4 de jul de 2014

Nazareth: crítica de Rock 'N' Roll Telephone (2014)

sexta-feira, julho 04, 2014

Na ativa desde o período jurássico do hard rock, o Nazareth tem seu préstimo na disseminação do gênero — verdade seja dita, sempre correndo por fora, comendo poeira para nomes do primeiro escalão. Apesar disso, deixou a sua marca em canções que fizeram história, como “Love Hurts”, “Hair of the Dog” e “Where Are You Now”. Por falar em história, a do Nazareth sofreu uma tremenda reviravolta nos últimos tempos: impedido de excursionar sob o risco de empacotar em cima do palco, o vocalista Dan McCafferty se afastou de vez da música. Temos aqui, portanto, o seu canto do cisne. 

Rock 'N' Roll Telephone tem uma receita musical tão simples que eu não duvido que um ou outro por aí acusem a banda de ter gasto pouco tempo desenvolvendo as 11 canções de seu repertório. Só que manter tudo o mais elementar possível tem seus contras, e o principal deles interfere na experiência que o disco proporciona. Do início ao fim, é como se estivesse faltando algo; como se a gravação multicanal tivesse dedicado um apenas para registrar um vazio sonoro que cria um abismo entre a cozinha e o primeiro plano, onde a guitarra, tão preponderante no passado do grupo, soa mera coadjuvante. 

É difícil estabelecer parâmetros quanto a performance de Dan, pois não é de hoje que a sua voz respira com a ajuda de aparelhos. Obviamente, há momentos em que o peso da camisa vira o placar, mas, no geral, são situações que você aplaude mais em respeito do que qualquer outra coisa. Imagine a cena: festa de família com karaokê e seu tio, que é um cinzeiro humano, assume o microfone. Na primeira nota mais alta, dana a tossir e pede penico. Quem se atreveria a jogar a primeira pedra? 

A minha preferida, “Not Today”, tem alicerce metálico com vigas grossas e pesadas; o timbre da guitarra é aspero e a melodia, somada a interpretação canastrona de Dan, exala legítima perversão. “Speakeasy” é outro grande momento; canção festiva com refrão cativante, bem nos moldes de L.A. Nos acréscimos, “God of the Mountain”, que é um potencial número de encerramento de show — o refrão “Sky high praise the God of the Mountain”, repetido à exaustão, permite boa interação com a plateia. Mas é só, e é pouco — pelo menos na minha opinião. 

Deve se levar em conta que um novo capítulo foi aberto na história do Nazareth. Com a benção do próprio Dan, o grupo segue com um novo vocalista, Linton Osborne, de 41 anos. E o que não falta no rock são exemplos de como a injeção de sangue novo nos mais velhos ajuda a retardar o envelhecimento, certo? Que a cabine telefônica indo pelos ares consiga, sobretudo, preparar o terreno para o novo Nazareth, pois uma despedida, no mínimo, digna, a Dan McCafferty ela já assegurou. 

Nota: 6 

01. Boom Bang Bang 
02. One Set of Bones 
03. Back 2B4 
04. Winter Sunlight 
05. Rock ‘n’ Roll Telephone 
06. Punch A Hole In The Sky 
07. Long Long Time 
08. The Right Time 
09. Not Today 
10. Speakeasy 
11. God Of The Mountain 

Por Marcelo Vieira

Apanhado death/thrash/black de junho

sexta-feira, julho 04, 2014
Se a Copa do Mundo consumiu uma fração considerável do seu estimado tempo durante junho, chegou a hora de tentar recuperar parte do que rolou nos subterrâneos do heavy metal. Por outro lado, se futebol não lhe diz a mínima, você certamente pode nos ajudar sugerindo e acrescentando nos comentários mais coisas bacanas que chamaram a atenção nos últimos 30 dias.

O que houve de relevante? A troca de vocalista no Exodus, por exemplo. Músicas e vídeos novos foram lançados. O que mais? Leia e depois contribua com o apanhado death/thrash/black do mês. Afinal, o futebol pode nos ter feito deixar passar batido algumas notícias...

Exodus

O Exodus surpreendeu ao anunciar a saída de Rob Dukes e o retorno de Steve 'Zetro' Souza. A troca de frontman foi comunicada por Gary Holt, líder e guitarrista da banda, por meio de uma nota oficial. O motivo? Algo vago: "Achamos que era hora de mudar", afirmou Gary.

