15 de abr de 2010

Minha Coleção - Fábio Salgado, uma extensa coleção de metal extremo

quinta-feira, abril 15, 2010

Por Fernando Bueno
Colecionador
Collector´s Room


Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer a sua participação. Para começar o nosso papo, eu queria que você se apresentasse aos nossos leitores.

Meu nome é Fábio Salgado, tenho 35 anos, sou de Itapira/SP, apaixonado por metal, principalmente Black Metal, e são paulino fanático.

Qual foi o seu primeiro contato com a música?

Eu comecei cedo, pois meu pai sempre ouvia rock. Cresci ouvindo Beatles, The Who, The Byrds, Pink Floyd, etc. Meu pai tocava numa banda de rock, então meu primeiro contato foi já na barriga de minha mãe.

Você disse que iniciou ouvindo Beatles, The Who, The Byrds e Pink Floyd. Mas o seu estilo preferido é o Black Metal. Como essas bandas de Classic Rock te levaram à ouvir o lado mais extremo do metal?

Na verdade não foram nem as bandas em si, mas amigos que gostavam de metal mais extremo na época em meados de 85. Quando tava saindo o Venon, Bathory, até mesmo o Kill´Em All do Metallica. Foi demais ouvir aquilo diferente de tudo que já tinha ouvido. Dali em diante só foi piorando. Os dois primeiros álbuns que comprei de thrash foi em 86, Reign in Blood do Slayer e Sentence of Death do Destruction, essa capa me choca até hoje. Acho essa capa do Destruction demais.



Mais ou menos com que idade você percebeu que o interesse pela música iria acompanhá-lo por toda a vida?

Não tinha como, com 10 anos eu tinha cover do Kiss. Lógico que só imitava, mas fazia show com platéia e tudo e via que aquilo ia ser para sempre.

Você consegue dizer em que momento se transformou de um fã normal de música em um colecionador?

Cara, quando comecei a comprar discos eu não comia e não gastava nada de grana só para poder comprar discos. Pegava ônibus escondido e ia para Campinas na Metallica (loja de discos da cidade), comprar os cassetes dos álbuns que naquela época era o que a gente conseguia, pois os LPs importados eram muito caros. Então a gente comprava as fitas cassete, era demais! Eu tinha 13 para 14 anos, minha coleção era para ser bem maior, mas vendi muita coisa por causa de grana. Mas já já chego lá de novo.



Quantos itens você tem?

Tenho mais de 500 vinis, entre CDs e CDRs passam de 3000 e DVDs mais de 100. Não gosto muito de DVD, prefiro o som mesmo. Às vezes me decepciono com o show e perco o tesão pela banda.

Você consegue se lembrar qual foi o seu primeiro disco?

Meu primeiro disco foi o Kiss Rock ´N Roll Over, tinha 10 anos, ganhei de natal, presente bom e barato (risos).

E o último que você comprou?

Pergunta difícil de responder, pois foram 12 CDs, tudo de Black Metal tipo Urgehal, Belenos, Augrimmer, Armagedda, Nefarium, Kerbenok, Undivine. Ahhh... ia me esquecendo do LP do Darkthrone novo.



Qual foi o número máximo de itens que você já adquiriu de uma única vez?

Quando fui num show em São Paulo comprei 75 CDs de uma vez. Os caras me chamavam de louco (risos). Não aguentava com o peso da mochila.

Qual item você considera o mais raro da sua coleção?

Raro hoje em dia com Ebay não existe, tudo se acha, mas tenho os meus xodós principalmente os de bandas nacionais: Dorsal Atlântica, Expulser, Holocausto, Anthares, Taurus, Sarcófago.....



Tem alguma coisa diferente? Aquele disco que acaba sendo estranho no meio da coleção?

Não tenho nada muito diferente em meu acervo. A não ser discos que ganho para minha coleção tipo Ira, Camisa de Vênus, Raul Seixas, coisas assim que não ouço, mas faz parte da minha coleção.

Existe algum disco que você passou um tempão atrás até consegui-lo para a sua coleção?

O picture do Sárcofago é um deles, Ultimatum do Dorsal Atlântica também.

E qual é aquele que você ainda não conseguiu?

Cara, tem muita coisa, mas no momento quero o Fuck The Universe do Craft em LP e Agalloch em LP, mas tá foda de achar.



