23/10/2009

Led Zeppelin: os 40 anos do segundo disco do grupo


Por Marcos A. M. Cruz
Colecionador
Editor do Whiplash! Rock e Heavy Metal

Indubitavelmente o mais arquetípico grupo de rock pauleira setentista, o Led Zeppelin ficou marcado por sua trajetória meteórica e ao mesmo tempo trágica, além de terem vivido todos os excessos que estão impregnados no imaginário popular sobre os rockeiros (sexo, drogas & rock and roll). Porém, graças a eles, o termo "heavy metal" incorporou-se definitivamente à nomenclatura roqueira.

Provavelmente o trabalho mais heavy da banda, Led Zeppelin II foi gerado em alguns breves intervalos entre um show e outro durante uma corrida turnê norte-americana em 1969, tendo a maioria das faixas sido compostas em quartos de hotéis e gravadas em diversos estúdios nos EUA. Após uma breve pausa em setembro do mesmo ano, reúnem-se no Olympic Studios em Londres para finalizá-lo.

O disco abre com o riff ameaçador de "Whole Lotta Love" - surrupiada de "You Need Love" do repertório do bluesman Willie Dixon - e lá pela metade se transforma numa sequência hipnótica de uivos e ruídos executados no theremim por Jimmy Page (alusão à um orgasmo?). Esta faixa tornou-se (à revelia da banda) o primeiro single lançado, à partir de uma remixagem editada em cerca de 2 minutos.

Prossegue com "What is and What Should Never Be", canção típica do Led pois alterna momentos suaves com intervenções pauleiras. Depois vem o blues lascivo de "The Lemon Song", cuja melodia foi inspirada em "Killing Floor" de Howlin' Wolf, e a letra em "Squeeze My Lemon" de Robert Johnson. Encerra-se o lado A com a primeira parceria Page/Plant - "Thank You" - pungente balada cuja letra foi escrita por Plant para sua esposa, Maureen.

O lado 2 começa novamente com um riff poderoso - "Heartbreaker" -, no qual Jones, tocando um contrabaixo matador, divide a atenção com Page. Na sequência temos "Living Loving Maid", espécie de continuação de "Heartbreaker"; logo após vem "Ramble On", cuja letra foi inspirada pela leitura de
O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.

Em seguida temos um solo de John Bonham - "Moby Dick" - executada em parte sem as baquetas, e como desfecho outra canção emprestada por Willie Dixon: "Bring It On Home", na qual após uma introdução "light" regada à gaita tocada por Plant a banda manda ver, demonstrando que os músicos estavam plenamente entrosados.

Antes mesmo de ir às lojas em 22 de outubro de 1969, este álbum já tinha cerca de 400 mil pedidos antecipados só nos EUA,. Consequentemente, menos de uma semana após lançado pula da 199ª para a 15ª posição nas paradas, e poucos dias após chega ao segundo lugar, perdendo somente para
Abbey Road, dos Beatles. Esta, porém, seria a última vez que o Zep perderia algo para o Fab Four, pois no decorrer da década de 70 bateriam todos os recordes de público e venda estabelecidos anteriormente.

Soma-se à isto a guitarra tonitruante de Page, os vocais soberbos de Plant, o baixo e os arranjos precisos de Jones, a pegada forte e característica de Bonham, e, principalmente, "Stairway to Heaven", que se tornou um dos principais hinos da década, e têm-se então uma idéia do motivo do Led ter se consolidado como uma das maiores e mais influentes bandas de rock que existiram neste planeta!


Faixas:
A1 Whole Lotta Love 5:33
A2 What Is and What Should Never Be 4:47
A3 The Lemon Song 6:20
A4 Thank You 3:50

B1 Heartbreaker 4:15
B2 Living Loving Maid (She's Just a Woman) 2:40
B3 Ramble On 4:35
B4 Moby Dick 4:25
B5 Bring It on Home 4:19


Discos Fundamentais: Van Halen - Van Halen (1978)


Por Thiago Sarkis
Psicólogo e Colecionador
Solada

Jimi Hendrix fez da guitarra um instrumento mais amado e respeitado, e colocou o mundo ao avesso com suas invenções. Após o surgimento de Hendrix, era previsível o aparecimento de novos músicos tentando seguir o mesmo caminho e/ou trazendo algumas inovações. O que não se esperava era o surgimento de mais um guitarrista que revolucionasse o mundo com um novo estilo, novos efeitos e técnicas ainda nos anos 70.

