8 de fev de 2014

Grand Magus: crítica de Triumph and Power (2014)

sábado, fevereiro 08, 2014

Oficialmente formado em 1999, o Grand Magus pode não ser um evento isolado entre as gerações das bandas suecas, mas é de fato um dos raros nomes do heavy/doom que conseguiram manter-se na ativa entre a época da ascensão do Candlemass e do Count Raven, e o recente ressurgimento e popularização do stoner nos últimos anos. Interessante notar, também, que o trio liderado por JB Christoffersson e Fox Skinner nunca permaneceu estático em sua sonoridade, sempre se preocupando em aplicar mudanças, por mais sutis que fossem (vide o contraste entre o autointitulado debut, de 2001, e o mais recente, The Hunt, de 2012).


Dando seqüência a proposta iniciada desde o final da década passada, e agora contando com o baterista Ludwig Witt (do Spiritual Beggars), o grupo traz novamente uma remodelação de sua proposta com Triumph and Power, o sétimo trabalho de estúdio e o segundo pela Nuclear Blast, redescobrindo alguns elementos de seus primórdios e reinterpretando aquilo que gerou certas controvérsias nas últimas tentativas.


O tom épico é lentamente introduzido como uma espada triunfante na jugular de seus inimigos com galopes, trovões e coros nos primeiros segundos de “On Hooves of Gold” e a sua sucessão de guitarras cavalares, que mostram como um disco pode ser bem sucedido ao iniciar-se de forma cadenciada e honrando as fortes melodias que acompanham as letras forjadas entre o martelo e a bigorna do mais pobre ferreiro do reino. Por falar em forjar, “Steel Versus Steel” parece vinda diretamente dos territórios germânicos em suas personificações menos velozes e combinadas ao hard rock, enquanto “Fight” é uma declaração de batalha contra o falso, aonde as ordens de luta são proclamadas incessantemente em seus quatro minutos.


O poder de fogo no melhor estilo europeu retorna em ritmo de marcha em direção ao amanhecer de glórias com “Triumph and Power” e seu sentimento de esperança inerente às passagens carregadas pelas linhas de baixo e versos reverenciando os irmãos caídos, aonde a versatilidade do vocalista JB Christoffersson se mostra ainda mais evidente. Em “Dominator”, porém, saem as espadas e os cavalos e entram as jaquetas de couro pretas e motocicletas, como uma viagem no tempo para a Inglaterra da década de oitenta (ou talvez os efeitos da excessiva ingestão de hidromel).


Afinal de contas, logo em seguida a transitória “Arv” introduz “Holmgang”, com o resgate (ainda que passageiro) das raízes ligadas ao stoner dos suecos, em meio às marcantes guitarras que insistem com sucesso em permanecerem simples. O mesmo pode ser dito de “The Naked and the Dead”, com o Grand Magus mostrando de uma vez por todas as suas influências não apenas do Iron Maiden, mas também das inúmeras bandas que de alguma forma ajudaram a donzela a construir a sua própria sonoridade.


Com elementos folk e baterias de guerra em “Ymer”, “The Hammer Will Bite” inicia-se como uma tensa power-ballad, como o lamento de um homem que perdeu tudo e prepara-se para buscar vingança. Carregada de mudanças atmosféricas e momentos que beiram o mais épico doom metal, por mais que se difira consideravelmente do restante das faixas do álbum, encerra-o mantendo o mesmo sentimento e completamente coerente como um todo.


E este sentimento de louvor ao true heavy metal, de temas que ficam no limiar entre o cômico e o vergonhoso, de ser exageradamente épico e imaginar-se um guerreiro besuntado em óleo corporal e tangas de texugo em uma cruzada pelo triunfo da honra, simplesmente se torna (mais) ridículo ao ser acompanhado de uma música de qualidade duvidosa. O que felizmente não é o caso do Grand Magus e Triumph and Power.


Claro, as letras ligeiramente rasas e repetitivas estão ali (como sempre estiveram, aliás - basta uma leitura rápida nos títulos das faixas dos álbuns anteriores para conferir), mas ao investir pesado em uma sonoridade ainda mais simples, catalisada pela crueza na produção básica e com cuidado redobrado na composição das melodias, o trio sueco não apenas consegue equilibrar a identidade que vem sendo trabalhada desde o espetacular Iron Will (de 2008), com o mesmo furor de sua fase inicial, na época em que ainda era parte do catálogo da Rise Above Records, como entregam uma obra grandiosa e acessível (algo que The Hunt falhou, em certos aspectos).


Um disco original? De forma alguma. Mas quem disse que esta é a intenção deles? Triumph and Power é um tributo sincero que o Grand Magus presta às suas influências tradicionais, resultando neste que provavelmente será o álbum mais heavy metal que você ouvirá em 2014. Com as espadas em punho, montado em seu cavalo, trajando uma jaqueta de couro por cima da armadura banhada com o sangue dos adversários e companheiros que tombaram na batalha, pelo aço e pela vitória.


Hail the Magus!


Nota 8,5


Faixas:
1 On Hooves of Gold
2 Steel Versus Steel
3 Fight
4 Triumph and Power
5 Dominator
6 Arv
7 Holmgang
8 The Naked and the Dead
9 Ymer
10 The Hammer Will Bite


Por Rodrigo Carvalho

Entrevista com o colecionador Tadeu Kebian

sábado, fevereiro 08, 2014

Quando eu tinha 16 anos, o rock já corria pelas minhas veias, eu já nutria uma paixão enorme pelas bandas que, hoje em dia, são as minhas favoritas e já frequentava os locais onde o rock acontece aqui, no Rio de Janeiro. Em paralelo, havia aqueles amigos ou colegas que simplesmente não demonstravam o menor interesse pelo rock ou pela música de maneira geral. O entrevistado de hoje, o jovem Tadeu Kebian, não pertence a nenhuma dessas correntes: aos 16 anos, Tadeu é aficionado por música brasileira dos áureos tempos do rádio (décadas de 1950 e 1960) e possui um vasto acervo que o rendeu participação no filme biográfico do cantor Cauby Peixoto — que inclusive, é o seu artista predileto. Acompanhe este que foi um dos bate-papos mais legais e inusitados do quadro Minha Coleção

Por Marcelo Vieira 

Em primeiro lugar, conte para nós quem você é! 
Bem, meu nome é Tadeu Kebian, tenho 16 anos, sou estudante e moro no Rio de Janeiro... e sou fã e colecionador do Cauby Peixoto e da Angela Maria! 

A maioria dos garotos de 16 anos que eu conheço/conheci ou ouvem rock ou não ligam para música. De onde surgiu essa paixão incomum? 
Comecei a me interessar por música aos 6 anos, graças ao meu avô Délcio, que me apresentou Cauby Peixoto, Angela Maria e todo o pessoal da época do rádio. 

