25/07/2012

Discoteca Básica Bizz #005: The Doors - The Doors (1967)

Venice, Califórnia, julho de 1965. Ray Manzarek, 30 anos, tecladista, encontra na praia seu amigo James Douglas Morrison, 21, estudante da Universidade da Califórnia, amante da poesia de Blake e da filosofia de Nietzsche. Jim diz a Ray que anda compondo poemas, e canta uma estrofe: "Vamos nadar para a lua / Vamos montar a maré / Penetrar no fundo da noite / Que o sono da cidade esconde." Ray perde a respiração. Conversam. E naquele dia, na praia, surge o conceito/ ideia / banda The Doors, em cima de uma expressão de um poema de Blake e do livro de Huxley sobre a mescalina, As Portas da Percepção


Louvado seja aquele dia. E maldito. Porque com os Doors nasceu uma das mais espantosas viagens, na história da música popular, em torno de temas perenes: medo, terror, pavor, violência, a culpa sem possibilidade de redenção, os desencontros do amor e a inevitabilidade da morte. O magnetismo animal e manipulações do inconsciente coletivo de Morrison excitavam homens e mulheres à níveis da absoluta selvageria. Era uma atmosfera lisérgica, um eterno "retorno do reprimido", uma catarse ritualística, uma política carregada de eletricidade.


The Doors, lançado nos Estados Unidos em janeiro de 1967 com a psicodelia rachando os neurônios da garotada planetária, já continha todas as sementes da destruição posterior. Ainda hoje, pode ser considerado o grande álbum daquele ano mágico, mais devastador do que o antológico Sgt Pepper's e um dos cinco maiores LPs de rock em todos os tempos.


O melhor álbum dos Doors é sempre o que está tocando na nossa cabeça, seja a coletânea de hits The Doors, o clássico L.A. Woman ou um pirata australiano como The Doors Archive (o som é ruim, mas as performances são do balaco). A obra-prima de 67, que fundiu todos os circuitos do produtor Paul Rothschild, tem o mérito de apresentá-los em estado bruto: a guitarra fluída de Robbie Krieger, a bateria segura - porém jazzística - de John Densmore, o teclado de fundo-de-garagem-cósmica em que Manzarek dedilha contrapontos e os urros, gritos primais, deboche, sofrimento e poesia das esferas de Morrison. Tudo isso gravado em quatro canais!



O negócio dos Doors era hard rock com sobretons psicodélicos. Nos improvisos, viraram uma banda de blues elétrico que ficaria à vontade em qualquer madrugada de bar. Jim tirava algumas de suas letras de Nietzsche, o lúcido mais louco da história do pensamento humano. Combinava Nietzsche com um pouco de psicologia e uma série de grandes imagens - mar, sol, terra, morte. Esta era a terapia que recomendava ao público fascinado: vamos ser mais reais (uma de suas primeiras canções é "You Make Me Real"), cortar os laços com o establishment, nadar nas emoções, sofrer uma morte e renascimento simbólicos e prosseguir como novos seres, livres do pesadelo da história e dos traumas pessoais.

The Doors tem desde um feroz blues de homem branco ("Back Door Man") ao hino de uma geração inteira ("Light My Fire"), com seu imaginário baseado nos elementos vitais e a antológica progressão clássica do órgão de Manzarek, passando pelas intimações poéticas de "Moonlight Drive". Mas o bombardeio de napalm na psique é mesmo "The End". 

"The End" é o drama edipiano de Morrison expurgado em vinil. É o fim de todas as regras, planos elaborados, o fim da escuridão e das luzes suaves, quando Morrison toma uma carona no ônibus azul da psicodelia, mata o pai e transa com a mãe enquanto os Doors, no fundo, constróem uma paisagem sonora alucinógena orientalizante. 

Depois do fim, seu inferno. Morrison viveu o purgatório: caiu no álcool pesado, virou paródia de si mesmo, produziu outras obras-primas em flashes de lucidez, foi a Paris perseguir uma fantasia literária e acabou morrendo em uma banheira aos 27 anos. 

Triste final. Mítico final. Heróico final.

Faixas:
A1. Break on Through (To the Other Side) - 2:29
A2. Soul Kitchen - 3:34
A3. The Crystal Ship - 2:34
A4. Twentieth Century Fox - 2:33
A5. Alabama Song (Whisky Bar) - 3:20
A6. Light My Fire - 7:08


B1. Back Door Man - 3:34
B2. I Looked at You - 2:22
B3. End of the Night - 2:52
B4. Take It as It Comes - 2:17
B5. The End - 11:41

(Texto escrito pot Pepe Escobar, Bizz#005, dezembro de 1985) 


Reações:

1 comentários:

Nossa esse disco é cara dos anos 60, eu usava esse disco e o Paranoid do Black Sabbath em sala de aula para explicar a guerra do Vietnã e a contra cultura.

Nossa graças a ele hoje eu ouço caras como: Miles Davis, John Coltrane, Art Blakey enfim eu nem sei mais dizer, como seria a minha vida sem meus inúmeros álbuns de jazz.

E o blues é a mesma coisa, porque depois desse disco eu tive contato com caras como: John Lee Hooker, Freddie King, Muddy Water e Willie Dixon.

E toda vez, que eu tiro esse lp da capa me vêm na cabeça altas lembranças da minha vida um puta disco que deveria estar aqui faz tempo. Na época da faculdade eu e um colega meu escrevemos um artigo sobre Jim Morrison o cara era foda as letras desse disco não vem só das leituras de Nietzsche vem dos estudos que ele fez fenomenologia no caso Hussel.

Quem não conhece deveria ouvi-lo pelo menos uma vez.