Rob Dukes deixa o posto de vocalista do Exodus após nove anos e abre espaço para a terceira passagem de Steve 'Zetro' Souza, que já havia estado na banda de 1986 a 1993 e entre 2002 e 2004. Dukes gravou os últimos quatro discos de estúdio. 'Zetro' Souza, por sua vez, esteve à frente dos vocais em cinco: Pleasures of the Flesh (1987), Fabulous Disaster (1989), Impact is Imminent (1990), Force of Habit (1992) e a volta com Tempo of the Damned (2004).

Além de estar prestes a cair na estrada com o Exodus, 'Zetro' Souza já teria inclusive gravado os vocais para um novo álbum. No fim do ano, a banda sairá em turnê com Slayer e Suicidal Tendencies. Uma foto - feita no Photoshop - com a formação reformada já foi dvulgada - veja acima.

Cannibal Corpse

O Cannibal Corpse agendou para setembro o lançamento de um novo álbum: A Skeleton Domain. Será o 13º trabalho da carreira desses veteranos do death metal e marca uma modificação. Sai de cena Erik Rutan, guitarrista e vocalista do Hate Eternal, responsável pela produção dos últimos três discos, e entra Mark Lewis, proprietário do Audiohammer Studios, em Sanford, na Flórida.

Sucessor de Torture (2012), A Skeleton Domain será composto por 12 faixas, sendo que "Sadistic Embodiment" já pode ser degustada. A arte da capa também foi revelada e foge um pouco ao padrão de violência explícita do Cannibal Corpse. Está, inclusive, menos inspirada, diga-se de passagem.



Anaal Nathrakh

Dave Hunt e Mick Kenney, que respondem, respectivamente, pelos pseudônimos V.I.T.R.I.O.L e Irrumator no Anaal Nathrakh, anunciaram que a banda assinou com a lendária Metal Blade. Ainda não há, porém, qualquer informação sobre um novo disco. O último trabalho do duo foi Vanitas (2012).

Origin

Omnipresent, novo disco do Origin, sai nos próximos dias, e a banda aproveitou para lançar o lyric video de "Absurdity Of What I Am", uma das faixas presentes no trabalho, o sexto de estúdio.


Tankard

Os alemães do Tankard lançaram um vídeo para "R.I.B (Rest in Beer)", faixa-título do mais novo e recém-lançado álbum da banda. Como sempre, muita cerveja e humor em doses cavalares.


Morgoth

Sem lançar nada desde o ridículo Feel Sorry for the Fanatic (1996), o Morgoth revelou que já está em estúdio para gravar um novo álbum e quebrar o longo hiato de quase 20 anos. Ainda não há maiores detalhes sobre o trabalho. Resta saber se a banda retomará o caminho do death metal presente em Cursed (1991) e Odium (1993), ou se irá apostar novamente no rock industrial. Como o grupo anunciou que sairá em turnê como opening act para o Bolt Thrower durante setembro e outubro, crescem as expectativas por algo na linha da velha escola.

Exciter

O que antes parecia ser uma reunião só para a realização de shows, acabou se mostrando algo produtivo também em termos de composição. Após anunciar a volta da formação clássica, Dan Beehler (bateria/vocal), John Ricci (guitarra) e Alan Johnson (baixo) confirmaram também a gravação de um novo álbum de estúdio. Mais detalhes devem ser divulgados nos próximos meses.

Misery Index

Dono de um dos melhores discos de maio, o Misery Index lançou o vídeo de "The Calling", segunda música do track list de The Killing Gods, quinto e recém-lançado álbum da banda.


Heretic

Foi lançado pelo Heretic, trio goiano de metal instrumental com influência e estética oriental, o vídeo para a música "I Am Shankar", cuja principal referência é Ravi Shankar. A banda é formada por Guilherme Aguiar (guitarra), Laysson Mesquita (baixo) e Diogo Sertão (bateria). Há ainda na canção a participação especial de Lucas Castro, que toca tabla indiana, guitarra solo e djembê.


Overkill

Prestes a lançar White Devil Armory, seu 17º álbum de estúdio, o Overkill divulgou o lyric video de "Armorist", uma das faixas que estará no novo trabalho, previsto para sair no final de julho.


Hate

Os poloneses do Hate já entraram em estúdio para gravar um novo disco. Com previsão para sair em novembro, Cruzade:Zero está sendo forjado no Hertz Studio, na Polônia, e sairá via Napalm Records. Track list, arte da capa e demais informações ainda não foram divulgadas.

Atheist

O Atheist confirmou que irá entrar em estúdio no final do ano para gravar um novo disco. O sucessor de Jupiter (2010) ainda não tem nome. Sabe-se apenas que será produzido por Jason Suecof.

