9 de jan de 2010

Discos Fundamentais: George Benson - Beyond the Blue Horizon (1971)

sábado, janeiro 09, 2010

Por Fábio Carrilho
Jornalista e Músico
(texto publicado originalmente na edição #167 da revista Cover Guitarra)

Se você perguntar a qualquer guitarrista sobre qual imagem ele faz de George Benson nos dias de hoje, prepare-se, pois poderá escutar algo como "um ótimo cantor de baladas" ou, para os mais radicais, "um vendido ao show business".

O fato é que não há como negar a frustração dos admiradores daquele velho Benson, do homem que foi apontado como o sucessor de Wes Montgomery nos anos 60 pelo seu fraseado bebop, oitavas incendiárias e timbre único de guitarra, pela predominância de trabalhos pop na carreira do músico desde que foi alçado ao estrelato com os álbuns Breezin´ (1976) e, especialmente, Give Me the Night (1980).

Sem dúvida, Benson é um grande cantor de soul pop e um entertainer de primeira grandeza, mas a pergunta que sempre fica é porque ele, com toda a sua biografia e, principalmente, pela sua conta bancária acumulada nesses anos de carreira, não se interessaria em surpreender a todos gravando um álbum instrumental mostrando que ainda é o cara na guitarra. Talvez não ganhasse tanto dinheiro, mas público é o que não faltaria para essa empreitada.

Enquanto isso não acontece, a maioria dos ábuns de sua fase mais visceral como instrumentista, felizmente, continua em catálogo, pelo menos no exterior. Um deles é Beyond the Blue Horizon, tido por muitos como o seu trabalho mais jazzístico e, consequentemente, o menos comercial. Gravado em 1971, este disco possui algumas peculiaridades, a começar pelo fato de ter sido a estreia de Benson pelo selo CTI, do lendário produtor Creed Taylor. Só para lembrar, Taylor já havia trabalhado com o guitarrista em álbuns como Shape of Things to Come e The Other Side of Abbey Road, ambos de 1969 e lançados pelos selos A&M e Verve, respectivamente.

Em vez do clima descontraído desses discos, que oscilavam entre o soul jazz e o jazz funk, Taylor deu um direcionamento, digamos, mais "sério" a este LP, o qual, para alguns, pode dar a impressão de "frieza" por parte da banda. No entanto, um time de músicos formado por Clarence Palmer (órgão), Ron Carter (contrabaixo), Jack DeJohnette (bateria), Michael Cameron e Albert Nicholson (ambos na percussão) está, sem dúvidas, acima de qualquer suspeita.

São apenas cinco temas que, sem exageros, formam um verdadeiro tratado do estilo marcante de Benson na guitarra. "So What" (de Miles Davis) é a faixa de abertura, com sua melodia executada por Benson nas cordas graves e intercalada com os acordes de Palmer. É interessante notar as mudanças cíclicas de condução rítmica da cozinha, que servem de bases para os improvisadores, começando com um groove calçado na divisão da melodia, passando por um walking jazz rápido e depois fechando com uma levada mais marcada.

Logo após vem "The Gentle Rain", do violonista brasileiro Luis Bonfá, que tem clima bossa de gringo e apresentação irretocável do tema na guitarra, com single notes floreadas, reexposição em oitavas e um baita timbre de sua Guild (naquela época ainda não existiam as Ibanez GB).

Já a autoral "All Clear", com os músicos extremamente soltos, possui um clima bem relaxado e apresenta um dos melhores improvisos de Benson no disco, com direito a bends bluseiros, double-stops e solos em acordes.

"Ode to a Kudu" é a faixa mais delicada, uma verdadeira pérola bensoniana, com introdução lírica em acordes de guitarra em clima de oração, sem a banda, cujos membros vão, um a um, progressivamente, fornecendo o acompanhamento.

Os bongôs e as congas dão o clima de "Somewhere in the East", faixa mais instigante do trabalho, que revela um Benson impensável nos dias de hoje, explorando sem pudores intervalos inesperados, rítmicas complexas e efeitos variados.

O CD ainda conta com três bonus tracks com tomadas alternativas. Recomendado sem restrições.


Faixas:
A1 So What? 9:05
A2 The Gentle Rain 9:05
B1 All Clear 5:15
B2 Ode to a Kudu 3:45
B3 Somewhere in the East 6:05

8 de jan de 2010

Jeff Beck - Performing This Week ... Live at Ronnie Scott's (2008)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista

Cotação: ****1/2

Rock, techno, jazz, fusion, blues, reggae, funk. Tudo isso (e mais um pouco) faz parte da receita única de Jeff Beck, um dos maiores guitarristas da história do rock. E há muito tempo Jeff Beck estava devendo um álbum ao vivo. Quem teve a oportunidade de assistir à sua apresentação no Free Jazz de 1999 sabe o que o guitarrista é capaz de fazer em cima de um palco.

Agora, finalmente, está sendo lançado o álbum
Performing This Week ... Live at Ronnie Scott's, via ST2. E o álbum transmite exatamente o que é um show de Beck. Mestre da guitarra, transita em variados gêneros musicais com uma naturalidade impressionante, seja em composições suas ou de terceiros, cujos nomes vão de Jimmy Page a Charles Mingus, passando por Lennon & McCartney, Stevie Wonder e John McLaughlin.

Para acompanhar Beck, a banda não podia ficar muito atrás. E o trio escolhido, formado por Vinnie Colaiuta (bateria), Jason Rebello (teclados) e Tal Wilkenfeld, uma baixista de 22 anos que tem em seu currículo apresentações ao lado de Eric Clapton, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Joss Stone, Chick Corea e Allman Brothers Band, faz a cama sonora perfeita para Jeff Beck deitar e brilhar com a sua guitarra.

