21/08/2009

Discoteca Básica Bizz#155: Frank Sinatra - Songs for Young Lovers (1954)


(Paulo Cavalcanti, Bizz#155, junho de 1998)

Quem foi o dono da voz suprema da música popular americana do século 20? Alguns podem dizer que foi Elvis Presley, outros apostam em Louis Armstrong ou Billie Holliday. Mas os louros devem ficar mesmo para Frank Sinatra, que tombou aos 82 anos no dia 14 de maio de 1998.

Sinatra foi um dos mais convincentes intérpretes de todos os tempos. Foi quem primeiro entendeu (depois de Bing Crosby) que o microfone não servia apenas para amplificar a voz, deveria ser usado como um instrumento. "The Voice", como era conhecido, passava todas as sutilezas e implicações emocionais que cada canção exigia. Não por acaso, foi por meio de Sinatra que o grande público passou a conhecer e a compreender boa parte dos standards da canção norte-americana.

É difícil pinçar de uma carreira que durou cinquenta anos um disco-chave para definiir a arte de Frank Sinatra. É sabido, porém, que a melhor fase do cantor é a da gravadora Capitol, por onde gravou entre os anos de 1953 a 1959. Naquela época ele recuperou-se de um período de baixa (chegou até a ser dispensado do selo Columbia) e passou a mostrar maturidade como vocalista.

Songs for Young Lovers, lançado em 1954, mudou a indústria do disco. Este foi o primeiro LP de Sinatra (originalmente lançado em 10 polegadas) e também marcou o início de sua associação com o lendário arranjador Nelson Riddle. Introduzidos no mercado nos anos 40, os long-plays até então não passavam de amontoados de canções juntadas sem maiores preocupações com a coerência. Sinatra, Riddle e o produtor Voyle Gilmore decidiram que esse formato deveria ter tratamento especial. E assim surgiu este que pode ser considerado um dos primeiros trabalhos conceituais da história do pop: todas as canções foram escolhidas de acordo com um tema.

Riddle convocou uma pequena orquestra com dois saxofones, um quarteto de cordas e uma sessão rítmica. O resultado foi um trabalho intimista, com toques sutis de jazz. Sinatra simplesmente reinventou algumas das mais conhecidas canções americanas, como "My Funny Valentine" (de Richard Rodgers e Lorenz Hart, também gravada por Chet Baker), "I Get a Kick Out of You" (de Cole Porter) e "They Can't Take That Away From Me" (de George Gershwin). Sinatra canta todas as sílabas com precisão e vai fundo nas interpretações - o ouvinte tem a impressão de que ele viveu todas as emoções descritas nas letras.

A capa é clássica: mostra Sinatra, o eterno romântico, de cigarro na mão, embaixo de um poste de iluminação, observando os casais passando.

Quem conheceu The Voice velho e com a voz baleada cantando o tema de "New York New York" talvez não tenha noção do que ele representa para a cultura americana. Songs for Young Lovers é uma pequena fração do melhor de quem foi o maior.


Faixas:
A1 My Funny Valentine 2:31
A2 The Girl Next Door 2:38
A3 A Foggy Day 2:39
A4 Like Someone in Love 3:10

B1 I Get a Kick Out of You 2:55
B2 Little Girl Blue 2:54
B3 They Can't Take That Away From Me 1:58
B4 Violets for Your Furs 3:05


20/08/2009

Minha Coleção: Ricardo Seelig - "Um colecionador de discos não é um acumulador de discos"


Por Daniel Sicchierolli
Colecionador

Muitas idéias surgem todos os dias, mas poucas convencem, tomam espaço e caem no gosto do público. Uma dessas idéias foi a coluna Collector´s Room, criada pelo nosso amigo Cadão. Desde o início curti e viajei com todas as entrevistas, mas temos que admitir que faltava uma coleção a ser mostrada.

De entrevistador ele passa à entrevistado. Vamos à coleção do criador da Collector´s, com discos do metal ao jazz e com um vasto conhecimento para colecionador nenhum botar defeito. Senhoras e senhores, apertem os cintos: Ricardo Seelig!

Collector´s Room - Cadão, obrigado por aceitar o "desafio" de ser entrevistado. Será que alguém que lê essa sessão não te conhece? Vamos lá, apresente-se aos nossos leitores.

Ricardo Seelig - Bem Daniel, vamos lá então. Meu nome é Ricardo Seelig, sou gaúcho e nasci em uma cidade do interior do RS, bem pequena, chamada Espumoso, onde meus pais ainda residem. Tenho 36 anos, sou publicitário de formação, pós-graduado em Marketing de Varejo e trabalho como diretor de cena em uma produtora de vídeo chamada Casa na Árvore.

Mas o que eu gosto mesmo é de música, de ouvir discos, conhecer bandas, descobrir novos sons. Enfim, respiro música 24 horas por dia. Colaboro com o Whiplash, o maior site de rock e heavy metal em português, desde 2004; com a poeira Zine, do meu amigo Bento Araújo, também há algum tempo já - aliás, me enche de orgulho fazer parte da equipe que produz a pZ, para mim a melhor publicação musical do Brasil, com sobras; colaborei também com a infelizmente extinta RockHard/Valhalla; e textos meus podem ser encontrados também nas revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera & Percussão.

