Who Cares: o incrível reencontro de Tony Iommi e Ian Gillan!


Por Vitor Bemvindo

Há 27 anos, Ian Gillan deixava o Black Sabbath. Sua passagem pelo grupo deixou um legado de críticas e dúvidas. O álbum Born Again (1983) foi recebido com frieza, e o que poderia ser um encontro histórico hoje em dia não passa de uma curiosidade na carreira dos artistas. Sempre que se fala em Gillan no Sabbath, uma interrogação aparece no rosto de quem ouve a frase. A sensação que se tem é que existe ainda uma dívida a ser paga pela dupla Ian Gillan e Tony Iommi.


Pois bem, depois de tanto tempo eles estão juntos novamente, mesmo que eventualmente. Sem a preocupação de se pagar dívidas, eles se uniram a grandes músicos da história do hard rock e heavy metal em uma causa beneficente: ajudar a reconstrução de uma escola de música na Armênia, destruída por um terremoto. Entre os convidados estão Jon Lord, Nicko McBrain, Jason Newsted , Linde Lindström (HIM), entre outros.

O projeto, chamado de Who Cares, resultará em um CD single com duas faixas inéditas compostas exclusivamente para a causa, “Out of My Mind” e “Holy Water”. O single tem previsão de lançamento para 24 de maio na Europa e 24 de junho na América do Norte. No entanto, as duas músicas já estão disponíveis no YouTube.

“Out Of My Mind”

Ian Gillan – Vocais
Tony Iommi – Guitarra
Linde Lindström – Guitarra
Nicko McBrain – Bateria
Jason Newsted – Baixo
Jon Lord – Teclado

Por mais que Gillan e Iommi não estivessem preocupados em pagar dívidas, pode-se dizer que está faixa seria digna de estar em qualquer álbum da discografia não só do Sabbath, como também do Purple. A canção tem elementos marcantes da carreira das duas bandas, e traz uma fusão de elementos dos grupos que talvez não apareça nem mesmo no primeiro encontro entre os músicos, no já citado Born Again.



Do Black Sabbath, nota-se a introdução ligeiramente soturna e, como sempre, o riff pesado e marcante. É impressionante como Tony Iommi tem uma fonte inesgotável de riffs maravilhosos. No caso de “Out of My Mind” trata-se de um riff absolutamente simples, mas que nem por isso deixa de ser genial, já que é ele que conduz a faixa de uma maneira em que é quase impossível não se balançar a cabeça. O solo da canção também é um capítulo à parte, com o carimbo de qualidade “Iommi”, porém mais melódico do que o guitarrista costuma fazer em seus trabalhos com o Black Sabbath.

As características que remetem ao Deep Purple estão ligadas mais aos trabalhos recentes da banda do que aos discos clássicos do grupo. A música lembra bastantes algumas das canções dos bons álbuns lançados depois de 1996, com Steve Morse na guitarra. A faixa tem uma característica bem próxima às do disco Bananas (2003), com guitarras marcadas e com peso e com o habitual vocal melódico de Ian Gillan. Esses álbuns, apesar de serem encarados pelos mais xiitas com preconceito, revigoraram o Purple nos anos 90 e 2000, trazendo uma nova forma de cantar para Gillan. É esse vocal que está em “Out of My Mind”. Quem espera os agudos dos 60 e 70, pode esquecer.

Outra característica que nos remete ao Deep Purple é o teclado de Jon Lord, que se não está tão marcante como no auge da banda, nos reporta um pouco ao que foi feito nos anos 80, especialmente no álbum Perfect Strangers (1984). Não, não espere aqueles clássicos duelos entre o órgão Hammond de Lord e a Stratocaster de Blackmore (ou, no caso, a Gibson SG de Iommi). O que percebemos em “Out of My Mind” é algo mais básico, mas fundamental para dar corpo à canção.

Portanto, “Out of My Mind” pode ser considerado um hard rock com o DNA do Sabbath e do Purple, que poderia completar qualquer um dos álbuns de ambos os grupos, mas certamente não se tornaria um clássico. É um ótimo trabalho, digno, honesto e por uma boa causa.

“Holy Water”

Ian Gillan – Vocais
Tony Iommi – Guitarra
Steve Morris – Guitarra
Michael Lee Jackson – Guitarra
Randy Clarke – Bateria
Rodney Appleby – Baixo
Jesse O’Brien – Órgão Hammond
Arshak Sahakyan – Solo de Duduk
Ara Gevorgyan – Duduk na introdução

A segunda canção é um pouco mais experimental. Trata-se de uma balada com elementos mais sofisticados, como a inclusão de instrumentos pouco convencionais – caso do duduk, um instrumento de sopro típico da região do Cáucaso, de onde a Armênia faz parte.



Ao contrário de “Out of My Mind”, “Holy Water” traz poucas características das bandas clássicas dos idealizadores do projeto. Apesar de uma vigorosa guitarra, a falta do peso habitual quase não nos faz reconhecer Iommi na faixa. Ao invés dos tradicionais riffs arrastados, notamos uma guitarra que apresenta maior versatilidade, indo da quase ausência de efeitos a uma distorção moderada. A combinação da guitarra base de Steve Morris traz uma característica pouco presente nos trabalhos de Iommi.

Talvez os vocais de Gillan seja o ponto de contato mais próximo com o trabalho do Deep Purple. Apesar de a banda ter se especializado em fazer grandes baladas desde “When a Blind Man Cries” (1971) até “Sometimes I Feel Like Screaming” (1996), nenhuma delas tem as características de “Holy Water”. No caso dessa nova canção, nota-se forte influência da música caucásia não só na incorporação dos instrumentos, mas também na melodia introdutória. Algum ouvinte mais atento pode associar o órgão Hammond bem marcado ao trabalho de Don Airey nas baladas dos dois últimos discos do Deep Purple, como em “Haunted” (Bananas, 2003) ou “Before Time Began” (Rapture of the Deep, 2005), essa segunda no que se refere a sua introdução. Não nego essa semelhança, mas não acredito que esses trabalhos são suficientes para deixar marcas de característica no trabalho do grupo.

Acredito ser “Holy Water” uma boa faixa, porém menos impactante que a primeira. A canção serve como um justo tributo a ser prestado ao país que Ian Gillan e Tony Iommi prestam assistência desde o final dos anos 80, quando promovorem o Rock Aid Armenia. Naquela ocasião a dupla se reuniu para regravar o maior clássico do Purple, “Smoke on the Water”, com a participação de astros como Bruce Dickinson, David Gilmour, Paul Rodgers, Brian May, Roger Taylor, Ritchie Blackmore, entre muitos outros.

Confira:



Coincidentemente ou não, estão previstas para lançamento ainda esse ano uma versão remixada de “Rock Aid Armenia” e uma edição “deluxe expanded” para a primeira parceria entre Gillan e Iommi, o disco Born Again, de 1983.

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