Como já é costume em seus shows, Beck apresenta de tudo um pouco nesse
Performing This Week ... Live at Ronnie Scott's. As pungentes "Were Were You", "Cause We've Ended As Lovers" e "Angel (Footsteps)" fazem um contraponto perfeito aos riffs e solos sensacionais de "Beck's Bolero" (com direito a uma bateria no estilo "militar" de Colaiuta), "Scatterbrain", "Big Block" e "Brush with the Blues".

O bicho ainda come solto nos rocks "Led Boots" e "Stratus", e Jeff Beck mostra intimidade com os ritmos eletrônicos (praticamente techno) de "You Never Know" e "Space Boogie", esta última uma espécie de jazz espacial. Outro destaque é a faixa "Behind the Veil", de Tony Hymas, que faz qualquer um se sentir na Jamaica. A dobradinha "Goodbye Por Pie Hat" (Charles Mingus) e "Brush with the Blues" (Jeff Beck e Tony Hymas), com os seus mais de seis minutos de êxtase, é outra que dispensa maiores comentários.

Em "A Day in the Life" é impressionante notar como a guitarra de Jeff Beck canta. Se você fechar os olhos, conseguirá "ouvir" a letra da canção na voz de John Lennon. Certamente é isso que faz de Jeff Beck um dos maiores guitarristas de todos os tempos: a sua guitarra fala.


Faixas:
1 Beck's Bolero 3:29
2 Eternity's Breath 1:14
3 Stratus 4:47
4 Cause We've Ended as Lovers 5:17
5 Behind the Veil 5:09
6 You Never Know 3:20
7 Nadia 3:41
8 Blast From the East 4:40
9 Led Boots 4:23
10 Angel (Footsteps) 5:41
11 Scattertrain 4:32
12 Goodbye Pork Pie Hat / Brush With the Blues 6:14
13 Space Boogie 4:20
14 Big Block 5:49
15 A Day in the Life 4:46
16 Where Were You 2:51

Leia também: Jeff Beck - Blow by Blow (1975)

Mallu Magalhães - Mallu Magalhães (2009)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Por José Flávio Júnior
Crítico Musical

Cotação: ***1/2

Uma certeza dava para ter no comecinho de 2008, quando Mallu Magalhães protagonizou os primeiros shows de sua vida na noite paulistana: acompanhar o desabrochar artístico daquela cantora seria uma das atividades mais divertidas dos anos posteriores. Pois acabamos de chegar ao segundo capítulo dessa saborosa história: "De quando a jovem estrela completa 17 anos, descobre o amor e o rock psicodélico - não necessariamente nessa ordem".

Só que o novo disco de Mallu ainda não cabe inteiro nesse título aí. Ele também apresenta a mocinha investindo em ritmos brasileiros, se aproximando do ska jamaicano, sendo acompanhada por orquestra, trabalhando com o produtor brasileiro mais festejado dos últimos tempos (o carioca Kassin) e até mesmo produzindo uma faixa, "O Herói e o Marginal", inspirada em Hélio Oiticica. É muita novidade para alguém que literalmente começou outro dia. Mas a velocidade com que as coisas acontecem com Mallu não é a mesma que vale para o resto da humanidade. E, mesmo com tanta inovação, ela não "traiu o movimento". Pelo menos seis das 13 faixas trazem um gostinho daquela Mallu que apareceu com um violão no colo dizendo tocar "
folk and roll".

Também somam meia dúzia as canções em português. Considerando que sua estreia continha apenas duas, nota-se uma tendência. E fica a impressão de que esse é um álbum de transição. De que, no terceiro, o português dominará o cenário, assim como as influências de MPB e de outros gêneros que não o folk.

Algo que ficou para trás é a ingenuidade de canções como "Tchubaruba", o hit que ela escreveu aos treze. Todas as músicas são muito frescas, fotografias de uma Mallu apaixonada (o namorado Marcelo Camelo pode ser encontrado nos versos de "Te Acho Tão Bonito" e nuns tiques vocais mimetizados) e preocupada em não desapontar as pessoas que já a queriam bem antes da chegada dos fãs ("Make It Easy", dedicada à sua mãe, fala disso). Em "Compromisso", Mallu conjuga essas duas questões principais. Tendo o pai como confidente, reclama da rotina puxada, que a impossibilita de passar mais tempo com o amado. Vale lembrar que em 2010, quando sair para divulgar esse CD pelos palcos do país, a adolescente ainda estará cursando o último ano do ensino médio!

O rock psicodélico citado lá atrás é o melhor termo para definir músicas como a ótima "Bee on the Grass", que mostra o lado mais ambicioso da Mallu compositora. Ecos da fase lisérgica dos Beatles estão nessa faixa e em quase toda parte. Mas nenhuma firula sonora consegue ser mais doida que a própria trajetória dessa guria.

To be continued ...


Faixas:
1 My Home Is My Man
2 Nem Fé Nem Santo
3 Shine Yellow
4 Versinho de Número Um
5 Make It Easy
6 Compromisso
7 Te Acho Tão Bonito
8 Ricardo
9 Bee On the Grass
10 Soul Mate
11 You Ain’t Gonna Loose
12 É Você que Tem
13 O Herói e o Marginal


Iron Maiden - Flight 666: The Film (2009)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista
Esquina da Música

Cotação: ****1/2


O Poderoso Chefão, Forrest Gump, De Volta Para o Futuro, Pulp Fiction, Guerra Nas Estrelas ... Que nada! O fã do Iron Maiden já tem o seu filme predileto, e o nome dele é Flight 666, um documentário que mostra a intimidade da banda durante a Somewhere Back in Time Tour, que passou duas vezes pelo Brasil.

E para a alegria dos fãs brasileiros, o país está bem representado no DVD, com imagens dos shows em São Paulo e Curitiba, durante a primeira perna da turnê. Um dos personagens mais interessantes pescados nesse documentário também é brasileiro. Trata-se de um pastor que tem 162 tatuagens do Iron Maiden e se diz fã número 1 da banda. De quebra, o seu filho se chama Steve Harris. O filme também mostra uma pelada dos músicos do Iron com participação dos colegas do Sepultura.

