23 de fev de 2011

Eric Clapton: a história do lendário Rainbow Concert!


Por Maurício Rigotto

Coloquei um disco na vitrola – o que sempre faço quando chego em casa, afinal, a minha vida tem que ter trilha sonora – e sentei defronte a máquina de escrever para tentar parir a minha coluna, que seria sobre o lançamento do primeiro álbum de uma nova banda inglesa. Claro que não estou sentado em frente a uma obsoleta Olivetti, estou escrevendo no programa Word do computador. O disco que escolhi ao acaso foi o álbum ao vivo Eric Clapton’s Rainbow Concert, e logo na primeira música desisti de escrever sobre a tal banda nova – fica para a próxima semana – e passei a lembrar da história desse antológico álbum.

No ano de 1971, Eric Clapton era aclamado mundialmente como o melhor guitarrista vivo do mundo, levando-se em conta que Jimi Hendrix partira dessa para melhor no ano anterior, porém sua vida pessoal estava de ponta cabeça. Clapton estava apaixonado pela esposa de George Harrison, seu melhor amigo – com quem viria a se casar em 1979 – e estava afundando no vício em heroína e no alcoolismo. Sua banda, a fenomenal Derek and the Dominos, se dissolveu em abril, logo após o lançamento de um dos álbuns mais incríveis de toda a carreira de Clapton, o fabuloso Layla and Other Assorted Love Songs.

Em agosto, Clapton se apresentou ao lado de George Harrison e outros no Madison Square Garden em Nova York no famoso Concert for Bangladesh e depois sumiu do mapa, se refugiando como um ermitão em sua casa para um longo período de inatividade e isolamento. Eric não atendia o telefone ou a campainha, salvo para seus traficantes ou um que outro amigo mais próximo, e dormia o dia todo após passar noites em claro tocando guitarra e injetando heroína, esperando que a morte viesse lhe buscar.

Eric Clapton e sua mãe Patricia, em 1971

George Harrison aparecia de vez em quando e ambos tocavam guitarras por horas, porém Clapton sentia-se desconfortável por desejar roubar a mulher do seu melhor amigo, justamente o cara de quem ele gostava como se fosse um irmão. Outro dos poucos amigos que apareciam regularmente era Pete Townshend, guitarrista do The Who, com o pretexto de ajudar Clapton a finalizar algumas faixas inacabadas dos Derek and the Dominos. Eric agradeceu a Pete pela ajuda, mas havia perdido o interesse pelo projeto e se entregado a total inércia. Townshend então chutou o balde e disse que sabia que Clapton estava com sérios problemas com a heroína e que já havia inclusive conversado a respeito com Harrison e Steve Winwood para acharem uma forma de ajudar o amigo e salvá-lo da morte certa. Clapton ficou chocado e horrorizado. Não imaginava que seus amigos soubessem da sua condição. Eric sentiu-se constrangido, confuso e embaraçado pelo fato das pessoas estarem preocupadas com ele, mas não ofereceu resistência. “Se você acha que pode me ajudar, vá em frente.” A conversa reacendeu um pouco do senso de vergonha do guitarrista, mas no momento ele era um prisioneiro do vício, um escravo inerte.

Nos últimos meses de 1972, Pete Townshend foi convidado para tocar em um concerto como parte da “Fanfare for Europe”, uma grande celebração para comemorar a entrada da Grã-Bretanha no Mercado Comum Europeu. Pete redarguiu que o The Who não iria se apresentar, mas se comprometeu a formar outra banda para o evento. Townshend viu que seria uma oportunidade perfeita para trazer Clapton de volta ao palco ao lado de amigos para incentivá-lo a retomar a sua carreira e romper com os maus hábitos.

O concerto foi marcado para o dia 13 de janeiro de 1973 no Rainbow Theathe, no Finsbury Park, ao norte de Londres. O Rainbow, um teatro pequeno e decadente, era conhecido como Astoria Theatre nos anos sessenta e em meados da década os Beatles se apresentaram no local. No início dos anos setenta, bandas iniciantes como Led Zeppelin, Jethro Tull e Yes tocaram por lá, mas o local era geograficamente de difícil acesso aos fãs de rock, numa zona desprovida de atrativos, e o outrora glorioso interior do teatro lembrava um velho cinema necessitando de uma redecoração e uma nova pintura.

As diferentes capas do disco,e detalhes do encarte da reedição de 1995

Pete Townshend não mediu esforços para ajudar o amigo e, com o auxílio de Harrison e Winwood, montou a banda de brothers que iria acompanhar Clapton no Rainbow. Para as guitarras, além do próprio Pete e obviamente Eric, Pete chamou o guitarrista dos Faces, Ronnie Wood. Steve Winwood, líder do Traffic, que havia sido colega de banda de Clapton no Blind Faith, assumiu os teclados e chamou seus colegas de Traffic Rick Grech (também ex-Blind Faith) para o baixo, Jim Capaldi para a bateria e Rebop para as demais percussões. O baterista Jimmy Karstein foi convocado para a segunda bateria. A banda foi batizada com o nome The Palpitations. Os ensaios foram marcados para dezembro na casa de Ronnie Wood em Richmond.

No tempo em que permaneceu recluso, Eric escutou música e tocou guitarra diariamente, mas para desenvolver sua habilidade com plenitude era preciso interagir com outras pessoas, e desde o concerto para Bangladesh ele não tocava com outros músicos. No primeiro ensaio na casa do futuro Rolling Stone, Clapton tentou tocar e participar, mesmo em um nível limitado, mas se sentiu tímido ao constatar sua deficiência em tocar, vendo que seus dedos não obedeciam ao que seu cérebro mandava. Steve Winwood o encorajou e lhe transmitiu confiança, e aos poucos os ensaios evoluíram consideravelmente.