Por Guilherme Gonçalves

3 de jul de 2014

Top Collectors Room: os 100 melhores discos de rock dos anos 1960

quinta-feira, julho 03, 2014
Quando tudo começou. De verdade. O rock nasceu na década de 1950, mas foi nos anos 1960 que tomou o mundo de assalto e se transformou em um fenômeno de popularidade sem precedentes. Tendo os Beatles como protagonistas, em um período de dez anos a juventude viu surgir uma geração de bandas que fizeram história e influenciaram profunda e definitivamente não apenas a música, mas o próprio comportamento e a cultura em todas as suas manifestações.

Dá trabalho fazer uma lista com os 100 melhores discos dos anos 1960. Mas é um trabalho prazeroso. Abaixo, a lista com o top 100 da década. É claro que você vai sentir falta de alguns títulos, vai reclamar da presença de outros, essas coisas. Então, poste os seus melhores nos comentários e, é claro, vá atrás daqueles que você por acaso ainda não conheça.

Com vocês, os 100 melhores discos de rock dos anos 1960:

100 International Submarine Band - Safe at Home (1968)
99 Bob Dylan - Nashville Skyline (1969)
98 Jefferson Airplane - Volunteers (1968)
97 Santana - Santana (1969)
96 The Byrds - Turn! Turn! Turn! (1965)
95 Blue Cheer - Vincebus Eruptum (1968)
94 The Doors - Strange Days (1967)
93 The Kinks - Something Else by The Kinks (1967)
92 The Rolling Stones - Out of Our Heads (1965)
91 The 13th Floor Elevators - The Psychedelic Sounds of The 13th Floor Elevators (1966)
90 Dr. John & The Night Tripper - Gris-Gris (1968)
89 The Rolling Stones - Flowers (1967)
88 The Beatles - Beatles for Sale (1964)
87 The Allman Brothers Band - The Allman Brothers Band (1969)
86 Janis Joplin - Cheap Thrills (1968)
85 Creedence Clearwater Revival - Creedence Clearwater Revival (1968)
84 The Byrds - Mr. Tambourine Man (1965)
83 Easy Rider (Soundtrack) (1969)
82 Yardbirds - Having a Rave Up With The Yardbirds (1965)
81 Johnny Winter - The Progressive Blues Experiment (1968)
80 The Beatles - With The Beatles (1963)
79 Blind Faith - Blind Faith (1969)
78 Free - Free (1969)
77 The Byrds - Fifth Dimension (1966)
76 Creedence Clearwater Revival - Bayou Country (1969)
75 Johnny Winter - Johnny Winter (1969)
74 The Rolling Stones - The Rolling Stones, Now! (1965)
73 Buffalo Springfield - Buffalo Springfield Again (1967)
72 Creedence Clearwater Revival - Green River (1969)
71 The Byrds - The Notorious Byrd Brother (1968)
70 The Troggs - From Nowhere (1966)
69 Free - Tons of Sobs (1969)
68 Mike Bloomfield, Al Kooper & Steve Stills - Super Session (1968)
67 Bob Dylan - Another Side of Bob Dylan (1964)
66 King Crimson - In the Court of the Crimson King (1969)
65 Procol Harum - A Salty Dog (1969)
64 The Beatles - Please Please Me (1963)
63 The Rolling Stones - Between the Buttons (1967)
62 Crosby, Stills & Nash - Crosby, Stills & Nash (1969)
61 Yardbirds - Roger the Engineer (1966)
60 Love - Da Capo (1966)
59 Captain Beefheart and His Magic Band - Trout Mask Replica (1969)
58 The Who - My Generation (1965)
57 Simon & Garfunkel - Bookends (1968)
56 The Byrds - Sweetheart of the Rodeo (1968)
55 The Stooges - The Stooges (1969)
54 Bob Dylan - John Wesley Harding (1967)
53 Traffic - Traffic (1968)
52 Os Mutantes - Mutantes (1969)
51 Small Faces - Ogden’s Nut Gone Flake (1968)
50 The Zombies - Odessey and Oracle (1968)
49 The Who - The Who Sell Out (1967)
48 John Mayall - Blues Breakers With Eric Clapton (1966)
47 Grand Funk Railroad - Grand Funk (1969)
46 The Byrds - Younger Than Yesterday (1967)
45 The Velvet Underground - White Light / White Heat (1968)
44 The Rolling Stones - Aftermath (1966)
43 Johnny Winter - Second Winter (1969)
42 The Beatles - Help! (1965)
41 Os Mutantes - Os Mutantes (1968)
40 Captain Beefheart and His Magic Band - Safe as Milk (1967)
39 The Velvet Underground - The Velvet Underground (1969)
38 Jefferson Airplane - Surrealistic Pillow (1967)
37 The Flying Burrito Brothers - The Gilded Palace of Sin (1969)
36 Frank Zappa - Hot Rats (1969)
35 The Band - Music From Big Pink (1968)
34 Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn (1967)
33 Love - Forever Changes (1967)
32 The Kinks - Face to Face (1966)
31 The Beatles - A Hard Day’s Night (1964)
30 The Beatles - Magical Mystery Tour (1967)
29 Jeff Beck - Truth (1968)
28 Frank Zappa - Freak Out! (1966)
27 Cream - Disraeli Gears (1967)
26 The Kinks - Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire) (1969)
25 Frank Zappa - We’re Only in It for the Money (1968)
24 The Who - Tommy (1969)
23 Creedence Clearwater Revival - Willy and the Poor Boys (1969)
22 Bob Dylan - The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)
21 The Band - The Band (1969)
20 Neil Young - Everybody Knows This is Nowhere (1969)
19 The Kinks - The Kinks Are the Village Green Preservation Society (1968)
18 The Rolling Stones - Beggars Banquet (1968)
10 Jimi Hendrix - Electric Ladyland (1968)
16 The Beach Boys - Pet Sounds (1966)
15 The Doors - The Doors (1967)
14 The Beatles - The Beatles (White Album) (1968)
13 The Velvet Underground & Nico - The Velvet Underground & Nico (1967)
12 Led Zeppelin - Led Zeppelin (1969)
11 The Beatles - Rubber Soul (1965)
10 Jimi Hendrix - Axis: Bold as Love (1967)
9 Bob Dylan - Bringing It All Back Home (1965)
8 Led Zeppelin - Led Zeppelin II (1969)
7 Bob Dylan - Blonde on Blonde (1966)
6 The Beatles - Revolver (1966)
5 The Rolling Stones - Let It Bleed (1969)
4 Bob Dylan - Highway 61 Revisited (1965)
3 The Beatles - Abbey Road (1969)
2 Jimi Hendrix - Are You Experiended (1967)
1 The Beatles - Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967)