Mas não é só o Brasil que está bem representado na turnê. Apesar de o documentário, em alguns momentos, possuir um tom bajulador, com frases de efeito como "
essa é a turnê mais ambiciosa da história do rock", o roteiro é interessante, mostrando as andanças de Bruce Dickinson e companhia pelos quatro cantos do planeta. Flight 666 passa pela Índia, Austrália, Japão, Estados Unidos, México, Costa Rica (que a banda descreve como "uma tribo no meio da selva"), Colômbia, Brasil, Argentina, Chile e Porto Rico.

O roteiro é linear, de modo que o filme começa no momento exato em que o avião decola pela primeira vez para a turnê que terá 23 shows em apenas 45 dias. O primeiro destino é a Índia, um país onde os integrantes são recebidos como verdadeiros rockstars. Aliás, vale ressaltar aqui uma interessante observação de um dos documentaristas: "
Embora lute para conseguir ser tocada nas rádios britânicas, a banda enche estádios no mundo todo". Brasileiros e indianos sabem muito bem disso.

O mérito de
Flight 666 é mostrar a banda em sua total intimidade. Ensaios, coletivas de imprensa, as piadas nas vans após os shows, as brincadeira nos aviões.Os problemas de uma longa turnê também são enfrentados no documentário, como a difícil adaptação ao fuso horário ou uma infecção que o baixista Steve Harris contraiu na Índia, e ainda uma singela bolinha de golfe que atingiu o braço do baterista Nicko McBrain e quase colocou a turnê em risco.

Aliás, os momentos de folga também são mostrados. Se Adrian Smith gosta de relaxar jogando tênis, Nicko e Dave Murray são adeptos do golfe. Outros momentos curiosos também vêm à tona, como a passagem da banda pelo Japão, país em que existem "
26 pessoas para pendurar uma cortina preta e 94 para colocar um carpete", conforme brinca um dos integrantes da banda. "O Japão é ótimo", finaliza com razão.

Além do documentário, o lançamento em DVD de
Flight 666 traz um disco extra que deveria vir em todos os outros documentários de música. Nele, o fã pode encontrar o show completo da Somewhere Back in Time, sem cortes. Ou seja, as músicas que estão cortadas no documentário aparecem inteirinhas no disco bônus, com som DTS e imagens sensacionais. No repertório da apresentação (que tem cada música filmada em uma cidade diferente, sendo que "Heaven Can Wait" foi em São Paulo e "The Clairvoyant" em Curitiba), o Iron Maiden reviveu a World Slavery Tour, que aconteceu em 1984/85, com canções como "Aces High", "Revelations" e "The Number of the Beast", além de algumas mais recentes (mas nem tanto assim), como "Moonchild", "Wasted Years" e "Fear of the Dark".



Mofo: Arnaldo Baptista - Loki? (1974)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Por Rubens Leme da Costa
Colecionador

Ele é certamente o artista mais subestimado de toda a história pop brasileira. Músico brilhante, arranjador, letrista, usina inesgotável de ideias, Arnaldo foi o grande líder dos Mutantes, a banda brasileira mais admirada no exterior e que hoje é vítima de um culto que beira o insuportável. Porém, poucos conhecem ou falam da carreira errática de Arnaldo Baptista. Talvez porque ele tenha enlouquecido verdadeiramente, graças às drogas e às suas ideias nem sempre compreendidas pelos outros (e até por ele mesmo). Mas Arnaldo, em uma vida cheia de acidentes (e alguns quase fatais), compôs uma das mais belas obras inspirada na dor, nos delírios e nas imagens particularíssimas de alguém como ele. Loki? é mais do que um disco estranho e até assustador. É a grande obra-prima de um gênio e certamente o mais importante e brilhante (ainda que ninguém concorde comigo) disco do rock nacional.

Até onde pode ir um artista sofrendo de uma imensa dor, depressão e com graves problemas com as drogas? Terá alguma importância uma obra registrada nesse estado psicológico ou será apenas um registro curioso de uma pessoa destruída e com tantos medos? E, será que, passados muitos anos, essa obra ainda terá alguma relevância? É nesse contexto que
Loki? deve ser analisado. E a resposta, simples e direta, é uma só: sim, tem uma grande relevância e está longe de ser algo feito por alguém que já estava "doidão", para usar uma gíria da época.

O final dos Mutantes marca um período extremamente doloroso para Arnaldo Baptista. O líder dos Mutantes rompia um casamento com Rita Lee e mergulhava em uma viagem de depressão, paranóia e incertezas. E Arnaldo era ainda muito jovem para poder lidar com tantas coisas. Nascido no dia 06 de julho de 1948, o músico tinha pouco mais de 25 anos quando deu adeus aos Mutantes, trio (e depois quinteto) que havia sido a extensão de sua personalidade.


Após ter gravado o disco O A e o Z com os Mutantes em 1973, e que só foi lançado quase 20 anos depois, Arnaldo vivia amargurado. O álbum registrava uma guinada ao rock progressivo e os Mutantes já eram um quarteto (além de Arnaldo estavam seu irmão Sérgio, o baixista Liminha e o baterista Dinho), mas já sem Rita Lee.

Rita e Arnaldo, aliás, já estavam se separando, o que serviu para aumentar ainda mais seu desespero. Ele já era um mito do rock brasileiro, e um mito com enormes problemas, incluindo falta de dinheiro, drogas e várias brigas. E era esse Arnaldo que resolveu romper com tudo e quis registrar um dos discos mais emblemáticos não apenas do rock nacional, como também de toda a história da música.

Arnaldo havia feito algumas canções e resolveu que era hora de registrá-las. Primeiro, tentou falar com o presidente da Philips, André Midani, mas acabou mesmo convencendo o produtor da casa, Roberto Menescal, que junto com Mazola topou a empreitada, ambos intrigados com o que tinham ouvido.

Arnaldo resolveu então chamar seus velhos companheiros - o baixista Liminha, o baterista Dinho, a própria Rita Lee e o maestro Rogério Duprat. O que ninguém podeira imaginar era o resultado final ...

