Lançado originalmente em 2003, o livro Sound of the Beast conta a história do heavy metal de maneira didática e apaixonada, e é um excelente guia, repleto de informações para quem quer conhecer mais sobre o gênero musical mais apaixonante que existe.
Escrito pelo suíço Ian Christe, o livro ganhou uma resenha detalhada sobre a sua edição brasileira aqui na Collectors Room. Para ler, clique aqui.
Entramos em contato com Ian e conseguimos uma entrevista exclusiva com o escritor. Numa longa e agradável conversa, Christe contou como foi o processo de criação do livro, falou de seus planos atuais e futuros e deixou clara toda a sua paixão pelo heavy metal.
Então, acomode-se na cadeira, levante o volume do som e tenha uma ótima leitura!Seu livro é excelente, um verdadeiro guia para quem quer se aventurar pelo mundo do heavy metal. Como surgiu a ideia de escrever Sound of the Beast?
Obrigado, Ricardo! Ele apenas tinha que ser feito! Senti que era um crime que a rica trajetória do heavy metal não tivesse um livro que contasse suas principais histórias e movimentos. Houve tanta energia, esforço e sacrifício para criar tudo. Eu simplesmente peguei a história que todos os headbangers sabem de cor e criei o Sound of the Beast.
Ian, além do Sepultura, o que você conhece da cena heavy metal brasileira?
Eu conheço bastante! (risos) Pra começar, fui para a Galeria do Rock em São Paulo atrás de camisetas do Sarcófago, e foi bem difícil. Como tenho já alguns anos como fã de heavy metal, tive a sorte de conhecer bandas como Vulcano, Holocausto, Mutilator, Anthares e muitas outras. Guardo o meu velho compacto de 7 polegadas do Dorsal Atlântica em um local seguro! E eu adoro filmes brasileiros como Pixote, Tropa de Elite, Carandiru, Cidade de Deus, Manda Bala e, é claro, o grande e demente Zé do Caixão! Eu tenho um documentário sobre punks brasileiros em 1982 e mal posso esperar para ver isso, deve ter sido insano. Concluindo, fiquei muito orgulhoso que Sound of the Beast tenha sido lançado no Brasil. Obrigado, ARX! (Nota do editor: ARX é o nome da editora que lançou o livro de Ian no Brasil).
Como foi o processo de pesquisa para a produção do livro, e quanto tempo você demorou para escrevê-lo?
Eu passei quatro longos anos escrevendo o livro, reunindo as fotos e definindo os capítulos que ele teria. Durante esse período as pessoas achavam que eu era louco ou tolo de trabalhar em um projeto como esse, mas eu sabia que o resultado final seria apreciado pelos metalheads, que queriam ler sobre a história de bandas lendárias como Iron Maiden, Sepultura e Morbid Angel, e até mesmo sobre pioneiros como o Twisted Sister.
Sound of the Beast já foi traduzido para onze línguas. Como tem sido a recepção da obra nos países em que ela foi lançada?
O livro está indo bem em todos os lugares, principalmente no Japão, Finlândia, Alemanha e Itália. E recentemente o editor croata me proporcionou a melhor homenagem que eu poderia desejar produzindo camisetas pretas com a capa do livro. Demais!
De um modo geral, o heavy metal era associado no início à pessoas desajustadas. Hoje essas pessoas estão com 30, 40 anos. Na sua opinião, qual é o motivo de os fãs do estilo ainda sofrerem preconceito?
Bem, os fãs de heavy metal pensam por si mesmos e gostam de fazer muito barulho. Nenhum desses hábitos são bem-vindos na sociedade convencional.
Um dos melhores momentos do livro é quando você escreve sobre o início do estilo, apontando as bandas que foram pioneiras no metal. Me chamou a atenção a inclusão de grupos mais obscuros, como a banda japonesa Flower Travellin' Band, em seu texto. Quais outras bandas desse período você acha que mereceriam mais reconhecimento do que tem?