Por Ricardo Seelig

2 de jul de 2014

Veredito Collectors Room: Mastodon - Once More ‘Round the Sun (2014)

quarta-feira, julho 02, 2014
O Veredito Collectors Room traz a equipe do site analisando, de forma conjunta, aquele que julgamos ter sido o lançamento mais importante do mês anterior. E em junho, a escolha não poderia ser outra. Once More ‘Round the Sun, sexto disco da banda norte-americana Mastodon, chegou às lojas no último dia 24/06 e vem arrancando elogios mundo afora.

Guilherme Gonçalves colocou o disco para rodar a todo volume em Goiânia. Marcelo Vieira fez o mesmo no Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, Tiago Neves sangrou seus ouvidos com o quarteto. Seu quase homônimo, Thiago Cardim, caminhou por São Paulo tendo Once More ‘Round the Sun como trilha constante. Nosso viking oriental Rodrigo Carvalho deixou Sorocaba em chamas com o álbum. E em Florianópolis, Ricardo Seelig convenceu vizinhos, colegas de trabalho e quem mais encontrasse pela frente a ouvir o disco.

Tudo isso fez gerar os textos abaixo. Leia o que achamos de Once More ‘Round the Sun e, claro, conte pra gente a sua opinião sobre o álbum nos comentários.


