29 de mai de 2014

Titãs: crítica de Nheengatu (2014)

quinta-feira, maio 29, 2014
Preciso confessar que me enche de orgulho escrever esta frase: os Titãs, enfim, estão de volta. De nome complicado e enrolado de pronunciar, Nheengatu é um dos discos do ano no cenário fonográfico brasileiro. O melhor álbum da banda desde Titanomaquia, lançado em 1993. Herdeiro musical direto e reto de Cabeça Dinossauro. Pesado, sujo e malvado, conforme prometeu Paulo Miklos. E longe, mas muito longe das melodias pop fáceis e radiofônicas.

Vejam, antes de mais nada, é preciso esclarecer: nada contra que uma banda de rock resolva esticar e testar os limites de sua sonoridade, que cruze as barreiras do pop, que se torne queridinha das paradas de sucesso. Sem problemas. Mas não deixa de ser uma pena que isso aconteça com uma banda como os Titãs, cujo potencial mostrado em Cabeça Dinossauro não poderia ser ignorado. Era uma cena triste que uma banda como a de Titanomaquia se escondesse por trás de letras baba-românticas e melodias genéricas e simplórias.

Reduzidos a um quarteto com a saída do baterista Charles Gavin, eles passaram boa parte de 2012 comemorando o aniversário de Cabeça Dinossauro e executando o disco na íntegra. Revisitar seu passado de maneira tão intensa talvez tenha sido o ponto de partida para Nheengatu - o título do álbum faz referência direta à língua criada pelos jesuítas para facilitar a comunicação entre os povos indígenas do Brasil e os colonizadores portugueses. Não por acaso, a bolacha abre com uma pedrada, “Fardado”, uma espécie de continuação direta de “Polícia”, só que evocando justamente a violência policial nos protestos dos últimos meses, e pedindo aos oficiais que se coloquem no lugar da população.

Aliás, o momento de atribulação e contestação que toma conta das ruas brasileiras parece ter servido de inspiração para o questionamento que permeia as letras do disco - e que passeiam por uma série de assuntos cabeludos, sem medo de cutucar feridas. “Pedofilia”, por exemplo, é uma faixa de letra incômoda e violenta que aborda o abuso a menores. Tão poderosa e intensa quanto é “Flores para Ela”, que aborda o assunto da violência contra as mulheres. Tudo com um peso que há anos não dava as caras, colocando a guitarra de Tony Bellotto como protagonista absoluta do disco.

Sobra ainda para a sociedade do consumo fútil e desenfreado na dobradinha de deliciosos skas “República dos Bananas” e “Eu Me Sinto Bem”; para os mandões politicamente corretos no groove do baixo de “Não Pode”; para a religião mercantilista no punk 1-2-3 básico de “Senhor”. Na irresistível “Baião de Dois”, eles rasgam o verbo numa versão moderna e pouco romântica de Romeu e Julieta - enquanto a guitarra dá um contorno roqueiro a uma batida tipicamente nordestina.

Talvez um dos momentos mais inspirados, não apenas musicalmente mas em termos de letras, esteja em “Mensageiro da Desgraça”. Desacelerando no andamento e com uma letra declamada como numa poesia urbano-infernal, eles versam sobre as condições miseráveis e sobre a loucura que toma conta de quem mora nas ruas. Para encerrar o disco, os Titãs conversam com os Ramones e convidam para a roda de pogo + bate-cabeça enquanto questionam o preconceito em “Quem São os Animais?”. Um encerramento em altíssima octanagem para um disco praticamente irrepreensível.  

Pois é, Titãs. Vocês provaram, para o mundo e para si mesmos, que não são apenas os jovens de 20 anos de idade que conseguem fazer um disco de rock inquieto e surpreendente. Espero que tenham aprendido a lição. E que este não seja o canto do cisne, mas apenas um promissor recomeço.

Nota 9,5

Tracklist:
1. Fardado
2. Mensageiro da Desgraça
3. República dos Bananas
4. Fala, Renata
5. Cadáver Sobre Cadáver
6. Canalha (cover de Walter Franco)
7. Pedofilia
8. Chegada ao Brasil (Terra à Vista)
9. Eu Me Sinto Bem
10. Flores Para Ela
11. Não Pode
12. Senhor
13. Baião de Dois
14. Quem São os Animais?  

Por Thiago Cardim

28 de mai de 2014

Playlist Collectors Room: a história do rock

quarta-feira, maio 28, 2014
Uma playlist que é, ao mesmo tempo, uma diversão e uma aula de história. Em 411 faixas, 27 horas de música e um trabalho de pesquisa extenso, contamos a história do rock de maneira (quase) cronológica pra você. Explicamos: até a faixa 293 está tudo em ordem cronológica, começando em 1955 e indo até 1999. Da 294 até a 356, fizemos o caminho inverso: de 1999 até 1954. E da música 357 até o final, falamos dos anos 2000.

Notas: não há faixas dos Beatles, Led Zeppelin e do AC/DC porque, infelizmente, o Rdio não tem material dessas bandas. E não há nada de heavy metal na mistura (apenas algumas coisas bem do início), porque, quem sabe, a gente faça algo semelhante com o metal algum dia.

