19 de fev de 2010

Manacá - Manacá (2010)

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Por Tiago Rolim
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ***1/2

“A ignorância é uma benção”. Nunca uma frase caiu tão bem em relação a um lançamento musical brasileiro nestes anos 2000 do que esta para se referir ao disco em questão.

Explico: para quem não conhece o Manacá, tudo parece perfeito; uma banda recém-formada (tem apenas quatro anos de idade), vinda de aparições em vários festivais Brasil afora, onde invariavelmente era destaque pela sua qualidade em cima do palco, apresentando uma proposta, que se não é inédita, ao menos é bem feita. Com boas músicas, boas letras e uma vocalista carismática e linda. Ou seja, não tinha como dar errado, certo? Errado, pois este disco é uma prova que um produtor pode acabar com um potencial de uma banda facilmente.

Disse que as músicas são boas e são mesmo. "Desejado", "Diabo", "O Galo Cantou" e "Faca de Ponta" são muito acima da média em relação ao que está sendo feito no rock nacional em muito tempo. E fazia tempo que uma cover não se encaixava tão bem no som da banda como "Canto de Ossanha", de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

Uma saudável influência da música nordestina enriquece muito as composições. Mas uma influência diferente do que se vê por ai; em vez de Maracatu, xote, forró ou algo mais recorrente, eles foram atrás do “esquecido” Movimento Armorial, que tem como principal representante o Quinteto Armorial.

As letras são muito bem escritas, em sua maioria pela vocalista Letícia, onde se vê uma riqueza de imagens vindas da literatura de Ariano Suassuna, sua principal influência - não por acaso, o idealizador do Movimento Armorial.

Mas é ai que se explica a frase do início. Graças à internet, com alguns poucos toques se acha às versões demos de todas as músicas presentes no disco. E TODAS as versões demos são melhores, pois lá estava uma banda original, com muita energia, garra e um peso muito bem-vindo. Não que a originalidade não esteja no disco, mas o peso se foi totalmente. Compare, por exemplo, "O Galo Cantou", e você vai perceber isto claramente. Até a versão acústica da mesma perdeu em relação a presente na demo. Culpa da produção de Mario Caldato - que já trabalhou com Nação Zumbi, Soulfy, Marisa Monte, entre outros -, que inexplicavelmente tratou de passar um verniz na sonoridade da banda, deixando-a com um som morno e mais comercial (ô palavrinha chata essa!).

Por isso, digo: se você não conhece a grupo, vale a pena, pois mesmo com este deslize na produção a música é bela e original. O disco tem um acabamento gráfico lindo, que casa totalmente com o som proposto pela banda.

Para uma estreia foi bom - como disse, bem acima da média -, mas o Manacá mostra que tem potencial para muito mais em um futuro próximo.

Vamos esperar.


Faixas:
1. Prelúdio
2. A Flor do Manacá
3. Diabo
4. Lua Estrela
5. O Galo Cantou
6. Rosa Branca e Romã
7. Lamento
8. Gaiola
9. Faca de Ponta
10. Desejado
11. O Galo Cantou (Acústica)
12. Canto de Ossanha


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Os 30 anos da morte de Bon Scott

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Bento Araújo
Jornalista e Colecionador

(Esse especial sobre o lendário Bon Scott e muito mais sobre o AC/DC você confere na edição especial da revista poeira Zine totalmente dedicada à banda. Para adquirir essa edição, clique aqui)

Hoje está fazendo 30 anos da morte de Bon Scott, então em sua homenagem, segue abaixo um texto sobre seus últimos dias.


Quando se chegou ao final de 1980, uma inevitável constatação pairou no ar. Aquele certamente foi um dos anos mais difíceis e traumáticos para a história do rock. John Lennon tinha sido assassinado em dezembro, John Bonham se foi em setembro, Ian Curtis em maio, e no dia 19 de fevereiro daquele ano foi a vez de Bon Scott partir rumo a sua estrada para o inferno. Aos 33 anos de idade, Bon tinha passado pouco mais de cinco deles ao lado do AC/DC, o suficiente para colocar a banda, e claro a si próprio, no hall dos imortais do rock and roll.

Depois de passar o natal de 1979 na Austrália, Bon Scott estava de volta para Londres no ano novo, onde começou a trabalhar com Angus e Malcolm nas composições para o próximo disco do grupo, a ser lançado naquele ano de 1980. Nessa época o vocalista estava morando em Londres com sua namorada japonesa, Ana Baba, mas mesmo assim não deixava de flertar ocasionalmente com sua antiga namorada e traficante, Margaret “Silver” Smith, uma loura famosa na cena rocker de London por descolar heroína da boa para caras como Ronnie Wood, Keith Richards e Jimmy Page.

Em 1977, o vocalista chamou seus companheiros de banda e equipe de canto e confessou a eles: “
Uma cigana que joga tarô me disse que por volta de 1980 eu estarei morto”. Todos deram gargalhadas, e naquela altura, para Bon, foi só uma desculpa sem efetiva importância para ele continuar vivendo sua vida no limite. Malcolm, porém, se lembra muito bem do que a cigana disse a Bon: “Ela disse que ele iria conhecer uma loura e ficar com ela firme por um tempo, depois iria se separar e daí ficar com uma garota oriental de cabelos negros. Depois disso, sua vida seria sensivelmente encurtada”.

Voltando a janeiro de 1980, no dia 27 o AC/DC se apresentou em Southampton, finalizando assim a turnê de promoção do álbum
Highway to Hell, o primeiro grande sucesso de vendas do grupo no mundo todo, inclusive na América. No começo do mês de fevereiro, Bon apareceu em um dos três shows do UFO no Hammersmith Odeon para bater um papo, tomar umas e rever os amigos Pete Way e Phil Mogg. O que era para ser um mero e casual encontro de backstage acabou se transformando numa festa da pesada - e para o pessoal do UFO, nessa altura do campeonato isso significava uma festa regada a heroína, e, teoricamente, Bon também teria participado dessa festa naquela noite.

Nos dias seguintes, mesmo com o término da tour, o AC/DC ainda tinha algumas obrigações contratuais envolvendo a promoção de seu disco mais recente em programas de TV. A primeira delas foi uma aparição do famoso
Top of the Pops, onde tocaram “Touch Too Much”. A segunda aconteceu em Madrid, na Espanha, onde participaram do programa Aplauso tocando três faixas: “Beating Around the Bush”, Girls Got Rhythm” e “Highway to Hell”. Na manhã seguinte dessa gravação, a banda ainda participou de uma entrevista coletiva à imprensa espanhola.

No dia 13 de fevereiro, Bon estava feliz e de volta a Londres. Naquele dia, de folga, ele passou num estúdio para dar um alô aos amigos franceses do Trust, que estavam gravando seu novo álbum, Repression. Bon estava inclusive dando uma força aos amigos e traduzindo algumas letras da banda para o inglês, visando um futuro lançamento na Inglaterra. No estúdio, a banda convidou Bon para gravar com eles uma nova versão de “Ride On”, que ele fez prontamente e com muito prazer. Essa seria sua última gravação.

No dia seguinte, chegava da América a notícia:
Highway to Hell havia ultrapassado um milhão de cópias vendidas! Segundo a namorada de Bon, Anna, nessa época ele estava bebendo até um pouco mais como o de costume e já acordava de manhã com uma garrafa de whisky na mão, e seu passatempo favorito era passar horas bebendo e ouvindo álbuns como Slowhand de Eric Clapton, Imagine de John Lennon, o primeiro álbum dos Pretenders que tinha saído recentemente, e Tchaikovsky. Nessa época também fazia constantes visitas a um médico, pois depois de anos de abusos estava tendo problemas com seu fígado.


