16 de mar de 2012

Unsuspected Soul Band: ouça o primeiro single e leia entrevista exclusiva com a banda

sexta-feira, março 16, 2012

Como a Unsuspected Soul Band surgiu?

O embrião surgiu do direcionamento que eu queria tomar após o fim do Rei Lagarto. Primeiramente pensei em ter um trabalho solo, mas sempre gostei mais da ideia de ter uma banda. O César (bateria) e o Eliezer (guitarra) já estavam trabalhando comigo no Dusty Old Fingers e foram escolhas óbvias. Chamamos o Ricardo Palma (guitarra), que deu uma boa enriquecida nos arranjos, e por último o Yon (baixo) se juntou ao time, o que foi um prazer, pois nos entendemos muito bem trabalhando juntos.

Apesar de todos conhecerem bem o repertório, tocar o estilo foi uma novidade, e foi muito legal ver a banda se desenvolvendo e crescendo junto. Hoje a banda conta ainda com vocais de apoio e um naipe de metais, que completam a performance, e a gente espera poder levar sempre que possível nas nossas apresentaçãoes

O que significa o nome da banda?

A gente teve vários nomes até chegar nesse. Todos os escolhidos foram esbarrando em algum problema. Aliás, como é difícil escolher um nome para banda! No final das contas tínhamos a faixa “Unsuspecting”, que é nossa música de trabalho, e decidimos basear o nome nessa música. A letra fala sobre um cara que apronta todas mas no final sempre se dá bem. Esse acabou se tornando o tema principal da banda, e que vai resultar num videoclipe muito legal e bem produzido.

O que o levou a tocar um som calcado no soul e no funk, totalmente diferente do que você fazia no Rei Lagarto, que era hard rock?

Na época em que encerramos as atividades do Rei Lagarto eu estava muito envolvido com este tipo de som. Possuo uma coleção enorme de discos e tenho algumas fases, e na ocasião o soul era a bola da vez. Estava vidrado no swing e nos vocais incríveis dos discos de soul da Motown, e outras coisas que se seguiram a isso. Queria fazer alguma coisa diferente do que vinha fazendo nos últimos anos, algo que me desafiasse a explorar um aspecto da voz que eu não dominava, que me fizesse crescer como cantor.

Você sempre curtiu esse tipo de som?

Sim. Meu primeiro ídolo, ainda criança, foi o Michael Jackson. E foi a partir dele que comecei a explorar o que mais a Motown tinha de bom. Acontece que quando tinha uns oito anos o Ozzy apareceu na minha vida, e eu fiquei fascinado por isso. Sem dúvida o rock sempre predominou na minha carreira, e vai me acompanhar até o último dia da mnha vida. Mas música, pra mim, é qualidade. Por um lado sou bem eclético, não me sinto preso a um determinado estilo. Por outro sou bem chato, não aceito qualquer coisa só proque carrega um rótulo que eu admiro. A música tem que ser boa e ter personalidade para me chamar a atenção.

Percebe-se claramente que a banda tem uma grande preocupação com o visual, usando figurinos que remetem às décadas de 60 e 70. Isso ajuda a tornar a experiência mais completa para o público, e para vocês mesmos?

Sem dúvida! Você matou a resposta na pergunta (risos).


Como é o show da Unsuspected Soul Bans? Junto com as músicas próprias, o que mais rola?

É um show bem vivo, dançante em sua maioria. Traz grandes clássicos do soul, do rock e do funk. O repertório de covers foi escolhido a dedo, buscando músicas que representem bem o clima do grupo, e também uma série de hits, pra ninguém ficar de fora da festa. E aí nós temos de Elvis Presley a Adele, passando por James Brown e pelos principais artistas da Motown, como Marvin Gaye, Jackson 5, Stevie Wonder e muito mais!

Quando sairá o primeiro EP?

O lançamento oficial será no domingo, dia 25 de março, ocasião em que faremos um show em Campinas, no Sebastian Bar. O evento está marcado para as 19h.

Além das músicas, o EP será interativo, com vídeos e galeria de fotos, certo? Fale mais sobre isso.

Queremos apostar sempre numa experiência audiovisual nos nossos lançamentos. Hoje em dia está muito fácil baixar música. Por esse motivo, estamos preocupados em dar um algo mais para o trabalho ser vendável. O EP Let Me Groove You virá em formato interativo, com cinco faixas, dois vídeos e galeria de fotos. O trabalho, que está sendo gravado no estúdio Minster, terá como carro chefe a faixa “Unsuspecting”, que será o primeiro single e clipe da banda .

Os planos para 2012 são ficar só na estrada, ou vocês pretendem voltar ao estúdio ainda este ano para gravar o primeiro disco?

Os dois! Pretendemos divulgar ao máximo a banda na estrada e vamos gravando nossas músicas, até que tenhamos um disco completo. Estamos ensaiando muito juntos e não queremos interromper o clima pra gravar, então a coisa deve acontecer simultaneamente.


Vocês pretendem fazer um trabalho forte de divulgação junto às rádios, já que o som da Unsuspected Soul Band tem um bom potencial mercadológico?

Vamos começar apostando em rádios independentes. Temos um levantamento de várias rádios bacanas pelo mundo e vamos enviar a música para todas. Queremos dar uma passo de cada vez, e no momento nosso intuito é fazer com que o maior número de pessoas ouça o nosso single. “Unsuspecting” é uma música simples e de fácil assimilação. Acredito de que, se bem trabalhada, ela pode gerar muitos frutos. Temos que aproveitar o fato desse tipo de som estar bastante em voga no momento.

Fabiano, pra não fugir do assunto, indique para os nossos leitores os seus cinco discos favoritos de funk e soul.

Stevie Wonder – Songs in the Key of Live
Marvin Gaye – What's Going On
Michael Jackson – Off the Wall
James Brown – Live at the Apollo

E, pra não ficar só no passado, o Back to Black da Amy Winehouse.

Cara, obrigado pelo papo, e espero que a Unsuspected Soul Band alcance reconhecimento e sucesso.

Obrigado, Ricardo. Estamos trabalhando muito pra isso e temos muita fé no nosso trabalho! Vamos ver o que acontece! Um grande abraço pra você e para os leitores da Collector´s Room!


Ouça abaixo "Unsuspecting", primeiro single da Unsuspected Soul Band:

U2: banda lança álbum duplo ao vivo

sexta-feira, março 16, 2012

Depois de mais de trinta anos de carreira, o U2 finalmente está lançando o seu aguardado álbum duplo ao vivo – Rattle and Hum, de 1988, não pode ser enquadrado nessa categoria por ser uma compilação de gravações de estúdio e ao vivo.

Intitulado U22, o disco foi gravado durante a turnê U2360, quando a banda tocou quarenta e seis músicas diferentes. Vinte e duas delas foram escolhidas pelos fãs, e estarão no álbum duplo. Além disso, U22 vem em uma embalagem em formato de livro, com 24 páginas com fotos e informações sobre a tour.

A princípio, o U2 informa que o álbum duplo estará disponível apenas para quem fizer uma assinatura anual do site da banda, mas algo me diz que, devido à grande demanda, U22 deve ser liberado para todo mundo, talvez em uma versão “normal”, apenas como CD duplo, sem o livro que acompanha a edição especial.

Lembrando que a banda lançou, em 2010, o DVD U2 360 at the Rose Bowl, que conta com 23 músicas. Porém, o novo duplo ao vivo tem não só outro setlist, mas também versões totalmente diferentes daquelas que estão no DVD.

Confira abaixo o tracklist de U22:

  1. Bad
  2. Where the Streets Have No Name
  3. Magnificent
  4. One
  5. Ultra Violet (Light My Way)
  6. Even Better Than The Real Thing
  7. With or Without You
  8. Beautiful Day
  9. City of Blinding Lights
  10. The Unforgettable Fire
  11. I Still Haven't Found What I'm Looking For
  12. All I Want is You / Love Rescue Me
  13. Moment of Surrender
  14. Until the End of the World
  15. The Fly
  16. One Tree Hill
  17. Stay (Faraway, So Close!)
  18. Walk On
  19. Zooropa
  20. Elevation
  21. Out of Control
  22. Mysterious Ways

Ouça "In the Night", novo single do Crazy Lixx

sexta-feira, março 16, 2012

“In the Night” é o primeiro single do novo álbum do Crazy Lixx, Riot Avenue, que sairá em abril pela Frontiers.

A faixa tem um refrão pegajoso e mantém o espírito festivo do som do quarteto sueco, que vem de dois ótimos discos – Loud Minority (2007) e New Religion (2010) – com uma sonoridade feita sob medida para os fãs de glam metal, o chamado “hair metal”.


15 de mar de 2012

Storm Corrosion: veja capa do projeto que une os líderes do Opeth e do Porcupine Tree

quinta-feira, março 15, 2012

Um dos mais aguardados álbuns de 2012 vai tomando forma. O Storm Corrosion, projeto formado por Steven Wilson e Mikael Akerfeldt, divulgou a capa do seu disco de estreia.

O trabalho já pode ser adquirido em pré-venda aqui, em formatos que incluem um box com CD e blu-ray e uma apetitosa versão em vinil duplo de 180 gramas. Ambas as edições vem com um poster com a arte do álbum. O lançamento oficial será dia 23 de abril.

A sonoridade do disco será bastante progressiva, seguindo o que Wilson fez em seu último álbum solo, Grace for Downing, e o que o Opeth gravou em Heritage. Segundo Steven, o disco foi composto na mesma época que Grace for Downing e Heritage, e soa como se, juntos, os três álbuns formassem uma espécie de trilogia.

Vem uma nova obra-prima por aí?




Enquete da semana: o melhor álbum de metal de 2003

quinta-feira, março 15, 2012

Um dos trabalhos mais ousados e inovadores do Dream Theater, o pesado e sombrio Train of Thought ficou com a primeira colocação em nossa enquete sobre os melhores discos de heavy metal lançados em 2003. Na sequência, o segundo álbum do Iron Maiden desde o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith ao grupo, Dance of Death, seguido de muito perto pelo ótimo Epica, do Kamelot. Destaque também para as boas votações dos discos do Masterplan, Nevermore, Hammers of Misfortune e Devin Townsend.

