26 de abr de 2014

Discografia Comentada: Skid Row

sábado, abril 26, 2014
O Skid Row tomou forma em 1986 e, desde então, vendeu cerca de 20 milhões de álbuns em todo o mundo. A popularidade adquirida assegura o quinteto entre os principais nomes do hard rock norte-americano dos anos 1980 e 1990. Músicas como "Youth Gone Wild", "18 And Life", "I Remember You" e "Monkey Business" fizeram bonito em paradas dos quatro cantos do globo e não há um ser vivo que jamais tenha ouvido qualquer uma delas uma vez que seja na vida. Enquanto aguardamos ansiosamente pelo segundo volume de United World Rebellion — previsto para este ano —, que tal um passeio pela discografia oficial do grupo? Aumente o som!



Skid Row (1989) 

Há discos que ajudam a definir toda a estética de um determinado estilo. É adequado situar o bolachão de estreia do Skid Row entre aqueles responsáveis pela identidade do glam metal do final dos anos 1980, quando este foi redescoberto pela mídia por causa do Guns N' Roses. Para conceber tal obra-prima, o quinteto oriundo de Nova Jersey contou com um background e tanto: gerenciamento de Doc McGhee, produção de Michael Wagener (de Under Lock and Key do Dokken e Soldiers Under Command do Stryper) e a garantia de excursionar abrindo para o Bon Jovi após o lançamento do álbum. Musical e esteticamente, Skid Row injeta todos os clichês do rock farofa numa veia onde corre um inegável apelo pop responsável, sobretudo, pela murder ballad "I Remember You". Tem também "Youth Gone Wild", a "My Generation" da juventude hard rocker oitentista. Os mais de 5 milhões de cópias vendidas somente nos EUA asseguraram ao grupo cinco discos de platina, mas não os impediu de pisar fora da própria sombra dois anos mais tarde. (Nota: 9)



Slave to the Grind (1991) 

O famoso ditado popular de que em time que está ganhando não se mexe é uma falácia perigosa, ainda mais dado o contexto no qual o Skid Row estava inserido na virada dos anos 1990. A boa vendagem de seu disco de estreia trouxe fama e fortuna à jato, mas a saturação do glam metal veio tão rápido quanto. O time propriamente dito foi mantido — a banda não trocou nenhum integrante e contou novamente com a produção de Michael Wagener —, mas a estratégia de jogo mudou e muito. Lançado em junho de 1991, Slave to the Grind marca o redirecionamento musical do Skid Row para o lado metálico da força a ponto de tocar as raias do speed metal com sua faixa-título. A desgastada fórmula das hair bands ainda se faz presente, mas com notável peso extra em "Monkey Business", o grande hit do álbum. As letras atingem um patamar mais alto ao se tornarem mais críticas e questionadoras e são vociferadas por um Sebastian Bach no auge de seu talento. A versão censurada inclui "Beggar's Day" no lugar de "Get the Fuck Out". (Nota 10)

 

B-Side Ourselves (1992) 

Tendo comido o pão que o diabo amassou na estrada, o Skid Row optou por uma pausa nas atividades. Nesse ínterim, a Atlantic Records pos na rua o EP B-Side Ourselves, com cinco gravações não originais, cada uma escolhida por um integrante da banda, com o propósito de mostrar ao mundo alguns dos nomes que os influenciaram musicalmente. De Ramones ("Psycho Therapy") a Rush ("What You're Doing") passando por uma belíssima releitura de "Little Wing", do Jimi Hendrix Experience que até videoclipe ganhou. Alguns desses covers já haviam sido previamente lançados como lados B de singles e a arrasadora versão ao vivo de "Delivering the Goods" do Judas Priest com participação especial de Rob Halford veria a luz do dia novamente anos mais tarde no também EP Subhuman Beings on Tour. (Nota: 7)



Subhuman Race (1995) 

Buscando uma sonoridade ainda mais agressiva, o Skid Row pôs fim à parceria com Michael Wagener, optando por Bob Rock, o cara por trás do black album do Metallica. Internamente, a banda estava degringolando, com duas frentes, lideradas uma por Rachel Bolan e outra por Sebastian Bach, praticamente sendo forçadas a botar a mão na massa e chegar a denominadores comuns a contragosto. O clima pesado refletiu nas gravações, definidas pelo baixista como "um pesadelo". Subhuman Race foi parido em março de 1995 trazendo uma claustrofóbica combinação de raiva com frustração e saco cheio. Nas letras, indiretas trocas de gentilezas — repare na despeitada "My Enemy" — e certo, porém maquiado pesar. A produção de Rock é crua e pontiaguda, e tudo parece ter sido captado com o menor número de takes possível, uma prática até então inédita para a banda. A crítica o abraçou, mas a maioria dos fãs não pensa duas vezes antes de defini-lo como o pior álbum do Skid Row com Tião no vocal. (Nota: 8)