Você gosta de ter várias versões de um mesmo álbum ou se contenta com apenas uma?

Depende da banda, Opeth, Darkthrone, Katatonia, eu compro LP e se tiver uma edição especial em CD compro também.

Para mudar um pouco não vou pedir que você responda os 10 melhores discos de todos os tempos e sim os cinco melhores discos de estilos específicos. Quais são os 5 melhores discos de:



Death / Black Metal?

Sárcofago - INRI

Mayhem - The Mysteris Don Sathanas

Celtic Frost - Morbid Tales

Carcass - Symphonies of Sickness

Entombed - Left Hand Path



Heavy / Thrash Metal?

Slayer - Reign In Blood

Metallica - Kill´Em All

Destruction - Sentence of Death

Anthrax - Among the Living

Nuclear Assault - Game Over



Progressivo / Classic Rock?

Thin Lizzy - Bad Reputation

King Crimson - Red

Bad Company – Bad Company

Grand Funk Railroad - We´re An American Band

The Guess Who - Best of



De 2000 para cá?

Agalloch - Ashes Against the Grain

Opeth - Blackwater Park

Katatonia - Last Fair Gone Dawn

Craft - Fuck the Universe

Dark Throne - Darkthrone and Black Fags



Cite algumas curiosidades de alguns itens que você acha especiais?

A caixa do Opeth é umas das que mais gosto em minha coleção. Não é rara, mas é linda. Tenho o DVD do mesmo que também é luxo. O LP do disco Black Sabbath que eu tenho é o da época capa com a cruz de ponta cabeça e com o nome do Ozzy errado na capa. Os nacionais também são uns dos que mais gosto. Tenho um LP de 1973 do Edgar Winter, capa dupla, que nunca foi aberto com celofane original na capa.



A sua coleção tem um limite? Tipo, você acha que, algum dia, vai parar de comprar discos porque acha que, enfim, tem tudo o que sempre quis ter? Você acha que esse dia chegará, ou ele não existe para um colecionador?

Não, eu nunca vou ter tudo o que eu quero. Todo dia quero comprar discos, é um vício sem fim.

Já parou para pensar em quem será o herdeiro da sua coleção no seu futuro?

Minha futura esposa fala sempre isso, mas não penso nisso. Espero viver bastante para poder cada vez mais aumentar minha coleção.

Como você organiza sua coleção? Você tem alguma mania em particular?

Eu organizo por ordem alfabética e por estilo,os LPs eu divido metal, todas as vertentes, em ordem alfabética e os Rock N´ Roll e Progressivo separado tudo em ordem alfabética também. O mesmo vale para os CDs. E a mania é sempre estar arrumando. Eu não empresto nada, não pego encarte preto para não ficar com mancha, só vejo uma vez quando compro. Odeio quando chega alguém e taca o dedo no encarte, coisa de loco mesmo.

Notei que você tem uma prateleira ao estilo das que existem em lojas. Como você a conseguiu?

Essa prateleira foi meu pai quem fez. Ele viu numa loja e falou “vamos fazer isso no seu quarto, vai caber bastante CD”. Coitado, mal sabia. Em uma semana tava lotado. “E agora?” perguntou meu pai. Agora vou mandar fazer um armário para 550 CDs. E o que aconteceu? Lotei de novo. Aí ele desanimou. Pena que ele não esta mais aqui pra ver onde foi parar a coleção mas como ele gostava de rock acho que iria ficar contente.



Se você tivesse que indicar algumas bandas, e alguns discos, para uma pessoa que nunca teve contato com o rock, o que indicaria?

Black Sabbath do Black Sabbath, Back in Black do AC/DC e The Number of the Beast do Iron Maiden. Com isso ele ia ter uma boa noção do que é metal.

Você é um comprador compulsivo, como muitos dos leitores da Collector´s Room. Comprando tanto assim, você ainda baixa música pela internet?

Eu sou compulsivo e não me contento só em comprar. Baixo muitas coisas também. Todo dia tenho que baixar, é um vicio sem fim.

Com tanto CD, LP, MP3 e outros, como você consegue ouvir tudo?

Para te falar a verdade tem coisa que ouço só uma vez e não ouço mais. Sempre o cd que está no carro acabo escutando mais, a não ser as coisas q eu gosto muito que ouço direto.