Confira o resultado abaixo, e não deixe de comentar:

Dream Theater – Train of Thought – 41%
Iron Maiden – Dance of Death – 31%
Kamelot – Epica – 29%
Masterplan – Masterplan – 21%
Nevermore – Enemies of Reality - 20%
Hammers of Misfortune – The August Engine - 16%
OSI – Office of Strategic Influence - 16%
Devin Townsend – Accelerated Evolution - 13%
Edge of Sanity – Crimson II – 11%
Gojira – The Link - 11%
Enslaved – Below the Lights – 10%
Machine Head - Through the Ashes of Empires - 9%
King Diamond – The Puppet Master - 9%
Evergrey – Recreation Day – 7%
Rage – Soundchaser – 6%
Swallow the Sun – The Morning Never Came – 5%
Watain – Casus Luciferi - 4%
Grand Magus – Monument – 3%
Vital Remains – Dechristianize - 3%
Septic Flesh – Sumerian Daemons - 1%

14 de mar de 2012

Entrevista com o colecionador Nino Lee Rocker, proprietário da Marka Diabo Camisetas

quarta-feira, março 14, 2012

Nino, em primeiro lugar apresente-se aos nossos leitores: quem você é e o que você faz?

Olá, leitores do Collector's! Não me reconheço por outra alcunha que não seja a de Nino Lee. Me considero um filho do rock and roll e admirador da contracultura, da cultura pop e do que é ou foi feito de maneira inteligente e diferenciada. Fiz de tudo um pouco ligado a isso em meus 42 anos de vida. Fui DJ durante boa parte dos anos 80, vivi bem de perto o furor do rock nacional e a efervescente cena do rock gaúcho dos 80 e 90. Os locais que freqüentei eram justamente onde rolavam shows com as bandas emergentes da cena de 80. Grande parte delas iria marcar seus nomes para sempre na história. Também fui músico no cenário roqueiro gaúcho durante toda a década de 90 passando por várias bandas. Não tinha como ser diferente respirando aquele ar por tanto tempo. Aqui no Rio Grande do Sul o bicho pegava em termos de rock, desde a época do Iapi, nos anos 60, um bairro local e tradicional de trabalhadores, condomínios bem aos moldes da arquitetura londrina antiga. Dali saíram ou perambularam artistas como Liverpool, Bixo da Seda, Hermes Aquino, Vôo Livre e Elis Regina. Toda essa história passada intensificou-se e atingiu um bombástico auge nos anos oitenta quando cada boteco tinha uma banda tocando e muitas delas acabaram gravando seus discos e até sendo reconhecidas nacionalmente. Eu vi o despertar disso tudo, foi uma época mágica. Quando virei DJ foi o momento em que passei a ter contato com o rock que vinha projetado do centro do país de cima para baixo. Já eram os fenômenos do rádio, das vendas de discos, ainda era época do Chacrinha, Perdidos na Noite, Globo de Ouro. Bons tempos,era divertido à beça.

Não consegui ser nada diferente na vida, seria um mendigo não fosse a música. O único emprego que tive com carteira assinada foi em uma loja de discos. Os clientes eram os mais intrigantes seres do planeta. Tinha os intelectuais do jazz, os freaks sequelados do rock, sobreviventes do período ácido dos anos 60 e 70, os antenadinhos e descolados, os sabe-tudo, os populares, os extremistas do peso, os punk rock xiitas, os curiosos por compreender o máximo que pudessem, os amantes do blues, os instrumentistas, os colecionadores de relíquias, os fanáticos de uma banda só ... A gente tinha que saber de tudo, cara, ser muito bem informado para tornar aquele possível cliente um cliente fiel, por isso estudávamos muito, líamos muito sobre tudo possível que pudesse nos aprimorar, e fazíamos de tudo para descolar coisas que surpreendessem aquele fã. Isso me satisfazia muito: ver um cliente contente diante de algo que ele achou que nunca encontraria. Essa experiência me fez um cara super eclético musicalmente. Para aprender a ver alma, atitude, verdade e sangue em algo artístico é preciso se livrar de amarras e aprender a respeitar e compreender raízes e gostos. Aprendi muito dissecando e valorizando mentes com conhecimentos diferenciados e profundos. Quando o assunto é a profundidade e verdade na história do rock em tudo há algum valor importante, mesmo no ostracismo. A história está lotada de casos assim, onde, infelizmente, o reconhecimento virá ou veio apenas num futuro muito distante, ou jamais, mas sempre há a possibilidade de que as pessoas possam estar maduras o suficiente para entender. Odeio o radicalismo, mas por outro lado odeio música feita para ser usada e descartada, e te digo que é complicado ser assim. A probabilidade de você nunca ser compreendido é imensa, mas foi uma opção que eu fiz, e que não tem volta.

Isso foi minha escola de vida. Nunca ser um “mais do mesmo” e saber o máximo que você puder sobre algo artisticamente verdadeiro, mesmo que nunca ninguém tenha ouvido falar, pela condenação ao esquecimento da indústria ou do tempo. Em muitos os casos realmente a unanimidade é burra.

Vivi meu passado com bicos aqui e ali, me aventurei como produtor, empresário. A vinda da cultuada banda alagoana Mopho, lançando seu primeiro e clássico disco em Porto Alegre, e a primeira vinda do Raimundos à capital gaúcha considero minhas grandes conquistas nesse lado. Volta e meia ainda me arrisco, mas foco mais em fazer o meio de campo do que me envolver totalmente. A dor de cabeça é grande e nem tenho mais saco pra isso, não tenho mais a menor paciência.

Às vezes quebro a rotina escrevendo para alguns blogs e sites como o Whiplash. Tenho ajudado a divulgar por aqui a banda canadense Danko Jones, prestando apoio à gravadora Badtaste Records. Tenho o blog Nino Lee Rocker (http://ninoleerocker.blogspot.com/), de onde retiro a base dos textos que vão direto para o blog do site de nossa grife de camisetas. Tive alguns programas de rádio como o Transarock na rádio Transamérica na grande Porto Alegre, e já faz sete anos que estou no ramo de camisetas online. A Marka Diabo camisetas - www.markadiabo.com -, empresa que montei com a força e apoio da minha parceira Ana Paula. A Marka hoje vem crescendo muito e ocupa o tempo que antes tinha para me dedicar a outras coisas paralelas, mas isso me realiza muito.





Qual foi o seu primeiro disco? Como você o conseguiu, e que idade você tinha? Você ainda tem esse álbum na sua coleção?

Meu primeiro disco foi o Thriller, de 1982, mas ganhei, o que é diferente de comprar. Eu tinha 12 anos, música ainda não era o lance, colecionar figurinhas me empolgava mais (desenhos animados eram o grande barato de se colecionar). Desenhos e seriados que logo acabariam me deixando viciado nisso eram o grande barato de se assistir na TV, como Elo Perdido, Chip’s, A Família Robinson, Lancelot Link, Banana Split, Spectreman, Ultraman, Swat, Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes, Profissão Perigo, Super Herói Americano, Hulk, Sítio do Picapau Amarelo, o Carga Pesada original. Logo vocês verão que meu lado “colecionador” vem do fato de ter bebido nessas fontes e as consequências de tê-la provado. Isso era como uma bola de neve que já havia se desencadeado alguns anos antes da chegada de meu primeiro LP. A música até então estava conectada às trilhas-sonoras destas coisas que eu me amarrava muito, uma boa música tema o cara nunca esquece quando nos marca. “Frete”. do Renato Teixeira é um exemplo disso, “Pavão Misterioso” também.

Também era muito legal sair catando tampinhas que valiam prêmios, posters, ioiôs, refrigerantes grátis, comprar picolé na esperança de um palito premiado, encher os bolsos de goma de mascar por causa das figurinhas de fórmula 1 ou de alguma copa de futebol, aqueles cards gigantes então ... Aquilo foi memorável, a mídia sabia entreter a gurizada, era a cultura pop, sempre foi assim. Quando se curtia a parada era legal demais, desde ondas que se propagavam nas escolas. Posso lembrar das bolas de gude, e muito especialmente das bicicletas cross, coisa que fui viciado ao extremo. Cheguei a fazer parte de uma das equipes da Caloi Cross! Sabe Ricardo, quando topei responder a essa entrevista eu quis repassar todos esses aspectos, não apenas no fator “vinil”, porque aqui trata-se de um um site dedicado a colecionadores e em cada detalhe que citei acima  havia um lado colecionador relacionado a qualquer uma destas coisas. Isso que, se eu adentrasse na parte em que falaria de minha paixão pelos clássicos cult cinematográficos, não haveria espaço suficiente.

Bom, então vamos ao primeiro disco. Esse Thriller do Michael Jackson pegou muita gente em cheio e era uma novidade para mim, que ainda não tinha um apego forte o suficiente para começar uma coleção de discos. Eu era ingênuo musicalmente, embora considere um grande álbum e que me despertou muita coisa. Costumo dizer que ele tinha uma pitada heavy metal homeopática, mas eficiente, graças à presença de Eddie Van Halen em “Beat It”, e um foco no lance de horror, que eu acho que se relacionaria, mesmo que indiretamente e talvez inconscientemente, aos álbuns que chegariam depois, não relacionados em nada ao disco de Michael, mas que usariam o tema sobrenatural e assustador em suas capas e temáticas. No meu caso, Thriller foi tão legal que passei mesmo a curtir esse lado. Achava um barato sair à caça de filmes de terror, e o melhor é que na época assustava muito mais. Hoje a gente olha e pensa "porra, como eu me assustei com isso um dia?" (risos).

Esse clássico do Michael foi um presente de meu pai. Talvez ele tenha chegado em uma loja e perguntado para o vendedor qual seria um bom presente para uma criança, e aquele disco era realmente um fenômeno. Não tenho mais a cópia original que ganhei, mas tenho o disco de edição da época que recomprei depois e também possuo esse relançamento duplo de aniversário, mas  esperava muito mais para um relançamento desse nível. Pelo menos a gramatura é melhor que a nacional.


Você lembra o que sentiu ao adquirir o seu primeiro LP?

O primeiro disco que comprei foi o Blizzard of Ozz do Ozzy. Foi próximo de 1983, e quando conheci o rock pesado foi atração instantânea, vício imediato. Foi algo bem naquele período em que você começa a fazer seus primeiros amigos de verdade, começa a sair em bando, ir a festas, tomar os primeiros tragos, viver mais na rua do que em casa, matar as aulas pra vadiar. Alguns amigos tinham suas coleções em vinil ou essas coleções pertenciam a algum irmão mais velho e doidão deles. Foi onde comecei a sacar que existia esse tal de rock and roll e que aquela batida era irresistível. Assim acabei conhecendo Ozzy, Dio, Sabbath, AC/DC, Rush, Judas, Nazareth, Motörhead, Scorpions, Queen, Iron ...

