28 de set de 2013

Meus guias por essa aventura incrível e sempre surpreendente chamada música

sábado, setembro 28, 2013

Além de adorar ouvir música, sempre gostei muito de ler sobre música. Na minha adolescência, lá nos anos 1980, devorava religiosamente as poucas publicações mensais sobre música que o Brasil possuía na época: Somtrês, Bizz e Rock Brigade. Os textos de críticos como Leopoldo Rey, Lu Gomes, Maurício Kubrusly, Celso Pucci, Ana Maria Bahiana, Sergio Martins, André Forastieri, André Barcinski, Fernando Souza Filho, Ricardo Franzin e outros, foram responsáveis não apenas por me guiar no mundo da música, como também tiveram grande participação na formação do meu caráter.

Nunca me incomodei com uma crítica negativa para um disco de uma banda que eu gostava muito. Pelo contrário: ao me deparar com uma matéria assim, procurava entender o ponto de vista do autor sobre o porque de ele ter chegado a tal conclusão. Sempre usei as críticas, as opiniões dos autores, como referência para os caminhos que escolhia seguir na música, porém nunca como verdades absolutas. E sempre respeitei a opinião destas pessoas, sempre tive uma atitude humilde porque sei que, mesmo passados quase trinta anos e ter ouvido milhares de discos nesse tempo todo, continuo sabendo e conhecendo muito menos do que eles. No final das contas, sou apenas um colecionador de discos que montou um site/blog porque gosta de escrever sobre música. Sempre será assim.

Hoje, minhas referências no jornalismo musical brasileiro continuam a ser o farol que ilumina a pesquisa infinita por novos sons que guia a vida de todo colecionador. Sergio Martins é uma sumidade, uma enciclopédia. Um cavalheiro a serviço da música, sempre atencioso e pronto para me orientar e dar dicas quando necessárias. Na minha opinião, e dentro do que eu conheço, é um dos melhores jornalistas culturais do Brasil. Regis Tadeu é outra referência. Ácido, irônico, dono de uma escrita brilhante e de um conhecimento musical profundo, além de ser um cara extremamente gente boa. Bento Araújo é outro cara que me inspira muito, levando a cabo a poeira Zine, uma publicação que mostra o seu ponto de vista sobre a música e cresceu por seus próprios méritos.

Há outros nomes, claro. Paulo Cavalcanti, editor da Rolling Stone, é um deles. Marcelo Costa, do Scream & Yell, é um dos caras que mais respeito. João Renato Alves, da Van do Halen, é outro que gosto muito. E Guilherme Gonçalves, Rodrigo Carvalho e Thiago Cardim, meus companheiros aqui na Collectors, formam um trio que me inspira a nunca ficar parado, tentando acompanhar a qualidade e a excelência dos seus textos.

Fora da música, dois outros indivíduos merecem menções festivas. Rob Gordon, autor do blog Championship Vinyl, me deixa maravilhado com os seus textos. Enorme talento! E Érico Assis, do Omelete e tradutor de inúmeros livros que estão nas livrarias, me assombra com o seu gigantesco conhecimento sobre quadrinhos e cultura pop.

Conviver com esses diferentes pontos de vista enriquece quem se dispõe a trazer visões muitas vezes conflitantes para dentro do seu universo. Não concordo com muito do que esses nomes citados acima escrevem quando analisam um disco, uma banda, um filme, um livro e a própria vida. Porém, as suas visões individuais sempre me fazem perceber que há muita coisa para aprender e incorporar ao meu ponto de vista. Não dá para ficar parado acreditando que há apenas uma maneira de ver as coisas, principalmente em se tratando de algo cultural e que possui um grande aspecto subjetivo em sua análise, como é o caso da música.

É por isso que me entristece, de maneira geral, a forma como a geração atual reage a uma opinião conflitante com a sua. Uma crítica, um texto, sobre o seu artista favorito, apresenta apenas uma visão sobre aquele assunto. Ele mostra o lado do autor, de quem o escreveu, e vem carregado com a bagagem do escritor, do crítico. Que é, claro, diferente de quem está lendo – afinal, são duas pessoas distintas. Quando isso acontece, e aconteceu muito comigo durante toda a minha vida, sempre procurei entender o outro lado, como escrevi antes. Mas essa postura não é mais percebida nos leitores atuais. Ao invés de procurar entender o motivo de tal pessoa escrever aquela opinião, o caminho mais fácil parece ser o dos xingamentos, das ofensas gratuitas, do desmerecimento da opinião alheia.