Esse período inicial foi como uma fronteira para mim. Eu sabia muito sobre milhares de bandas de thrash e death mas estava curioso sobre todos os grupos pesados que existiram na época do Black Sabbath. Das bandas deste período, eu recomendaria Pentagram, Sir Lord Baltimore, Necromandus, Captain Beyond, Pax e muitos outros!
O capítulo dedicado a New Wave of British of Heavy Metal também é excelente. Passados mais de trinta anos do surgimento das primeiras bandas da NWOBHM, como você avalia o impacto desses grupos na história do heavy metal?
A banda mais popular que surgiu desse movimento, o Iron Maiden, eu acho que fala por si só. Não há outra banda no mundo, tocando qualquer tipo de música, que alcançou o que o Iron Maiden fez internacionalmente. Outros nomes, como Saxon e Diamond Head, são mais importantes pela sua influência em grupos como o Metallica. Mas eu amo as centenas de bandas da NWOBHM que lançaram uma ou duas músicas incríveis. Elas provaram que qualquer pessoa poderia formar uma banda e divulgá-la usando os seus próprios meios, e isso foi uma lição fundamental para o underground do heavy metal. Se você não consegue encontrar uma gravadora que lance o seu disco, crie o seu próprio selo!
A polêmica cena black metal norueguesa do início dos anos noventa rendeu um dos melhores capítulos do livro. Na sua opinião, essas bandas teriam a mesma fama e reconhecimento caso não estivessem envolvidas em todas as polêmicas que marcaram a cena?
As controvérsias criminais ajudaram a chamar a atenção para a cena black metal norueguesa, sem dúvida, mas a música daqueles bandas era poderosa e inspiradora, e esse é que é, de fato, o que há de tão fascinante na cena norueguesa. Os caras não eram ignorantes e bandidos.
Eu criei uma editora chamada Bazillion Points, pela qual já lançamos livros como Hellbent for Cooking, Swedish Death Metal e Only Death is Real, sobre o Tom Gabriel Fischer. Colocamos no mercado também o livro Metalion: The Slayer Mag Diaries, escrito por Jon Kristiansen. Ele esteve envolvido com toda a cena norueguesa desde o seu início, e o seu livro é o relato definitivo sobre essa história.
Um dos pontos que me chamou a atenção em Heavy Metal: A História Completa foi o grande destaque dado ao Metallica em certos trechos. A impressão que tive em certas passagens foi a de estar lendo uma biografia da banda e não um livro sobre a história do metal. É óbvio que o Metallica é uma das bandas mais importantes do metal, mas você não acha que o destaque dado ao grupo foi exagerado em certos momentos, em detrimento a outros ícones incontestáveis do estilo, como Iron Maiden e Judas Priest, por exemplo?
Como o livro aborda centenas de bandas eu precisava de um personagem central para usar como ponto de referência, e o Metallica foi isso. Pelo tempo que a banda possui de carreira, eles estiveram envolvidos na evolução do heavy metal de maneira mais interessante que o Iron Maiden e o Judas Priest. Nos últimos dez anos o Metallica não contribuiu muito para o avanço do metal, mas talvez eles leiam o livro e concluam que seu trabalho já foi feito! Em todo o caso a influência do Metallica afetou toda a cena, do reconhecimento do Diamond Head ao fato do Carcass ter assinado com uma grande gravadora, então a banda simplesmente não parava de aparecer em cada entrevista que eu fiz para o livro.
Ainda em relação ao Metallica, a cena norte-americana foi muito mais explorada também. Isso é resultado de experiência pessoal, afinal você estava mais conectado à essas bandas, ou você acha que os americanos têm mesmo a maior cena do estilo?
Não, eu definitivamente não diria isso!
Você cita diversas vezes ao longo do livro sobre as trocas de fitas K7, demonstrando como esse hábito foi importante para a consolidação do heavy metal. Quem trocava fitas acabava tendo uma ligação maior com as músicas e as bandas. Você não acha que hoje, com a disponibilização de tudo pela internet, esse tipo de relação com a música não pode acabar e até enfraquecer o estilo?
