28 de jun de 2014

Discografia comentada: Blind Guardian

sábado, junho 28, 2014

"Hansi Kürsch tem um Fabio Lione de estimação" e "Hansi Kürsch come Edu Falaschi e André Matos no café da manhã" são alguns dos itens mais divertidos de um texto conhecido como "Verdades sobre Hansi Kürsch", uma versão headbanger dos clássicos Chuck Norris Facts que se espalharam pela internet há alguns anos. Salvo exageros típicos, a divertida compilação sobre o vocalista do Blind Guardian é prova cabal do quão cultuado é o grupo alemão, talvez uma das formações ao mesmo tempo mais simpáticas e mais low profile, pouco afeita a estrelismos, do universo metálico.

Formada, em 1984, na cidade de Krefeld, localizada na região oeste da Alemanha, por Hansi Kürsch (vocal/baixo) e Andre Olbrich (guitarra), a banda que ainda trazia em sua formação Markus Dörk (guitarra) e Thomen Stauch (bateria) atendia inicialmente pelo polêmico nome de Lucifer's Heritage. Embora tenham contado com um segundo vocalista, Thomas Kelleners, a versão quinteto durou pouco. Conseguiram lançar, entre 1985 e 1986, duas fitas demo, mesmo passando por uma série de mudanças de line-up: Dörk e Stauch saíram, sendo substituídos respectivamente por Christof Theißen e Hans-Peter Frey. Estes dois últimos então sairiam pouco depois, para dar lugar ao retorno de Stauch e ao novo guitarrista, Marcus Siepen, solidificando uma formação que duraria 18 anos.

Depois de finalmente assinarem com o selo No Remorse Records, decidiram mudar seu nome para Blind Guardian, tentando distanciar-se de possíveis associações com satanismo e com a sonoridade do black metal. Seu debut, "Battalions of Fear", sairia em 1988 - mas o restante da história você conhece logo abaixo, na discografia comentada deste influente e festejado quarteto alemão. Importante: estamos incluindo aqui apenas os álbuns de estúdio. :)


Battalions of Fear (1988)
Quem conheceu o Blind Guardian a partir de "Imaginations From The Other Side" ou "Nightfall in Middle-Earth" pode, de fato, se espantar ao ouvir "Battalions of Fear" e simplesmente não reconhecer a banda. O som, bem mais agressivo, faz eco direto na sonoridade inicial do Helloween, com quem tinham uma série de laços de amizade. Tanto a produção musical quanto o refinamento dos detalhes tinham pouca ou nenhuma sutileza. Era tudo muito cru, direto, na cara, quase básico.

O "quase", entenda, é porque mesmo assim já se reconhecem traços de uma musicalidade que seria explorada anos depois. Apesar da velocidade quase sufocante de "Majesty", até hoje um clássico, a faixa abre com uma versão de "Danúbio Azul", de Johann Strauss II, tocada no órgão. Nada menos do que quatro músicas são inspiradas na obra de J.R.R.Tolkien, o sul-africano que escreveu "O Senhor dos Anéis" e que está no epicentro dos interesses de Hansi Kürsch, vocalista e principal compositor das letras, um verdadeiro fanático por literatura de fantasia, terror e ficção científica.

Duas destas canções, aliás, são instrumentais, o que não se tornou um expediente recorrente na carreira do quarteto: "By the Gates of Moria" e a faixa bônus "Gandalf's Rebirth". E enquanto "The Martyr" trata da vida de Jesus Cristo, antecipando uma tendência mais forte do disco seguinte, a faixa que dá nome ao disco está longe de ser uma obviedade sobre exércitos medievais em combate: na verdade, ela fala sobre as iniciativas do Departamento de Defesa do governo norte-americano de Ronald Reagan. Afinal, lembre-se, era o auge dos anos 80, Guerra Fria, aquela coisa toda. (Nota: 7)


Follow The Blind (1989)
Não se deixe enganar por esta capa mais, digamos, tipicamente Blind Guardian. Estamos falando de uma musicalidade ainda bem mais acelerada e pesada do que aquela que se está acostumado a ouvir quando se fala em Blind Guardian. E ao se dizer "pesada", leia-se pesada mesmo. Os riffs em vibração máxima chegavam a flertar com o thrash, inclusive. O guitarrista Marcus Siepen explica. "Quando estávamos compondo o 'Follow The Blind', estávamos ouvindo um monte de bandas de thrash metal, como Testament e Forbidden, e este é o motivo deste disco ter ficado um pouco mais pesado".

A abertura, com um cântico religioso em latim entoado por um coral, similar ao dos monges masoquistas de "Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado", clássico do humor britânico, pode até passar a impressão errada. Mas o tema da fé e da religião surge sem frescuras e sem papas na língua na sequência, na cavalgada e parruda "Banish From Sanctuary", que fala sobre a vida de João Batista e sua relação com Jesus Cristo. Apesar do título, "Hall of The King" também é sobre fé - e sempre ser fiel, aliás.

Deste disco, saiu ainda uma música que pode ser ouvida até hoje nos shows do Blind Guardian: "Valhalla", cuja letra trata de alguém esquecido pelo paraíso sagrado da mitologia nórdica, reservado apenas aos guerreiros que morreram em batalha e não se ajoelharam diante do inimigo. O refrão, "Valhalla - Deliverance / Why've you ever forgotten me?" é repetido à exaustão pelos fãs mesmo depois do fim da execução da música, como uma espécie de homenagem aos seus ídolos no palco. (Nota: 7,5)


Tales From The Twilight World (1990)
Queremos ser uma banda de verdade, certo? Então por que diabos eu vou ficar emulando o speed/power metal do Helloween, por mais que eles sejam nossos amigos? E por que diabos vou ficar debruçado na sonoridade dos gigantes do thrash, por mais que sejamos fãs deles? Queremos ser reconhecidos como Blind Guardian. Então, vamos experimentar. E foi isso que aconteceu em "Tales...", quando a banda começou a colocar sutis pitadas de melodia e influência neo-clássica em sua sonoridade, arriscando um pouco mais - o que passou a casar muito mais com as letras inspiradas em clássicos da fantasia medieval que Hansi tanto adora.