O aspecto mais legal em escrever sobre música é justamente a troca que acontece entre o escritor e o leitor. Ambos se beneficiam com essa relação. Então, quando isso não ocorre, e em seu lugar vemos uma avalanche de comentários ofensivos, é bastante broxante. A música é um campo imenso. Ela não se resume ao universo que cada um ouve. Ela é muito maior. Eu, por exemplo, tenho pouquíssimo conhecimento sobre música clássica, mas, mesmo assim, dentro da minha admitida ignorância, fico maravilhado ao ler os livros do crítico norte-americano Alex Ross, O Resto é Ruído e Escuta Só. Há todo um mundo novo nas páginas dessas duas obras, apresentado a um leitor leigo como eu através de um texto apaixonado e repleto de informações. E, como todo mundo sabe, quem gosta de escrever se delicia, antes de tudo, com um texto bem escrito, algo que Ross faz com perfeição.

Falta para a geração atual de leitores uma postura menos monocromática. As coisas não são apenas pretas ou brancas. Não há apenas uma linha reta a seguir. Há infinitas formas de fazer música, e conservar a curiosidade ao se deparar com algo novo é fundamental para que possamos crescer e nos desenvolver como ouvintes. Ouvir as experimentações de uma banda como o Gentle Giant, por exemplo, abre novas possibilidades imediatas. E essa quebra de barreiras vai mostrando, devagar e de forma constante, o quanto a música e os sons sempre podem ser surpreendentes.

Mantenha o seu ouvido sempre destemido. Não tenha medo do que é novo, do que é diferente. Não crie preconceitos com uma forma de arte tão magnífica, tão apaixonante, quanto a música. Deixe ela te surpreender todos os dias. Garanto que, com essa atitude, você viverá, assim como eu, uma aventura incrível todos os dias. 

Por Ricardo Seelig

27 de set de 2013

Lá fora: 24 capas de revistas sobre música lançadas este mês nos Estados Unidos e na Europa

sexta-feira, setembro 27, 2013
A nossa tradicional passada na banca de todos os meses. Como sempre, tem para todos os gostos.

Duas perguntas: qual a sua capa favorita entre as publicadas abaixo? E qual revista gringa sobre música você gostaria que ganhasse uma edição brasileira?

 
 
 
 
 
 














 

Por Ricardo Seelig

Scalene: crítica de Real/Surreal (2013)

sexta-feira, setembro 27, 2013

Com relativo pouco tempo de estrada, a realidade é que o Scalene não fugiu muito do padrão no que diz respeito à sua formação e à conquista de espaço no cenário musical, não apenas no Distrito Federal, mas por todo o país. Apesar de algumas mudanças ao longo dos anos, o reinício da banda veio efetivamente em 2012, com o lançamento do EP Cromático, que já mostrava uma personalidade musical notável, que equilibrava os ritmos tipicamente contemporâneos do rock com aquela noção melódica carregada do pop, deixando espaço ainda para sutis inserções experimentais.


Em 2013, então, o quarteto formado por Gustavo Bertoni (vocal e guitarra), Philipe Conde (vocal e bateria), Tomás Bertoni (guitarra) e Lucas Furtado (baixo) lança o novo trabalho, intitulado Real/Surreal. Produzido pela própria banda, em parceria com Lampadinha e Diego Marx, o álbum foi lançado de forma independente (por sua própria escolha) e é claramente dividido em duas partes, com conceitos próprios e complementares, com o objetivo de serem subjetivos, para que cada um absorva e compreenda à sua própria maneira.


As boas vindas ao lado Real do álbum são feitas de forma agressiva, quase ofensiva com o grito de “Não ouse negar o sonhador”, primeiro verso em “Sonhador II”, acertadamente escolhida para iniciar o trabalho, com diversas mudanças de andamento e a inclusão de uma interessante aura atmosférica. Esse formato mantém-se na cadenciada “Marco Zero”, aonde a simplicidade forma a base para a criação de belas melodias, enquanto “Nós Maior Que Eles” injeta boas doses de velocidade em riffs e estruturas bem próximas ao hard rock mais moderno, mantendo-se a proposta da banda.


Extremamente serena, “Silêncio” é uma arrastada balada aonde os aspectos acústicos do Scalene aparecem de forma mais evidente, criando um contraste com passagens que remetem ligeiramente ao Tool. Ideia bem parecida ao apresentado em “Prefácio”, que dá continuidade ao foco mais contemplativo, de melodias fáceis, nesse momento do álbum. “Forma Padrão”, porém, traz uma sonoridade americana um tanto quanto semelhante ao Foo Fighters e ao Queens of the Stone Age.


“Amanheceu”, faixa baseada em dedilhados que inevitavelmente acabam por carregar um sentimento fortíssimo, esbarrando por diversas vezes com melodias típicas de MPB. Sentimento este que se mantém na negativista e quase agonizante atmosfera criada ao longo de “Disfarce”, música que antecede o curto instrumental “Interlúdio”, a ponte de ligação com Surreal.