Sim, em comparação ao tempo da troca de demos tudo hoje está muito mais fácil. Todos os períodos de evolução do heavy metal foram importantes, mas a cultura de patches, camisetas e fitas raras foi construída sobre a busca de uma música que era difícil de ser encontrada e ouvida. No livro Metalion o autor fala da troca de vinis que manteve regularmente com Max Cavalera durante os anos oitenta. Max enviava listas de discos que estava procurando para a Noruega – basicamente material fácil de encontrar, como álbuns do Dark Angel – e pagava com pilhas de LPs do Sepultura. Foi assim que a música se espalhou naquele período, e é espantoso perceber como adolescentes dos mais diversos pontos do mundo fizeram isso sozinhos.
O Dream Theater é hoje uma das bandas norte-americanas mais conhecidas no mundo e inúmeros grupos seguem o caminho que eles abriram com o seu som. Também não há citação da banda ou de outras com estilo similar. Isso aconteceu pelo fato que muita gente os classifica como progressivo e não heavy metal?
Definitivamente, o Dream Theater gravou o seu material mais pesado depois que o livro foi lançado (Nota do editor: a edição original de Sound of the Beast chegou às lojas em 2003). A banda que eu gostaria de explorar com mais profundidade no livro é o Opeth, que na minha opinião combinam com grande eficiência o heavy metal com o rock progressivo. O livro abrange uma grande quantidade de bandas prog, mas admito que essa é uma área onde poderia ter ido mais fundo. Bem, eu estou me corrigindo por essa falha com o lançamento de Mean Deviation: Four Decades of Progressive Heavy Metal, escrito por Jeff Wagner.
Um fato que chama a atenção em seu livro é o grande número de listas apontando os melhores álbuns de praticamente todos os subgêneros do heavy metal. Deu muito trabalho apontar os melhores álbuns de cada gênero?
Você está brincando? Esta foi a parte mais divertida. Todo fã de música adora fazer listas!
Quais discos você indicaria para uma pessoa que nunca ouviu heavy metal?
Essa é uma pergunta difícil, afinal eu já escrevi um livro de 400 páginas tentando resumir tudo (risos). Começaria com o Reign in Blood do Slayer, mas a lista com os melhores álbuns do metal presente no livro seria uma iniciação mais certeira.
Quais são os seus gêneros preferidos dentro do metal? E fora do estilo, o que você costuma ouvir?
Atualmente estou ouvindo bandas de black metal sujo e trabalhado como Nifelheim, Aura Noir, Bathory antigo, Bewitched e outras que representam a parte mais sombria do heavy metal. Também tenho escutado um monte de bandas de hardcore que vão desde Negative Approach até Discharge e DS13. E eu curti bastante Heart nesse verão depois de ouvir muito o primeiro disco do The Devils Blood.
Como já disse, você possui uma editora chamada Bazillion Points. Entre os livros lançados chamam a atenção obras como a que conta a história do Celtic Frost, além de livros dedicados ao prog metal e ao death metal sueco. Isso sem falar no curioso Hell Bent for Cooking, um hilário guia culinário para os bangers. Há previsão de esses livros serem lançados aqui no Brasil?
Eu adoraria que isso acontecesse. A edição brasileira da Playboy escreveu sobre o Hellbent for Cooking e publicou uma foto de uma receita criada pelo Master's Hammer, da República Tcheca. Pedidos de licença para a publicação dos livros chegam o tempo todo e espero sinceramente que possamos publicar cada vez mais em outros países como o Brasil, especialmente agora que Sound of the Beast foi lançado no país e abriu o caminho.
Qual o tamanho da sua coleção de discos?
Oito metros de altura por oito de largura, com doze centímetros de profundidade (risos). Além disso, há muitas fitas e CDs (risos).
Ian, muito obrigado pela entrevista.
Eu é que agradeço, Ricardo. Muito obrigado pela oportunidade de conversar com os headbangers brasileiros.
