3 de mai de 2014

Wolves Like Us: Crítica de Black Soul Choir (2014)

sábado, maio 03, 2014

Apesar de sorte não ser o único elemento decisivo, ao ser combinado com competência pode ser algo que muda os rumos da vida de uma pessoa para sempre. E exatamente o mesmo vale para as bandas: o Wolves Like Us foi formado no ano de 2010, em Oslo, por Larsh Kristensen, Espen Helvig, Toy Kjeldaas e Jonas Thire (vindos de outros obscuros grupos extintos), e logo durante uma de suas primeiras apresentações foram descobertos pela Prosthetic Records, já para o lançamento do primeiro disco, Late Love, em 2011.

O seu trabalho de estreia apresentava um hardcore de distorção extrema, de andamento e composições simples, que ainda definia apenas timidamente as características de seu som. As mudanças vieram, porém, em 2013, com o quarteto norueguês lançando Get Gone, uma faixa que demonstrava como a banda não apenas mantivera a qualidade do debut, mas também deixava claro o foco em não ficar preso em sua própria identidade. E o seu segundo álbum, Black Soul Choir, produzido por Mike Hartung (algo decisivo segundo o próprio Wolves Like Us) evidenciou de uma vez por todas a sua proposta musical. 

"Days of Ignorance", com pouco mais de um minuto de duração pode ser facilmente a anestesia vitalmente necessária para dar início à sessão de pancadaria desenfreada que conduz o que vem a seguir, uma construção de melodias e letras que acertam direto em sua alma, uma jornada reflexiva, mas não exatamente segura. Afinal, após o hardcore de tendências sludge da abertura, "Three Poisons" lida profundamente com erros e as suas consequências (e certa confrontação sobre fé) ao injetar de forma controlada algo de stoner e elementos atmosféricos de post-rock, uma espécie de libertação antes da quase kvelertakiana "I Don’t Need To Be Forgiven", a redenção em que o Wolves Like Us olha para o seu próprio passado, reverenciando o álbum anterior ao mesmo tempo em que o deixa para seguir em frente.

O interlúdio ruidoso dos dedilhados em "A Wish of Fools" liga a viagem ao seu novo capítulo, "When Will We Ever Sleep", um momento agonizante pela combinação instrumental simples, ao mesmo tempo progressivamente imunda e de fácil assimilação, carregada de sentimento impactante e reflexivo que se fortalece em "Your Word is Law" e sua atmosfera pós-cataclísmica. Com um insistente ritmo quebrado, "Dig With Your Hands" remete diretamente a dias cinzentos, lidando com arrependimentos em diversos níveis, refletidos nas inteligentes alternâncias entre post-grunge, groove metal e progressivo.

Mantendo o mesmo tom, "Lovescared" é uma extremamente simples (e talvez por isso belíssima) faixa acústica de melodias fáceis, algo que poderia facilmente ter saído do Black Label Society caso ela tivesse surgido no início da década passada nos arredores de Atlanta. O vozerio crescente de "Under", porém, abre o caminho para "We Were Blood" e seu andamento reto, retomando o peso de uma forma que o Baroness faria, unindo ideias alternativas ao stoner de tendências experimentais. Essa ideia permanece na arrastada "Thanatos Wins Again", o assustador híbrido entre sludge e post-metal personificado de forma orgânica, quase pulsante, ao longo de sete minutos de ruídos, violência, negativismo, e uma impressionante cíclica ideia sobre recomeços, que encerra o álbum.

Black Soul Choir representa um passo de proporções praticamente inconcebíveis ao Wolves Like Us. Se o seu disco de estreia, Late Love, ainda trazia algo mais próximo do post-hardcore em uma personificação amigável com stoner e sludge em certos momentos, em alguns anos os noruegueses tornaram o seu trabalho algo mais identificável, trabalhando com diversas personalidades e uma gama de influências muito maior. Não apenas isso, a interpretação da banda em cada uma das faixas facilmente faz com que essa combinação um tanto quanto disforme (nesse caso é positivo, sim) se assemelhe a uma cria gerada entre o Hot Water Music do Exister e o Baroness do Yellow & Green, um gênio descontrolado que uma vez liberto dificilmente será parado.

