3 de jul de 2010

Clássicos e Achados: as camisetas de futebol do Iron Maiden

sábado, julho 03, 2010
Por Daniel Sichierolli
Colecionador
Collector´s Room
Poucas bandas tem um material tão vasto que vai além dos discos. Alguns reclamam, mas não há como negar que alguns desses materiais são muito legais, coisas que só o Kiss ou o Iron Maiden conseguem fazer com maestria.

Para começar, vamos mostrar as camisas de futebol lançadas oficialmente pelos ingleses do Iron Maiden. Não vejo outra forma melhor de iniciar, afinal somos o país do futebol (soccer ou football, se preferirem) - mesmo com o péssimo desempenho nessa Copa do Mundo, somos pentacampeões mundiais (mesmo com alguns jogadores, treinadores e dirigentes que tentam mostrar o contrário).

Aqui começa a seção Clássicos e Achados, mostrando no detalhe itens que fazem as coleções mais bonitas e únicas. Vamos vasculhar os acervos atrás daqueles itens diferenciados e mostrar no detalhe coisas que nos deixam vidrados e um pouco mais sem grana!

A história todo mundo já sabe: Steve Harris é fã de futebol e, aproveitando essa paixão, a banda lançou diversas camisas que fizeram a alegria dos fãs.

Mas como isso começou?

Na época do álbum
Virtual XI e às vésperas da Copa de 1998, a banda abordou na capa do disco o tema "futebol". No encarte o grupo aparece junto a jogadores profissionais, e todos estão devidamente uniformizados com a camiseta do "Iron Maiden Futebol Clube".

Logo em seguida, no site oficial e na turnê
, os fã podiam comprar a camisa, a mesma que a banda vestia no encarte do disco.

Aqui já começam os "problemas". Reparem quantas versões temos para o mesmo modelo.

Como a ideia parece ter dado certo, nos anos seguintes a banda lançou diversos outros modelos, alguns deles com algumas variações interessantes, chegando até o ponto de termos o uniforme 01 e 02 ("home e "away"), assim como fazem os times profissionais.

O trabalho de pesquisa demorou mais do que eu previa, e por incrível que pareça não é fácil achar as camisas antigas para vender (o que deixa os preços salgados) ou mesmo fotos de todos os modelos na internet
. Até nas páginas de colecionadores não encontrei uma coleção completa. Será que alguém tem todas? Duvido! Alguém tem a camisa de goleiro vestida pelo Nicko no encarte do álbum?

Abaixo temos os modelos
Brave New World e suas variações. Notem que os primeiros modelos tem somente o Eddie estampado. Para mim são as mais bonitas, e foram lançadas nas cores branca e azul.

Os modelos posteriores dessa mesma camisa tem um detalhe adicional: o logo do West Ham, time pelo qual Steve Harris torce e chegou a jogar antes da banda engrenar.

Abaixo mais alguns modelos lançados na época de Visions of the Beast e The Early Days.

E agora os modelos mais recentes:

E os lançamentos já com os detalhes do próximo álbum:


Prontos para começar a coleção? Pensem bem, pois os modelos novos saem entre R$ 150,00 e R$ 200,00, e os antigos ultrapassam esses números facilmente e, dependendo do modelo, podem preparar os bolsos, cartões e quebrem o porquinho, pois a pancada será forte.

Agradeço os colecionadores que cederam as fotos mesmo sem saberem disso. Como eu disse, não foi fácil achar todos esses modelos.

Aguardem os próximos posts. Estou preparando mais algumas coisas que deixam as nossas coleções cada vez mais diversificadas! Até a próxima!


2 de jul de 2010

Thunder Soul: The True Story of Conrad Johnson & The Kashmere Stage Band (2010)

sexta-feira, julho 02, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room


Em Houston, no Texas, vivia um homem chamado Conrad O. Johnson. Ele era diretor da banda da escola Kashmere, onde ensinava música para os alunos. Só que a Kashmere Stage Band acabou se tornando muito mais que apenas um grupo formado por adolescentes em idade escolar. O talento e a criatividade de Conrad transformaram a banda em um dos principais nomes do funk norte-americano setentista. E é justamente essa trajetória que é retratada no fenomenal documentário
Thunder Soul, dirigido por Mark Landsman.

A filosofia de Conrad Johnson era simples e direta: “
não há limites para a capacidade que uma criança tem de tocar música, você só precisa dizer que eles podem fazer que eles vão lá e fazem”. O documentário traz inúmeras entrevistas com ex-integrantes da Kashmere Stage Band, hoje profissionais estabelecidos em outras áreas – médicos, advogados, arquitetos, engenheiros e até mesmo alguns que levaram a paixão adiante e se transformaram em músicos profissionais. Todos, sem exceção, falam com carinho, admiração e respeito sobre Johnson, apelidado de “Prof”, e de como ele lhes mostrou não apenas a música, mas sim um modo de ver a vida.

A Kashmere Stage Band era formada exclusivamente por jovens estudantes negros. Uma geração nascida de pais que sobreviveram à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, e que dava os primeiros passos em uma sociedade que, na teoria - mas não na prática, como percebe-se até hoje -, estava livre de todo e qualquer preconceito racial. Conrad Johnson ensinou-lhes valores através da música, deu-lhes objetivo e definiu seus caráteres através dos sons. Aqueles jovens aprenderam a ter orgulho de quem eram e de suas raízes, e fizeram isso através da paixão e do amor pela música transmitidos por Johnson.


O filme mostra Conrad Johnson aos 92 anos, ainda apaixonado pelos discos de Duke Ellington e James Brown, tocando seu saxofone diariamente. Seus antigos alunos, para homenageá-lo, decidem se reunir para um último show da Kashmere. Muitos não tocam seus instrumentos há mais de trinta anos, mas querem estar presentes para demonstrar ao velho mestre a incrível influência que ele teve sobre suas vidas.

Thunder Soul é, muito mais do que um documentário musical, um documento sobre a vida de um homem extraordinário que, com sua paixão, mudou – e, em alguns casos, salvou - a vida de inúmeras pessoas.

A direção precisa de Landsman é fundamental para o filme. A forma como ele montou o documentário torna ainda mais impressionante a trajetória de Johnson e da Kashmere Stage Band. O resultado final é uma obra-prima que deveria estar na mão de toda e qualquer pessoa que trabalha com a educação de jovens e crianças, de pais a professores, de tios a avós.