Para ouvir, clique aqui.

Divirta-se!

Por Ricardo Seelig

26 de mai de 2014

Triptykon: crítica de Melana Chasmata (2014)

segunda-feira, maio 26, 2014
Não há dúvidas de que Thomas Gabriel Fischer seja um gênio. Dentro do cenário subterrâneo do heavy metal nos anos 80, poucas bandas estiveram tão à frente de seu tempo quanto Hellhammer e Celtic Frost. Individualmente, são raros os que podem dividir patamar semelhante dentro dessa seara marginal. Quorthon? Chuck Schuldiner? Cronos e Mantas? Não consigo elencar muitos além desses.

Porém, como todo indivíduo condenado pela própria inquietude e um insaciável ímpeto de transgredir, era natural que, de tempos em tempos, Tom sentisse a necessidade da obliteração permanente. A vontade de aniquilar seu legado, geralmente após atingir o ápice, para buscar um eterno novo ciclo.

David Bowie fez muito isso e talvez seja o maior exemplo dessa obsessão. Na cabeça de Tom, o Triptykon nada mais é do que exatamente essa válvula. Um universo inteiro a ser explorado por mais um de seus alter egos. Satanic Slaughter e Tom G. Warrior, as mentes malignas por trás de Hellhammer e Celtic Frost, já foram destruídas. Agora quem dá as cartas é Thomas Gabriel Fischer. Um ser nu e cru, mas tão obscuro quanto o que ostentava os velhos pseudônimos.

Melana Chasmata (abismos negros, em grego) é mais denso e muito superior ao primeiro trabalho do Triptykon, Eparistera Daimones (2010). Está anos-luz à frente do superestimado Monotheist (2006), derradeiro álbum do Celtic Frost. Passados, respectivamente, quatro e oito anos desde seus antecessores, o novo disco mostra Tom acertando em cheio quase que como no início de sua tortuosa trajetória, que agora já ultrapassa 30 anos. Digamos que faltou bem pouco.

As quatro primeiras músicas são simplesmente absurdas. "Tree of Suffocating Souls" abre a empreitada pisando fundo no acelerador, diferente de "Goetia", que demorava uma eternidade para fazer engrenar o disco anterior. Além dos excelentes riffs, é importante destacar que, enfim, Thomas Gabriel voltou a se ater ao básico nos vocais. Menos quase sempre é mais, sobretudo quando se tem uma voz tão característica e já identificada. "Boleskine House" prova isso, ainda que contenha a participação de Simone Vollenweider e duetos entre ela e Tom. O desempenho da cantora é ótimo e pontual. Engrandece a canção, que também se gaba de ter um solo fabuloso a partir do minuto 5:10.

"Alter of Deceit" é mais pesada do que o céu. Um exemplo claro do que 80% das bandas de doom metal buscam e, muitas vezes, não alcançam. A letra é curta, magnífica e uma das melhores, assim como a da faixa seguinte, "Breathing". Nela, Tom exorcisa os próprios demônios e cospe na humanidade com uma classe singular. Passagens à la thrash metal deixam tudo mais rápido. Deve ser a música mais urgente da história do Triptykon e mostra, de forma retroativa, de qual fonte Jeff Hanneman e Kerry King beberam para conceber o Slayer.

Do meio para o final, a impressão é de que o disco perde um pouco o fôlego. "Aurorae" e "Demon Pact" ainda são bem legais, mas "In The Sleep of Death" e "Black Snow" pagam um alto preço por serem demasiadamente longas. Há ideias bacanas em ambas, mas nada que justifique 8:10 e 12:24 de duração. O fim se dá com "Waiting", diferente de todas as outras oito músicas, mas que tem um clima bastante interessante. Simone Vollenweider volta a dar as caras e é destaque ao lado da ambiência gerada pela guitarra. Assim como "Boleskine House", lembra um pouco o que foi feito recentemente pelo Avatarium em sua bela estreia.

Oriundo do cérebro de um dos responsáveis por criar o embrião do death, do thrash e do black metal, é um tanto quanto desnecessário tentar classificar Melana Chasmata em um só subgênero. Basta dizer que é heavy metal. Com fortes traços de doom, claro, algo que está impregnado desde os primórdios do Hellhammer e do Celtic Frost. Não creio que seja a obra-prima de Thomas Gabriel, como alardeado por aí com notas máximas em diversas publicações especializadas. É possível até que esteja bem longe disso. Mas é um trabalho deveras intrigante e que merece ser examinado - vide a linda capa, de autoria do recém-falecido H.R. Giger - e degustado com grande atenção.

UH!

Nota: 9


Faixas

1 Tree of Suffocating Souls 7:56  
2 Boleskine House 7:12
3 Altar of Deceit 7:32   
4 Breathing 5:50
5 Aurorae 6:17
6 Demon Pact 6:07
7 In the Sleep of Death 8:10   
8 Black Snow 12:25
9 Waiting 5:55

Por Guilherme Gonçalves

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