Três dias depois, 17 de fevereiro, um domingo, Bon estava tomando umas cervejas num pub e lá voltou a se encontrar com Mogg e Way do UFO. No dia seguinte, Bon ligou para Silver Smith, convidando-a para alguns drinks mais a noite. Silver tinha compromissos e negou a proposta, mas disse que seu companheiro de quarto, um cara chamado Alistair Kinnear, poderia sair com Bon e levá-lo num show de uma banda amadora no Music Machine, em Camden Town, bairro boêmio de Londres.

Depois de muitas rodadas, a dupla se mandou para Ashby Court, onde Bon vivia naquela época. No caminho, Bon literalmente apagou no banco de trás do veículo. Kinnear não deu muita bola e seguiu adiante. Quando chegou na casa do vocalista do AC/DC, Kinnear tentou chamar Bon e levá-lo para a cama, porém não conseguiu acordar seu companheiro, que estava num avançado estado de embriaguez.

Kinnear desistiu da ideia e seguiu dirigindo para seu próprio apartamento. Chegando lá, nova tentativa frustrada de tirar o amigo bêbado do veículo. O jeito foi deixar Bon dormindo no banco de trás do automóvel, um Renault 5. Quando Kinnear voltou no começo da noite do dia seguinte para ver seu amigo, já era tarde demais. Bon estava morto, praticamente congelado dentro do pequeno automóvel. O sujeito ainda levou o vocalista às pressas para o Kings College Hospital, de Londres, onde o músico já chegou sem vida nas dependências do pronto socorro.

O atestado de óbito informou que Bon Scott havia falecido em decorrência de envenenamento alcoólico agudo e death by misadventure (morte por desventura, ou por desgraça, ou falta de sorte).

Nos jornais da época foi também noticiado que o músico teria se sufocado com o próprio vômito e que a baixa temperatura da madrugada e suas constantes crises de asma colaboraram para a tragédia daquela fria manhã de 19 de fevereiro de 1980, um dos dias mais tristes da história do rock.


Os tablóides sensacionalistas ingleses do dia seguinte começaram a trazer as manchetes: “
Estrela do rock bebe até morrer”. Num deles, o Evening Standard, o jornalista chegou a localizar Kinnear, que fez a seguinte declaração para o jornal: “Quando fui buscar Bon para irmos juntos ao bar, ele já apareceu completamente bêbado. Chegando lá ele ficou tomando quatro garrafas de whisky ao mesmo tempo. Mais tarde, no carro, eu não conseguia movê-lo. Então eu o cobri com um cobertor e deixei um recado anotado num pedaço de papel, dizendo o número do meu apartamento caso ele acordasse. O dia estava amanhecendo e eu fui dormir. Horas depois eu acordei e fui dar uma olhada em Bon e logo percebi que algo de muito errado tinha acontecido”.

Essa foi a primeira e única declaração de Kinnear, que depois sumiu dos holofotes, indo viver numa remota área do litoral espanhol. Em 2005, 25 anos depois da morte do vocalista, Kinnear voltou a falar com a imprensa, dessa vez com Geoff Barton da revista Classic Rock/Metal Hammer: “Bebemos muito naquele bar, mas confesso que em nenhum momento eu vi Bon tomar alguma droga. No fim da noite ofereci uma carona e ele topou, então fui levá-lo ao seu apartamento. Durante a viagem, Bon apagou e então quando cheguei em seu apartamento eu tentei chamar a sua namorada, mas ela não estava lá. Peguei as chaves de Bon e entrei em seu apartamento, mas ele estava vazio. Não consegui acordá-lo e muito menos carregá-lo pra dentro, pois eu também estava bêbado. Liguei para Silver para pedir um conselho, pois estava um frio dos infernos e Bon estava sozinho no carro. Silver me disse que Bon costumava sempre apagar daquela maneira e o melhor a se fazer era deixá-lo dormir tranquilamente. Então fui para o meu apartamento e deixei Bon dormindo no carro, com um cobertor e um bilhete, caso ele acordasse”.

Malcolm e Angus souberam da morte imediatamente, e coube a Malcolm a cruel incumbência de dar a triste notícia para os pais de Bon, na Austrália. De qualquer forma seria melhor ouvir através de Malcolm do que ler no jornal ou ver na TV a tragédia envolvendo o próprio filho.

Malcolm diferente de Angus, encarou a morte de Bon com uma certa raiva: “
Bon sempre desaparecia no final de um show e sumia completamente, sem deixar nenhum vestígio. Quando estávamos passando o som para o show seguinte, ele simplesmente aparecia do nada. Bon podia beber com frequência e sempre aprontar das suas, mas sempre que precisamos dele no palco ele estava lá. Era um cara super profissional. O mais difícil agora é ter que lidar com o fato de que Bon não irá aparecer nunca mais pra fazer o show com a gente em cima da hora. Ele se foi pra sempre”.

Um fã recentemente perguntou para Angus Young algo do tipo: “Se Bon voltasse para a Terra para matar um tempo, que sons do AC/DC você tocaria para ele?”. Angus respondeu: “Antes de tudo eu iria perguntar, ‘como é o menu no inferno?’ (risos), pois certamente seria isso que ele me perguntaria se estivesse no meu lugar. Mas eu tocaria ‘Back in Black’ e ‘Black Ice’ e tenho certeza que ele adoraria ambas. Ele certamente voltaria fazendo uma coisa muito louca (risos). Temos muitas saudades de Bon até hoje. É raro na vida você se deparar com alguém com tamanha personalidade e carisma, e quando isso acontece, essa pessoa estará pra sempre contigo, seja em suas lembranças ou em suas atitudes”.




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Anuário Mofodeu - 1967 no rock: o Verão do Amor e o clímax psicodélico

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Por Vitor Bemvindo
Historiador e Colecionador
Mofodeu

Nos grandes momentos de crise, a arte gira conforme a roda da história. Durante a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, Pablo Picasso pintou Guernica. Durante a Segunda Guerra, Charlin Chaplin dirigiu e estrelou O Grande Ditator. 1967 foi o ano em que o rock and roll e outras formas de arte se levantaram contra a Guerra do Vietnã.

Quando 1967 começou, o conflito entre o Vietnã do Norte (comunista) e o Vietnã do Sul (capitalista) já se arrastava por quase oito anos. O apoio logístico dado pela União Soviética e a China comunista acabaram forçando os Estados Unidos a entrarem no conflito para tentar proteger o seu lado na Guerra Fria. A partir de 1965, o governo norte-americano passou enviar tropas para proteger o governo do Vietnã do Sul, mas sem muito sucesso. O grande número de soldados mortos em batalhas acabou gerando uma grande oposição do povo americano àquele conflito.

Essa oposição foi deflagrada no movimento que ficou conhecido como contracultura. Os ideais desse movimento eram defendidos principalmente pelos hippies, que passaram a ficar em evidência a partir do verão de 1967, que seria conhecido como o “Verão do Amor”.

O estopim desse movimento se deu em Nova York, em abril daquele mesmo ano, quando cerca de 300 mil jovens se reuniram numa passeata contra a Guerra do Vietnã e as políticas do governo de Lyndon Johnson. O movimento ganhou força justamente pelo apoio de artistas, entre eles romancistas, pintores e, principalmente, cantores, como Pete Seeger. Além disso, ativistas políticos também tomaram parte na manifestação, como, por exemplo, Martin Luther King e Benjamin Spock.