O Ozzy foi meu primeiro ídolo no rock, foi o primeiro LP que peguei emprestado sem possuir nenhum disco ainda e ouvi por uma semana sem parar admirando cada aspecto, capa e som, antes de devolver e decidir comprá-lo. Quando consegui comprar aquele disco foi muito emocionante, o começo de algo muito impactante, especial. Realmente não dá para descrever a sensação que tive ao sair da loja com aquele disco embaixo do braço. É engraçado, sabe ... a mente ainda cheia de espaço para armazenamento é tão cristalina, e isso fazia com que cada descoberta tivesse um brilho muito forte, as cores eram muito mais vibrantes. Era como a experiência com um ácido ou algo similar. Havia um modo muito diferente de absorver as coisas. Hoje a gente vive com a cabeça abarrotada, hoje essa taça vive a transbordar e nunca mais se consegue sentir o mesmo que outrora sentíamos. A vibração tinha uma intensidade e durabilidade muito maiores

Comecei minha coleção por ele por que havia um vasto material para se conseguir pela frente. Haviam todos aqueles discos fantásticos com o Sabbath, já existia uma carreira solo com três excelentes álbuns na época, além de que o cara era envolto a todos aqueles mitos que o circulavam. Começava a rolar um certo fascínio no lance do ocultismo e tal. Parecia uma fantasia real. A gente às vezes ouvia alguns discos com medo (risos), mas tudo era como assistir a O Exorcista: causar o efeito era essencial. Acho que não éramos tão cheios de dedos em tudo, não éramos tão radicais, era um lado mais inocente. Foi uma época inesquecível!

O primeiro LP foi esse, mas não demorou muito para que eu me tornasse um consumidor voraz de uma amplitude de outros gêneros e vertentes musicais do rock.



Porque você começou a colecionar discos, e com que idade você iniciou a sua coleção? Teve algum momento, algum fato na sua vida, que marcou essa mudança de ouvinte normal de música para um colecionador?

Com 12 anos meu pai tinha me dado o Thriller, logo em seguida veio o descobrimento do heavy metal (Eddie Van Halen já fazia parte no Thriller, aquilo não era por acaso, era questão de muito pouco tempo pro metal conquistar a molecada). Comecei com LPs relacionados ao Ozzy e logo estava ligado nas bandas mais faladas do segmento. As informações eram escassas na época, pra tudo era uma luta de se descobrir, sacar a parada direito não era moleza, tinha que ralar muito porque era como um legítimo garimpo mesmo.

Uma mudança que observei como vital para nós que já curtíamos um som de maneira mais séria no Brasil na época dos 80 foi a chegada do Rock in Rio. O festival abriu caminho para o som pesado. O evento e os milhares de admiradores do estilo de certa forma ajudaram muito a colocar mais bandas e informações na roda. Foi uma grande mudança. Creio que as gravadoras passaram a investir mais e havia mais material à disposição. Nesse ponto, desde que o primeiro Rock in Rio começou a ser divulgado, foi quando comecei a adquirir bem mais discos. O som pesado, apesar de ser tratado como uma caricatura pela mídia, não passou despercebido. O volume era muito grande para ser ignorado. Mesmo que odiados por quase todo mundo, éramos como criaturas bizarras. Ninguém via um headbanger com bons olhos, mas gostando ou não, nossa força representava uma boa quantia de cifrões para os cofres de multinacionais e selos independentes.

Assim como o Rock in Rio, outro acontecimento fez com que meus horizontes de colecionador, admirador e pesquisador aumentassem muito mais. Foi quando, em meados dos anos 80, descolei uma vaga como DJ em três casas noturnas de Santa Catarina (uma rede chamada Circus) e passei a manter contato com o universo pop rock que na época era algo bem legal e possibilitava centenas de diferenciais para se conhecer. Aliei tudo com base no ecletismo. Curtia tudo que considerava legal, sem preconceito, e isso foi algo que sempre achei ideal: o não radicalismo. Ao final dos anos 80 minha coleção já contava com centenas de discos. Não ter estagnado numa coisa só foi importante, bastava ser algo bom.

Alguém da sua família, ou um amigo, o influenciou para que você se transformasse em um colecionador?

Posso dizer que fui iniciado por cinco mestres nessa vida, cinco pessoas que entraram no momento certo para que eu aprendesse muita coisa de uma maneira consistente e irreversível. Ricardo Barão, que nos anos 80 apresentava o programa Central Rock na Rádio Ipanema FM e que rodava  tudo o que existia de legal, fosse novo ou clássico no rock. Esse programa em especial deixou muita saudade. Nunca esquecerei quando, por intermédio dele, ouvi o Thin Lizzy pela primeira vez. Era ”Angel of Death”. Era aquele lance do tipo: Thin Lizzy? Que sonzeira! E os caras já tem uma penca de discos? Como vou achar isso? O Central Rock me deixava enlouquecido atrás de bandas, era como se eu me alimentasse só daquilo. Fui conhecê-lo pessoalmente muitos anos depois, quando ele deixou o rock para se aprofundar em world music, e era legal, porque havia a mesma paixão no cara por explorar coisas que de outra maneira nunca chegariam até você. É sempre preciso que alguém faça a mão, jamais acontece se ninguém toma uma atitude. O falecimento dele foi algo muito triste para mim.

O José Roberto Mahr é outro cara que também considero muito relevante. Ele era uma plataforma de lançamento de bandas gringas, importadas e impossíveis de se descolar facilmente. Ele apresentava o Novas Tendências, um programa de radio clássico nos anos 80. Muita banda legal eu conheci ali. A voz do cara era sensacional e nunca esqueço o slogan "Novas Tendências no ar ,fique ligado!".

O professor Getúlio Costa, dono da loja Boca do Disco eu considero meu Pai Mei nos ensinamentos do lado obscuro e brilhante do rock. Com ele eu me aprofundei na escola dos venenos, progressivos, garage bands, psicodélicos, folks, hards. Esse cara me mostrou e me ensinou que o rock não era apenas aquilo que a história básica nos contava como se fosse a única real, havia muito mais. Não faço nem ideia de quantos discos e conhecimentos musicais essa loja me colocou na roda e na cabeça. 

Deixar de falar no Miranda como alguém que me marcou muito é impossível também. Esse cara me influenciou muito no que tenho de diferente em mim. O Miranda é como uma eterna criança e seus brinquedos malucos. Se você for na casa dele vai descobrir do que falo. Acho que sou assim também. O conceito de brodagem foi outra das lições importantes que aprendi com ele e foi algo que jamais deixei de usar em meu caminho.

Por último vou citar um falecido tio, Tio Loreni. Talvez ele seja o embrião da minha ânsia de colecionar o que acho bacana e admirar a arte. Ele  possuía uma coleção bastante surreal e psicodélica, colecionava borboletas, tinha as espécies mais raras. Era muito fascinante e diferente ele ter aquele mostruário em seu quarto. Só vi algo similar em um dos vários filmes clássicos de faroeste de Django, o qual não lembro o título agora, mas o lance das nuances psicodélicas estava muito forte naquela coleção, e isso seria despertado depois de outras formas. O próprio Hendrix vivia dizendo que o segredo estava nos tons das cores, no quanto elas podiam ser vibrantes e isso afetar nossa mente de forma criativa e imaginária. Era louco saber que aquelas formas pinceladas magicamente em asas eram fruto de algo muito poderoso e muito além do que poderíamos imaginar. Talvez eu tenha um pouco disso de ser diferente como ele era. Sinto falta do que aquele cara tinha em sua personalidade. Borboletas duram no máximo uma semana de vida, talvez por isso ele possuísse essa paz de espírito ao sacrificá-las. Era muito bela aquela coleção, ele conhecia profundamente cada uma das espécies e sempre me ensinava sobre isso.

Acabei virando um colecionador que ao mesmo tempo pode também ser chamado de arqueólogo. Busco coisas que para mim tenham o sentido de um tesouro, uma jóia rara, seja ela algo de extrema raridade ou não. O valor para mim, como colecionador, tem de ser antes de tudo emocional, um momento da vida da gente.



Inicialmente, qual era o seu interesse pela música? De quais gêneros você curtia? O que o atraía na música?

Como muita gente da minha idade, a música chegou discretamente e sem que eu a procurasse. Meu primeiro contato com ela foi pelo toca-fitas do meu pai, quando tinha que ouvir as coletâneas do Julio Iglesias que ele rolava sem parar. O velho era fissurado! Embora eu não fosse chegado, não posso negar que eram impagáveis as bizarras interpretações que meu coroa fazia dublando os sons do romântico espanhol. A música estava no ar, sempre. Os ouvidos captavam, só não havia a ponte direta. Nas casas de parentes haviam discos dos Bee Gees, Roberto Carlos, Tim Maia, mas a música apenas pairava no ar, flutuando sem que me motivasse a virar um fã mesmo. Mas quando ela fluía eu ouvia com atenção. Quando criança não posso negar que ouvia A Turma do Balão Mágico bem mais que tudo isso pela televisão (risos). Depois veio o que já falei, o Michael Jackson, a explosão do heavy, a chegada do thrash, do black metal, a new wave, o punk rock, o progressivo,o hard rock, o pop, os venenos.

Meu interesse não se situava apenas na sonoridade. Claro que, em primeiro lugar, eu tinha que curtir o som. Depois era crucial que o interesse passasse a ser o de saber tudo sobre tal banda, de onde veio, onde se influenciaram, quais foram suas ramificações, em que gênero se enquadravam. Sempre fui muito curioso, gostar de uma banda não era e nunca foi apenas gostar, era antes de tudo ter mentalmente visualizado toda sua biografia, toda sua trajetória. Era uma forma de estar em constante aprendizado.
O que me atrai na música? Me atrai que ela seja uma história de atitude e paixão e entrega total. Muitos morreram por ela.

Quantos discos você tem?

Discos são um papo delicado. Na real, tive três coleções ao longo da minha vida. A primeira eu adquiri entre os anos 80 e começo dos 90. Cheguei a 1.500 discos, era meu orgulho. Eu não tinha grana pra levar tudo que eu queria, o que era muito frustrante sempre.