Um filme sensacional, obrigatório para pessoas como eu e você, que têm a música como a maior paixão de suas vidas.

Discos Injustiçados: Black Sabbath - Born Again (1983)

sexta-feira, julho 02, 2010

Por Ronaldo Costa
Colecionador
Whiplash! Rock e Heavy Metal


Ser um álbum de destaque dentro de uma discografia como a do Black Sabbath não é tarefa fácil. Afinal, estamos falando de uma banda que gravou vários clássicos do heavy metal, alguns em sequência, além de ter brilhado com diferentes formações. Então, o que se poderia esperar de uma reunião de Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward com aquele que é considerado um dos melhores vocalistas da história do rock (pra muita gente, o melhor)? Bem, a adição de Ian Gillan ao Sabbath criou um dos maiores ‘dream teams’ que o metal já viu e, por isso mesmo, o que se esperava era um sucesso estrondoso e absoluto.

As coisas não andavam muito boas para nenhum dos lados. O Black Sabbath perdera seu vocalista, ninguém menos que Ronnie James Dio, que deixava a banda após desentendimentos devido à mixagem e ao lançamento do duplo ao vivo
Live Evil, levando ainda o batera Vinny Appice na história. O grupo via-se então sem vocalista e sem baterista, e precisava encontrar alguém para ocupar os postos deixados pelos ex-integrantes. Para a bateria acabaram optando pelo óbvio, e convidaram Bill Ward para voltar à banda, sendo que o mesmo aceitou o convite de bate-pronto. Para o vocal, começaram a fazer algumas audições, só que substituir um monstro sagrado como Dio por alguém do mesmo nível era algo praticamente impossível. Diz a lenda que até Michael Bolton enviou fitas para uma possível audição com o grupo. Muito se fala que Iommi queria que David Coverdale assumisse os vocais do Sabbath, só que a coisa toda era muito difícil, pois David estava mais ocupado com o seu Whitesnake.

Ian Gillan estava se despedindo de sua carreira-solo, marcada por excelentes trabalhos, mas que não obtiveram nenhum sucesso comercial e que não conseguiram atingir um público maior. O “silver voice” jamais escondera que sua real intenção era um retorno com o Deep Purple, difícil também àquela época, já que Ritchie Blackmore estava bem ocupado com o Rainbow. Então, eis que após um encontro num bar e alguns goles a mais (alguns não, vários), Gillan, Iommi e Butler viram uma excelente possibilidade, que era o Black Sabbath com Gillan nos vocais.

Após tudo acertado a banda entrou em estúdio, e em agosto de 1983 lançou o álbum
Born Again. A princípio, não parecia que a coisa pudesse dar errado. O álbum já saiu direto no quarto lugar da parada britânica, melhor resultado comercial do Sabbath em muitos anos. Mas não foi exatamente o que aconteceu nos meses que se seguiram. Uma turnê não muito bem sucedida, o mal estar de Gillan no posto de vocal do Sabbath, críticas de vários fãs - sobretudo os mais radicais -, fariam com que aquela reunião não tivesse continuidade e que os envolvidos passassem a considerar que aquilo tudo, incluindo-se o próprio Born Again, havia sido um grande equívoco.

Bom, após relembrar e entender o que rolou naquele período, vamos analisar o álbum em si. Existe uma corrente forte que afirma que
Born Again tem poucos fãs pelo mundo e que, inclusive, boa parte deles estaria aqui no Brasil. Para alguns, tudo relacionado a esse trabalho serviria de motivo para críticas e implicâncias. A capa do disco é uma das mais criticadas e ridicularizadas da história do metal. Olhando ela hoje, realmente fica difícil defender aquela gravura. Mas se toda a crítica que se faz a esse álbum fosse resumida à capa, estaria tudo bem. O negócio é que muita gente criticava todo o resto: os videoclipes gerados a partir de músicas que, pra muita gente, representaram algo ridículo e constrangedor para a banda. A turnê de divulgação, o setlist, a irritação que Gillan provocava em alguns, com suas tentativas de impor o seu estilo pessoal às canções mais antigas da banda, principalmente nas da fase Ozzy, e até mesmo o “sacrilégio”, na visão de alguns fãs, que foi incluírem “Smoke on the Water”, clássico do Deep Purple, num setlist do Black Sabbath. Bill Ward, completamente impossibilitado de sair em turnê, acabou sendo substituído pelo competente Bev Bevan. Agora, se você reparar bem, tudo o que eu citei foram acontecimentos relativos àquele período. Mas e o principal? E as músicas do disco em si? Afinal, não é isso o que realmente conta?

Bem, o Black Sabbath sempre primou pelo peso em toda a sua obra. De todas as características da banda, a que mais salta aos ouvidos é que a banda sempre soou muito pesada. E se houvesse um campeonato para ver qual álbum da banda é o mais pesado,
Born Again ganharia o primeiro lugar fácil, fácil... É de impressionar até hoje a agressividade desse disco.

A pancadaria começa com “Trashed”, uma daquelas porradas em que se leva um tempo até entender o que aconteceu. A assustadora “Disturbing the Priest” pode pegar de surpresa aquele menos atento, com o peso da guitarra de Iommi e os berros desesperados de Gillan. Como não se lembrar e não se empolgar com “Zero the Hero”, além de outras porradas mais do que pavorosas e diretas, como “Digital Bitch” e “Hot Line”? A banda só pegaria mais leve em duas músicas, a belíssima e emocionante “Born Again” e em “Keep It Warm”. Completando o álbum com “Stonehenge” e “The Dark”, o resultado final em termos de composições é um dos melhores trabalhos realizados pelo Black Sabbath em todos os tempos.

Não era simplesmente um bom resultado em termos de pegada, de agressividade, era também um grande disco em termos de arranjos, harmonias e melodias. Os músicos todos em um ótimo momento (mesmo com os problemas de Bill Ward) e Ian Gillan entregando ao mundo o que muita gente considera o melhor trabalho vocal de sua carreira. Calma, antes de se revoltar comigo, o que estou dizendo é apenas uma afirmação de vários fãs do Sabbath, do Purple e do próprio Gillan. Se a afirmação procede, é uma questão de avaliação de cada um. Agora, que a performance de Ian Gillan nesse álbum é uma das coisas mais impressionantes já vistas no heavy metal, isso não há como negar. O cara parecia estar possuído, executando vocais matadores, notas altíssimas e gritos absolutamente desesperados. Cantou tudo o que sabia e mais um pouco.