O que para você é tão fascinante na música dessa época? 
As letras, o sentimento nas interpretações, a voz... coisas que eu considero difíceis de se obter na música atual. Antigamente também haviam músicas supérfluas, mas nada comparado ao que é hoje em dia. 

Quais outros gêneros você ouve além da MPB dos tempos do rádio? 
Escuto música clássica e artistas franceses, como Claude François, Mireille Mathieu, Edith Piaf etc.


Com relação ao Cauby Peixoto, o que levou você a se tornar fã dele? 
Apesar de estar com mais de 60 anos de carreira, o Cauby parece que começou ontem, pois continua ensaiando, gravando, se apresentando e ainda consegue cativar o público. Sem contar a sua voz, que continua a mesma. 

Imagino qual não foi a sua emoção ao conhecer o Cauby pessoalmente. Como foi este encontro? 
Três dias antes de o meu avô falecer, ele me disse que eu ainda conheceria o Cauby pessoalmente. Meu primeiro encontro com ele foi em fevereiro de 2013, no Theatro NET Rio, durante a gravação do filme Cauby - Começaria tudo outra vez. Quando a cortina se abriu, eu nem acreditei. Foi a mistura da emoção do sonho realizado com a saudade doída do meu avô que havia "profetizado" aquilo. Depois do show, falei com ele e pedi para tirar uma foto. Tempos depois, o cumprimentei no lançamento do filme, no Cinema Odeon Petrobras. Nos falamos melhor durante o coquetel que aconteceu logo depois. Fui convidado para me sentar à mesa ao lado dele e da Angela Maria. Para todo mundo que vinha falar com ele, ele apontava para mim dizendo "meu fã!".


Você é delegado do fã-clube da Angela Maria. Como isso aconteceu? 
Fui convidado pelo amigo Conde Rodrigo para assumir o posto e aceitei, afinal, é um convite irrecusável. O fã-clube é bem ativo e está inovando. Em breve serão feitas carteirinhas para os membros e outras novidades também estão a caminho.


Além de possuir um gosto diferente da maioria dos jovens da sua idade, você também possui uma enorme coleção de discos. Qual o tamanho dela atualmente? 
Somando os discos de 7", 10", 12", 78 rpm e CDs, ultrapassa os 1.500 itens, sendo 174 do Cauby.


Alguns desses formatos são muito antigos, datando do início do século passado. Qual o item mais antigo que você possui? E quais os itens mais raros? 
O mais antigo é o Libestraum, do Alexander Brailowisky, um 78 rpm alemão de 1928. Tenho bastante coisa rara, mas os que eu mais aprecio são os discos do Cauby gravados nos Estados Unidos na década de 1950 como Ron Coby e a capa do compacto dele com o nome de Coby Dijon. Tenho também o Amigos, da Angela Maria, em vinil. O álbum é de 1996, mas como o CD já dominava o mercado, foram prensados poucos LPs. Ah, e tenho o primeiro do Elvis!


Você possui uma "lista de desejos" com os discos que gostaria de ter, mas ainda não conseguiu? 
Não, pois não gosto de estar preso a um foco. Gosto de garimpar, olhar tudo... foi numa dessas que consegui o primeiro do Elvis. Quando você se prende a uma lista, acaba deixando bons discos passarem... 

Onde você costuma fazer esses "garimpos"? 
Sebos e feiras, a maioria no Centro do Rio de Janeiro.


Qual foi o item mais caro da sua coleção? E o mais absurdamente barato? 
O mais caro foi um LP raríssimo do Cauby chamado El Explosivo. É um disco argentino de 1969 em edição invendável de baixa tiragem. O preço desse eu prefiro não comentar. Loucuras de colecionador, sabe? [risos] O mais barato foi o Amigos, da Angela Maria, por R$ 35,00. 

Como você organiza a coleção? Tem ciúme dela? 
Comecei a catalogar os meus discos recentemente, tudo direitinho pelo Excel. Na estante, estão todos em ordem alfabética. Eu não empresto os meus discos para ninguém. E cuido muito bem deles para que não acabem virando meros itens de decoração.


Qual foi o último disco que você comprou? 
Foram três: primeira edição do G.I. Blues do Elvis, Coisas do Meu Brasil (Inezita Barrozo) e um 10" do Francisco Canaro chamado Seus êxitos de todos os tempos. 

A sua coleção não se limita só aos discos. Você também possui um pequeno acervo de revistas das décadas de 1950 e 1960. Foram herança de família? 
Não. Eu comprei todas elas. 

O que você pode nos dizer a respeito do jornalismo cultural daquela época? 
QUALQUER coisa que os artistas faziam davam notícia. O Cauby, por exemplo, vivia saindo no jornal, parecido com o que acontece hoje em dia com os famosos nas revistas de fofocas. 

Você acha que a imprensa hoje em dia trata Cauby e Angela como "peças de museu"? 
Acho que eles não possuem a visibilidade que merecem. As perguntas são quase sempre as mesmas, sempre em tom retrospectivo. Projetos atuais e futuros são frequentemente relegados para o segundo plano.
 

Como os seus colegas da sua idade lidam com o seu gosto musical? Você já apresentou o Cauby para eles? 
A maioria dos meus colegas eu conheço há cinco anos ou mais. Com eles é tranquilo. Estou sempre postando músicas do Cauby no Facebook. Quem tiver curiosidade, clica e confere... [risos] 

Você já enfrentou algum tipo de preconceito por causa do seu gosto musical? 
Já ouvi muitas vezes "ah, isso é coisa de velho", mas não entendo isso como preconceito. Se acharmos que tudo é preconceito e que todo mundo está contra nós, não iremos conseguir viver a vida e acabaremos sempre seguindo as modinhas e gostando do que os outros querem que gostemos. E eu acho isso muito feio.  

A maioria dos leitores do Collector's Room faz parte do universo do rock, mas — espero eu — também está disposta a conhecer novos sons. Qual disco do Cauby você indicaria como uma introdução para novos ouvintes? 
Um indispensável é o Cauby, Cauby (1980), disco de comemoração dos seus 25 anos de carreira e onde saiu a faixa "Bastidores", que tornou-se um de seus maiores sucessos.


