29 de ago de 2009

Matéria do Jornal da Tarde sobre podcasts destaca o poeiraCast, da poeira Zine

sábado, agosto 29, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

O Jornal da Tarde publicou uma interessante matéria sobre os podcasts. Escrita pelo jornalista Marco Bezzi, ex-Zero e Bizz, o texto fala que muitos dos programas nascidos na web estão migrando para rádios convencionais e até mesmo para a grade de programação de algumas emissores de televisão.

Mas o mais legal de tudo é o enorme destaque, com direito inclusive à foto gigante, dado ao poeiraCast, o podcast da revista poeira Zine, onde Bento Araújo, Ricardo Alpendre, Sérgio Alpendre e José Damiano discutem, em altíssimo astral, sobre a nossa grande paixão: a música.

Para ouvir todos os poeiraCasts já gravados, clique aqui.

Para baixar o arquivo de texto original, clique aqui.

E, para ficar melhor, só faltou comentarem sobre o podcast da Collector´s Room, não é mesmo?




27 de ago de 2009

Castiga!: o primeiro, único e belo disco do Titus Groan

quinta-feira, agosto 27, 2009

Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

A capa com ilustração horripilante pode até causar um calafrio dos diabos, mas a música que sai dos sulcos é uma maravilha só. Lançado originalmente em outubro de 1970 pela Dawn Records, o álbum do Titus Groan é dessas obscuridades musicais que fazem com que este bolha sinistro continue vagando pelos sebos em busca de raridades discográficas perdidas no tempo. Ostentando um nome estranho retirado da literatura gótica (é o título do primeiro livro da trilogia de Gormenghast, de Mervyn Peake, publicado em 1946), este misterioso grupo do Reino Unido durou menos de um ano, tempo suficiente para produzir este único e excelente registro.

Em apenas cinco faixas o quarteto mostra toda a sua criatividade e ousadia nas instrumentações. Composições alucinantes tocadas de forma magistral pelos músicos Stuart Cowell (guitarra, teclados e vocais), Tony Priestland (sax, flauta, oboé e sopros em geral), John Lee (baixo) e Jim Toomey (bateria e percussão). O som denota certa aura medieval, agregando elementos do folk, rock progressivo, hard rock e jazz rock. Nada menos que intrincadas maquinações sonoras dissolvidas em arranjos envolventes e melodias apuradas, criando momentos de puro deleite musical.

Temas como as estilosas "It Wasn’t For You" e "I Can’t Change", ou ainda a magnífica suíte "Hall of Bright Carvings" (título do primeiro capítulo do livro que batizou a banda), indicam uma irrefutável afinidade sonora com grupos britânicos de mesma linhagem como Jethro Tull, Caravan, Colosseum, Traffic ou East of Eden. O entrosamento e a inventividade dos músicos envolvidos impressionam. É notável a interação entre os fraseados de guitarra e os instrumentos de sopro, sem falar no audacioso trabalho percussivo e nas sutis passagens de órgão com texturas medievais.

Outra faixa indispensável é a agradável "It´s All Up With Us", com linha melódica e sonoridade mais acessíveis do que nas outras composições, muito por conta da levada mais pop e da bela harmonização vocal da trupe. No contexto geral, uma sonzeira esquecida no tempo e entregue aos garimpeiros do universo bolha, colecionadores de raridades vinílicas e alienígenas de internet atentos a downloads empoeirados.

Capa do livro de Mervyn Peake, o primeiro da trilogia de Gormenghast

Logo após o lançamento do disco – e em meio a críticas elogiosas da imprensa britânica – a gravadora Dawn promoveu um giro do Titus Groan pela Inglaterra com a participação de outros grupos do seu cast, os não menos obscuros Demon Fuzz, Comus e Heron. Tenebrosamente, a tour foi um fracasso colossal e menos de um ano após a sua fundação a banda encerrou as atividades. Seus integrantes simplesmente desapareceram do mapa musical, mas ao menos deixaram esta raridade pelo caminho.

Quando em 2000 a Get Back relançou esta pérola perdida, não hesitei e adquiri uma cópia em vinil 180 gramas, prensagem italiana, capa dupla e com três faixas bônus: uma versão de "Open the Door, Homer" de Bob Dylan, a belíssima "Woman of the World" e
el grude sônico para estalar los dedos chamado "Liverpool". Estas três músicas foram soltas em um maxi-single pela Dawn em 1970, poucos dias antes do lançamento do álbum homônimo da banda. Vale lembrar que nenhuma delas foi incluída no play original. Taí um clássico empoeirado absoluto. E agora, aditivado.