O grande ponto baixo está na produção e mixagem, que deixou o som abafado e, em certas partes, até meio embolado. É sabido que um amplificador de Tony Iommi queimou já no início das gravações e ninguém se deu conta disso até o fim da mixagem. Entretanto, esses deslizes parecem até ter contribuído para o clima pesado e agressivo de
Born Again.

Hoje, os músicos afirmam não gostar do disco, dizem que aquela reunião não deu certo, que ‘não rolou a química’. Na minha opinião, esse álbum de 1983 foi um dos melhores momentos do metal oitentista e do heavy metal como um todo. Como seria bom se outros álbuns desse nível chegassem ao mercado nos dias atuais. Born Again, ainda que de maneira torta e com várias críticas no seu encalço, pode - e muito - ser considerado um clássico, coisa que muita gente já o considera, mas normalmente deixando-o num nível diferente e um pouco abaixo de outras obras fundamentais do Black Sabbath. Por isso mesmo, ostentando o status de ‘clássico’ para muitos, de ‘cult’ para outros e de um equívoco para alguns, esse é um disco cuja qualidade supera em muito a receptividade que teve e a importância e reconhecimento que realmente sempre mereceu.

Por hora, se você tem o álbum, coloque-o pra tocar aí onde estiver. Se não tem, vá correndo comprar ou pegar emprestado com alguém. Agora, em ambos os casos, balance a cabeça até o pescoço não aguentar mais ao som de “Trashed”, “Disturbing the Priest” e etc. Depois, mande a sua opinião sobre essa obra mais do que injustiçada.


Faixas:
A1 Trashed 4:16
A2 Stonehenge 1:58
A3 Disturbing the Priest 5:49
A4 The Dark 0:45
A5 Zero the Hero 7:35

B1 Digital Bitch 3:39
B2 Born Again 6:34
B3 Hot Line 4:52
B4 Keep It Warm 5:35

1 de jul de 2010

Castiga!: o jazz funk alucinógeno do Demon Fuzz

quinta-feira, julho 01, 2010

Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

Afro-jazz psicodélico? Jazz funk experimental? Rock progressivo negróide? Na verdade, isso pouco importa quando se escuta o álbum Afreaka! e o seu fulminante caldeirão sonoro de referências. Raridade lançada em 1970 pelo selo Dawn, trata-se do fantástico e obscuro disco do grupo britânico Demon Fuzz, cuja estrutura rítmica é alimentada por um mecanismo de conexão black com engrenagens multiplicando o fator groove.

Oriundo da cena afro-rock britânica (a mesma de bandas como Brotherhood of Breath e Noir), o combo era formado por Smokey Adams (voz), Ray Rhoden (piano, órgão), W. Raphael Joseph (guitarra), Sleepy Jack Joseph (baixo), Steven John (bateria), Clarance Brooms Crosdale (trombone), Paddy Corea (flauta, sax, congas) e Ayinde Folarin (congas), e durou apenas oito meses, o suficiente para conceber esta verdadeira obra-prima.

Miscelânea sonora sensacional, potencializada em jams fulminantes e arranjos maneiríssimos a cargo de Paddy Corea, privilegiando a individualidade dos instrumentistas envolvidos, sem perder a coesão e a unidade sonora. Discaço trazendo composições moldadas pela dupla R. Rhoden e W. R. Joseph e produção certeira de Barry Murray.

Um cruzamento de levadas grooveadas com influências jazzísticas e alternâncias climáticas, agrupando elementos do afrobeat de Fela Kuti; funkeira nervosa no compasso de JB’s, Funkadelic e Sly & Family Stone; pitadas de funk latino, antecipando aquilo que Mandrill, Osibisa e Cymande fariam com maestria na mesma década; e resquícios de psicodelia e progressivo nas belas passagens de órgão de Ray Rhoden, conduzindo a lisergia black.


E não é só: frases de guitarra e linhas de baixo estilosas, flautas e solos de sax de cair o queixo, bateria e percussão afro bem destacadas, aliados ao vocal suave de Smokey Adams, que em maravilhas como “Hymn to Mother Earth” e “Disillusioned Man” parece cantar para o último de seus dias. Junto a faixas instrumentais de perder o fôlego como “Past, Present and Future” e “Mercy (Variation No.1)”, são alguns dos melhores temas que já escutei na seara da black music. O disco traz ainda uma versão instigante para “Another Country” do Electric Flag, bandaça por onde passaram nomes como o guitarrista Mike Bloomfield, o batera Buddy Miles e o cantor Nick Gravenites.

Para aqueles que já conheciam as cinco faixas do play original do Demon Fuzz, a novidade veio em 2005 com o lançamento de
Afreaka! em formato digital (selo Janus Records), incluindo material do primeiro EP da banda, com três gravações ainda mais raras: “Message to Mankind”, “Fuzz Oriental Blues” e uma versão arrebatadora de “I Put a Spell On You”, clássico do maluquete Screamin’ Jay Hawkins.

Para os ratos de sebo que procuram uma obscuridade funky, é como achar o Santo Graal. Recomendadíssimo!

Ozzy Osbourne - Scream (2010)

quinta-feira, julho 01, 2010

Por Ben Ami Scopinho
Colecionador
Whiplash! Rock e Heavy Metal

Cotação: ***1/2

Depois dos constrangedores Down to Earth (2001) e Black Rain (2007), eis que o simpático velhinho Ozzy está de volta com um (sempre) tão aguardado novo álbum de estúdio, que, aliás, já deu muito o que falar pelo fato de não contar com o guitarrista Zakk Wylde, afastado por excessos alcoólicos. O substituto foi, naturalmente, foi muito bem escolhido e não há como depreciar o trabalho de Gus G (Firewind, Nightrage, Dream Evil), seja lá por qual banda ou projeto tenha passado ao longo dos anos. O cara é uma fera.

Infelizmente, não será com
Scream que poderemos conferir a real versatilidade deste guitarrista, pois novamente o produtor Kevin Churko assumiu a co-autoria das composições. Muita coisa já estava definida antes da entrada de Gus e fica complicado saber até onde o grego teve liberdade para influenciar em algo por aqui.