Quais são os seus 10 discos favoritos? 
Cauby Peixoto - Cauby é o Show 
Liberace - Here's Liberace 
Angela Maria - Amigos 
Cauby e Leny - Um Drink com Cauby e Leny 
Nelson Gonçalves - Ao Vivo 50 Anos de Boemia 
Leny Eversong - O Rítimo Fascinante Nº1 
Dalida - Olympia 
Hebe Camargo - Sou Eu 
Josef Schmidt - Uma Voz Através do Mundo 
Liberace - Sinceramente, Liberace 

Para encerrar... você, 16 anos, 1.500 itens na coleção... O que você tem a dizer para o garoto da sua idade que está começando ou pretende começar a colecionar logo? 
Colecione! A parte ruim é que este é um hobby caro e nem sempre dá para você comprar um bilhão de discos. Comecei do zero há menos de dois anos trás e já reuni 1.500 itens. Mas no fim das contas, o tamanho da coleção é o que menos importa — o importante é você curtir e se orgulhar dela! 

Contato: tadeu.caubian@gmail.com

7 de fev de 2014

Culted: crítica de Oblique To All Paths (2014)

sexta-feira, fevereiro 07, 2014


Considerando a música apresentada pelo Culted, não é de se espantar que as suas próprias origens e metodologias também fujam um pouco do convencional. Formada por três músicos de uma pequena cidade no Canadá, acompanhados por um vocalista sueco que eles nunca encontraram pessoalmente, a banda que teve sua gênese através do Myspace e de um convite para uma colaboração permanece por uma década seguindo o mesmo mecanismo de trabalho.


Com as raízes em seus projetos (Of Human Bondage, Time Kills Everything e Deadwood), o Culted já contava com dois trabalhos: a atrocidade sonora de Below the Thunders of the Upper Deep (de 2009), e o curto EP Of Death and Ritual (de 2010). Após três anos congelados, Daniel Jansson, Matthew Friesen, Michael Klassen e Kevin Stevenson retornam de suas gélidas tumbas com Oblique To All Paths (frase retirada de uma citação do ocultista inglês Austin Osman Spare), novamente lançado pela Relapse Records, um grandioso passo além de sua própria sonoridade, tornando a experiência algo muito mais complexa, psicodélica, assustadora e torta.


Imagine-se em uma escuridão absurda e completa, aonde não se consegue enxergar um centímetro à frente sequer. O desespero toma conta e você passa a caminhar sem rumo, tateando em busca de uma parede ou qualquer outro guia invisível. Há ruídos na escuridão. Você sabe de alguma forma que não está sozinho ali, ao mesmo tempo em que não consegue se decidir se o melhor é parar e desistir ou prosseguir em frente. Correr, parar, gritar para um abismo que parece interminável? Estas são algumas das sensações ao longo dos sinistros dezenove minutos chamados “Brooding Hex”, que abrem o álbum carregados de um andamento arrastadíssimo, passando por mudanças de forma inesperadas, como curvas ocultas ou fendas no chão de uma caverna, acompanhadas de uma densidade catalisada pelos sussurrantes urros e inexplicáveis interferências sonoras.


É uma jornada tão pesarosa, que os defumados riffs de “Illuminati” poderiam ser um alívio para a alma, mas ao reverenciar o Electric Wizard utilizando-se de elementos ainda mais desconexos, agregando alguns toques de post-rock e noise, afogam ainda mais na atmosfera cataclísmica. Estes elementos voltam a aparecer nos abafados ecos intermináveis em “Intoxicant Immuration”, que parecem ter sua origem em um cômodo ao lado, um ensaio musical e teatral caótico reverberando por cada lasca de madeira e por cada veia de seu corpo, por vezes desconexos e anárquicos, narrados por vozes que irão assombrá-lo por muito tempo.


Os batimentos cardíacos se aceleram um pouco com as influências sabbathica da banda transparecendo em meio às flutuações de cacofonias geradas pelos sintetizadores de “March of the Wolves”, uma ligação mórbida direta com “Distortion of the Nature of Mankind”, o prelúdio semi-industrial para a seguinte, “Transmittal”. A sexta faixa ludibria o ouvinte com um início baseado em loops ecoantes, metamorfoseando gradativamente daquela sonoridade do sludge europeu, envolto pela atmosfera oriunda do post-metal, em um burocrático ritmo marcial. O encerramento acontece com “Jeremiad”, retomando o doom de tendências repetitivas e entorpecidas pela excessiva distorção na qual toda a obra se apoia, deixando para trás apenas uma paisagem desolada, aquele segundo em que é possível apenas permanecer paralisado, contemplando sem esperança o resultado do caos que acabou de acontecer.


Chega a ser incomodo ouvir qualquer coisa logo após o fim dos últimos barulhos de Oblique To All Paths, com o conforto provido pelo silencio proporcionando não apenas o esvaziamento da mente, como parece fazer com que você calmamente caminhe para fora da escuridão de volta para a realidade. O Culted não faz, ao longo desta uma hora de álbum, qualquer menção sobre soar agradável, acessível, simples ou bonito. Muito pelo contrário, cada uma das faixas parece ser a personificação de coisas terríveis, absolutamente desagradáveis, e que exigem não apenas concentração como também o puxa pelo pé para a profundeza de um cenário muito mais perturbador.


A sonoridade encontrada aqui se assemelha a um amontoado de coisas mortas, um híbrido agonizante entre as imundices de bandas como o Neurosis em sua fase mais tribal e arrastada, o primitivo Swans e o caótica do Godflesh, costuradas por uma linha do mais soturno doom, embebido por um sentimento de negatividade de seu lado mais black metal. Essa combinação resulta em uma obra desafiadora, que carrega um ouvinte completamente desacordado e solta no meio de um lugar esquisitíssimo, sem a menor orientação.


Muitos discos propõe vender passagens para o inferno. Mas apenas alguns, como Oblique To All Paths, proporcionam uma viagem só de ida, pelos trechos mais tortuosos e com uma interminável escala na insanidade.


Ouça com precaução.


Nota 8


Faixas:

1 Brooding Hex
2 Illuminati
3 Intoxicant Immuration
4 March of the Wolves
5 Distortion of the Nature of Mankind
6 Transmittal
7 Jeremiad


Por Rodrigo Carvalho

O que aconteceria se o Sepultura não tivesse se separado em 1996?

sexta-feira, fevereiro 07, 2014
Estreia de uma nova seção aqui na Collectors. Inspirada em uma ideia da Marvel, que desde os anos 1970 publica histórias dentro da série O Que Aconteceria Se ... mostrando versões alternativas de sua cronologia, resolvemos imaginar o que ocorreria se alguns fatos não tivessem acontecido na história do rock. A ideia é partir de um momento marcante e usar a imaginação para criar cenários prováveis caso aquele fato não tivesse ocorrido.

Para começar, uma pergunta que até hoje faz parte da maioria dos metalheads brasileiros: o que aconteceria se o Sepultura não tivesse se separado em 1996?