Foi com estas novas influências que eles cunharam, por exemplo, a linda história musical de "Lord of The Rings", inspirada no livro de Tolkien e cheia de variações, com pequenos elementos celtas; Tolkien também é tema de "Lost in the Twilight Hall", cujos vocais quase falados, como se estivessem declamando uma narrativa, falam sobre o período em que o mago Gandalf esteve em uma espécie de limbo, depois da batalha contra o demoníaco Balrog em Moria. O mesmo expediente, que começaria a marcar o estilo vocal de Hansi, pode ser ouvido em "Traveler in Time", inspirada na trama de "Duna", obra de ficção científica do escritor Frank Hebert.

Curiosamente, as duas canções mais pesadas do disco, que poderiam tranquilamente estar na bolacha anterior, são a respeito de temas relacionados a obras fora deste espectro, digamos, RPGístico: "Tommyknockers", sobre o livro de mesmo nome escrito por Stephen King, e a intensa "Goodbye My Friend", que é uma inesperada celebração ao doce "E.T. - O Extraterrestre", clássico oitentista dirigido por Steven Spielberg. Um detalhe importante: uma das faixas bônus é um cover, coisa que o Blind Guardian ama fazer. Neste caso, o resultado foi simplesmente incrível: uma reinterpretação de "To France", do cantor Mike Oldfield. Forte e ao mesmo tempo emocional, em uma performance surpreendente do vocalista do grupo. (Nota: 8)


Somewhere Far Beyond (1992)
A porta que seria escancarada no disco seguinte começou a ser aberta rigorosamente aqui, o primeiro lançamento depois da assinatura de contrato com a gigante Virgin Records. Embora ainda estivessem presos a alguns maneirismos típicos dos clichês do power metal, começamos a ver um Blind Guardian disposto a fazer um som único e que rompesse com o que todos os outros figurões da época faziam. O aspecto épico e melódico que passou a ser experimentado no disco anterior ganhou ainda mais destaque na mistura, em comparação ao peso e à velocidade do speed metal.

É claro que estão presentes canções sobre as obras de Tolkien ("The Bard's Song: The Hobbit") e Michael Moorcock ("The Quest for Tanelorn", "Journey Through the Dark"), duas referências frequentes do grupo. Mas é interessante que, tematicamente, o disco se debruça sobre uma série de referências diferentes. A faixa-título, ideal para bater cabeça, faz referência à popular Saga da Torre Negra, do escritor Stephen King. Já "Time What is Time", igualmente pesada, é o ponto de vista de um replicante sobre o universo de ficção científica de "Blade Runner". E a curtinha acústica "Black Chamber" é sobre alguém lidando com um destino sombrio em pleno mundo da soturna série de TV "Twin Peaks", criada por David Lynch. Isso sem contar a dura realidade de "Ashes to Ashes", que ganha ainda mais corpo quando você descobre que é uma composição de Hansi a respeito da morte de seu pai.

O grande destaque de "Somewhere Far Beyond", obviamente, reside na balada "The Bard's Song: In The Forest". A canção em formato acústico é, disparado, o maior hit do grupo, seu clássico absoluto, onipresente em qualquer show e aquele momento no qual a plateia canta em uníssono, praticamente calando o cantor. Diz a lenda, inclusive que, numa sala repleta de fãs de heavy metal, basta alguém sacar um violão e começar a dedilhar os primeiros acordes de "The Bard's Song" para que todos comecem a cantar juntos como num musical da Disney, por mais que não se conheçam e/ou sejam inimigos mortais. (Nota: 8)


Imaginations From The Other Side (1995)
Quando uma banda consegue, enfim, encontrar o seu DNA musical, aquela assinatura que se torna a sua marca registrada e que faz qualquer ouvinte mais atento identificar imediatamente de que se trata de uma de suas músicas, dá para dizer que ela atingiu o seu ápice musical. É rigorosamente isso que acontece com o Blind Guardian em "Imaginations...". Trata-se do disco que os ajudou a solidificar uma sonoridade que vinha sendo competentemente desenvolvida ao longo dos anos anteriores. Aqui, é possível dizer que a banda criou sua própria escola dentro do metal alemão.

A imensa faixa-título é pura metalinguagem, homenagem escancarada à imaginação e aos mundos e personagens criados por autores que o próprio grupo menciona em faixas anteriores: O Senhor dos Anéis, Peter Pan, O Mágico de Oz, Alice no País das Maravilhas, As Crônicas de Narnia. Cada canção deste "Imaginations..." é, nitidamente, uma espécie de forma metálica de contar uma história em forma de música, justificando totalmente o apelido de "bardos". A belíssima "A Past and Future Secret", um dos pontos altos do disco, se parece claramente com uma música entoada por um bardo de fantasia medieval, exaltando os feitos de um garoto que arrancou a espada da pedra e se tornou um herói e, depois, um rei. Tudo pelo ponto de vista de Merlin, o mago.

O mito arturiano é novamente revisitado na sombria "Mordred's Song", que fala sobre o traidor do Rei Arthur, aquele que em algumas crônicas é retratado como seu filho com ninguém menos do que a feiticeira Morgana. O universo medieval também é o palco de "Another Holy War", dona de um de seus riffs mais pesados e que usa as Cruzadas para criticar o fanatismo religioso; e da brilhante "The Script for My Requiem", uma das melhores composições da carreira da banda até então, que versa a respeito da busca sem sucesso pelo chamado Santo Graal da Igreja Católica. (Nota: 10)


Nightfall in Middle-Earth (1998)
Embora eu considere este disco tão bom quanto o anterior, o fantástico "Imaginations...", confesso que "Nightfall..." garante, digamos, uns dois milésimos de vantagem. Ele tem nota 10,2. Enquanto "Imaginations..." foi o disco que melhor definiu o que seria a sonoridade proprietária e definitiva do Blind Guardian nos anos que se seguiram, "Nightfall..." foi aquele disco que catapultou a banda para um outro nível. Com uma camada épica mais bem-acabada, vimos estes alemães cimentarem de vez a sua estrela na calçada da fama dos deuses do heavy metal.