Tem alguma história engraçada ou curiosa que aconteceu com você por causa da música?

Cara, quando fui num show do Ignite, que é uma banda que gosto muito, durante o show o vocalista me deu o microfone para cantar. Depois do show ele me procurou e veio me dar um CD autografado e falou que eu cantava muito. Foi a primeira vez que um fã vira ídolo. Todos meus amigos ficaram de queixo caído com a situação. Foi bem legal.

Algumas perguntas rápidas:

CD ou LP?

Sem dúvidas o LP.

Mercyful Fate ou Venon?

Venom.

Metallica ou Megadeth?

Metallica até ...And Justice For All, depois Megadeth que manteve mais o padrão.

Sarcófago ou Sepultura?

Sarcófago. INRI tava anos luz na frente, tanto que é idolatrado pela maioria do pessoal Black Metal como um dos melhores de todos os tempos.

Max Cavalera ou Derick Green?

Max. Eu vi o último show com o Max no Olímpia. Foi de arrepiar, puta presença. Ele é foda. Pode ver depois que ele saiu do Sepultura os riffs de guitarra acabaram. Agora é no máximo quatro notas e groove não é mais Sepultura. Acho que é pelas más influencias do Andreas que quer fazer média com todo mundo e acaba sendo ridículo.

O que você recomendaria para o pessoal da Collector´s Room?

No lado mais Thrash eu recomendaria Blood Tsunami com membros do Emperor, puta som! No Black eu recomendo Totalselfhatred, muito fudida essa banda, LP de 2009. Para quem curte algo mais novo é claro que Mastodon é a banda e Between the Buried and Me, esses moleques deixam qualquer um de queixo caído.

Muito obrigado por ter participado da Collector´s Room, parabéns pela coleção. Este espaço é seu, deixe seu recado para os nossos leitores.

Gostaria de agradecer a oportunidade de participar do Collector´s Room. Sempre quis responder essas perguntas, é a seção que eu mais gosto de ver, agora gosto mais ainda. Pessoal, vamos colecionar, gastando com essas coisas não sombra dinheiro para gastar com porcaria e não tem coisa mais gostosa de ver sua coleção aumentando a cada dia. Seja louco por metal, não louco por drogas. Isso só leva você a nada, nada, nada! Valeu, abraços a todos que leram essa entrevista.

Cartolas - Sem riscos no segundo disco

quinta-feira, abril 15, 2010
Por Cezar “Dudy” Duarte
Roqueiro e English Teacher

Chegou a hora do teste do segundo disco para os gaúchos Cartolas. O primeiro, Original de Fábrica (2007), teve boa aceitação, se for levado em conta o fato de ter sido produzido e distribuído de forma independente. O êxito foi devido ao hit "Cara de Vilão", sucesso radiofônico que ajudou, em muito, a projetar o nome da Banda, com direito à vídeoclip amplamente visto e acessado na internet. Através da gravadora ACIT, de Caxias do Sul, chega agora às lojas Quase Certeza Absoluta, sucessor de Original de Fábrica, no qual o grupo resolve seguir a mesma linha musical do disco de estreia .


Numa análise mais superficial, este recente trabalho se apresenta como uma espécie de volume 2 do anterior. As mesmas influências continuam lá; a simplicidade de um rock básico que se apropria um pouco do que surgiu desde os anos sessenta em diante, chegando aos nossos dias através de referências como os Strokes. Quase Certeza Absoluta conta com 13 faixas, sendo que a sexta, "O Divórcio", traz Izmália Ibias fazendo duo vocal com Luciano Preza. “Onde Anda o Rock em Rol?”, encerra o disco com a participação de Márcio Petracco - pai do baterista Pedro - na guitarra slide. A produção ficou a cargo da banda e do guitarrista Ray Z, que já tocou com Os Ostras e Júpiter Maçã.


A banda Cartolas foi formada em 2003 em Canoas e ganhou o festival “Claro que é Rock” em 2005. Em 2007, o primeiro CD, Original de Fábrica, ganhou o prêmio Açorianos de Música, na categoria Melhor Disco Pop. A banda tem os seguintes integrantes: Luciano Preza (vocal), Dé Silveira (guitarra, violões, vocais), Christiano “Melão” (guitarra), Otávio Silveira (baixo) e Pedro Petracco (bateria).