Tudo isso faz com que seu segundo álbum não soe apenas como um apanhado de canções reunidas, mas praticamente como a construção de sua própria entidade, uma jornada dinâmica de efeitos irreparáveis e impactantes (tanto para o Wolves Like Us, quanto para o ouvinte que entrar no mesmo nível da experiência). Simples na primeira impressão, mas que adquire outra proporção ao ser analisada nos mínimos detalhes e em cada verso.

Mais um entre os grandes álbuns de 2014, até o momento.

Nota 9,5

Faixas:
1. Days of Ignorance
2. Three Poisons
3. I Don’t Need to Be Forgiven
4. A Wish of Fools
5. When Will We Ever Sleep
6. Your Word is Law
7. Dig With Your Hands
8. Lovescared
9. Under
10. We Were Blood
11. Thanatos Wins Again


Por Rodrigo Carvalho

2 de mai de 2014

Apanhado death/thrash/black de abril

sexta-feira, maio 02, 2014
Apanhado death/thrash/black de abril na área. Com notícias boas, como o retorno da formação clássica do Exciter, e notícias péssimas, como o falecimento de Jason McCash, do Gates of Slumber. Uma perda não só para o doom metal, mas para o cenário subterrâneo como um todo.

A seguir, o que rolou de mais relevante nos últimos trinta dias. Desde Mayhem e 1349 até Tankard e Iron Reagan, passando pela nova música do Slayer. Aliás, o que acharam dela? Digam-nos!

Slayer

O Slayer pegou muita gente de surpresa ao já divulgar uma música nova. Primeira inédita em cinco anos, "Implode" foi apresentada ao mundo durante a participação da banda na sexta edição do Golden Gods Awards, premiação promovida em Los Angeles pela revista norte-americana Revolver.

"Implode" é curta - 3:53 - e segue a mesma linha das músicas que estiveram presentes nos últimos trabalhos do quarteto californiano, sobretudo em World Painted Blood (2009). Ela marca a primeira contribuição do guitarrista Gary Holt (Exodus) como membro efetivo no lugar do falecido Jeff Hanneman, bem como o retorno do baterista Paul Bostaph, que voltou a substituir Dave Lombardo.

Logo em seguida foi disponibilizada para streaming a versão de estúdio, que teve produção de Terry Date e coprodução de Greg Fidelman. Além disso, Kerry King e cia anunciaram o acerto para fazerem parte do cast da Nuclear Blast a partir de agora. Um novo disco, com previsão de lançamento para 2015 e no qual constará "Implode", já sairá pelo novo selo. Confira a seguir a nova canção:


Exciter

Talvez o exemplo mais palpável do que se convencionou a chamar e categorizar de speed metal, o Exciter anunciou oficialmente a retomada da formação clássica, que consiste no power trio Dan Beehler (bateria/vocal), John Ricci (guitarra) e Alan Johnson (baixo).

Os três são responsáveis pela trinca Heavy Metal Maniac (1983), Violence & Force (1984) e Long Live the Loud (1985), que chacoalhou o cenário underground dos Estados Unidos e do Canadá na primeira metade dos anos 80, funcionando como grande influência para o desenvolvimento da estética thrash metal, que também se consolidava naquele momento. Os primeiros shows da turnê de reunião já estão rolando. Um novo disco, porém, ainda não parece ter sido cogitado.

Gates of Slumber

Jason McCash, baixista e um dos fundadores do Gates of Slumber, faleceu no dia 5 de abril, aos 37 anos. A causa da morte do músico não foi revelada pela família.

Em setembro de 2013, Jason havia deixado a banda. Pouco depois, Karl Simon (guitarra) decretou o fim das atividades por não concordar em seguir sem o companheiro de longa data. Formado em 1998, o grupo vivia uma de suas melhores fases, muito por conta do excelente The Wretch (2011).

Tankard

Os maníacos por álcool do Tankard revelaram detalhes de R.I.B (Rest in Beer), seu novo e 15° álbum de estúdio. Sucessor de A Girl Called Cerveza (2012), o disco foi gravado no Studio 23, em Frankfut, e será lançado no dia 20 de junho via gravadora alemã Nuclear Blast.

A produção ficou a cargo de Michael Mainx. Já a arte da capa (veja acima) foi desenvolvida por Patrick Strogulski. Serão dez faixas, sendo que "Fooled By Your Guts" já está disponível.