Álbum conceitual completamente baseado em "O Silmarillion", obra de J.R.R.Tolkien que conta a história da Terra-Média muito tempo antes dos acontecimentos de "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis", este "Nightfall..." também foi o primeiro no qual Hansi, enfim, deixa o baixo também nos discos de estúdio, entregando a tarefa ao músico convidado Oliver Holzwarth, velho conhecido da banda nas apresentações ao vivo. Também foi o primeiro da banda a ser lançado nos Estados Unidos, abrindo-lhe as portas para um mercado bem mais amplo. Tudo conspirou a favor para que o Blind Guardian se tornasse ainda maior e mais relevante.

Para um fã do quarteto germânico, tornou-se obrigatório saber palavra por palavra do diálogo entre Sauron e Morgoth na vinheta "War of Wrath", que abre o disco - dando passagem, logo depois, à veloz e porradeira "Into The Storm". Também é mandatória a presença de "Mirror, Mirror" no repertório ao vivo da banda, geralmente encerrando os trabalhos. Mas não é só: a envolvente e operística "Nightfall"; a delicada balada ao piano de "The Eldar"; o refrão poderoso e irresistível de "Time Stands Still (At The Iron Hill)". Tudo conspira para que se possa chamar, com propriedade, "Nightfall in Middle-Earth" de uma verdadeira obra-prima. (Nota: 10)


A Night At The Opera (2002)
Sei que não apenas a nota, mas também os meus comentários a respeito deste disco, já devem causar uma espécie de cizânia entre os fãs mais tradicionalistas - mas tudo bem, já estou mais do que acostumado. O fato é que, depois da epopeia que foi "Nightfall...", a banda anunciou um disco chamado "A Night At The Opera" - que é nada menos do que o mesmo nome do retumbante disco máximo de uma das bandas preferidas dos integrantes do Blind Guardian, o Queen. As expectativas eram altíssimas. Mas, infelizmente, não corresponderam. E "A Night..." não foi, nem de longe, o sucessor que "Nightfall..." mereceria.

O principal motivo é o flerte exagerado com o rock progressivo, o que torna algumas de suas passagens exageradamente longas e ultrapassando o limite da grandiloquência com toneladas de orquestrações, camadas de vozes... O peso do metal perdeu espaço para os flertes clássico-operísticos - resultando, inclusive, na posterior saída do baterista Thomas Stauch, citando exatamente insatisfação com os rumos musicais que a banda estava seguindo. Um exemplo claríssimo é a música "And Then There Was Silence", que numa manobra ousada tornou-se seu primeiro single, mesmo com longos 14 minutos. A faixa, sobre a Guerra de Tróia, é poderosa e intensa, mas parece uma colagem de diversas músicas, com pedaços que funcionam e outros pedaços bastante cansativos e repetitivos. Poderia ser tranquilamente retalhada em duas outras músicas.

É claro, o disco tem também seus pontos altos, que merecem ser destacados: desde "Precious Jerusalem", que consegue tratar dos dias de tentação de Jesus no deserto sem soar pedante e nem perder o peso; até "The Soulforged", herança da obsessão RPGista de Hansi e que fala sobre as façanhas do mago Raistlin Majere, um dos personagens da série de livros "Dragonlance". Destaque ainda para a inteligente abordagem de "Punishment Divine", sobre a loucura do filósofo Nietzsche, na qual ele se imagina sendo julgado por um tribunal de santos. (Nota: 7)


A Twist in The Myth (2006)
O single “Fly” pode não representar em totalidade o que o ouvinte vai de fato escutar neste sucessor de “A Night At The Opera”, mas uma coisa é inegável – não espere um lançamento datado e nem uma banda auto-referente. “A Twist...” deve desagradar os tradicionalistas pentelhos de plantão, que acham que uma banda tem que fazer o mesmo tipo de som a vida inteira. O disco é, sem sombra de dúvidas, Blind Guardian puro, com todas as marcas registradas do seu tipo de som. Mas também mostra uma banda madura e consistente em busca da evolução.

“A Twist...” carrega alguns elementos de “A Night At The Opera”, tudo bem. Tem um quêzinho épico-sinfônico, tem lá seus teclados progressivos, muitos corais e diversas camadas de vozes se misturando, tudo com uma produção esmeradíssima. Mas o lance é que aqui as faixas estão recheadas de uma agressividade que remete imediatamente a trabalhos como “Imaginations From The Other Side”.

“A Twist...” é mais violento, mais pesado, mais visceral, deixando um pouco de lado toda a pompa e circunstância. O resultado desta mistura é um tipo de material que não deixa de soar Blind Guardian, mas que ganha uma sonoridade nova e, por que não, muito mais moderna e atual. Duvida? Músicas como “Lionheart”, “The New Order”, “The Edge” e principalmente a excelente “Another Stranger Me” estão aí para não me deixar mentir. Continua sendo o tal do “power metal” rápido e intenso, mas que não deixa de buscar mais e mais influências diferenciadas para enriquecer ainda mais o seu som, inclusive no metal tradicional e no hard rock. Outros destaques são “Carry The Blessed Home” (com uma levada que mais parece o Queen tocando rock pesado) e a indispensável balada folk-celta “Skalds and Shadows”, na linha de “The Bard’s Song – In The Forest”, daquelas para cantar junto nos shows. E para os preocupados com a cozinha da banda, desfalcada após a saída de Thomen Stauch, podem ficar tranquilos: o novo batera Frederik Ehmke, fã de longa data do BG, segura a onda sem maiores problemas. (Nota: 8,5)


At The Edge of Time (2010)
Imagine a seguinte mistura: a força power metal de “Imaginations from the Other Side” + a pompa épica de “Nightfall in Middle-Earth” + o respiro progressivo de “A Night at the Opera” + a modernidade despreocupada de “A Twist in the Myth”. O resultado? Simples: “At The Edge of Time”, mais recente disco dos bardos germânicos do Blind Guardian e, inegavelmente, o melhor lançamento de sua discografia desde “Nightfall”. Estamos falando, resumidamente, de um disco que busca referências no passado, o que deve agradar a parcela mais purista de seus seguidores, mas sem se tornar saudosista de maneira pedante.