O Mastodon jamais me fisgou. Não é uma banda que me atrai e poucas vezes foi contemplada com minha atenção voltada para algum de seus discos. Nada disso, porém, impede que eu admita ser o quarteto norte-americano um dos fenômenos mais relevantes dentro do universo do heavy metal há pelo menos dez anos. Para o bem e para o mal. Ainda que não tenha tanto conhecimento de causa para avaliar Once More 'Round the Sun, sexto e mais novo álbum de estúdio, é elementar situá-lo na discografia do grupo. Esqueça o caos e a complexidade de Remission (2002), bem como a grandiosidade de Leviathan (2004) - os dois que, talvez, eu mais tenha tido contado. Imagine uma continuação natural de The Hunter (2011), mas com doses ainda maiores de melodia e de diálogo com o mainstream. Até então, o Mastodon nunca tivera tantas canções com potencial para se tornarem hits como neste trabalho. Quem aprecia as primeiras empreitadas da banda, pode se queixar da redução do viés mais obscuro e subterrâneo. Quem se amarra em músicas mais retas, palatáveis e grudentas, vai aprovar. Como não tenho apego a nenhuma dessas duas faces específicas do Mastodon, ouvi sem qualquer expectativa e confesso ter gostado bastante de algumas coisas, embora ainda discorde de outras tantas. A trinca "Tread Lightly", "The Motherload" e "High Road” funciona muito bem. A faixa-título é como se Ozzy Osbourne tivesse montado uma banda grunge - e acertado em cheio, por mais estranho que pareça. "Chimes at Midnight", "Asleep in the Deep" e "Ember City" também são legais. Ouvirei o álbum mais vezes. Ainda que não consiga me livrar da sensação de que o Baroness faz basicamente o mesmo, só que infinitamente melhor. Nota 7 (Guilherme Gonçalves)

Nenhum disco começa a ganhar vida com pretensão de se tornar um clássico. Mas o que faz um disco se tornar um clássico? Contexto, nível de experimentação, bom uso de inovações tecnológicas; as transformações pessoais do artista ou grupo e subsequente canalização de diferentes sensações em música; o meio-termo entre obedecer às lógicas da indústria fonográfica e nadar contra a corrente. Once More 'Round the Sun tem tudo isso e mais um pouco. Aqui, o Mastodon confirma que seu ciclo criativo é tão calculado quanto imprevisível e propõe uma experiência sonora que transcende rótulos e sobreviverá ao implacável teste do tempo. Temos não apenas o melhor disco do ano, mas também a música do ano até agora: "The Motherload". Nota 10 (Marcelo Vieira)

Realmente é difícil, muito difícil, definir em palavras as sensações que o mais recente disco de inéditas do Mastodon, Once More ‘Round the Sun, causou e vêm causando até hoje sobre minha pessoa. E o hype em torno da banda não é de maneira alguma exacerbado. Desde a magnífica arte da capa, passando pela introdução acústica de “Tread Lightly” até a última canção (ironicamente começando com violões também) “Diamond in the Witch House”, esse quarteto norte americano vêm rompendo com todo e qualquer limite e/ou tentativa de denominação de seu estilo, se é que eles ainda podem se enquadrar em algum pré estabelecido. É metal acima de tudo, mas também é acessível em alguns momentos. E sempre, em todas as suas 11 faixas, soando perfeitamente bem aos nossos ouvidos, com nuances e climas que transcendem ao que conhecemos e definimos popularmente como “boa música”. Até mesmo com os refrães a lá Avenged Sevenfold contidos na lição de auto-ajuda (ou seria uma mensagem de algum ser de outro plano espiritual propondo libertação do sofrimento terreno?) em formato de música na empolgante “The Motherload” mostram que a banda, apesar de apresentar poucas diferenças entre este trabalho e The Hunter, seu disco anterior, consegue tornar e fazer tudo parecer parte de uma unidade coesa, as vezes sombria, e as vezes melódica. Os solos de guitarra parecem mais presentes também, o que só vem a tornar mais prazerosa a audição para um apreciador dessa arte, como eu. Destaque também para as melodias vocais contidas em todo o trabalho, em especial na atmosfera intergaláctica de “Asleep in the Deep”. A verdade é que, tal qual um corpo celeste atraído pela lei da gravidade, eu não consigo parar de ouvir esse disco desde que o descobri, e já o coloco facilmente no meu top 10 do ano, com louvor! E dificilmente alguém os supera no restante deste período. Os Mastodontes atropelam mais uma vez, sem dó nem piedade! Nota 9,5 (Tiago Neves)