E exatamente como representa em seu vídeo, “Danse Macabre” inicia o segundo lado com um Scalene que não perde as suas características primordiais, mas altera razoavelmente o método de representar a sua identidade bem própria. Essa diferença se mostra ainda mais evidente na lenta “Milhares Como Eu”, um soturno conto que constrói facilmente uma imagem mental ao longo dos versos, e na execução de “Karma”, que parece saída diretamente de algum lugar chuvoso dos anos noventa.


Com notáveis mensagens de protesto, “O Alvo” resgata os traços mais agressivos ao mesmo tempo em que insere de forma inteligente vários detalhes e camadas sonoras que engrandecem a composição, assim como na quase inglesa “Surreal” e a interessante forma como se desenvolve. Aquele meio termo entre o distorcido abafado e o limpo permanece na soturna atmosfera do choque de realidade em “Ilustres Desconhecidos”, até dar lugar ao belíssimo arranjo de dedilhados acústicos combinados com um fundo orquestral de “Anoitecer”, que parece intencionalmente soar como uma canção de ninar.


E como um prosseguimento do conceito, os primeiros versos de “A Luz e Sombra” transportam para um estranhíssimo sentimento de confusão, bem unidos com o instrumental de várias mudanças, que beira o desespero e a melancolia. Estas sensações lentamente se esvaem ao longo de “Branco”, curta passagem no piano que encerra o trabalho.


O Real e o Surreal contido na sonoridade apresentada aqui pelo Scalene não são exatamente opostos no que diz a qualidade, mas sim infinitos elementos que conseguem ser ambíguos e complementares no decorrer do álbum. Sem se importar se é pop, rock, ou qualquer outra vertente, as diversas influências da banda podem vir de direções opostas e inesperadas, mas ao mesmo tempo são encaixadas com uma notável criatividade e uma espantosa maturidade (em um estágio que bandas demoram muito mais tempo para atingir – quando, e se, atingem).


Mas não apenas musicalmente, a banda traz uma interessante coerência nos temas líricos, que apesar de um tanto fatalistas e violentos em alguns momentos (vejam bem, isso não é algo negativo) se encaixam perfeitamente com o sentimento transmitido pelo trabalho de vozes, o que torna a audição das dezoito faixas – acertadamente curtas e que totalizam menos de 56 minutos – extremamente bem fluída, principalmente graças às diversas oscilações melódicas, que garantem a cada uma das músicas a sua característica própria.


Real/Surreal talvez possa ser considerado o verdadeiro início para o Scalene, e pelos resultados que eles atingem aqui, o caminho a frente se mostra promissor. Aliás, muito promissor.


Nota 9


Faixas:
01. Sonhador II
02. Marco Zero
03. Nós Maior Que Eles
04. Silêncio
05. Prefácio
06. Forma Padrão
07. Amanheceu
08. Disfarce
09. Interlúdio
10. Danse Macabre
11. Milhares Como Eu
12. Karma
13. O Alvo
14. Surreal
15. Ilustres Desconhecidos
16. Anoiteceu
17. A Luz e Sombra
18. Branco


Por Rodrigo Carvalho, do Progcast

26 de set de 2013

Kiara Rocks, a banda que não sabe perder

quinta-feira, setembro 26, 2013

Daí você tem uma banda e contrata uma empresária com boa circulação no meio. Afinal, ela já foi casada com o baterista do maior grupo de metal que o Brasil já viu e conhece todas as manhas e truques que acontecem por trás dos panos. Tanto que conseguiu colocar a sua banda, que lançou três discos que ninguém ouviu, para abrir a última noite do Palco Mundo, o maior do festival, na edição 2013 do Rock in Rio.

E você, ao invés de aproveitar a mega exposição que está tendo ao tocar para o maior público de sua carreira - além de ter o seu show transmitido ao vivo para todo o país – para apresentar as suas canções autorais para uma nova audiência, entope a sua apresentação com covers mais manjados que café com leite. E, pra fechar com chave de ouro, convida o ex-vocalista de uma das maiores bandas da história do heavy metal, Paul Di´Anno, para fazer uma participação especial e conquistar o público. 

Público que você não conquista. Público que vaia a sua banda, assim como a imprensa, que, sem a cegueira causada pela paixão desmedida e com o distanciamento crítico necessário para a função, aponta todos os seus erros, um a um, e classifica o show de sua banda como um dos piores da edição 2013 do festival.