Porém, o inesperado aconteceu. Menos de oito anos depois da morte de Jimi Hendrix, mais exatamente em 10 de fevereiro de 1978, entrava em cena Edward Van Halen (guitarra) acompanhado por seu irmão Alex Van Halen (bateria) e pelos companheiros Michael Anthony (baixo) e David Lee Roth (vocais), com o debut auto intitulado do Van Halen.

O álbum começa com "Runnin’ With the Devil", uma excelente música, que acaba servindo como um aquecimento para a segunda faixa, "Eruption", que se tornou a instrumental mais famosa da história do rock. Não é para menos. Eddie Van Halen inovou, usando e abusando de novas ideias e efeitos e popularizando uma técnica que até hoje muitos pensam ter sido criada por ele: o uso das duas mãos no braço da guitarra, o two hands, tapping, entre outros nomes que descrevem a técnica que Eddie usou e popularizou. Na verdade, violonistas clássicos já usavam disso na interpretação de algumas composições e outros guitarristas também, porém nenhum deles havia inserido essa técnica de forma tão intensa e expressiva em uma música como Eddie fez em "Eruption" e no decorrer de todo o primeiro álbum do grupo.

Depois da verdadeira "erupção" na segunda faixa, vem uma versão para "You Really Got Me", escrita por Ray Davies (Kinks), mas que também se tornou sucesso depois de passar pelas mãos de Eddie & cia. Na sequência, as inesquecíveis "Ain’t Talkin’ ‘Bout Love" e "I’m the One", que apresentaram ao mundo um vocalista talentoso, que também influenciou toda uma geração com seu jeito de cantar, de se vestir e de atuar nos shows.

E o espetáculo que é o debut do Van Halen não para por aí. "Jamie’s Cryin", "Atomic Punk", "Feel Your Love Tonight", "Little Dreamer", "Ice Cream Man" (escrita por John Brim) e "On Fire" mantém o ritmo das cinco primeiras faixas bombásticas. Aliás, "On Fire" foi muito bem escolhida para finalizar essa obra de arte, pois, desde a "erupção" o álbum segue "incendiando" com músicas criativas e bem compostas, que mostravam influências do passado aliadas a inovações que, até hoje, fazem o presente e dão o caminho para o futuro.

O álbum
Van Halen é indicado a todas as pessoas. Fãs de pop, rock, heavy metal, jazz, blues, country, música clássica e todos os outros estilos, já que neste disco nasceu uma geração que construiu uma nova era, com pessoas influenciadas pela guitarra de Eddie, ou pelos backing vocals agudos de Michael Anthony, ou então pelo modo de se vestir e cantar de David Lee Roth.

Definitivamente um álbum indispensável, que teve e ainda tem enorme importância no meio musical e também social.


Faixas:
A1 Runnin' With the Devil 3:32
A2 Eruption 1:42
A3 You Really Got Me 2:37
A4 Ain't Talkin' 'Bout Love 3:47
A5 I'm the One 3:44

B1 Jamie's Cryin' 3:30
B2 Atomic Punk 3:00
B3 Feel Your Love Tonight 3:40
B4 Little Dreamer 3:22
B5 Ice Cream Man 3:18
B6 On Fire 3:01


Discoteca Básica Bizz#191: Beatles - Revolver (1966)


(Alexandre Matias, Bizz#191, junho de 2001)

Paul McCartney incentivando os Beatles a fazerem pequenos trechos superpostos, inspirados em John Cage e Stockhausen. John Lennon querendo soar como o Dalai Lama no alto do Himalaia ao cantar letras inspiradas no
Livro Tibetano dos Mortos. O dedo oriental de George Harrison em uma canção sem mudanças de acordes. A bateria frouxa e hipnótica de Ringo Starr, mais tarde ressuscitada por moderninhos como Beck ("New Pollution") e Chemical Brothers ("Setting Sun").