De qualquer forma, fica claro que o novo disco possui uma evidente preocupação em exibir vários elementos que remetam diretamente ao que Ozzy já ofereceu em sua fase mais prolífica, aliado aos experimentos modernóides à la Rob Zombie dos últimos tempos. E, mesmo com a ausência daquelas melodias tão bonitas que um dia o mundo teve o privilégio de conhecer, mesmo com os vários arranjos reciclados ou o irritante processamento vocal, ainda assim há algo em
Scream que o torna atraente.

Toda esta fusão de estilos deu certo pela disposição e equilíbrio encontrado, já bem exibidos na diversidade da pesadíssima trinca inicial, “Let It Die”, “Let Me Hear You Scream” e “Soul Sucker”. Mas a composição que terá as maiores chances de se tornar a preferida pelos saudosistas é a lamacenta "Diggin 'Me Down", com arranjos tão ricos que, guardadas as devidas proporções, poderiam ter saído do álbum
Diary of a Madman (1981).

Lá pela segunda metade do disco o dinamismo até pode cair um pouco, mas nunca o suficiente para tornar a audição entediante. O próprio Ozzy já afirmou seu desejo em, futuramente, gravar com uma efetiva parceria com Gus G. E esse escriba confessa que também gostaria muito de escutar aqueles versáteis riffs e solos tipicamente europeus!

Por ora, Scream proporciona entretenimento, mas é forte a sensação de que seja apenas um mero aperitivo do que pode estar por vir.


Faixas:
1. Let It Die
2. Let Me Hear You Scream
3. Soul Sucker
4. Life Won't Wait
5. Diggin’ Me Down
6. Crucify
7. Fearless
8. Time
9. I Want It More
10. Latimer’s Mercy
11. I Love You All

Capas Gêmeas: o que William Blake tem em comum com a Canterbury Scene e o Heavy Metal?

quinta-feira, julho 01, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O que temos aqui não é bem um plágio, mas sim uma reverência. Tanto o segundo disco do obscuro combo inglês Gilgamesh quanto o clássico álbum de Bruce Dickinson trazem em suas capas a reprodução de uma obra do poeta e pintor inglês William Blake (1757-1827).

Intitulada
The Ghost of a Flea, a pintura de Blake foi produzida entre os anos de 1819 e 1820 e faz parte de uma série de trabalhos batizada como Visionary Heads, feita sob encomenda para o astrologista e também pintor John Varley.

Medindo 21,4x16,2 centímetros,
The Ghost of a Flea retrata uma figura que é uma mescla entre um ser humano, um vampiro e um réptil, e é um exemplo da associação entre o sobrenatural e o mundo espacial, bastante comum no período.

O segundo disco do obscuro Gilgamesh

O grupo inglês Gilgamesh foi formado em 1972, e tem o seu som associado à cena de Canterbury. A banda lançou apenas três discos em sua carreira –
Gilgamesh (1975), Another Fine Tune You´ve Got Me Into (1978) e Arriving Twice (2000) – , e é justamente o segundo que traz a obra de Blake na capa. O obscuro Gilgamesh é lembrado apenas pelos admiradores mais fanáticos do progressivo e também pelos pesquisadores de hard rock, já que o baixista Neil Murray – com passagens pelo Black Sabbath, Whitesnake e uma penca de grupos – tocou na banda por um breve período.

A capa do já clássico The Chemical Wedding

Já Bruce Dickinson dispensa apresentações. Um dos maiores ícones do heavy metal, o vocalista conquistou o mundo com o Iron Maiden e possui uma interessantíssima carreira solo. É de lá que vem
The Chemical Wedding. Lançado em 15 de setembro de 1998, o disco é apontado pela maioria dos fãs como o seu melhor trabalho individual, e foi também o último álbum de estúdio gravado pelo vocalista antes do seu retorno ao Iron Maiden, em fevereiro de 1999. Pessoalmente, considero The Chemical Wedding não só um dos grandes discos de Bruce, mas sobretudo um dos melhores álbuns de heavy metal de toda a história.

Tanto em um caso quanto no outro, a obra-prima de William Blake ganhou um recheio sonoro da mais alta qualidade.

30 de jun de 2010

Rigotto's Room: Heaven and Hull – O canto do cisne de Mick Ronson

quarta-feira, junho 30, 2010

Por Maurício Rigotto
Escritor e colecionador
Collector's Room

O que pode fazer um músico ao saber que lhe restam apenas poucos meses de vida? Reunir alguns amigos que fizeram parte da sua trajetória artística e gravar um disco, a última obra, como se fosse um testamento deixado para ser aberto após a sua partida. Foi o que fez Mick Ronson ao registrar o álbum Heaven and Hull, o seu canto do cisne. Você não leu errado, tampouco foi erro de digitação, é “Hull” mesmo e não “Hell”, por se tratar de um trocadilho com Hull, a cidade inglesa onde nasceu Mick Ronson.

Mick Ronson sempre foi um dos meus guitarristas de rock favoritos. Você poderá argumentar que ele não era nenhum virtuose, que não executava solos complexos e que era até um guitarrista econômico, de poucas notas. Pois em minha opinião, a sua simplicidade, a forma com que ele era “econômico”, é o seu grande mérito que o faz figurar entre os gigantes do rock. Ronson tocava com sentimento e bom gosto, não tocava notas desnecessárias, para encher lingüiça, como fazem muitos guitarristas “punheteiros”. Não é por acaso que os melhores discos de David Bowie, um dos maiores artistas que o mundo já presenciou, contam com Mick Ronson na guitarra.

Nascido em 1946, Mick Ronson desde criança fez aulas de piano, violino e cello. Ao ouvir um disco de Duane Eddy, Ronson se interessou pela guitarra e em 1963 formou sua primeira banda, inspirada nos Yardbirds. Depois de passar por grupos de Hull como The Mariners e The Crestas, em 1966, ainda em Hull, Ronson formou a banda The Rats, que fazia um ótimo e barulhento rock garageiro (como pode ser conferido nos álbuns The Rise and Fall of Bernie Gripplestone and The Rats from Hull; Second Long Player Record e A Rats Tale). Mick permaneceu no The Rats até o fim do grupo em 1969, após ums fracassada turnê por Londres e Paris.