Quando botaram o CD na roda, eu, erroneamente - e esse é um dos maiores arrependimentos da minha vida - comecei a substituir gradativamente os LPs pelos CDs. A desvalorização do vinil foi brutal. Muita banda nova foi surgindo sem lançar vinil, e diversos catálogos já raríssimos foram sendo repostos pelas gravadoras, só que nesse novo formato, causando uma ânsia louca de possuí-los. Acabei me livrando de toda uma coleção. O CD me atraiu no começo, conseguiu com que eu fosse muito mais fundo nas minhas pesquisas. Começaram a pintar os chamados “venenos”, aquelas bandas obscuras dos anos 60 e 70, fora de catálogo em LP. Bandaças que, embora desconhecidas, tinham discos matadores que só constavam em registros escritos em bíblias do rock, oriundos de selos totalmente especializados e eram privilégio de muito poucos afortunados. O legal do começo do CD foi esse lado. O ruim foi o dinheiro investido em jogadas comerciais que considerei nefastas com o passar do tempo. Era ridículo comprar a coleção de uma banda que algum tempo depois tinha o catálogo relançado em edições com faixas bônus, e como se não bastasse eram relançadas mais tarde com faixas bônus e edições remasterizadas com acabamento de arte luxuosos. Isso era algo que me causava nojo, porque era como fazer papel de otário. A magia estava sendo dizimada da face da terra. Eu iniciava uma coleção, e quando via tinha de me livrar de toda ela em detrimento da mesma coisa pela terceira ou quarta vez. Isso que nem comecei a falar do processo de oxidação que devorou dezenas de discos. Acho que em CD cheguei a uns 500, 600 discos. Iria mais longe se não os usasse como moeda de troca na hora de adquirir mais. Não dava pra ficar com um monte de cópias de um mesmo disco, eu optava pela de melhor refinagem. Porém, a indústria do CD virou algo que para mim perdeu toda a graça muito rápido, então só me restava lamentar a perda dos meus velhos discos de vinil. Havia um número incontável de encalhes sendo lançados pelas gravadoras em CD, lixos que davam vontade de quebrar em mil pedaços e ficar com aquela sensação de ser enganado.

A trajetória de agonia e declínio do CD foi uma parada dura. Esse lance dos mp3, dos downloads gratuitos, podia ser algo legal por um lado. Para um colecionador ou pesquisador sério era, mas por outro eram um pé no saco, porque qualquer Zé Mané da noite para o dia vinha dizer que possuía todas as coleções de todas as bandas possíveis e impossíveis, e expressavam isso como se tivessem real conhecimento ou contato verdadeiro com aqueles discos e bandas como nós, colecionadores reais que investíamos pesado, tínhamos. Toda aquela parada que a gente absorvia e vivia na pele quando saíamos à caça e descolávamos pérolas perdidas batendo pé em tudo que era loja, sebo, troca-troca. O papo era outro, o feeling era outro. Ouvíamos disco a disco, faixa a faixa. Cada um dos álbuns de nossas coleções tinham uma importância tremenda, um valor agregado que hoje é muito raro de se ver. Eu via um lado muito fake, muito superficial, vindo à tona velozmente. Algo sem base, sem referencial, sem ponto de partida. Nesse ponto confesso que desanimei geral de gastar em discos. É uma coisa que só quem viveu sabe: tudo o que vem fácil tem muito menos valor. A internet é um meio maravilhoso de informação, mas a quantidade de falsidade, aparências e lixos de tudo que é tipo é hoje um fator, ao meu ver, perigoso e altamente emburrecedor de cérebros.

Só comecei a me empolgar novamente quando blogs feitos por pessoas sérias e entendidas em cultura começaram a aparecer. Foi preciso readaptar meu lado analógico para essa nova e irrefreável realidade virtual. Até que os LPs voltaram a pintar nas paredes das lojas para minha surpresa geral, e num belo dia eu disse a mim mesmo: vou voltar a colecionar discos de vinil. Recomecei meu interesse há dois anos e meio atrás. Primeiro descolei um prato vintage Technics, que fundiu em seguida. Depois descolei um Stanton zerado, o que me deu base para extrair um bom som antes de recomeçar. Ironicamente o único LP que havia sobrado era o velho Blizzard of Ozz, hoje com 30 anos de vida. Atualmente estou com cerca de 700 discos, porém o processo hoje é muito mais seletivo do que antigamente. Não é nada barato adquirir uma boa joia rara, mas é legal sair novamente na procura, sejam de discos que ainda se acham por aí ou aqueles álbuns mais valorizados ou raros. O investimento vale porque o item é valioso e limitado. Com a atual procura a tendência é sumirem rapidinho de nosso raio de visão. Vai ser muito difícil recuperar tudo que perdi, mas tá valendo.

Sei que você não coleciona apenas vinil. O que mais você curte?

Bom, como aqui o papo é coleção, devo dizer que as minhas não se restringem somente a discos. Coleciono bonecos, action figures e miniaturas, na maioria de personagens clássicos do cinema, rockers, motos clássicas, carros. Hoje possuo algo em torno de 300 peças, a maioria armazenadas em uma vitrine expositora que projetei por anos excepcionalmente para isso, para preservação dos itens. Levei dez anos até que ela ficasse como eu planejava, o que só consegui tornar realidade alguns meses atrás. O restante dos itens estão espalhados por todos os cantos da casa, alguns ainda esperando por espaço que terei de usar o cérebro para inventar.

Também coleciono DVDs de shows e filmes cult. Hoje já devo ter bem mais de 800 unidades, pelo menos tinha isso da última vez que contei, e só parei de contar porque não consigo mais local para armazená-lo, então já tem muita coisa indo parar em caixas, o que é um inferno quando se quer achar algo que estou com muita vontade de ver e não se sabe exatamente onde está. Curto muito literatura também. Tenho muita coisa do Bukowski, mas Stephen King predomina, devo ter uns 30 livros dele.

Livros ligados à arte e fotografias da história do rock são outra de minhas paixões. Vivo procurando obras sobre capas, artes e memorabílias de rock dos anos 60 e 70. Sou fã em particular dos caras da Hipgnosis, e coisas sobre o movimento punk old school também me atraem muito, além de biografias de grandes mestres. São vidas fascinantes.

Álbuns de figurinhas, que foram as primeiras coisas que colecionei. Ainda guardo muita coisa e volta e meia cato algo raro ou novo, só pela sensação bacana de abrir os pacotinhos, completar as páginas. O primeiro contato com álbuns foi quando devia ter uns 12 anos e fui bisbilhotar um galpão onde um de meus tios guardava suas antiguidades. Ali encontrei um baú abarrotado de álbuns. Cara, algo em torno de 1.000 deles. Era fascinante de se ver, cada um sobre um tema específico, e não sei nem precisar o quanto eram antigos - certamente havia coisas dos anos 50 para trás, abrangendo toda a cultura pop do tempo dele, quase tudo ainda desenhado, muito pouco em fotografias, um relicário do estilo. É um prazer falar isso aqui, relembrar esse momento. Tinha um pé de goiabeira atrás do velho galpão e comer goiabas (como o Chico Bento) era a desculpa que eu dava para minha tia me deixar ir para os fundos da casa dela, pois eu sabia que meu tio não deixava ninguém tocar naquilo. Tudo me traz tanta saudade ... muita gente já criticou minha nostalgia, mas posso voltar no tempo. Nos momentos mais felizes, apenas lembrá-los é um retorno, seja mentalmente ou tendo algo que os traga de volta exposto, da mesma forma que não posso negar que o presente também é um momento de felicidade plena, e sei também que amanhã ele será passado, só o presente há, por isso ignoro pessoas que dizem que vivo em outra época. Tem também aqueles que não vêem nada nisso, acham uma tremenda bobagem, mas cara, sei lá, apenas sou eu e aquilo que um dia ficará como um mapa genealógico da minha vida.
  



Qual gênero musical domina a sua coleção? E, atualmente, que estilo é o seu preferido? Essa preferência variou ao longo dos anos, ou sempre permaneceu a mesma?

Nenhum gênero musical domina minha coleção. Quando saio pra comprar busco alguma coisa em todas as seções - psicodélicos básicos, psicodélicos raros, folk básicos e clássicos, as grandes obras-primas, venenos de respeito, heavy clássicos, new waves e punk rockers old school, hard rockers, pop rock anos 80, funk anos 70, alt country, stoner, garage bands, novidades. Mas o grande barato de um colecionador maluquete é ele ser surpreendido por algo que não esperava. Quando entro em uma loja entro com essa esperança. Nunca sei o que vou encontrar lá dentro. Posso sair sem nada fora do normal ou sair com algo que eu realmente não acreditava que um dia encontraria.

Eu não consigo dizer que tenho um estilo específico, isso vai muito do clima que estou em determinado momento para ouvir um som. Das novas, o Danko Jones eu escuto muito. O disco Below the Belt é um grande passo na evolução do cara. O Brothers do Black Keys é fantástico, o Let Them Talk do Hugh Laurie é surpreendente, magnífico. Mas eu sou imprevisível nesse lance de saber se o que vou estar curtindo hoje eu estarei na mesma pilha amanhã. Curto esse “não saber”. Achei o último do Foo Fighters, Wasting Light, um disco genial, tá furando de tanto rolar no prato.

O metal atual me surpreendeu com o álbum de estréia do Ghost (heavy old school de altíssimo nível). O Mastodon e o Black Mountain também são coisas da safra nova que mesclam peso com outras sonoridades e chamam muito minha atenção, excelentes bandas que mereceram ter o vinil.

Não posso esquecer do Fly From Here, o novo do Yes, fantástica viagem progressiva. O novo Matanza também é um dos LPs que mais ando escutando, os caras estão cada vez mais surpreendentes. A banda solo do Taylor do Foo Fighters também é animal.

Fora isso, o barato é volta e meia pegar um disco aleatoriamente e botar pra tocar. Ficou mais legal fazer isso depois que descolei a maleta vitrolinha da Phillips - boto as pilhas e levo pra qualquer canto.

O segredo é ter de tudo um pouco em sua discoteca básica. Hoje é muito mais fácil separar o joio do trigo, ter certeza do quanto um disco tem mesmo valor agregado ou não. Na época original de cada um não dava para se ter certeza. Os novos álbuns das bandas eram lançados, e mesmo que você curtisse ou não logo na primeira audição você levava pra casa e se arrependia ou não.

Algo que acontece volta e meia é quando não sai nem o CD nem o LP e a gente tem de catar os sons na internet numa pesquisa cansativa, mas que rende bons achados. Nesse caso específico, o que mais tem rolado recentemente são os sons da trilha sonora das três temporadas da série Sons of Anarchy, um borbardeio de refinamento musical que oscila entre stoner rock, rock de garagem sixtie, alt country, country rock e belas canções estradeiras. Muita gente nova e surpreendente nessa trilha cara, genial!

De resto, semanalmente busco LPs clássicos do rock, os discaços, os que marcaram cada banda em suas gerações. As três mais recentes aquisições foram os quatro primeiros discos do Cactus, que são uns pataços, e o Space in Time do Ten Years After.


Vinil ou CD? Quais os pontos fortes de cada formato, para você?