Subhuman Beings on Tour (1995) 

O que seria do rock e do metal sem o Japão? Não é de hoje que a Terra do Sol Nascente ocupa o papel de maior mercado consumidor desses gêneros no planeta. Nada mais justo, então, do que presentear o público de lá com lançamentos, a princípio, exclusivos. Subhuman Beings on Tour foi a maneira que o Skid Row encontrou de agradecer aos japoneses pelos anos de fidelidade e investimento. O EP reúne algumas pedradas gravadas durante a turnê de Subhuman Race, que incluiu shows abrindo para o Van Halen. No palco, a banda simplesmente entregava o máximo do que ainda restava de si e estupros sonoros como "Riot Act" e "Beat Yourself Blind" davam carta-branca para que, cada qual no seu mundinho, enlouquecesse pra valer. Esta turnê seria o fim da linha para Sebastian Bach, demitido em 1996. (Nota: 6)



40 Seasons: The Best of Skid Row (1998) 

Como toda coletânea, esta que se propõe a fazer um apanhado das melhores músicas lançadas pelo Skid Row até então bate na trave. Os números justificam a maioria das escolhas por aqui, logo a presença de "The Threat" ao invés de "In a Darkened Room" ou "Wasted Time" merece um grande ponto de interrogação — por mais que a música seja animal. A trinca extraída de Subhuman Race recebeu nova mixagem, com contornos mais bem definidos, visando o ouvinte apenas casual. No fim das contas, são somente três as faixas que justificam o investimento: versão demo de "Frozen" com a esquisita introdução original, a perfeita "Forever" (deixada de fora do disco de estreia aos 45 do segundo tempo) e "Fire in the Hole", um dos muitos registros descartados das sessões de Slave to the Grind. (Nota: 7)



Thickskin (2003) 

O Skid Row adentrou o novo milênio sem sua peça mais fundamental ao meu ver. O escolhido para substituir Sebastian Bach foi Johnny Solinger, do grupo que levava o seu sobrenome. Mudança também na bateria, com Phil Varone, do inexpressivo Saigon Kick, assumindo a vaga deixada por Rob Affuso. Ainda que o nome falasse por si só e a coisa caminhasse mesmo que a passos de tartaruga, muitos foram os fãs que viraram as costas para o Skid Row sem Sebastian Bach. A rejeição latente foi alimento durante as gravações de Thickskin, lançado de maneira independente em agosto de 2003. "Ghost", escrita em parceria com Damon Johnson (Alice Cooper, Thin Lizzy) e primeira música de trabalho, exemplifica o teor alternativo que muito me desagrada. Para quem estava acostumado com o Skid Row que era mais voz do que qualquer outra coisa, pode ser um baque perceber que o centro das atenções agora é a guitarra. (Nota: 4)



Revolutions per Minute (2006) 

Lembram do Michael Wagener? Pois é, ele voltou e nele foram depositadas todas as esperanças de um futuro melhor. Tendo Phil levado o seu Varone para a indústria pornô, Dave Gara (futuro BulletBoys) assumiu a bateria. Se restava alguma dúvida quanto a posição de liderança dentro do grupo, o fato de nove das doze faixas de Revolutions per Minute terem sido escritas por Rachel Bolan não deixa pedra sobre pedra. Em seu segundo trabalho, o novo Skid Row, sob a tutela agora cautelosa do baixista, volta a ter o hard rock como fio condutor, mas acaba errando feio nos fatores carisma e personalidade, o que compromete o seu desempenho ao vivo. A descrença dos fãs na banda sem Bach só aumentou, por mais que a crítica reforçasse o potencial imenso que havia ali. Todos torcemos o nariz sem saber que, sete anos mais tarde, o gigante acordaria. (Nota: 5)



United World Rebellion: Chapter One (2013) 