Dessa manifestação organizaram-se várias caravanas que partiriam para a Califórnia, mais precisamente para o distrito de Haight-Ashbury, em São Francisco. Ali se estabeleceriam centenas de milhares de jovens em um grande acampamento, onde a única lei era seguir o lema paz e amor. A música, a experimentação de drogas e a prática do sexo livre eram os veículos para expressar aquele lema.

Cartaz do Monterey Pop Festival

Durante o Verão do Amor foi organizado o primeiro grande festival de música regido pelos ideais da contracultura: o
Monterey Pop Festival. Idealizado por pessoas ligadas ao movimento hippie, como John Phillips do The Mamas & The Papas, o festival foi realizado entre os dias 16 e 18 de junho, em Monterey (também na California), e contou com grandes nomes da música, como The Who e Otis Redding (que viria a falecer naquele mesmo ano em um acidente de avião) ao lado de alguns novatos como Big Brother & Holding Company (que contava com a talentosa Janis Joplin nos vocais) e The Jimi Hendrix Experience.

Janis Joplin se apresentando com os Big Brothers em Monterey

O Big Brother & The Holding Company era uma das grandes bandas californianas que despontaram naquele ano de 1967. Como o foco do mundo estava naquela região, grupos que tivessem qualquer ligação com o movimento hippie e, obviamente, algum talento, logo conseguiam destaque, como foi o caso também de Grateful Dead, Jefferson Airplane e de algumas outras que não ficaram tão conhecidas, mas que demonstravam igual talento, como Quicksilver Messenger Service, Moby Grape, Love, entre outras. 1967 foi o ano em que essas bandas desabrocharam. Em comum entre elas: o talento, a experimentação e a psicodelia.

Um outro grupo californiano, não tão ligado à contracultura, também despontava naquel ano, mas acabou ficando de fora de
Monterey por não ter recebido convite: The Doors. Em 1967 eles lançariam os seus dois primeiros trabalhos, que mais tarde se tornariam clássicos: The Doors e Strange Days. Apesar de não estarem estreitamente ligados à cena hippie, eles também levavam ao pé da letra os lemas da experimentação e psicodelia.

Mas esses aspectos, no entanto, não eram exclusividades das bandas da região. Na Europa, mais precisamente no Reino Unido, muitos grupos também seguiam esses preceitos de experimentação e psicodelia. Os consagrados Beatles, Rolling Stones e The Who seguiram essa receita em 1967, alcançando resultados dos mais diversos.

Os Beatles caracterizados como a banda do Sargento Pimenta

Os Beatles alcançaram o auge da sua maturidade criativa com o lançamento de
Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, tido como um marco não só de 1967, mas de toda a história do rock. Ali, o quarteto de Liverpool finalmente dava asas às experimentações que começaram a aparecer nos anos anteriores em Rubber Soul e Revolver. Sgt Pepper’s foi um sucesso de crítica e público, conseguindo a façanha de ser o primeiro disco de rock a conquistar o Grammy como “álbum do ano”. A importância deste disco é tamanha para a história que se torna até redundante uma análise mais detalhada.

Os Stones, por sua vez, não foram tão bem-sucedidos em sua jornada psicodélica. Poucos meses após o lançamento de
Sgt Pepper’s chegou à praça Their Satanic Majesties Request, recebido com indiferença pelo público e com desprezo pelos críticos. Apesar de não ser um disco ruim, as comparações foram inevitáveis e, mais uma vez, os Stones ficariam a sombra de seus “rivais”.

Já o Who encarou a onda de experimentações de uma forma diferente, lançando o seu primeiro álbum conceitual,
The Who Sell Out. Se o disco não trazia nenhuma inovação instrumental ou viagem lisérgica extrema, apontava para um caminho que a banda voltaria a seguir.

Outros grupos, como o power trio formado Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce, o Cream, também aproveitaram o momento para lançar trabalhos mais experimentais. No caso do Cream,
Disreali Gears foi um prato cheio tanto para os fãs de blues rock quanto para os sedentos por rock psicodélico. Além disso, faixas como “Sunshine of Your Love” ganharam status de hino, tanto pelo significado de sua letra quanto pela estética sonora apresentada.

A performance incendiária de Jimi Hendrix em Monterey

Mas mesmo sendo aclamado como deus, Clapton teria seu prestígio diminuído ao ter que dividir as atenções com um jovem guitarrista negro norte-americano que passou a ser uma das grandes atrações do show business britânico entre 1966 e 1967. Jimi Hendrix, com o seu trio Experience (completado pelos talentosos Mitch Mitchell na bateria e Noel Redding no baixo) já chamava a atenção em suas apresentações bombásticas nos clubes londrinos. Mas nada seria comparável ao frisson causado pelo primeiro álbum da banda,
Are You Experienced?. Aquilo soava como uma revolução, e a guitarra nunca mais foi o mesmo instrumento após o lançamento do LP. O show do Experience em Monterey só serviu para coroar o trio e consolidar o sucesso deles também na América.

Mas como se toda a experimentação e psicodelia das bandas californianas e britânicas não fosse suficiente, alguns grupos resolveram elevar essa experiência a outros níveis, inaugurando uma cena que passaria a ser chamada de rock progressivo. 1967 seria palco para o lançamento de dois álbuns que se tornariam referência para o gênero. Um deles foi o primeiro trabalho do Procol Harum, que levava o nome da banda. Além de trazer inúmeras inovações (dentre elas o destaque dado ao órgão Hammond tocado por Matthew Fish), o grupo foi responsável por uma das gravações de maior sucesso daquele ano, “A Whiter Shade of Pale”.

Os também britânicos do Pink Floyd foram, por sua vez, colocaram nas lojas
The Piper at the Gates of Dawn, que elevou o nível de experimentalismo e psicodelia a níveis nunca antes alcançados. Composto quase que integralmente por composições do vocalista e guitarrista Syd Barrett, o álbum inaugurava uma nova fase de experimentações no rock.

Pode-se dizer, então, que 1967 foi marcado pelo clímax da psicodelia com o lançamento de
Sgt Pepper’s e um sem-número de produções do gênero. Além disso, o Verão do Amor foi responsável por aprofundar a onda experimentalista e disseminar o ideal “paz e amor”.

Para ouvir algumas das canções mais importantes de 1967, e saber mais sobre esse ano histórico, ouça o
MOFODEU #081, o terceiro da série Anuário.

Leia também: 1966 no rock - Do monochrome ao technicolor

Conexão Tenho Mais Discos que Amigos!: discos pra dar água na boca de qualquer colecionador

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Conforme anunciado dia 12 de fevereiro, o excelente site Tenho Mais Discos que Amigos! é o novo parceiro da Collector´s Room. O que isso quer dizer? Pra você, leitor, isso se reflete em ótimas matérias como essa abaixo, onde o editor do TMDQA, Tony Aiex, dá dicas sobre lançamentos em vinil que irão fazer a alegria de quem tem como esporte favorito a nobre arte de colecionar discos.

Com a palavra, Tony:


Esse é um presentão pra quem gosta do bom e velho rock’n'roll e de discos de vinil. The Live Anthology é uma caixa com 7 LPs de altíssima qualidade, prensados em vinil de 180 gramas, contendo 51 faixas ao vivo do Tom Petty and The Heartbreakers gravadas entre 1980 e 2007.


Pra acompanhar, a caixa ainda vem com um livro colorido de 24 páginas contendo comentários e detalhes do próprio Tom Petty, membros da banda e outros envolvidos.


Por último, a caixa também tem o EP Mudcrutch Live em vinil de 7 polegadas com um CD bônus

O lado ruim de todo isso: primeiro, a caixa custa 150 dólares. Segundo, só é vendida na América do Norte. Claro que dando uma garimpada é possível encontrar fontes não-oficiais vendendo o box, como
esse cara no eBay.