1 War Cry
2 Fooled By Your Guts
3 R.I.B. (Rest In Beer)
4 Riders Of The Doom
5 Hope Can't Die
6 No One Hit Wonder
7 Breakfast For Champions
8 Enemy Of Order
9 Clockwise To Deadline
10 The Party Ain't Over 'Til We Say So


Fireborn

O Fireborn, uma espécie de supergrupo de death metal, já que conta com membros de Entombed, Unleashed e Necrophobic, se prepara para lançar o primeiro disco. Antes, a banda diivulgou a versão demo de três músicas: "The Emperor", "Shadow Realms" e "Lucifer Has Spoken". Ouça todas aqui.

Mayhem

Mais uma música do novo disco do Mayhem foi revelada. Desta vez, a lendária banda norueguesa disponibilizou para streaming a faixa "Six Seconds" (ou "VI.Sec"). Esoteric Warfare está previsto par sair em 23 de maio. O trabalho quebrará um intervalo de sete anos sem material inédito.


Misery Index

Prestes a lançar The Killing Gods, novo álbum de estúdio, o Misery Index disponibilizou para streaming via Soundcloud a faixa-título do trabalho. O quinto disco da banda norte-americana foi gravado no Wright Way, em Baltimore, e deve sair no dia 23 de maio. Ouça aqui.

Vader

"Where Angels Weep", nova música do Vader e que estará no track list de Tibi Et Igni, próximo disco da banda, foi lançada em forma de lyric video. Já o disco sai agora já no fim de maio via Nuclear Blast. Será o 11° trabalho de estúdio do grupo. Gravado em Bialystok, na Polônia, o play foi produzido por Wojtek e Slawek Wiesawski no Hertz Studio. A arte da capa ficou a cargo de Joe Petagno, famoso por ter desenvolvido o logo do Motörhead. Ouça abaixo:


Iron Reagan

Formado por membros de nomes como Municipal Waste, Mammoth Grinder, Cannabis Corpse, Suppresion e Darkest Hour, o Iron Reagan lançou em abril o EP Spoiled Identity, que conta com um total de faixas e está disponível na íntegra no próprio Bandcamp da banda.

1 Tounge Tied
2 The Living Skull
3 I'm Regret
4 Zero Gain
5 One Shovel Short Of A Funeral
6 Spoiled Identity
7 Your Kids an Asshole
8 The Hungry Male (Of Wall St.)
9 Cops Don't Like Me, I Don't Like Cops
10 Declaration Of War
11 I Spit on Your Face/Grave
12 Court Adjourned
13 The Hill Witch


Impaled Nazarene

O Impaled Nazarene soltou um lyric video para "Vigorous And Liberating Death", música que estará presente no disco homônimo, previsto para ser lançado em 14 de maio via Osmose Productions. Será o 12° álbum de estúdio dos finlandeses, que estão na estrada desde 1990. A arte da capa foi feita por Taneli Jarva e está estampada ao fundo do vídeo. O track list será composto por 13 faixas:

1 King Reborn
2 Flaming Sword Of Satan
3 Pathological Hunger For Violence
4 Vestal Virgins
5 Martial Law
6 Riskiarvio
7 Apocalypse Principle
8 Kuoleman Varjot
9 Vigorous And Liberating Death
10 Drink Consultation
11 Dystopia A. S.
12 Sananvapaus
13 Hostis Humani Generis


1349

Os noruegueses do 1349 pretendem lançar disco novo ainda em 2014. Antes disso, a banda divulgou "Slaves", um single digital em forma de lyric video.


Lost Society

Os garotos finlandeses do Lost Society divulgaram o clipe de "Terror Hungry", faixa homônima ao novo álbum da banda, lançado no início de abril. Assista:


Den Saakaldte

Após hiato de cinco anos, os noruegueses do Den Saakaldte retornam com seu segundo álbum de estúdio: Kapittel II: Faen i Helvete. O novo disco, calcado no black metal tão comum no país, será lançado entre maio e junho via Agonia Records. O track lista terá sete faixas.

1 Din Siste Dag
2 Forbanna Idioter
3 Du Selvproklamerte Misjonær
4 Endeløst Øde
5 Djevelens Verk
6 Som Ett Arr på Sjelen
7 Ondskapens Nødvendighet

Aborted

"Coffin Upon Coffin", música do recém-lançado The Necrotic Manifesto, disco novo dos belgas do Aborted, foi contemplada com um lyric video. Assista abaixo:


Por Guilherme Gonçalves

Espaço do Leitor: não haverá mais dinossauros do rock?

sexta-feira, maio 02, 2014
Boa tarde.