Gravado no estúdio Eldorado e registrado em 16 canais,
Loki? marca, entre outras coisas, pela ausência de guitarra (exceção feita à faixa final, "É Fácil", com um violão de 12 cordas tocado pelo próprio Arnaldo), a exuberância do piano de Arnaldo e por letras extremamente pessoais e, em certos momentos, embaraçosas.

Arnaldo queria gravar o disco com uma grande urgência, urgência essa que só encontrou paralelo no álbum
Plastic Ono Band, de John Lennon, de 1971. Com a cozinha dos Mutantes, Arnaldo ia gravando rapidamente, com grande sofreguidão e arranjando confusão com os dois músicos, por ser recusar a refazer algumas faixas.

Arnaldo mostrava um eclestimo impressionante, mesclando o glam rock, o boogie-woogie, o rock and roll, o progressivo, com os arranjos de Duprat, resultando numa mistura até hoje inigualável.


O disco abre com "Será Que Eu Vou Virar Bolor?", com Arnaldo tocando no melhor estilo dos anos 50 - Jerry Lee Lewis, Little Richard - e misturando Alice Cooper, Nasa e o medo de ser esquecido em um texto permeado de humor e medo. A segunda faixa, "Uma Pessoa Só", traz um belo arranjo de cordas de Duprat e um dos versos mais bonitos já escritos na música: "Estamos numa boa pescando pessoas no mar / Aqui / Numa pessoa só".

O disco continua com "Não Estou Nem Aí", tem Rita Lee nos vocais de apoio e é um tantinho auto-biográfica - "
Ontem me disseram que um dia eu vou morrer / Mas até lá eu não vou me esconder / Porque eu não estou nem aí pra morte / Não estou nem aí pra sorte / Eu quero mais é decolar toda manhã."

A quarta faixa, "Vou Me Afundar na Lingerie", é um dos grandes momentos de sua carreira, com uma letra muito bem humorada, com gírias da época. "Honky Tonky" é instrumental, onde Arnaldo passeia por vários estilos no piano.

"Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?" abre com um arranjo que remete ao disco de Tom Jobim com Frank Sinatra (F
rancis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, com orquestrações de Claus Ogerman) - com um arranjo meio bossa-nova, meio samba, e com várias referências na letra sobre suas viagens com as drogas, seu passado e, claro, Rita Lee, especialmente quando se refere à cilibrina - isso porque Rita Lee montou com Lúcia Turnbull o duo Cilibrinas do Éden.

"Desculpe" é uma das baladas mais corta-pulsos da história, de assustar um Iggy Pop ou Ian Curtis: "
Desculpe / Se eu fiz você chorar / Te esqueça / Olhe, o sol chegou / Diga-me o meu nome / Diga-me que você me quer / Sinta o pulso de todos os tempos / Comigo / Até quando, eu não sei / Mas desculpe / Mas eu vou me fechar / Não sou perfeito / Nem mesmo você é / Me abrace, diga-me o meu nome / Diga-me que você me quer / Sinta o pulso de todos os tempos / Comigo, até quando não sei / Sinta o barato de ser ser humano / Comigo / Até quando Deus quiser." Recado à Rita Lee? Provavelmente.

"Navegar de Novo" é um dos primeiros ataques à sociedade de consumo que se criava no Brasil, criticando a superficialidade das pessoas e fazendo um olhar esperançoso ao Brasil do futuro. "Te Amo Podes Crer" mais parece um outro recado à ex-parceira. O disco fecha com "É Fácil", a única com violão e com a letra "Eu me amo / Como eu amo você / É fácil", em rápidos 1 minuto e 55 segundos.

O LP mostra um Arnaldo Baptista tentando erradicar e entender seus demônios. Logo após o lançamento, Arnaldo sofreria uma de suas primeiras internações, por causa da violência potencializada pelas drogas.

Sérgio Dias, seu irmão, conta que Arnaldo odiou o título do álbum, então imposto pela gravadora, assim como a capa feita, totalmente longe do contexto sonhado por ele. O trabalho teve uma vendagem pífia, aumentando ainda mais sua dor.


Em uma entrevista histórica concedida à jornalista Ana Maria Bahiana e publicada no jornal
O Globo no dia 28/04/1978, Arnaldo faz um grande desabafo. Confira alguns momentos:

Sobre música: "
Rock eu gosto porque é meu sangue. É minha vida, desde que nasci."

Sobre Rita Lee: "
Quando eu ouvia a Rita, gostava. Não ouço nem vejo a Rita há muito tempo. Me faz muito mal. Más vibrações. Para baixo. Marta não deixa porque me faz mal. Os Mutantes do Sérgio eu operei som para eles, uma vez. O Sérgio vem tocar aqui com a gente no domingo, dar uma força."

Sobre os Mutantes: "
Era bom. Não, não tenho saudades. A agressividade, naquele tempo, era quase nula."

Sobre os anos pós-
Loki até o então atual momento, como Arnaldo & Patrulha do Espaço: "Passei quatro anos num ostracismo. Não tinha ninguém, mulher nenhuma. Ninguém me queria. Não tinha amor. Aí me internaram, porque parece que fiquei uma pessoa violenta. E eu não quero ser uma pessoa violenta. Diziam que eu era. Me internaram. Agora estou bem. Cortei as drogas. Tenho um psiquiatra. Tomo uns remédios. Estou bem. Logo que saí de ser internado eu comecei a fazer esse grupo, a Space Patrol. Ia chamar assim, mas por razões de ... evolução ... não ... chama Patrulha do Espaço. Estamos trabalhando há um ano. É um bom trabalho. Eu trabalho muito. Não sou violento. A bateria é. O piano não consegue, por causa da amplificação."