O produtor George Martin obrigando funcionários dos estúdios Abbey Road a sincronizarem gravadores em colagens aleatórias de som. O técnico Ken Townshend inventando os vocais ADT (Artificial Double Tracking) e o engenheiro de som Geoff Emerick metendo a voz de Lennon numa caixa Leslie dentro de um órgão Hammond. E isso tudo no primeiro dia de gravação do sétimo disco dos Beatles, para uma única canção. A música era "Tomorrow Never Knows", mas ali, no início do álbum, o grupo assinalava a faixa como o começo de uma nova fase, batizando-a sem modéstia de "Mark I".

A canção marcava o princípio de uma era de experimentação na música popular que iria explodir na renascença psicodélica do ano seguinte, transformando o horizonte da cultura pop em um calidoscópio de referências. Com
Revolver, os Beatles entravam em uma escalada que desembocaria em obras-primas como Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, White Album e Abbey Road. De 1966 em diante, passariam a explorar as novas fronteiras da arte, sem perder o senso de perfeição que haviam mirado no álbum anterior. De repente, descobriam as vantagens da manipulação sonora. "Quando experimentamos o som de trás para frente, eles passaram a inverter tudo", diz George Martin no livro Paz, Amor e Sgt Pepper.

As inovações iam além: microfones dentro de instrumentos de sopro, grudados em violoncelos, colados na bateria. Mas a banda estava ousando mesmo nas composições, com as drogas exercendo um papel fundamental. "Dr Robert" cantava sobre um médico pronto para levantar o astral de quem quisesse. "Got to Get You Into My Life" expõe o entusiasmo de Paul McCartney com o fumo. "She Said She Said" e "Tomorrow Never Knows" falam de ácido: a primeira disfarça uma viagem que Lennon teve com o ator Peter Fonda e a segunda escancara a exploração de realidades induzidas ("desligue sua mente", "ouça as cores do seu sonho”).

Por outro lado, os Beatles continuavam entrando em portas musicais abertas nos discos anteriores. "Eleanor Rigby" é a evolução natural de "Yesterday". "Love You To" é George Harrison em sua primeira incursão de cabeça na cultura hindu, com a qual havia flertado em "Norwegian Wood". "Here, There and Everywhere" e "For No One" transformam McCartney em um jovem Schubert, compondo pequenas sinfonias em vez de baladas de amor.

Os assuntos abordados iam da cobrança de impostos a contos infantis, passando por existencialismo, psicodelia, fossa, amor à vida, paixão latente, crítica social e metáforas diversas.

O álbum encontra a banda no exato momento da guinada, um sofisticado registro da melhor música pop de 1966. Poucos meses depois, o grupo encerrou definitivamente a primeira fase de sua carreira ao anunciar que não iria mais tocar ao vivo.

"A transformação toda foi gradual", conta John Lennon no livrão Anthology. "Mas estávamos consciente de que, se havia uma fórmula ou algo do tipo, esta era mover-se para a frente".


Faixas:
A1 Taxman 2:41
A2 Eleanor Rigby 2:09
A3 I'm Only Sleeping 3:03
A4 Love You To 3:03
A5 Here, There and Everywhere 2:27
A6 Yellow Submarine 2:42
A7 She Said She Said 2:39

B1 Good Day Sunshine 2:11
B2 And Your Bird Can Sing 2:03
B3 For No One 2:03
B4 Doctor Robert 2:17
B5 I Want to Tell You 2:31
B6 Got to Get You Into My Life 2:32
B7 Tomorrow Never Knows 2:57


22/10/2009

poeira Zine #27: Procol Harum


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Biografia do AC/DC será lançada no Brasil


Por Anderson de Castro Teixeira
Whiplash! Rock e Heavy Metal

A Companhia Editora Nacional prepara para final de novembro o lançamento no Brasil do livro
A História do AC/DC: Let There Be Rock.

A obra é escrita pela jornalista Susan Masino, que conheceu a banda durante sua primeira turnê, em 1977. Ao longo dos anos ela permaneceu em contato com eles e viu de perto o AC/DC chegar ao estrelato internacional.

O livro traça a história do grupo, desde seus primórdios, em Sydney, Austrália, no início dos anos 1970, além de detalhes como a trágica morte do vocalista Bon Scott, em 1980.