Os Cartolas não vieram para revolucionar o rock, mesmo porque essa tarefa parece ser cada vez mais difícil, se considerarmos tudo o que já foi produzido desde o surgimento de Chuck Berry e sua geração. É uma banda bem intencionada que leva adiante o espírito das "garage bands", com o refinamento adquirido pela experiência de fazer música nesses quase sete anos de atividade. Há um esforço, por parte dos integrantes, de chegar a uma musicalidade original através de um timbre de guitarra próprio e de uma base rítmica pulsante e bem marcada.


Rock Brasileiro 1976

quinta-feira, abril 15, 2010



Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do programa Estação Rádio Espacial


76 já demonstra um certo cansaço na cena, frente a tantas dificuldades enfrentadas pelas bandas para seguir adiante. Na verdade, tocar rock no Brasil naquela época era quase que uma militância. Havia verdadeiros embates a serem travados e muita gente boa não trombou o desafio de dar murro em ponta de faca por muito tempo. Além disso, a barra tava pesando musicalmente. O rock de então perdia terreno com a juventude para o simplismo e rebeldia punk e para a pasteurizada música das discotecas.

O experimental Casa Encatada - O Terço


Ainda assim, durante o ano, aconteceram diversos lançamentos de grande qualidade musical e que fundamentaram a mensagem daquela geração de rockeiros em nosso país. O Terço, no rastro do sucesso de Criaturas da Noite, lançou Casa Encantada, um trabalho que aprofundou as experiências sonoras anteriores, mas com um brilho ligeiramente menor. Havia referências mais claras à MPB e ao rock progressivo, porém não com a mesma inspiração. Algumas músicas do período ficaram de fora do disco, como a extensa "Suíte", "Velho Silêncio", "Rapoza Azul", entre outras. Hoje, esses sons podem ser conferidos no disco O Terço Ao Vivo 76, com uma apresentação da banda no Teatro João Caetano. O sucesso de Casa Encantada também foi grande e a banda se apresentou cerca de 200 vezes por ano (neste período entre 74 e 76), sem dúvidas, o período mais bem-sucedido do grupo, em público e crítica. No ano seguinte, Flávio Venturini viria a deixar o grupo.

O incrível e limado Mutantes Ao Vivo

Um dos mais incríveis trabalhos do rock na época foi devidamente estragado por uma total falta de visão empresarial e outras questões comerciais – Mutantes Ao Vivo. A formação da banda na época era Sérgio Dias, Paul de Castro (creditado como Paulo de Castro, tocando baixo e violino), Rui Motta e Luciano Alves. A banda tinha feito uma temporada de concertos no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (espaço onde aconteciam muitos eventos das bandas da época), em agosto, e havia registrado o material para lançar um ousado projeto – um disco ao vivo quase todo de músicas inéditas!

O plano era de que todo o material saísse num disco duplo, com produção gráfica caprichada. Mas foram limados pelo produtor Peninha Schmidt, que alegou que o projeto seria inviável porque o custo de um disco duplo não poderia ser repassado e o disco encalharia. Enfim, mil e uma desculpas. Para piorar, o disco ainda foi todo retalhado – faixas cortadas e mixadas na ordem diferente da que foi executada no show. Isso gerou uma insatisfação muito grande na banda, e é uma triste constatação frente à qualidade do material, lançado no disco simples. Banda entrosadíssima e ótimas composições, boa qualidade sonora e energia pura. Esperamos que ainda algum dia esse imenso equívoco seja desfeito e o show seja lançado na íntegra, como era o desejo da banda.

O essencial Casa de Rock

O Casa das Máquinas daria uma outra guinada em seu som, dessa vez partindo para o rock n’ roll básico e pesado. Com a entrada do performático vocalista Simbas, a banda assume uma identidade mais “glam” no disco Casa de Rock, que teve como hits a faixa título, “Jogue tudo para a cabeça” e “Stress”. Esse seria o último disco da banda, que no fim de 77 se envolveria num polêmico episódio com um técnico da Rede Record.