E, pra fechar, tem a atividade mais importante da minha vida: sou pai de um menino lindo de 1 ano e 5 meses chamado Matias, que, assim como o pai, também adora música.

Matias com um dos seus DVDs prediletos

Como surgiu a idéia de entrevistar colecionadores e como você criou o nome Collector's Room?

Além de ser um colecionador de discos há quase vinte e cinco anos, sempre gostei de manter contato com outros colecionadores e conhecer outras coleções. Adorava a sessão Minha Coleção, da extinta revista Bizz, onde músicos e jornalistas mostravam seus acervos. Como já colaborava com o Whiplash há algum tempo, me perguntei porque não fazer algo semelhante para o site. Sem dúvida, a inspiração para a Collector´s Room veio dessa coluna da revista Bizz, mas eu quis dar uma evoluída na coisa, inserindo perguntas que eu gostaria de fazer e dúvidas que eu gostaria de tirar em relação às coleções que apresentava.

O nome Collector´s Room veio como um estalo, um lampejo. Estava pensando em como batizar a coluna e, do nada, o nome me veio à cabeça. Hoje, passados quase quatro anos da criação da Collector´s - a primeira entrevista foi ao ar em 24 de setembro de 2005 -, acho o nome forte, claro, sintetizando o que as pessoas irão encontrar nas entrevistas que realizei.

Com tudo pronto na cabeça, enviei um email para o João Paulo Andrade e para o Marcos A. M. Cruz, que são os editores do Whiplash, propondo a idéia da uma sessão exclusiva dedicada aos colecionadores de discos, e os dois toparam de imediato, o que me deixou muito feliz.

Um dos grandes clássicos do blues

Mostrar as coleções e conversar com colecionadores é sensacional. Me diga como tudo isso evoluiu, afinal agora temos podcast, orkut e blog. Qual será o próximo passo da Collector´s Room?

Eu acho que, quanto mais se faz determinada atividade, melhor você vai ficando naquilo que se propõe a fazer. Penso que isso ocorreu também com as entrevistas da Collector´s Room. Desde o início procurei ter uma estrutura padrão de perguntas, e decidi por isso para que os leitores pudessem comparar as diferenças e semelhanças entre as várias coleções mostradas na coluna. É claro que algumas entrevistas ficaram melhores que as outras, mas, na minha opinião, todas mostram o que faz de nós, colecionadores, pessoas tão diferentes neste ponto de interrogação gigantesco que é o cenário musical atual: o amor incondicional pela música, a paixão irrestrita pelos discos.

Naturalmente, depois que a coluna foi dando certo no Whiplash e foi sendo publicada com uma certa periodicidade, foi natural termos uma comunidade no orkut para reunirmos as pessoas que foram entrevistadas para a Collector´s, e também outros colecionadores Brasil afora. Para minha surpresa, a comunidade foi crescendo, vários colecionadores começaram a frequentar, nos aproximamos e nos tornamos amigos, e, em um passo absolutamente natural, surgiu a idéia, entre os membros da comunidade, de criarmos um site exclusivo da Collector´s, gerando conteúdo que interessasse a pessoas como nós. Aliás, você, Daniel, foi um dos que mais me incentivou para que isso acontecesse, colocando lenha na fogueira e me fazendo ver que era uma proposta totalmente possível.

Dessa maneira, em 13 de outubro de 2008 o blog da Collector´s Room foi ao ar, e desde então, tem sido um prazer produzir material diariamente para o site. Além disso, vários colecionadores também se sentiram motivados a colaborar com o blog, e hoje temos cerca de vinte colaboradores fixos, que já produziram mais de 750 matérias sobre assuntos do interesse de quem adora colecionador CDs, LPs e DVDs, como nós.

Já o podcast surgiu de um antigo desejo meu. Sempre adorei rádio, sempre quis fazer rádio, e, ainda que tenha colaborado na minha adolescência com alguns amigos que trabalhavam em emissoras, nunca tive um programa só meu. Com o sucesso da Collector´s Room, decidi tentar transportar isso para uma espécie de programa de rádio, e, dessa maneira, resolvi produzir o primeiro programa para ver como ficava e como seria recebido pelas pessoas. Felizmente os ouvintes gostaram, e, desde então, a Collector´s tem um podcast semanal, com 1 hora e 45 minutos de duração, onde falo de música, novidades, discos interessantes e clássicos, de todos os gêneros musicais, do blues ao heavy metal, do jazz ao rock. Além disso, duas web radios mostraram interesse em veicular o podcast, e hoje o nosso programa pode ser ouvido também na rádio Shock Box e na rádio Rock Fly, o que me deixou muito satisfeito.

O próximo passo? Com certeza o meu desejo é tornar a Collector´s Room mais e mais conhecida entre as pessoas que gostam de música no Brasil, porque acho que o blog tem ainda muito a crescer, precisa de mais divulgação, enfim, existem muitos colecionadores em nosso país que não fazem idéia que existe um site dedicado a eles, produzido por pessoas iguais a eles. Ou seja, o objetivo imediato é tornar a Collector´s Room cada vez mais conhecida em todo o Brasil, e para isso eu conto com a ajuda de você e de todos os que frequentam o blog, participam da comunidade do orkut e ouvem o podcast.