A autora também conta em detalhes como foi a escolha do novo frontman, Brian Johnson, e os bastidores do álbum divisor de águas da história do rock,
Back in Black, apontado pela RIAA - Recording Industry Association of America, órgão que controla o mercado fonográfico norte-americano, como o 2º mais vendido da história.

Essa é a primeira vez que um livro sobre o grupo será traduzido para o português.

Leia também: A história de Blaze Bayley agora em livro


Discoteca Básica Bizz#190: Iron Maiden - Piece of Mind (1983)


(Bernardo Araújo, Bizz#190, maio de 2001)

O começo já foi complicado: no fim dos anos 70, quando o quente na Inglaterra era ser punk, um maluco resolveu formar uma banda de rock pesado com canções melódicas e um pé firme na vertente progressiva adotada por UFO e Jethro Tull.

Por incrível que possa parecer, o grupo, chamado Iron Maiden, foi crescendo, meio aos trancos e barrancos, com mudanças na formação a cada dez minutos. O tal chefão, o baixista Steve Harris, não tolerava drogas, doenças, casamentos ou qualquer outra coisa que pudesse prejudicar a coletividade, daí a dispensa do ex-skinhead e atual assíduo frequentador da noite paulistana Paul Di'Anno (que alguns saudosistas insistem em apontar como o melhor cantor que a banda já teve - isso, claro, porque ninguém ouviu Dennis Wilcock, mesmo porque ele não chegou a gravar), do guitarrista Dennis Stratton e do baterista Clive Burr.

Depois de conquistar o mundo britânico, o Iron Maiden confirmou a liderança na nova onda do heavy metal de lá (que de onda não teve muita coisa: rendeu o Def Leppard, o Saxon e quem mais? O Diamond Head? O Anvil?), mas tio Steve queria mais. Mandou Di' Anno para o espaço e colocou em seu lugar o homem a quem deve ser creditada grande parte da conquista do planeta pelo Maiden: Paul Bruce Dickinson.

Vindo do grupo Samson, ele adicionou melodias assobiáveis e gritos operísticos ao som da banda, tornando-a, aí sim, uma máquina de heavy metal. O primeiro disco do Maiden com Bruce,
The Number 0f the Beast, de 1982, foi o passaporte para o sucesso, com clássicos como a faixa-título e "Run to the Hills".

Então tudo bem, não há mais como crescer. Ou há? Em matéria de sucesso, sim - ainda que em uma época complicada, em que o mundo não estava assim tão ao alcance de todos (o Iron, aliás, foi um dos primeiros a se apresentar nos países então comunistas da Europa Oriental, na célebre turnê Behind the Iron Curtain) -, mas principalmente em qualidade.

Em Piece of Mind, Steve Harris pela primeira vez permitiu que outros integrantes participassem ativamente das composições. Aí, Bruce tirou da manga "Flight of Icarus", que, ao mesmo tempo, era a cara do grupo, com sua temática mitológica (Harris é fã do negócio e Bruce, por uma feliz coincidência, é formado em História), e tornou o som do Maiden radiofônico, sem farofar.

Sozinho, o vocalista enfiou-se novamente em seus livros e fez a bela "Revelations" - atualmente as duas estão fora dos shows, mas chefe é chefe, né? Não que o patrão não estivesse inspirado: Steve compareceu com, possivelmente, a canção que melhor define o Iron Maiden: "The Trooper", até hoje uma das favoritas dos fãs,um avassalador ataque da cavalaria, e rocks mais diretos como "Die With Your Boots On", em parceria com Bruce e com o guitarrista Adrian Smith, e “Where Eagles Dare".

A tentativa de se fazer heavy metal a partir de literatura da vez, "To Tame a Land", baseada em Duna, não emplacou, mas ajudou a dar um charme extra ao disco.

