada fácil encontrar traços de suas influências na atual geração de bandas ...

Os Smiths foram o último suspiro de originalidade no rock britânico, a última banda relevante da explosão indie e o último legado da linhagem de Manchester, que havia dado Buzzcocks e Joy Division. Seus verdadeiros trunfos estavam em suas excentricidades: conseguiram soar ao mesmo tempo extremamente punk e pop, sem contar o homoerotismo celibatário, sem plumas ou paetês, desconcertante para os padrões da usina de entretenimento infanto-juvenil.

O grupo estava mais que estabelecido no Olimpo do estrelato quando atingiu a maturidade e a perfeição em The Queen is Dead. O disco implodia de maneira grandiloquente a enxuta estrutura musical da banda. Uma orquestra de cordas transformando algumas das canções em verdadeiros épicos era o gesto de maior risco, tornando o som dos Smiths mais deslocado no tempo do que nunca. Este era o caso da ultradebochada faixa-título, do romantismo suicida de "There is a Light that Never Goes Out” e da quase patológica "I Know It´s Over", certamente o momento mais ousado de Morrissey, compondo uma dilacerante canção de amor e adeus para a própria mãe.

A grande surpresa do disco estava, porém, no humor desenfreado, trazendo leveza de alma e os confortos do ceticismo à artilharia pesada que avacalhava a família real sem misericórdia em
The Queen is Dead: imaginava mortes sádicas para Margaret Thatcher em "Bigmouth Strikes Again"; ridicularizava todos os medíocres do planeta em "Franky Mr. Shankly" e extraía boas gargalhadas da obsessão pelo sexo com a impagável "Some Girls Are Bigger Than Others".

Nem um amigo como Howard Devoto - outro grande letrista de Manchester, líder do Magazine - escapou ileso da febre zombeteira que tomou o vocalista dos Smiths. Em "Cemetery Gates" ele compõe um hilariante manifesto narrando um passeio dos dois entre lápides e exibições de erudição, para concluir: "Você tem Keats e Yeats ao seu lado, mas perde / Porque Oscar Wilde está no meu." A mensagem é fechada, para quem desconhece a literatura inglesa do século XIX, mas basta dizer que, celebrando a vitória do mais leviano senso de humor sobre a sisudez, o idealismo e o classicismo, Morrissey resumia em uma cápsula o espírito do disco.

Tentando sacudir seus conterrâneos para acordarem de seu "passado glorioso" antes que McDonalds, Pizza Hut, Tom Cruise e Demi Moore tomassem conta, o bufão da agonia fracassou de maneira retumbante. Como pop star, porém, não se deu mal: seus discos solos podem ser irregulares mas nunca entediantes (mesmo perdendo as insuperáveis melodias de Johnny Marr), e suas tumês norte-americanas atraem multidões de adolescentes histéricas. O mesmo não se pode dizer do parceiro-guitarrista, que hoje se dedica ao derivativo duo Electronic, em que ele e Barney Summer sujam a reputação de Smiths, Joy Division e New Order - isto é, pelo menos 80% do melhor rock de Manchester.

É realmente intrigante para a geração que deixou a adolescência pela chamada idade adulta nos anos 80 (ouvindo coisas como Echo & The Bunnymen e Smiths) estar representada hoje, no megaestrelato, por baba diluída como R.E.M. (afinal, Michael Stipe tietou Morrissey incansavelmente!) e U2 (provando que Brian Eno realmente transforma água em vinho!). Mas, assim como o Oasis xeroca os Beatles, ainda podem surgir alguns moleques ingleses para refrescar a memória coletiva bebendo na fonte de Morrissey e Marr.


Faixas:
A1 The Queen Is Dead / Take Me Back to Dear Old Blighty (Medley) 6:23
A2 Frankly, Mr. Shankly 2:17
A3 I Know It's Over 5:48
A4 Never Had No One Ever 3:36
A5 Cemetry Gates 2:39

B1 Bigmouth Strikes Again 3:12
B2 The Boy With the Thorn in His Side 3:15
B3 Vicar in a Tutu 2:21
B4 There Is a Light That Never Goes Out 4:02
B5 Some Girls Are Bigger Than Others 3:14


04/08/2009

Entrevista exclusiva - Antonio Carlos Monteiro: "No início dos anos 80 todos nós aprendíamos fazendo, colocando a mão na massa"


Por Ale Cubas
Colecionador

É com muito prazer que estamos estreando aqui o quadro de entrevistas do Amplificando. Nesta nossa primeira entrevista falamos com um dos jornalistas musicais mais competentes e respeitados do Brasil. Há vinte e quatro anos em atividade, ele passou pelas principais publicações do país e atualmente é integrante da equipe da revista Roadie Crew. Estamos falando de Antonio Carlos Monteiro, o ACM, e ao contrário do que ele está acostumado, hoje é ele quem irá responder as perguntas.