O link oficial é esse aqui.



Após 11 anos de Psycho Circus, o glorioso Kiss está de volta com um álbum de estúdio chamado Sonic Boom. O disco foi lançado em outubro do ano passado e agora uma super versão em vinil está começando a ser disponibilizada para pré-venda no site oficial da banda.


Tratam-se de discos de vinil de 180 gramas prensados em cinco cores diferentes - vermelho, roxo, verde, azul e preto - todos em caixa gatefold com um pôster exclusivo dessa versão em LP.


São apenas 1.000 cópias de cada cor e milhões de fãs de uma das bandas de rock mais importantes da história, então faça as contas e perceba que você tem que correr pra garantir sua cópia aqui.


17 de fev de 2010

Rigotto´s Room: O mutante Loki

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Por Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador
Após ser ovacionada em festivais de cinema pelo mundo todo, a comovente cinebiografia Loki, de Arnaldo Baptista, é lançada em DVD e está disponível em lojas e videolocadoras. Trata-se de uma biografia honesta, que emociona profundamente o telespectador sem ser apelativa a sentimentalismos baratos e piegas, fazendo justiça a ‘El Justiceiro’, o mutante Arnaldo Baptista, um dos maiores gênios não só do rock, mas da música brasileira, e, porque não dizer, mundial.

A ideia de um documentário sobre Arnaldo veio a partir de um programa de meia hora sobre ele feito para o Canal Brasil, quando os produtores tiveram grande dificuldade em condensar essa rica história de vida em apenas trinta minutos, tornando-se óbvio que sua trajetória mereceria um longa metragem. Com o aval do Canal Brasil, o diretor Paulo Henrique Fontenelle e sua equipe, auxiliados por Lucinha Barbosa, esposa de Arnaldo, passaram a coletar depoimentos e um grande acervo de imagens, muitas delas muitos raras, para o filme.

A película começa mostrando um pouco do trabalho de Arnaldo como pintor, e uma tela em branco é mostrada, sendo que no decorrer da exibição o mutante irá pintar um quadro nessa tela enquanto sua história de vida musical e, principalmente, humana, é retratada. Há significativos depoimentos do próprio, de seu irmão Sérgio Dias, do baixista Liminha, de Gilberto Gil, Lobão, Raphael Villardi (guitarrista do O’Seis, seu primeiro conjunto, já com Rita e Sérgio na formação) e outros.

Rita Lee se absteve de dar declarações, mas consentiu que suas imagens fossem utilizadas. Sem a autorização de Rita, o projeto seria inviabilizado, haja vista ser impossível contar a trajetória de Arnaldo sem Rita. Não entrarei no mérito da questão, se Rita Lee não quis participar da volta dos Mutantes ou dar declarações para o documentário, isso é pessoal e só eles sabem ao certo o grau de amor ou ódio ou rancor que nutrem um pelo outro.

O que nos importa é que tudo está documentado de forma irretocável: a participação dos Mutantes acompanhando Gilberto Gil no Festival da Record, a ascensão da banda ao merecido estrelato, o reconhecimento da importância do grupo como peça fundamental da Tropicália, e depois o declínio, quando as drogas absorveram o bom humor e a gigantesca criatividade do grupo, que enveredou pelo caminho do rock progressivo. A saída traumática de Rita Lee após as inúmeras brigas do casal, a própria saída de Arnaldo da banda, depois da gravação do álbum ‘O A e o Z’ em 1973 - disco que só seria lançado em 1992 - e o seu primeiro disco solo, Loki, considerado uma obra prima que escancara toda a sua genialidade e a sufocante angústia e enorme depressão que estava lhe afligindo.

Seguem-se imagens de Arnaldo com a banda Patrulha do Espaço, com quem gravou dois discos, em um programa de televisão que nem chegou a ir ao ar, com depoimento do baixista Oswaldo “Kokinho”, que morreu subitamente em Londres um dia antes de o filme ser lançado.

O que comove e emociona o espectador é a transformação de um garoto genial, extremamente divertido e brincalhão, em um ser amargurado, triste e profundamente melancólico. Com sua sanidade perturbada e em total ostracismo, cada vez mais frustrado e incompreendido, Arnaldo foi internado diversas vezes em instituições psiquiátricas. O artista plástico Antônio Peticov, amigo de Arnaldo desde a adolescência, conta que ficou seriamente preocupado quando viu o amigo construindo uma nave espacial para cair fora desse planeta, afinal, "falar sobre discos voadores era normal, mas construir um para fugir da Terra era alarmante".

Em uma dessas internações, Arnaldo tentou o suicídio, pulando da janela do terceiro andar do hospital e entrando em coma profundo. Em Loki ele claramente atribui a sua tentativa de dar cabo em sua própria vida à Rita, que ele chama de responsável pela suas internações. Suas declarações mostram um homem com uma sensibilidade desenfreada, às vezes ainda parecendo ser um menino ingênuo e fragilizado.

Nos anos noventa, a sua redescoberta pelas novas gerações é mostrada a partir de um depoimento de Kurt Cobain, líder do Nirvana, à MTV, falando da genialidade de Arnaldo e de sua vontade de conhecer o artista, inclusive escrevendo uma carta de próprio punho para o mutante. O encontro não aconteceu, mas Arnaldo é visto no filme assistindo comovido a essa entrevista de Cobain.

Em 2000, Sean Lennon, o filho de John, toca no Brasil e convida Arnaldo para uma participação em seu show. Sean fala sobre a importância da obra de Arnaldo e o compara a Syd Barrett, o mentor do Pink Floyd, outro gênio da música que teve uma trajetória semelhante. A riqueza das canções de Arnaldo são então comparadas a Beatles e Rolling Stones e, a meu ver, embora resguardando devidas proporções que possam soar exageradas, também deveriam ter citado Brian Wilson dos Beach Boys na analogia.

A construção do documentário coincidiu com a volta dos Mutantes em 2006, após 33 anos sem se apresentarem juntos. Um DVD foi gravado no primeiro show do retorno da banda, no Teatro Barbican, em Londres, e o diretor Paulo Fontenelle acompanhou o grupo à Inglaterra para registrar os bastidores. Arnaldo foi ovacionado como um dos maiores artistas vivos em todo o mundo. Imagens feitas no dia seguinte, nas ruas de Londres, mostram Arnaldo sendo reconhecido e reverenciado pelos ingleses, demonstrando que ele é mais conhecido no mundo que em seu próprio país. Arnaldo recebia o reconhecimento, embora tardio, por sua inspiradíssima obra musical.

O documentário tem duas horas de duração e emociona quem é fã dos Mutantes, fã de Arnaldo, fã de música ou qualquer pessoa que nunca tenha ouvido falar no artista. Loki é o primeiro produto cinematográfico lançado pelo Canal Brasil. O filme circulou por vários festivais de cinema pelo mundo, ganhando prêmios no Festival do Rio, Mostra de Cinema de São Paulo e festivais de cinema em Cuiabá, Toronto, Miami e Nova York, além de ser muito aplaudido nos festivais internacionais de Buenos Aires, San Francisco, San Diego e Seattle, o que o levou a percorrer as salas de exibições das principais capitais de estados brasileiros.