A banda iria tocar no estúdio da emissora e depois de um acidente entre um veículo da emissora e outro da banda, iniciou-se uma discussão que descambou para pancadaria. O técnico em questão apanhou bastante na confusão e já tinha a saúde debilitada. Pra não queimar o filme do pessoal que se envolveu na briga, o técnico foi instruído pela segurança da emissora a não contar nada. No dia seguinte, o cara piorou e morreu no hospital, com rompimento do fígado e duas costelas fraturadas. Isso sujou totalmente a carreira da banda, que só conseguiu seguir por um pouco mais de tempo, até 78. O julgamento acabou inocentando parcialmente os membros da banda, com Simbas pegando 1 ano de prisão por homicídio culposo (que cumpriu em liberdade por ser réu primário) com a responsabilidade sendo dividida com seu irmão, que na época era menor de idade.

A estréia do Joelho de Porco

Quem estreou em disco em 76 foi o Joelho de Porco, com o disco São Paulo 1554 Hoje. Existe certa divergência de informação quanto a data do lançamento do disco – alguns dizem ser de 73, outros de 74. Mas em consulta à revistas do período, 76 é a data em que se propagou este lançamento e os shows que a banda passou a fazer. O grupo era composto pelo baterista Próspero Albanense, Ricardo Petraglia no vocal, Tico Terpins no baixo (o principal compositor da banda), Serginho Sá no piano, Flavinho Pimenta na bateria, Didi Guder com a percussão e Walter Bailot na guitarra. O Joelho de Porco passou a ser um marco no período pela interessante combinação de um rock possante com um humor ácido e escrachado, usando eventualmente para tal, ritmos caribenhos, vaudeville e doo-wop em suas composições.

As letras revelam uma visão crítica (feita com bastante irreverência) do cotidiano da megalópole paulista e musicalmente existem ali pérolas do nosso rock setentista, como “São Paulo By Day”, “Meus Vintes e Seis Anos” e “A Lâmpada de Edson”.

Os gaúchos do Bixo da Seda

Outra estréia também foi a do Bixo da Seda. A banda surgiu a partir do grupo Liverpool, formado em 67 no Rio Grande do Sul. Gravada em 69, com o instigante nome de Por Favor Sucesso, a estréia vinílica da banda não surtiu o efeito que o nome pregava, mesmo fazendo um bom som na esteira psicodélica-tropicalista. No ano seguinte, a banda seria responsável pela trilha do filme Marcelo Zona Sul, com Françoise Fourton e Stepan Necessian, hoje bastante disputado por colecionadores. O grupo passou a radicar-se no Rio de Janeiro e encerrou as atividades em 73, com vários dos músicos voltando para o sul.

Em 75, um novo encontro dos músicos Foguete (vocal, flauta e percussão), Mimi Lessa (guitarra), Marcos Lessa (guitarra) e Édson Espíndola (bateria) geraria o Bixo da Seda. Após gravarem o disco, em fins de 75, se mudariam novamente para o Rio de Janeiro, onde agregaram Renato Ladeira (ex-A Bolha, tocando teclados) e durante o período também Vinícius Cantuária, numa época em que passaram a tocar com duas baterias. Fizeram muitos shows em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, tocaram no Festival de Rock da Praia do Leste (ou Festival Rock de Verão, no Paraná) e no Festival Som, Sol e Surf em Saquarema.

A estréia do Bixo da Seda

O disco saiu em 76, batizado de Estação Elétrica, mesclando um rock n’ roll de primeira qualidade, por vezes pesado e com alguns toques progressivos no instrumental. Depois do disco, houve algumas trocas de formação até o fim dos anos 70, sendo que uma parte da banda passou a acompanhar o emergente grupo pop-disco “As Frenéticas”. O disco acabou sendo o único do grupo, que se desmanchou depois de mais alguns poucos anos.

Em 76, a banda A Barca do Sol lançou seu trabalho definitivo – Durante o Verão, novamente com produção de Egberto Gismonti. Tão lírico quanto os anteriores, com mais guitarra elétrica e bateria, esse disco é um ponto alto na música do período, mesmo não sendo puramente “rock”, como a própria banda gostava de deixar claro. Ainda A Barca do Sol gravaria mais um disco, chamado Pirata, em 78 e um outro disco em parceria com a cantora Olivia Byington.