Ale Cubas - Você chegou a escrever na hoje lendária revista Metal, mas ficou conhecido pelos vários anos nos quais escreveu para a Rock Brigade. Você poderia fazer um apanhado de sua carreira como jornalista musical?

Antonio Carlos Monteiro – Bem, comecei a me interessar por música bem novo. Sou de 1958 (que nem o Bruce Dickinson) e quem me levou pro "mau caminho" foram os Beatles. Mais tarde, em 71 pra ser exato, descobri o disco Killer, do Alice Cooper. Aí, não teve mais volta...

Agora, o interessante é que eu sempre quis ser jornalista. Quando surgiu a revista Rock- A História e a Glória (tenho a coleção completa até hoje), descobri que era exatamente aquilo que eu queria fazer. Concluí a faculdade de Jornalismo em São Paulo (Faculdade Cásper Líbero) em 1979, trabalhei como assessor de imprensa um bom tempo e ia fazendo uns bicos com a música. Até que em 1985 a revista Roll (da mesma editora que fazia a Metal) publicou um anúncio procurando um setorista em São Paulo, já que a redação ficava no Rio. Participei da seleção e fui o escolhido. Daí, não parei mais... Foram quatro anos de Roll/Metal, 18 de Rock Brigade e agora quase dois de Roadie Crew.

Uma curiosidade: a primeira matéria que fiz para a Roll foi a cobertura do show de lançamento do disco de estreia do Ultraje a Rigor, Nós Vamos Invadir Sua Praia. Esse show aconteceu exatamente no dia 13 de julho de 1985, e nesse mesmo dia acontecia, na Inglaterra e nos EUA, o festival Live Aid. Por causa do festival, esse dia viraria a ser o Dia Mundial do Rock – e foi também o dia da minha estreia.

AC - Como surgiu a oportunidade de integrar a equipe da Roadie Crew?

ACM – Desde que me desliguei da Rock Brigade, no segundo semestre de 2007, fui convidado a colaborar com a Roadie Crew. No início deste ano, como todos sabem, houve uma mudança na equipe da revista e fui convidado pelos editores para fazer parte da equipe de redatores. Fiquei extremamente honrado com o convite, até porque havia excelentes profissionais disponíveis no mercado, incluindo meus ex-companheiros de Rock Brigade, Ricardo Franzin e Fernando Souza Filho. Ou seja, dentre tantos profissionais brilhantes, foi realmente uma honra ter sido escolhido.

AC - Como você encara a atual situação da Rock Brigade? Você sabe se eles realmente irão parar de publicar a revista e vão se limitar apenas à internet?

ACM – Veja, minha saída da revista não foi tão amistosa como alguns pensam. Nunca comentei isso publicamente, mas a realidade é que a editora ficou me devendo uma quantia considerável referente a salários não pagos, e como as tentativas de resolver a questão de forma negociada não foram bem sucedidas, tive que acionar a empresa junto à Justiça do Trabalho. Foi feito um acordo, diante de um juiz, para o pagamento dessa verba, acordo esse que não foi cumprido pela editora. No momento o caso está em fase de execução judicial e, por conta de tudo isso, prefiro não tecer nenhum comentário sobre a Rock Brigade. A única coisa que digo é que a situação atual em nada me surpreende.

AC - Quais foram as maiores diferenças que você sentiu entre trabalhar com a Rock Brigade e trabalhar com a Roadie Crew?

ACM – Como disse, não gostaria de falar sobre Rock Brigade. O que posso afirmar a você é que a relação da Roadie Crew com seus colaboradores é baseada no respeito, no profissionalismo e na extrema consideração. E mais: cheguei para participar de um ambiente que já estava solidificado, o que poderia gerar ciúmes e até alguma disputa interna. Muito pelo contrário, fui recebido de forma extremamente amistosa pelos meus novos colegas de trabalho e hoje me sinto totalmente em casa trabalhando na Roadie Crew. Quero ficar lá pra sempre!

AC - Quais foram as maiores dificuldades em sua carreira?

