7 de nov de 2014

Criolo: crítica de Convoque Seu Buda (2014)

sexta-feira, novembro 07, 2014
Kleber Cavalcante Gomes é uma pessoa diferente. O cara que você conhece como Criolo pensa e faz música de uma maneira particular, igual a ninguém. Isso já era colocado na mesa na estreia que pouquíssima gente ouviu - Ainda Há Tempo (2006) - e foi escancarado no disco que todo mundo escutou - Nó na Orelha (2011). Vindo do rap, Criolo não se prende ao gênero, seja na configuração esperada do estilo - samplers, colagens, vocais falados - como, principalmente, nos limites que ele poderia impor à sua música. Assim como Nó na Orelha, Convoque Seu Buda, lançado neste semana, parte do rap e vai ao encontro de diversas sonoridades, passando pelo afrobeat, samba, reggae, MPB e outros, resultando em mais um trabalho de primeira linha.

Gravado entre os meses de julho e setembro, o disco foi produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, mixado por Mario Caldato Jr. e masterizado por Robert Carranza. Convoque Seu Buda traz dez canções, onde o discurso afiado de Criolo fala sobre consumismo, drogas - notadamente o flagelo social do crack, que enche as ruas das cidades brasileiras de coadjuvantes de The Walking Dead mas é sonoramente ignorado por TODAS as esferas do poder -, conflitos/contrastes entre as classes sociais e o cotidiano da periferia, realidade conhecida na pele pelo rapper.

Criolo repete um expediente que deu muito certo em Nó na Orelha e que faz a diferença mais uma vez em Convoque Seu Buda: o uso de instrumentos reais na construção das músicas. Assim, as composições, ainda que sempre tragam beats e colagens muito bem encaixadas, soam orgânicas e com muita fluidez. Estão lá guitarra, baixo, teclado, bateria e outros instrumentos como flautas, construindo uma sonoridade rica e repleta de matizes interessantes.

Entre as faixas, acertos e mais acertos, comprovando que a mente do rapaz segue transbordando boas ideias. A música que dá nome ao disco abre os trabalhos com um rap de letra forte, seguida da ótima “Esquiva da Esgrima”, com um refrão grudento como um bom chiclete. Em “Cartão de Visita”, Criolo revisita trechos da entrevista siderada que deu ao ator Lázaro Ramos alguns meses atrás enquanto declama uma letra e uma interpretação irônicas que desembocam no refrão cantado por Tulipa Ruiz.

“Casa da Papelão” fala sobre o crack com uma sutileza instrumental arrepiante. Em contraste, “Fermento pra Massa”, que vem a seguir, é um samba agradável com uma das melhores letras do disco.

Assim como aconteceu em Nó na Orelha, onde algumas das melhores faixas estavam na parte final do álbum - “Sucrilhos”, “Lion Man” e “Linha de Frente” -, em Convoque Seu Buda também somos brindados com uma sequência final do mais alto nível. “Pegue pra Ela” é um afrobeat contagiante, enquanto a densa “Plano de Vôo - Síntese” é uma das mais belas canções já gravadas pelo rapper. A já conhecida - e excelente - “Duas de Cinco” vem na sequência e prepara o clima para o grande encerramento que “Fio de Prumo (Padê Onã)” proporciona, com participação fundamental da cantora Juçara Marçal. Outro acerto violento de Criolo.

Convoque Seu Buda faz juz à espera e é uma sequência apropriada para Nó na Orelha. Ainda que não tenha em seu tracklist hits em potencial como “Não Existe Amor em SP” e “Mariô”, possui um conjunto de faixas consistente e que eu, pessoalmente, gostei muito.

Kleber segue sendo um cara diferente. Criolo segue sendo Criolo. E Convoque Seu Buda é um dos melhores discos do ano.

Nota 9


Por Ricardo Seelig

6 de nov de 2014

Devaneios sonoros

quinta-feira, novembro 06, 2014
“The Motherload”, do Mastodon, apitava nos ouvidos. O fone transbordava os riffs, a batida, o vocal, pra todo mundo ouvir. E quem escutava aquilo instantaneamente parava, hipnotizado pela banda norte-americana. 

No limite entre o metal e o stoner, a faixa que veio a seguir manteve não apenas a qualidade lá em cima, mas, principalmente, a cabeça nas nuvens. É interessante, e não deixa de ser um pouco mágico, a maneira como os suecos do Witchcraft conduzem a sua música, principalmente as faixas que estão em Legend, de 2012. O vocal sem pressa de Magnus Pelander vai levando o ouvinte sempre na boa, sempre com classe, sempre por caminhos coloridos e que se abrem lentamente. “An Alternative to Freedom” é talvez o melhor exemplo desse poder mutante do grupo: sabbathiana mas ao mesmo tempo witchrafitiana até os ossos.