Foram sete anos sem lançar nada de novo, apenas batendo ponto em festivais e eventos dedicados ao hard rock nos EUA e na Europa. Cada integrante se dedicou a diferentes atividades (para quem não sabe, Dave Sabo empresaria o Duff McKagan's Loaded, por exemplo) e as reuniões de trabalho eram pouco frequentes. Com os rumores a respeito de uma reunião da formação original efervescendo na mídia e ensopando as calcinhas das viúvas de Sebastian Bach, o Skid Row, agora com Rob Hammersmith na bateria, libera o primeiro capítulo da trilogia de EPs intitulada United World Rebellion em abril de 2013 e quem esperava mais do mesmo foi pego totalmente desprevenido. O que temos aqui é o sucessor direto de Subhuman Race; um jorro de canções poderosas do jeito que o Skid Row parecia ter esquecido como se faz com Johnny Solinger rebatendo o repúdio na base do grito e a banda aparentemente motivada a voltar a brilhar na cena. A torcida é para que a reserva de mana não tenha esvaziado e os capítulos seguintes venham com rebeliões ainda maiores. (Nota: 8,5) 


Por Marcelo Vieira


25 de abr de 2014

Espaço do Leitor: as feiras de discos pelo Brasil

sexta-feira, abril 25, 2014
Salve CollectorsRoom!

Parabéns pelo excelente trabalho. Acompanho a Collectors desde a época em que eram postadas as entrevistas com colecionadores no Whiplash. Não me lembro o ano exato, mas não perco nenhum artigo desde então.

Adoro as matérias e as resenhas, sempre trazendo indicações de bandas relevantes. Se não fosse pela Collectors eu não teria acesso a bandas que eu desconhecia (Opeth, Orphaned Land, Baroness, Mastodon, Vespas Mandarinas, só para citar algumas). Sou fanático por música desde 1984, quando ouvi o álbum The Number of the Beast. Minha banda do coração é o Rush.

Acho que seria interessante vocês abordarem algo relativo às feiras de discos que acontecem nas cidades brasileiras e também algumas lojas (se é que ainda existem). Sou do interior de São Paulo e acho que seria legal um espaço em que fossem divulgados alguns eventos para colecionadores. Não existe coisa melhor do que sujar os dedos garimpando discos, sinto muita falta disso hoje em dia. Seria sensacional algum post da Collectors Room TV sobre este assunto.

Definitivamente mudamos o jeito de se consumir música hoje em dia. Não precisamos mais deixar aquela fita K7 novinha esperando que o novo single de nossa banda preferida toque no rádio. Mas acredito que devemos manter este espírito desbravador e nostálgico dos colecionadores amantes de música.

É isso aí, música além do óbvio.

Grande abraço.

Leonardo Leoci
Itu (SP)


Olá, Leonardo. Obrigado pela sua mensagem. É muito gratificante ter um feedback como o seu, mostrando o quanto o nosso trabalho teve impacto na sua vida.

As entrevistas com colecionadores começaram a ser publicadas no Whiplash em 2005. Ao todo, foram 54. Elas nos deram visibilidade, eram uma das colunas mais populares do Whip e foram o pontapé inicial para a criação da Collectors Room. Vou aproveitar que você citou isso para responder um questionamento frequente que recebo, me perguntando porque as entrevistas e as demais matérias que escrevi para o Whiplash não estão mais lá. É o seguinte: por uma série de fatores, cujo principal é a discordância em relação à linha editorial e ao modo como o Whip administra a relação entre os colaboradores e os leitores, decidi me afastar e solicitei que todo o material que escrevi para o site fosse retirado do ar. Esse material não se encontra disponível em nenhum outro lugar.

Como você menciona, levar novos nomes até os nossos leitores é um dos objetivos principais da Collectors Room. Acreditamos que, com raras exceções, os veículos destinados ao rock e ao metal aqui no Brasil - sejam eles de mídia impressa ou online - possuem visões muito conservadoras, produzindo material sobre as mesmas bandas infinitamente e deixando de lado uma parcela considerável do que de mais legal está acontecendo agora, neste momento, mundo afora. Por isso, é com muita alegria que publicamos matérias de bandas fora do radar e que são poucos conhecidas por aqui, mas que possuem um som de primeira. Além das que você citou, vale lembrar do Rival Sons, Graveyard, Torche e muitas outras. E o retorno positivo que recebemos do nosso público em relação a esses grupos mostra que sim, há espaço para essas e outras novas bandas aqui no Brasil, que só não conquistam um público maior por sua música não chegar a um número maior de pessoas.