E então, em uma atitude nunca vista antes na história deste país, a empresária do seu grupo copia duas críticas sobre a performance de sua banda publicadas em dois dos veículos jornalísticos mais conhecidos e importantes do Brasil e as cola em seu perfil em uma rede social, conclamando os fãs a atacarem os autores dos textos na tentativa de intimidar quem ousou criticar os seus protegidos. Depois, como é comum em indivíduos com falha de caráter, a fulana apaga o que escreveu devido a repercussão negativa de sua atitude. Mas você, que é o vocalista e o líder de sua banda, não acomoda o seu rabo e segue atacando todo mundo que encontra pela frente, de todas as formas possíveis, em todos os canais disponíveis. Usando argumentos dignos de uma criança mimada com apenas três anos de idade, torna toda a situação ainda mais constrangedora – para o seu lado, claro, já que o seu discurso inflamado apenas expõe o quão despreparado você é.

Sei que o que escrevi acima só vai me causar dor de cabeça. Sei que o que escrevi acima só vai aumentar o número de “empresários” , “bandas”  e “artistas” que são “fãs” da Collectors Room. Sei que o que escrevi acima servirá para aumentar o número de “colegas” que, por não concordarem com a postura crítica do site e com as matérias que publicamos, rodam em caravanas por gravadoras, selos e lojas de São Paulo, principalmente as situadas na Galeria do Rock, queimando o filme e denegrindo a minha imagem e a da Collectors. Mas sei, acima de tudo, que é necessário dar a cara para bater e mostrar  como o nosso showbizz é ridículo e cheio de mimimi, de tapinhas nas costas e trocas de favores, expondo atitudes amadoras e ridículas como as relatadas acima.


Abaixo, segue um texto do nosso colaborador Thiago Cardim sobre toda essa situação, onde ele aponta, de maneira clara, tudo o que há de errado na postura adotada pelo Kiara Rocks, por seu vocalista e por sua empresária, em relação as críticas negativas recebidas pela performance risível da banda no palco do Rock in Rio:

Deixa ver se eu entendi: eu tenho que dizer que o show da banda foi bom só porque ela é brasileira e está começando agora? Claro. É assim mesmo que a coisa funciona. Não é só porque é brasileiro que é bom, chega deste nacionalismo barato e babaca. Subiu para tocar no palco principal do Rock in Rio, camarada, esteja preparado para aguentar o tranco. Porque as críticas virão. Nem Iron Maiden, Metallica e demais medalhões são imunes a elas. Quer ser um rock star? Parte do trabalho é saber que nem todo mundo vai te amar de paixão. Que você não é o centro do mundo quando está fora do seu universo controladinho da assessoria de imprensa. É, meu chapa. Um jornalista tem todo o direito de não gostar do seu show, do seu CD, do seu figurino, do seu palco, das suas músicas, da sua maquiagem, do seu chapéu. Por mais que o público (ou parte dele) tenha gostado. São coisas diferentes. Nem todo campeão de bilheteria é o favorito dos críticos e nem tem que ser necessariamente bom pra todo mundo. Ninguém disse que você seria uma unanimidade inabalável, não estava no seu contrato.

Corte este papo furado de que jornalista bom é aquele compreensivo, que entende o seu lado, entende o quanto você ralou. Que é imparcial e escreve se compadecendo de todo mundo. Essa nunca foi a função da imprensa cultural - pelo menos, não daquela imprensa cultural que realmente interessa e tem algo de interessante a dizer. E pelamordedeus, não use desta cortina de fumaça idiota do "ah, mas todo crítico é um músico frustrado" ou "esse cara gosta de funk, não entende de rock de verdade" porque isso está longe, mas muito longe de ser verdade. E você sabe disso, sabe muito bem que estas frases de efeito são para inflamar os seus fãs e te enganar, para fingir que agora está tudo bem enquanto você ainda tenta assimilar o baque de não ser perfeito e invencível.

Se for pra ficar magoadinho, minha sugestão é mudar de profissão. Porque teus fãs e empresários não vão estar sempre do teu lado pra dar colo. Chora, meu velho. Porque se você ainda quer continuar nesta carreira, ainda vai chorar muito. Aprenda a encarar as vaias, mas não se deixe abater e mostre o seu trabalho, próprio e de qualidade. Não se esconda por trás das armadilhas fáceis dos covers e dos convidados especiais pra se sentir mais seguro. Porque segurança não faz parte deste jogo. Quanto mais fora de sua zona de conforto, melhor. Rock é exatamente a respeito disso. E comece a dar ouvidos para quem está fora do seu círculo interno. Porque quando você está cercado de gente te dizendo o quão lindo, maravilhoso, incrível e espetacular você é, tenha em mente de que alguma coisa está errada. Mexa-se. Arrisque-se. Ouse. Já vai começar bem. Vai por mim.

Por Ricardo Seelig

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