Vista geral da coleção

Antigamente existiam os amigos que vinham em casa curtir alguns discos e ouvir um som. Hoje meus amigos de música vivem bem longe da minha casa e muitos deles eu nunca vi pessoalmente. A internet é uma maravilha, concorda? E concorda também que a Collector´s Room substituiu esses momentos de ouvir um som em casa com os amigos?

Não sei se substituiu, mas com certeza complementa. Pensando bem, já faz um bom tempo que não tiro um tempo pra bater um papo furado com os amigos ouvindo um som, e isso a gente faz todos os dias na Collector´s Room. Daniel, provavelmente você está certo nisso. O fato é que nos aproximamos uns aos outros na Collector´s por afinidade musical, e meus amigos de música também vivem bem longe da minha casa, infelizmente. Mas, aproveitando essa questão que você levantou, vou tentar resgatar essas reuniões para ouvir e falar de música com os amigos, que sempre foram muito legais.

Você imaginava que conseguiria reunir tanta gente fanática por música num só lugar?

Não, não imaginava. Quando criei a Collector´s Room, como respondi antes, procurei criar algo que respondesse minhas dúvidas e mostrasse aquilo que eu queria ver em outras coleções. Na minha opinião, os colecionadores tem comportamentos bem similares uns aos outros, como o ciúme por seus discos, a compulsão por novas aquisições, o desejo de ver os detalhes dos itens, a vontade de deixar tudo bem arrumado e em ordem cronológica, entre outros, e isso acabou fazendo que mais e mais pessoas se identificassem com a Collector´s, tornando aquilo que a princípio iria ser só uma coluna do Whiplash em algo cada vez mais abrangente e, mais importante do que tudo, legal e prazeroso para todos que participam.

Detalhe do livro 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer

Teve alguma entrevista que você tentou fazer e não teve retorno?

Sim. Várias pessoas já me cobraram uma entrevista com o Fábio Massari, mas não consegui realizar. Consegui até o email dele, mas não obtive resposta. Acho que vale uma nova tentativa, e certamente ela acontecerá. Outras pessoas que eu gostaria de ver na Collector´s são o João Gordo e o Roberto Maia (o homem-enciclopédia, dono de uma das maiores coleções do Brasil). Mas o que eu mais gosto é receber emails de colecionadores que eu não conheço e nunca ouvi falar, dos mais variados cantos do Brasil, querendo mostrar seus acervos, que, na maioria das vezes, são de cair o queixo. É legal mostrar o que as pessoas mais conhecidas tem em casa, mas divulgar a coleção de um cara como a gente, uma pessoa comum que ama os seus discos, é demais!

O que seria da vida sem a música?

Você entrevistou e viu diversas coleções, então lá vai uma pergunta difícil: quantidade é sinônimo de qualidade?

Quantidade não tem nada a ver com qualidade. Na minha opinião, de nada adianta uma coleção enorme repleta de itens que se encontram de maneira fácil por aí, em qualquer esquina. É claro que é preciso ter os álbuns clássicos, aqueles discos que figuram em qualquer acervo, mas o que torna uma coleção única é a quantidade de itens diferenciados que ela possui, sejam eles singles, edições especiais, limitadas, boxes, raridades. Pra mim mais vale uma coleção com 500 itens e repleta de discos difíceis de se conseguir do que uma com 5 mil itens, sendo que a maioria são aqueles títulos óbvios que todo mundo tem.

E aqui cabe uma explicação: um colecionador de discos não é um acumulador de discos! O colecionador procura e se interessa por itens diferenciados e interessantes para o seu acervo, porque é isso que lhe dá prazer.

Essa é a minha opinião, e qualquer pessoa pode concordar ou discordar dela, sem problemas. Na verdade, o que eu acho mais importante é consumir, conhecer e amar a música, sempre e cada vez mais.

Voltando no tempo: você lembra como foi o seu primeiro contato com a música e como você descobriu o rock pesado?

O meu primeiro contato com a música, aquele que eu tenho registro pelo menos, foi através de discos infantis, como Os Saltimbancos do Chico Buarque e aquele que tinha a música "A Casa", do Vinícius de Moraes, que foram LPs que meus pais compraram para mim e para meus irmãos quando éramos crianças.

Já o meu primeiro contato com a música pop, com o rock mesmo, foi mais tarde, na adolescência, através de um LP que ganhei de presente no meu aniversário, em novembro de 1984. O disco? O Thriller, do Michael Jackson, que eu adorei. Logo depois, em janeiro de 1985, assisti o Rock in Rio pela TV, e ali foi onde eu pirei e tive o meu primeiro contato com o rock pesado. Foi através do festival que eu conheci, me interessei e fui atrás de álbuns do Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Black Sabbath, Whitesnake, Scorpions.

Além de discos, também livros sobre música

Como é composta sua coleção? Quantos itens você tem?

A minha coleção teve dois momentos distintos. O primeiro, quando ela era formada exclusivamente por LPs. Nesse período tinha um acervo com cerca de 2 mil discos de vinil, e que era formado basicamente por álbuns de heavy metal e rock em geral. Depois, com a chegada do CD, me desfiz dos vinis, trocando-os por CDs. Aproveitei para recomprar apenas os discos que eu realmente curtia, deixando aquelas tranqueiras que a gente pega de vez em quando de lado.