Mega coleção de Jimi Hendrix à venda no eBay

quinta-feira, agosto 27, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Uma imensa coleção de itens do guitarrista Jimi Hendrix está sendo vendida no eBay. São 847 LPs, 93 CDs, 12 singles de 45 RPMs, 10 DVDs, e mais livros, revistas e catálogos sobre a obra do artista.

Segundo o vendedor, estão na coleção todos os discos lançados por Hendrix, principalmente os do período com o Experience. Os discos referem-se às primeiras edições americanas dos LPs, o que torna a coleção ainda mais atraente, repleta de itens raríssimos de serem encontrados em boas condições hoje em dia.

Outro detalhe de cair o queixo: a maioria dos LPs está lacrada, e mesmo os que estão abertos encontram-se em perfeito estado de conservação! Ou seja, são itens fora de catálogo a um bom tempo, e em estado de novos!


Você pode ver o post original do eBay aqui, com a lista de todos os itens que compõe a coleção.

Para os interessados, a coleção está saindo por US$ 33.333,33 dólares, ou seja, incluindo o custo de envio para o Brasil (mais 1.600 dólares), tudo sairia por cerca de 70 mil reais, fora os impostos! Sinceramente, se eu tivesse grana sobrando, se tivesse ganhado na Mega Sena, compraria sem medo e remorso!

P.S.: obrigado ao amigo e colecionador Marcello Teive, de Florianópolis, pela dica!



26 de ago de 2009

Podcast Collector´s Room #016

quarta-feira, agosto 26, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

No ar a edição número 16 do podcast da Collector´s Room. E, comemorando os nossos quatro meses no ar, um programa um pouco diferente. Chamei o meu amigo Joel Zanette para fazermos um podcast mais descontraído. Falamos de música, é claro, sobre os 40 anos de Woodstock, os 20 anos da morte de Raul Seixas e, como não poderia deixar de ser, rolamos muitos sons interessantes.


E não se esqueça de deixar a sua opinião.


Filmes sobre Música: More (1969)

quarta-feira, agosto 26, 2009

Por Ugo Medeiros
Colecionador e Jornalista

Ficha técnica:
Direção – Barbet Schroeder
Roteiro – Barbet Schroeder e Paul Gegauff
Fotografia – Nestor Almendros
Trilha Sonora – Pink Floyd
Elenco – Mimsy Farmer, Klaus Grunberg, Heinz Engelmann e Michael Chanderli

Duração – 116 minutosOs anos sessenta foram conturbados. O mundo estava em ebulição. O filme do diretor alemão Barbet Schroeder retrata com perfeição a contracultura europeia, sem frescuras ou pudores.
More foi concebido como um filme de pura arte que tentava buscar respostas para a mutação de pensamentos dos mais novos. Rodado na França e Espanha, o longa metragem é, de fato, uma produção multicultural, já que ao longo da obra fala-se inglês, espanhol, francês e alemão.


Drogas, sexo e rock’n’roll. Pode parecer um clichê, mas essa frase resume bem o filme, que tem o Pink Floyd como responsável pela trilha sonora. Como um floydmaníaco assumido, tenho o disco homônimo ao filme como um dos meus favoritos. Nesse disco os ingleses apresentam o último resquício da psicodelia. Mas, deixemos a resenha desse álbum para outro dia.

Voltando à sétima arte,
More é perfeito do começo ao fim. Em plena Paris, cidade sede de revoltas estudantis e de movimentos de esquerda, um alemão se apaixona por uma americana, meio a algumas ações ilegais. Consumo deliberado de álcool e maconha, sexo e um mundo a ser descoberto. A estética é belíssima, sem qualquer uso artificial. Nos rostos dos atores ainda havia um ar ingênuo que todo aquele idealismo deixara, mas que, infelizmente, acabaria em pouco tempo.


O casal viaja para Ibiza, onde passa a morar afastado de tudo. Lá, vivem apenas por viver, escutando música, lendo, vivendo da natureza e utilizando drogas. Não demora muito até que a heroína adentre em suas vidas, deixando uma cicatriz aberta e infecciosa. A relação de amor entre os dois é substituída pela necessidade da droga.

Esse não é um típico filme com um final feliz ou que mostra a contracultura de forma romantizada e vendida, como
Hair (1979). More é dramático, lento, ácido e crítico. Uma obra prima do cinema. Se a contracultura faliu, esse filme é preciso em mostrar as razões.

Beatles na capa da nova edição da Mojo

quarta-feira, agosto 26, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Depois da Rolling Stone norte-americana colocar os Beatles na capa da sua última edição, agora é a vez da revista inglesa Mojo colocar o Fab Four na capa.