Sobre as feiras de discos, elas resgatam uma sensação muito boa e que acabou se perdendo com o domínio do consumo de música online: o clima e o convívio com outros fãs, ouvintes e colecionadores que nos era proporcionado pelas lojas de discos. Eu sinto falta disso, e você também, como deixou claro. Muita gente nem sabe como era interessante passar horas e horas dentro de uma loja olhando os LPs, trocando informações e pegando dicas com os vendedores e com outros colecionadores que estavam por ali, em uma comunhão de amor e respeito à música. As feiras trazem isso de volta, e estão crescendo e se proliferando cada vez Brasil afora. Frequento a feira do vinil que acontece de tempos em tempos aqui em Florianópolis e a experiência é sempre gratificante. A ideia de divulgar esses eventos nos agrada bastante, e isso será feito não aqui no site, mas através de nossa página no Facebook - www.facebook.com/collectorsroom -, como já temos feito ocasionalmente. Aliás, curte a gente por lá que também vale a pena (rs).

No mais, é isso: vamos todos seguindo tendo a música como elemento importante de nossas vidas. O fato de não apenas ouvir um disco, mas pegá-lo na mão, tocar a sua capa e sentir o seu cheiro e textura é uma das experiências mais legais de todo esse processo. Não deixar tudo isso se perder com o tempo faz toda a diferença, e nós acreditamos nisso.

Obrigado pela mensagem e pelo apoio, e continue com a gente. (Ricardo Seelig)

26 Bandas para o Matias: K de Kiss

sexta-feira, abril 25, 2014
Nunca fui muito fã do Kiss. Gosto do Destroyer, adoro os primeiros discos, curto o Creatures of the Night e o Lick It Up e acho a fase recente bem boa. Mas é só. O fascínio e magia que amigos próximos sentem pela banda jamais chegou até mim. Entendo esse sentimento, mas não carrego ele comigo.

No entanto, meu filho, desde pequeno, o tem em seu coração. O Matias conheceu o Kiss através do Psycho Circus. Estava em um sebo com ele, fuçando e cavocando atrás de itens interessantes, quanto me deparei com a edição especial do disco, aquela com a capa em 3D. Comprei e coloquei no carro. Ele gostou da música e perguntou o que era. Expliquei e entreguei o CD para ele, que ficou fascinado pela capa e pelo encarte. A magia do Kiss havia acontecido através das maquiagens que transformam Paul, Gene, Ace e Peter em super-heróis há décadas. Nascia ali mais um fã.

Talvez por já ter tido contato com o Eddie do Iron Maiden desde cedo e por sempre mexer em minhas coleções de discos e histórias e quadrinhos, o Matias se identificou quase imediatamente com a figura do Demon, personificada por Gene Simmons. Ele era o seu novo herói. E que, pela imagem presente em Psycho Circus, ele apelidou de “dente sujo”, alcunha que permanece até hoje, já passados alguns anos de toda essa história.

E daí teve uma feira do vinil aqui em Florianópolis. Fomos nós dois. Andamos por lá, ouvimos música e pesquei um The Final Frontier, do Maiden, em vinil picture duplo. Estávamos já de saída quando ele puxou meu braço e disse que também queria um disco. Esse é o momento em que um pai como eu, que passou a vida inteira ouvindo música e valorizando o aspecto físico, tátil e visual dos discos, entra em êxtase. Procuramos mais alguns itens nas caixas dos vendedores e vimos um LP americano do Love Gun, no qual meu filho bateu o olho e disse: “quero esse”.

Discos comprados, fomos para casa ouvi-los. Ele sentou e colocou o LP para tocar, ouvindo os dois lados inteiros enquanto observava a capa e o encarte, com a logo do Kiss feita com sangue. Este disco está comigo até hoje, junto com os meus discos de vinil. E, toda vez que o Matias o vê, diz que é dele e que está deixando comigo para eu cuidar.

Acho que esse é o principal legado do Kiss: a capacidade de traduzir visualmente, através das maquiagens de seus integrantes, toda a magia do rock. Os quatro integrantes da banda são heróis, alienígenas, tudo o que se possa imaginar, menos seres humanos. Ainda que, convenhamos, se esforcem constantemente para nos mostrar o quanto estão próximos do que há de mais detestável no ser humano, vide as recentes discussões públicas causadas pela indução ao Rock and Roll Hall of Fame e as biografias publicadas com inúmeras revelações de bastidores.

Mas tudo isso vai embora quando a agulha toca o vinil e a música enche os alto-falantes. Kiss é vida, é magia, é diversão. É, como já disse, a tradução visual do que todos nós, que amamos a música e o rock, sentimos ao ter o primeiro contato com o gênero. E essa experiência é marcante e definitiva, permanecendo por toda a vida.

Hoje, ouço muito mais Kiss do que ouvi em todos os meus anos anteriores. E isso é motivado pelo pequeno rockeiro que me incentiva a saber, todos os dias, o que ele já sabe faz tempo: a vida fica muito mais divertida com estes quatro mascarados e suas histórias incríveis.