Hoje, a minha coleção é formada por cerca de 1.100 CDs e uns 250 DVDs, além de aproximadamente 500 CDs com raridades em MP3. O que são essas raridades? Discos que eu não encontrei ainda para comprar, ou encontrei a preços muito altos e baixei para conhecer e curtir.

Além dos discos tenho também muitas revistas sobre música, desde a Somtrês até a Roadie Crew, passando por títulos como Bizz, Showbizz, Rolling Stone, Outra Coisa, Jazz +, poeira Zine e outras. Gosto muito também de livros sobre música. Um dos meus maiores prazeres, desde sempre, foi ler sobre música, então tenho vários livros sobre artistas, movimentos e gêneros musicais aqui em casa também. E possuo também uma coleção de histórias em quadrinhos, que é outra grande paixão.

Qual foi o primeiro álbum que você comprou, e porque?

O primeiro disco que eu comprei foram, na verdade, dois: o 74 Jailbreak e o For Those About to Rock (We Salute You), ambos do AC/DC. E os adquiri por ter gostado da banda, que vi através da TV no primeiro Rock in Rio.

Quando você percebeu que estava se tornando um colecionador?

Acho que eu sempre fui um colecionador. Desde o início sempre quis conhecer e ter todos os discos das bandas que eu gostava. Perdi a conta de quantas vezes saí de lojas com dezenas de discos embaixo do braço.

Edição especial de In Sorte Diaboli, do Dimmu Borgir

Qual o item mais legal da sua coleção? E qual o mais valioso (leia-se caro)?

Essa resposta é muito pessoal, já que o que é legal para mim pode não ser para outra pessoa. Vou falar então dos que eu mais gosto: uma edição especial do In Sorte Diaboli do Dimmu Borgir em formato de livro, com CD, DVD e um espelho para poder ler as letras do encarte, já que as mesmas estão escritas ao contrário; a coleção completa do AC/DC em digipack; a coleção completa do Iron Maiden em CDs duplos com bônus, e também outra coleção com todos os discos com faixas multimídia; todos os discos lançados no Brasil na série Original Album Classics, formada por pequenos boxes trazendo álbuns clássicos do jazz; o box com todos os DVDs da série Anthology dos Beatles, bem como os três CDs duplos Anthology; e os meus CDs do Miles Davis.

O mais valioso eu não sei. Não tenho muitos itens raros, mas alguns que se diferenciam são o Rock and Roll Circus do Rolling Stones em CD e DVD, o box The Complete Bitches Brew Sessions do Miles, o já citado box dos Beatles, a coleção do Maiden e do AC/DC, alguns singles e promos, uma edição especial limitada a apenas 10 mil peças em todo o mundo do álbum How to Dismantle an Atomic Bomb do U2, essas coisas.

Edição especial do álbum How to Dismantle an Atomic Bomb, do U2

De quais bandas você possui mais material?

Iron Maiden e afins, totalizando quase 100 itens. Tenho também bastante material do AC/DC, Miles Davis, Led Zeppelin, U2, Metallica, Black Sabbath, Ben Harper, Van Halen, Stones, Rage, Neil Young, Concrete Blonde, Dream Theater, Blind Guardian e Rush, entre outros.

Qual disco que você ouviu recentemente e pensou "como que eu vivi tanto tempo sem conhecer isso!?" Ou seja, um disco que você, hoje, não vive sem?

A última vez que isso aconteceu comigo foi entre o final de 2007 e o início de 2008. Um pouco antes do meu filho Matias nascer eu subitamente me interessei por jazz e fui atrás de alguns álbuns do gênero. O Time Out do Dave Brubeck Quartet foi amor à primeira vista, assim como o Kind of Blue do Miles Davis, que me abriram a cabeça para o riquíssimo universo musical do jazz. Hoje, não consigo viver sem os meus álbuns do Miles, que era um artista que até bem pouco tempo atrás eu nem ao menos conhecia.

Desde que começamos a nos falar percebi que você ampliou seu gosto em relação a estilos musicais. Digo ampliou porque você não deixou de gostar do que gostava antes, mas começou a curtir outros estilos, principalmente jazz, certo? Nos conte como você quebrou essas barrerias e o que você curte nesses outros estilos?

Eu comecei ouvindo heavy metal, com AC/DC, Iron Maiden, Metallica, Venom. Fui um adolescente radical, que só ouvia pauleira. Até que dois fatores entraram na minha vida e me abriram definitivamente a cabeça para a música.

O primeiro foram os Beatles. Um belo dia, lá pelos meus 18, 19 anos, decidi entender porque falavam tantas maravilhas daqueles quatro caras de Liverpool. Fui até uma loja e comprei toda a discografia dos Beatles em vinil. Sentei, liguei o som e ouvi todos os álbuns em sequência, de uma só tacada. Essa experiência marcou a minha vida, pois descobri toda a riqueza do grupo e, mais importante, que havia sim música de extrema qualidade fora do heavy metal.