Para responder, é preciso contextualizar o momento que a banda vivia na época. Em 20 de fevereiro de 1996 o Sepultura lançou o seu sexto disco, Roots, e mergulhou de forma profunda no caminho que havia iniciado três anos antes, com Chaos A.D. (1993). As batidas primais e a intensificação das influências brasileiras tornaram a música do Sepultura, que sempre foi singular, em algo pra lá de único. A faixa de abertura e primeiro single, “Roots Bloody Roots”, deixou meio mundo boquiaberto com a sua sonoridade agressiva, pesada e turbinada por uma batida crua e influenciadíssima pela cultura tupiniquim. Um clássico instantâneo e também apenas a ponta do iceberg, que se revelaria em sua plenitude em composições como “Attitude”, “Cut-Throat”, “Ratamahatta” e “Breed Apart”, que apresentavam uma nova maneira de fazer heavy metal.

Roots foi aclamado pela crítica. Os ritmos e andamentos incomuns ao metal foram saudados como uma grande inovação. Veículos tradicionais e fora da mídia especializada no gênero, como o jornal norte-americano Los Angeles Times, saudaram o álbum com frases de efeito como “a mistura entre o metal denso e pesado do Sepultura e a música brasileira criou um efeito intoxicante”. O The New Times declarou que “o Sepultura reinventou a roda em Roots. Misturando o metal a instrumentos nativos de seu país, a banda ressuscitou um gênero que apresenta sinais de cansaço, relembrando o que o Led Zeppelin fez ao rock. Mas enquanto o Led uniou o rock inglês a batidas africanas, o banda brasileira utilizou elementos do seu próprio país. Buscando inspiração no passado, o Sepultura mostrou o caminho que o metal deve seguir no futuro”.

No jornalismo especializado, a aclamação foi semelhante. O renomado escritor canadense Martin Popoff colocou Roots na décima-primeira posição em sua lista com os melhores discos de metal de todos os tempos, presente no livro The Collector’s Guide to Heavy Metal. Nas palavras de Popoff, “Roots é um espetacular álbum de metal e hardcore futurista, uma obra-prima, concebido por uma banda com um coração enorme e uma inteligência ainda maior". A revista inglesa Kerrang! colocou Roots na segunda posição em sua lista Os 100 Discos que Você Precisa Ouvir Antes de Morrer, atrás apenas de In Utero, do Nirvana. A Q Magazine incluiu Roots em sua lista Os 50 Álbuns Mais Pesados de Todos os Tempos. A Rolling Stone Brasil colocou o álbum na posição 57 em sua lista com os melhores discos brasileiros já feitos.

O sucesso de crítica se repetiu também com o público. Roots alcançou a posição número 27 na Billboard e ficou em quarto lugar na parada britânica. O disco vendeu muito em todo o mundo, alcançando a marca de 500 mil cópias nos Estados Unidos em 2005, 100 mil na França em 1997 e 100 mil na Inglaterra em 2001.

O Sepultura estava no topo do mundo com Roots, subindo com velocidade e não dando sinais de que iria parar. A criatividade da banda e as composições de Max Cavalera - dez das dezesseis faixas eram assinadas pelo vocalista - jogaram todos os holofotes do mundo para o grupo. A influência de Roots foi sentida de forma profunda no groove metal e no ainda nascente nu metal, tornando o disco referência para ambos os estilos. No entanto, não ficou restrita a eles. Outros gêneros como o thrash, o death e até mesmo o black metal foram influenciados pela música da banda, e isso ficou claro com o passar dos anos. Roots influenciou o metal como um todo.

Com um público cada vez mais crescente, fazendo shows em todo o planeta e recebendo elogios de músicos que antes eram ídolos, como Ozzy Osbourne, o Sepultura acabou se despedaçando quando o trio Andres Kisser, Paulo Jr. e Igor Cavalera, insatisfeito com o trabalho da empresária Gloria Cavalera, esposa de Max, tomou a decisão de demitir a americana do cargo, alegando que ela dava mais destaque para o vocalista do que para os demais integrantes. Um caso clássico de ciúmes puro e simples, intensificado pelas esposas dos músicos, como ficou claro anos mais tarde. Max, que no período atravessava uma fase complicada devido à morte de Dana Wells, seu enteado e filho de Gloria, ficou enraivecido com o trio e decidiu deixar o grupo, formando o Soulfly em 1997.

Mas e se nada disso tivesse ocorrido e a banda continuasse junto, o que teria acontecido? Até onde o Sepultura poderia ter chegado? É correto supor que, com o sucesso alcançado pelo caminho iniciado em Chaos A.D. e aprofundado em Roots, a banda intensificaria as experiências com sons e batidas tribais brasileiras, gravando mais alguns discos nessa linha. Foi o que Max, o principal compositor do grupo, fez nos três primeiros álbuns do Soulfly - Soulfly (1998), Primitive (2000) e 3 (2002). Com a presença dos demais integrantes, as ideias de Max ao invés de virem ao mundo como vieram nesses discos, teriam o toque pessoal da guitarra de Kisser e das batidas sem igual de Igor, criando algo que certamente seria único e diferente de tudo o que estava sendo feito na época. A criatividade crescente do grupo, incentivada pela aceitação crítica e popular de sua música, daria segurança para a banda criar mais dois ou três discos nessa linha, explorando até o limite o caminho que estavam seguindo nos dos últimos discos com Max e tornando-se um dos maiores nomes do metal em todo o planeta.

Não é exagero - pelo contrário, soa bastante plausível - supor que o Sepultura teria gravado, ainda durante a década de 1990, um disco que poderia ser classificado como uma espécie de “seu Black Album”, onde tornaria a já azeitada união de elementos distintos ouvida em Chaos A.D. e Roots ainda mais audível para o grande público. Isso faria a banda estourar de vez em todo o planeta, transformando o grupo em um dos mais populares do metal na década, rivalizando inclusive com Metallica, Pantera e outros gigantes do período - fato que, na época de Roots, não estava tão distante assim de acontecer. Se já era possível visitar o interior do País de Gales e encontrar uma pequena ponte com o nome da banda pichado - como relatado por Herbert Viana em uma entrevista -, esse hipotético Black Album dos mineiros faria com que Max e companhia se transformassem em alguns dos músicos mais conhecidos da época. A relação próximo que o quarteto possuía com nomes como Ozzy e outras lendas tornaria esse caminho ainda mais fácil.