Ainda em 1969, após trocar Hull por Cambridge, Ronson forma a banda The Hype, com David Bowie. Logo depois, abandonam o nome Hype e Ronson acompanha David Bowie em uma série de discos magistrais, como The Man Who Sold the World (1970); Hunky Dory (1971); The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972); Alladin Sane (1973) e Pin Ups (1973). Os Spiders from Mars, nome pelo qual ficou conhecida a banda de David Bowie, se separou após o término da turnê Ziggy Stardust, e Bowie e Ronson passariam muitos anos sem se falar. Completavam a formação Trevor Bolder no baixo e o ex-baterista do The Rats, Mick Woodmansey. Além de acompanhar Bowie, os Spiders também gravaram outro álbum primoroso e essencial em qual discografia, Transformer (1972), clássico absoluto do ex-Velvet Underground Lou Reed, produzido por Bowie.


Na mesma época do fim dos Spiders, o guitarrista Mick Ralphs abandona o Mott The Hoople para formar o Bad Company com o ex-Free Paul Rodgers. Ian Hunter, o líder do Mott, chama então Ronson para a vaga. Após uma curta passagem pelo Mott The Hoople, Ronson segue acompanhando a carreira solo de Ian Hunter, formando a The Hunter Ronson Band. Paralelamente a carreira com Hunter, Ronson gravou dois álbuns solo, acompanhou Bob Dylan na Rolling Thunder Revue Tour 1975, produziu e tocou no disco do ex-Byrds Roger McGuinn, além de tocar com Elton John, John Cougar Mellencamp e uma infinidade de artistas e bandas obscuras.

Em 1992, enquanto produzia o álbum Your Arsenal de Morrissey, ex-vocalista dos Smiths, Mick Ronson é diagnosticado com câncer terminal, lhe restando como expectativa de vida não mais do que poucas semanas. Ronson se entrega ao trabalho e se aproxima novamente de David Bowie, com quem não falava há quase vinte anos. O guitarrista participa das gravações do novo disco de Bowie, Black Tie, White Noise, gravando “I Feel Free”, cover do Cream, exatamente com o arranjo com que os Spiders from Mars a tocaram em um show em 1972. Ainda em 1992, Ronson aparece ao vivo em Wembley no The Freddie Mercury Tribute Concert, acompanhando David Bowie em “Heroes” e Ian Hunter e Bowie em “All the Young Dudes”, composição de Bowie que se tornou o maior sucesso do Mott The Hoople.

O próximo passo de Ronson seria dedicar os seus últimos dias de vida na gravação de seu disco-testamento. Para a empreitada, chamou os amigos Sham Morris e o baterista dos Pretenders, Martin Chambers, além de uma série de convidados com quem já havia dividido trabalhos no passado. Mick Ronson morreu no dia 29 de abril de 1993, com apenas 46 anos.

No ano seguinte, sua esposa Suzy lança Heaven and Hull, contendo as últimas gravações de Ronson. A primeira faixa, "Don't Look Down", já abre os trabalhos apresentando um rock de primeira, contando com Joe Elliott, da banda Def Leppard, nos vocais. Após o bom começo, a segunda faixa revela a grande surpresa do álbum. Trata-se de David Bowie cantando a famosa canção de Bob Dylan “Like a Rolling Stone”, numa versão que poderia ter saído de qualquer disco que Bowie e Ronson gravaram nos anos setenta. Pelo fato do disco ter permanecido obscuro, grande parte dos fãs de Bowie desconhecem a existência dessa soberba versão de Bowie e Ronson para “Like a Rolling Stone”. A terceira faixa, “When the World Falls Down” é uma bela e triste balada autobiográfica, com uma sonoridade que também nos remete aos Spiders. “Trouble with me”, outro desabafo, traz como convidada a vocalista dos Pretenders, Chrissie Hynde, e mantém um andamento charmoso, com bons efeitos, apesar de uma desnecessária bateria eletrônica. O bom rock melodioso “Life’s a River” conta com os vocais de John Cougar Mellencamp, tendo o apoio de Joe Elliott nos backing vocals. A faixa seis, “You and Me”, é um bonito instrumental acústico, onde Mick Ronson toca todos os instrumentos. Em “Colour Me”, Ronson assume os vocais, tendo como backing vocals David Bowie e Joe Elliott. A oitava faixa, “Take a Long Line”, cantada por Ian Hunter e Joe Elliott, é um rock vigoroso que nos remete de imediato aos melhores momentos do Mott The Hoople. “Midnight Love” é outro bom rock instrumental em que Mick Ronson toca todos os instrumentos. O álbum encerra com a versão ao vivo de “All the Young Dudes” que Bowie, Hunter e Ronson interpretaram no The Freddie Mercury Tribute Concert. Completam a banda os membros sobreviventes do Queen, Brian May, John Deacon e Roger Taylor.


Após Heaven and Hull, outros álbuns póstumos de Mick Ronson foram lançados, como Just Like This (1999), um CD duplo com material inédito; Showtime (2000), reunindo gravações ao vivo registradas entre 1976 e 1989; e Indian Summer, gravado entre 1981-82 (2001). Heaven and Hull permanece como um belo e emocionado legado de um homem que usou os seus últimos dias para deixar ao mundo um pouco mais de sua arte.



Amaran´s Plight - Voice in the Light (2007)

quarta-feira, junho 30, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ***1/2

O Amaran´s Plight é um projeto que reúne alguns dos nomes mais cultuados do rock progressivo e do prog rock contemporâneos. Batem ponto na banda o vocalista DC Cooper (ex-Royal Hunt), o guitarrista Gary Wehrkamp (Shadow Gallery), o baixista Kurt Barabas (Under the Sun) e o baterista Nick D´Virgilio (Spock´s Beard). Enfim, um line-up repleto de pedigree.

As raízes do grupo datam de 1999, ano em que DC Cooper participou como vocalista convidado do álbum
Tyranny, do Shadow Gallery. A experiência aproximou Cooper e Wehrkamp, e o desejo de voltar a trabalhar juntos revelou-se contante e recíproca. Depois de muitas idas e vindas, o Amaran´s Plight tomou forma em 2006 com a entrada de Barabas e D´Virgilio, e lançou em 2007 seu primeiro – e até agora único – disco, Voice in the Light.