O segundo foi quando conheci o Led Zeppelin. Bem, é claro que eu já conhecia o Led Zeppelin, ouvia tanto o Led Zeppelin IV que sabia a letra de "Stairway to Heaven" de cor, mas foi apenas quando ouvi o Physical Graffiti que compreendi toda a sonoridade genial da banda. Até hoje considero o Led o grupo mais espetacular que eu já conheci, em todos os aspectos.

Esses dois fatores deixaram claro para mim que a música não tem limites, e que seria uma estupidez ficar restrito a apenas um gênero musical. Assim, tenho em minha coleção álbuns de metal, de jazz, blues, pop, rap, enfim, de diversos artistas que eu acho legais dentro de cada gênero musical. Acho que música é momento, e cada um pede um artista, um disco ou um gênero específico. Hoje, costumo dizer que eu não gosto de um estilo específico, mas sim de música, e acho que esse é o grande segredo para entender e absorver essa arte maravilhosa.

Qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Quando morava com meus pais, com 15/16 anos lá no interior do RS, não havia loja de discos na cidade, então eu e um amigo pegávamos um ônibus no sábado pela manhã e viajávamos até uma cidade próxima chamada Passo Fundo. Nessa cidade havia uma loja chamada Bibo Som, e lá nós fazíamos a festa. Frequentemente saíamos de lá com 20, 30, 40 discos embaixo do braço, íamos para a rodoviária e, no final do dia, estávamos de novo em casa. Fazíamos essa viagem umas duas vezes por mês, durante uns três anos eu acho, e foi nessa época que conheci a maioria dos sons que me acompanham até hoje, como Van Halen, Deep Purple, Kiss e muitos outros grupos importantes que formaram a minha educação musical e me ajudaram a evoluir como ouvinte de música.

Quantos álbuns em média você compra por mês?

Já comprei mais, mas atualmente estou meio devagar. Atualmente devo estar comprando só uns 3 ou 4 discos por mês.

Eles estão de olho!!!

Tem algum item que, só de alguém chegar perto, você já gela e morre de ciúmes, tem um carinho especial e não venderia de jeito nenhum? Aqui cabe uma explicação sobre os seus "guardiões", concorda (risos)?

Tenho ciúme de toda a minha coleção, sem exceção. Não empresto discos, ninguém mexe nela, só eu coloco a mão. Sempre que contrato uma empregada nova para o meu apartamento, a primeira coisa que falo é para não chegar perto da estante onde estão os discos, os DVD, livros e revistas.

Sobre os guardiões, sim, tenho vários bonecos espalhados pela estante que guardam a coleção para mim (risos). Lá estão o Batman, Salsicha e Scooby, o ET, o Shrek, o Senhor Incrível, o Coringa e vários outros, de olho para ninguém se fazer de bobo e colocar a mão onde não deve (risos).

Entre tudo o que você possui, quais foram os itens que deram mais trabalho para conseguir?

Hoje em dia não existem muitos empecilhos para encontrar o que se quer. É só estar disposto a gastar uma boa grana que se tem acesso à tudo. Como disse antes, não tenho muitos itens raros, mas tenho especial predileção por edições especiais. Adoro embalagens digipacks, então não descansei, por exemplo, enquanto não completei a coleção do AC/DC nesse formato. O mesmo vale para a coleção de CDs duplos do Maiden, que tenho já há mais de dez anos. Atualmente me coloquei o desafio de conseguir comprar todos os álbuns lançados pelo Miles Davis, mas como são centenas, acho que isso irá me ocupar ainda por vários anos (risos).

Qual é o item mais estranho (ou diferente) da sua coleção?

Com o nascimento do Matias comecei a comprar alguns discos para ele. Consegui encontrar em CD aquele Saltimbancos e o álbum do Vinícius que citei antes, bem como vários itens da série For Babies, que tem reinterpretações de clássicos do rock para bebês. Além desses CDs, acho que o mais diferente mesmo é encontrar Mundo Livre lado a lado com discos do Black Sabbath, e Zeca Baleiro ao lado do ZZ Top (risos).

Detalhe da coleção

Certamente devem existir alguns itens que você olha e pensa: "nossa, porque eu comprei este disco". Que álbuns as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Tenho o hábito de arrumar constantemente a minha coleção de discos. De tempos em tempos coloco tudo pra baixo e arrumo novamente, seja para encaixar as novas aquisições em seus devidos lugares ou para descobrir alguns itens perdidos ali no meio. Nessas arrumações geralmente encontro discos que comprei, ouvi e não gostei, e já os deixo separados para fazer algum negócio em sebos.

Provavelmente, quem não me conhece ficaria surpreso em encontrar discos de rap, MPB e outros estilos que não tem muito a ver com o que escuto habitualmente. Tenho algumas coletâneas de hip-hop, álbuns do Caetano, Chico, discos de um grupo pop aborígene australiano chamado Yothu Yindi, mas acho que nada supera dois CDs que ganhei de uma produtora de áudio que é minha fornecedora na Casa na Árvore. Um deles é de um cara sequelado total chamado Zé do Bêlo, que soa como um Bob Dylan desafinado e bêbado cantando letras surreais, e outro é de uma cantora de funk chamada Tigrinha, que faz um inacreditável funk carioca com temática gaúcha! É tão trash que gera boas gargalhadas (risos).