A nova edição da conceituada publicação traz uma entrevista exclusiva com Paul McCartney, enquanto o jornalista Jon Savage conta como serão as novas edições remasterizadas dos álbuns dos Beatles que estão chegando às lojas. Além disso, a revista traz também revelações exclusivas sobre o jogo Rock Band focado no grupo. E, como de prache, a Mojo traz um CD de brinde, dessa vez um presente especial para os beatlemaníacos: um disco chamado Abbey Road Now!, com grupos como Cornershop, Robyn Hitchcock, Gomez, The Low Anthem, Glenn Tilbrook, Noah And The Whale e vários outros relendo as clássicas faixas do antológico álbum lançado em 1969 pelos Beatles.

Mas nem só de Beatles é feito o mundo! A Mojo tem também uma entrevista exclusiva com o baterista dos Wailers, Bunny Wailer; uma matéria especial sobre o clássico Tubular Bells, com direito a uma entrevista com Mike Oldfield, onde o músico fala sobre o álbum, que vendeu mais de 17 milhões de cópias em todo o mundo; o fotógrafo Colin Jones abre o seu arquivo e revela fotos sensacionais do The Who em meados dos anos sessenta; além de diversas outras matérias, incluindo o review do novo álbum dos Mutantes, que está saindo lá fora.

Separe a grana porque vale a pena!




Os 40 Anos do The Isle of Wight Festival

quarta-feira, agosto 26, 2009

Por Vitor Bemvindo
Historiador, Colecionador e Apresentador do Programa Mofodeu

Até a organização do The Isle of Wight Festival esqueceu que, em 2008 se comemorou o quadragésimo aniversário deste tradicionalíssimo festival inglês de rock. Nós do Mofodeu não esquecemos e trazemos aqui um retrospecto do que foi esse evento em seus primórdios. No nosso site fizemos um programa especial só com gravações originais da edição de 1970 do festival.

Kaiser Chiels, Sex Pistols e The Police foram os headliners da apagada edição de 2008 do lendário festival, mas pouquíssimo, ou quase nada, se falou sobre o evento, já que hoje em dia trata-se de um festival de segundo escalão se comparado com outros do circuito do verão europeu, como o Rock Am Ring na Alemanha, Download Donington Park Festival na própria Inglaterra e até mesmo o Rock in Rio, que anda perdido entre Lisboa e Madrid.

Mas quando essas bandas nem pensavam em nascer, o Isle of Wight Festival era o mais prestigiado festival europeu do fim da década de 1960. Na época em que surgiu, 1968, não existia a tradição de festivais de rock no velho continente. Era nos Estados Unidos que esses grandes eventos começavam a se disseminar junto com a contracultura e o movimento hippie. O primeiro festival de grande porte aconteceu em Monterey, Califórnia, em 1967. Este foi seguido pelo Miami Pop Festival (1968), Atlanta International Pop Festival (1969 e 1970), Altamont Speedway Free Festival (1969) e pelo mais conhecido deles, o Woodstock (1969), todos na América.

Visão geral da Ilha de Wight

Na Europa, em 1967 o único festival de música importante era o Moutreaux Jazz Festival, que só passou a receber bandas de rock a partir de 1970, com a presença de artistas como Deep Purple e Santana. Mesmo assim, o festival suíço continuou tento características de um evento de jazz, sendo realizado num cassino e para um público seleto.

O Isle of Wight foi o primeiro festival europeu a céu aberto, de grande porte e reunindo bandas de rock de expressão. A primeira edição foi realizada em 1968 tendo em seu line-up bandas como Jefferson Airplane, Smiles e o Tyrannosaurus Rex de Marc Bolan, e foi, até então, o maior festival já realizado na Inglaterra. Só houve um dia de shows, assistidos por aproximadamente 10 mil pessoas.

No ano seguinte o festival já contava com algum prestígio e conseguiu reunir nomes de mais peso, tais como The Who, Joe Cocker, The Band, Moody Blues, Free, Richie Havens e Bob Dylan. O sucesso foi ainda maior do que o da primeira edição, e finalmente a Europa entrava no circuito dos grandes festivais de rock. Em dois dias de shows, o festival conseguiu reunir cerca de 150 mil pessoas, um aumento considerável de público.

Poster da edição de 1970 do festival

O auge do Isle of Wight Festival foi em 1970, quando contou com a participação de cerca 50 artistas durante cinco dias consecutivos, reunindo um público de quase 600.000 pessoas, sendo que a população da ilha não chegava a 100 mil habitantes. A grande confusão feita pelos visitantes aterrorizou os moradores de Wight. Foi uma grande movimentação para aquela pacata ilha. Essa movimentação pode ser vista no documentário Message to Love – The Isle of Wight Festival, lançado em 1997. Além disso, o filme mostra trechos de shows antológicos da edição de 1970.