Vamos aproveitar este clima de Copa do Mundo, que está contagiando até os mais céticos e inclusive os norte-americanos, geralmente desinteressados pelo esporte bretão, e fazer um exercício inverso? Afinal, os EUA estão passando a entender o que o mundo inteiro acha de legal neste futebol jogado com os pés. Então, que acha você de largar mão deste preconceito besta e entender que, tudo bem, a Europa tem muita banda boa, aquelas mesmas que você ouve há anos - mas o metal que está sendo feito por uma trupe de bandas nos EUA não é apenas excelente. Tem gosto de novo, tem gosto de experimentação, de quem sacode a poeira e não se satisfaz em fazer mais do que mesmo. Em resumo: fora do comum. Merece ser ouvido. É um saco ter que ficar repetindo isso insistentemente há anos, confesso. Para derrubar as suas resistências e te fazer ampliar os horizontes, pode ser que o novo disco dos sulistas do Mastodon seja um bom ponto de partida. Once More 'Round the Sun é, como tem sido padrão nos lançamentos dos caras, surpreendente. Dialoga com The Hunter, explorando melodias mais acessíveis, bebendo na fonte do rock dos anos 70, em especial da sua cena hard rock, mas sem soar nostálgico e babaca. É rock alucinado e viajandão, mas também pesado e vigoroso. O riff de  "Chimes at Midnight" por exemplo, entra fácil entre os melhores do ano. "The Motherload" chega até a flertar com o rock progressivo, mas o resultado está longe de ser matemática - é puro feeling. Para encerrar, vem "Diamond in the Witch House", que tem gosto de jam session entre amigos, tocando despretensiosamente na garagem, enquanto tomam uma breja e fumam tudo que vêem pela frente. Se sempre achei isso, este álbum me dá a impressão ainda mais nítida de que a definição faz sentido: o Mastodon é uma espécie de "o que aconteceria se o Queens of the Stone Age resolvesse tocar pesado de verdade". Nota 9 (Thiago Cardim)

O Mastodon em si é um evento no curso da história do heavy metal. Em quinze anos de atividade, os mendigos de Atlanta lançaram cinco obras praticamente intocáveis (ou há algo a ser mudado em Crack the Skye?), entregaram várias composições que podem se tornar clássicas em um futuro próximo (“Blood and Thunder” é uma das melhores introduções de álbum do milênio) e sempre buscando algo a mais, uma noção de experimentações musicais acima da média que torna cada um de seus discos singular. Once More ‘Round the Sun não foge a regra. O grupo revisita sob um novo ponto de vista toda a sua trajetória, com maturidade condizente a uma das maiores bandas de metal em atividade, ainda inserindo alguns interessantes elementos, relativamente previsíveis, ao mesmo tempo em que é atrapalhada por uma produção excessivamente incômoda. Isso não diminui a qualidade das composições, mas sim, em muito, a experiência do álbum em si. Evidentemente um excelente trabalho, mas é um buraco negro de potência ligeiramente inferior em relação aos quais já fomos absorvidos anteriormente. A primeira translação se encerra aqui, e só podemos aguardar para que a próxima seja tão desafiadora e explorável quanto esta. Nota 8 (Rodrigo Carvalho)

Idolatrado há anos pela crítica e pelos ouvintes mais atentos de heavy metal, o Mastodon decidiu que agora quer ser conhecido definitivamente pelo grande público. Para alcançar esse objetivo, gravou um disco muito mais acessível que seus registros anteriores, mas com um diferencial importantíssimo e essencial: tão bom quanto. Em comparação ao que você conhece ou já ouviu da banda, Once More ‘Round the Sun traz uma quantidade muito maior de melodias e vocais que se alternam de maneira constante entre o guitarrista Brent Hinds, o baixista Troy Sanders e o baterista Brann Dailor. O resultado é um conjunto de canções forte e com apelo imediato. Faixas como a sensacional “The Motherload” (uma ignorância, um arregaço, uma iluminação e tudo mais), “High Road”, “Tread Lightly”, “Asleep in the Deep” e “Aunt Lisa” proporcionam uma audição cheia de prazer e com direito a vários arrepios pelo caminho. De modo geral, Once More ‘Round the Sun é aquele tipo de disco que agrada desde fãs de música pesada até ouvintes que não estão inseridos na realidade do estilo - e isso, é bom frisar, é um elogio gigantesco e uma qualidade cada vez mais rara. Sempre que penso no Mastodon, no que a banda representa e no que ela proporciona com seus álbuns, o Led Zeppelin me vem à mente. A similaridade entre as duas bandas se dá por um fator chave: a imprevisibilidade e a capacidade de sempre surpreender, explorando os mais diversos elementos e sempre alcançando ótimos resultados. O Mastodon está fazendo história. A cada passo. A cada dia. A cada disco. E é sensacional estar presenciando tudo isso. Nota 9 (Ricardo Seelig)

Nosso veredito é 8,75

Equipe Collectors Room

30 de jun de 2014

Top Collectors Room: os 100 melhores discos de rock dos anos 2000

segunda-feira, junho 30, 2014
A década onde o rock alternativo e o indie se consolidaram definitivamente. A década onde o heavy metal olhou para o seu passado, para o alternativo e para o indie e se mostrou mais forte, revigorado e apaixonante como nunca. A década onde o pop andou de mãos dadas com o rock em diversos ótimos momentos.