Qual item que você tem que é apenas para completar a coleção? Ou seja, um disco que você acha ruim mas não vende para não deixar a coleção incompleta!

O primeiro item que me vem à cabeça é o horrível e nojento Virtual XI, do Iron Maiden. Esse disco é muito ruim, com aquele tecladinho sem vergonha de churrascaria em "The Angel & The Gambler" que é digno de vergonha alheia! O Skunkworks do Bruce Dickinson é outro que eu também tenho só para não deixar um buraco na coleção, porque não me desce até hoje.

CDs, DVDs, livros e revistas

Todo colecionador tem as suas manias. Quais são as suas e como você guarda e conserva os seus discos?

Como já falei, ninguém mexe nos meus discos, não empresto, adoro arrumar todos eles de tempos em tempos. Atualmente todos estão guardados em ordem alfabética, e, dentro disso, em ordem cronológica. Deixo os digipacks separados, bem como os álbuns de jazz. Mas já guardei de várias maneiras. Já separei tudo por estilos, com metal, rock, pop, blues e jazz, mas a ordem mais maluca que fiz foi quando, certa vez, resolvi arrumar os discos pela cor das capas, com todos com capas vermelhas juntos, capas pretas, azuis, verdes. Não sei como cheguei a essa ideia, mas deu um trabalhão e até ficou legal, o problema era encontrar os discos no meio de tudo aquilo (risos).

Quais são os itens do seu acervo que você mais curte?

As coleções do Iron Maiden e do AC/DC, o Death Magnetic do Metallica em digipack norte-americano, os discos do Miles Davis, o box dos Beatles e os digipacks em geral. Adoro esse formato!

O box The Complete Bitches Brew Sessions, de Miles Davis

Quais são para você os dez melhores álbuns de rock de todos os tempos? E, por favor, faça outro top10 fora do rock.

Com prazer! Vamos lá então.

No rock seriam esses:
Beach Boys - Pet Sounds (1966)
Beatles - Abbey Road (1969)
Frank Zappa - Hot Rats (1969)
Neil Young - Everybody Knows This is Nowhere (1969)
Derek & The Dominos - Layla and Other Assorted Love Songs (1970)
The Who - Who´s Next (1971)
Led Zeppelin - Physical Graffiti (1975)
Thin Lizzy - Jailbreak (1976)
Lynyrd Skynyrd - Street Survivors (1977)
Clash - London Calling (1979)
Iron Maiden - Powerslave (1984)
Metallica - Master of Puppets (1986)

Passou um pouco, mas se eu, que criei isso, não puder passar, quem poderia? (risos).

E fora dele:
Cannonball Adderley - Somethin´ Else (1958)
Dave Brubeck Quartet - Time Out (1959)
Miles Davis - Kind of Blue (1959)
John Coltrane - A Love Supreme (1965)
Harvey Mandel - Cristo Redentor (1968)
Miles Davis - Bitches Brew (1970)
Mahavishnu Orchestra - The Inner Mounting Flame (1971)
Curtis Mayfield - Superfly (1972)
Herbie Hancock - Head Hunters (1973)
Buena Vista Social Club - Buena Vista Social Club (1997)

Como apreciadores de música, sempre temos a tendência de idolatrar o que foi feito no passado. Vamos fazer o caminho inverso. De 2009 para trás, faça a lista dos discos que você considera de excelentes a perfeitos, basicamente os que serão clássicos no futuro. Concentre-se até o ano 2000, nada antes disso, ok?

Gostei da idéia! Vamos lá então:

Chickenfoot - Chickenfoot (2009)
AC/DC - Black Ice (2008)
Metallica - Death Magnetic (2008)
Robert Plant & Alison Krauss - Raising Sand (2007)
Bruce Springsteen - Magic (2007)
Behemoth - The Apostasy (2007)
Wilco - Sky Blue Sky (2007)
Machine Head - The Blackening (2007)
Arcade Fire - Neon Bible (2007)
Legion of the Damned - Sons of the Jackal (2007)
Amy Winehouse - Back to Black (2006)
Trivium - The Crusade (2006)
Iron Maiden - A Matter of Life and Death (2006)
Mercenary - The Hours That Remain (2006)
Dissection - Reinkaos (2006)
Bruce Springsteen - We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006)
Ben Harper - Both Sides of the Gun (2006)
Rage - Speak of the Dead (2006)
David Gilmour - On an Island (2006)
Wolfmother - Wolfmother (2005)
Exodus - Shovel Headed Kill Machine (2005)
Nevermore - This Godless Endeavor (2005)
Tribuzy - Execution (2005)
System of a Down - Mezmerize (2005)
Kamelot - The Black Halo (2005)
Nightwish - Once (2004)
Behemoth - Demigod (2004)
Joss Stone - Mind, Body & Soul (2004)
Green Day - American Idiot (2004)
The Thrills - Let´s Bottle Bohemia (2004)
Josh Rouse - 1972 (2003)
Grandaddy - Sumday (2003)
Nile - In Their Darkened Shrines (2002)
Flaming Lips - Yoshimi Battles the Pink Robots (2002)
Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2002)
Soilwork - Natural Born Chaos (2002)
Ryan Adams - Gold (2001)
Avantasia - The Metal Opera (2001)
Rhapsody - Dawn of Victory (2000)
U2 - All That You Can´t Leave Behind (2000)
Hellacopters - High Visibility (2000)
Blaze - Silicon Messiah (2000)
Iron Maiden - Brave New World (2000)

O que você está ouvindo ultimamente e destacaria para os leitores da Collector´s, e que não é necessariamente um clássico?

