O Black Sabbath acabou de anunciar o retorno da formação original da banda. Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward voltam a tocar juntos, reativando a mais importante e influente banda da história do heavy metal. Além disso, o grupo anunciou uma turnê mundial no ano que vem e será a atração principal do Download Festival, o antigo Monsters of Rock. E, pra fechar com chave de ouro, o quarteto revelou que também lançará um álbum de inéditas em 2012 produzido pelo renomado Rick Rubin, responsável por clássicos como Reign in Blood do Slayer, Electric do The Cult, Toxicity do System of a Down e inúmeros outros, além de ser o homem por trás do aclamado retorno do Metallica ao heavy metal em Death Magnetic.
Mas
o que esperar dessa reunião? Ela realmente vale a pena? O Black
Sabbath faz parte do pequeno grupo que mudou a história da música.
O grupo tornou o rock mais pesado, sombrio e escuro, acabando com o
colorido sonho hippie quando o seu primeiro disco, batizado apenas
com o nome da banda e com a imagem tétrica de uma bruxa enigmática
na capa, chegou às lojas no fatídico 13 de fevereiro de 1970, não
por acaso uma sexta-feira. Os principais responsáveis por isso foram
os riffs inspirados, pesadíssimos e escuros do guitarrista Tony Iommi
e as letras sinistras de Geezer Butler. Fechando o time, o
carismático vocal de Ozzy Osbourne e a bateria única de Bill Ward.
Entre
1970 e 1975 o Black Sabbath gravou seis álbuns fantásticos em
sequência, que definiram o heavy metal como gênero. Black
Sabbath (1970), Paranoid (1970), Master of Reality
(1971), Vol 4 (1972), Sabbath Bloody Sabbath (1973) e
Sabotage (1975) são obrigatórios em qualquer coleção – o
meu preferido, só para constar, é o sensacional Sabbath
Bloody Sabbath. Já cansados das turnês infinitas e um
tanto estagnados musicalmente, isso sem falar das doses industriais
de cocaína e álcool ingeridas diariamente, o grupo lançou ainda
Technical Ecstasy (1976) e Never Say Die! (1978),
últimos registros com a voz de Ozzy, que deixou a banda em 1979.
Enquanto
o Madman dava início a uma ótima carreira solo aclamada tanto pela
crítica quanto pelo público, o Black Sabbath se reinventava de
maneira sublime com Heaven and Hell, disco lançado em 1980
com o ex-Rainbow Ronnie James Dio nos vocais. Dio gravaria ainda Mob
Rules (1981), mas deixaria o grupo de forma prematura por
divergências sobre a mixagem do duplo ao vivo Live Evil
(1982). O resto da trajetória da banda, apesar de contar com discos
interessantes, é claramente inferior aos trabalhos com as vozes de
Ozzy e Dio.
Para
tentar entender como o Sabbath soará agora em 2011, é preciso
analisar o que os seus integrantes fizeram nos últimos anos. Iommi e
Geezer lançaram em 2009 o bom The Devil You Know ao lado de
Dio, álbum com uma sonoridade muito mais próxima – como era de se
esperar – a Heaven and Hell e Mob Rules do que aos
discos dos anos 1970. Um pouco antes, Iommi retomou a parceria com
Glenn Hughes (Trapeze, Deep Purple, Black Country Communion),
iniciada no subestimado Seventh Star (1986), e colocou na
praça dois excelentes discos – The 1996 DEP Sessions (2004)
e Fused (2005). Além disso, reativou em 2011 o projeto
WhoCares na companhia de Ian Gillan e lançou o ótimo single “Out
of My Mind / Holy Water”. Já Geezer Bulther gravou em 2005 o
segundo disco do seu projeto G//Z/R, Ohmwork, com uma
sonoridade influenciada pelos grupos de new metal, o que não agradou
os fãs. O baterista Bill Ward passou por diversos problemas de saúde
nos últimos anos, então deixou a sua carreira musical meio de lado
nesse período.
O
que, como você bem sabe, não aconteceu com Ozzy Osbourne. O
vocalista lançou em 2010 um de seus melhores discos, o surpreendente
Scream, onde a sua música soou atual e renovada. Muito disso
se deveu à entrada do guitarrista grego Gus G (Firewind) em sua
banda, no posto ocupado anteriormente por Zakk Wylde.
Na minha opinião, o retorno do Black Sabbath vale a pena principalmente pelo anúncio do lançamento de um álbum com canções inéditas. Excursionar pelo mundo tocando apenas os clássicos é legal, isso é inegável, mas servirá muito mais para agradar fãs saudosistas e encher ainda mais as contas dos músicos de dinheiro do que qualquer outra coisa. Como a banda tem realmente alguma pretensão artística com essa reunião, não irá se contentar apenas em tocar as mesmas canções de sempre. Era só perceber o comportamento inquieto de Iommi, compositor prolífico e que já declarou aos quatro ventos possuir “um armário cheio de riffs inéditos”, para concluir que a coisa iria além. O fato de Ozzy também estar com o fôlego renovado após a ótima repercussão de Scream colocava ainda mais lenha na fogueira para um possível disco de estúdio, confirmado agora, e que me agradou muito.
Mas
é preciso deixar claro uma coisa. Qualquer pessoa com mais de 5 anos
de idade sabe que o Black Sabbath de 2011 não soará como o Black
Sabbath da primeira metade dos anos 1970. O quarteto não tem mais 20
anos de idade, pelo contrário: quase 40 anos separam um período do
outro. Nesse tempo os músicos envelheceram, amadureceram, mudaram. É
difícil tentar adivinhar como um novo álbum do Sabbath soará hoje
em dia, ainda que algumas características não mudem: os riffs
pesados e arrastados de Iommi estarão presentes, bem como as linhas
vocais grudentas de Ozzy. Essas duas características garantem a
ligação com o passado, mesmo que o restante aponte para um disco
com uma sonoridade bastante atual – e quando eu digo atual eu me
refiro a uma produção excelente, com timbres graves, pesadíssimos,
e, simultaneamente, orgânicos. Enfim, a cara de Rick Rubin, um
produtor que sabe como trazer à tona as melhores qualidades de um
artista, costuma dar aos seus trabalhos.
A
volta do Black Sabbath é boa para o heavy metal, isso é inegável,
afinal estamos falando dos pais do gênero que tanto amamos. Ver a
banda ao vivo novamente será certamente inesquecível, mas poder
ouvir canções inéditas do quarteto será ainda mais gratificante.
Quando um grupo dessa magnitude anuncia o seu retorno, todos que
estão envolvidos com o heavy metal – músicos, fãs, jornalistas –
saem ganhando. Eventos como esse injetam combustível da mais alta
octanagem no coração de cada headbanger em todos os cantos do
planeta, reativando a paixão, o amor e a fé pelo estilo.
Seja
bem-vindo de volta, Black Sabbath. Nunca esquecemos, e jamais
deixamos de pensar, em vocês. Estávamos com saudades. É bom tê-los
ao nosso lado novamente.




























