Por Ricardo Seelig

24 de abr de 2014

Amoral: Crítica de Fallen Leaves & Dead Sparrows (2014)

quinta-feira, abril 24, 2014

Mesmo estando na ativa desde 1997, há de se admitir que os holofotes voltaram-se para os finlandeses do Amoral apenas em 2008, quando anunciaram que o seu novo vocalista seria Ari Koivunen, o jovem vencedor do programa “Ídolos” em seu pais (e coincidentemente um dos artistas que mais vendeu discos na história da Finlândia). Até aí tudo bem, mas o que realmente chamou a atenção foi como a banda, que até então era praticante de um técnico death/thrash metal em seus três primeiros álbuns, mudou drasticamente o seu som para aquele power metal de formato padrão, causando revolta entre seus seguidores extremos.

Desde então, com Show Your Colors (2009) e Beneath (2011), o Amoral transitou de forma um tanto quanto genérica (mas bem intencionada) entre as escolas finlandesas e alemãs do estilo, sendo massacrado mundo afora por aqueles que julgavam essa nova fase da banda apenas como um bando de moleques tocando músicas questionáveis. E para os menos propícios ao novo rumo da banda, Fallen Leaves & Dead Sparrows pode não agradar completamente. Mas a realidade é que em seu sexto disco, lançado novamente pela Imperial Cassette, o quinteto amadureceu de forma mais do que notável – algo evidente desde os títulos das músicas, até a espetacular arte.

Apesar do sugestivo início a la metalcore americano, bastam alguns segundos para o riff de “On The Other Side Pt. I” dar passagem a um power metal mais gélido, cadenciado e climático. Interessante notar que o Amoral se afasta um pouco da bem humorada personificação germânica do estilo, presente nos dois discos anteriores, ao mesmo tempo em que tenta inserir pequenos detalhes no instrumental com o intuito de não tornar os sete minutos da faixa de abertura uma experiência maçante e interminável como o caminhar sobre uma planície tomada pela neve. Aliado a isso, Koivunen opta por um direcionamento mais contido, limpo e melódico, que se causa certa estranheza no início, termina perfeitamente casado com o tom lírico sério e com a veia mais progressiva e atmosférica da banda no novo trabalho.

“No Familiar Faces” pode ter um riff guia meio híbrido entre power metal e melodic death, mas segue bem parecida com a faixa anterior, apenas mais solta e agressiva, uma escalada que atinge o seu ápice na surpreendente “Prolong A Stay”. Alternando entre momentos diretos que beiram o hardcore e outros de puro symphonic metal, o Amoral acerta novamente em não estabelecer limites a sua música, principalmente ao abrir espaço até para os contrastantes blastbeats sob uma sonoridade quase contemplativa, triunfando aonde até muitas bandas extremas perdem a mão.

A balada “Blueprints”, porém, mesmo tendo flerte com o blues e um clima meio setentista, quebra o desenvolvimento do disco de forma brutal, que volta a se recuperar em ritmos ainda lentos e ponderadamente só com “If Not Here, Where?”: uma cadenciada correnteza de mais de nove minutos que atravessa águas ora límpidas e tranquilas o suficiente para observar a paisagem, ora salobras e tempestuosas cortadas por pedras e corredeiras mortais, até a confusão de “The Storm Arrives”, um belo instrumental, mas que parece alongar-se mais do que deveria.

O mesmo ocorre com a balada “See This Through” e o seu código genético savatagiano, mas que se perde em um mar de melodias e timbres cafonas unidos de forma forçada em determinados momentos. É salvo do afogamento apenas por “On The Other Side Pt. II” e a injeção de oxigênio proporcionada pelo equilíbrio entre o prog metal e o melodeath, uma espécie de faixa colaborativa entre o Dream Theater pós-Octavarium e o Amorphis de Tomi Joutsen, ditada por um sentimento épico que se mostra inteligentemente manifestado para encerrar o álbum.

Há de fato um amadurecimento em Fallen Leaves & Dead Sparrows. Por mais que o Amoral ainda arrisque de forma contida, o fato de darem o primeiro passo para longe da estagnação de seus discos anteriores (e veja bem, isso cabe para a fase death metal também) e tentar um novo direcionamento, novas ideias, é digno de respeito. A criatividade e capacidade de composição dos músicos não é algo que precisava ser colocada à prova, mas se manifesta aqui de forma mais experimental, livre e, principalmente, unindo vários elementos que apareciam apenas de forma dispersa anteriormente.