Além dos cento e vinte minutos do longa, muita coisa boa acabou ficando de fora. Não perca nos extras do DVD Arnaldo tentando visitar sua antiga residência no bairro Pompéia, quando a atual dona do imóvel lhe diz que só permite a sua entrada se ele pagar ingresso, pois antigamente alguém famoso morou ali, um tal de marido da Rita Lee, e de tanto aparecer garotos querendo conhecer a casa agora ela cobra ingresso - isso dito ao mesmo artista que é reconhecido pelos ingleses quando circula pelas ruas de Londres ...

A maior coleção de discos do mundo

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Por Nelson Junior
Colecionador
Meu Negócio é Rock´n Roll

Paul Mawhinney é dono de um dos maiores tesouros da humanidade. Em sua casa ele possui uma sala onde se pode não somente conhecer a trajetória da indústria fonográfica, como também literalmente tocá-la e ouvi-la. Esse americano de 70 anos é dono da maior coleção de vinis do mundo: são cerca de 2 milhões de discos, tudo isso reunido em quase cinquenta anos de dedicação.


Entre as raridades, está o primeiro disco de vinil, fabricado em 1881. É impressionante imaginar o que apenas esse item representa para a história da música. A coleção de Paul é mostrada no documentário de curta-metragem
The Archive, do diretor Sean Dunne, lançado em 2009. No documentário, Paul fala sobre sua ligação com a música, sobre a história da sua coleção, e claro, mostra itens curiosos e raros do seu acervo, como um disco dos Rolling Stones nunca lançado comercialmente.

Em um dos momentos mais emocionantes, o colecionador, que é praticamente cego devido a complicações da diabetes, tenta expressar a importância e a riqueza do seu acervo.

A coleção de discos de Paul Mawhinney está avaliada em 50 milhões de dólares, no entanto ele está pedindo apenas três milhões para vendê-la. Até a conclusão do documentário não haviam interessados.

Veja um trecho no vídeo abaixo:


Leia também: A oficina do vinil

Prateleira do Cadão: a história do primeiro disco dos Garotos Podres

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Mauá, São Paulo. Essa cidade do Grande ABC paulista foi o berço de um dos mais cultuados grupos da história do punk rock brasileiro.

Formado por Mao (vocal), Mauro (guitarra), Godô (baixo) e Maurício (bateria), o Garotos Podres surgiu em 1982, no boom do movimento punk no Brasil, quando centenas de bandas nasceram, principalmente na periferia das grandes metrópoles, embaladas pela lendária coletânea Grito Suburbano, lançada pela Punk Rock Discos naquele ano e considerada um dos mais importantes registros do gênero em nosso país.

O LP trazia as bandas Olho Seco, Inocentes e Cólera, cada uma marcando presença com quatro faixas. O impacto sobre a juventude brasileira do começo dos anos oitenta, sufocada pelas limitações e censuras impostas pela ditadura militar, foi imenso, tirando milhares de garotos do limbo em que viviam, que trocaram os bancos das escolas por acordes de guitarras, letras repletas de revolta e cheias de atitude.


Grito Suburbano teve uma repercussão tão intensa que foi lançado também na Alemanha, em 1984, pela Vinyl Boogie, com o título alterado para Volks Grito, e transformou Olho Seco, Inocentes e Cólera em ícones eternos do punk brazuca.

Outro evento marcante daquele ano foi o festival O Começo do Fim do Mundo, organizado pelo escritor e dramaturgo paulista Antônio Bivar. O festival aconteceu nos dias 27 e 28 de novembro de 1982 no SESC Pompéia, em São Paulo, e tinha o objetivo de selar a união entre as variadas facções e diferentes grupos que formavam a cena punk da capital e do ABC paulista, e que constantemente envolviam-se em brigas e confrontos entre si.

Vinte bandas apresentaram-se no festival, entre elas Cólera, Inocentes, Olho Seco, Estado de Coma, Extermínio, Fogo Cruzado, Hino Mortal e Ratos de Porão. Além de shows, o evento contou com exposição de materiais da forte cena punk de então, como discos dos mais variados grupos, fanzines e filmes.


Bivar providenciou que o festival fosse gravado, e lançou um LP com o mesmo nome um ano depois, em 1983, pela gravadora New Face. O disco vale como importante registro histórico, já que a qualidade de áudio, infelizmente, não é das melhores. Como curiosidade vale mencionar que uma das bandas do evento, a Ulster, recusou-se a ter sua participação incluída no vinil original de 1983, porque, segundo o grupo, teriam sido prejudicados na hora da gravação de sua performance. A faixa do Ulster acabou entrando como bonus track no relançamento de O Começo do Fim do Mundo em CD, em 1995, pela Decontrol Records.

Voltando, o primeiro show do Garotos Podres foi em Santo André, em 1983, em um evento que reuniu várias bandas em benefício ao Fundo de Greve dos Metalúrgicos do ABC. Passaram a tocar com frequência, e acabaram sendo convidados a participar de uma coletânea em fita K7 ao lado dos grupos Corte Marcial, Infratores e Grito de Alerta.

Em 1984 ocorreram algumas mudanças na formação da banda. Godô saiu e passou o posto de baixista para Sukata, que está com o grupo até hoje. Na bateria, Maurício foi embora e em seu lugar entrou Português, que permaneceria até 1997. Com o line-up estabilizado, entraram em estúdio em meados de 1985 para gravar uma demo-tape com suas composições. As sessões duraram doze horas, e nelas foram registradas quatorze músicas. O resultado final animou a banda, que incluiu onze delas em sua disco de estreia, batizado como Mais Podres do que Nunca e lançado em 1985 pelo selo Rocker.


Mais Podres do Que Nunca é um petardo do começo ao fim. Produzido por Edson "Redson" Lopes Pozzi (vocalista, guitarrista e líder do Cólera), o LP foi gravado em oito canais no estúdio Vice-Versa, em São Paulo. As onze faixas do play são de autoria do trio Mao, Mauro e Sukata, a espinha dorsal do grupo.

O debut do Garotos Podres é um disco recheado de clássicos. O play abre com "Não Devemos Temer", cuja letra prega a união de forças para destruir aqueles que detém o poder. A lendária "Johnny" vem a seguir, e tornou-se uma das faixas mais emblemáticas da carreira da banda. Sua execução foi proibida nas emissoras de rádio e TV devido à sua letra, considerada ofensiva pela censura. O pau continua comendo com "Insatisfação", retrato fiel do estado de espírito dos brasileiros do período.

A hilária "Vou Fazer Coco" é um chute no peito do estabilishment tupiniquim daquela primeira metade dos anos oitenta, onde a ditadura dava seus últimos suspiros e o sonho de uma nova república era vendido através da figura de Tancredo Neves, que acabou virando mito ao falecer sem tomar posse no posto de primeiro Presidente da República de uma nova era, posto esse que acabou caindo no colo de José Sarney.

Outros destaques absolutos são "Eu Não Sei o que Quero" - com a clássica frase "eu não sei o que quero, mas eu sei que eu vou conseguir" - e a sensacional "Papai Noel Velho Batuta", que teve seu título alterado para driblar a censura, pois originalmente se chamava "Papai Noel Filho da Puta".


A primeira tiragem de Mais Podres do que Nunca esgotou rapidamente, e uma nova edição do disco foi lançada em 1986 pela Lup-Som. Em 1987 uma terceira prensagem chegou às lojas com as mesmas onze faixas mas com o título alterado para Pisando na M ..., alusão a um incidente protagonizado pelos integrantes da banda que, descontentes com o trabalho de divulgação e o descaso da gravadora pelo disco, pisaram em coco de cachorro na rua e passearam calmamente pelo escritório acarpetado da companhia.