Tenho ouvido muito Betty Davis, principalmente o primeiro álbum dela, de 1973. E outro que não sai do meu CD player é o duplo Live in London, excelente disco ao vivo lançado pelo Leonard Cohen agora em 2009.

Se você tivesse que indicar algumas bandas e discos para uma pessoa que nunca teve contato com o rock, o que indicaria?

Acho que os álbuns clássicos tem esse status não à toa, então recomendaria discos clássicos de nomes como Beatles, Elvis Presley, Rolling Stones, Led Zeppelin, Black Sabbath, Iron Maiden e Metallica.

Agora o que você recomenda por década: de sessenta até hoje?

Anos sessenta: o álbum Pet Sounds dos Beach Boys e todos os discos dos Beatles.

Anos setenta: a década dos clássicos do hard rock, gravados por artistas como Led Zeppelin, The Who, Black Sabbath, Deep Purple, Rainbow, Thin Lizzy, Queen.

Anos oitenta: os anos dourados do heavy metal, então indicaria discos do Iron Maiden, Judas Priest, Metallica, Slayer, Anthrax.

Anos noventa: mais heavy metal. São dessa década dois álbuns que eu gosto muito: The Chemical Wedding do Bruce Dickinson e Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory, do Dream Theater.

Anos 00: acho que Wilco e Ben Harper vem gravando grandes álbuns em sequência, um atrás do outro, e merecem ser mais divulgados e conhecidos por quem gosta de música. No caso específico de Ben Harper, as pessoas precisam ouvir seus discos completos e não apenas os singles que tocam nas rádios, porque tem muita gente que diz que conhece a sua música mas não sabe nada, na verdade.

Dedicatória do escritor canadense Martin Popoff

Nestes anos todos esta paixão pela música certamente propiciou a você diversas experiências interessantes e curiosas. Conta aí alguma história legal que você viveu por causa do seu envolvimento com a música.

Acho que o mais legal de todos esses anos de paixão pela música foi conhecer pessoas interessantes através da Collector´s Room, e, ao mesmo tempo, aprender e colaborar com feras como o Bento Araújo, da poeira Zine, que é uma sumidade em música e uma grande influência para mim; o Sérgio Martins da Veja, que é um dos maiores críticos musicais do Brasil; o Régis Tadeu, que é dono provavelmente do melhor texto do jornalismo musical brasileiro; e o canadense Martin Popoff, autor de diversos livros sobre a música pesada e, provavelmente, o maior escritor "metálico" do planeta.

Sessão rapidinhas: Deep Purple ou Black Sabbath?

Por muito tempo foi o Black Sabbath, mas atualmente é o Purple.

Ozzy ou Dio?

Dio sempre. Ozzy é uma piada ambulante.

Dickinson ou Di´Anno?

Precisa responder mesmo? Bruce, sem dúvida alguma!

Belladonna ou Bush?

John Bush é infinitamente superior a Joey Belladonna.

Sammy Hagar ou David Lee Roth?

Prefiro o Van Halen com o Sammy Hagar, e o disco do Chickenfoot é sensacional!

Brian Johnson ou Bon Scott?

Bon Scott forever!

Venom ou Stryper?

Venom, sem dúvida.

Los Angeles ou Bay Area?

Bay Area. Detesto hair metal.

Thrash norte-americano ou thrash alemão?

Americano.

Metallica ou Megadeth?

Metallica, de goleada!

Mais uma vez muito obrigado por ter aceitado e participado da Collector´s Room, que você criou. Este espaço é seu.

Valeu Daniel. Eu queria agradecer a você, ao Jairo e a todos os amigos que fazem parte da Collector´s Room e tornam a Collector´s um lugar cada vez mais legal todos os dias, repleto de pessoas positivas e companheiras. Devagarinho, devagarinho nós vamos conquistando mais espaço, e isso se deve a todos que acessam o nosso site, fazem parte da nossa comunidade no orkut e ouvem o nosso podcast. Acho que temos ainda muito o que crescer e produzir, e espero ter sempre pessoas transparentes e verdadeiras, como vocês, ao meu lado.


A história de Blaze Bayley e sua banda agora em livro


(Matéria publicada originalmente no Terra)

Será lançado em 25 de setembro o livro
At the End of the Day, biografia que conta em detalhes a história do vocalista Blaze Bayley e também de todos os integrantes de sua banda solo. O livro, com 380 páginas, foi escrito pelo próprio baterista do grupo, Lawrence "Larry" Paterson.

A história de cada integrante é detalhadamente contada, desde a infância dos músicos na Nova Zelândia, Colômbia e Inglaterra, o contato com a música, primeiras bandas, até os últimos trabalhos em estúdio, no processo de gravação do álbum sucessor de
The Man Who Would Not Die.