Vi esses dias, durante uma de minhas visitas diárias ao blog, sobre o Espaço do Leitor, e achei interessantíssima a ideia!

Aqui gostaria de deixar um ponto de vista, não só meu, como provavelmente é o de vários produtores, organizadores de festivais, entre outros: quando os dinossauros do rock, universalmente aclamados, como Black Sabbath, Iron Maiden, Stones, AC/DC, Guns N' Roses e companhia acabarem, quem serão os grandes headliners de festivais mundo afora? Quem serão as bandas de estádio?

Evidente que temos nomes atuais bem fortes, como Foo Fighters, Slipknot, Muse, Queens Of The Stone Age, Arcade Fire...mas eles são pouquíssimos, podemos contar nos dedos das mãos. E além disso, não são 'universalmente aclamados' - No mundo todo, em Rock In Rios, Sonishpheres e Glastonburys da vida, a venda de ingressos dessas bandas, quando são headliners, são normalmente mais baixas do que de medalhões como o Aerosmith ou Kiss . Isso se deve a um preconceito nostálgico? Qual é a saída? Ficaremos sem bandas gigantes num futuro próximo?

Matheus Pinheiro
Limeira (SP)


Oi Matheus, obrigado pelo contato. Escrevemos e divagamos sobre isso em uma matéria recente, que analisou os últimos trabalhos de algumas das maiores bandas do rock - leia aqui.

Mas o seu questionamento é outro. E para respondê-lo é preciso lembrar de algo que muitas pessoas parecem não perceber: toda grande banda, dos Beatles ao Foo Fighters, começou pequena e desconhecida. Foi através de sua música, através das portas que foram abertas para estes grupos em jornais, revistas, rádios e TVs que elas se tornaram conhecidas e conquistaram milhões de fãs. De nada adianta fazer um som legal se ninguém conhece, se ele não chega até as pessoas, certo? É por isso que há tempos batemos na mesma tecla e continuamos insistindo nisso: é preciso mais espaço na imprensa rock e metal para as dezenas de bandas interessantes que temos no cenários atual. É inadmissível que nomes como Mastodon, Opeth e Trivium, só para ficar em três, ainda não tenham figurado na capa da principal revista de metal brasileira. Falta qualidade para essas bandas? É claro que não. Falta espaço para elas por aqui? É claro que sim.

Mas grande parte de culpa de termos essa realidade é o conservadorismo do público rock e metal, principalmente aqui no Brasil. A grande maioria não quer saber de novos nomes. Os que ainda ouvem rock só querem escutar, em grande parte, o mesmo disco do Guns e do Nirvana por toda a vida. Explicar porque isso acontece passa por vários fatores, e um deles é a falta de interesse mesmo. O ouvinte médio de música, do qual nós NÃO fazemos parte, não consome música como a gente e não tem o menor interesse de saber o que está rolando de mais inovador e interessante. Ele vai na onda do que está na moda, e a moda hoje em dia aqui no Brasil é outra, nada a ver com o rock.

Outro ponto é o seguinte: todas as bandas que você citou hoje ostentam o status de clássicas e gigantes, mas isso não veio da noite para o dia. Se você olhar com atenção, verá que todas estão na estrada há, no mínimo, 30 anos. Daí, eu pergunto: nenhuma banda atual tem chances de, daqui há três décadas, também possuir o status de clássica e gigante? É claro que tem, basta dar tempo ao tempo.

Na verdade, o que acontece é que vive-se um medo constante de que o encerramento das atividades dessas lendas do rock, seja pela idade ou pela morte de seus integrantes, dará um fim ao rock and roll, o que é uma tremenda bobagem. Todas elas fazem parte das primeiras gerações do rock, nasceram no final dos anos 1960 e tiveram o seu auge nas décadas de 1970 e, quando muito, na de 1980. A música, o rock, o metal, assim como a vida, segue e se renova constantemente, e tentar prever o futuro não apenas desses grupos, mas de nossas próprias vidas, é impossível. O que podemos e devemos fazer é analisar com diferentes pontos de vista a trajetória de um Rolling Stones e de um Rival Sons, por exemplo. Os Stones já escreveram a sua história, enquanto o Rival Sons está escrevendo a sua agora, e ela não está nem na metade.