Mesmo assim, o disco vendeu muito bem, alcançando 50 mil cópias comercializadas, o que é um feito considerável levando-se em conta a época em que foi lançado, a eterna crise econômica vivida pelo Brasil naquele período e o tipo de som executado pelo grupo, anti-comercial ao extremo.

Mais Podres do que Nunca ganhou uma versão em CD em 1995 pela Rotten Records, com direito a uma bonus track, a faixa "Meu Bem". Desde 1997 a própria banda assumiu a comercialização do disco.


A carreira dos Garotos Podres seguiu com o lançamento dos álbuns Pior que Antes (1988) - ótimo disco, recomendo! -, Canções para Ninar (1993), Rock de Subúrbio - Live! (1995), Com a Corda Toda (1997), Arriba! Arriba! (1997) - coletânea com faixas dos dois primeiros discos e algumas canções gravadas ao vivo na Alemanha em 1995, lançada pelo selo português Fast´n´Loud e atualmente fora de catálogo -, Live in Rio (2001) e Garotozil de Podrezepam (2003).

O grupo está na ativa até hoje, mantendo vivas a força, a ideologia e a atitude do punk rock.


16 de fev de 2010

Prateleira do Cadão: Restos de Nada, pioneiros do punk brazuca

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

A história do Restos de Nada se confunde com a história do punk rock no Brasil. O grupo surgiu em 1978 na Vila Carolina, em São Paulo, do encontro entre o guitarrista Douglas Viscaino (que vinha do Organus) e o baixista Clemente Nascimento. Os dois se conheceram, trocaram ideias e descobriram vários gostos em comum. A dupla curtia bandas como MC5, New York Dolls e Stooges, que chegavam até as suas mãos através do cunhado de Douglas, que conseguia LPs importados desses e outros grupos com marinheiros estrangeiros que traziam os plays escondidos em suas bagagens, contrabandeando-os para o Brasil.

A dupla logo virou referência para quem gostava do som agressivo e repleto de atitude do punk rock. Essa boa reputação fez Ariel (vocal) e Carlos Charles (bateria) juntarem-se a Douglas e Clemente. Entre os quatro, Carlos era o que possuía um conhecimento musical mais apurado, pois, além da bateria, tocava violão e piano. Com uma formação calcada na MPB engajada, empolgou-se com a energia do trio e decidiu aplicar seu background, pavimentado pela música de protesto à ditadura militar dos anos setenta, a serviço de um grupo de rock and roll. Assim nascia o Restos de Nada.

A banda fez alguns shows na nascente cena punk paulistana do final dos anos setenta e começo dos oitenta, mas divergência ideológicas acabaram por separar o quarteto original. Douglas e Ariel começaram a colaborar para a OSI - Organização Socialista Internacional junto com Irene Incaó, também da turma da Carolina e amiga da escola, que logo teria participação importante na trajetória da banda. Para quem não sabe e não viveu aquele período negro da história do Brasil, a Organização Socialista Internacional teve papel fundamental pela sua atuação nos movimentos por liberdade política não apenas em nosso país, mas no mundo todo, principalmente nos movimentos estudantis.

Já Clemente queria curtir, tocando seu som e vagando pelas ruas. Foi inevitável seguir caminhos opostos, e Clemente acabou indo para o N.A.I. (Nós Acorrentados do Inferno) - onde já chegou chegando, sugerindo a mudança no nome do grupo para Condutores de Cadáveres. Douglas e Ariel convidaram a já citada Irene para a vaga de Clemente, mas esse line-up durou pouco, e, no final de 1980, com a saída de Carlos Charles e Irene, o Restos de Nada encerrou as suas atividades.

Douglas, Ariel e Irene montaram o Desequilíbrio - nome da composição mais conhecida do Restos de Nada -, mas a banda durou pouquíssimo tempo. Clemente formou o Inocentes em agosto de 1981 com o parceiro do Condutores de Cadáveres, o guitarrista Callegari. Em 1982 Ariel retomou a parceria com Clemente no Inocentes, enquanto Callegari fazia o caminho inverso, saindo da banda e juntando-se a Douglas no Disciplina. Após o Disciplina, Douglas montaria com Irene - agora responsável apenas pelos vocais - a Alma de Andróide, que seguiu firme e forte no underground até 2000. Já Ariel saiu dos Inocentes e montou o Invasores de Cérebro em 1988.

No meio dessa confusão toda, o Inocentes fez carreira lançando os elogiados - e até hoje muito atuais, diga-se de passagem -
Pânico em SP (1986) e Adeus Carne (1987). Animados pela boa repercussão dos discos, mais maduros e com as cicatrizes abertas pelas diferenças do passado devidamente fechadas, Clemente, Douglas, Ariel e Charles juntaram forças novamente em 1987 para enfim gravar em disco as composições do Restos de Nada, criadas entre 1978 e 1980. A banda assinou com a Devil Discos, entrou em estúdio e saiu de lá com um dos mais importantes registros do punk rock tupiniquim.


Restos de Nada, o disco, contém treze faixas e, apesar da gravação bastante crua - ou justamente por causa disso -, é um retrato fiel dos primeiros tempos do punk no Brasil. O play abre com a faixa que dá nome à banda e ao disco, onde o quarteto joga suas cartas na mesa sem cerimônia. A sensacional "Ódio" é uma pérola, com sua hilária e provocativa letra falando a respeito do asco do grupo pelos policiais paulistas: "lá vem os ratos, sujos e nojentos". O pau come em faixas como "Deixem-me Viver", "Ninguém é meu Igual", "Somos Todos Escravos de um Balde de Lixo" e "Classe Dominante". "Direito à Preguiça" tem um clima bem similar ao que o Inocentes mostraria em seus primeiros álbuns, enquanto o quarteto "Esperança de Liberdade", "Rebeldia Incontida", "R.D.N.I." e "Estrutura de Bronze" encerra o play sem deixar pedra sobre pedra. Como curiosidade e registro histórico, a última faixa do álbum traz trechos de um show de 1979 e da apresentação no programa Olimpop, da TV Tupi, em 1980.

Mas, inegavelmente, o grande destaque do LP, aquele faixa que vale o disco, é o hino "Desequilíbrio", considerada por muitos pesquisadores uma das primeiras composições da história do punk nacional. Trilha sonora de uma geração que teve seus sonhos soterrados pelo autoritarismo e pela violência da ditadura imposta pelos militares, é um autêntico grito de liberdade e inconformismo da juventude paulista - e brasileira - daquela segunda metade dos anos setenta. E, o mais triste, é perceber que, apesar de composta há mais de trinta anos, sua letra continua atual, infelizmente.

O álbum recebeu uma versão em CD lançada pela própria Devil Discos, mas atualmente tanto o LP quanto o CD estão fora de catálogo. Em 2001 Douglas e Ariel colocaram novamente a banda na ativa, acompanhados do baixista Luiz e baterista Cuga. Ao mesmo tempo, lançaram de forma independente
Restos de Nada II, que reúne gravações realizadas com um gravador de fitas K7 e traz a banda tocando em um terreno baldio da Vila Carolina, em São Paulo, em 20 de setembro de 1980, e mais quatro faixas inéditas - "Eu Tenho Medo", "Eles Vêm e Vão!", "Opressores Não Mais!" e "Pré-História" - gravadas em julho de 2001 no estúdio Kuaker, em São Paulo.

Falar em punk rock no Brasil e não citar o Restos do Nada é impossível. A banda foi fundamental para a solidificação e propagação do gênero em nosso país, além de ter parido um dos discos mais importantes não só do estilo, mas do próprio rock brazuca. Em um tempo em que o termo "clássico" é banalizado todos os dias, sendo aplicado a trabalhos pra lá de questionáveis, vê-lo associado a um disco como
Restos de Nada é um alento e uma benção.