Vale lembrar que este disco é o primeiro no qual o quarteto germânico trabalha com uma orquestra de verdade – no caso, a FILMharmonic Orchestra de Praga, especializada em trilhas sonoras. Se você procura aquelas baladas do tipo “Bard’s Song” e “Skalds and Shadows”, que a banda faz tão bem e lhes dão merecidamente o título de “bardos”, em “At The Edge of Time” você vai encontrar duas. Com uma inspiração celta descarada, “Curse My Name” é do tipo música deliciosa, quase ambiente, que faz entrar no clima imediatamente sem que se perceba. E é a toada praticamente acústica que dá a cara para “War of Thrones”, inspirada no livro “A Guerra dos Tronos”, primeiro volume de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R. R. Martin, fenômeno editorial e que gerou uma série de TV tão bem-sucedida quanto.

As referências literárias continuam na ótima “Control the Divine”, uma faixa rápida e acelerada na melhor tradição do Blind Guardian clássico – e que faz referência direta ao poema medieval “Paraíso Perdido”, obra de John Milton sobre a queda do anjo Lúcifer do céu ao inferno. E de volta às obras de Michael Moorcock, Hansi Kürsch abre as portas para o Multiverso na igualmente empolgante e veloz “Tanelorn”, cujo tema já tinha sido abordado em “The Quest for Tanelorn”, do disco “Somewhere Far Beyond”. (Nota: 9)

Por Thiago Cardim

27 de jun de 2014

Top Collectors Room: os 100 melhores discos de rock da década de 1990

sexta-feira, junho 27, 2014
10 anos que fizeram história. 10 anos lembrados pelo surgimento do grunge, que com o seu gigantesco impacto virou tudo de cabeça pra baixo. 10 anos onde o metal se reinventou e o indie se firmou. 10 anos de boa música.

Nesta edição do Top Collectors Room, mergulhamos na década de 1990 e trazemos para vocês os melhores álbuns de rock do período. Tem pra todos os gostos, pra todas as tribos. Para os meus e para os seus ouvidos.

Nos comentários, poste a sua lista. E no fone de ouvido, coloque para rodar os títulos que você ainda não conhece, ou relembre aqueles que marcaram a sua vida.

Com vocês, os 100 melhores discos de rock da década de 1990:

100 The Offspring - Smash (1994)
99 Temple of the Dog  - Temple of the Dog (1991)
98 Bob Dylan - Time Out of Mind (1997)
97 Urge Overkill - Saturation (1993)
96 Paradise Lost - Draconian Times (1995)
95 Pearl Jam - Vitalogy (1994)
94 Pantera - Cowboys From Hell (1990)
93 Megadeth - Countdown to Extinction (1992)
92 Kyuss - Blues for the Red Sun (1992)
91 Morbid Angel - Blessed Are the Sick (1991)
90 Rancid - ... And Out Come the Wolves (1995)
89 Faith No More - Angel Dust (1992)
88 Ween - Chocolate and Cheese (1994)
87 Slayer - Seasons in the Abyss (1990)
86 Mayhem - De mysteriis dom Sathanas (1994)
85 Guns N’ Roses - Use Your Illusion I (1991)
84 Nine Inch Nails - The Downward Spiral (1994)
83 Gov’t Mule - Gov’t Mule (1995)
82 Tom Petty - Wildflowers (1994)
81 Primus - Sailing the Seas of Cheese (1991)
80 Ministry - Psalm 69 (1992)
79 Death - Symbolic (1995)
78 Dream Theater - Awake (1994)
77 Blur - Parklife (1994)
76 Opeth - Still Life (1999)
75 Bad Religion - Against the Grain (1990)
74 Fugazi - Red Medicine (1995)
73 Concrete Blonde - Bloodletting (1990)
72 Emperor - Anthems of the Welkin at Dusk (1997)
71 Bruce Dickinson - Accident of Birth (1997)
70 Supergrass - I Should Coco (1995)
69 Sepultura - Roots (1996)
68 Pulp - This is Hardcore (1998)
67 Porcupine Tree - Stupid Dream (1999)
66 Morbid Angel - Covenant (1993)
65 Manic Street Preachers - The Holy Bible (1994)
64 Nick Cave and The Bad Seeds - Let Love In (1994)
63 Paul McCartney  - Flaming Pie (1997)
62 Guided by Voices - Bee Thousand (1994)
61 Bruce Dickinson - The Chemical Wedding (1998)
60 Wilco - Summerteeth (1999)
59 Green Day - Dookie (1994)
58 Red Hot Chili Peppers - Blood Sugar Sex Magik (1991)
57 Death - Individual Thought Patterns (1993)
56 Pantera - Vulgar Display of Power (1992)
55 Sepultura - Arise (1991)
54 Paradise Lost - Icon (1993)
53 Machine Head - Burn My Eyes (1994)
52 Yo La Tengo - I Can Hear the Heart Beating as One (1997)
51 Singles (Soundtrack) (1992)
50 Soundgarden - Badmotorfinger (1991)
49 Suede - Suede (1993)
48 Carcass - Necroticism: Descanting the Insalubrious (1991)
47 Alice in Chains - Dirt (1992)
46 Suede - Dog Man Star (1994)
45 Teenage Fanclub - Songs From Northern Britain (1997)
44 Metallica - Metallica (1991)
43 Dream Theater - Images and Words (1992)
42 Carcass - Heartwork (1993)
41 Gov’t Mule - Dose (1998)
40 Neil Young - Ragged Glory (1990)
39 Dream Theater - Metropolis Pt. 2: Scenes From Memory (1999)
38 Smashing Pumpkins - Siamese Dream (1993)
37 Sepultura - Chaos A.D. (1993)
36 Teenage Fanclub - Grand Prix (1995)
35 Tool - Aenima (1996)
34 Primal Scream - Screamadelica (1991)
33 Judas Priest - Painkiller (1990)
32 Pavement - Crooked Rain, Crooked Rain (1994)
31 Rage Against the Machine - Rage Against the Machine (1992)
30 Pearl Jam - Ten (1991)
29 Megadeth - Rust in Peace (1990)
28 Oasis - Definitely Maybe (1994)
27 Nirvana - In Utero (1993)
26 Refused - The Shape of Punk to Come (1998)
25 U2 - Achtung Baby (1991)
24 Swans - Soundtracks for the Blind (1996)
23 Emperor - In the Nightside Eclipse (1994)
22 Ween - The Mollusk (1997)
21 Pavement - Slanted and Enchanted (1992)
20 The Black Crowes - The Southern Harmony and Musical Companion (1992)
19 Death - Human (1991)
18 Pulp - Different Class (1995)
17 Weezer - Pinkerton (1996)
16 The Flaming Lips - The Soft Bulletin (1999)
15 Teenage Fanclub - Bandwagonesque (1991)
14 Smashing Pumpkins - Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995)
13 Dissection - Storm the Light’s Bane (1995)
12 R.E.M. - Automatic for the People (1992)
11 Soundgarden - Superunknowm (1994)
10 Oasis - (What’s the Story) Morning Glory? (1995)
9 Belle and Sebastian - If You’re Feeling Sinister (1996)
8 Neurosis - Through Silver in Blood (1996)
7 Radiohead - The Bends (1995)
6 Weezer - Weezer (1994)
5 My Bloody Valentine - Loveless (1991)
4 Death - The Sound of Perseverance (1998)
3 Jeff Buckley - Grace (1994)
2 Radiohead - OK Computer (1997)
1 Nirvana - Nevermind (1991)