Vinil, direto! Pela capa, pelo som, pelo astral, pelo sentimento, pelo passado ligado direto na vida da gente de maneira muito mais forte que o CD. Mas ainda há problemas para consegui-los por não ser mais o formato atual de mercado. Comprar discos importados com prensagens atuais e de gramatura decente é caríssimo no Brasil.

A gente é nostálgico. Não somos colecionadores porque está na moda comprar vinil, e esse lance é meio onda hoje. Tem gente que compra mesmo sem ter onde tocar porque é coisa de hype, o que é ridículo. É meio delirante que a gente ache que tudo voltará a ser como no passado, que os catálogos serão prensados novamente no Brasil com força total, que aparelhos entrem no mercado popular. A música vai ficar cada vez mais virtual e vai tender a perder o aspecto físico, é isso que eu acho. Vai tudo parar no pendrive e sei lá o que irão inventar pela frente, mas não me importa. Mas talvez o LP ainda tenha muito a surpreender. Algum tempo atrás nem se ouvia mais falar, agora você vai em uma loja especializada em rock e há vinis decorando as paredes.

O CD tinha a vantagem de ser mais compacto, ouvir no carro. O melhor de sua chegada foi a possibilidade de relançamento de pérolas do rock, discos que nunca se imaginou que seriam recolocados em catálogo. Os boxes são coisas que não poderiam existir se não fosse por esse formato, a exemplo dos Nuggets, das caixas com takes alternativos extraídos das sessões de grandes álbuns. Há coisas muito belas lançadas somente em CD, e não vou negar que o CD possibilitou o MP3, que possibilitou que você ouvisse algo antes de comprar. A gente sabe que muita coisa que foi jogada no mercado é encalhe, é coisa de obrigações contratuais de terceiros, discos com material de péssima categoria, como muita coisa do Hendrix e do Marc Bolan  por exemplo. Detalhes desse portal infinito que se abriu com o download na rede.
  
Existe algum instrumento musical específico que o atrai quando você ouve música?

Isso é muito relativo, depende da banda em particular. Cada banda sempre acaba destacando algo, mas se fosse optar para não deixar essa pergunta sem resposta acho que escolheria uma bateria cavalar. Sou fissurado em bateristas animais.


Qual foi o lugar mais estranho onde você comprou discos?

O lugar mais estranho que comprei discos foi em um brique de móveis velhos. A especialidade do lugar era só móveis mesmo, condomínios de cupins e baratas. Lembro que na época todos aguardavam o álbum novo do Red Hot Chili Peppers, o cultuado Blood Sugar Sex Magik. Havia muito comentário e badalação em torno daquele lançamento porque o disco tinha sido produzido pelo Rick Rubin e tal, era duplo, e a banda tava pegando legal na cabeça da moçada. O álbum, na época, não havia saído no Brasil ainda e não havia saído oficialmente nem lá fora. Aconteceu que, passando na frente dessa espelunca, acabei enxergando uma caixa com alguns vinis dentro e fui dar uma olhada como quem não quer nada e, inacreditavelmente e pra meu espanto total, naquela caixa havia uma cópia exclusiva de divulgação gringa do falado álbum! Puts, foi uma surpresa e tanto, Ricardo! Foi um achado, porque acabei descolando o disco primeiro, antes de qualquer um. Provavelmente alguém da gravadora lá fora havia pego o disco, presenteado algum amigo brasileiro que o vendeu assim que chegou por aqui. e por um troco qualquer. O xarope foi que todos os camaradas passaram dias batendo na minha porta pra ouvir o vinil ou pedir emprestado. Na época não havia “vazamento” de disco novo. Esse foi um lance que não esqueço! Sempre tive essa mania de correr pra pegar um lançamento ou alguma raridade de alguma banda. Sempre fui um fissurado, um doente por vinil, mas aquele acontecimento foi surreal!

E cara, tem um acontecimento bastante surreal que rolou também, um fato bem na época em que eu estava na viagem alucinada de curtição do Killers, do Iron Maiden. A noticia da entrada de um novo vocal já rolava e me assustava um pouco, porque eu realmente era doido por aquela fase inicial. O Maiden naquele começo bombástico me pegou de cheio e bateu forte pacas, e não havia como saber como seria dali por diante e muito menos quando eu teria aquele vinil para ouvir, me decepcionar, ou não. Mas eis que num belo dia um camarada do meu grupo de bicicross, que era de uma família crente, embora ele tentasse ter seu gosto pelo rock, a família o proibia, mas o cara tinha sido ousado e importou uma cópia do The Number of the Beast com um parceiro dele que havia ido ao exterior. Bom, foi só o trabalho de entrar pela porta e a mãe bater os olhos na capa do álbum, the dream it’s over ... Esbravejando, a mãe do guri mandou que ele se livrasse daquela coisa do diabo naquele mesmo instante, e como ele sabia que eu curtia a banda foi bater lá em casa e me disse: "Nino, você quer um LP do Iron Maiden de graça, porque eu não posso ficar com ele, tenho de me livrar o mais rápido possível". Vocês devem imaginar a cara que fiquei quando vi que o disco era o novo dos caras! No ato eu aceitei e agradeci, e me livrei do camarada pra colocar aquele álbum desesperadamente no toca-discos. Meu Deus, o Maiden estava inacreditavelmente mais forte e imbatível, e o tal Bruce Dickinson era animal! Confesso que curto os dois vocais, as duas fases, mas aquele álbum era um passo para o estrelato certo, era impossível dar errado. Foi algo que até hoje não sei como aconteceu de tão surreal (risos).

Qual foi a melhor loja de discos que você já conheceu?

Tem algumas lojas que marcam a gente. A Pop Som, em Porto Alegre, foi uma delas. Eles foram a loja mais legal nos anos 80, reinaram soberanos por um tempão. A Megaforce é inesquecível também, era ponto de encontro do pessoal que curtia som pesado. Todo sábado eu ficava vagabundeando por lá, trocando figurinhas (matérias importadas) e informação com a turma do metal. Os discos eram importados e caros, o lance era gravar as fitas que eles comercializavam. Era muito maneiro! Teve uma época em que o andar de cima da loja virou sessão de cinema e passava shows muito irados, deixou saudades. A Disco Voador também foi lendária.

Hoje não consigo citar uma loja que seja a mais legal. Seria injustiça com os proprietários, pois onde vou acabo ficando amigo deles, tipo a Boca do Disco, a Zeppelin, a Toca do Disco de Porto Alegre, as lojas das galerias do centro de Sampa, as lojas especializadas que visitei em cada canto que fui pelo Brasil. Acho que o grande barato não é ser a melhor loja. O grande barato pra mim é entrar em um lugar novo e passar um pente fino em cada disco. O legal é encontrar algo que a gente não esperava. É o efeito surpresa. Pode acontecer aonde a gente menos espera.
  
Conte-me uma história triste na sua vida de colecionador.

Foi me desfazer de toda a primeira coleção de vinil. Isso é algo que nunca vou deixar de lamentar porque, se tivesse guardado, hoje eu teria uns 5 mil discos. Me desfazer de todos os CDs, dos brinquedos que destruí, dos álbuns que rasguei em pedacinhos quando era uma criança peralta (um álbum da turma da Hanna Barbera 1977 hoje custa em média 300 reais no mercado), dos livros que perdi por pura desatenção (tenho sérios problemas por falta de atenção, a biografia do Sepultura hoje não sai por menos de 300 reais e eu tinha). Mas tudo bem, é a vida, shit happens.




Como você organiza a sua coleção? Dê uma dica útil de como guardar a coleção para os nossos leitores.

Eu não tenho muito a acrescentar como dica, sou meio bagunçado. Leva um tempão para organizar, mas quando você desorganiza é um pé no saco. Se você tem centenas de discos o que mais dá certo é a separação por ordem alfabética, o resto é saber cuidar. No mais é ter carinho por aquilo que você estima. Só quem coleciona sabe valorizar, só quem um dia perde algo que teve e curtia muito é que depois vai sentir na pele o que é não reencontrar o que perdeu.

Não são todos que compreendem o que é colecionar algo. A gente acumula discos e tem álbuns que talvez a gente nem vá ouvir novamente antes de morrer, mas só o fato de uma obra estar ali significa que está ali por algum motivo, por alguma época de sua vida, por algum acontecimento que te marcou - pelo menos nas minhas coleções cada item tem o seu porque.

Uma dica é sempre limpar um LP usado quando você compra. Faça isso na hora, se deixar pra depois você se perde. Use algum produto de limpeza especial se você tiver, ou simplesmente um detergente líquido. Enxague bem em um pano bem macio, passe sobre os sulcos em sentido horário (não há problemas se molhar o rótulo, pois eles secam), depois retire a espuma na água corrente, e de resto é só deixá-los em algum local para secar apoiados de pé em algo, sem muita luminosidade refletindo neles, pois isso irá retirar toda estática do disco (o excesso de ruídos que não são da gravação, as famosas "pipocas", embora isso dê um certo charme na audição, em exagero incomoda) e melhorar muito a vida útil do item. 

Além da música, que outros fatores o atraem em um disco?

Capas e artes. Ter um bom trabalho gráfico é genial, sou fissurado nesse lado. O vinil possibilita muito espaço para uma bela arte. Por ser maior causa mais impacto e tem vários detalhes legais, como o tradicional cheiro que um vinil novo (ou velho). Quando o lance é CD eu curto quando há um puta trabalho artístico em cima. Um belo box tem o seu valor, os itens adicionais que vem junto, livros, réplicas imitando LPs, posters. Geralmente nos LPs não costuma ser assim, até existem exceções, mas nem sempre há money pra comprá-los.







Quais são os itens mais raros da sua coleção?


Eu vou falar no geral, e vou esquecer um monte de coisas. Há itens que às vezes acho que saíram de catálogo, mas que volta e meia reaparecem à venda hipervalorizados em algum lugar. Centenas de coisas que possuo em minhas coleções, se alguém garimpar bem garimpado, acaba encontrando, ou se não achar em algum momento a parada acaba surgindo em algum canto algum tempo depois, então vou tentar citar alguns que realmente nunca mais vi por aí.

- A réplica da batera psicodélica do Keith Moon é uma preciosidade que guardo em uma redoma de vidro. Só pra ter uma idéia, é como uma pérola.

- Os bonecos do Cheech and Chong do filme Up in Smoke são raríssimos também, porque foram lançados na época do filme e retirados das prateleiras pela policia logo em seguida. Hoje não se acha isso em lugar nenhum.

- Algumas edições raras de bonecos do Star Wars lançados nos anos 80 também são muito raros.