ACM – No começo nada era fácil para ninguém. No início dos anos 80 todos nós aprendíamos fazendo. Os músicos tinham pouca informação, ter um instrumento decente era quase impossível, não havia professores de música especializados em rock. Os produtores e técnicos de som mal sabiam como deviam gravar uma banda. E nós, do jornalismo, sofríamos com a falta de informação. Então, dá pra dizer que não tinha facilidade nenhuma! Mas era muito divertido.

AC - Como você vê a atual situação da mídia especializada em nosso país?

ACM – Não só a mídia especializada, como toda a mídia está sofrendo um processo de profunda mudança. Aquilo que, anos atrás, imaginávamos que um dia aconteceria, está acontecendo: a internet está aí como principal fonte de informação em todos os setores e cabe aos demais ramos da imprensa (principalmente a escrita) repensar sua forma de atuação. Hoje, o papel da mídia impressa é aprofundar mais os assuntos, já que a informação imediata, pura e simples, passou totalmente para a internet. Quem conseguiu se adaptar, sobreviveu.

AC - Apesar de a maioria do fãs de música pesada gostar muito do material físico (impresso), todos sabemos que hoje a internet é um dos maiores meios de informação. Isso acaba atrapalhando de algum modo quem trabalha com a mídia impressa?

ACM – Não, desde que se saiba como fazer. Acredito que com a mudança de postura que comentei na resposta anterior seja possível que a imprensa escrita sobreviva, especialmente nesse nosso ramo, já que o fã de rock é aquele cara que gosta de ler e reler uma matéria, colecionar as entrevistas com seus ídolos, etc.

AC - No seu ponto de vista, qual é a importância de blogs como este, junto ao rock? Em que eles mais ajudam e em que eles mais atrapalham?

ACM – Como jornalista, não consigo ver qualquer meio de informação atrapalhando. O fundamental é que os responsáveis pelos blogs e sites tenham plena consciência da responsabilidade que possuem e ofereçam um produto de qualidade em todos os aspectos: visual, qualidade de texto e qualidade da informação. Se cumprir esses requisitos, ele terá aquilo que deve ser o alicerce de qualquer veículo de comunicação: a credibilidade. Pelo que vi, o Amplificando está no caminho certo.

AC - Como surgiu sua paixão pelo rock e, principalmente, pelos Rolling Stones?

ACM – A paixão pelo rock eu já expliquei lá na primeira pergunta. Os Stones entraram na minha vida em 1968, quando aborreci minha mãe até que ela comprasse o compacto (sim, em vinil!) de "Jumpin' Jack Flash". Daí, não parei mais! Os Stones são a banda que falam mais forte pra mim até hoje. E aquele compacto ainda está comigo. Inteirinho!!

AC - Vamos falar um pouco sobre suas entrevistas: qual foi a mais marcante de sua carreira?

ACM – Sem dúvida foi entrevistar pessoalmente meu segundo maior ídolo, Alice Cooper. Foram só 15 minutos, em julho de 2007, mas foi muito especial. E ele é um gentleman!

AC - Qual menos gostou de fazer?

ACM – Não houve nenhuma que justificasse uma expressão tão pesada como "não gostar de fazer". Eventualmente, há aquelas entrevistas que não rendem como esperado, tem aqueles caras que são chatos de entrevistar, mas não houve nada que me traumatizasse. Pelo menos até agora.

AC - Teve aquela entrevista cercada de situações engraçadas?

ACM – Já contei essa história um monte de vezes, mas ainda acho que ela é divertida. Lá nos anos 80 fui entrevistar o Toy Dolls para a Roll. Meu inglês era capenga, coitado, e a gravadora ficou de mandar uma pessoa pra servir de tradutor. Só que houve um incêndio mais ou menos perto de onde era o hotel em que a banda estava hospedada e o trânsito simplesmente travou. Eu estava ali perto, fui a pé e cheguei na hora. E cadê o tradutor? Não tinha celular naquela época, então não havia jeito de localizar a criatura. Lá pelas tantas, resolvi fazer na raça. Eu com meu inglês macarrônico e eles falando cockney, que é um tipo de gíria que se fala em Londres. Foi praticamente uma entrevista feita por mímica! Mas o legal é que, quando o tradutor finalmente chegou, eu dei uma geral nas perguntas e vi que a gente tinha se entendido direitinho!

AC - Muitas vezes conseguir uma boa entrevista vai além da boa vontade do jornalista. Qual a banda que você teve mais obstáculos para conseguir realizar uma entrevista?