Por Ricardo Seelig

Michael Sweet: crítica de I'm Not Your Suicide (2014)

sexta-feira, junho 27, 2014

Quando um grupo se encontra em atividade — em alguns casos, a todo vapor —, é normal que nos perguntemos o porquê de um de seus integrantes lançar um álbum solo. Na maioria das vezes, basta apertar o play para obtermos a resposta. Foi exatamente o que eu fiz. Em I'm Not Your Suicide, Michael Sweet incorpora elementos-chave da música do Stryper a canções que, definitivamente, não se encaixariam no repertório de sua banda principal. O ouvinte mais atento notará boas e velhas progressões de acordes descendentes, solos dobrados e vocalizações que remetem à música sacra, mas a vibe geral é bem o oposto. A presença maciça de pedal steel e algumas forçadas de barra no fator emoção não me deixam mentir. 

Para dar vida a essa ideia de fugir um pouco das raias do metal, Sweet contou com uma turma para lá de gabaritada, que inclui, entre outros, o batera multiuso, Kenny Aronoff. O time de estrelas que o acompanha na empreitada inclui ainda Tony Harnell (TNT), Chris Jericho (Fozzy) e a filha de Dave Mustaine, Electra, com quem realiza um dueto no bônus de mau gosto que é o remix de “Heart of Gold”. As letras, obviamente, não desviam do foco: fé cristã como meio de combate aos medos contemporâneos. Felizmente, o messianismo não se exacerba a ponto de tornar-se um desconforto para a audição. 

Deus e o tempo foram generosos com Sweet, provendo-lhe mana vocal extra para gastar e este segue entre os melhores cantores de rock e metal por aí. Além de exímio vocalista, toca uma senhora guitarra que, muitas vezes, supera em diversidade e bom gosto os solos de seu colega Oz Fox no Stryper. Aqui, ele só divide a tarefa em “Anybody Else”, que conta com performance monstruosa de Doug Aldrich e tem lugar garantido entre as melhores do disco. Um respiro metálico dá às caras em seguida em “Unsuspecting”, um belo desvio de trajeto nos acréscimos do segundo tempo. 

Quem ansiava por algo no molde musical de No More Hell to Pay, provavelmente saiu decepcionado e, ainda mais provavelmente, deu stop no primeiro minuto de “This Time”, música devagar, quase parando que, na tentativa de despertar um momento de reflexão, acaba soando como uma balada ruim do Foreigner. Aos sobreviventes, algumas ml de soro glicosado na veia com a faixa-título, que vale pela explosão de seu refrão. Na sequência, um engavetamento de sons genéricos que, com o perdão pela piadinha… Deus me livre! 

Nota: 4 

01. Taking On The World Tonight 
02. All That's Left (For Me To Prove) 
03. The Cause 
04. This Time 
05. I'm Not Your Suicide 
06. Coming Home 
07. Miles Away 
08. Strong 
09. How To Live 
10. Heart Of Gold 
11. Anybody Else 
12. Unsuspecting 
13. Heart Of Gold (remix) 

Por Marcelo Vieira

26 de jun de 2014

Girando em torno do sol com o Mastodon

quinta-feira, junho 26, 2014
Já escrevi mais de 1.000 reviews. Já são mais de 10 anos tentando colocar em palavras o que chega aos meus ouvidos. Que tento traduzir o que sinto, o que ouço, em cada parágrafo. Às vezes consigo, outras tanto, não. Mas o mais legal de tudo isso é que, ao ter contato com tantas formas de música diferentes, eduquei meu ouvido. E também meu texto.

Mesmo assim, existem certos momentos em que as palavras não saem. Em que os dedos travam e não sabem qual tecla apertar. Em que a informação que chega é tão grande, tão rica, tão vasta, que é preciso um tempo para organizar e digerir tudo antes de colocar no papel. Ou, no caso, na tela.

Ao ouvir Once More ‘Round the Sun, novo álbum do Mastodon, poderia dizer que a banda encontra-se atualmente lá no outro lado, em um lugar muito distante daquele onde começou a sua jornada com o ríspido Remission (2002). Poderia fazer a improvável declaração de que hoje o Mastodon soa quase pop, repleto de melodias que contagiam à primeira audição. Mas ninguém acreditaria.

Ou então, em um exercício imenso de imaginação, criaria uma inusitada história dizendo que, ao colocar a primeira faixa para tocar, você ouviria um violão crescente e não um cavalar riff de guitarra. Ou, quem sabe, contar ao pé do ouvido, quase em segredo, que uma das faixas, “The Motherload”. tem um dos melhores refrãos que você ouvirá em 2014. Que aquela banda que espalhava vocais guturais com gosto em suas canções hoje produz um som repleto de alternâncias vocais entre o guitarrista Brent Hinds, o baixista Troy Sanders e o baterista Brann Dailor. Mas eu sei que, em relação a essa última definição, você provavelmente me chamaria de louco e perguntaria o que eu consumi antes de falar tamanha asneira - ou antes de ouvir o disco.