- Recentemente adquiri uma raríssima réplica da Harley Davidson usada pelo Peter Fonda no filme Easy Rider, um de meus filmes prediletos. Foi uma disputa a tapa pra descolar essa belezinha, mas levei a melhor.

- Na coleção dos carros, o item mais raro é a réplica do Impala 67, o mesmo carro usado na série Supernatural.

Em termos de vinil não sei dizer exatamente o que está fora de catálogo, isso é muito relativo. Um colecionador sempre tem em mente que algo que não encontrou em determinado momento pode aparecer em outro. Um bom colecionador tem que estar sempre ligado, diariamente, nos meios de obtenção do que ele busca, sejam raros ou não, mas posso citar alguns que não são fáceis de encontrar e, quando aparecem à venda, os fãs não perdem tempo pra obtê-los.

- Tenho todos os LPs triplos lançados pelo Motörhead. São belas edições luxuosas com vinis coloridos dos álbuns clássicos da banda, assim como livros e boxes deles.

- Também tenho o No Remorse, a clássica coletânea da banda, na edição com a capa de couro, que foi lançada de forma bem limitada.

- Black Sabbath é outra das bandas que tenho muita coisa legal, não só em discos mas também em livros e tralhas importadas. Destaco os duplos de luxo com o selo original da Vertigo e várias faixas inéditas lançados alguns anos atrás (o primeiro, o Paranoid e o Master), sem contar toda coleção europeia lançada pela Earache Records em edições de luxo.

- Alguns álbuns mais obscuros e clássicos também habitam minha coleção, e são discos que curto pacas, como o Love and Poetry do Andwella’s Dream, o Parachute e o S.F. Sorrow do Pretty Things, o primeiro do It’s a Beautiful Day, o primeiro e o segundo do Dust, os primeiros do Cosmic Dealer, Armaggedon, Demian, Three Man Army, Armaggedon, Gandalf, Buffalo, Kak, November, Music Machine, Quicksilver Messenger Service, toda a coleção do Dr Feelgood, do Bob Seger, metade da coleção do Cash, toda a coleção do Thin Lizzy, Terry Reid (Seeds of Memory) que acho fantástico, os LPs do Elf com o Dio - que aliás tenho tudo também, inclusive com o Rainbow e em carreira solo -, as versões duplas de luxo do Hendrix (sonoridade matadora em vinil!), tudo do The Who - inclusive o Who's Next triplo, o Sell Out duplo, o original completo do Live at Leeds com pôster e itens sobre o evento e 22 DVDs da banda.

- O E Pluribus Funk na versão moeda, o Village Green dos Kinks em versão original, o Neil Young Harvest em versão original de época, o The Faces Oh La La original com a clássica capa que se move, Savoy Brown (Street Corner Talking), ZZ Top (Fandango, Tres Hombres e Deguello, que são os três melhores deles ao meu ver), Crossfire (See you in Hell, esse eu citei porque tem uma  capa muito maneira e é um disco também muito raro), o primeiro LP do Keane - que hoje é quase impossível de se descolar em vinil -, The Dirtbombs (Ultraglide in Black, que descolei autografado e que pra quem não conhece é uma banda atual de Detroit que arrasa, e esse disco só de covers é ainda mais matador, mistura de soul music com "zumbideira" de garagem sixtie).

- A versão dupla, em bege transparente do Songs for the Deaf do Queens of the Stone Age lançada pela Ipecac Records, gravadora do Mike Patton, foi um achado raro.

- O Probot (um dos discos que achei que jamais conseguiria) foi outro.

- Os álbuns top da era psicodélica e dos anos 60 eu creio que tenho de tudo um pouco.

- Do ACDC também possuo toda coleção e até renovei ela adquirindo as versões com gramatura maior e um acabamento de arte mais bacana lançados recentemente.

- Coisas legais da cena old school punk tipo Stooges, MC5, New York Dolls, Dead Boys, Pistols, Dead Kennedys, Ramones importados, Black Flag, Damned, The Tubes, clássicos da new wave e surf australiana tenho um bocado também, tipo Joe Jackson, Romantics, The Knack, Plimsouls, Hoodoo Gurus, Australian Crawl, Sunny Boys, Ultravox (o Rage in Eden é bem raro de se achar e é um puta disco), o Jack Green, do qual cito o Humanesque, essencial álbum de surf new wave muito raro de se achar hoje.
  
- Algumas bandas novas ou da última década tenho bons petardos também, e ainda estou na luta para obter alguns títulos fora de catálogo de nomes como Monster Magnet, Foo Fighters, Danko Jones, The Hives, Kasabian, Hellacopters, Gluecifer, Dandy Warhols, bandas que já descolei tipo uns 2 ou 3 álbuns de cada, mas fico  sempre de olho nos leilões do eBay para ver se pinta o que falta - essa parte aliás é a mais chata para um colecionador.

- Dessas bandas novas que curto e que consegui completar toda coleção foi o Muse, acho uma banda fantástica.

- Por último não tem como esquecer da cópia autografada pelo David Grohl do primeiro disco do Foo Fighters, descolado em um show da banda ainda no começo deles, na fase dos pubs bem menores.  

Na real a lista é longa, citei itens que tive um grau de dificuldade maior para conseguir e sei que grande parte não se acha em qualquer lugar, para conseguir tem wur ir fundo. Os três boxes dos Nuggets e o The 70’s Punk Rebbelion também me deram um trabalho danado pra descolar.

Das recentes aquisições consegui o box oficial do Beavis and Butthead, caixa dourada luxuosa com 10 DVDs contendo tudo lançado por eles na época na MTV, um item fantástico e também muito raro hoje.








Você tem ciúmes da sua coleção?

Bom, hoje moro no interior do Rio Grande do Sul, vivo meio isolado, meio eremita. Antigamente, quando morava na capital e não havia internet, o ciúme era maior, porque aquele que pedia algo emprestado era porque não havia como ele descolar para ouvir se não fosse de outra forma. O raro era raro mesmo, esse lance de importação era coisa da qual ainda não se tinha nenhuma noção, só rolavam plays importados se algum abonado trazia de uma viagem ao exterior.

Uma vez houve um incidente que me deixou irado. Eu não curtia emprestar discos, mas os camaradas às vezes choravam muito pra levar um dos meus pra casa e eu acabava emprestando. Em uma das vezes larguei um disco que eu curtia pacas na mão de um brother meu que eu confiava, mas já havia recusado de emprestar o mesmo disco pra outro cara que havia me pedido antes. Eu não ia muito com a lata do sujeito, e da minha coleção só saía algum disco se eu confiasse muito na pessoa. Aconteceu desse cara bater na casa do meu camarada enquanto ele trabalhava e dizer para o irmão dele que eu havia liberado pra lançar o disco pra ele. Na inocência o guri entregou o disco pro cara, que levou o LP pra casa. Só que o sujeito se vingou, riscou os sulcos com um prego de fora a fora nos dois lados e devolveu ao irmão do meu camarada na mesma tarde, sem que meu brother nem percebesse que ele havia saído dali. Quando fui pegar o disco de volta e vi o estrago eu fiz um escândalo, saiu briga de porrada, armei um barraco. Era um LP dos Sisters of Mercy (eu curtia muito aquela época gótica e idolatrava pacas o Sisters). Foi quase de pintar a polícia, nunca esqueço disso e até hoje nem posso ver aquele trouxa na minha frente. Depois disso ficou muito difícil sair qualquer coisa da minha casa.

Aqui onde moro não tenho muitos amigos conectados ao universo do vinil, na real acho que só um camarada está ativando uma coleção, mas é cada um na sua, então não tem muito isso de emprestar. Nos anos 80 era só vinil, então pra ouvir você tinha de ter o disco ou o k7, a coisa rodava muito mais e era uma outra espécie de valorização também. Quando se curtia um disco ouvia até furar. Hoje, ouvir o vinil é um momento quase ritual.

A ciumeira bate mais na coleção dos action figures, miniaturas e réplicas. Cara, me apavoro só de pensar em uma criança chegando perto. Não desgrudo nem o olho quando tem alguém limpando a casa. A réplica do Impala 67 já perdeu um retrovisor, e isso me deixou deprê (risos).


Quando você está em uma loja procurando discos, você tem algum método específico de pesquisa, alguma mania, na hora de comprar novos itens para a sua coleção?

Cara, na real quando entro em algum lugar onde sinto cheiro de que vá ter algo que me interessará, mesmo sem saber se terá ou não, eu ativo o “modo procura”. A mania é fuçar tudo, olhar em cada canto. Descolar algo surpreendente nesse “modo procura” deixa um colecionador feliz.
O complicado é a patroa. O colecionador é compulsivo, se achar vários itens a única coisa que vem à cabeça é a pergunta: “Onde vou encontrar isso novamente?”. E para convencê-la? É osso duro brother, o cara sempre gasta mais do que deve dentro do orçamento que tem disponível como limite estipulado. Às vezes não rola, e aí o cara fica emburrado e com um beiço enorme.

Eu sou maníaco mesmo, preciso de acompanhamento psicológico para lidar com essa ânsia de colecionar, porque nessas até um io-iô da Coca-Cola tem valor, uma tampinha de refri da época tem valor, um brinquedo antigo tem valor, álbuns antigos, gibis, figurinhas, livros. Quando eu ponho uma ideia na cabeça é foda de tirar. Se vou a alguma capital que possui lojas bacanas e estou com a família é extremamente agonizante, porque é bem capaz de eu passar uma tarde inteira dentro do local. Tento agilizar, mas a sensação de ter de me apressar me frustra, porque sempre acho que acabo perdendo alguma boa descoberta.Vou te confessar um segredo de maluco: eu queria muito era descolar uma bala Xaxá, muito comum nos anos 80, só pra guardar como relíquia. Um Ploc, ou aquelas balas que vinham numa tripinha colorida com vários desenhos, mas nem lembrar o nome do item eu consigo. Só posso ser doente, né? (risos)






O que significa ser um colecionador de discos?

Acho que para nós, colecionadores, significa preservar a cultura da qual fizemos parte ou da qual estivemos e estamos conectados. Em cada disco que possuo tem um pouco da minha história, algum som que marcou. É algo do qual eu ouvi bastante quando descobri ou representa algum momento especial na vida da gente. Cada coleção sempre tem algo de muito pessoal a cada um, pelo menos penso assim. Minha natureza é de cunho nostálgico. Tem muita gente que pode achar supérfluo, mas eu penso muito pelo contrário. Eu sei que a gente vive no presente, mas mesmo o passado um dia foi esse presente. Tudo é sempre um eterno presente. Quatro gerações são suficientes para armazenar muita coisa.

O que mudou da época em que você começou a comprar discos para os dias de hoje, onde as lojas de discos estão em extinção? Do que você sente saudade?

Cara,  acho que na medida em que o tempo vai passando em nossa vida, no meu caso já na reta dos 45, a gente já não absorve mais as coisas com aquele brilho fantástico da adolescência, da juventude. Sei lá, acho que nossa mente é como um imenso HD, e chega um ponto em que ele começa a perder a capacidade de absorver e sentir as coisas com a mesma magia que um dia fez. A gente meio que começa a transbordar de tanta informação que acumulou.

Acho que a gente viveu momentos muito intensos onde novas gerações se manifestaram na cultura  mundial de maneira bombástica. Vivemos toda aquela intensidade dos anos 70 e ainda sentindo forte os ecos das gerações que recém haviam passado, a vibe dos anos 60 totalmente conectada ao Blues e aos anos 50. Não vou negar que os anos 80 foram meu despertar, e os anos 80 foram uma continuidade daqueles momentos. Mesmo que a música tivesse atingido um patamar mais pop e comercial, não se pode negar que até aquela década a efervescência ainda era mágica e eternizou-se. Os anos 90 foram legais também, muita coisa boa, vivida no timing, mas a partir do final daquele ponto comecei a me perguntar se nunca mais iria passar aquele filme que eu queria ver de novo, sabe?

Existem ótimas bandas no mundo hoje, tem discos muito legais sendo lançados, mas sinto falta de como tudo era antes. Ainda há muita informação a ser absorvida, descoberta, mas hoje tudo é tão cômodo. Não que seja ruim, é mais fácil para nós, mas nada se compara aos tempos em que eu juntava uma grana, saía num sábado bem cedo de casa e partia rumo ao centro da cidade para fazer aquela clássica tour por todos as lojas que vendessem discos. Era muito mágica a sensação, sair sem saber o que ia se descolar de legal. Você podia voltar sem nada ou com vários discos bacanas que passaria a semana toda ouvindo em seu aparelho. Sei lá, o vinil tem sua magia né, aquela época tinha sua magia. Nada caía do céu, nada era fácil demais, era meio loteria a nota que a gente dava para alguma novidade ou surpresa que encontrava pelo caminho, por isso a gente dava mais valor. Foi uma grande pena quando a indústria desvirtuou tudo isso com a invenção do CD. Pode até não ser um atraso tecnológico, afinal tudo caminha para a frente, mas algo deu errado, tanto é que o formato está condenado, ou literalmente morto.

Nunca ouvi ninguém dizer que ter um LP era ter um objeto trambolhão, gigante, desengonçado, feio e ultrapassado. Isso de rebaixar o formato vinil foi invenção da mídia pra vender a novidade. O problema é que essa novidade cabia dentro de um computador com a maior facilidade do mundo, e possibilitou que uma música virasse um arquivo facilmente possível de surfar pelas ondas da rede mundial. Se ainda fosse o vinil, duvido que tudo estivesse tão dramático para a vida da indústria fonográfica. Tudo tem seu lado bom e seu lado ruim. Creio que o LP não quebraria a indústria de maneira tão feroz, mas o CD se encaixou onde o vinil não ia, só que toda concepção, todo o plano era o de compactar o formato cada vez mais, só que a tecnologia andou rápida demais e fulminou o formato físico do CD muito mais rápido do que se imaginava. Hoje, o lance é jogar 500 músicas num pen drive e levar pra tudo que é lado.

Mesmo nostálgico, mesmo sendo um cara vintage, eu não desprezo as lojas virtuais porque temos de viver com elas, e elas conseguem o que a gente quer. A Amazon é uma baita loja, os LPs saem muito em conta comprando por lá. No eBay também, se você ficar ligado nos arremates é capaz de descolar um bom vinil por até 10 dólares tendo paciência de ir até o último minuto, só que às vezes tenho muito receio e dou preferência por comprar em lojas nacionais especializadas porque não se corre o risco de ter seus produtos confiscados na alfândega, a pior das dores de cabeça.







Além dos discos, você é um dos criadores da Marka Diabo Camisetas, onde, na minha opinião, você consegue produzir itens que demonstram não só a sua paixão pela música, mas também um sentimento geral que acompanha quem vive essa realidade. Conta pra gente como surgiu a Marka Diabo.

Surgiu da vontade de fazer algo com o que eu tinha dentro da minha cabeça, surgiu da vontade de colocar na roda informações que poderiam ficar condenadas para sempre como um sonho dentro de mim se não fizesse algo do tipo. Eu iria estagnar com toda certeza. Vivi momentos que me possibilitaram conhecer muitas coisas, tinha ido muito mais fundo onde normalmente um fã de música ou cultura vai. Eu já tinha feito muita coisa na vida quando, em 2005, resolvi encarar essa ideia no peito. Já tinha passado por várias etapas, já tinha incorporado vários segmentos musicais e elementos da cultura pop com toda força. Ser um roqueiro e xiita era algo eterno, mas precisava focar em algo que fosse concreto, precisava acreditar em algo que pudesse ser legal, real, diferencial, e expor o que para mim era um tesouro.

Eu queria expressar a vontade de lutar pela divulgação da cultura por meio das camisetas, não havia capital algum. Isso ao mesmo tempo me fazia batalhar por uma causa também artesanal, sem nada de produções em série. Era um sentimento contra a ignorância da qual eu sentia que toda uma nova geração estava sendo aos poucos submetida, oca e sem raízes fundamentais, sem o culto aos ancestrais, sem a sabedoria da fonte. Para viver é preciso ousar, arriscar, conhecer e não estagnar no comodismo, na zona de conforto tal qual o mundo parece caminhar atualmente, consumir sempre o que nos é empurrado goela abaixo com campanhas publicitárias milionárias que tentam sempre nos convencer de que o legal, o descolado, o inteligente, é o que é por eles imposto. Isso é massificação, e vejo isso muito na cultura. Na real sempre teve disso na história que a gente mesmo curte. Foi assim desde que o rock virou mainstream, mas havia genialidade e diferencial, havia frescor e surpresa. Isso vem desde que o Allan Fred botou um Chuck Berry pra tocar em seu programa de rádio e o rock passou a incomodar e, consequentemente, virar sinônimo de grana. Porém, as coisas hoje parecem como se tivéssemos voltado no tempo. Antes disso acontecer, se Allan Fred não tivesse existido, como seria? O rock ainda estaria entrando pela porta do fundo das casas de shows? A futilidade de grande parte da cultura é tão desprezível, mas não vê isso como ruim, é business, são negócios. Se não interessar mais que seja popular não será, ao menos que você faça barulho forte. Não é justo pegar qualquer coisa e transformar em sucesso porque algum babaca sem noção acha o certo, mas é a realidade e sempre foi muito antes de qualquer coisa. Na real, o que importa é que precisamos que as pessoas caminhem por elas próprias de encontro a quem tem talento, porque isso te fará tirar a venda dos olhos e ver o que é bom. É questão de tempo e raciocínio próprio, mas te digo uma coisa: há tanto no rock (presente, passado e futuro) que daria pra passarmos centenas de vidas pesquisando e não descobriríamos tudo de bom que há gravado.

Eu sonhava em algo que juntasse todo esse referencial histórico sem preconceitos, bastava separar o joio do trigo de tudo que foi relevante, não importava quanto mais fundo eu fosse em meus estudos, não importava se o “trigo” fosse algo que 99% do mundo ignorou estupidamente, quando havia indícios para que pudesse ser o contrário.

Quando saí da Maria do Relento, em 2002, eu saí com a cabeça doente, com problemas pessoais. Haviam sido mais de 12 anos tocando sem parar e a vida na estrada vinha produzindo e piorando sequelas que ficariam irreversíveis se eu não desse um basta na loucura. Larguei tudo, fui para outro estado, peguei um trampo comum e passei os dois anos seguintes pensando na vida, isolado como um eremita, lendo, lendo, lendo, apreciando sons e discos como se apreciam bons vinhos. Foi uma época de intensidade no foco por aumentar meu conhecimento cultural, mas ao mesmo tempo uma época de profundas mudanças. Enfrentei uma separação conjugal, assumi a guarda de minha filha pequena e tive a sorte de reencontrar alguém que fazia parte do meu passado não muito distante. Essa pessoa veio até mim, me levantou a cabeça e me convenceu a acreditar novamente, a me direcionar para aquilo que eu mais gostava, transformando em algo que me desse muito prazer em fazer. Essa pessoa hoje é minha companheira e esposa Ana Paula.

Foi quando se deu o start na história das camisetas, que naquelas alturas já estava fortemente enraizada na minha cabeça. Eu sempre curti as t-shirts, sempre produzi as estampas das bandas que tocava, era algo totalmente ligado ao esquema "do it yourself", o lema que o punk me ensinou, que refletia nos fanzines que eu fazia descompromissadamente nos anos 80. Mas a Marka Diabo tinha de ser  encarada com a intenção de ganhar estrutura empresarial, crescimento, o que surgiu sem que ninguém ao nosso redor acreditasse, porque apostávamos justamente no lado oposto, no lado esquecido, no lado nostálgico, no contra-sistema, e acabou se tornando uma das empresas do ramo que mais tem crescido e feito a cabeça de quem manja do riscado cultural. Porém, estamos cientes de que desde que começamos nossos trabalhos que a estrutura bem dizer vive sustentando seu próprio peso adquirido. Escolhemos por um caminho braçal onde cada camiseta sofre todo o processo de elaboração serigráfica para que apenas ela seja impressa ao cliente, mas o que importa é ser algo compensador ao coração. O que mais vale no nosso trabalho é sermos reconhecidos como um baú de raras pérolas de nossos tempos. É um cliente entrar no site e dizer: "Cara, não acredito que encontrei isso aqui!".

Ter conhecimento de causa e vontade de lutar por um sonho é o que mais importa para mim. Eu vejo a nossa curtição como uma grande banda independente, que respeita seus fãs, que possui um compromisso com seu fã e que não se entrega á formulas passageiras.

Hoje já contamos com uma equipe bem maior do que em 2005. Nossos parceiros oficiais Danny the Geek e Fernanda e nossa equipe guerreira de produção, Alison, João e Matheus, os desenhistas Paulo Coruja (vocal da Cracker Blues) e Romulo Carniel, fora a turma técnica que nos acompanha na assistência, que vão de advogados a consultores, sem contar nossos fiéis "markeiros".





De onde vêm as ideias para produzir as estampas das camisetas?

Em primeiro lugar tentamos fugir o máximo possível do mais do mesmo que existe espalhado por aí, mesmo que na imensidão da internet isso às vezes seja impossível. Eu, minha esposa, o Danny e a Fê vivemos com um bloco de anotações nas mãos, e estamos sempre com a cabeça catando ideias. O trabalho de pesquisa é muito intenso, estudos são realizados em diversos segmentos, filmes são revistos assiduamente procurando referencias inéditas. A gente curte muito misturar ícones, isso já nos rendeu grandes momentos, como as duas vezes em que fomos escolhidos como camiseta do mês pela revista Bizz. Ser diferencial é o que nos move, principalmente na escolha de artistas, bandas ,filmes, referências. E um lance bem arqueológico, que vem da nossa própria vivência e conhecimento cultural. No momento, por exemplo, estou lendo cinco livros referentes a movimentos culturais ao mesmo tempo, prestando total atenção a cada frase e anotando tudo. Confesso que, às vezes, na hora de sentar no computador para pensar nas artes. chega a dar um nó no cérebro (risos).

Vários músicos já foram vistos por aí usando camisetas da Marka Diabo. Quem já vestiu a marca?

Nossa, a lista seria interminável. Esse lance da Marka apoiar os artistas é algo que vem diretamente daquilo que comentei acima e que aprendi com o Carlos Eduardo Miranda, O CONCEITO DA BRODAGEM. Desde a época em que vivi na estrada com a banda que a motivação por fazer amigos sempre foi algo latente em minha pessoa. Conheci muito fera na estrada que percorri. A gente viveu momentos muito intensos com a Maria do Relento. Dividimos o palco com muitos ídolos e bandas de força nacional como os Titãs, Ira!, Marcelo Nova, Barão Vermelho, Rita Lee, Paralamas do Sucesso, Cidade Negra, Jorge Ben, Skank. Tocamos mais de 20 shows dividindo o bus e o palco junto com o Raimundos em sua fase incendiária inicial, entre o primeiro e o segundo discos, sem contar que a banda percorreu a trilha da mídia de massa como Programa Livre ,Jô Soares, MTV e vários outros canais de TV e mídia impressa. Foi uma rotatividade muito alucinante na época, algo muito doido. Todo esse conhecimento e amizade fez com que o conceito da Marka se espalhasse entre a classe artística. Os amigos ajudaram muito vestindo a ideia, falando a respeito, no boca a boca, usando nos programas de TV.

Vou tentar lembrar alguns que usam direto nossas camisetas. O Matanza usa direto, é banda da casa. A aparição do Jimmy no Rock in Rio usando nossa camiseta exclusiva foi um momento muito importante para nós, e agora vem o Metal Open Air ... Velhas Virgens, Cachorro Grande, Roger Moreira e o pessoal do Ultraje também usam direto, e agora aparecem diariamente em âmbito nacional e pelo menos um deles sempre usa algo nosso no programa Agora é Tarde, da qual eles são banda fixa. Cracker Blues, Tomada, King Bird, Baranga, Léo Jaime, Renato Piau (ex-guitarrista da Vitória Régia), Biquini Cavadão, Kiara Rocks, Rock Rocket, Desvio Padrão, Marcelo Nova, Nasi, Wander Wildner, Maria do Relento, Sigma 7, Skank, Graforréia Xilarmônica, Rosa Tattooada, Acústicos e Valvulados, Reação em Cadeia, Erasmo Carlos, Mopho, Edu K, Raimundos, Chuck Hippólito, Débora Falabella, Blues Etílicos, The Headcutters, Nenhum de Nós, Roberto Sadovski, Marcelo Adnet e o Kiabbo... Peço desculpas aqueles que acabei esquecendo aqui.

Dentro dessa resposta não posso esquecer que tem camiseta nossa no couro do Mickey Dee, Matt Sorum e até do Allan Moore!!!!
  
As capas de discos servem de inspiração para criar novas estampas?

Sim, algumas sim, mas tentamos sempre fugir da imagem mais conhecida em geral. Captar algum ponto específico de alguma clássica capa tem sua importância e sai do lugar comum, e para um bom entendedor meia palavra já basta. A gente usa muito isso, externa ou internamente.

Quando você vê uma capa interessante já pensa nela como uma possível camiseta?

Depende. Primeiro tem de ser algo diferente, incomum. Na real curto mais viajar por cada centímetro de uma arte de capa, ou algo presente na capa, algum mero detalhe. Transformar, variar. Às vezes vejo uma capa mas não penso em utilizá-la ao todo, mas sim apenas alguma referência, alguma parte dela, que só quem manja sabe. É como falei acima, o lema na Marka é: pra bom entendedor, meia palavra basta. E fã que é fã manja mesmo, é um campo até perigoso, onde o risco de uma gafe gera uma feroz advertência do admirador nato.



Você vive viajando por aí. O espírito de liberdade do rock and roll faz parte da sua vida, certo?

Cara, com banda eu experimenteitotalmente esse espírito de liberdade. Foi maravilhoso ter passado todos aqueles anos na estrada. Vivíamos a vida rodando em ônibus de cidade em cidade, de quinta a domingo, agenda cheia, casa cheia, um público forte onde abrangíamos bem, principalmente nos três estados do sul do país. Os três discos e as três tours que participei renderam algo em torno de 600, 700 shows, mas ao mesmo tempo foi super frenético, passou voando. Eu fiquei dependente daquilo e de tudo que vinha no pacote de estar em uma banda de relativa exposição nos anos 90, onde tudo soprava a favor. A pressão era absurda. Gravadora é números, contratante é números. Estar exposto não era legal quando passava a ser secundário, mecânico. Às vezes num bus indo para algum show haviam algo do tipo três ou quatro pessoas estranhas junto da gente que estavam “intermediando” as apresentações. A gente era uma fatia de bolo sendo cortada totalmente. Muitas vezes era sinistro lidar, por não sabermos o que se passava de sincero dentro daquelas cabeças.

Mas paguei o preço por muitas coisas e nem tudo pelo que paguei foi bom pra mim. Os excessos eu confesso que até hoje me fazem sentir sequelas deixadas por ter ultrapassado limites, e às vezes, hoje em dia, parte de algum sentimento chamado “liberdade” consiste em vencer isso no dia a dia. Os anos de estrada e excessos distorceram meus conceitos de liberdade, e quando caio nessa ideia que traz todo gosto do passado novamente à tona eu fraquejo, e isso leva parte de mim para um lugar sem volta. Converso muito com o Jimmy do Matanza sobre isso, porque sei que ele também prejudicou-se muito por excessos que cometeu.

Hoje as coisas são diferentes, o rock and roll não está mais na estrada como antes, está totalmente dentro da gente, da nossa casa, do nosso trabalho. Àss vezes preciso domar algo semelhante a um “maluco beleza”, e às vezes preciso libertá-lo. Tive que aprender a ter esse discernimento. Sinto falta da estrada, aquilo sempre me fazia pensar que tudo era como estar vivendo o Sem Destino.

Mas os tempos mudaram, tenho outras metas. Tem a ver com família, às vezes planejar alguma viagem sozinho quando rola, mas priorizo tentar não ser tão ausente desse conceito chamado lar. Minha esposa, minhas filhas, hoje tento extrair um pouco mais sem que seja tudo tão rápido como foi no passado, onde pessoas, cidades, culturas, diversões, rock and roll, iam e vinham sem que ao menos pudéssemos memorizar aquilo de uma forma inesquecível onde se pudesse lembrar de mínimos detalhes depois, o que 70% eu realmente não me recordo mais. Eu vivo do que o rock fez de mim, do que o rock fez por mim, e creio que isso ainda continua sendo uma grande e talvez a maior estrada de todas, percorrendo-a dia a dia dentro da minha realidade ideológica que meu trabalho propicia.

Cada banda que a gente apoia são parceiros que, de certa forma, é como se estivéssemos juntos em cada canto que eles vão, caindo na estrada, levando nossa ideia no peito, tipo quando conhecemos o Baranga em Floripa. Depois de anos apoiando a banda só fomos nos conhecer pessoalmente na abertura deles ao Motörhead, e foi uma festa, foi fantástico. É legal saber que tudo isso veio de algo que a gente criou e faz com paixão, que vai além de uma simples loja. É uma casa de grandes amigos. A Markadiabo é como a casa do tal rock and roll e sabe-se lá que mais surpresas legais teremos ainda pela frente.

O espírito de liberdade do rock definitivamente faz parte da minha vida. Ter todas essas grandes histórias de lendários mestres do rock e da arte estão dentro da gente, são personagens que a gente colecionou e absorveu ao longo de todos esses anos. Jamais me arrependerei por ter, na encruzilhada, optado pela estrada de nome rock and roll.
  
O que você acha desse papo de que música boa só existiu nos anos 1960 e 1970, e de que hoje não se faz música de qualidade?

Não vou negar que essas duas décadas nos presentearam com alguma bela porcentagem de tudo o que de melhor foi feito no mundo da música, mas os anos 80 para mim também possuem um valor inestimável e a década de 90 também. Talvez de certa forma as ultimas décadas não tenham tido aquela magia que pairava no ar entre 60 e 70, havia um senso de inspiração inacreditável naqueles dias. Hoje ainda se faz muita música de qualidade, a diferença é que o numero de porcarias talvez seja superior ao que vale realmente ser classificado como “sonzeira de primeira”, e isso ofusca o que é feito de legal. A onda dos hypes avacalha geral e as bandas não conseguem passar de seus primeiros álbuns. As boas bandas estão onde você mal pode perceber, mas não se deixe enganar, pois as boas bandas existem e são muitas, você só tem de querer saber da existência delas que novos universos começam a surgir diante de você. Sou fã de muita coisa nos dias de hoje.

Nino, muito obrigado pelo papo. Pra fechar, o que você está ouvindo e recomenda aos nossos leitores?
  
Estou ouvindo a trilha sonora na íntegra do seriado Sons of Anarchy, já há um CD oficial com um apanhado de coisas bem legais da trilha, mas como é muito som fica tarefa impossível reduzi-la de tanta coisa legal. O material sonoro de todas as quatro temporadas tem de se catar pela internet que ainda é capaz de rolar. Se você tem o soulseek dá para tentar, mas já está escasseando, principalmente depois do aperto e dissolução do Megaupload e a retirada de outros meios de download. Se tivesse um box em vinil, mesmo que tivesse dez LPs eu compraria certo. São mais de 100 sons geniais e estradeiros entre folk, alt country, stoner, rock pesado e blues. Não é especificamente um disco, é garimpo. Fica aá a dica porque vale a pena, e caso você não tenha nada das trilhas da primeira e segunda temporada vá à caça, porque é coisa muito refinada e indicada exclusivamente para aqueles que não acharam seus ouvidos no lixo.  



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