A Barca do Sol

O Festival Som, Sol e Surf é um capítulo um pouco escuro da história de nosso rock, porque há pouquíssimas informações a respeito do acontecido. Organizado por Nélson Motta, os poucos relatos sobre o festival são feitos pelo próprio, que repetidamente o descreve como um grande fiasco, tanto artístico quanto de público. Logo no primeiro dia, na cidade litorânea de Saquarema, no estado do Rio de Janeiro, uma chuva forte abateu o local do evento, prejudicando a estrutura organizada e o cronograma. Fora isso, o público foi bem abaixo do esperado e o organizador ficou praticamente falido. Tocaram lá as bandas Made in Brazil, Vímana, Raul Seixas, O Terço, Bixo da Seda e Ângela Rô Rô (na época uma estreante cantora), entre outros. Para exemplificar como estavam as coisas naquele ano, Nélson partiu para um projeto muito mais bem sucedido, onde conseguiu saldar todas as suas dívidas – a boate Dancin’ Days, na Gávea - embarcando fundo na onda da disco-music e abandonando de vez a idéia dos festivais de rock ao ar livre.

O ótimo Saecula Saeculorum

Em Minas Gerais, apareceria o Saeculum Saeculorum, que havia começado em 74. Participaram de um grande festival em Minas, chamado “Camping Pop” e em 76 entraram em estúdio para registrar uma fita demo, a fim de negociar um contrato com a gravadora Warner. O contrato não rolou e o material ficou esquecido, com a banda encerrando as atividades em 77. Somente nos idos de 1996 é que esse material veio à luz, graças ao garimpo do violinista do grupo, Marcus Viana (futuro integrante do grupo Sagrado Coração da Terra). A formação do grupo era Marcus Viana (violino e vocais), Giácomo Lombardi (piano), José Audísio (guitarras), Bob Walter (bateria), Edson Plá Viegas e Juninho (baixo) e a gravação revela um som de grande qualidade musical, numa linha sinfônica e com instrumental de primeira grandeza.

Terreno Baldio

76 também assistiu o lançamento do primeiro disco do Terreno Baldio (que foi gravado ainda em 75), grupo paulistano que já estava na estrada dando o que falar. A formação clássica da banda era João Kurk nos vocais e flauta, Mozart Mello na guitarra, Roberto Lazzarini nos teclados, João Ascenção no baixo e Joaquim Côrrea na bateria. A história do grupo começa pelos idos de 66, quando Rodolfo Ayres Braga e Joaquim Correa formaram a banda Islanders, junto de João Kurk e Roberto Lazzarini, que era uma banda de covers que se concentrava em tocar o que havia de mais “underground” em termos de hard e rock psicodélico. Ficaram juntos nesse projeto até 71. João Kurk também participou de outro grupo de covers, chamado Utopia.

As cabeças foram evoluindo até que João e Roberto partiram para as idéias próprias, por volta de 73-74, influenciadas pelas grandes bandas progressivas inglesas – Yes, Camel, Renaissance, Gentle Giant, etc. O disco homônimo, estréia da banda, também sofreu de um mal similar ao que acometeu o lançamento do disco ao vivo dos Mutantes e também do não-lançamento da suíte “Amazônia” do Som Nosso de Cada Dia. Por pressão da gravadora, a banda não conseguiu gravar todo o material que tinha composto na época, previsto inicialmente para um disco duplo. Seus shows no período eram compostos de três movimentos – "Aqueloô", "Pássaro Azul" e "Terreno Baldio". É triste observar a produção pobre do disco, com um som fraco e mal equalizado, anos-luz distante da qualidade musical das composições, da letra e da interpretação do grupo. No ano seguinte, o Terreno gravaria outro importante trabalho – Além das Lendas Brasileiras, com uma formação diferente.


Considerações Finais

Sem complexo de inferioridade e nem auto-estima nacionalista exacerbada, a história do rock brasileiro no período é valorosa, primeiramente pelo esforço imenso de tantos talentos envolvidos em lutar por sua arte e também pela competência musical demonstrada, obstante o fato de que o que ficou para a posteridade não tenha (em grande parte) uma qualidade técnica à altura das obras e nem sempre ser a representação do som que as bandas faziam no palcos, pelas pressões de produtores e gravadoras, que sempre insistiam num som mais palatável, comercialmente falando. Os obstáculos postos pela ditadura dificultavam os encontros, os shows e a concentração de apreciadores, dificultava a importação de instrumentos e equipamentos de boa qualidade e censurava os lançamentos (das bandas locais e das estrangeiras).