Os produtores de shows, que você cita em sua mensagem, também são responsáveis por essa realidade conservadora do mercado. Rock in Rio tem que ter Guns, Maiden e Metallica sempre? Não, não tem. Mas não tem banda que possa substituí-los e atrair um público gigante, você responderá. Sei disso, mas trata-se de um trabalho de longo prazo, que passa pela divulgação e pela abertura de espaço para esses grupos em revistas, sites, rádios, TVs e festivais. Se o maior site brasileiro dedicado ao rock e ao metal continuar a publicar sempre uma enorme quantidade de matérias sobre Iron Maiden, Metallica e Black Sabbath, como faz hoje, as pessoas continuarão a se interessar somente por essas bandas. A audiência desse site é gigantesca, assim como o conservadorismo de sua linha editorial, para ficarmos apenas em um exemplo. Com a principal - e praticamente única - revista brasileira dedicada ao metal, acontece a mesma coisa.

E daí, quando você consegue dar destaque e levar essas bandas para um público que até então não as conhecia, a maioria fica louco com a qualidade que lhes é apresentada. Fizemos isso com o Baroness e o Graveyard e a resposta dos nossos leitores foi espetacular. Mas a Collectors, além da audiência limitada, ainda é uma agulha no palheiro. Kiss FM e 89 só tocam as mesmas de sempre. Isso é preguiça da rádio ou dos ouvintes?

Essa conversa dá pano pra manga. Essa pergunta é feita desde a década de 1980. E desde então tivemos nomes como Iron Maiden, Metallica, U2, Guns, Nirvana. Ela é respondida com o tempo, como se vê.

E não esqueça: faça como Jimmy Page e Jack White e atualize constantemente os seus ouvidos com novos sons. É assim que essa realidade começará a mudar.

Abraço. (Ricardo Seelig)

30 de abr de 2014

Raimundos: crítica de Cantigas de Roda (2014)

quarta-feira, abril 30, 2014
Em 2002, pouco depois da abrupta saída de seu vocalista original, Rodolfo Abrantes, os caras do Raimundos lançaram uma pedrada chamada Kavookavala, sua primeira bolacha de inéditas agora com Digão assumindo os vocais – não vamos considerar Éramos Quatro, de 2001, por se tratar muito mais efetivamente de uma compilação de covers dos Ramones. O fato é que Kavookavala era agressivo até a tampa, com a banda extravasando a sua fúria em tons mais heavy metal do que aquela mistura de hardcore e música nordestina que caracterizou seus dois discos de estreia. Era um Raimundos muito mais Lapadas do Povo (1997), querendo gritar sua frustração e sua angústia com uma situação de separação que mudou a história da banda. Talvez a palavra mais certa fosse "exorcismo".

Corta para 2014, exatos doze anos depois. E eis que o quarteto, depois de muitas idas e vindas, depois de uma série de altos e baixos, restabelece o seu núcleo central – e com Digão muito mais à vontade nos vocais, devidamente ladeado pelo amigo Canisso e seu baixo trovejante, se sente finalmente preparado para seguir em frente. A cobrança dos fãs por um novo disco recaiu nas costas dos próprios fãs: convocados a financiar o álbum por meio de crowdfunding, eles não fizeram feio e entregaram o que os Raimundos precisavam. Era hora dos Raimundos mostrarem que estavam prontos. E eles mostraram. O peso continua lá, no independente Cantigas de Roda, mas se juntou a ele o humor, aquele velho amigo que andava meio esquecido, abandonado. Um senso de humor sacana, desbocado, cheio de pequenas piadas de duplo sentido. Cantigas de Roda conversa diretamente com o álbum auto-intitulado, de 1994, e com seu sucessor, Lavô Tá Novo, de 1995. Como só conseguiria neste momento. A palavra certa para defini-lo é "trégua".

Um disco produzido pelo vocalista Billy Graziadei, vocalista do Biohazard, só poderia abrir com uma caceta como “Cachorrinha”, hardcore em alta octanagem com Digão declamando a letra aceleradamente enquanto versa sobre uma mulher sacana que pode muito bem ser comparada a uma cachorra vira-lata - e Marquim dá show num solo de guitarra quase thrash metal. Eis que logo depois, em “BOP”, eles falam sobre maconha com um gingado que tem direito até ao espetacular retorno do triângulo, aquele instrumento típico que se tornou quase um quinto integrante da banda no seu começo de carreira. O triângulo (em combo com uma batida feroz e em correria máxima) também embala as desventuras do personagem-titulo de “Rafael”, tipicamente Raimundos, pura fuleiragem com contornos hardcore.