É provável que, com a chegada da década de 2000 e o crescimento gradual da demanda por rock clássico e o retorno de bandas veteranas, o Sepultura, que já havia ido até onde poderia ir com os seus experimentos étnicos, fizesse um retorno gradual ao death e thrash de álbuns como Beneath the Remains (1989) e Arise (1991), criando uma música que traria elementos destes dois gêneros somada à características dos demais estilos que o grupo explorou durante a década de 1990, como o groove, o nu metal e o toque brasileiro sempre presente. Isso consolidaria uma sonoridade que, além de extremamente particular, também seria muito popular entre os fãs e bastante influente.

Já maduros, rodados e experientes, os integrantes do Sepultura - que manteria a sua formação clássica - possuiriam status de verdadeiros ícones e lendas da música em todo o planeta, algo semelhante ao que é atribuído a nomes como James Hetfield e Dimebag Darrell, por exemplo. Com reconhecimento e estabilidade, a banda seguiria gravando grandes álbuns, intensificando, com a idade, os aspectos extremos de sua música, algo semelhante ao que podemos ouvir em Enslaved (2012), o sensacional penúltimo disco do Soulfly, que mostra Max flertando com o death e o black metal.

A conclusão é que, caso não tivesse se separado, o Sepultura seguiria crescendo e seria uma das maiores bandas de metal de todos os tempos - algo que realmente é, mas em escala muito maior. Popular, influente e original ao extremo, o quarteto mineiro possuiria a força de um Slayer mesclada a popularidade de um Metallica, e se tornaria um dos maiores nomes da história do metal, em todos os sentidos.

Uma pena que o vôo foi abortado logo depois da decolagem e o destino jamais foi revelado.

Por Ricardo Seelig

Os cinco melhores discos de heavy metal lançados em janeiro segundo o About.com

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

A verdade é que 2014 ainda engatinha no que se refere ao ritmo de lançamento de bons discos. Muito coisa já saiu, mas a qualidade ainda não está das melhores. Normal. Em alusão ao futebol, bandas, gravadoras e imprensa estão em pré-temporada. Além disso, álbuns aguardados como os novos de Behemoth e Grand Magus vazaram na virada do mês, o que atrasou suas respectivas avaliações. Devem ser destaque em fevereiro. Ou não.

O fato é que Chad Bowar e a editoria de heavy metal do About.com fizeram questão de ressaltar esse ritmo ainda lento ao divulgarem a lista com os cinco melhores discos de janeiro. Mas nem precisava. Só de contar com Primal Fear já é possível detectar que o nível ainda está longe do ideal. Não que o novo trabalho da banda alemã seja terrível, mas também não tem nada de excepcional para figuar em uma relação dessas.

Em primeiro lugar deu Avichi, one man band norte-americana capitaneada por Aamonael. Mais um indício de que o black metal começa 2014 em alta. Reflexo do boom causado pelo Deafheaven? Completam a lista o interessante novo disco do Culted, além de dois veteranos do hardcore e do death/grindcore norte-americano, respectivamente: Pro-Pain e Nausea.

E para você? Quais foram os melhores discos desses 30 primeiros dias de 2014?

1. Avichi - Catharsis Absolute

Catharsis Absolute, novo álbum do Avichi, continua de onde The Devil's Fractal (2011) parou, explorando novamente um black metal melódico, taciturno, dissonante e com conotações ortodoxas. O foco principal das músicas são os riffs, com vários tremolos cativantes e uma sensação calmante, quase que como a de um zumbido.

"Voice of Intuition", uma das faixas de destaque, capta perfeitamente esse espírito e é um excelente exemplo da força do Avichi. A bateria usa blastbeats de forma estável, mas, de vez em quando, diminui o ritmo para um tempo um pouco mais cadenciado. O baixo é dinâmico e preenche bem como pano de fundo para o vocal áspero de Aamonael, que complementa a música.

2. Culted - Oblique to All Paths

Foram cinco longos anos desde o lançamento de Below the Thunders of the Upper Deep (2009), o debut desses canadenses/suecos. Mas o Culted parece ter dedicado cada momento desse período em Oblique to All Paths. Fazendo isso, eles criaram um álbum monstruoso.

O Culted construiu verdadeiros monumentos subterrâneos de tom devastador misturados com riffs esmagadores, ruídos e temíveis vocais obscuros. Eles soam sujos e agressivos, extraindo escuridão e angústia do fundo do núcleo da Terra. Como o título sugere, o doom da banda soa único e forja uma identidade ímpar. É massivo, sorumbático, monolítico; uma manifestação orgânica de mentes semelhantes.

3. Pro-Pain - The Final Revolution

The Final Revolution junta todas as peças no quebra-cabeça do Pro-Pain. É um registro sonoro simples, direto e que mostra do que esse quarteto é capaz ao priorizar o básico. Paixão, energia e atenção voltadas para o protesto contra os males da sociedade.

O Pro-Pain derrama seu desgosto ao longo de todas as faixas de The Final Revolution. O álbum funciona como uma máquina de metal. Acima de tudo, é um disco centrado nos vocais. Com uma mixagem hábil e que dá amplo espaço para os vocais de Meskil, as intensas mensagens cuspidas por entre as guitarras são convincentes e viscerais ao mesmo tempo.

4. Nausea - Condemned to the System

Como uma bomba que detona sem aviso ou propensão, Condemned to the System explode cada centímetro dos tímpanos e das entranhas desde a primeira música até o golpe final. A abertura com “Freedom of Religion" é como um soco direto no estômago. Enquanto suas entranhas são forçadas para trás em uma posição aberrante, ritmos cativantes forçam seu diafragma a expelir o ar, dificultando a respiração. O restante do álbum repete esse processo várias vezes com canções de destaque como "Hate & Deception" e "Fuck the World".

Trata-se de uma banda e de um álbum para fãs do clássico grindcore old school de nomes como Napalm Death, Repulsion e Terrorizer. Definitivamente, esse é um disco que você não quer apenas se sentar, colocar a agulha do vinil para rodá-lo e deixar estar. Detalhe: o Nausea não lançava um álbum de estúdio há 20 anos e já era hora de quebrar o silêncio.

5. Primal Fear - Delivering the Black

Delivering the Black contém uma quantidade justa de velozes hinos do power metal. Músicas como a abertura "King For a Day", "Delivering the Black" e o excelente encerramento "Inseminoid" são recheadas de linhas ardentes de contrabaixo e vocais grandiosos. A última é uma das melhores canções de speed metal da carreira do Primal Fear.

O que faz este novo álbum se sobressair é que os tempos das músicas são variados e com menor velocidade em várias faixas. Isso traz uma variação ao fluxo e ajuda a não deixar a composição repetitiva como nos lançamentos anteriores. Delivering the Black é o melhor lançamento do Primal Fear em uma década, assim como está situado ao lado dos melhores da discografia da banda.