Frente a isso, com bravura, se desenvolveu uma música jovem que nem sempre foi movida totalmente pela originalidade (algumas influências nítidas de bandas internacionais se percebem no som daqui, assim como ocorreu com freqüência em muitos outros países do mundo), mas representou com grande qualidade a geração a que pertenceu, seu senso musical mais aberto e disposto a experimentações musicais, estabelecendo novas fronteiras dentro do rock, que são devidamente execradas pela crítica atual. É lamentável saber que muitos trabalhos da época ainda andam perdidos por aí em porões e estúdios, aguardando o feliz dia de virem à luz. Mais lamentável ainda é ver a grande quantidade de bandas (muitas delas de grande potencial, segundo os relatos de quem os conheceu) que nem mesmo chegou a gravar algum material.

Joelho de Porco

Fica a história ainda obscurecida pela grande mídia, nesse período, especialmente pela idéia largamente vendida de um “vácuo” entre a jovem guarda, na metade dos anos 60, e a onda pop-rock dos anos 80, ignorando sumariamente que muitos dos nomes que despontaram nos anos 80 já tinham experiências musicais muito mais interessantes em anos anteriores.

Para finalizar, fica o apelo de que se alguém se identificar como um dos músicos das bandas citadas favor se manifestar, fazendo eventuais correções nas informações e acrescentando histórias do período, para engrandecer ainda mais a memória deste período incrível.

Alguns sons representativos do período:

Casa das Máquinas - "A Natureza"

Raul Seixas – "As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor"

Rita Lee & Tutti Frutti - "Ciclo Vicioso"

A Barca do Sol – "Brilho da Noite"

Sá & Guarabyra - "São Nicolau"

Mutantes - "Pitágoras"

Som Nosso de Cada Dia - "Massavilha"

Arnaud Rodrigues - "Murituri"

Assim Assado - "Lunática Marciana"

Novos Baianos - "Alunte"

Moto Perpétuo - "Conto Contigo"

Perfume Azul do Sol - "Era de Aquarius"

Ave Sangria – "Momento na Praça"

O Peso - "Eu não sei de Nada"

O Terço - "1974"

Rita Lee & Tutti Frutti - "O Toque"

Lula Cortês e Zé Ramalho - "Raga dos Raios"

Apokalypsis - "Amanhã"

Veludo - "Egoísmo"

Luiza Maria - "No fundo do Poço"

Casa das Máquinas - "Astralização"

Mutantes - "Loucura pouca é bobagem"

Terreno Baldio - "Este é o lugar"

Bixo da Seda - "Vênus"

A Barca do Sol – "Pilares da Cultura"

Saecula Saeculorum - "Acqua Vitae"

Alceu Valença – "Punhal de Prata"

O Terço – "Solaris"

Joelho de Porco - "Meus 26 anos"

Bandas ativas na época das quais não se tem informação suficiente nem registros e que não foram citadas ao longo dos textos:

- Pêndulo Mágico

- Fogo de Santelmo

- Sociedade Anônima (de Rui Motta antes de ingressar nos Mutantes)

- Flor de Lótus (de Luciano Alves antes de ingressar nos Mutantes)

- Onomatopéia (de John Flavin)

- Legião Estrangeira (de Celso Blues Boy, Ernesto Blogg e Fernando)

- Humauaca (Billy Bond, Américo Iça, Daniel Mencini, Emílio Carreira, Willy Verdaguer, Dudu Portes, Chico de Medori, John Flavin e Márcio Werneck)

- Erupção

- Ninfas

- Tapete Mágico

- Grupo Cartaz

- Conjunto Habitacional

Leia também: Rock Brasileiro 1975


14 de abr de 2010

Discos Fundamentais: Aeroblus - Aeroblus (1977)

quarta-feira, abril 14, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O Aeroblus foi um lendário power trio que reuniu os músicos argentinos Pappo Napolitano e Alejandro Medina (Manal, Billy Bond y La Pesada) ao baterista brasileiro Rolando Castello Júnior (Patrulha do Espaço). Considerado o maior power trio sul-americano, o grupo surgiu quando Pappo e Medina, que estavam morando em um sítio na cidade de Campo Limpo Paulista, convidaram Júnior para fazer um som.