E quando eles nos contam, na correria que é quase um repente estilo rock n' roll de “Gato da Rosinha”, que o felino da moça se chamava Danado e que o noivo da Rosinha beijava e alisava o Danado dela, bem, já dá para perceber quem está de volta aos bons tempos de outrora, entregando uma banana para as músicas graciosas e meigas da patrulha do politicamente correto. Destaque ainda para a fantástica “Cera Quente”, de clima romântico mas que, como o título entrega, fala sobre a depilação de uma senhorita que antes lembrava a Playboy da Cláudia Ohana.  Talvez uma das canções mais emblemáticas do rock nacional em 2014.

O legal é que, em Cantigas de Roda, os Raimundos se dão ao direito de experimentar um pouco mais. “Baculejo” é um punk básico e funcional, 1-2-3-4, que é praticamente uma homenagem às raízes dos caras como banda cover dos Ramones. E nas ótimas “Dubmundos (com participação de Sen Dog, do Cypress Hill) e “Gordelícia”, eles arriscam uma acertada pegada de ska, com a participação de um naipe de metais e tudo mais. Para encerrar, claro, não poderia faltar a porradeira “Politics”, primeira canção do projeto a ser revelada e que traz Digão em modo indignação explícita, abertamente inspirado na situação política do Brasil e nos protestos que tomaram as nossas ruas em 2013. Até o próprio Graziadei dá o ar de sua graça (e de sua agressividade vocal) aqui.

Sério, Raimundos, vamos falar sério. A gente até entende que vocês tenham demorado tanto tempo para entrar em termos com suas própria história. Mas agora que fizeram o link, mais do que acertado, entre o seu passado e seu futuro, façam o favor de não demorar tanto tempo assim para colocar outro disco na rua. Vocês estavam fazendo falta nessa porra.

Nota 9


Faixas:
1. Cachorrinha
2. BOP
3. Baculejo
4. Gato da Rosinha
5. Cera Quente
6. Rafael
7. Descendo na Banguela
8. Dubmundos
9. Nó Suíno
10. Importada do Interior
11. Gordelícia
12. Politics

Por Thiago Cardim

29 de abr de 2014

Mastodon revela capa e tracklist de seu aguardado novo disco

terça-feira, abril 29, 2014
O quarteto norte-americano Mastodon divulgou a capa do seu sexto álbum, Once More ‘Round the Sun, que será lançado dia 24 de junho pela Reprise. Criada pelo artista Skinner, baseado no cidade de Oakland, a arte representa um “pesadelo psicodélico”, segundo a banda.

Once More ‘Round the Sun foi produido por Nick Raskulinecz (Rush, Foo Fighters, Ghost) e traz onze faixas. Junto com a revelação da capa, o grupo postou um lyric video do primeiro single do trabalho, “High Road”, batizada com o subtítulo de “audio visualizer” e que conta com animações em cima da arte do álbum.

Abaixo, o tracklist completo e “High Road” pra você curtir:

1. Tread Lightly

2. The Motherload

3. High Road

4. Once More 'Round the Sun

5. Chimes at Midnight

6. Asleep in the Deep

7. Feast Your Eyes

8. Aunt Lisa

9. Ember City

10. Halloween

11. Diamond in the Witch House (feat. Scott Kelly, do Neurosis)


Por Ricardo Seelig

28 de abr de 2014

Lançamento especial para fãs de Guerra nas Estrelas

segunda-feira, abril 28, 2014
A Darkside Books, uma das melhores editoras brasileiras, anunciou um lançamento que vai levar à loucura os milhares de fãs de Star Wars. O livro Star Wars: A Trilogia chegará às livrarias de todo o Brasil ainda no primeiro semestre de 2014 - a data ainda não foi divulgada.

A obra reúne em um mesmo volume os três romances inspirados na trilogia original de George Lucas: Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. Todos os livros já haviam sido lançados no Brasil durante a década de 1980, mas estão fora de catálogo há mais de 30 anos. Star Wars: A Trilogia une pela primeira vez os três títulos em um mesmo volume, em uma edição luxuosa em capa dura.

Orgasmo e êxtase nerd à parte, trata-se de um lançamento sensacional e que faz justiça a um dos mais populares e influentes produtos da cultura pop. Só pra ter uma ideia, durante o censo realizado na Grã-Bretanha em 2002, nada mais nada menos do que 400 mil pessoas responderam que sua religião era a Jedi.