Sob uma tutela menos pesada de Steve, o Iron Maiden pôde descobrir que berros no meio das canções não são imprescindíveis para se fazer música pesada. Além de Bruce, que põe as manguinhas de fora ao compor e interpretar, os guitarristas Dave Murray e Adrian Smith soltam os dedos nas harmonias dobradas que são a marca registrada da banda. E, apesar de não aparecer tanto para a arquibancada, faz diferença a técnica do veterano Nicko McBrain, que o Maiden foi buscar na bateria da banda francesa Trust (do sucesso ''Anti-Social'', regravado pelo Anthrax). Sem demonstrar o virtuosismo que exibiria mais tarde, ele segura a onda com personalidade, completando a formação clássica da banda.

É bem verdade que o Iron Maiden que entrou para a história revelou sua cara em The Number of the Beast e conquistou o mundo em Powerslave, mas a banda só é o que é porque gravou Piece of Mind entre os dois.

Faixas:
A1 Where Eagles Dare 6:08
A2 Revelations 6:51
A3 Flight of Icarus 3:49
A4 Die With Your Boots On 5:22

B1 The Trooper 4:10
B2 Still Life 4:37
B3 Quest for Fire 3:40
B4 Sun and Steel 3:25
B5 To Tame a Land 7:26


21/10/2009

1965: o auge da Invasão Britânica e a eletrificação do folk rock


Por Vitor Bemvindo
Colecionador e Historiador

Essa semana o Mofodeu estreou uma nova série: o Anuário Mofodeu. O objetivo desses programas será analisar a evolução do rock ano a ano. Uma vez por mês faremos a limpa em um ano da história do rock, contando os fatos mais importantes e trazendo algumas faixas lançadas neste determinado ano. Como colaborador da Collector´s Room, trarei sempre um artigo fazendo uma análise do ano determinado no rock.

Começamos com o ano de 1965. Para que não costuma ouvir o Mofodeu, talvez não saiba que 90% das canções que executamos no programa estão no recorte entre 1965 e 1975. Por quê? Por vários motivos. O principal deles é por conta do gosto pessoal dos produtores e apresentadores do programa. Quando surgiu a proposta do programa, limitamos o recorte temporal até o ano de 1979, mas quase sempre ficamos com discos e músicas produzidas no período citado.

1965 foi escolhido como marco inicial por conta do simbolismo dos fatos ocorridos naquela época e, em especial, por preceder um momento em que o rock encontrou-se com o experimentalismo extremo, em fins da década de 1960. Em meados daquela década o rock ainda tinha as características ingênuas dos seus primeiros anos mas, ao mesmo tempo, começava a se tornar mais político. Isso aconteceu por conta de estarem despontando, naquele momento, dois movimentos bem distintos: o folk rock e a invasão das bandas britânicas nos Estados Unidos.

Enquanto o folk rock encontrava seu auge com canções políticas entoadas por nomes como Bob Dylan e Joan Baez, acontecia, concomitantemente, um movimento que se reencontrava com as origens do rock, capitaneado por bandas inglesas como os Beatles e os Rolling Stones. O folk rock não era mais uma novidade pois, desde o começo da década, já havia um forte movimento do estilo. Naquele ano, no entanto, o subgênero começava a se transformar principalmente por conta do envolvimento de Bob Dylan com diversas bandas de rock and roll.

Naquele ano, Dylan lançaria seu primeiro álbum inteiramente gravado com o acompanhamento de uma banda de rock, Highway 61 Revisited. Anteriormente, predominavam no trabalho do cantor as canções acústicas, sendo a maioria delas executadas apenas com voz e violão. Aquilo seria uma verdadeira revolução para o folk rock, já que além de ter sido bem aceito entre os admiradores do gênero, ampliou sua popularidade, conseguindo conquistar fãs de rock and roll clássico.

Highway 61 Revisited, o álbum que eletrificou o folk rock

O lançamento de "Like a Rolling Stone", que viria ser a faixa de abertura do disco citado, é considerado por muitos como um divisor de águas na carreira de Dylan, aproximando-o definitivamente aos artistas do rock.

Algo que ajudou muito no aumento de popularidade de Bob Dylan foi o fato de algumas bandas lançarem suas canções com algum sucesso. Em 1965 os Byrds estouraram com uma composição de Dylan, "Mr Tamborine Man".

As músicas de protesto também ganharam bastante espaço, graças, principalmente, à escalada da Guerra do Vietnã, que cada vez era mais impopular entre os norte-americanos. O aumento das tropas ianques no país do sudeste da Ásia encontrou como principal opositor no meio artístico Barry McGuirre, que lançou "Eye of Destruction".