E são exatamente nestes momentos mais progressivos e dinâmicos que a banda demonstra como evoluiu consideravelmente, deixando para trás a simplicidade e conceitos vazios de outrora para construir uma experiência musical interessante o suficiente para, mais uma vez, talvez impressionar parcela de seus admiradores com algo que não se esperava. Claro, este disco representa apenas o primeiro passo, ainda desequilibrado em certas partes, escorregando em outras – as incompletas “The Storm Arrives” e “See This Through”, principalmente – mas ávido por manter-se em pé enquanto o fluxo passa por ele de forma vertiginosa e cada vez mais violenta. 

Nota 7

Faixas:
1. On The Other Side Pt. I
2. No Familiar Faces
3. Prolong A Stay
4. Blueprints
5. If Not Here, Where
6. The Storm Arrives
7. See This Through
8. On The Other Side Pt. II


Por Rodrigo Carvalho

Os melhores discos de blues de todos os tempos segundo a Mojo e a Q Magazine

quinta-feira, abril 24, 2014
Em maio de 2005, a Mojo e a Q Magazine, que são publicadas pela mesma editora, lançaram uma edição especial totalmente dedicada ao blues. Essa revista trouxe uma lista com os melhores discos do gênero segundo as equipes da Mojo e da Q.

São, ao todo, 65 títulos diferentes, incluindo álbuns e também compilações, uma vez que as canções de diversos pioneiros do estilo, gravadas durante as primeiras décadas do século XX, está espalhada em diversos singles.

Abaixo, você encontra um ótimo guia para dar os seus primeiros passos no blues. Há álbuns clássicos, trabalhos de artistas ingleses que foram influenciados pelos pioneiros e discos mais recentes.

Bom apetite:

1. Robert Johnson – King of the Delta Blues Singers
2. Howlin’ Wolf – His Best
3. Muddy Waters – The Anthology: 1947 – 1972
4. B.B. King – His Definitive Greatest Hits
5. Blind Lemon Jefferson – The Best Of
6. John Lee Hooker – The Legendary Modern Recordings
7. Otis Rush – The Essential: The Classic Cobra Recordings 1956 – 1958
8. The Rolling Stones – The Rolling Stones
9. Albert King – King of the Blues Guitar
10. Alvin Youngblood Hart – Territory
11. Blind Willie Johnson – Prase God I’m Satisfied
12. Little Walter - His Best Chess 50th Anniversary Collection
13. Skip James – Complete Earley Recordings
14. Jimmy Reed – Boss Man
15. Buddy Guy – The Very Best Of..
16. Lightnin’ Hopkins – The Gold Star Sessions Vol. 1
17. T-Bone Walker – Midnight Blues
18. Sonny Bow Williamson II – The Best Of
19. Son House – The Complete 1965 Sessions
20. Butterfield Blues Band – The Paul Butterfield Blues Band
21. Blind Blake – The Best of Blind Blake
22. Elmore James – The Sky is Falling
23. Guitar Slim – The Things That I Used to Do
24. Memphis Minnie – Me & My Chauffeur
25. Big Bill Bronzy – Trouble in Mind
26. Charley Patton – The Best Of
27. Muddy Waters – At Newport 1960
28. Junior Kimbrough – Most Things Haven’t Worked Out
29. Sonny Boy Williamson – Bluebird Blues
30. Blind Willie Mctell – The Best Of
31. Bo Diddley - His Best
32. Rl Burnside – Too Bad Jim
33. Bessie Smith – The Essential Bessie Smith
34. ZZ Top – Tres Hombres
35. Jessie Mae Hemphill – Feelin’ Good
36. Lonnie Johnson – Original Guitar Wizard
37. Slim Harpo – Tip On In
38. Magic Sam – Westside Soul
39. Leroy Carr – The Best Of
40. James Cotton – 100% Cotton
41. Taj Mahal – The Best Of
42. Willie Dixon – Willie’s Blues
43. Johnny Winter – The Progressive Blues Experiment
44. Elmo Williams & Hezekiah Early – Takes One To Know One
45. Mississippi Fred Mcdowell – I Do Not Play No Rock ‘N’ Roll
46. Bobby Bland – The Voice: Duke Recordings 1959-69
47. Freddy King – Blues Guitar Hero
48. Stevie Ray Vaughan – Greatest Hits
49. Junior Wells’ Chicago Blues Band – Hoodoo Man Blues
50. Snooks Eaglin – New Orleans Street Singer
51. John Mayall with Eric Clapton – Blues Breakers
52. Cannon’s Jug Stompers – The Best Of Cannon’s Jug Stompers
53. Lowell Fulson – I’ve Got the Blues (... And Them Some)
54. Albert Collins – Ice Pickin’
55. Big Maceo – Volume One (1941-1945)
56. Magic Slim – Grand Slam
57. Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Buddy Guy – Live Action!
58. Robert Nighthawk – Live on Maxwell Street 1964
59. Hound Dog Taylor & The Houserockers – Hound Dog Taylor
60. Clarence ‘Gatemouth’ Brown – Original Peacock Recordings
61. Ma Rainey – Countin’ the Blues
62. Corey Harris – Greens From the Garden
63. Bukka White – The Vintage Recordings (1930 – 1940)
64. Scrapper Blackwell – Mr. Scrapper’s Blues
65. North Mississippi All Stars – Hill Country Revue


