A cena hard / psicodélica japonesa do final dos anos 60 até meados dos 70 produziu inúmeros artistas interessantes, repletos de histórias curiosas e mitos ao seu redor. Nomes como Apryl Fool, Blues Creation, Flied Egg, Flower Travellin´ Band, Food Brain, Murasaki, Powerhouse, Ranmadou, Strawberry Path, The Flowers e outros conquistaram admiradores em todo o mundo através de sua música, transformando a terra do sol nascente em uma verdadeira mina de ouro para nós, colecionadores, e nossa sede eterna por conhecimento e informações a respeito de novos artistas.
O guitarrista Shinki Shen foi um dos principais e mais importantes nomes de toda essa cena. Com passagens pelo Powerhouse, Food Brain, Flied Egg e pelo power trio Speed, Glue & Shinki, Shen é considerado o Jimi Hendrix japonês.
Nascido em 30 de maio de 1949, Shinki começou a tocar guitarra aos 14 anos, revelando-se logo um prodígio em seu instrumento. Após montar um grupo folk com amigos, Shen tocou com seu camarada Keibun Hayashi em uma banda no estilo dos Beatles, e mais tarde aventurou-se em um conjunto na linha dos Ventures. Mas Shinki, um aficcionado pelos Kinks e Yardbirds, queria fazer um som na cola do que estava sendo produzido na Inglaterra na segunda metade dos anos sessenta, ou seja, rock influenciadíssimo pelo blues norte-americano.
A paixão era tanta que em 1966 aceitou largar a guitarra e assumir a bateria na Midnight Express Blues Band, onde conheceu e logo se aproximou do guitarrista Masayoshi Kabe, que mais tarde seria seu companheiro no Food Brain e no Speed, Glue & Shinki. Kabe deixou o grupo em dezembro de 66, e Shen assumiu o seu lugar na guitarra.
Após algumas mudanças de formação e também de nome, a Midnight Express Blues Band agora se chamava The Bebes. A banda fez várias apresentações em clubes e discotecas, e o visual de Shinki e do vocalista Eiji “Chibo” Takamura, com longos cabelos inspirados em seus ídolos ingleses, começou a causar alguns problemas para o grupo, ao mesmo tempo em que chamava a atenção do público. A Toshiba Records não perdeu tempo e ofereceu um contrato para os Bebes, que lançaram um raríssimo single com uma versão mais lenta de “Back in the URSS”, dos Beatles.
A influência dos artistas ingleses continuava a fazer a cabeça de Shen e sua turma, e após a entrada de George Yanagi no baixo a banda mudou novamente de nome e passou a se chamar Powerhouse. O repertório era baseado em covers de sucessos que estavam virando a terra da rainha de cabeça para baixo, como “Good Morning School Girl”, dos Yardbirds, e “Spoonful”, eternizada pelo Cream. O Powerhouse gravou um álbum em 1969, A New Kind of Blues, só com releituras de composições de outros artistas, e se dissolveu por problemas internos.
Shinki passou a atuar como músico de estúdio e conseguiu entrar na banda montada para a versão japonesa do musical Hair, onde conheceu o vocalista Joe Yamanaka (que mais tarde faria parte da Flower Travellin´ Band) e o tecladista Hiro Yanagida (Apryl Fool). Ao lado de Hiro, Shinki montou o Food Brain, que logo chamou a atenção pela grande quantidade de improvisações em seus shows.
Essa liberdade criativa inspirou Shinki Shen, que decidiu reunir alguns chapas das antigas e gravar um álbum com a sua leitura de toda aquela cena, tendo, é claro, sua guitarra como elemento principal. Assim surgiu Shinki Shen & His Friends, lançado em 15 de janeiro de 1971 pela Polydor japonesa. Ao lado de Shinki estavam o vocalista e baixista George Yanagi (Strawberry Path, Flied Egg), o amigo de fé e irmão camarada Hiro Yanagida nos teclados e o baterista Shinichi Nogi. As sete faixas do disco carregam um som psicodélico extremo, banhado em doses cavalares de LSD.
“The Dark Sea Dream” introduz o trabalho com um emaranhado de sons, abrindo as portas para “Requiem of Confusion”. Totalmente hendrixiana, a faixa traz os vocais de Yanagi cheios de efeitos, embalados por uma estrutura que é filha direta dos clássicos hard blues setentistas. “Freedom of a Mad Paper Lantern” tem um andamento psicótico que se assemelha a uma jam banhada em ácido. A melancólica balada “Gloomy Reflections” é a faixa mais convencional do disco, enquanto que “It Was Only Yesterday” nos transporta para dentro de uma trip lisérgica, onde o grande destaque é o teclado de Yanagida. O álbum fecha com “Farewell to Hypocrites”, a minha preferida, uma odisseia sensorial com quase treze minutos e um grande solo de Chen.
Shinki Chen & His Friends não é um disco fácil de ouvir. As loucuras do maluco quarteto nipônico capitaneado por Shinki tem uma mixagem com agudos excessivos e poucos graves, resultando em um som com pouco peso e momentos que exigem uma atenção quase que exclusiva do ouvinte para perceber detalhes e aspectos escondidos nos arranjos. Ouvidos não tão acostumados com o estilo certamente serão incomodados, afinal não é o tipo de música para ser colocada na sala animando um alegre papo entre amigos, mas sim um som que pega o corpo de quem por ele se aventura e o leva por caminhos inexplorados.
Raríssima, a edição original, lançada pela Polydor japonesa, frequentemente atinge valores acima dos mil dólares em sites de colecionadores, o que só atesta a procura e o fascínio pela obra desse mítico músico japonês.





2 comentários:
Quando apertei play aqui, minha atenção foi totalmente capturada. Que vibe alienígena! Os outros trabalhos são demais também! Ótima dica!
Som diferente, hein? Bem bacana.
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