(agradecimentos especiais a Eduardo Santos e Fernando Bueno pela colaboração)
Escrito pelo suíço Ian Christe, o livro ganhou uma resenha detalhada sobre a sua edição brasileira aqui na Collectors Room. Para ler, clique aqui.
Entramos em contato com Ian e conseguimos uma entrevista exclusiva com o escritor. Numa longa e agradável conversa, Christe contou como foi o processo de criação do livro, falou de seus planos atuais e futuros e deixou clara toda a sua paixão pelo heavy metal.
Então, acomode-se na cadeira, levante o volume do som e tenha uma ótima leitura!Seu livro é excelente, um verdadeiro guia para quem quer se aventurar pelo mundo do heavy metal. Como surgiu a ideia de escrever Sound of the Beast?
Obrigado, Ricardo! Ele apenas tinha que ser feito! Senti que era um crime que a rica trajetória do heavy metal não tivesse um livro que contasse suas principais histórias e movimentos. Houve tanta energia, esforço e sacrifício para criar tudo. Eu simplesmente peguei a história que todos os headbangers sabem de cor e criei o Sound of the Beast.
Ian, além do Sepultura, o que você conhece da cena heavy metal brasileira?
Eu conheço bastante! (risos) Pra começar, fui para a Galeria do Rock em São Paulo atrás de camisetas do Sarcófago, e foi bem difícil. Como tenho já alguns anos como fã de heavy metal, tive a sorte de conhecer bandas como Vulcano, Holocausto, Mutilator, Anthares e muitas outras. Guardo o meu velho compacto de 7 polegadas do Dorsal Atlântica em um local seguro! E eu adoro filmes brasileiros como Pixote, Tropa de Elite, Carandiru, Cidade de Deus, Manda Bala e, é claro, o grande e demente Zé do Caixão! Eu tenho um documentário sobre punks brasileiros em 1982 e mal posso esperar para ver isso, deve ter sido insano. Concluindo, fiquei muito orgulhoso que Sound of the Beast tenha sido lançado no Brasil. Obrigado, ARX! (Nota do editor: ARX é o nome da editora que lançou o livro de Ian no Brasil).
Como foi o processo de pesquisa para a produção do livro, e quanto tempo você demorou para escrevê-lo?
Eu passei quatro longos anos escrevendo o livro, reunindo as fotos e definindo os capítulos que ele teria. Durante esse período as pessoas achavam que eu era louco ou tolo de trabalhar em um projeto como esse, mas eu sabia que o resultado final seria apreciado pelos metalheads, que queriam ler sobre a história de bandas lendárias como Iron Maiden, Sepultura e Morbid Angel, e até mesmo sobre pioneiros como o Twisted Sister.
Sound of the Beast já foi traduzido para onze línguas. Como tem sido a recepção da obra nos países em que ela foi lançada?
O livro está indo bem em todos os lugares, principalmente no Japão, Finlândia, Alemanha e Itália. E recentemente o editor croata me proporcionou a melhor homenagem que eu poderia desejar produzindo camisetas pretas com a capa do livro. Demais!
De um modo geral, o heavy metal era associado no início à pessoas desajustadas. Hoje essas pessoas estão com 30, 40 anos. Na sua opinião, qual é o motivo de os fãs do estilo ainda sofrerem preconceito?
Bem, os fãs de heavy metal pensam por si mesmos e gostam de fazer muito barulho. Nenhum desses hábitos são bem-vindos na sociedade convencional.
Um dos melhores momentos do livro é quando você escreve sobre o início do estilo, apontando as bandas que foram pioneiras no metal. Me chamou a atenção a inclusão de grupos mais obscuros, como a banda japonesa Flower Travellin' Band, em seu texto. Quais outras bandas desse período você acha que mereceriam mais reconhecimento do que tem?