ACM – Hoje as entrevistas são todas agendadas pela redação, a gente recebe a informação de dia, horário e formato (telefone, e-mail, pessoalmente) em que ela vai acontecer. Mas normalmente as bandas grandes são sempre as mais complicadas porque a agenda dos caras é um troço verdadeiramente absurdo em termos de compromissos.

AC - O que você mais gosta de fazer? Resenhas de álbuns, entrevistas ou cobertura de shows? Por quê?

ACM – Nenhuma dessas coisas. Curto tudo isso, mas o mais legal é fazer matérias que demandem pesquisa. A Roadie Crew tem várias seções e é bem divertido levantar informações que pouca gente conhece, descobrir histórias paralelas, etc. Gosto muito de trabalhar com pesquisa e estou até mesmo dando os primeiros passos num livro no qual pretendo contar a história do rock no Brasil. Só no início da pesquisa já descobri coisas inacreditáveis! Agora, pra escolher uma dentre essas que você cita, a entrevista é mais interessante por ser algo que se pode elaborar melhor.

AC - Na sua opinião quais são os pontos fundamentais para uma boa matéria?

ACM – Olha, eu sempre tenho algo em mente quando vou fazer uma matéria: se eu fosse o leitor, o que gostaria de ler a respeito desse assunto sobre o qual vou escrever? A partir daí, tem que fazer a lição de casa: pesquisar o artista sobre o qual você vai escrever, dar uma nova escutada nos discos que ele gravou, etc. Se fizer isso e tiver jeito pro negócio, vai ser muito difícil sair uma matéria ruim.

AC - Em sua carreira você deve ter se deparado com inúmeras bandas iniciantes que mandavam suas demo tapes para a redação. Dessas bandas, teve alguma você descobriu e que hoje pode ser considerada um grande nome?

ACM – Acontece muito de algum músico de uma banda que você resenhou lá nos primórdios aparecer numa banda de maior renome hoje. Mas, apesar de não ter sido eu quem resenhou, acho que a banda que mandou demo para a redação e realmente explodiu foi o Raimundos.

AC - Teve algumas dessas bandas de que você não gostou do material e hoje são destaques na cena?

ACM – Sinceramente não me lembro de nenhum caso assim, mas não me surpreenderia se acontecesse. Afinal, nem sempre o fato de alguém fazer sucesso significa que esse sujeito tem talento, não é mesmo?

AC - Com todos esses anos de experiência, como você vê atualmente a cena brasileira e mundial?

ACM – Se sua pergunta se refere a algo de inovador na cena, poderia dizer que o momento é de estagnação. Por outro lado, você vê que, mesmo com as dificuldades atuais (aquilo que eu falei da mídia em relação à internet se aplica de forma ainda mais contundente em relação às bandas, por conta da troca de arquivos musicais pela internet), as bandas continuam tocando, lançando discos e movimentando a cena. Então, por esse aspecto, a coisa continua funcionando a todo vapor – o que é ótimo!

AC - Quais as bandas novas que você gosta de ouvir?

ACM – Cara, me apaixonei pelo Chickenfoot! Aquilo é rock'n'roll de verdade, feito por uns caras bons pra cacete e que parece que estão se divertindo a valer tocando aquelas músicas. É meu disco do ano, fácil!

AC - Na Roadie Crew vocês gostam de torturar seus entrevistados pedindo um top#5 de melhores álbuns. Eu não vou ser tão maldoso com você e vou pedir para você fazer um top#10.

ACM – Não deve ser difícil. Vamos lá:

1) Tattoo You – Rolling Stones
2) Sgt. Peppers Lonely Heart's Club Band – Beatles
3) Killer – Alice Cooper
4) Machine Head – Deep Purple
5) Volume II – Led Zeppelin
6) Volume I – Black Sabbath
7) Tommy – The Who
8) A Night At The Opera – Queen
9) New York Dolls – New York Dolls
10) Are you Experienced? – Jimi Hendrix

Pode ser que amanhã cedo eu queira mudar algum disco, mas hoje é isso!


AC - Por curiosidade, você toca algum instrumento? Já tocou ou toca em alguma banda?

ACM – Sim, eu maltrato uma Fender Strato em duas bandas: Jack Flash, que presta tributo aos Rolling Stones (www.jackflash-stones.com.br), e Big Bang, um quinteto de grandes amigos que se reúne pra tocar Classic Rock, jogar conversa fora e tomar muita cerveja!

AC - Muito obrigado pela entrevista, fica aberto aqui um espaço para suas considerações finais.

ACM – Eu que agradeço pela oportunidade e desejo a vocês do Amplificando todo o sucesso do mundo.