O som do quarteto é um prog metal coeso, sólido e maduro. A bela voz de DC Cooper soa sem exageros. As guitarras de Gary Wehrkamp despejam ricas passagens, enquanto Nick D´Virgilio mostra-se um instrumentista muito criativo e extremamente técnico – atributos que os fãs do Spock´s Beard já conheciam há tempos. Kurt Barabas, o menos badalado dos quatro, mostra ter sido a escolha certa para a banda, pois constrói intrigantes linhas de baixo que enriquecem, e muito, as composições.

Entre as músicas, merecem destaque as suítes “Incident at Haldeman´s Lake”, “Shattered Dreams” e “Revelation”, além de faixas como “Truth and Tragedy”, “Betrayed by Love”, “Turning Point” e “Viper”. É possível identificar no grupo, como era esperado, toques que lembram o Shadow Gallery, além de uma forte influência do Pink Floyd em alguns trechos.

Voice in the Light não é nenhuma obra-prima – está longe disso -, mas revela-se um disco muito agradável de se ouvir. Resumindo: indicado para os fãs dos músicos e suas bandas, e, principalmente, para quem gosta de boa música.

Faixas:
1.Room 316 – 1:33
2.Friends Forever – 2:56
3.Coming of Age – 4:48
4.Incident at Haldeman´s Lake – 11:34
5.Reflections Pt. I – 3:21
6.I Promise You – 2:57
7.Consummation Opus – 4:24
8.Truth and Tragedy – 2:57
9.Shattered Dreams – 13:29
10.Viper – 5:36
11.Betrayed by Love – 7:16
12.Turning Point – 4:48
13.Revelation – 13:06

Slash - Slash (2010)

quarta-feira, junho 30, 2010

Por Daniel Silva
Jornalista e Colecionador
Estética Musical

Confesso que relutei em conferir o "novo" disco de Saul Hudson, o Slash, lançado no dia 6 de abril via EMI. O primeiro trabalho solo do emblemático guitarrista, no entanto, me surpreendeu positivamente pela qualidade das músicas.

A principal virtude do álbum talvez seja a escolha dos (muitos) convidados especiais. Parece que as canções foram compostas especialmente para cada um deles. Não imagino outro a não ser Ozzy Osbourne para cantar a fantástica "Crucify the Dead", um recado para Axl Rose.

Impossível, também, ouvir o início de "Doctor Alibi" e não pensar em Lemmy Kilmister, do Motörhead. O disco é tão bom e coeso que até a insossa Fergie soa bem ao lado do guitarrista em "Beautiful Dangerous". Outro que eu nunca botei fé e se destaca é Kid Rock, que canta muito em "I Hold On", uma das melhores do CD.

Mas quem rouba a cena mesmo no disco é o vocalista Myles Kennedy, mais conhecido pelo seu trabalho com o Alter Bridge. Além de ser o único a gravar duas músicas ("Back From Cali" e "Starlight"), o cantor foi chamado para sair em turnê com Slash.

Na estelar lista de participações ainda temos Adam Levine (Maroon 5), Ian Astbury (The Cult), Dave Ghrol (Foo Fighters), Iggy Pop, Andrew Stockdale (Wolfmother), que gravou o clipe "By the Sword", entre outros. Tá fraco de amigos o cara, hein?

Musicalmente, Slash está mais vivo do que nunca e, ao contrário do que muitos pensavam, ele ainda faz a diferença. Sua importância para a música não se mede apenas pela constelação de artistas que gravou com ele, mas pelo que é capaz de produzir. Se não estiver na lista dos melhores desse ano, chuto o balde.

29 de jun de 2010

TR3 - Radiance (2010)

terça-feira, junho 29, 2010

Por Rodrigo Simas
Colecionador
DMBrasil

Tim Reynolds ficou mundialmente famoso a partir do CD ao vivo acústico
Live At Luther College, gravado em 1996 e só lançado em 1999, em parceria com Dave Matthews. Mesmo com as constantes turnês da dupla, muitos dos fãs da DMB só tiveram o primeiro contato com o guitarrista a partir desse álbum, que trazia versões do vasto repertório da Dave Matthews Band e alguns números instrumentais de autoria do próprio Tim, que já se destacava pelo estilo criativo de tocar violão, encaixando efeitos, solos e harmonias que completavam perfeitamente as composições, em arranjos muitas vezes surpreendentes.

O que muitos não sabiam é que ele já havia gravado e participado dos três maiores clássicos da banda, os discos
Under the Table and Dreaming, Crash e Before These Crowded Streets, e que já tinha uma carreira solo prolífera desde a década de 80. Depois de lançar mais um acústico ao vivo com Dave Matthews, Live At Radio City, em 2007 (vendido em CD, DVD e BluRay) e ser convidado para se juntar integralmente como membro efetivo da DMB a partir de 2008, Tim resolveu reformular sua antiga banda, o TR3, chamando o baixista Mick Vaughn e o baterista Dan Martier. O resultado é o CD Radiance, gravado no Haunted Hollow Studios (de propriedade da própria DMB) e lançado em 2009, de forma independente.

Tim nunca obteve sucesso comercial em seus trabalhos autorais: conhecendo sua discografia é fácil afirmar que ele sempre deu mais importância a sua liberdade artística do que ao números de suas vendas. A prova disso é o conteúdo variado de
Radiance, que explora entre suas 15 faixas (além de uma bônus) uma gama enorme de estilos, que vão desde o blues, passando pelo rock, reggae e funk, com influências das mais variadas.

O CD começa com a eficiente “See You in Your Dreams”, que lembra bastante os últimos discos do Phish, com um belo trabalho de guitarra e um refrão que prende pela sua melodia. “The Wind Just Blew the Door Wide Open” mostra a nova cozinha do TR3, com uma sessão rítmica interessante, dando o suporte necessário para Tim Reynolds, que consegue encaixar sua voz única de maneira notável, sendo uma das qualidades mais inesperadas de sua performance.