Recomendamos!

Por Ricardo Seelig

Arch Enemy divulga mais uma música de seu novo disco; ouça “As the Pages Burn” aqui

segunda-feira, abril 28, 2014
O Arch Enemy divulgou hoje mais uma faixa que estará em seu novo álbum, War Eternal. O disco será lançado em junho e marcará a estreia da nova vocalista Alissa White-Gluz, ex-The Agonist, no lugar que pertenceu por anos a Angela Gossow.

Ouça "As the Pages Burn" abaixo:



Por Ricardo Seelig

Judas Priest divulga música inédita e capa de novo disco

segunda-feira, abril 28, 2014
O Judas Priest pegou todo mundo de supresa neste final de semana ao divulgar “Redeemer of Souls”, faixa-título de seu novo disco. O álbum será lançado dia 14 de junho pela Columbia no Reino Unido e um dia depois nos Estados Unidos, via Epic.

Redeemer of Souls é o décimo-sétimo álbum de estúdio da banda e o sucessor do fraco Nostradamus (2008).

A julgar pela faixa divulgada, não há muitos motivos para se animar com esse novo disco ...



Por Ricardo Seelig

Edguy: crítica de Space Police - Defenders of the Crown (2014)

segunda-feira, abril 28, 2014
Além de vocalista, principal compositor e líder do Edguy, Tobias Sammet também tem sido o seu grande garoto-propaganda. Nos últimos meses, fazendo uso de uma brilhante estratégia de divulgação em redes sociais, o músico foi nos apresentando passo a passo do processo de confecção do décimo disco de estúdio dos caras, Space Police – Defenders of the Crown.

E se você prestasse um tantinho de atenção, entenderia claramente qual a proposta da bolacha. As pistas estavam todas lá, antes mesmo de ouvirmos a primeira canção da dita cuja. Desde o título – a junção dos nomes de duas músicas do álbum e que a banda achava igualmente ideais, ainda que um tanto ópera rock demais, mais David Bowie do que heavy metal – até à capa com um gostinho de ficção científica pulp dos anos 70, estava nítida a intenção do quinteto. Mais uma vez, fãs saudosistas se enganaram com uma falsa promessa de que este seria um retorno do Edguy ao power metal de suas origens. E não consigo entender o motivo.

Senhoras e senhores, já disse isso um monte de vezes e repito: a cada disco, estes respeitáveis senhores estão se distanciando mais e mais da sonoridade germânica do Helloween, outrora enraizada em seu DNA. Este é um Edguy flertando abertamente com o hard rock. E que parece pouco disposto a voltar atrás neste momento. Ainda bem.

Parte da imprensa especializada gringa se apressou em dizer que este era o melhor disco de power metal lançado nos últimos anos. Cuidado, minha gente. Como eu disse à ocasião do lançamento de Age of the Joker, o Edguy é hoje muito mais uma banda de hard 'n heavy do que uma unidade power metálica. E esta é uma ótima notícia, porque eles continuam construindo uma sonoridade única, própria, e estão se divertindo horrores com ela. Space Police – Defenders of the Crown tem doses cavalares de humor inteligente, é carregado de uma irreverência que é evolução natural de Rocket Ride (2006), por exemplo. Só que a sonoridade não deixa de ser, em partes iguais, pesada e melódica. Numa análise do disco como obra, eu refaço a frase da imprensa estrangeira: este é um dos melhores discos de metal lançados nos últimos anos. Acho que fica mais justo. E acrescento: Space Police – Defenders of the Crown é, de longe, o melhor lançamento do Edguy desde Hellfire Club (2004). E isso não é pouco. É um Edguy em seu auge criativo.

Não se deixe enganar pela excelente faixa de abertura, “Sabre & Torch”, que tem na letra uma declaração clara de que estes sujeitos estão dispostos a explorar, a ir até onde nenhum homem (ou músico) jamais esteve. Suas guitarras encorpadas são heavy metal, mais metal britânico até do que o típico power metal alemão. Mas repare na interpretação de Tobias e nos corais que ele incita no momento do pré-refrão. Bingo. Pura farofa. O mesmo acontece em “Defenders of the Crown”, uma elegia ao fato do Edguy ser um "bastião da resistência da coroa metálica" (sarcasmo pouco é bobagem), quando eis que surge mais um acerto brilhante de Tobias na hora de fazer um refrão contagiante e grudento. E em “Space Police”, igualmente acelerada e divertida, a mensagem mais certeira: um certa polícia espacial o tempo todo tentando dizer o que os músicos devem fazer e que regras devem seguir. "You're all about to make a fool of yourself / Goes the space police / Cause you're about to negate their rules / Watch out for the space police". Entenderam o recado?