Na noite do show, Clapton chegou ao Rainbow atrasado e chapadíssimo, deixando Pete Townshend de cabelo em pé. Na plateia, além dos fãs, uma constelação de rock stars se fazia presente para testemunhar o retorno de Clapton aos palcos. Logo na primeira fila, estavam George Harrison e Ringo Starr, sentados ao lado de Keith Moon, Joe Cocker, Elton John e Jimmy Page, que àquela altura era o mais celebrado astro do rock da atualidade, com sua banda atingindo níveis estratosféricos de popularidade.

Clapton e Townshed, amizade que fez a diferença

O show abriu com “Layla”. A banda estava tão entrosada que tudo soou perfeitamente, embora Clapton tenha declarado posteriormente que ainda estava “quilômetros fora da rota”. A segunda canção da noite foi “Badge”, uma parceria de Clapton e Harrison composta para o último álbum do Cream. Eric, Pete e Ronnie fizeram sinal para que George subisse ao palco, mas esse preferiu continuar assistindo o espetáculo em sua poltrona na primeira fila. Na sequência tocaram as ótimas “Blues Power” e “Roll It Over” e a cover para a balada “Little Wing”, de Jimi Hendrix, que Clapton gravou magistralmente no álbum do Derek and the Dominos, dando uma nova carga de emoção à canção originalmente lançada no disco Axis, Bold As Love do The Jimi Hendrix Experience.

A incrível recepção da plateia foi comovente para Eric. Todos os presentes sabiam que estavam testemunhando um momento único, um grande show de uma banda absurdamente boa. O show teve prosseguimento com canções do excelente primeiro disco solo de Clapton (“Bottle of Red Wine”, “After Midnight”), músicas do álbum dos Dominos (“Bell Botton Blues”, “Tell the Truth”) e “Presence of the Lord”, do Blind Faith, já que três quartos do Blind Faith estava no palco. Steve Winwood então assumiu os vocais na faixa “Pearly Queen”, do segundo álbum do Traffic, já que quase todos os membros da banda estavam presentes na empreitada. Clapton então tocou o clássico do blues “Key to the Highway”, há tempos incorporada em seu repertório, e encerrou a primeira parte do concerto com uma versão sublime de “Let It Rain”. No bis, a banda tocou uma endiabrada versão de “Crossroads” de Robert Johnson, que Clapton já havia gravado com o Cream. Foi um final apoteótico para um dos mais memoráveis concertos já realizados.

Um deus tentando sair do inferno

Logo após o concerto no Rainbow, Clapton voltou a se esconder e a “afundar em novas profundezas”, consumindo quantidades imensas de heroína e bebendo duas garrafas de vodca por dia. O guitarrista sentia-se muito grato aos amigos, principalmente a Pete, por terem se preocupado e ajudado a colocá-lo de volta à cena musical, mas simplesmente sentia que ainda não estava pronto. Somente mais de um ano mais tarde Clapton formou uma nova banda e retornou a atividade com o álbum 461 Ocean Boulevard.

Ainda em 1973 foi lançado o álbum ao vivo do concerto, intitulado Eric Clapton’s Rainbow Concert, contendo apenas seis canções. O lado um trazia as faixas “Badge”, “Roll It Over” e “Presence of the Lord”. O lado dois apresentava as músicas “Pearly Queen”, “After Midnight” e “Little Wing”. Recordo que quase furei os sulcos do vinil de tanto ouvir esse disco em minha adolescência.

A capa da reedição de 1995, com o show completo

Em 1995, vinte e dois anos após o concerto, eu trabalhava em uma conceituada loja de discos quando recebemos uma leva de novos Cds importados. Entre eles, estava uma nova edição em CD do Rainbow Concert, que me chamou a atenção de imediato por trazer uma capa diferente do LP, com uma nova foto e novas cores. Porém, a grande e grata surpresa se deu mesmo quando fui conferir a contracapa e vi que não estavam apenas as seis canções do vinil, mas as quatorze músicas que foram apresentadas naquela gloriosa noite. Finalmente as outras oito faixas foram desengavetadas e estavam a nossa disposição após mais de duas décadas. Que deleite!

Esse registro ao vivo somente existe porque o engenheiro de som e produtor musical Glyn Johns, notório por seus trabalhos ao lado de artistas como Beatles, Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin e do próprio Eric Clapton, resolveu gravar o show em uma fita de rolo para a posteridade. Infelizmente o show não foi filmado – ao menos até hoje não apareceu nenhuma imagem do evento - mas nos contentamos com o disco, absolutamente histórico e colossal.

4 comentários:

Rodrigo Simas disse...

Excelente matéria! Só pra registrar! Grande disco...

Ricardo Seelig disse...

Maurício, comprei o meu Rainbow Concert na loja em que você trabalhava, a saudosa CD Holmes. Tenho até hoje, e ele frequenta com assiduidade o meu CD player.

Abraço.

Maurício Rigotto disse...

Saudosa mesmo Cadão. Eu ganhava pouco, mas foi o emprego mais divertido da minha vida.

Ricardo Seelig disse...

A loja era muito boa mesmo, Maurício. E é interessante ver onde as pessoas que estavam lá todos os dias falando sobre música todos os dias estão hoje: eu e você aqui, o Beto no Cachorro Grande, o Jerônimo nos Locomotores. E os outros caras da loja, tem notícia do que andam fazendo hoje em dia?

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