(Celso Pucci, Bizz#105, abril de 1994)
"Sou um negro dedicado à expressão. Expressão do prazer e do orgulho da negritude. Não me considero poeta, compositor ou músico. São meras ferramentas usadas por caras sensíveis para esculpir uma peça bela e verdadeira, que eles esperam conduzir à paz e à salvação."
"Sou um negro dedicado à expressão. Expressão do prazer e do orgulho da negritude. Não me considero poeta, compositor ou músico. São meras ferramentas usadas por caras sensíveis para esculpir uma peça bela e verdadeira, que eles esperam conduzir à paz e à salvação."
Assim Gil Scott-Heron se apresentava em Small Talk at 125th and Lenox (1970), seu álbum de estreia. Nada mal para um jovem escritor que aos 19 anos lançou o conto The Vulture ("O Abutre"), seguindo por uma coleção de poemas (com o título que daria ao disco) e outro livro, The Nigger Factory (algo como "A Fábrica de Crioulos"). Os temas? Combate ao racismo e críticas ferinas ao consumismo, ao poder das mídias e às aspirações medíocres da classe média americana. Só isso faria dele um precursor do rap, mesmo a não se levar em conta que foi o pioneiro nesse estilo de canto falado.
Nascido em Chicago e criado no Tennessee, o cara acabou no Bronx, violento bairro de Nova York, onde foi forjar sua revolta diante da miséria do gueto. Mas, ao invés de bandidagem, ele preferiu usar a poesia como arma. Ganhou uma bolsa para a Universidade Lincoln, na Pensylvania, desenvolvendo a militância anti-racista, a verve literária e a paixão pela música negra, do blues ao soul, passando - principalmente - pelo improviso intuitivo do jazz. Uma influência vinda de Brian Jackson, colega pianista de quem se tornou parceiro. A esta altura, Gil já lançara Small Talk at 125th and Lenox, com seus vocais proto-rap e percussão afro - em faixas como "Whitey on the Moon", "No Knock", "Brother" e "The Revolution Will Not Be Televised" (contundente poema de protesto, regravado por grupos como The Last Poets e LaBelle).
Bob Thiele - dono do Flying Dutchman, selo que editou o disco - chapou com os versos afiados de Gil aliados ao fino som da banda de Jackson: Pretty Purdie (o baterista) And The Playboys - com feras como Hubert Laws (flauta/sax) e Ron Carter (baixo). Acabou gravando um segundo álbum - em apenas dois dias - que começava com um arranjo definitivo para "The Revolution Will Not Be Televised" ("Você não será capaz de ficar em casa, brother / A revolução não será televisionada / A revolução não terá reprise, brother / A revolução será ao vivo!").
Abordava dilemas nas relações familiares ("Home is Where the Hatred Is" e a faixa-título) e amorosas ("When You are Who You Are"), além de conter baladas inspiradas em Marvin Gaye ("Save the Children", "I Think I´ll Call It Morning") e um tributo ao sax de um de seus heróis ("Lady Day and John Coltrane").
Em 1972, Gil faria Free Will, com "Sex Education: Ghetto Style", "The Get Out of the Ghetto Blues" e "Did You Hear What Thay Said?". Depois mudou de gravadora e teve certa projeção com canções como "The Bottle", "Johannesburg" e "We Almost Lost Detroit". Sua associação com Jackson - chamada de Midnight Band - durou até o fim dos anos setenta, quando as suas apresentações tornaram-se esporádicas e Gil passou a dividir o tempo entre a música, a literatura e o jornalismo.
O trabalho de Gil Scott-Heron tornou-se inconstante, mas seus lemas de liberdade e não conformismo permaneceram perenes, pautados na inteligência e no refinamento, a anos-luz da truculência explícita do gangsta rap ou das variantes do estilo. O lamentável é que, com toda essa onda jazz rap/acid jazz, o cara mantenha-se pouco conhecido - e não reconhecido como um dos seus maiores criadores.
Faixas:
A1. The Revolution Will Not Be Televised - 2:59
A2. Save the Children - 4:55
A3. Lady Day & John Coltrane - 3:10
A4. Home Is Where the Hatred Is - 3:15
A5. When You Are Who You Are - 3:01
A6. I Think I'll Call It a Morning - 3:45
A1. The Revolution Will Not Be Televised - 2:59
A2. Save the Children - 4:55
A3. Lady Day & John Coltrane - 3:10
A4. Home Is Where the Hatred Is - 3:15
A5. When You Are Who You Are - 3:01
A6. I Think I'll Call It a Morning - 3:45
B1. Pieces of a Man - 4:22
B2. A Sign of the Ages - 4:05
B3. Or Down You Fall - 3:08
B4. The Needle's Eye - 4:01
B5. The Prisoner - 8:39
B2. A Sign of the Ages - 4:05
B3. Or Down You Fall - 3:08
B4. The Needle's Eye - 4:01
B5. The Prisoner - 8:39



























