Por Guilherme Gonçalves

R.I.P. Nico Nicolaiewsky (09/06/1957 - 07/02/2014)

sexta-feira, fevereiro 07, 2014
É com imenso pesar que informamos o falecimento do músico e ator gaúcho Nico Nicolaiewsky. Multi-instrumentista, Nico nasceu em Porto Alegre e se destacou nos anos 1970 com o grupo Saracura, um dos mais importantes da música urbana do Rio Grande do Sul. Nos anos 1980 criou, junto com Hique Gomez, o espetáculo Tangos & Tragédias, que o tornou conhecido em todo o Brasil e contava com temporadas anuais pelo país.

Nelson, seu nome de batismo, gravou três discos solo: Nico Nicolaiewsky (1996), As Sete Caras da Verdade (2002) e Onde Está o Amor? (2007).

O músico foi diagnosticado com leucemia no mês de janeiro e estava internado no Hospital Moinhos de Vento, na capital gaúcha. Ele tinha 56 anos e deixa a filha Nina Nicolaiewski.

Por Ricardo Seelig

Triptykon revela título, capa e data de lançamento de seu segundo disco

sexta-feira, fevereiro 07, 2014
O sensacional Triptykon, nova banda do lendário Tom Warrior (Hellhammer, Celtic Frost), revelou os detalhes do seu segundo disco, sucessor do ótimo Eparistera Daimones (2010). O álbum se chamará Melana Chasmata e será lançado pela Century Media dia 14/04 na Europa e um dia depois na América do Norte. Warrior e o guitarrista V. Santura assinam a produção das nove faixas.

Melana Chasmata será disponibilizado em CD digibook com encarte de 32 páginas (incluindo pôster), vinil duplo gatefold (com pôsteres e encarte com todas as letras) e formato digital, além de um box limitado a 2.000 cópias incluindo o álbum, pingente de prata com a logo da banda, pôster, cartões postais, uma sacola e um boné do grupo. Promovendo o disco, será lançado em 17 de março um vinil de 7 polegadas com capa dupla com as faixas “Breathing” e “Boleskine House”, com quantidade limitada a 1.000 cópias, sendo 200 delas em vinil vermelho.

Como ocorrido no primeiro disco, a capa de Melana Chasmata também traz uma arte do renomado artista suíco H.R. Giger, conhecido mundialmente pelo seu trabalhos nos filmes da série Aliens. A arte que ilustra a capa foi criada por Giger em 1975 e se chama Landschaft XVI.

Abaixo, o tracklist de Melana Chasmata:

1. Tree Of Suffocating Souls
2. Boleskine House
3. Altar Of Deceit
4. Breathing
5. Aurorae
6. Demon Pact
7. In The Sleep Of Death
8. Black Snow
9. Waiting

Por Ricardo Seelig

6 de fev de 2014

MaYaN: crítica de Antagonise (2014)

quinta-feira, fevereiro 06, 2014
Projeto de Mark Jansen (After Forever, Epica), o MaYaN segue um caminho interessante, explorando liricamente a mitológica civilização maia enquanto, musicalmente, turbina o seu death metal com elementos sinfônicos. O resultado já havia surpreendido no primeiro disco, Quarterpast (2011), e consolida a sua qualidade com Antagonise, segundo álbum, lançado no final de janeiro pela Nuclear Blast.

Há mudanças significativas em relação aos dois discos. Em Quarterpast, Jansen contava com a participação de Simone Simmons, sua companheira no Epica, como convidada especial. Em Antagonise, Simmons, que se tornou mãe recentemente, não participa. Sua substituta é Laura Macri. Completam o line-up Henning Basse (vocal, ex-Metalium), Frank Schiphorst (guitarra, ex-Prostitute Disfigurement), Jack Driessen (teclado, ex-After Forever), Rob van der Loo (baixo, Epica) e Ariën van Weesenbeek (bateria, Epica). Como convidados especiais, Floor Jansen (Nightwish, ReVamp), Marcela Bovio (Stream of Passion) e o violinista Dimitris Katsoulis.

O MaYaN se sai indubitavelmente melhor quando investe no metal extremo, caso da ótima “Human Sacrifice”, com participação de Floor Jansen. Trata-se de uma música excelente, o mais próximo que podemos chegar de como soaria o Nightwish se fosse uma banda mais agressiva. Outros destaques são “Bloodline Forfeit”, “Burn Your Witches”, “Paladins of Deceit”, “Faceless Spies” e “Insano”, essa última muito próxima de uma ária de ópera e que serve como uma espécie de interlúdio postada estrategicamente no meio do disco, e onde Laura Macri brilha intensamente com a sua bela voz.

Ainda que o timbre de Henning Basse soe meio fora de lugar em alguns momentos - um vocalista com um tom mais grave me parece que casaria melhor com a proposta do MaYaN, ao invés do tom agudo de Basse -, isso não chega a comprometer o trabalho, apesar da inegável estranheza inicial. Os riffs de Jansen caminham pelo universo do death e são encorpados pela ótima performance da cozinha do Epica, que faz um trabalho irretocável, notadamente Weesembeek, que demonstra dominar a opressiva arte da bateria extrema, repleta de blast beats. Mais uma vez, como já havia ocorrido em Quarterpast, o trabalho de composição é inspirado, com ótimas ideias colocadas na mesa e exploradas com criatividade pelos músicos. As intervenções sinfônicas tornam as faixas mais épicas, e funcionam muito bem, contrastando com os momentos mais extremos.

Antagonise é um belo disco, que consegue unir em um mesmo universo duas sonoridades antagônicas: o death metal e o metal sinfônico. E faz isso sem apelar para o manjado esquema “a bela e a fera” tão comum em um grande número de bandas, onde o contraste entre uma bela voz feminina e o gutural masculino é explorado à exaustão. Na verdade, acontece justamente o contrário com o MaYaN: o protagonismo, sempre, é da voz gutural de Jansen, que, dependendo da canção, tem como contraponto Basse ou as vozes femininas presentes.

Mais uma bela bola dentro.

Nota 8

Faixas:
1 Bloodline Forfeit
2 Burn Your Witches
3 Redemption
4 Paladins of Deceit
5 Lone Wolf
6 Devil in Disguise
7 Insano
8 Human Sacrifice
9 Enemies of Freedom
10 Capital Punishment
11 Faceless Spies

Por Ricardo Seelig

Discos do The Black Keys são finalmente lançados no Brasil

quinta-feira, fevereiro 06, 2014
O duo norte-americano The Black Keys é uma das bandas mais celebradas e populares dos últimos anos, porém, inexplicavelmente, apenas um disco do grupo havia sido lançado por aqui - El Camino, de 2011.