Por Ricardo Seelig

Espaço do Leitor: quero publicar meus textos na Collectors Room, como faço?

quinta-feira, abril 24, 2014
Olá, equipe da Collectors Room,

Muito interessante a iniciativa de abrir um espaço para comunicação com o leitor. Com certeza, eu e os demais leitores teremos muitas considerações a fazer nos próximos meses.

Mas meu primeiro contato é, na verdade, uma tentativa de vender meu peixe. Vocês também abrirão espaço para que os leitores tenham a oportunidade de publicar textos? Eu, por exemplo, tenho um escrito de dias atrás, que acredito se encaixar na proposta da Collectors Room.


Sendo publicado ou não, agradeço por essa possibilidade de contato, e desejo cada vez mais sucesso ao site (e à equipe responsável, consequentemente).

Abraços!

Vinícius Gomes
Florianópolis (SC)


Olá Vinícius, obrigado pelo contato. A Collectors Room sempre abriu espaço para que leitores publicassem os seus textos. Ao longo dos quase 6 anos do site, diversos leitores enviaram material para nós e tiveram os seus textos colocados no ar. Para nossa alegria e satisfação, alguns deles se transformaram em colaboradores efetivos e integrantes da nossa equipe.

No momento, a princípio estamos com a equipe fechada em seis pessoas - eu, Guilherme Gonçalves, Rodrigo Carvalho, Thiago Cardim, Marcelo Vieira e Tiago Neves - e não pensamos em incorporar mais integrantes. Porém, se o trabalho que nos for apresentado tiver a qualidade e a linha que buscamos para o site, certamente ficaremos muito felizes em abrir as portas para novos talentos.

Todo mundo precisa de uma oportunidade, em qualquer área. Todos que escrevem sobre música hoje em dia começaram em algum lugar. No meu caso, estreei publicando textos para o Whiplash em 2004. No início, achava que meus textos eram bons. Porém, lendo os meus primeiros escritos atualmente, 10 anos depois, vejo o quanto precisava aprender e evoluir. E é justamente esse o segredo: quanto mais você faz uma coisa, melhor você fica naquilo. Para escrever sobre música é preciso gostar de duas coisas: música e redação. É preciso encontrar o seu estilo, fazer com que a sua maneira de escrever, os seus textos, tenham uma identidade própria e se destaquem entre os milhares que pipocam na internet e em revistas. Isso pode ser feito de diversas maneiras: pelo conhecimento na área, por um conhecimento profundo em um determinado gênero, por trazer para os seus textos características literárias distintas, exercendo a polêmica gratuita, ...

Todos que desejam ter os seus textos publicados aqui na Collectors Room são bem-vindos. Apesar, de como já dito, não estarmos procurando novos colaboradores no momento, é muito bom receber material de novos redatores, identificar e dar oportunidade para novos talentos. Os interessados podem enviar material para o e-mail falacollectorsroom@gmail.com. Todos serão lidos e avaliados, e os que julgarmos interessantes e com a qualidade que procuramos poderão ser publicados aqui, para todos os leitores.

Um grande abraço e viva a música. (Ricardo Seelig)

22 de abr de 2014

“Lazaretto”, novo single de Jack White

terça-feira, abril 22, 2014
O segundo disco solo de Jack White, Lazaretto, será lançado dia 9 de junho pela gravadora do músico, a Third Man Records. O primeiro single e faixa que batiza o álbum já foi divulgado para deleite não só dos fãs, mas para quem gosta de música de maneira geral.

Inclassificável e ótimo como sempre, como direito a um solo de violino de entortar os miolos na parte final.