Além da biografia de cada músico, o livro conta o dia-a-dia da banda na estrada e no estúdio. Há discografia detalhada, fotos e informações sobre turnês. Entre os entrevistados estão Janick Gers e Steve Harris, ex-companheiros do vocalista Blaze Bayley no Iron Maiden.

Sobre o Iron Maiden, o livro traz detalhes do contato de Bayley com o grupo, sua entrada na banda e os motivos que fizeram com que o vocalista deixasse o grupo após dois álbuns de estúdio.

At the End of the Day pode ser encomendado através da loja virtual no site oficial de Blaze Bayley.


Nova edição da Classic Rock elege os maiores guitarristas de todos os tempos


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A nova edição da revista inglesa Classic Rock traz uma lista com os 100 maiores guitarristas de todos os tempos, eleitos pela equipe da publicação. Acho esses listas inócuas e sem sentido, prontas para alimentar apenas conversas despretenciosas de bar, de preferência acompanhada por uma cerveja bem gelada, então geralmente não dou muita importância para essas listas que surgem de tempos em tempos.

O mais legal, no entanto, é que a revista saiu com quatro capas diferentes, envolvidas por uma sobrecapa, cada uma delas trazendo um ícone do intrumento: Jimi Hendrix, Keith Richards, Frank Zappa e Eddie Van Halen. São fotos são lindas e de arrepiar, principalmente a de Hendrix, que é de babar.


Se você ficou interessado, é fácil encontrar a Classic Rock e outras revistas de música importadas em qualquer boa banca Brasil afora, mas prepare-se para o preço, que gira entre 50 e 70 reais por cada exemplar.


Discoteca Básica Bizz#154: AC/DC - Highway to Hell (1979)


(Tales de Menezes, Bizz#154, maio de 1998)

A introdução deste texto é destinada a quem ainda não era nascido em 1979. Naquele ano, ser fã de rock era missão para gente perseverante. Afinal, o furacão punk (que nem foi tão furacão assim) já definhava, restando apenas o Clash e sua peregrinação rítmica por jazz, ska, rockabilly e musicais da Broadway, que resultaria nos ótimos
London Calling e Sandinista!.

O som dominante, porém, ainda era a disco. ABBA, Boney M. e Bee Gees brigavam pelo topo das paradas. De rock mesmo só Queen, Van Halen e AC/DC. O Queen havia passado por sua fase mais criativa e o Van Halen era uma ótima banda, mas sem um ótimo álbum. Sobrou ao AC/DC a incumbência de fazer o melhor disco de rock da temporada. E
Highway to Hell tem muitos predicados para merecer todas as honras.

O grupo dos irmãos Young (Malcolm, guitarra base, e Angus, guitarra-solo) vinha de uma série de turnês consagradoras, bem registradas no filme
Let There Be Rock e no CD ao vivo If You Want Blood (You’ve Got It). A formação era a melhor que a banda já teve: Bon Scott nos vocais, Angus e Malcolm Young nas guitarras, Phil Rudd na bateria e Cliff Williams no baixo. Só que os álbuns anteriores tinham grandes clássicos ("Whole Lotta Rosie", "Problem Child") mas estavam longe de ser uma obra completa. Até chegar a Highway to Hell.

O quinteto trabalhou novamente com John "Mutt" Lange na produção. Apoiado na popularidade do AC/DC, Lange ousou. No lugar da massa sonora habitual do rock pesado, preferiu gravar pistas de guitarra limpas, sobrepostas com sutileza suficiente para ressaltar o lado blues da banda. O produtor burilou o agudo do vocal de Bon Scott e usou todos os membros do grupo no coro de apoio. O resultado é mais peso e menos barulho, passando muito longe do padrão tosco das bandas da época.

O grupo inovou o gênero sem abrir mão de seus preceitos básicos: as letras machistas e fanfarronas, enclausuradas no binômio mulheres/bebida; a busca de uma melodia básica ao extremo, com uma batida quase marcial; e os solos alucinantes de Angus Young, o guitarrista das calças curtas que toca como se estivesse ligado à corrente que passa no fio do instrumento.

O álbum inteiro soa como um greatest hits, embora "Walk Over You" e "Shot Down in Flames" se destaquem como as peças mais elaboradas. A pegada mais blueseira de "Beating Around the Bush" e "Love Hungry Man" ajudou a banda a ganhar um público mais adulto. E se todas essas qualidades não bastassem para garantir a Highway to Hell um lugar em qualquer boa discoteca de rock, há ainda o fato de ser o último registro de Bon Scott, morto meses depois, sufocado pelo próprio vômito.

Highway to Hell é o flagrante da melhor fase de uma banda única, um guitarrista infernal e um vocalista que é uma lenda.


Faixas:
A1 Highway to Hell 3:26
A2 Girls Got Rhythm 3:23
A3 Walk All Over You 5:08
A4 Touch Too Much 4:24
A5 Beating Around the Bush 3:55

B1 Shot Down in Flames 3:21
B2 Get It Hot 2:24
B3 If You Want Blood (You've Got It) 4:32
B4 Love Hungry Man 4:14
B5 Night Prowler 6:13