Seguindo o nosso caminho pela história do rock, chegamos aos anos 2000. Bandas e álbuns ainda frescos na memória, mas que já fazem parte de nossas vidas e marcaram a trajetória da música.

Como sempre, estamos esperando o seu comentário com impressões, discos que faltaram, discos que poderiam estar, essas coisas. E, claro, se ainda não ouviu alguns dos títulos abaixo, vá atrás e ouça.

Com vocês, os 100 melhores discos de rock dos anos 2000 segundo a Collectors Room:

100 Red Hot Chili Peppers - By the Way (2002)
99 Bruce Springsteen - The Rising (2002)
98 The Mars Volta - Frances the Mute (2005)
97 The White Stripes - Get Behind Me Satan (2005)
96 Fleet Foxes - Fleet Foxes (2008)
95 Grandaddy - The Sophtware Slump (2000)
94 Ryan Adams - Heartbreaker (2000)
93 The Black Keys - Thickfreakness (2003)
92 Nevermore - This Godless Endeavor (2005)
91 The White Stripes - De Stijl (2000)
90 The Allman Brothers Band - Hittin’ the Note (2003)
89 Iron Maiden - Brave New World (2000)
88 The Raconteurs - Consolers of the Lonely (2008)
87 Halford - Resurrection (2000)
86 Mastodon - Remission (2002)
85 Robert Plant & Alison Krauss - Raising Sand (2007)
84 Arctic Monkeys - Favourite Worst Nightmare (2007)
83 Nevermore - Dead Heart in a Dead World (2000)
82 Radiohead - Hail to the Thief (2003)
81 The Black Keys - Attack & Release (2008)
80 Muse - Absolution (2003)
79 Grandaddy - Sumday (2003)
78 Opeth - Watershed (2008)
77 Franz Ferdinand - Franz Ferdinand (2004)
76 Coldplay - A Rush of Blood to the Head (2002)
75 The Hellacopters - High Visibility (2000)
74 Spiritual Beggars - Ad Astra (2000)
73 The Thrills - So Much for the City (2003)
72 The Killers - Hot Fuss (2004)
71 Mastodon - Blood Mountain (2006)
70 Audioslave - Audioslave (2002)
69 Wilco - A Ghost is Born (2004
68 Nile - In Their Darkened Shrines (2002)
67 Slipknot - Iowa (2001)
66 Porcupine Tree - Fear of a Blank Planet (2007)
65 Deftones - White Pony (2000)
64 Meshuggah - Nothing (2002)
63 Kings of Leon - Aha Shake Heartbreak (2004)
62 Baroness - Red Album (2007)
61 Arcade Fire - Neon Bible (2007)
60 Green Day - American Idiot (2004)
59 Porcupine Tree - The Incident (2009)
58 Broken Social Scene - You Forgot It in People (2002)
57 Steve Earle - Transcedental Blues (2000)
56 Kamelot - The Black Halo (2005)
55 Porcupine Tree - In Absentia (2002)
54 The Black Keys - Rubber Factory (2004)
53 Josh Rouse - 1972 (2003)
52 AC/DC - Stiff Upper Lip (2000)
51 System of a Down - Mesmerize (2005)
50 Josh Rouse - Nashville (2005)
49 Baroness - Blue Record (2009)
48 Coldplay - Parachutes (2000)
47 Bob Dylan - Modern Times (2006)
46 My Morning Jacket - Z (2005)
45 Wilco - Sky Blue Sky (2007)
44 Machine Head - The Blackening (2007)
43 Explosions in the Sky - The Earth is Not a Cold Dead Place (2003)
42 TV on the Radio - Dear Science (2008)
41 Orphaned Land - Mabool: The Story of the Three Sons of Seven (2004)
40 Pain of Salvation - Remedy Lane (2002)
39 Gov’t Mule - The Deep End Volume 1 (2002)
38 Them Crooked Vultures - Them Crooked Vultures (2009)
37 Brian Wilson - Smile (2004)
36 Interpol - Turn On the Bright Lights (2002)
35 Agalloch - The Mantle (2002)
34 At the Drive-In - Relationship of Command (2000)
33 David Gilmour - On an Island (2006)
32 Bob Dylan - Love and Theft (2001)
31 Ryan Adams - Gold (2001)
30 Tool - Lateralus (2001)
29 Drive-By Truckers - Decoration Day (2003)
28 AC/DC - Black Ice (2008)
27 The Flaming Lips - Yoshimi Battles the Pink Robots (2002)
26 Fugazi - The Argument (2001)
25 Agalloch - Ashes Against the Grain (2006)
24 Opeth - Ghost Reveries (2005)
23 Godspeed You! Black Emperor - Lift Yr. Skinny Fists Like Antennas to Heaven! (2000)
22 Isis - Panopticon (2004)
21 Enslaved - Isa (2004)
20 The Mars Volta - De-Loused in the Comatorium (2003)
19 Radiohead - In Rainbows (2007)
18 Queens of the Stone Age - Rated R (2000)
17 U2 - All That You Can’t Leave Behind (2000)
16 The Strokes - Is This It (2001)
15 Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not (2006)
14 The White Stripes - Elephant (2003)
13 Drive-By Truckers - Southern Rock Opera (2001)
12 Converge - Jane Doe (2001)
11 Mastodon - Leviathan (2004)
10 The White Stripes - White Blood Cells (2001)
9 Isis - Oceanic (2002)
8 System of a Down - Toxicity (2001)
7 Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf (2002)
6 Wolfmother - Wolfmother (2005)
5 Mastodon - Crack the Skye (2009)
4 Opeth - Blackwater Park (2001)
3 Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2002)
2 Radiohead - Kid A (2000)
1 Arcade Fire - Funeral (2004)