E então surge a avalanche. Ainda que Dave Holland tenha se perdido em seus próprios desejos e hoje cumpra pena por assediar menores de idade, sua bateria era uma das marcas registradas do Judas Priest. Não era a overdose percussiva de Scott Travis, e isso é um elogio. Era mais simples, menos pretenciosa, mais na linha do que a música da lendária banda britânica pedia. Ouça “Desert Plains”: tudo está ali.

Outro ponto é que, por mais que você viaje o mundo, rode o planeta e vá para tudo que é lugar, o Black Sabbath vai estar sempre junto de você. Pode não ser diretamente, mas ele estará ali, pode crer. Metamorfoseado, transformado, reinterpretado, atualizado por uma leva de músicos mais jovens. Como os norte-americanos do The Sword, que fizeram essa releitura com perfeição em Apocryphon, disco que lançaram em 2012. E, como cereja do bolo, colocaram algumas gotas de Thin Lizzy na mistura, resultando em maravilhas como “Arcane Montane”, onde o peso e a melodia soam como irmãos siameses. Daquelas músicas que você ouve e sempre irá voltar: pra recordar, pra sangrar, pra limpar a mente.

Como acontece comigo, com você e com o cara que está aí ao seu lado: nós três sempre pegamos o Vol. 4 e colocamos “Snowblind" pra pulsar. Eu sei disso, você sabe, ele também. Porque aquilo é como magia: não envelhece, não cheira a mofo - apesar de ser uma homenagem à habitante mais fiel das vias nasais do quarteto formado por Ozzy, Tony, Geezer e Bill.

E, como eu disse no parágrafo acima deste que está acima, você pode ir para os pontos mais distantes que imaginar e o Black Sabbath seguirá com você. E ele pode vir fantasiado em um quarteto de quatro gordinhos barbudos orgulhosamente gays que atendem pelo nome de Torche e fazem um som não menos que excelente e pesadíssimo. 

Ou então, mergulhando Europa adentro e penetrando nas trincheiras alemãs, após uma generosa caneca de cerveja você dá de cara com o Restless & Wild do Accept e sua espetacular faixa-título, onde o peso e a melodia - eles novamente, como sempre tem que ser - funcionam de maneira tão inesquecível que você nem se dá conta que o vocal é de um primo nem tão distante do Pato Donald.

Para então ser subitamente puxado por uma máquina do tempo sombria e apaixonante e ser largado no meio do Egito antigo, acompanhado apenas do seu celular e de um potente fone de ouvido. E, ao dar play, perceber que “Demigod" do Behemoth é a trilha perfeita para tomar várias ao pé das pirâmides enquanto imagina tropas de soldados se matando e se trucidando bem na sua frente.

E ela volta novamente e te leva mais para o passado ainda, vestindo seu corpo com uma armadura e te largando no meio da Inglaterra medieval enquanto “Triumph and Power” do Grand Magus esmaga seus tímpanos e os templários e toda a turma correm em sua direção, curiosos e hipnotizados por aqueles riffs marciais.

Mas eis que surge a mão de Max e o braço de Troy e te trazem de volta para a realidade, conduzindo as suas emoções através de “Wings of Feather and Wax”, faixa de abertura do disco do Killer Be Killed - onde, de novo e outra vez, a melodia e o peso são os protagonistas de outra canção não menos do que ótima.

E, assim, o texto chega ao fim - mas a música segue rolando, sempre.

Por Ricardo Seelig

Soen: crítica de Tellurian (2014)

quinta-feira, novembro 06, 2014
Formado em 2010 por Martin Lopez, ex-baterista do Opeth, o Soen tem a sua formação completada pelo baixista Stefan Stenberg (que assumiu o posto que no primeiro disco foi de Steve DiGiorgio), pelo guitarrista Kim Platbarzdis e pelo vocalista Joel Ekelöf. Sucessor da estreia Cognitive (2012), Tellurian acaba de ser lançado e deve agradar quem curtiu o primeiro disco.

A proposta segue a mesma: um metal fortemente progressivo, com fartos elementos progressivos e ingredientes de nomes como Tool, Leprous e Riverside, além do próprio Opeth. As canções são sempre sustentadas pela dupla baixo-bateria, com grooves e andamentos quebrados e inusitados. A guitarra transita por essa base, entregando riffs e links de muito bom gosto, enquanto o vocal aposta em um timbre limpo e agradável. E está aí um possível problema do trabalho, pois as canções parecem pedir uma voz mais agressiva e violenta a todo o momento- “Kuraman”, dona de um riff sensacional, ficaria muito mais forte com uma voz grave e sombria, pelo menos no meu ponto de vista.