E sem aviso, como aquela confissão que se faz somente ao amigo mais próximo, revelar que o riff de “High Road” tem a improvável mistura de um Black Sabbath tocando thrash após se perder em uma selva de cogumelos multicoloridos. Que a canção que dá nome ao álbum realmente nos leva mais uma vez por uma jornada ao redor do sol, mesmo que nunca tenhamos estado lá antes.

E, no ápice dessa ficção galopante, gritar a plenos pulmões que “Chimes At Midnight” bate em seu peito como uma imensa bigorna lamacenta. Que “Asleep in the Deep” pega o Small Faces e o Kinks, cruza-os com o Pink Floyd de Syd Barrett e os apresenta ao Led Zeppelin. E que “Aunt Lisa”, com seu riff torto, leva sua mente até uma passagem alucinógena cantada por vozes femininas.

E você, a esse ponto já quase chamando o serviço mais próximo de saúde para verificar o que está acontecendo comigo para tantas frases improváveis saírem da minha boca, ainda tem tempo para ouvir que o Thin Lizzy encontrou o Rainbow que encontrou o Slayer em “Ember City”, que abóboras vindas direto dos anos 1970 florescem em “Halloween” e que “Diamond in the Witch House” está entre as dez melhores criações desta banda contemporânea e ao mesmo tempo quase pré-histórica.

Eu poderia dizer tudo isso. Mas seria apenas um exercício de ficção, um amontoado de frases que soariam sem sentido para você e para todos que estão lendo este texto. Então, não vou escrever sobre Once More ‘Round the Sun. Vou deixar você ouvir, com calma e com gosto. Enquanto eu, em algum lugar, me perco em mais um grande trabalho de Brent Hinds, Troy Sanders, Brann Dailor e Bill Kelliher. Enquanto, sem nenhuma pressa, deixo meu coração, meu corpo e minha vida serem tomados de vez pelo Mastodon.

Vou ali e já volto. Nos vemos novamente qualquer dia desses.

(A nota? Máxima, com tendência de subida nas próximas semanas)

Por Ricardo Seelig

25 de jun de 2014

Skid Row: crítica de Rise of the Damnation Army (2014)

quarta-feira, junho 25, 2014

Pondo fim ao hiato de sete anos que seguiu o fraco Revolutions Per Minute (2006), o Skid Row redescobriu seu apetite criativo e começou a escrever novas músicas, o que resultou em United World Rebellion: Chapter One, o primeiro volume de uma série de EPs, lançado em abril de 2013. Foram cerca de 1.500 cópias vendidas na semana do lançamento nos Estados Unidos. Na Europa, o EP saiu com duas bonus tracks. Na ocasião, Rachel Bolan declarou ao Metalshrine que a banda só queria tentar algo diferente, e acabou pegando todo mundo de surpresa. Devo admitir, Rachel: vocês acertaram em cheio! A bola da vez dá sequência à trilogia. 

Em Rise of the Damnation Army, o formato é o mesmo: cinco autorais inéditas e dois covers. As escolhidas foram “Sheer Heart Attack” (Queen) e “Rats in the Cellar” (Aerosmith). Neste novo punhado de canções, o Skid Row fornece uma recarga headbanger com a testosterona que faltou ao mais recente trabalho de seu ex-vocalista. Pela primeira vez, a formação com Johnny Solinger supera a carreira solo de Sebastian Bach em qualidade e despe, mesmo as viúvas mais ferrenhas do Tião, daquele preconceito, anteriormente fundamentado, com seu substituto — que, cá entre nós, já está na banda há 14 anos, ou seja, mais tempo que o próprio Baz permaneceu nela. 

A outrora youth gone wild, da rebeldia sem causa que sobrepunha um espírito conformista, agora pega em armas. O trato das canções é quase bélico e o efeito, tanto no corpo quanto na mente, após a cerca de meia hora de audição, é de destruição em massa. As guitarras são malvadas (“Damnation Army”); o vocal vai do limpo e amável (até demais na balada “Catch Your Fall”) ao rasgado claustrofóbico como que implorando por resgate, com direito a refrões marcantes (“We Are the Damned”) amparados por backing vocals que não parecem ter sido registrados por caras beirando os 50 anos. E como definir as levadas de Rob Hammersmith? Um selvagem ensandecido em noite de ritual não faria tanto esporro. 

Com poder de fogo supremo, o Skid Row declara guerra nuclear aos que duvidavam que o som pesado de Slave to the Grind não mais corria em suas veias. E munido do pensamento old school de manter o custo reduzido e a qualidade lá no alto, retoma seu posto entre os principais nomes do hard rock “farofa” em atividade, volta a ser prioridade na agenda de seus integrantes e entra com tudo na briga pelo título de melhor disco do ano na opinião deste que vos escreve. Que o capítulo três não demore! 

Nota: 10 

1. We Are The Damned 
2. Give It The Gun 
3. Catch Your Fall 
4. Damnation Army 
5. Zero Day 
6. Sheer Heart Attack 
7. Rats In The Cellar 

 Por Marcelo Vieira

Agalloch: crítica de The Serpent & The Sphere (2014)

quarta-feira, junho 25, 2014
Degustar um novo álbum do Agalloch é sempre prazeroso. E desafiador, acima de tudo. Existem bandas que fazem o básico e são geniais. Existem bandas que forçam uma certa complexidade e jogam tudo pelo ralo. Exatamente no meio do caminho, existe esse quarteto de Portland, nos Estados Unidos, que é dono de uma musicalidade impressionante e que consegue a façanha de ser rebuscado e objetivo ao mesmo tempo. É justamente isso que difere o som de John Haughm e cia.

Uma mescla de black metal, folk e post-rock que trilha por caminhos tortuosos e obscuros, mas que chega nítido e redondo ao tímpano daqueles que mergulham sem temor em seus trabalhos. Luz e sombra que se apresentam por meio de uma sinestesia encantadora e eficaz. Tem sido assim há quase 20 anos. E é assim novamente neste belo The Serpent & The Sphere.