Abaixo:



Por Ricardo Seelig

“Open My Eyes”, novo clipe do Rival Sons

terça-feira, abril 22, 2014

O Rival Sons revelou mais uma faixa do seu aguardado quarto álbum. O quarteto norte-americano lançou o clipe da faixa “Open My Eyes”, música que estará em Great Western Valkyrie, que chegará às lojas no início de junho.

A canção tem um início onde o baterista Michael Miley paga tributo ao seu maior ídolo, o primeiro e único John Bonham. Aliás, a proximidade com o Led Zeppelin é gritante, incluindo interlúdios acústicos executados pelo guitarrista Scott Holiday e que remetem diretamente a Jimmy Page. Vejamos se será assim em todo o disco.

Assista abaixo:



Por Ricardo Seelig

Machine Head posta versão demo de “Killers & Kings”, música que estará em seu próximo disco

terça-feira, abril 22, 2014
O Machine Head, uma das melhores bandas de metal do planeta atualmente, postou em seu canal no YouTube a versão demo da faixa “Killers & Kings”. A canção, lançada durante o Record Store Day em um vinil colorido de 10” com quatro capas diferentes, estará no próximo álbum do grupo, ainda sem título e data de lançamento confirmados.

Bela maneira de começar a semana depois de um feriadão |m|



Por Ricardo Seelig

Winger: crítica de Better Days Comin' (2014)

terça-feira, abril 22, 2014
Desde o tenebroso IV (2006), os fãs do Winger vêm dançando conforme a música de uma mais tenebrosa ainda banda do rock brasileiro que diz "Vivemos esperando dias melhores...". O álbum que marcou o retorno em definitivo do Winger é um sabre no esterno, e o gosto amargo perdurou por mais três anos, até o lançamento de Karma, que, se está longe de ter o carisma do material hoje encarado como clássico do grupo, consegue varrer seu antecessor direto para debaixo do tapete sem a menor pena.

Mas nem o mais otimista dentre os fãs poderia esperar algo tão esmagador quanto Better Days Comin' (em português, dias melhores a caminho). Após a primeira ouvida do disco — que caiu na net às vésperas de seu lançamento oficial via Frontiers Records —, ouso até contestar o seu nome, que deveria ser Better Days Has Come, pois nele jaz a prova irrefutável de que tais dias melhores já vieram... e vieram com tudo, coisa que os clipes de "Tin Soldier", "Rat Race" e "Midnight Driver of a Love Machine" — cara, esse nome é muito maneiro! — já indicavam.

Better Days Comin' traz o Winger mais furioso e pesado do que nunca. Se no início dos anos 1990, o quarteto impressionava mais pela qualidade individual de seus integrantes, hoje em dia parece que a cola finalmente secou e o que chama mais a atenção é o fator complementaridade. O som que sai pelos alto falantes enquanto escrevo este texto é produto indiscutível de oito mãos e quatro vozes que sobressaem em harmonia invejável. O momento neste relacionamento é tão favorável que pela primeira vez em tempos o que se pode chamar de uma turnê grande será realizada, com datas que vão de maio a setembro deste ano.

Voltando ao disco, o som das guitarras tons abaixo de Reb Beach e John Roth é cheio e seus drives são potentes. O velho Paul Taylor tem seu valor, mas Roth é muito mais guitarrista. A bateria de Rod Morgenstein permanece entre as mais elegantes e completas que existem no hard rock, fugindo das levadas óbvias, acrescentando firulas que acentuam em prol de uma, neste caso, bem-vinda complexidade — repare no instrumento em "Tin Soldier". O baixo tem swing e Kip Winger canta como se estivesse amarrado a um barril de pólvora. Quando falta aquele fôlego de outrora, o cara já faz uso de um de seus muitos recursos vocais para não deixar a peteca cair.

Por fim, as letras fogem do estigma lovy metal ensaboado que aprisionou Winger e muitos de seus contemporâneos no imaginário do povo como bandas de trilha sonora de novela. Aqui são abordados temas como guerra, medos contemporâneos e dar a cara a tapa, que vem a ser a bandeira de todas as bandas tidas como datadas que se erguem das cinzas e se mostram ainda capazes de oferecer trabalhos admiráveis como este aqui. A sua vida pode mudar depois de descobrir que o Winger vai muito além de "Miles Away". E Better Days Comin' pode ser o disco responsável por essa mudança.

Nota: 9,5

01. Midnight Driver of a Love Machine
02. Queen Babylon
03. Rat Race
04. Better Days Comin’
05. Tin Soldier
06. Ever Wonder
07. So Long China
08. Storm in Me
09. Be Who You Are, Now
10. Another Beautiful Day
11. Out of This World

Por Marcelo Vieira

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