Em um dos momentos mais lindos do texto, Ana Maria relata: "
Subitamente pede licença, vai correndo ao palco cuidar, pessoalmente, das ligações elétricas de seu teclado Hohner. Se é possível ter certeza de algo, de coisa sei: ele não está brincando de pirado. Todo seu corpo, todo seu rosto está empenhado numa batalha surda e intensa, digna, que não tem nada a ver com as possíveis fantasias de sua ex ou atual plateia. Agachado atrás dos amplificadores, metodicamente checando fios e plugs, sobrancelhas cerradas, ele não parece um herói: está lutando por sua vida. Com todas as forças."

É por tudo isso que
Loki? é (em minha modesta opinião), o mais belo registro feito no Brasil. Passado mais de 30 anos (ele foi lançado em 1974), ele se mostra assustadoramente atual, apesar de alguns erros técnicos. Talvez Arnaldo quisesse mostrar nos erros técnicos os erros pessoais, ou talvez não tivesse mais cabeça em mexer em algo que lhe tinha sido tão caro. Sua vida seguiria num limbo, até o mal explicado acidente do hospital psiquiátrico, em 1981, quando se jogou do terceiro andar e ficou um tempo em coma. Para alguns, uma tentativa de suicídio. Para Arnaldo, apenas uma maneira de tentar fugir daquele horrível lugar.

Maria Gadú - Maria Gadú (2009)

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista

Cotação: ****

Um dos nomes mais (bem) falados ultimamente no mercado fonográfico nacional é o de Maria Gadú. Com um álbum recém-lançado pelo selo SLAP (da Som Livre, que se esmerou no bonito projeto gráfico do disco), a cantora provou que a "
hypação" em cima de seu nome é justificável. Maria Gadú, o álbum, de fato apresenta uma cantora com uma ótima voz, muita personalidade e excelentes canções. Nele, Maria Gadú se mostra absolutamente pronta, apesar de seus (apenas) 22 anos de idade.

O nível de algumas composições chega a impressionar. O samba "Altar Particular", por exemplo, dá a impressão de ter sido composto por algum bamba do samba - é o tipo do samba que já nasceu clássico. Mas basta olhar o encarte do CD para ler o nome de Maria Gadú estampado ao lado da bela letra, que fala de decepção amorosa sem apelar para clichês - o que, diga-se de passagem, seria natural para uma pessoa com 22 anos de idade. Outro bom exemplo que prova a maturidade artística de Maria Gadú é "Shimbalaiê", que, com o seu acento afro, é uma das faixas mais deliciosas do disco.

Outro destaque do álbum produzido por Rodrigo Vidal é "Dona Cila", composta por Maria Gadú para a sua falecida avó, a quem, aliás, o álbum é dedicado. A letra, comovente ("
Ó, meu Pai do Céu, limpe tudo aí / Vai chegar a rainha / Precisando dormir / Quando ela chegar / Tu me faça um favor / Dê um banto a ela / Que ela me benze aonde eu for"), mais uma vez impressiona por não ter esbarrado em clichês previsíveis para esse tipo de composição. Além da letra, "Dona Cila" tem uma singela melodia, puxada no acordeom de Kiko Horta.

Inclusive, na maior parte de seu álbum de estreia Maria Gadú optou por uma sonoridade delicada, que, às vezes, ultrapassa a barreira do brejeiro, como acontece em "Linda Rosa" e na faixa de abertura, "Bela Flor". Já "Laranja", que conta com a participação especial de Leandro Léo, é a mais pop do álbum, e, talvez por isso, uma das mais fracas do repertório.

Apesar de o disco ser essencialmente autoral, Maria Gadú se aventura em composições de outros artistas. A singela "Tudo Diferente", composição de André Carvalho (filho do baixista Dadi, que, por sua vez, toca em algumas faixas do disco, inclusive essa) é uma das melhores do álbum. Em tal canção, Maria Gadú - perdoem-me a comparação, mas ela é cabível - mostra um quê de Marisa Monte na forma de cantar. E isso não é um elogio, nem uma crítica, mas tão somente uma constatação.

A versão de "Ne Me Quitte Pas", de Jacques Brel, ficou bem diferente daquela que Maysa tornou imortal - pelo menos para nós, brasileiros. Agora, o clássico francês pegou um avião até Buenos Aires e se encharcou no tango. Apesar de o arranjo um pouco previsível demais, Maria Gadú não imitou Maysa. Mostrou personalidade.

Como não poderia deixar de ser, o álbum tinha que ter, pelo menos, uma canção de um compositor "clássico" brasileiro. E o escolhido foi ... Chico Buarque! Se o nome não poderia ter sido mais previsível, pela menos Maria Gadú acertou em cheio ao escolher "A História de Lily Braun" (com Lily grafada erroneamente no encarte, com dois L's), composição de Chico e Edu Lobo presente na trilha sonora de
O Grande Circo Místico. O arranjo, jazzy, bluesy ou seja lá o que for, ficou semelhante ao original. E, mesmo que a canção tenha sido praticamente esgotada nas gravações de Chico, Gal Costa e Leila Pinheiro, Maria Gadú prova que sempre é possível reinventar um clássico de forma original. O mesmo acontece com "Baba", aquela mesma da Kelly Key, que ganhou uma minimalista versão voz e violão, mas que, no fundo, soa deslocada no álbum.

Como dito, Maria Gadú, em seu álbum de estreia, mostrou uma ótima voz, boas canções e, principalmente, muita personalidade, principalmente pelo fato de ter arriscado um repertório essencialmente autoral. E isso não é pouca coisa. Que tenha vida longa!