Por outro lado, a Beatlemania atingia o seu auge. Os Beatles foram responsáveis pelo boom das bandas britânicas nos Estados Unidos, graças a sua ida ao país em 1964. Um ano depois, o sucesso da banda ajudou uma série de outros artistas a se consolidarem na América. Foi o caso de grupos como Rolling Stones, The Who, Yardbirds, Animals, entre muitas outras.

O quarteto de Liverpool, por sua vez, começava a mostrar que estava a frente de seu tempo, diferenciando o seu som das demais bandas com o lançamento de Help! (o álbum e o filme) e, principalmente, de Rubber Soul. Além do crescimento musical, houve também um crescimento nas cifras que envolviam o grupo. Os shows eram cada vez mais caros e as vendas dos singles alcançavam níveis nunca antes experimentados. Durante quase todo o ano eles mantiveram no mínimo três canções entre as mais tocadas, segundo a Billboard, sendo "I Feel Fine" a faixa mais executada naquele ano. O sucesso dos Beatles era tamanho que a Rainha os nomeou Membros do Império Britânico.

Beatles nomeados Membros do Império Britânico

Os Rolling Stones também consolidaram sua carreira internacional em 1965, por conta de uma turnê mundial (que incluiu até mesmo a Austrália) e do sucesso de seu primeiro álbum lançado nos Estados Unidos, que chegou às lojas um ano antes. Os compactos de "(I Can't Get No) Satisfaction" e "Get Out of My Cloud" foram muito vendidos em diversas partes do planeta, mostrando a força dos meninos maus que "combateriam os Beatles".

A carreira de polêmicas envolvendo os Stones começava a crescer também. Jagger, Richards e Wyman foram condenados a pagar uma multa por terem urinado em uma parede de um posto de gasolina, em Londres. Além disso, as arruaças, durante as turnês, em hotéis e bastidores, passam a ser marca registrada do grupo.

Capa do compacto "My Generation", do The Who

O Who foi outra banda que se deu bem ao pegar carona na onda de Invasão Britânica, graças às suas performances destruidoras e o evidente talento. O sucesso de "My Generation" e "I Can't Explain" ultrapassou a fronteira da Grã-Bretanha, trazendo a banda para o patamar dos grandes grupos.

Outras bandas inglesas como The Animals, The Yardbirds, The Kinks e Manfred Mann também conseguiram atingir o sucesso com alguns singles tanto na Grã-Bretanha quanto nos Estados Unidos, mas nada comparado ao êxito de Beatles e Stones.

Além do folk rock e da Invasão Britânica, alguns grupos fora desses universos começavam a firmar seus passos, fugindo um pouco do trivial. É o caso, por exemplo, dos americanos da The Paul Butterfield Blues Band, que com seu ecletismo que mesclava o rock ao blues alcançou sucesso de crítica e público com o seu excelente álbum de estreia. O grupo capitaneado por Butterfield foi responsável pela quebra de alguns preconceitos, pois introduzia um vocalista branco, ajudando na disseminação do blues rock, antes restrito aos guetos. O blues rock demonstrava sua força também na Inglaterra, graças a bons trabalhos de nomes como Yardbirds e The Pretty Things.

Outros norte-americanos que alcançaram sucesso foram os Mamas & The Papas, que lançaram o compacto de "California Dreamin'" naquele ano. A faixa entraria no primeiro álbum do grupo, lançado no ano seguinte, mas já em 1965 a canção começava a ganhar status de hino de uma geração. Com o fortalecimento do flower power, a partir de 1967, a música voltou a ser sucesso, mas isso é assunto para o próximo artigo.

"California Dreamin'" foi um dos maiores sucessos de 1965

Para ouvir alguns sucessos e canções esquecidas lançadas em 1965, ouça o Mofodeu#071, o primeiro da série
Anuário. Para ouvir, basta acessar o site www.mofodeu.com


20/10/2009

Discoteca Básica Bizz#189: David Bowie - Hunky Dory (1971)


(Pedro Só, Bizz#189, abril de 2001)

Não era exatamente como divindade pop que aquele suburbano magrelo, ex-mímico, ex-mod, com três álbuns incoerentes no currículo, era tratado em Londres. Aos 24 anos, David Bowie já ensaiara passos como cantor/compositor hippie e tentara ser o que os ingleses chamam de
music hall entertainer (uma coisa meio Ivon Curi).