A química foi tão forte que os três resolveram levar o projeto adiante, mudando-se para Buenos Aires, onde gravaram o seu primeiro e único álbum, batizado com o nome da banda. Musicalmente, o disco é bem mais pesado do que a sonoridade que Pappo vinha desenvolvendo com o seu Pappo´s Blues, com ótimos riffs e solos inspirados do lendário guitar hero argentino, além da quebradeira da cozinha formada por Júnior e Medina.

Destaque para as faixas "Vamos a Buscar la Luz", "Completamente Nervioso", a instrumental "Arboles Difusores" (ótima performance de Júnior, mostrando o porque de ser considerado um dos melhores bateristas da América Latina), o hard blues "Vendriamos a Buscar", a também instrumental "Sofisticuatro" e o encerramento, com a pesadíssima "Buen Tiempo".

Dentro da obra de Pappo, o Aeroblus é extremamente importante, pois marca a transição entre o hard e o blues rock do Pappo´s Blues e o heavy metal do Riff, grupo que o músico formaria em seguida, já nos anos oitenta.


Faixas:
A1. Vamos a Buscar la Luz
A2. Completamente Nervioso
A3. Tema Solisimo
A4. Arboles Difusores
A5. Vendriamos a Buscar

B1. Aire em Movimiento
B2. Vine Cruzando El Mar
B3. Nada Estoy Sabiendo
B4. Sofisticuatro
B5. Buen Tiempo

Leia também: A história da Woodstock Discos

13 de abr de 2010

Anvil - The Story of Anvil

terça-feira, abril 13, 2010

Por Fernando Bueno
Colecionador
Collector´s Room

O documentário Anvil – The Story of Anvil é um daqueles filmes que todos os que gostam de heavy metal deveriam ter. Porém não esperem encontrar nesse documentário aquilo que já vimos em diversos de outras bandas. Não temos a história de uma banda que saiu do nada e chegou ao estrelato. Não temos o making off de álbuns que foram gravados despretensiosamente e se tornaram clássicos. Não temos uma turnê da banda à bordo de seu próprio avião. E não temos uma banda milionária com problemas internos discutindo relacionamento.

Temos nesse documentário acima de tudo uma demonstração gigantesca de amor à música. Já que por não ter nada do que normalmente é mostrado em documentários de bandas consagradas a pergunta que fica para o expectador é: “porque esses caras ainda continuam tentando?”. E a resposta é somente o já citado amor à música.

O Anvil iniciou a carreira nos primeiros anos da década de 80. Como muitas outras foi formada por adolescentes em época escolar que gostavam de bandas em comum. È muito legal o trecho que mostra o guitarrista/vocalista Steve Kudlow e o baterista Robb Reiner contando como se conheceram. Steve sempre passava na frente da casa de Robb e ouvia um som alto com o acompanhamento de uma bateria. E ele ouvia Cactus. Ele se pergunta: “quem ouve Cactus?”. A passagem me pareceu engraçada porque certamente muita gente hoje vai falar: “Eu conheço Cactus”. Os leitores do blog e da comunidade da Collector´s Room certamente conhecem Cactus. Mas eu entendo que na época, sem internet, a dificuldade de se conhecer uma banda era muito menor do que se conhecer os fãs dessas bandas. Por isso esse trecho chamou a atenção.

Podemos resumir contando da turnê organizada por uma fã de origem do leste europeu que eles conheceram pela internet. Eles se lançam em uma turnê tocando para platéias vazias e muitas vezes sem receber nada. Ou contando como eles tentaram levantar quinze mil libras do nada para gravar o décimo terceiro disco da carreira. No fim quem paga essa conta é a irmã mais velha de Steve. Não porque a família os apóiam ou confiam no talento dos músicos, mas simplesmente por querer vê-los felizes.



É possível que com esse documentário eles consigam, afinal, o reconhecimento que eles tanto querem. Afinal como eles mesmo dizem eles não querem muito. Possivelmente eles querem um reconhecimento apenas suficiente para que eles não precisem mais trabalhar como entregador de comida, operário da construção civil ou operador de telemarketing. Sei que eles fizeram uma turnê com o AC/DC após o documentário. Talvez as coisas tenham melhorado.
Recomendo a todos os leitores que assistam o filme. Posso dizer que é no mínimo comovente ver que o amor à música, tão comum entre os amigos da Collector´s Room, é um sentimento universal.



Para os que se interessarem pelo som da banda e tem interesse em adquirir seus discos entrem em seu Site Official.

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