Por Ricardo Seelig

Quiet Riot: crítica de 10 (2014)

segunda-feira, junho 30, 2014

Frankie Banali sabia que ressuscitar o Quiet Riot seria um grande desafio, afinal, não se pode substituir um cantor com a voz e a personalidade de Kevin DuBrow (morto em 2007). O que se pode chamar, então, de uma continuação da banda em memória de Kevin acaba de lançar seu primeiro trabalho. 10 traz a estreia de Jizzy Pearl (Love/Hate, Ratt, L.A. Guns) no microfone, além da volta de Chuck Wright, que tocou o baixo em quatro álbuns do QR num passado remoto. A guitarra ficou a cargo de Alex Grossi, o mesmo de Rehab (2006) com passagens por bandas como Bang Tango e Adler's Appetite. 

O repertório traz seis sons inéditos e quatro registros ao vivo da última turnê com DuBrow que, segundo Banali em entrevista ao Loudwire, mostram o quanto Kevin ainda estava no auge. Musicalmente, a parte inédita é uma paulada na orelha, com verdadeira explosão de graves. A bateria soa suprema e domina por completo o fone do lado direito. Face a isto, o vocal de um Pearl mais contido que de costume acaba relegado ao segundo plano. Se bem que essa abordagem mais tímida pode depor a favor do vocalista, já que não são poucos os que o detonam por conta de seus exageros vocais. 

Clássicos a parte, Grossi é muito mais guitarrista que Carlos Cavazo e sua entrega aqui é total, com riffs que inspiram mais metal do que hard e solos nutridos de efeitos e técnicas que seu antecessor não dominava com a mesma expertise. E uma vez que temos a bateria tomando conta, o baixo de Wright também sai ganhando: notas longas, estalos, arremates... sem contar que a sintonia com o backbeat de Banali é tremenda. A linearidade atingida aqui é boa o bastante para evitar destacar uma música ou outra. Se você preza por diversidade, passe longe; aqui, a fórmula se repete das faixas 1 a 6. 

Agora, é preciso ser franco: a iniciativa de preservar o legado de DuBrow através da inclusão de alguns de seus últimos registros ao vivo é louvável — não dá para negar que o cara era um monstro no palco —, mas a qualidade das gravações é incrivelmente ruim. O som, que parece ter sido obtido através de bootleg gravado da plateia, é estourado, possui altos e baixos e mesmo falhas, como se faltasse óleo na bobina do tape. Vale pela importância histórica (?)... mas só por isso também. 

Se vai ser o bastante para manter a banda nos trilhos eu não sei, mas é reconfortante saber que um cara como Frankie Banali, tão fundamental para o gênero musical que é a minha maior paixão, está de volta. Ainda é cedo para dizer se 10 proverá a força necessária para manter a coisa nos trilhos por mais tempo, mas por si só, é motivo de sobra para se comemorar. 

Nota: 7 

01. Rock In Peace 
02. Bang For Your Buck 
03. Backside Of Water 
04. Back On You 
05. Band Down 
06. Dogbone Alley 
07. Put Up Or Shut Up 
08. Free 
09. South Of Heaven 
10. Rock & Roll Medley 

Por Marcelo Vieira

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