Esse período inicial foi como uma fronteira para mim. Eu sabia muito sobre milhares de bandas de thrash e death mas estava curioso sobre todos os grupos pesados que existiram na época do Black Sabbath. Das bandas deste período, eu recomendaria Pentagram, Sir Lord Baltimore, Necromandus, Captain Beyond, Pax e muitos outros!
O capítulo dedicado a New Wave of British of Heavy Metal também é excelente. Passados mais de trinta anos do surgimento das primeiras bandas da NWOBHM, como você avalia o impacto desses grupos na história do heavy metal?
A banda mais popular que surgiu desse movimento, o Iron Maiden, eu acho que fala por si só. Não há outra banda no mundo, tocando qualquer tipo de música, que alcançou o que o Iron Maiden fez internacionalmente. Outros nomes, como Saxon e Diamond Head, são mais importantes pela sua influência em grupos como o Metallica. Mas eu amo as centenas de bandas da NWOBHM que lançaram uma ou duas músicas incríveis. Elas provaram que qualquer pessoa poderia formar uma banda e divulgá-la usando os seus próprios meios, e isso foi uma lição fundamental para o underground do heavy metal. Se você não consegue encontrar uma gravadora que lance o seu disco, crie o seu próprio selo!
A polêmica cena black metal norueguesa do início dos anos noventa rendeu um dos melhores capítulos do livro. Na sua opinião, essas bandas teriam a mesma fama e reconhecimento caso não estivessem envolvidas em todas as polêmicas que marcaram a cena?
As controvérsias criminais ajudaram a chamar a atenção para a cena black metal norueguesa, sem dúvida, mas a música daqueles bandas era poderosa e inspiradora, e esse é que é, de fato, o que há de tão fascinante na cena norueguesa. Os caras não eram ignorantes e bandidos.
Eu criei uma editora chamada Bazillion Points, pela qual já lançamos livros como Hellbent for Cooking, Swedish Death Metal e Only Death is Real, sobre o Tom Gabriel Fischer. Colocamos no mercado também o livro Metalion: The Slayer Mag Diaries, escrito por Jon Kristiansen. Ele esteve envolvido com toda a cena norueguesa desde o seu início, e o seu livro é o relato definitivo sobre essa história.
Um dos pontos que me chamou a atenção em Heavy Metal: A História Completa foi o grande destaque dado ao Metallica em certos trechos. A impressão que tive em certas passagens foi a de estar lendo uma biografia da banda e não um livro sobre a história do metal. É óbvio que o Metallica é uma das bandas mais importantes do metal, mas você não acha que o destaque dado ao grupo foi exagerado em certos momentos, em detrimento a outros ícones incontestáveis do estilo, como Iron Maiden e Judas Priest, por exemplo?
Como o livro aborda centenas de bandas eu precisava de um personagem central para usar como ponto de referência, e o Metallica foi isso. Pelo tempo que a banda possui de carreira, eles estiveram envolvidos na evolução do heavy metal de maneira mais interessante que o Iron Maiden e o Judas Priest. Nos últimos dez anos o Metallica não contribuiu muito para o avanço do metal, mas talvez eles leiam o livro e concluam que seu trabalho já foi feito! Em todo o caso a influência do Metallica afetou toda a cena, do reconhecimento do Diamond Head ao fato do Carcass ter assinado com uma grande gravadora, então a banda simplesmente não parava de aparecer em cada entrevista que eu fiz para o livro.
Ainda em relação ao Metallica, a cena norte-americana foi muito mais explorada também. Isso é resultado de experiência pessoal, afinal você estava mais conectado à essas bandas, ou você acha que os americanos têm mesmo a maior cena do estilo?
Não, eu definitivamente não diria isso!
Você cita diversas vezes ao longo do livro sobre as trocas de fitas K7, demonstrando como esse hábito foi importante para a consolidação do heavy metal. Quem trocava fitas acabava tendo uma ligação maior com as músicas e as bandas. Você não acha que hoje, com a disponibilização de tudo pela internet, esse tipo de relação com a música não pode acabar e até enfraquecer o estilo?