Ainda que haja uma tendência natural em apreciar com mais fervor os primeiros (e hoje clássicos) discos do Agalloch - Pale Folklore (1999), The Mantle (2002) e Ashes Against the Grain (2006) -, os trabalhos mais recentes não ficam devendo em aspecto algum. Isso já estava provado quando do lançamento de Marrow of the Spirit (2009) e se repete agora. Revelado em maio, após hiato de quatro anos, The Serpent & The Sphere reluz tanto quanto seus antecessores.

É certo que a longa "Birth and Death of the Pillars of Creation", responsável por abrir o álbum, demora a engrenar e ainda desemboca em "Serpens Caput", primeiro de um total de três interlúdios sem tanto vigor compostos por Nathanaël Larochette (Musk Ox), músico canadense convidado. No entato, ambas funcionam como aperitivo para a parte mais especial, que é formada pela brilhante trinca "The Astral Dialogue", "Dark Matter Gods" e "Celestial Effigy". É nessas três obras-primas que o Agalloch tira do bolso seu cartão de visitas e mostra que não está para brincadeira.

"The Astral Dialogue" é mais black metal do que umas dez bandas genéricas da Noruega juntas. O riff principal é lindo e faz a cama para vocais certeiros. Do meio para o final, alterna com perfeição partes singelas e agressivas. "Dark Matter Gods" começa de forma acústica e com uma levada que lembra os gênios japoneses do Toe. Ritmo marcial, cordas em destaque, vocal sussurrado e um crescendo intrigante. Tudo isso até explodir em uma canção tão poderosa quanto rica em possibilidades. "Celestial Effigy" segue um caminho parecido, mas com linhas de guitarra ainda mais elaboradas e totalmente casadas com o piano em evidência.

Após "Cor Serpentis (The Sphere)", segundo interlúdio nada inspirado, "Vales Beyond Dimension", muito boa por sinal, abre caminho para "Plateau of the Ages" e seus 12 minutos - a de maior duração entre as nove faixas. Trata-se de um épico que amarra todas as partes e praticamente sintetiza The Serpent & The Sphere. Ainda que seja instrumental, é carregado de emoções, sobretudo no fim, e se sai muito melhor do que as composições de Nathanaël Larochette. Tanto que "Serpens Cauda", a última delas, não tem tanto propósito e passa quase que despercebida.
 
Nos resta tirar o chapéu para John Haughm (guitarra/vocal), Don Anderson (guitarra/piano/vocal), Jason William Walton (baixo) e Aesop Dekker (bateria), que entrou na banda em 2007 e também toca no Vhöl. Mais uma vez entregaram um disco rico em riffs, ótimas melodias e sons mais atmosféricos. Tudo com muito bom gosto e sem soar pedante. Uma mexida na ordem das músicas talvez fosse o único retoque a ser feito. Porém, vale cair de cabeça no universo do Agalloch, que segue um colosso quando o assunto é ser relevante em meio a uma proposta de som intrincada, mas cativante.

Nota: 9


Faixas

1 Birth and Death of the Pillars of Creation 10:30
2 Serpens Caput 3:08 (instrumental)
3 The Astral Dialogue 5:13
4 Dark Matter Gods 8:38
5 Celestian Effigy 6:59
6 Cor Serpentis (The Sphere) 3:00 (instrumental)
7 Vales Beyond Dimension 6:50
8 Plateau of the Ages 12:28 (instrumental)
9 Serpens Cauda 3:12 (instrumental)

Por Guilherme Gonçalves

24 de jun de 2014

Top Collectors Room: os 100 melhores discos de rock da década de 1980

terça-feira, junho 24, 2014
A década de 1980 não foi feita apenas de hard rock e heavy metal, como a maioria dos leitores aqui do site pensam. Muita coisa boa foi lançada no período, influenciado e moldando a música que ouvimos até hoje.

Para ajudar a entender o rock dos anos 1980, elaboramos uma lista com aqueles que julgamos serem os 100 melhores discos lançados naqueles dez anos. Tem pra todos os gostos, para todas as tribos. Ouça os que você não conhece, coloque a sua lista nos comentários e comente as nossas escolhas.

Abaixo, a nossa centena oitentista:

100 The Smiths - Strangeways, Here We Come (1987)
99 Metallica - Kill ‘Em All (1983)
98 Dead Kennedys - Plastic Surgery Disasters (1982)
97 Dire Straits - Love Over Gold (1982)
96 Sepultura - Beneath the Remains (1989)
95 Lou Reed - New York (1989)
94 ZZ Top - Eliminator (1983)
93 Siouxie and The Banshees - Juju (1981)
92 The Cure - The Head on the Door (1985)
91 Iron Maiden - Killers (1981)
90 Dire Straits - Making Movies (1980)
89 The Cult - Love (1985)
88 Sonic Youth - EVOL (1986)
87 Rush - Permanent Waves (1980)
86 Bauhaus - In the Flat Field (1980)
85 Echo and The Bunnymen - Crocodiles (1980)
84 Slayer - South of Heaven (1988)
83 Travelling Wilburys - Travelling Wilburys (1988)
82 Judas Priest - Defenders of the Faith (1984)
81 Dire Straits - Brothers in Arms (1985)
80 Mercyful Fate - Melissa (1983)
79 Siouxie and The Banshees - Kaleidoscope (1980)
78 Stevie Ray Vaughan - Couldn’t Stand the Weather (1984)
77 The Waterboys - Fisherman’s Blues (1988)
76 The Replacements - Please to Meet (1987)
75 Morrissey - Viva Hate (1988)
74 Ozzy Osbourne - Blizzard of Ozz (1980)
73 The Cut - Electric (1987)
72 New Model Army - Thunder and Consolation (1989)
71 R.E.M. - Life’s Rich Pageant (1986)
70 Tom Petty - Full Moon Fever (1989)
69 The Church - Starship (1988)
68 My Bloody Valentine - Isn’t Anything (1988)
67 The Rolling Stones - Tattoo You (1981)
66 Killing Joke - Killing Joke (1980)
65 U2 - War (1983)
64 Pretenders - Learning to Crawl (1984)
63 Peter Gabriel - Peter Gabriel (1980)
62 Marillion - Misplaced Childhood (1985)
61 Violent Femmes - Violent Femmes (1983)
60 Misfits - Walk Among Us (1982)
59 R.E.M. - Document (1987)
58 The Jesus and Mary Chain - Darklands (1987)
57 Bruce Springsteen - The River (1980)
56 The Smiths - The Smiths (1984)
55 Black Sabbath - Heaven and Hell (1980)
54 Metallica - ... And Justice for All (1988)
53 David Bowie - Scary Monsters (And Super Creeps) (1980)
52 Celtic Frost - To Mega Therion (1985)
51 Iron Maiden - Somewhere in Time (1986)
50 Bad Brains - Bad Brains (1982)
49 The Pogues - If I Should Fall From Grace With God (1988)
48 Stevie Ray Vaughan - In Step (1989)
47 Peter Gabriel - So (1986)
46 Iron Maiden - Piece of Mind (1983)
45 Neil Young - Freedom (1989)
44 Dead Kennedys - Fresh Fruit for Rotting Vegetables (1980)
43 Scorpions - Blackout (1982)
42 Pixies - Surfer Rosa (1988)
41 The Pogues - Rum, Sodomy and the Lash (1985)
40 Motörhead - Ace of Spades (1980)
39 Mercyful Fate - Don’t Break the Oath (1984)
38 XTC - Skylarking (1986)
37 The Jesus and Mary Chain - Psychocandy (1985)
36 Dio - Holy Diver (1983)
35 Van Halen - 1984 (1984)
34 Bruce Springsteen - Born in the USA (1984)
33 The Stone Roses - The Stone Roses (1989)
32 The Waterboys - This is the Sea (1985)
31 Meat Puppets - Meat Puppets II (1984)
30 Iron Maiden - Iron Maiden (1980)
29 The Jam - Sound Affects (1980)
28 Rush - Moving Pictures (1981)
27 R.E.M. - Reckoning (1984)
26 Accept - Restless and Wild (1982)
25 U2 - The Joshua Tree (1987)
24 Iron Maiden - Seventh Son of a Seventh Son (1988)
23 Sonic Youth - Sister (1987)
22 Metallica - Ride the Lightning (1984)
21 Talking Heads - Remain in Light (1980)
20 Guns N’ Roses - Appetite for Destruction (1987)
19 Pixies - Doolittle (1989)
18 Judas Priest - British Steel (1980)
17 R.E.M. - Murmur (1983)
16 The Replacements - Tim (1985)
15 Stevie Ray Vaughan - Texas Flood (1983)
14 Hüsker Dü - Zen Arcade (1984)
13 Bruce Springsteen - Nebraska (1982)
12 Iron Maiden - The Number of the Beast (1982)
11 Hüsker Dü - New Day Rising (1985)
10 Sonic Youth - Daydream Nation (1988)
9 Iron Maiden - Powerslave (1984)
8 The Cure - Disintegration (1989)
7 Pretenders - Pretenders (1980)
6 AC/DC - Back in Black (1980)
5 The Replacements - Let It Be (1984)
4 Joy Division - Closer (1980)
3 Metallica - Master of Puppets (1986)
2 Slayer - Reign in Blood (1986)
1 The Smiths - The Queen is Dead (1986)


Por Ricardo Seelig

23 de jun de 2014

Nação Zumbi: crítica de Nação Zumbi (2014)

segunda-feira, junho 23, 2014

Dezessete anos depois da morte de Chico Science, seu falecido líder e criador, finalmente a Nação Zumbi parece se sentir à vontade em celebrar o seu legado e as boas memórias deixadas não apenas pelo músico, mas também pelo amigo. O novo disco do grupo, auto-intitulado, oitavo de estúdio em sua carreira, abre com a bela letra de "Cicatriz", celebração às saudades que alguém muito importante deixou.

Lançado exatamente sete anos depois de Fome de Tudo, o seu disco anterior de inéditas, este Nação Zumbi ainda prova a relevância do grupo no cenário brasileiro – embora a sonoridade, aparentemente, tenha ganhado mais colorido mas perdido um pouco da corpulência. É uma Nação que parece carregar muito mais influências diversas, advindas de boa parte dos projetos paralelos nos quais seus integrantes estiveram envolvidos nos últimos anos.

Aqui, a banda flerta com o soul, abre mais espaço para o groove do baixo vibrante do sempre excelente Alexandre Dengue. Mas acaba perdendo aquele peso, aquela poderosa e consistente massa sonora, que a percussão conferia aos seus trabalhos anteriores, do tipo que calava a boca de muito headbanger babaca que ainda insistia em torcer o nariz para eles. Onde foram parar os tambores, onde está o maracatu que pesa uma tonelada? Se sobrou Dengue, faltou Toca Ogan, o homem por trás da massa sonora percussiva do grupo.

Apenas nas últimas canções, é possível sentir a Nação pegando um pouco mais pesado – menos pela percussão e mais pela guitarra de Lúcio Maia, que, com o perdão do trocadilho fácil, incendeia a fervente "Pegando Fogo" e a viajante "Foi de Amor".

Não me entendam mal, no entanto. Nação Zumbi, o disco, está longe de ser uma experiência auditiva frustrante. O pop de arranjos delicados e refinados de faixas como "A Melhor Hora da Praia" e "Um Sonho" é uma delícia de se ouvir, com uma saborosa iluminação. Assim como o doce sabor de psicodelia de "Defeito Perfeito", cuja letra apaixonada casa perfeitamente com a dobradinha que Jorge Du Peixe faz com Laya Lopes, cantora do grupo O Jardim das Horas, e Lula Lira, filha do saudoso Chico Science. E o reggae soturno de "O Que Te Faz Rir", climático e envolvente? Na medida certa.

Um bom retorno, confesso. Mas um retorno que poderia ter aproveitado um pouco mais do potencial que fez da banda o que ela é, nos dias de hoje, para o rock praticado no Brasil. É hora dos nativos revisitarem a sua própria Nação mais uma vez.

Nota 7,5

Faixas:
1. Cicatriz
2. Bala Perdida
3. O Que Te Faz Rir
4. Defeito Perfeito
5. A Melhor Hora da Praia
6. Um Sonho
7. Novas Auroras
8. Nunca Te Vi
9. Foi de Amor
10. Cuidado
11. Pegando Fogo

Por Thiago Cardim

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