Faixas:
1 Bela Flor 3:03
2 Altar Particular 3:07
3 Dona Cila 3:31
4 Shimbalaiê 3:17
5 Escudos 3:23
6 Ne Me Quitte Pas 4:02
7 Tudo Diferente 3:37
8 Laranja 3:04
9 Lounge 3:17
10 Linda Rosa 2:38
11 Encontro 3:24
12 A História de Lilly Braun 4:13
13 Baba 2:43


7 de jan de 2010

Discos Fundamentais: Ten Years After - Live at the Fillmore East 1970 (2001)

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Por Marcos A. M. Cruz
Jornalista e Colecionador

Dentre as várias imagens marcantes que ficaram registradas para a posteridade no filme Woodstock, consta a do Ten Years After mandando ver uma versão incendiária de "I'm Going Home", imagem esta que os transformou numa verdadeira lenda dos sixties e catapultou o grupo para a fama, devido à competência com que Chick Churchill pilotava os teclados e à pegada eficiente do baterista Ric Lee, mas principalmente pela perfomance alucinada do baixista Leo Lyons e à extrema habilidade de Alvin Lee, sem dúvida o guitarrista mais rápido que havia naquela época, que sabia tocar rápido e ao mesmo tempo transbordando um feeling colossal, ao contrário de muitos que vieram anos mais tarde, velozes como o papa-léguas do desenho animado porém com a mesma emoção de um robô numa linha de montagem de uma fábrica (mas isto é uma longa discussão, que não vêm ao caso no momento).

E embora tenham gravado alguns excelentes álbuns de estúdio, tais como Ssssh, Cricklewood Green e Watt, alguns preferem seus discos ao vivo, alegando que preferem ver a coisa pegando fogo no palco do que a banda um tanto quanto tolhida nos estúdios (opinião do qual particularmente não compartilho). Para estes, até agora a oferta era um bocado tímida, pois havia somente o Undead, gravado ao vivo num pequeno clube londrino em 1968, e o Recorded Live, que compila várias apresentações da banda na Alemanha e França em 1972, além de uma ou outra faixa perdida em álbuns de estúdio e em compilações diversas.

Mas estas pessoas agora terão de reservar um lugar na estante para Live at the Fillmore East 1970, CD duplo que compila três apresentações ocorridas nos dias 27 e 28 de fevereiro de 1970 no Fillmore East de Nova York). Todas as versões são inéditas, exceto "Love Like a Man", que foi editada no lado B do single homônimo. Difícil destacar algo, mas podemos citar "Roll Over Beethoven" e "Spoonful", além de "I Woke Up this Morning" e "The Hobbit", esta última numa versão diferente da constante no Recorded Live, deixando patente a capacidade de improvisação de Alvin Lee & cia, não devendo nada a muitos jazzistas em seus momentos mais inspirados - vale lembrar que apesar de tocarem rock'n'roll, a banda sempre teve uma tendência levemente jazzística ao vivo.

A qualidade sonora é simplesmente fenomenal, graças ao trabalho impecável realizado pelo engenheiro de som Peter Mew, que mixou e remasterizou o CD a partir das fitas originais gravadas pelo lendário Eddie Kramer; e o livreto, ricamente ilustrado, contém fotos extraídas do livro Alvin Lee & Ten Years After - Visual History, além de algumas histórias saborosas relatadas pelo baterista Ric Lee, fazendo deste lançamento um verdadeiro petisco para amantes de perfomances incendiárias ao vivo - ouso dizer que, se este álbum tivesse sido editado nos anos 70, hoje seria considerado um dos melhores ao vivo de todos os tempos, ao lado do Live at Leeds do The Who, do Fillmore Concerts do Allman Brothers e outros - mas nunca é tarde para se reparar um erro...


Faixas:

CD 1
1 Love Like a Man 9:34
2 Good Morning Little Schoolgirl 7:26
3 Working on the Road 3:34
4 The Hobbit 10:52
5 50,000 Miles Beneath My Brain 9:58
6 a. Skoobly-Oobly-Doobob
b. I Can't Keep From Crying Sometimes
c. Extension on One Chord 19:30

CD2
1 Help Me 16:05
2 I'm Going Home 11:57
3 Sweet Little 16 4:38
4 Roll Over Beethoven 4:44
5 I Woke Up This Morning 8:09
6 Spoonful 8:00

Primeiros álbuns de Raul Seixas reunidos em box

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Por Pennys Lane
Os Armênios

Raul Seixas – 10.000 Anos à Frente é o nome da caixa especial que chega às lojas ainda este mês trazendo um bom apanhado dos primeiros discos solo do cantor baiano.

Excluindo apenas Raulzito e Os Panteras – álbum de estreia de Raul Seixas, lançado em 1967 – e seu sucessor, Sociedade da Grã Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez – de 1971 – o box engloba os seis trabalhos iniciais do músico. Krig-Há, Bandolo!, Gita, Novo Aeon, Há Dez Mil Anos Atrás, Raul Rock Seixas e 30 Anos de Rock são os títulos encontrados na edição especial da Universal Music.

Infelizmente, os álbuns não são acrescidos das faixas bônus presentes no box Maluco Beleza (que contém os mesmos seis discos), lançado em 2002 e completamente esgotado.

Discos Fundamentais: Roberto Carlos - Roberto Carlos (1971)

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Por Sidnei Brito
Colecionador
Rate Your Music

Roberto Carlos é – senão o - um dos maiores ícones da cultura pop brasileira de todos os tempos. Ele é um dos grandes crooners já surgidos no país. Roberto é notável por sua versatilidade: o “Rei” lidou com o romantismo, com o início do rock brasileiro, com a MPB e o kitsch. Do começo de sua carreira, no início dos anos 1960, até circa 1975, seu trabalho é digno de grande respeitabilidade.

Este álbum homônimo de 1971 é um dos grandes catalisadores, para o bem e para o mal, das diversas características de Roberto Carlos. Há nele, ainda, algo do legado da Jovem Guarda, em especial nas composições de Renato Barros e Getúlio Côrtes, "Você Não Sabe o Que Vai Perder" e "Eu Só Tenho um Caminho", dois bons momentos regados a blues e rock.

O romantismo marca presença especialmente pelas composições de Roberto e do parceiro Erasmo Carlos, todas, para usar um clichê, hits inesquecíveis. A dupla também compôs o hino pacifista “Todos Estão Surdos” e, em homenagem a Caetano Veloso, a famigerada “Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos”.