Sim, em comparação ao tempo da troca de demos tudo hoje está muito mais fácil. Todos os períodos de evolução do heavy metal foram importantes, mas a cultura de patches, camisetas e fitas raras foi construída sobre a busca de uma música que era difícil de ser encontrada e ouvida. No livro Metalion o autor fala da troca de vinis que manteve regularmente com Max Cavalera durante os anos oitenta. Max enviava listas de discos que estava procurando para a Noruega – basicamente material fácil de encontrar, como álbuns do Dark Angel – e pagava com pilhas de LPs do Sepultura. Foi assim que a música se espalhou naquele período, e é espantoso perceber como adolescentes dos mais diversos pontos do mundo fizeram isso sozinhos.
O Dream Theater é hoje uma das bandas norte-americanas mais conhecidas no mundo e inúmeros grupos seguem o caminho que eles abriram com o seu som. Também não há citação da banda ou de outras com estilo similar. Isso aconteceu pelo fato que muita gente os classifica como progressivo e não heavy metal?
Definitivamente, o Dream Theater gravou o seu material mais pesado depois que o livro foi lançado (Nota do editor: a edição original de Sound of the Beast chegou às lojas em 2003). A banda que eu gostaria de explorar com mais profundidade no livro é o Opeth, que na minha opinião combinam com grande eficiência o heavy metal com o rock progressivo. O livro abrange uma grande quantidade de bandas prog, mas admito que essa é uma área onde poderia ter ido mais fundo. Bem, eu estou me corrigindo por essa falha com o lançamento de Mean Deviation: Four Decades of Progressive Heavy Metal, escrito por Jeff Wagner.
Um fato que chama a atenção em seu livro é o grande número de listas apontando os melhores álbuns de praticamente todos os subgêneros do heavy metal. Deu muito trabalho apontar os melhores álbuns de cada gênero?
Você está brincando? Esta foi a parte mais divertida. Todo fã de música adora fazer listas!
Quais discos você indicaria para uma pessoa que nunca ouviu heavy metal?
Essa é uma pergunta difícil, afinal eu já escrevi um livro de 400 páginas tentando resumir tudo (risos). Começaria com o Reign in Blood do Slayer, mas a lista com os melhores álbuns do metal presente no livro seria uma iniciação mais certeira.
Quais são os seus gêneros preferidos dentro do metal? E fora do estilo, o que você costuma ouvir?
Atualmente estou ouvindo bandas de black metal sujo e trabalhado como Nifelheim, Aura Noir, Bathory antigo, Bewitched e outras que representam a parte mais sombria do heavy metal. Também tenho escutado um monte de bandas de hardcore que vão desde Negative Approach até Discharge e DS13. E eu curti bastante Heart nesse verão depois de ouvir muito o primeiro disco do The Devils Blood.
Como já disse, você possui uma editora chamada Bazillion Points. Entre os livros lançados chamam a atenção obras como a que conta a história do Celtic Frost, além de livros dedicados ao prog metal e ao death metal sueco. Isso sem falar no curioso Hell Bent for Cooking, um hilário guia culinário para os bangers. Há previsão de esses livros serem lançados aqui no Brasil?
Eu adoraria que isso acontecesse. A edição brasileira da Playboy escreveu sobre o Hellbent for Cooking e publicou uma foto de uma receita criada pelo Master's Hammer, da República Tcheca. Pedidos de licença para a publicação dos livros chegam o tempo todo e espero sinceramente que possamos publicar cada vez mais em outros países como o Brasil, especialmente agora que Sound of the Beast foi lançado no país e abriu o caminho.
Qual o tamanho da sua coleção de discos?
Oito metros de altura por oito de largura, com doze centímetros de profundidade (risos). Além disso, há muitas fitas e CDs (risos).
Ian, muito obrigado pela entrevista.
Eu é que agradeço, Ricardo. Muito obrigado pela oportunidade de conversar com os headbangers brasileiros.
(agradecimentos especiais a Eduardo Santos e Fernando Bueno pela colaboração)