Agora, aos poucos a discografia do grupo começa a desembarcar nas lojas brasileiras. A gravadora DeckDisc anunciou que lançará três álbuns e um DVD ao vivo da dupla: Thickfreakness (2003), Rubber Factory (2004) e o EP Chulahoma: The Songs of Junior Kimbrough (2006), mais o DVD Live (2005). Todos são registros do período anterior ao estouro promovido pelo ótimo Brothers (2010), e mostram a banda executando um som mais cru, focado no blues.

Esperamos que agora os demais discos do Black Keys - The Big Come Up (2002), Magic Potion (2006), Attack & Release (2008) e o próprio Brothers - também ganhem edições nacionais, afinal já passou da hora destes álbuns desembarcarem por aqui.

Por Ricardo Seelig

California Breed, a nova banda de Glenn Hughes e Jason Bonham

quinta-feira, fevereiro 06, 2014
O Black Country Communion acabou em 2013 devido aos conflitos de agenda entre Joe Bonamassa e os demais músicos, Glenn Hughes, Jason Bonham e Derek Sherinian. Enquanto Bonamassa tinha como prioridade a sua carreira solo, o trio restante havia colocado o BCC em primeiro plano.

Mas a parceria entre Hughes e Bonham segue firme. A dupla anunciou uma nova banda, o trio California Breed, ao lado do vocalista e guitarrista Andrew Watt, um prodígio de apenas 23 anos. O grupo gravou dozes faixas e já tem um ábum praticamente pronto, que sairá ainda este ano pela Frontiers - a data e o título não foram informados.

Acompanhe os passos futuros do California Breed no Facebook da banda.

Por Ricardo Seelig

5 de fev de 2014

Ron Keel: crítica de Metal Cowboy (2014)

quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Ron Keel, fundador, vocalista e guitarrista do veterano Keel, um dos nomes mais cultuados do hard norte-americano, reinventa-se em Metal Cowboy, seu segundo disco solo. Enquanto seu primeiro trabalho individual, Alone at Last (2006), trazia baladas e regravações com um acentuado clima country romântico, em sua segunda investida Keel trilha o caminho seguro e sempre agradável do southern rock.

Bem acompanhado por Frank Hannon (guitarra, Tesla) e Mike Vanderhule (bateria, Y&T), Ron (que além de cantar e tocar guitarra assumiu também o banjo e o baixo) parece ter encontrado um caminho promissor para sua carreira solo. Explorando o orgulho de ser norte-americano através de uma das sonoridades mais emblemáticas e populares de seu país natal, o vocalista gravou um disco com potencial para agradar os milhões de admiradores de uma das grandes inspirações de Metal Cowboy, o lendário Lynyrd Skynyrd.

Estilisticamente, o que se ouve é uma mistura de hard rock com country, tudo embalado pela bela voz de Keel. Com boas composições, o álbum alterna canções com um inegável ar estradeiro (“Long Gone Bad”, “The Last Ride” e “The Cowboy Road”) com outras que trazem o bucólico e sempre acolhedor clima do campo (“What Would Skynyrd Do” e “Singers, Hookers & Thieves”, essa última em dueto com Paul Shortino, ex-Rough Cutt e Quiet Riot). No meio disso tudo, pequenas inserções em direção ao hard oitentista que deverão agradar os fãs das antigas, como no single “My Bad”, "Wild Forever" e em “Evil Wicked Mean & Nasty”.

Metal Cowboy não é um disco que mudará o mundo ou fará algo do tipo, porém trata-se de um trabalho honesto e bastante agradável de um artista já veterano e que, a essa altura de sua carreira, explora com classe uma sonoridade até então inédita em sua trajetória.

Indicado tanto para os veteranos fãs do Keel quanto para quem curte o rock caipira característico do sul dos Estados Unidos.

Nota 7

Faixas:
1 Long Gone Bad
2 Wild Forever
3 My Bad
4 What Would Skynyrd Do
5 Just Like Tennessee
6 The Last Ride
7 When Love Goes Down
8 Singers, Hookers & Thieves
9 Evil Wicked Mean & Nasty
10 The Cowboy Road
11 3 Chord Drinkin Song
12 My Bad (Radio Version) (bonus track)
13 Just Like Tennessee (Unplugged) (bonus track)
14 Singers, Hookers & Thieves (solo acoustic version) (bonus track)

Por Ricardo Seelig

Apanhado death/thrash/black de janeiro

quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Aquele tradicional resumo com o que rolou de mais interessante nos subterrâneos do heavy metal nos últimos 30 dias. Notícias, vídeos e músicas novas, às vezes já com um certo cheiro de mofo, mas que não poderiam jamais passar em branco por aqui. Confira!

Agalloch

John Haughm trouxe boas notícias aos fãs do Agalloch ao dar valiosos detalhes sobre o aguardado novo álbum da banda. O guitarrista/vocalista revelou o nome e a data de lançamento do trabalho: The Serpent & The Sphere, a ser lançado em 13 de maio.

Quinto álbum de estúdio do Agalloch, The Serpent & The Sphere será o sucessor de Marrow of the Spirit (2010). As gravações já foram concluídas e os disco sairá pela Profound Lore Records. Uma nova foto da banda também foi divulgada - veja acima.

Metal Alliance Tour

O Metal Alliance Tour, festival itinerante norte-americano, anunciou seu cast para 2014. Após uma edição totalmente voltada para o thrash metal em 2013, dessa vez a predominância é de bandas ligadas ao black metal. O Behemoth será a atração principal. Goatwhore e 1349 serão co-headliners do line-up que ainda terá Inquisition, dono de um dos melhores discos do gênero no ano passado - Obscure Verses for the Multiverse -, e Black Crown Initiate.

Nas três edições anteriores, o Metal Alliance Tour contou com nomes de peso como Anthrax, Exodus, Municipal Waste e High On Fire, em 2013, DevilDriver e Dying Fetus, em 2012, e Helmet, Saint Vitus, Crowbar Kylesa e Red Fang, em 2011.

Kampfar

Djevelmakt, sexto álbum de estúdio dos veteranos noruegueses do Kampfar e lançado no fim de janeiro, já está disponível para streaming na íntegra. Também foi divulgado o lyric video para "Swarm Norvegicus", quarta faixa do trabalho. Confira a seguir.

Demonical

Os suecos do Demonical divulgaram o clipe de "An Endless Celebration", faixa presente no ótimo Darkness Unbound (2013), mais recente trabalho da banda. O vídeo foi gravado em Bucareste, na Romênia, durante uma turnê do ano passado.

Aeon

O Aeon anunciou Ronnie Björnström como novo guitarrista. Ronnie entra na banda para substituir Daniel Dlimi, que havia se desligado em outubro de 2013 alegando cansaço da rotina de gravações e turnês. O último disco dos suecos foi Aeons Black (2012).