O compositor baiano também é laureado com a pungente interpretação de Roberto para a sua “Como Dois e Dois”, um belíssimo exercício blue-eyed soul - ouso dizer - só superado por gravações anteriores de The Young Rascals e The Box Tops e posteriormente pelos Stones no álbum Exile on Main St, especialmente na faixa “Let it Loose”.

A cafonice se faz presente nas faixas “Traumas” e “A Namorada”, esta de autoria de Carlos Colla, aquele mesmo que se notabilizaria fazendo, entre outras cositas popularescas, versões em português para músicas de Julio Iglesias.

Também há neste importante trabalho um pouco de vaudeville (“I Love You”), uma original do “versionista” Fred Jorge (“Se Eu Partir”), há o indefectível “órgão nostálgico” mezzo-igreja mezzo-churrascaria (“Amada, Amante”) e há clássicos do quilate de “Detalhes”, sem dúvida uma das canções mais marcantes da história da música popular do Brasil.


Faixas:
A1 Detalhes 5:04
A2 Como Dois e Dois 3:24
A3 A Namorada 3:14
A4 Você Não Sabe o Que Vai Perder 2:58
A5 Traumas 4:09
A6 Eu Só Tenho Um Caminho 2:39

B1 Todos Estão Surdos 4:21
B2 Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos 3:47
BB Se Eu Partir 3:42
B4 I Love You 2:40
B5 De Tanto Amor 3:24
B6 Amada, Amante 3:56

Lemmy: The Movie

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
O lendário vocalista, baixista, dono e líder do Motorhead, Lemmy Kilmister, ganhará um documentário sobre a sua vida. Produzido e dirigido por Greg Olliver e Wes Orshoski, Lemmy: The Movie conta com depoimentos de inúmeros músicos, como Slash, Dave Grohl, Ozzy Osbourne, Peter Hook, Alice Cooper, Mick Jones, Marky Ramone, Jarvis Cocker, Mike Inez, C.C. Deville, entre outros, que contam para as câmeras o quanto Lemmy foi importante para as suas vidas e para a história do rock and roll.

Sem dúvida alguma, um filme que promete fazer a alegria de quem curte guitarras distorcidas em alto e bom som!

Confira o teaser trailer abaixo:



E você pode se manter informado sobre o andamento do documentário no site oficial do projeto, clicando aqui.



6 de jan de 2010

Por que não, Ringo?

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador

Já está em minhas mãos o melhor CD de rock de 2010 até o momento. Sei que ainda estamos na primeira semana do ano e o disco nem foi lançado ainda (será no dia 12 de janeiro), mas Y Not, de Ringo Starr, já é o primeiro álbum a figurar no rol dos melhores do ano.

Preste a completar setenta anos no próximo mês de julho, Ringo nos brinda com mais um grande disco, fato que vem se repetindo desde que revigorou sua carreira musical nos anos noventa.
Y Not já abre com o grande rock "Fill in the Blanks", no qual Ringo divide os vocais com seu antigo amigo e parceiro (e agora seu cunhado) Joe Walsh (ex-James Gang/Eagles).

A segunda faixa, “Peace Dream”, é mais um apelo por paz e amor de Ringo e é abrilhantada pela participação de seu ex-colega de banda Paul McCartney no contrabaixo. Ringo e Paul não gravavam juntos desde o projeto Beatles Anthology e dos discos Flaming Pie (Paul McCartney, 1997) e Vertical Man (Ringo Starr, 1998).

Segue a autobiográfica "The Other Side of Liverpool", onde Ringo fala sobre sua infância e adolescência quase miseráveis. Segundo suas próprias palavras: “As pessoas acreditam que eu já nasci sendo um beatle vivendo em uma luxuosa mansão, mas eu vivia em um bairro muito pobre, violento e desolado. Eu queria escrever sobre esse período da minha vida, e para mim é melhor fazer uma canção que escrever um livro. Em duas linhas eu posso dizer mais do que em cinco páginas: The other side of Liverpool is cold and damp / Only way out of there / drums, guitar and amp.”

Na faixa seguinte, “Walk With You”, que também é o primeiro single do disco, Paul McCartney divide os vocais com Ringo em uma emocionante meditação espiritual acerca do poder de uma grande amizade. Ringo conta que Paul veio a sua casa para gravar o baixo de “Peace Dream” e Ringo mostrou-lhe essa outra música. Paul pediu os fones e um par de latas e criou na hora a parte em que ele segue o vocal de Ringo, como se fosse uma conversa entre eles. Ringo confessa que mesmo tocando com Paul há cinquenta anos ainda se admira com a genialidade do amigo.

Y Not tem dez faixas e participações de músicos como Richard Marx e Ben Harper. Na última música, “Who’s Your Daddy”, Ringo faz um dueto com a ótima cantora da nova geração Joss Stone, encerrando esse grande disco de rock. Vale mencionar os excelentes timbres de guitarra e demais instrumentos, que valorizam ainda mais as boas canções que permeiam o álbum.

Ringo explica que o título
Y Not (uma corruptela para “why not” – “Por que não?”) surgiu quando ele pensava em quem poderia ser o produtor do disco. Ringo já havia trabalhado com grandes produtores como Richard Perry, Arif Mardin, Don Was e Jeff Lynne, mas ainda não tinha ideia de quem produziria o novo disco, quando casualmente se olhou no espelho e pensou sorrindo: “Por que não eu?”. Ringo nunca havia produzido um álbum e Y Not se tornou um desafio. Quando o disco ficou pronto, Ringo o mostrou primeiro para o seu filho Zak (excelente baterista que tocou no The Who e no Oasis) e ele achou formidável: “Pai, isto é ótimo! Isto é rock! Você deveria fazer sempre isto!”.