15 de fev de 2010

Mofodeu: grandes produtores da história do rock

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

Por Vitor Bemvindo
Historiador e Colecionador
Mofodeu

Ouvir um disco e não dar importância ao seu produtor é o mesmo que ver um filme e achar que os atores são os elementos mais importantes. Ao contrário do que possa parecer, o produtor de discos não tem um papel meramente técnico. Ele é responsável por colocar as ideias do artista para funcionar e tem um papel fundamental no processo criativo dos álbuns. É claro que os artistas não são meramente atores, eles têm papel análogo ao de um roteirista em um filme, ou seja, criam o conceito principal, que será dirigido pelo produtor.

Nos anos 1960 e 1970 alguns produtores passaram a ter um grande destaque devido à sua importância no processo criativo de álbuns que acabaram tornando-se clássicos. O exemplo maior disso é o de George Martin, tido como o quinto beatle. Sem o trabalho do seu produtor, os Beatles dificilmente conseguiriam alcançar os resultados pretendidos em álbuns como Revolver, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band ou Abbey Road.

George Martin conseguia traduzir tecnicamente todas as viagens lisérgicas dos Beatles em composições concretas que se tornariam históricas. Isso se deve também à formação clássica de Martin como músico e arranjador. O papel dele era muito maior do que simplesmente orientar as gravações dos álbuns, ele tinha um papel criativo na banda e sempre foi valorizado por isso.

Com o fim dos Beatles, Martin continuou produzindo trabalhos com a mesma maestria. Ele foi responsável, por exemplo, pela produção do excelente Apocalypse (1974), da Mahavishnu Orchestra; pelos aclamados discos do America entre 1974 e 1979; pela estreia solo de Ringo Starr, Sentimental Journey (1970); e pelos elogiados álbuns de Jeff Beck, Blow by Blow (1975) e Wired (1976).

Martin dedicou-se também à produção de trilhas sonoras para filmes, em especial para a série de películas de James Bond. Primeiramente, ele compôs e fez o arranjo de alguns temas para Moscou contra 007 (1963) e 007 contra Goldfinger (1964). Mais tarde, ele seria responsável pela trilha completa de 007, Viva e Deixe Morrer (1973), sendo produtor também da faixa “Live and Let Die”, executada por Paul McCartney e os Wings. Já nos anos 1980, George Martin produziu discos dos Wings, UFO e Little River Band, entre muitos outros.

Mas o que poucos sabem é que a relação entre os Beatles e George Martin esteve arranhada entre 1968 e 1969. Martin era muito ligado a Paul McCartney e havia uma clara dissensão entre o baixista e os demais Beatles. Houve grande desgaste durante a gravação de Get Back (que viria a ser lançado como Let It Be), e as sessões foram abandonadas. No final de 1969, por motivos contratuais, os Beatles foram obrigados a lançar o álbum, mas já não havia nenhum interesse em reunir a banda para mexer naquele material.

Por conta própria, John Lennon entregou o material de Let It Be para o produtor Phil Spector, com quem já havia trabalhado em seu single solo "Instant Karma! / Who Has Seen the Wind", de fevereiro de 1970. Apesar de Martin ter trabalhado com os Beatles nas sessões de gravação do disco, a produção final ficou a cargo de Spector, que recheou o trabalho de overdubs, orquestrações sem sentido e tudo que pudesse disfarçar a displicência com que as gravações foram feitas.

O lendário produtor Phil Spector

O disco foi bem recebido pela crítica e acabou alavancando a carreira de Spector, que já havia trabalhado anteriormente no álbum River Deep – Mountain High (1966), de Ike & Tina Turner, e em alguns discos das Ronettes. Depois de Let It Be ele ficaria encarregado pela co-produção de boa parte dos trabalhos dos ex-Beatles John Lennon e George Harrison. No final dos anos 1970, a carreira de Spector foi se escondendo atrás de suas extravagâncias e atitudes anti-sociais. Depois de produzir End of the Century (1980), dos Ramones, Spector passa a aparecer mais nas páginas policiais do que nas de cultura. Em 2003, após trabalhar com Celine Dion, Spector se viu envolvido no assassinato da modelo Lana Clarkson, sendo condenado. Desde 2008 ele cumpre sentença no mesmo presídio em que Charles Manson está preso.

Mas diferente de Spector, que sempre gostou dos holofotes, a maioria dos produtores dificilmente aparecem. É o caso de Martin Birch, por exemplo, que se tornou um dos magos da produção de discos de hard rock e heavy metal sem praticamente sair nunca do estúdio. Birch começou sua carreira como engenheiro de som de álbuns do Fleetwood Mac, Deep Purple e Wishbone Ash. A partir de meados dos anos 1970 ele passou a produzir os álbuns do Deep Purple, como Stormbringer (1974) e Come Taste the Band (1975).

Martin Birch, o mago por trás de grandes clássicos do hard e do metal

Com a saída de Ritchie Blackmore do Deep Purple, Martin Birch passou a produzir, ao mesmo tempo, a antiga e a nova banda (Rainbow) do homem de preto. Ele foi responsável pela produção de todos os discos do Rainbow com Ronnie James Dio nos vocais (Ritchie Blackmore’s Rainbow de 1975, Rising de 1976, o ao vivo On Stage de 1977 e Long Live Rock ‘n’ Roll de 1978).

Todos esses trabalhos colocaram Birch na linha de frente da produção de álbuns no fim dos anos 1970. A partir daí ele produziria todos os LPs do Whitesnake entre 1978 e 1984, os clássicos do Black Sabbath com Dio - Heaven and Hell (1980) e The Mob Rules (1981) -, além dos trabalhos do Blue Oyster Cult neste mesmo período.

Mas foi ao lado do Iron Maiden que Birch ficou ainda mais conceituado, tornando-se a maior referência do heavy metal britânico, quando produziu todos os álbuns do grupo entre 1981 e 1992. Após produzir Fear of The Dark, Martin Birch decidiu se aposentar, deixando um legado de grandes produções.

Além do talento, Birch era conhecido pelo bom humor e bom relacionamento com os músicos. Isso fica evidenciado quando mesmo com as bandas separadas ele segue trabalhando com todos os músicos, como no caso do Deep Purple e do Rainbow. No começo da carreira, ele já foi homenageado pelo Purple com a faixa “Hard Lovin’ Man”. Nos discos do Iron Maiden, ele era sempre “homenageado” com um apelido nos créditos dos discos, como Martin “Farmer” Birch (em The Number of the Beast), Martin “Marvin” Birch (em Piece of Mind), Martin “Pool Bully” Birch (em Powerslave), etc.

Quando se fala em hard rock setentista, não se pode esquecer de Bob Ezrin, que também ficou conhecido belo bom relacionamento com os artistas. Ele iniciou sua trajetória com Alice Cooper, produzindo todos os discos da titia entre 1971 e 1977, sendo responsável por clássicos como Killer (1971), School’s Out (1972), Billion Dollar Babies (1973) e Welcome to My Nightmare (1975). Com Alice, Erzin era parceiro em várias composições, como “Under My Wheels”, “Department of Youth”, “Cold Ehtyl”, entre muitas outras.

Erzin também ficou encarregado da produção de alguns dos discos do Kiss, como o clásssico Destroyer (1976) e o controvertido Music From the Elder (1981), sendo co-autor de uma das músicas mais famosas do grupo, “Detroit Rock City”. Outros clássicos, como “Do You Love Me?” e “Shout It Out Loud”, também tiveram o dedo de Ezrin como compositor.