Prostitute Disfigurement

O Prostitute Disfigurement lançou agora no início de fevereiro From Crotch to Crown, seu novo álbum de estúdio. Antes porém, os holandeses haviam disponibilizado o lyric video para "Crowned in Entrails", um dos carros-chefe do trabalho. Ouça!

Nocturnal Breed

Os noruegueses do Nocturnal Breed apresentaram mais uma música que estará presente em Napalm Nigths, disco novo - o quinto de estúdio - da banda e que será lançado em março: "Speedkrieg", que já está disponível para streaming.

Massacre

Um das lendas do death metal da Flórida, o Massacre ressurgiu das cinzas e vai lançar um novo álbum. O retorno já havia sido oficializado, mas ainda restavam detalhes sobre o trabalho. Não faltam mais. O disco se chamará Back From Beyond - em clara alusão ao clássico From Beyond (1991) - e sairá em 24 de março, na Europa, e em 1 de abril, na América do Norte.

Back From Beyond foi gravado sob a batuta de Tim Vazquez em Altamonte Springs. A capa foi desenvolvida por Toshihiro Egawa (Krisiun, Devourment etc). Reformulado, o Massacre conta só com Rick Rozz (guitarra) e Terry Butler (baixo) da formação original. A grande ausência fica por conta do vocalista Kam Lee, que não está envolvido na reunião.

Veja o track list:

1 As We Wait To Die
2 Ascension Of The Deceased
3 Hunter's Blood
4 Darkness Fell
5 False Revelation
6 Succumb To Rapture
7 Remnants Of Hatred
8 Shield Of The Son
9 The Evil Within
10 Sands Of Time
11 Beast Of Vengeance
12 Back From Beyond
13 Honor The Fallen

Vampire

Um dos lançamentos mais aguardados na seara death/thrash neste início de ano, o auto-intitulado disco de estreia do Vampire sairá no dia 3 de março via Century Media. Até lá, é possível ir matando um pouco da curiosidade em relação ao som dos suecos com a primeira música a ser disponibilizada: "Howl From The Coffin". Ouça aqui!

At the Gates

Precursor do que se acostumou a chamar de Gothenburg Sound, o At the Gates anunciou para 2014 um novo álbum de estúdio. O trabalho ainda não tem data para sair, mas deve se chamar At War With Reality e chega para, após várias reuniões apenas em apresentações ao vivo, encerrar o hiato que já dura 19 anos desde o último registro: Slaughter of the Soul (1995).

Lost Soul

Quem também anunciou planos para um novo trabalho são os poloneses do Lost Soul. Atlantis - The New Beginning, que será o quinto disco da banda, inclusive já está processo final de mixagem, mas ainda não tem data exata para lançamento.

Lay Down Rotten

Os alemães do Lay Down Rotten disponibilizaram o streaming para "Deathspell Catharsis", que está presente no disco homônimo lançado pela banda em janeiro.

Astrophobos

Black metal da Noruega na área com o novato Astrophobos, que disponibilizou o streaming para a faixa "Malevolent Firmament", presente em seu álbum de estreia, Remnants of Forgotten Horrors, recém-saído do forno.

Lost Society

Diretamente da Finlândia, os thrashers do Lost Society lançam em abril Terror Hungry, segundo álbum da banda. A capa já foi divulgada, e o play contará com um total de 13 faixas.

1 Spurgatory
2 Game Over
3 Attaxic
4 Lethal Pleasure
5 Terror Hungry
6 Snowroad Blowout
7 Tyrant Takeover
8 Overdosed Brain
9 Thrashed Reality
10 F.F.E.
11 Brewtal Awakening
12 Mosh It Up
13 Wasted After Midnight

Aborted

Os belgas veteranos do Aborted estão em estúdio para gravar The Necrotic Manifesto, oitavo full lenght da banda. Todo o processo está sendo feito na Dinamarca, sob produção de Jacob Hansen (Volbeat, Heaven Shall Burn, Mercenary). Ainda não há previsão de lançamento.

Por Guilherme Gonçalves

Indian: crítica de From All Purity (2014)

quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Quinto álbum da banda norte-americana Indian, From All Purity foi lançado em 21 de janeiro pela Relapse e sucede Guiltless, de 2011. O quinteto de Chicago executa um sludge/drone lamacento, arrastado e denso, nada amigável para os ouvidos não acostumados com ambos os gêneros.

Com guitarras cheias de peso e pra lá de saturadas, o Indian leva o ouvinte por seis pesadelos sonoros em From All Purity. Todas as músicas são longas e ultrapassam os seis minutos - a exceção é “Clarify”, uma coda repleta de ruídos que fica na faixa dos quatro minutos. A sonoridade é construída pelas guitarras e pelo vocal gutural, que parece executado por uma alma penada vindo direta de um castelo mal assombrado.

A proposta da banda passa longe de criar algo que soa próximo de algo familiar para a grande maioria dos fãs de heavy metal. Não existem refrãos, as guitarras despejam riffs repetitivos que apenas em alguns momentos apresentam variações, amparados por uma cozinha sólida e espessa. Os vocais sobrevoam essa sonoridade intimidadora, despejando versos fantasmagóricos. Para tentar localizar o leitor e apenas tendo isso como parâmetro, pode-se dizer que existe uma certa similaridade com a música do Cult of Luna, ainda que de leve, já que a banda sueca é mais atmosférica.

Apropriadamente, a faixa de abertura tem o sugestivo título de “Rape” e promove literalmente um estupro auditivo em seus quase oito minutos, que soam como a trilha de um desagradável pesadelo. Trata-se de um som que causa estranheza a princípio, mas que, mesmo assim, possui um apelo implícito, atração que talvez encontre explicação no interesse que sentimos por tudo aquilo que exala uma aura sombria e nos leve para o desconhecido. A faixa mais convencional é “Disambiguation”, que encerra o disco com uma espécie de doom sludge, se é que isso existe.

From All Purity é um álbum que mexe profundamente com o ouvinte, e não no sentido de fornecer uma trilha sonora para momentos específicos. O que o disco faz é levar quem se aventura por suas faixas através de uma espécie de realidade paralela que não tem nada a ver com o mundo cada vez mais fantasioso e individualista em que vivemos. Nesse sentido, trata-se de uma peça de arte contestadora e perturbadora, que se destaca sem dificuldades no universo padronizado em que estamos inseridos.

Quantos discos ainda podem receber essa definição atualmente?

Nota 7,5

Faixas:
1 Rape
2 The Impetus Bleeds
3 Directional
4 Rhetoric of No
5 Clarify
6 Disambiguation

Por Ricardo Seelig

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