Ringo Starr estreou em carreira solo quando sua banda se separou em 1970, ano em que ele lançou os álbuns
Sentimental Journey (onde regravou standards do cancioneiro popular dos anos 1930 e 1940) e Beaucoups of Blues (em que mergulhou nas raízes do country de Nashville). Em 1973 lançou sua obra-prima, o álbum Ringo, com a participação de seus ex-colegas John, Paul e George. Seguiu lançando discos bons e íntegros, como Goodnight Vienna (1974) e Ringo’s Rotogravure (1976), até que em 1977 flertou com o soul e a disco music (em alta na época) em Ringo The 4th. No ano seguinte rendeu-se ao pop comercial no chato Bad Boy. Em 1981, mesmo com a ajuda de George Harrison, Ron Wood e Stephen Stills, lançou outro álbum decepcionante, Stop and Smell the Roses, e em 1983 voltou a lançar outro álbum fraco, Old Wave, com a participação de Eric Clapton e John Entwistle (The Who).

A carreira de Ringo parecia acabada e ele passou a se dedicar ao cinema, participando de vários filmes medianos, e ao tratamento do alcoolismo. Ringo só voltaria a lançar um disco de inéditas em 1992, quando surpreendeu o mundo com o ótimo Time Takes Time. O baterista regravou “Love Me Do” no festivo Vertical Man de 1998, fez o disco natalino I Wanna Be Santa Claus em 1999 e seguiu lançando trabalhos excelentes como Ringorama (2003), Choose Love (2005) e Liverpool 8 (2008).

Por que não?

David Gilmour - At Hammersmith Odeon (2008)

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador

Os fãs brasileiros de David Gilmour e do Pink Floyd acabam de ser agraciados com o lançamento de um verdadeiro documento em vídeo. Trata-se do registro do show solo de David Gilmour no Hammersmith Odeon em Londres no dia 30 de abril de 1984, lançado recentemente em DVD pela gravadora Coqueiro Verde, que, aliás, vem nos brindando com várias preciosidades desde que foi fundada.

A história de David Gilmour começa em 1963, quando ele formou o power trio Jokers Wild ao lado dos amigos de colégio William Wilson e Ricky Wills. A banda durou até 1967, e embora não tenha lançado nenhum disco é sabido que chegaram a gravar alguns covers de Chuck Berry, Beach Boys e Four Seasons. No ano seguinte, David Gilmour passou a integrar o Pink Floyd substituindo Syd Barrett, que devido a abusos de substâncias lisérgicas e alucinógenas não tinha mais condições mentais e emocionais para continuar na banda. Gilmour estreou no segundo disco do Floyd, A Saucerful of Secrets, e desde então se destacou como um dos mais talentosos guitarristas do mundo.

Em 1978, em uma pausa do Pink Floyd entre os discos Animals e The Wall, Gilmour lançou o seu primeiro álbum solo com uma banda formada por ele e seus ex-colegas no Jokers Wild, Wilson e Wills. Em 1984, um ano após trabalhar pela última vez ao lado de Roger Waters (no disco The Final Cut, do Pink Floyd), David Gilmour lançou o seu segundo trabalho solo, intitulado About Face, e em seguida fez uma pequena turnê de três meses pelo Reino Unido e Estados Unidos. É justamente esse registro ao vivo que chega agora em nossas mãos, compensando um atraso de um quarto de século.

Apesar de o Pink Floyd ser uma das minhas bandas preferidas desde criança, infelizmente nunca tive a oportunidade de assistir a banda ao vivo. O mais próximo que cheguei foi em 2002, quando assisti a um sensacional show de Roger Waters na turnê In the Flesh, mas o Pink Floyd ao vivo só vi em meus vários DVDs e fitas VHS.

Sempre achei que os shows do Pink Floyd, principalmente nas suas derradeiras turnês Delicate Sound of Thunder (1988-89) e Pulse (1994-95), exageravam nas pirotecnias em detrimento a performance musical da banda. Explico: acredito que os excessos de luzes coloridas, efeitos visuais, filmes projetados em telões, fumaças, raios laser e outras parafernálias acabavam por deixar a excelente música do conjunto em segundo plano, pois por várias vezes os integrantes do grupo desapareciam da vista dos expectadores, ofuscados pelos efeitos especiais. Por isso aprecio quando tenho a oportunidade de ver Roger Waters ou David Gilmour simplesmente tocando a sua música em um palco, sem grandes produções. Assim é o show de David Gilmour no Hammersmith Odeon.

Gilmour sobe ao palco acompanhado por uma banda que inclui músicos tarimbados como o guitarrista Mick Ralphs (Mott the Hoople/Bad Company) e o baterista Chris Slade, ex-Manfred Mann e Uriap Heep - e que depois viria a integrar o The Firm e o AC/DC -, e abre os trabalhos com “Until We Sleep”, faixa de seu novo álbum à época. Em seguida toca “All Lovers are Deranged”, também do disco About Face. O show tem prosseguimento com duas faixas de seu primeiro álbum solo, as ótimas “There´s no Way Out of Here” e “Short and Sweet”, essa última com a participação do cantor Roy Harper. A primeira manifestação mais entusiasmada da plateia vem com os primeiros acordes de “Run Like Hell” (do álbum The Wall), demonstrando que a audiência era formada por fãs do Floyd que pouco conheciam o trabalho solo do guitarrista. Na sequência, mais três novas canções: “Out Of the Blue” (com Gilmour ao piano), “Blue Light” e a bela “Murder”. Para encerrar, Gilmour chama ao palco o baterista do Pink Floyd, Nick Mason, e executam o clássico “Confortably Numb”.

Se for comparar com os dois DVDs de excelente qualidade (In Concert de 2002 e Remember that Night de 2007) que David Gilmour lançou na última década, é necessário levar em conta a época em que o vídeo foi gravado, pois as definições de cores e a qualidade do áudio deixam um pouco a desejar, já que provavelmente as imagens foram resgatadas de alguma fita magnética que ficou guardada por vinte e cinco anos, mas nada que tire o brilho desse registro histórico em que David Gilmour, ainda com cabelos, alça seus primeiros vôos em shows solo. David Gilmour at Hammersmith Odeon já é peça obrigatória na videoteca de qualquer fã do Pink Floyd, ou de qualquer apreciador de um bom rock.


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