“Shadow Eaters” pode, talvez, ser aquela faixa que mais se pode dizer que está próxima da herança metálica dos caras - enquanto, pelo outro lado, “Alone in Myself” é exemplar típico de seu flerte com o pop, uma balada que tocaria tranquilamente em qualquer rádio dos anos 80. E embora “The Realms of Baba Yaga” (a respeito de uma bruxa bizarra das lendas do leste europeu) e “Do Me Like a Caveman” (composição do guitarrista Jens Ludwig, o que é coisa rara nos discos da banda, já que 99% do material sai da cabeça de Sammet) sejam boas canções, e “The Eternal Wayfarer” seja um belo épico de 8 minutos com um trabalho brilhante de guitarras duplas de Ludwig e Dirk Sauer, existem dois grandes pontos altos na obra que precisam ser destacados.

O primeiro deles é “Love Tyger”, canção que se tornou o primeiro videoclipe do álbum, e que desde já eu carimbo como uma das melhores músicas do ano. Assim mesmo, sem pensar muito. Concebida como um tributo de Tobias a si mesmo, a faixa é uma espécie de "o que aconteceria se a Sunset Strip fosse na Alemanha?". É farofa da pura, da boa, do tipo que gruda na sua cabeça por dias. Fico, de coração, torcendo para que o Tobias pire de vez e, em dado momento, resolva fazer um disco inteiro assim. A outra pequena obra-prima dentro deste Space Police é a versão deles para “Rock Me Amadeus”, hit do cantor pop austríaco Falco e que fez os fãs estranharem bastante no momento de seu início. Nada a temer. A faixa não ficou apenas mais densa e pesada. Ela ficou totalmente com a cara do Edguy, como se fosse originalmente sua. E com direito até ao cantor do grupo exercendo seu lado mais Mike Patton, no Faith No More, numa passagem meio falada, meio rap, sem os gritinhos aos quais está acostumado. Genial.

Vale lembrar ainda que a versão dupla do álbum traz, no segundo disco, duas pérolas que mereceriam, com méritos, constar na versão original. A primeira delas é “England”, uma declaração de amor à Inglaterra, cantada com o coração rasgado por Tobias - que enumera todas as qualidades que a Terra da Rainha tem em relação a localidades como Paris e Roma. Algumas delas são Bob Catley (cantor do Magnum, seu parceiro no projeto Avantasia), Def Leppard, Mr.Bean. E a mais importante delas, rapazes, é Steve Harris. É isso. Ele é a melhor coisa da Inglaterra. Quem é fã do Maiden, com certeza vai concordar. Simplesmente hilária também é “Aychim in Hysteria”, homenagem às desventuras do engenheiro de som da banda. O grande trunfo não está, no entanto, na letra, mas sim na forma que ela é executada - afinal, como entrega o título, a sonoridade é exatamente igual ao Def Leppard em sua fase Hysteria. Reparem que até os vocais que Tobias faz são construídos para se parecerem com Joe Elliott. Um tributo e tanto.

Space Police – Defenders of the Crown é prova viva e pulsante de que, diferente do que defendem alguns, Tobias não passou a ficar mais preocupado com a ópera metálica Avantasia, deixando o Edguy de lado. Isso aqui é Edguy, puro e dos bons. Com o bom humor e sarcasmo que lhe são peculiares, Tobias disse recentemente em seu Twitter: "Bem, para aqueles que estão querendo ouvir o som do Mandrake, eu lhes digo: comprem o Mandrake". Agora que foi o próprio cara quem disse, creio que não preciso explicar mais nada, correto? :)

Nota 9,5

Tracklist
1.    Sabre & Torch
2.    Space Police
3.    Defenders of the Crown
4.    Love Tyger
5.    The Realms of Baba Yaga
6.    Rock Me Amadeus
7.    Do Me Like a Caveman
8.    Shadow Eaters
9.    Alone in Myself
10.    The Eternal Wayfarer

Por Thiago Cardim

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