Outro trabalho importantíssimo da carreira de Bob Ezrin foi The Wall, um dos mais importantes discos da história do rock e do Pink Floyd, co-produzido por Ezrin ao lado de Roger Waters e David Gilmour. Nessa obra, Ezrin trouxe sua experiência com Alice Cooper para produzir um álbum conceitual, como já fizera, por exemplo, em Welcome to my Nightmare. Além disso, ele trabalhou na produção de álbuns de artistas como Peter Gabriel, Aerosmith, Kansas e vários outros.

Atualmente,Bob Ezrin ainda é um dos grandes nomes da produção, estando muito valorizado no mercado fonográfico por produzir bandas atuais como 30 Seconds to Mars, The Darkness e Deftones.

Eddie Kramer é outro peso-pesado na produção de discos. O rapaz começou a carreira trabalhando no Olympic Sound Studio, um dos mais conceituados de Londres no fim dos anos 1960. Nesse período ele pode atuar como engenheiro de som em álbuns dos Rolling Stones e Small Faces, e até mesmo com os Beatles. Ele passou a ser mais conhecido ao trabalhar com Jimi Hendrix, com quem aprendeu muito.

Em 1968 Kramer se mudou para Nova York para ajudar no estabelecimento do Electric Lady Studio, de Hendrix, quando teve a oportunidade de trabalhar também com Jimmy Page, então no Yardbirds. Essa relação com Page continuou quando nasceu o Led Zeppelin e Kramer ficou encarregado pelos trabalhos técnicos em diversos trabalhos do grupo.

O primeiro trabalho de Kramer como produtor foi em 1970, no lançamento do primeiro álbum póstumo de Jimi Hendrix, The Cry of Love. Nesse mesmo ano ele passa a ser o diretor do Electric Ladyland Studios, e fica encarregado da produção de discos de diversos artistas (David Bowie, Sha Na Na, Spooky Tooth, Peter Frampton) até 1974.

Em meados da década de 1970, Kramer une-se ao Kiss na produção dos Alives (I, de 1975, e II, de 1977). Nesse período ele estabeleceu uma grande amizade com Ace Frehley, passando a produzir a maior parte de seus trabalhos. O sucesso na produção dos discos ao vivo do Kiss rendeu um convite para trabalhar em Frampton Comes Alive, um dos álbuns ao vivo mais bem-sucedidos da história.

Atualmente Kramer se dedica a produção de vídeos ligados à música e exposição de fotografias, tornando-se um produtor cultural no sentido mais amplo. Um dos seus últimos trabalhos como produtor de discos foi em 2007, com o Lez Zeppelin, banda tributo ao Led Zeppelin formada apenas por mulheres. Recentemente ele produziu o disco Avatar, do grupo The Everybody.

Da mesma geração de Kramer, porém menos conhecido mas não menos talentoso, é Jimmy Miller. Apesar de ser nova-iorquino, a carreira de Miller sempre esteve ligada a bandas britânicas. Seus primeiros trabalhos foram com o The Spencer Davis Group, quando estabeleceu uma relação muito produtiva com Steve Winwood, com quem compôs “I’m a Man”. Graças a essa amizade, Miller acabou trabalhando com Winwood em seus outros grupos, produzindo álbuns do Traffic e do Blind Faith (que contava também com Ginger Baker e Eric Clapton).

A qualidade desses discos alavancou a carreira de Miller, que logo começou a receber vários convites. Após ter trabalhado com Clapton no Blind Faith, ele seria engenheiro de som em outros álbuns do guitarrista, como o com o Derek & The Dominos, e mais tarde em alguns dos seus trabalhos solos.

Jimmy Miller em estúdio com os Rolling Stones

Mas o auge da carreira de Miller veio no final dos anos 1960, quando ele passou a trabalhar com os Rolling Stones em seus discos mais aclamados, Beggars Banquet (1968), Let It Bleed (1969), Sticky Fingers (1971) e Exile on Main St. (1972). Ele seria responsável por ajudar os Stones a se livrarem da fama ruim que a banda trazia após o fracasso de Their Satanic Majesties Request (1967) e das produções frustradas de Rock and Roll Circus (1968) e Altamont Free Concert (1969). Além disso, o produtor era responsável por tocar percussão em várias faixas dos LPs da banda, como por exemplo em “Honky Tonk Women”, na qual ele toca cowbell. Ele chegou até mesmo a substituir Chalie Watts, tocando bateria em faixas como “You Can’t Always Get What You Want”, “Happy” e “Shine a Light”.

O sucesso dos quatro primeiros álbuns dos Stones produzidos por Jimmy Miller não foi suficiente para manter a parceria entre a banda e o produtor, após o fracasso de Goats Head Soup (1973), que não conseguiu manter o nível dos discos anteriores. Com isso, a banda resolveu trocar de produtor, e Miller passou a trabalhar menos. Ele viria a falecer em 1994, mas antes trabalhou com bandas como The Plasmatics e Motorhead.

Apesar do papel fundamental do produtor de álbuns, alguns artistas resolvem dispensá-lo para tentar deixar trabalho o mais autoral possível. Dois grandes músicos podem ser destacados também como grandes produtores: Jimmy Page (Yardbirds, Led Zeppelin) e Roger Waters (Pink Floyd).

Page começou sua carreira como músico de estúdio. Talvez por isso tivesse tanto fascínio pelo trabalho de produção musical. Já no Yardbirds ele sempre se metia na produção dos álbuns, apesar de nunca ter sido creditado em nenhum deles. Com a criação do Led Zeppelin, Jimmy Page viu, finalmente, a grande oportunidade de tomar conta de todo processo criativo em torno da produção dos discos do grupo. Page produziu todos os trabalhos da banda e fazia questão de sempre trocar o engenheiro de som de um álbum para o outro, para deixar claro que o responsável pela produção era ele. Mesmo assim, o seu principal parceiro nas produções dos álbuns do Led foi o já citado Eddie Kramer.

Algumas inovações no que diz respeito à produção de álbuns são creditadas a Jimmy Page, principalmente no que se refere ao posicionamento de microfones em frente aos amplificadores de guitarra e baixo. Ele era extremamente detalhista quanto à distância e angulação dos microfones na captação do som das guitarras. O interessante é que Page preferia utilizar amplificadores pequenos, dando mais intensidade ao som exatamente com a microfonização.

Os detalhes também eram uma obsessão de Roger Waters na produção dos discos do Pink Floyd. A primeira aventura de Waters como produtor foi em Ummagumma (1969), quando ele dividiu a produção do disco com seus companheiros de banda e Norman Smith. A partir daí, Waters passou a assumir todas as produções, apesar de sempre creditar nos encartes a todos os companheiros.

O auge desse trabalho foi em Dark Side of the Moon (1973), quando ele foi responsável não só por quase toda a composição do álbum, mas também pelas inovações de introdução de sons inusitados nas gravações. Foi da cabeça dele que surgiram as ideias de introduzir sons de relógios e despertadores em “Time”, e de moedas caindo e de caixas registradores em “Money”. Esse tipo de trabalho passaria a ser a marca registrada de Waters, que produziu também os seus discos solo após a sua saída do Floyd.

Entre outros nomes da produção de álbum estão: Jerry Wexler (Ray Charles, The Allman Brothers Band, Led Zeppelin, Bob Dylan), Chris Thomas (Pink Floyd, Procol Harum, Roxy Music, Badfinger, Sex Pistols), dentre muito outros que acabaram ficando de fora desse artigo.

Para conhecer o trabalho desses produtores, ouça o MOFODEU #080.

Leia também: Led Zeppelin, Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra

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