No começo daquele 1971 havia lançado um disco de rock pesado, The Man Who Sold the World, aparecendo na capa metido em um vestidinho. De escassa repercussão, o trabalho despertou a atenção de um empresário canalha americano, Tony DeFries. Embarcado para os Estados Unidos, Bowie trocou figurinhas com Lou Reed e Andy Warhol. Começava o plano marqueteiro que o estouraria em 1972, impulsionado pelo rock'n'roll energético de Ziggy Stardust. A incipiente revolução glam já estava em curso, mas o futuro astro demorou um disco para cair dentro musicalmente.

Esse disco foi Hunky Dory. A partir dele, Bowie deixou de ser uma nebulosa promessa. Logo na abertura, "Changes", inspirada pela gravidez da então esposa Angie, assumia sua natureza mutante e avisava: "Essas crianças em quem vocês cospem / Enquanto tentam mudar seus mundos / São imunes aos seus consolos / Eles sabem muito bem o processo pelo qual estão passando". O arranjo, porém, era típico de café-teatro, baseado no piano de Rick Wakeman (do Yes) e com mudanças de direção na estrutura harmônica a perseguir aquele truque Cole Porter de traduzir a letra em música.

Em seguida, mais uma adorável frescura pianística. "Oh! You Pretty Things", saudava a chegada do filho Zowie misturando conceitos maluco beleza nietzschianos ("abram alas para o Homo Superior"). Terminava com mais um alerta: "Todos os estranhos chegaram hoje / E parece que estão aqui para ficar".

Muito além da simples exaltação da nova raça andrógina e extravagante mencionada em "Kooks" - outro vaudeville coruja em homenagem ao pequeno Zowie -, as mensagens pegavam em cheio a garotada que crescia viciada em TV e sexualmente confusa diante de tantas portas abertas pelos anos 60. Meninos e meninas capazes de entender o zapping da balada "Life on Mars?". Nessa obra-prima bastarda ("Inspirada por Frankie", informa a contracapa - no caso, "Frankie" Sinatra e sua versão de "My Way"), papai, mamãe, Mickey Mouse, Lennon "à venda de novo", a "Amerika", a decadente Inglaterra, sonhos de celulóide, tudo é triturado no coração de uma adolescente. E transformado em beleza pelas cordas arranjadas por Mick Ronson (1946-1993), guitarrista que passaria à eternidade como o adorável presepeiro a escudar Ziggy.

Na categoria grandes imitações, Bowie incluiu três recados para lá de ambíguos. "Andy Warhol", um pseudo flamenco, mais sacaneia do que homenageia (''Andy tira uma soneca", ''Andy pensa em tinta e cola, mas que coisa legal mais chata!"). "Song For Bob Dylan" dirige-se ao bardo como se ele fosse um super-herói ("Dê-nos de volta nossa unidade / Não nos deixe com a sanidade deles"), não sem certa ironia. "Queen Bitch", talvez o único rock'n'roll do álbum, é paródia assumida do Velvet Underground, com vocais falados à Lou Reed e letra sobre uma bicha má que rouba o "amigo" do narrador.

Para fechar, uma pitada de originalidade, "The Bewlay Brothers". Por trás da letra críptica, impenetrável, repleta de referências à convivência com Terry (o irmão esquizofrênico de Bowie que se matou), o pathos da grande arte. Como algumas das melhores coisas da vida, você não entende, mas sente.

Em Hunky Dory, se fez farejar pelo mundo o genial diluidor que há três décadas dá as cartas na música pop. A partir de idéias alheias, sim, mas e daí?