“By Your Side” é a primeira instrumental, e entre as pequenas sutilezas de timbres consegue captar a atenção do ouvinte, dando espaço à excelente “Move on Ahead” (a maior do álbum, com pouco mais de 6 minutos), um rock funkeado com grandes riffs, belas harmonias e muito groove. “Victory Express “entra com uma pegada hard rock bem mais direta, enquanto “Test of Time” segue a linha mais bluseira do guitarrista. “Sweet Spot” fecha a sequência das três instrumentais mostrando que, mesmo sendo considerado virtuoso, Tim sabe dosar sua performance dando mais ênfase nas melodias.

A próxima, “Kabbalah”, é talvez a melhor de
Radiance, com linhas vocais que acompanham os frenéticos solos em andamentos quebrados, soando ao mesmo tempo experimental, progressiva e excêntrica. “Do You Wanna” volta ao rock ´n´roll grooveado, em mais uma boa levada da banda, mas “Meaning to Tell You” fica devendo com seu clima reggae que não convence, tornando-se dispensável.

“Trippin’ On You” (super funkeada e contagiante), a pesadona “Caveman” (que beira o heavy metal, com muitos solos) e a rifferama alucinada de “Burning Season” (outro grande destaque, com um belo trabalho do baixista Mick Vaughn) encerram outra sequência matadora.

“Ley Lines” diminui o ritmo, podendo ser considerada a balada do álbum, e “Wild Country” fecha o tracklist de maneira satisfatória, ainda que não se mostre tão forte quanto diversas outras faixas presentes no disco.

Dedicado a Leroi Moore, saxofonista e fundador da Dave Matthews Band falecido em 2008,
Radiance mostra caminhos tão diversos quanto as influências que se chocam na cabeça de Tim Reynolds, criando um documento incontestável de sua qualidade como músico e compositor.



Heavy metal: revolução feita por tradicionalistas

terça-feira, junho 29, 2010

Por Guilherme Vasconcelos
Jornalista

O heavy metal é, em todas as suas subdivisões, um dos mais preconceituosos e herméticos estilos musicais. São vários os fãs que se acham revolucionários e dotados de senso crítico diferenciado apenas por ouvir um estilo tido como marginalizado pelo sistema (denominação genérica típica de posers revolucionários). Claro que a última afirmação tem seu fundo de verdade – basta verificar a programação da mídia musical jabazenta e a paupérrima divulgação de shows do estilo para constatar que o metal nunca foi um chamariz comercial. Porém, é verdade também que o preconceito e o conservadorismo dentro dessa vertente do rock se equiparam à discriminação fomentada contra ele. Ou seja, grande parte dos headbangers é hipócrita: combate a intolerância ao mesmo tempo em que a pratica, muitas vezes de forma bem mais radical.


Ao longo dos anos são vários os exemplos dessa prática perniciosa. O Iron Maiden, maior ícone do rock pesado depois do Black Sabbath, sofreu ataques tanto da mídia especializada (?) quanto dos fãs mais xiitas quando lançou, em 1986, o hoje clássico
Somewhere in Time. Diziam os arautos da verdade absoluta – que esquecem o caráter extremamente emocional e, portanto, individual da música – que a Donzela estava mais comercial (outra nomenclatura supérflua e genérica que se tornou um escudo para os fãs mais tradicionalistas quando suas bandas preferidas inovam) por usar guitarras sintetizadas e por incluir o teclado de forma mais contundente nas canções. Não compreendiam que a banda procurava uma válvula de escape para, simultaneamente, renovar-se e manter sua essência. Muitos dos que criticavam a banda à época são os mesmos que hoje classificam o disco supracitado como item obrigatório na discografia básica de qualquer headbanger que se preze.

Outra polêmica carregada pelo grupo até hoje é o guitarrista Janick Gers. Tido pela maioria ortodoxa (e aqui eu me incluo nela) como um instrumentista inferior aos inquestionáveis Dave Murray e Adrian Smith por, em apresentações ao vivo, assassinar solos originalmente compostos pelo último e por, em estúdio, utilizar timbres mais sujos e agressivos do que aqueles consagrados na fase oitentista do grupo. Toda essa aversão reside na formação musical de Janick, que é mais calcada no hard rock simples do que no heavy metal tradicional. Por isso, essa repulsa deve ser depositada em quem o escolheu para integrar uma banda cujo estilo não combina perfeitamente com a sua concepção musical mais despojada, típica de um rock and roll descompromissado - e nem venha dizer que você não aceitaria um tentador convite como esse.


Mais um exemplo explícito do tradicionalismo inerente ao estilo é a incapacidade dos headbangers de aceitar a radical mudança de ares de um dos melhores vocalistas da história, o ex-Helloween Michael Kiske. Após ter deixado a banda alemã em 1993, no qual já tentava incluir a sua nova mentalidade musical, Kiske colocou a sua vontade e a sua liberdade musical acima das conveniências mercadológicas do heavy metal. Ousou mais do que qualquer banda do estilo, tocando um pop rock honesto, oriundo da alma, sem amarras. Por meio de declarações sinceras e consciente do seu papel como músico, Kiske revelou toda a sua decepção com uma indústria musical dominada pelo capitalismo selvagem, que consagra bandas robóticas e fabricadas e despreza aquelas que valorizam o sentimento e a liberdade artística.

Para Kiske, são raros os fãs que verdadeiramente valorizam a criatividade e que compreendem as suas inovações musicais. Ainda segundo ele, grande parte dos bangers é gente de cabeça fechada, que não consegue apreciar outros estilos musicais. Assim, esse extraordinário músico e ser humano reacendeu uma discussão ao mesmo tempo antiga e atual: o que é mais desonesto e comercial? Construir uma carreira sem inovações dentro de um gênero um tanto quanto marginalizado, ou ser versátil e passear por estilos diferentes e mais acessíveis? Fico com a primeira opção. Quando uma banda constrói uma trajetória respeitável, mas burocrática porque carece de arrojo (como o AC/DC e o Motörhead), ela se acomoda numa base de fãs formada ao longo dos anos que, inevitavelmente, comprará tudo o que a banda lançar, independente da qualidade do trabalho. Além disso, o grupo corre um sério risco de estuprar sua criatividade em nome da segurança financeira, o que a torna engessada e vai de encontro ao propósito de ser músico, ainda mais de heavy metal.