É difícil destacar momentos altos do festival, já que um sem-número de grandes bandas fizeram parte do line-up. Tentarei aqui destacar alguns dos muitos inesquecíveis shows. O festival foi aberto numa quarta-feita, dia 26 de agosto de 1970, por artistas não muito conhecidos como Judas Jump, Mighty Baby e Kris Kristofferson (mais lembrado por ser o compositor de "Me and Bobby McGee", hit na voz de Janis Joplin). Fechou a noite a banda californiana Redbone.

O segundo dia teve como destaque as bandas emergentes do rock progressivo Supertramp, Black Widow e o cantor norte-americano Tony Joe White. Nesse dia tocaram ainda Terry Reid (hoje conhecido como o cara que recusou convites para cantar no Led Zeppelin e no Deep Purple), além do brasileiro Gilberto Gil, convidado como representante do Tropicalismo.

A partir da sexta-feira, as grandes bandas começaram a se apresentar. É certo que em 1970, grupos como Cactus, Family, Chicago, Taste e Procol Harum não eram tão famosas ainda, mas todas elas alcançaram relativo sucesso, algumas sendo consideradas inclusive grandes mitos da história do rock.

Pete Townshend enlouquecendo junto com o público

O festival esquentou de vez no quarto dia, quando se apresentaram Emerson Lake & Palmer, Miles Davis, Sly & The Family Stone, o Free de Paul Rodgers e Simon Kirke, Ten Years After e Joni Mitchell. Mas o grande destaque deste sábado foram as apresentações do The Who e dos Doors. Pete Townshend e companhia executaram, na íntegra, a recém-lançada ópera rock Tommy, além de alguns sucessos antigos e músicas inéditas como "I Don’t Even Know Myself", que acabou nunca sendo incluída em álbuns oficiais da banda. A apresentação do Doors no Isle of Wight Festival é considerada uma das mais antológicas da banda e ficou marcada como uma das últimas aparições de Jim Morrison, que viria a falecer menos de um ano depois.

O festival foi encerrado num domingo, 30 de agosto, com shows de Jethro Tull, Moody Blues e Joan Baez, entre outros. O grand finale ficou por conta de Jimi Hendrix, anunciado ainda como seu trio Experience, mas se apresentando já com sua nova banda, com Billy Cox no baixo, mas ainda com Mitch Mitchell na bateria. Um show antológico, com destaque para a inédita "Ezy Rider". Bela forma de se encerrar um festival!

Depois disso, foram longuíssimos 32 anos até que o rock voltasse à pequena ilha inglesa. O festival foi retomado no início desse século, mas sem o mesmo brilho. O maior destaque das novas edições do Isle of Wight foi o grandioso show dos Rolling Stones em 2007. Fora isso, nunca mais aquela ilhota recebeu shows com a magia característica de fins dos anos 1960 e início dos 70.

Em 2008 o festival completou 40 anos em agosto e nada foi comentado. Passou em branco. Mas nós do Mofodeu, o programa que tira o mofo do rock, não poderíamos deixar que tal esquecimento se estabelecesse. No Mofodeu#033 selecionamos algumas gravações originais do
Isle of Wight Festival de 1970. Muitas raridades e momentos históricos nesse grande programa. Para ouvir, basta acessar www.mofodeu.com



24 de ago de 2009

Duas décadas sem Dom Raulzito

segunda-feira, agosto 24, 2009

Por Maurício Rigotto
Colecionador
(publicado originalmente no caderno Blitz do jornal Diário da Manhã)

Anos oitenta. A década da minha adolescência. Época em que carrinhos, Playmobil e Falcon foram deixados de lado dando lugar a novas e instigantes descobertas: sexo, rock, literatura, boemia.

A paixão pelo rock e por discos aflorou cedo e de modo intenso. Todo o dinheiro que caía na minha mão era investido em LPs do Led Zeppelin, Pink Floyd, Beatles, Stones, Who, Dylan, Hendrix e muitos outros. No Brasil acontecia uma explosão de bandas nacionais, que caíram nas graças da mídia devido ao sucesso do Rock in Rio.

Poucas dessas bandas me atraíam. Eu era fã do Camisa de Vênus, adorava ir aos shows dos baianos. Achava o Ira! uma grande banda, considerava o Ultraje a Rigor engraçado, e aqui no Rio Grande do Sul, os Replicantes, TNT e Cascaveletes eram as bandas divertidas de se ir a um show. No mais, o restante dos grupos nacionais de sucesso não me empolgavam. Claro que eu ia aos shows dos Titãs, Legião Urbana, Paralamas ou qualquer outra banda que viesse tocar por esses lados, mas não era o que eu gostava de ouvir em casa. De rock nacional, eu preferia ouvir Mutantes e Secos & Molhados, bandas de décadas passadas que já haviam acabado naquela época.

Porém, eu tinha um ídolo do rock brazuca. Eu era (e sou) superfã de Raul Seixas. Comprei todos os discos de Raul e ouvia-os exaustivamente, além de colecionar fitas de vídeo, áudio e reportagens acerca do roqueiro baiano. Posso dizer que a trilha sonora da minha adolescência foi composta por rock inglês, rock norte-americano e Raul Seixas (impressionante como algumas coisas não mudam com o passar dos anos). A idolatria por Raul me levava a usar camisetas com o seu rosto estampado e um botton com o símbolo da Sociedade Alternativa.

Além de ir aos shows nacionais por aqui, também fugia para Porto Alegre, ou São Paulo, de carona, quando havia algum show internacional de alguma banda que eu apreciasse, mas assistir Raul Seixas ao vivo, nunca, ele não fazia mais shows e estava sumido da mídia. Mesmo lançando alguns discos, não aparecia na TV e as parcas notícias sobre ele informavam que estava com sérios problemas de saúde gerados pelo alcoolismo.

No final de 1988, Marcelo Nova, ex-vocalista do Camisa de Vênus, em turnê divulgando o seu primeiro disco solo, convida Raul para participar de alguns poucos shows. Esses poucos shows acabaram se transformando em uma turnê nacional, enquanto Raul e Marcelo trabalhavam em um disco em parceria. No início de junho de 1989, eu abri um matutino de Porto Alegre e lá estava um anúncio que me deixou eufórico: Raul Seixas e Marcelo Nova iriam tocar no Gigantinho no dia 10 de junho. Passei uma semana em estado de excitação e ansiedade aguardando a chegada do sábado para finalmente ver ao vivo meu ídolo do rock tupiniquim. No dia 10 lá estava eu, bem defronte ao palco, na primeira fila. O show começou com Marcelo Nova, acompanhado de sua nova banda, a Envergadura Moral, tocando músicas do seu primeiro disco solo e sucessos do Camisa, além de uma cover de "I Want You (She’s So Heavy)", dos Beatles.

Quando Marcelo chamou Raul Seixas ao palco a casa veio abaixo. A multidão que lotava o ginásio gritava ensandecida pelo roqueiro. Raul subiu ao palco trajando um jaqueta de couro branca com franjas e cantou "Maluco Beleza", seguida de "Cowboy Fora-da-Lei". Fiquei extasiado de emoção, mas também chocado com a má forma física de Raul, que após alguns passos trôpegos e claudicantes, permaneceu estático defronte ao microfone, errando partes das letras e mal conseguindo tocar sua guitarra Guild semi-acústica. Sua aparência também assustava, pois tinha o rosto deformado pelo inchaço decorrente de seus excessos etílicos. Raul tocou "Rock das Aranhas", "Sapato 36", "Al Capone" e outros sucessos, além de fazer duras críticas ao governo do presidente Sarney, o que demonstra que se "nossos ídolos ainda são os mesmos", nossos políticos corruptos também não mudaram.

A dupla apresentou duas novas músicas que entrariam no álbum A Panela do Diabo, que seria lançado em agosto: "Carpinteiro do Universo" e "Pastor João e a Igreja Invisível", para após encerrar apoteoticamente com "Sociedade Alternativa". O público saiu satisfeitíssimo em presenciar e ovacionar nosso roqueiro maior. Foi a única oportunidade que a minha geração teve de assistir Raul ao vivo. Todos sabiam que não haveria uma próxima vez. Sai do Gigantinho e fui caminhando até a rodoviária, onde quase congelei durante uma das madrugadas mais frias de que tenho recordação. Passei a noite tremendo e batendo os dentes de tanto frio, mas não importava, sentia-me realizado, tinha visto Raul Seixas ao vivo.

Sabíamos que Raul não viveria muito, mas ninguém imaginou que seria tão rápido. Dois meses depois, exatamente há vinte anos, no dia 21 de agosto de 1989, a notícia de sua morte tomou conta do país. Raul sucumbira aos 44 anos. Lembro que eu e alguns amigos desolados sacrificamos um velho guarda-chuva, recortando-o em tiras para usarmos como tarjas pretas em sinal de luto.

Felizmente, como o próprio Dom Raulzito dizia: "Os homens passam, mas as músicas ficam".

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