Faixas:
A1 Changes 3:37
A2 Oh! You Pretty Things 3:12
A3 Eight Line Poem 2:55
A4 Life on Mars? 3:54
A5 Kooks 2:53
A6 Quicksand 5:06

B1 Fill Your Heart 3:07
B2 Andy Warhol 3:56
B3 Song for Bob Dylan 4:12
B4 Queen Bitch 3:18
B5 The Bewlay Brothers 5:22


19/10/2009

Discoteca Básica Bizz#188: Ira! - Psicoacústica (1988)


(José Flávio Júnior, Bizz#188, março de 2001)

O terceiro disco do Ira! já foi chamado de tudo: maldito, visionário, ousado, suicida. A começar pela decisão do quarteto de abdicar de um produtor para o trabalho. Apenas os integrantes e o engenheiro de som português (que viraria um mega produtor no futuro) Paulo Junqueiro seriam suficientes - nenhum grupo de rock nacional nascido nos anos 80 havia feito proposta semelhante às suas gravadoras.

A criação de "Farto do Rock'n'Roll" dá uma idéia do clima reinante durante as gravações no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. O baixista Gaspa chegou com um tema pesadíssimo. A música ficou pronta, mas a letra não saía. Então, o guitarrista Edgard Scandurra apareceu com os versos que falavam de "outros sons, outras batidas, outras pulsações" e agrediam o rock de uma maneira inteligentíssima. Nasi não quis cantar aquilo, por julgar ofensivo demais. Pediu para Edgard assumir a bronca, mas não se furtou a demonstrar seus dotes de DJ fazendo scratches na canção, enquanto o baterista André Jung introduzia batuques de samba. Mais tarde, o guitarrista confessaria que sua intenção era dar um toque em Nasi e André, envolvidos até o talo com a produção hip-hop da época.

Concluído, o trabalho não deixava dúvidas quanto aos méritos. Os problemas ao redor da obra, no entanto, foram vários. Primeiro: a gravadora não conseguiu achar uma música de trabalho. As faixas eram compridas e consideradas difíceis. A reflexiva "Pegue Essa Arma” foi a encarregada de puxar o disco e já determinou seu fracasso - apenas 50 mil cópias vendidas, 200 mil a menos que o antecessor Vivendo e Não Aprendendo.

Segundo: o single seguinte foi o proto-reggae "Receita Para Se Fazer Um Herói", cuja letra fora fornecida por um ex-colega de exército de Scandurra, o soldado Esteves. Ele saiu nos créditos, mas cismou de pedir uma grana absurda pela autoria, sob a ameaça de embargar a obra. Paralelamente, uma leitora de Bizz acusava o Ira! de plágio, pois tinha lido a letra de "Receita Para Se Fazer Um Herói" em um livro de História. O rolo fenomenal só terminou quando a viúva do escritor português Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, o verdadeiro dono do poema, foi encontrada.

Terceiro: usar sampler não era algo comum nos idos de 80, o que levou Nasi a procurar o cineasta Rogério Sganzerla para a liberação das frases de seu filme de estréia (O Bandido da Luz Vermelha) para as faixas "Rubro Zorro” e "Pegue Essa Arma”. O diretor concordou, contanto que fosse chamado para dirigir um clipe para a banda. A gravadora topou, Sganzerla pediu muito dinheiro, a gravadora deu para trás, Sganzerla passou a ligar para Nasi de madrugada ameaçando embargar a obra (mais um!).

Apesar de reunir rocks sublimes como "Poder, Sorriso, Fama” e "Manhãs de Domingo", nos quais o guitarrista abusava de camadas, efeitos e recursos de produção da época,
Psicoacústica chocava o ouvinte pela ruptura com o passado recente do Ira!. ''Advogado do Diabo", um rap sobre base de pandeiro, foi fundamental para o surgimento do mangue beat. Chico Science era tão maluco pela música que chegou a incluí-la no repertório da Nação Zumbi.

Por ter antecipado tendências e reunir as melhores canções adultas da banda, o disco manteve seu frescor por todos esses anos. Jogou o Ira! no ostracismo, mas isso é só um porém. Nasi confirma: "Faríamos tudo de novo, nunca achamos que tínhamos dado uma bola fora".


Faixas:
1 Rubro Zorro
2 Manhas de domingo
3 Poder, sorriso, fama
4 Receita para se fazer um herói
5 Peguei essa arma
6 Farto do Rock'n Roll
7 Advogado do diabo
8 Mesmo distante