Outro grupo que causou “indignação” no meio heavy foi o Metallica, com o lançamento de
Load e Reload. A banda havia mudado não só no quesito musical, mas também na indumentária e no logotipo, que já não transmitia a agressividade de outrora. Os bangers mais apressados logo os chamaram de traidores e se perguntavam se aquele era o mesmo Metallica que havia concebido a obra-prima Master of Puppets. E era sim. Para falar a verdade, os dois álbuns mencionados são bastante honestos e refletem fielmente o momento conturbado que a banda vivia. Drogas, bebidas, problemas familiares e o sucesso repentino contribuíram para a formação da atmosfera sombria presente nos discos. Musicalmente falando, Load e Reload (que deveriam ser um álbum duplo) são discos pesados, cheios de feeling e mais experimentais. E essa última palavra, junto com a supervalorização da questão estética – que, para muitos, tornou-se mais crucial do que a música em si – incomodou os batedores de cabeça sem causa, que não se dão ao trabalho de pensar o heavy metal, querem apenas curti-lo.

Há ainda tantos outros exemplos de experimentações que causaram aversão aos bangers. O próprio Metallica, quando lançou o
Black Album (talvez o mais bem pensado disco da carreira da banda, já que conseguiu conciliar acessibilidade com o peso e a agressividade inerentes ao grupo), em 1991, dividiu opiniões. Os admiradores de longa data, baseando-se na ótima repercussão mercadológica capitaneada pela famigerada MTV (emissora dona de uma necessidade mórbida e efêmera de eleger e descartar superastros de tempos em tempos de acordo com as suas convicções financeiras), dizem que o declínio começou nessa época. Estes fãs, que reprimem a ousadia ao mesmo tempo em que abraçam a segurança, quase nada têm de revolucionários. Por isso, não conseguem compreender que o Black Album foi um projeto extremamente arrojado, com o objetivo claro de expandir a sua legião de fãs e de, conseqrentemente, popularizar (termo odiado pelos conservadores elitistas) o heavy metal. Afinal, ser comercial nem sempre é sinônimo de produzir trabalhos ruins. Ser comercial honestamente é ter a capacidade de modernizar o seu som sem desprezar as suas raízes para, dessa forma, abrir espaço para o metal na grande mídia, o que é, simultaneamente, o sonho e o pesadelo dos bangers. Quando, apesar da qualidade, determinada banda não consegue uma divulgação e reconhecimento razoáveis nos veículos de comunicação massificados - aqueles mesmos que, desonestamente, tiram onda de imparciais - logo os headbangers se “revoltam” contra essa discriminação. Mas, quando outra banda (como o Metallica, por exemplo) consegue ser valorizada e atinge o estrelato, então os mesmos insurretos torcem o nariz para a banda em questão. Afinal, o que quer essa parte dos metaleiros?

O Slayer com
South of Heaven, álbum da maior qualidade, foi criticado quando do seu lançamento apenas por ser menos veloz que o velocíssimo e revolucionário Reign in Blood. O Dream Theater com o “pop” Falling Into Infinity, o Angra com o “demasiadamente batucado” Holy Land, o Helloween com o “excessivamente experimental” Pink Bubbles Go Ape, o Sepultura com o antropofágico Roots. O que importa para grande parte dos fãs não é o fato de uma banda conseguir inovar e se manter relevante, mas sim de repetir fórmulas prontas que deram certo no passado.


Contudo, as intolerâncias supracitadas são apenas algumas gotas num oceano de preconceitos. Ao visitar os paupérrimos fóruns metálicos, que servem para desmistificar a lenda de que a maioria dos headbangers é gente progressista e de ideias arejadas, é fácil perceber preconceitos relativos a especulações acerca da opção sexual de determinados músicos (quem não já ouviu comentários sobre a possível homossexualidade do Andre Matos devido aos seus antigos agudos estridentes? E a pejorativa transformação do nome Edguy em “Edgay” apenas por essa banda cultuar a irreverência e a alegria em suas músicas? É até desnecessário apontar o paradoxo de pessoas que se consideram revolucionárias terem preconceitos retrógrados como esses), como se o caráter ou a competência profissional desses indivíduos dependesse de escolhas pessoais, as quais, numa sociedade teoricamente democrática, devem ser respeitadas sem concessões. É a tão comum e nociva inversão de valores, tendência fundamentada na ignorância capaz de priorizar quesitos irrelevantes para estereotipar assuntos de primeira grandeza.

E de onde vem a discriminação acima mencionada? Do machismo, outra perniciosa característica intrínseca ao heavy metal. Desde a sua concepção, o metal é movido por uma necessidade mercadológica de parecer mal, de rejeitar o sentimentalismo diante da racionalidade, mesmo sendo um dos estilos mais emocionais que já existiram. É por isso, certamente, que até hoje os instrumentistas roboticamente virtuosos e frios são mais valorizados do que aqueles que priorizam o feeling à velocidade, o experimentalismo à mesmice. É também por conta dessa imposição financeira que bandas como Helloween e Gamma Ray, que no início das suas carreiras veneravam o bom humor e até a utopia socialista (lembra-se de “Future World”?), tiveram que passar por um processo de mecanização com o passar dos anos, o que resultou em discos mais introspectivos e pessimistas e o que, em última instância, jogou no lixo a originalidade ideológica desses grupos.

O heavy metal nasceu nos subúrbios ingleses e se transformou numa expressão artística de pessoas marginalizadas pela sociedade, oriundos da base da pirâmide social. Hoje, pelo menos no Brasil, é um estilo musical consumido e muitas vezes tocado pela classe média. Como não poderia deixar de ser, esse extrato social transfere para a música todo o seu conservadorismo e seu falso moralismo. Boa parte do público headbanger alimenta uma revolta fútil e localizada, que se expressa apenas no campo emocional. Aquela velha história do “esse cara deve gostar de pagode”, sabe? Como seria bom se esse descontentamento oco fosse canalizado para quebrar a inércia dessa classe social.

É por todas as limitações impostas pelos fãs e, consequentemente, pelo mercado, que o metal tem se tornado um estilo quase imutável e sem fantasias de mudar o mundo e coisas do tipo. As minhas, alimentadas durante os primeiros anos de headbanger, já começam a desaparecer. Só irão sobreviver por conta de uma minoria pensante e verdadeiramente preocupada com os rumos que este fascinante estilo de música e, principalmente, de vida, tem tomado. Por sorte, essa minoria é a maioria dos que frequentam e escrevem para o DELFOS.

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE