Charlie Brown Jr.: crítica de La Familia 013 (2013)

Chega a ser uma experiência absolutamente triste e depressiva ouvir La Familia 013, o álbum póstumo de inéditas do grupo Charlie Brown Jr. - ainda mais porque, inevitavelmente, você vai ter em mente a tragédia em dose dupla que acometeu o vocalista Chorão e, logo depois, o baixista Champignon. O disco já abre com o primeiro single, "Um Dia A Gente Se Encontra", uma canção de refrão fácil, com sonoridade tipicamente ska e cuja letra crava "Um dia na praia a gente jurou / Ficar junto pra sempre / Depois tudo mudou / Eram portas abertas que depois se fecharam / O tempo passou e as coisas mudaram / Separaram a gente / As circunstâncias e as coisas". Impossível não pensar imediatamente na situação pessoal do cantor e principal compositor, naquele momento separado da esposa por conta das drogas e abertamente com o coração partido. Goste você ou não da banda, chega a dar um nó na garganta. 

Aliás, a questão dos relacionamentos, seja vista pelo lado da paixão à primeira vista ou pela ótica do rompimento, é um dos temas recorrentes da bolacha.  Ele se apaixona em "Cheia de Vida", que tem rigorosamente todos os elementos sonoros mais típicos do CBJr, e na esperta "A Mais Linda do Bar", que tem uma sonoridade maliciosa, sacana, com um jeitão mais Cachorro Grande do que Charlie Brown Jr. - mesmo com um interlúdio cantado em formato rap, como era característico de Chorão. Ele se declara apaixonado por ela e pela vida em "Do Jeito Que Eu Gosto, Do Jeito Que Eu Quero", ao afirmar que já passaram por muitas coisas juntos e que vão superar, afinal "a vida é uma boca a ser beijada, mas a vida só gosta de quem gosta de viver". Cheio de si, ele diz que já superou o fim e encarna uma espécie de bossa nova moderna (e raivosa) em "Hoje Sou Eu Que Não Mais Te Quero". Logo depois, em "Vou Me Embriagar de Você", que tem um tempero acústico das bandas de pop rock brasileiras dos anos 80, ele abre o peito e diz que está com saudades e que quer voltar. E eis que, no final do disco, a sobriedade toma conta com a toada triste do violão acústico de "Samba Triste", que fala sobre as voltas que o mundo dá, para logo depois desembocar na balada "Contrastes da Vida", que tem dois momentos bastante tocantes, quando diz "mesmo os mais fortes às vezes não encontram uma saída" e lá frente completa com "quando tudo se torna previsível, não se espera mais da vida". Doeu, confesso. E olha que nunca fui fã nem do Chorão e nem de sua trupe, admito sem medo. 

Apesar do clima soturno, no entanto, La Familia 013 tem alguns momentos que indicariam traços de experimentação sonora que, se o Charlie Brown Jr. resolvesse continuar explorando em discos vindouros, pudessem resultar em bons frutos. Leia o parágrafo anterior com atenção e veja que mencionei coisas como Cachorro Grande, bossa nova e rock BR dos anos 80. Percebeu? É pouco? Mas tem mais. Basta ouvir "Camiseta Preta", cuja letra é uma típica exaltação ao tal estilo "vida louca" do grupo e também uma homenagem ao seu séquito fiel de fãs – mas preste atenção ao instrumental e ao solo de guitarra. Se alguém disser que temos o Charlie Brown Jr. fazendo heavy metal, acertou na mosca. E mandando bem, é preciso ressaltar. A guitarra de "Rock Star" também tem seu momento de fúria e peso durante o refrão, que faz ecos diretos com aquela banda ainda em seu disco de estreia, aliás. 

Em La Familia 013, a persona das canções da banda ainda é um adolescente – mas um adolescente enfrentando a difícil tarefa de amadurecer, de ter que encarar as complicações de um relacionamento a dois, de uma vida adulta que bate à sua porta. Esta é uma mudança que se reflete claramente nas letras e no clima das músicas; mesmo os vocais de Chorão estão menos gritados e mais sussurrados, quase falados, arrastados. Este parece ser um disco mais maduro, uma evolução no trabalho do grupo, que consegue manter lá a sua assinatura. Com as mortes de seus dois principais integrantes e porta-vozes, tudo que resta é a dúvida: seria La Familia 013 uma indicação de que o Charlie Brown Jr. poderia, de fato, romper as correntes que prendiam (e ainda prendem, na esmagadora maioria dos casos) seus contemporâneos a uma música fácil e óbvia feita apenas para deleite da "molecada"? Agora, infelizmente, nunca saberemos. Pena. 

Nota 8

Faixas:

1. Um Dia A Gente Se Encontra
2. Fina Arte
3. Cheia de Vida
4. Meu Novo Mundo
5. Do Jeito Que Eu Gosto, Do Jeito Que Eu Quero
6. Rock Star
7. Vem Ser Minha
8. Hoje Sou Eu Que Não Mais Te Quero
9. Camisa Preta
10. Vou Me Embriagar De Você
11. A Mais Linda do Bar
12. Samba Triste
13. Contrastes da Vida



Por Thiago Cardim

Comentários

  1. Caralho, isso é treta pura.
    Só posso cumprimentar um ser humano que faz uma resenha do Charlie Brown, tido como música de playbou ou baixo clero do rock, e trazê-lo aqui pro CR.
    Não curti o disco, mas ver essa resenha aqui FOI FODA. Meus cumprimentos!

    Sou crítico pracarai nessa porra, mas também sei elogiar quando é preciso.
    Fui!

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  2. Bela crítica.

    Nunca fui fã da banda, e continuo não sendo.

    Não obstante, me sensibilizei com as mortes do Chorão e do Champignon.

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  3. Pra min o melhor disco ,sou fã da banda e esse trabalho veio pra fechar com chave de ouro com letras que impõe uma personalidade fortíssima,além de arranjos diferenciados ,trabalho com musica e me encantei com tanta arte em um disco só

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