Mas, é bem provável, esta seja uma percepção particular deste que vos escreve. As composições são criativas, apresentam ideias interessantes e variam entre trechos mais agitados e outros mais calmos. O termo “metal”, na verdade, é até discutível de ser aplicado ao Soen, já que a banda soa ainda mais leve e atmosférica do que em sua estreia. 

Sem a mínima pretensão mercadológica/comercial e não abrindo mão de suas convicções, o grupo gravou o segundo capítulo de sua história focado estritamente no quesito artístico, indo mais fundo na estética apresentada em sua estreia e alcançando resultados tão bons ou ainda melhores que o disco anterior.

Tellurian é um álbum bastante interessante, daqueles que chegam pra fazer companhia ao ouvinte durante anos. 

Ouça, vale - e muito!

Nota 8,5


Por Ricardo Seelig

Discografia Comentada: Stone Sour

quinta-feira, novembro 06, 2014
Poucos sabem, mas o Stone Sour surgiu antes do Slipknot. A banda foi formada em 1992 em Des Moines, no Iowa (mesma cidade natal dos mascarados), pelo vocalista Corey Taylor e pelo baterista Joel Ekman. Porém, foi apenas após o estouro mundial do Slipknot - banda que Taylor também canta e que veio ao mundo três anos depois, em 1995 - que o grupo despertou o interesse de uma grande gravadora e começou a gravar os seus discos.

Executando um som menos agressivo que o Slipknot e trocando as influências de metal extremo do grupo por elementos do hard rock e metal clássicos, o Stone Sour cresceu consideravelmente nos últimos anos, consolidando-se como banda e tornando-se cada vez maior em todo o planeta.

São apenas cinco discos lançados, mas que mostram uma evolução e desenvolvimento inegáveis, que impressionam o ouvinte. Para você que quer saber mais sobre o grupo, preparamos uma Discografia Comentada que analisa cada um dos álbuns gravados pela banda.

Stone Sour (2002)

Lançado em 27 de agosto de 2002, a estreia do Stone Sour apresenta uma sonoridade que, apesar de algumas tentativas de encontrar personalidade própria, soa ainda bastante similar à música do Slipknot. Com Corey Taylor, Jim Root (guitarra, outro da gangue dos mascarados), Josh Rand (guitarra), Shawn Economaki (baixo) e Joel Ekman (bateria), o disco foi produzido por Tom Tatman e pela própria banda e recebeu reviews em geral positivos, apesar de a maioria destas críticas evidenciar a similaridade com o Slipknot - que no ano anterior havia colocado no mercado o seu trabalho mais pesado, Iowa. Há doses gritantes de melodia e Taylor alterna entre o seu conhecido vocal gutural e o belo timbre limpo de sua voz, alcançando bons resultados em músicas como “Choose” e “Bother”. O disco rendeu três singles ‘“Get Inside”, “Bother” e “Inhale” -, sendo que dois deles foram indicados ao Grammy de Melhor Performance de Metal - “Get Inside” na edição de 2003 do prêmio e “Inhale” em 2004. Uma estreia interessante, um bom álbum, mas inferior ao que a banda produziria nos anos seguintes. (Nota 7)

Come What(ever) May (2006)

Após quatro anos de silêncio, o Stone Sour retornou em 2006 com Come What(ever) May, o disco que mostrou que a banda de Corey Taylor e Jim Root era viável comercialmente e poderia andar com as próprias pernas. Encaixado entre o terceiro e o quarto álbuns do Slipknot - Vol. 3: (The Subliminal Verses) (2004) e All Hope is Gone (2008) -, o trabalho mostrou uma sonoridade forte que não apenas conquistou inúmeros fãs como também respingou em sua banda irmã - “Dead Memories”, de All Hope is Gone, não soaria descolada se estivesse presente aqui. Em Come What(ever) May ocorreu a primeiro alteração no line-up, com a chegada de Roy Mayorga (ex-Soulfly) para o posto de Ekman. Músico mais experiente, completo e criativo que seu antecessor, Roy acrescentou muito ao Stone Sour, e isso é bastante perceptível ao compararmos este álbum com o debut. A presença do produtor Nick Raskulinecz também contribuiu bastante para o resultado final, que apresentava um hard rock com riffs cativantes, andamentos cheios de groove e refrãos fortes. A mistura deu certo e caiu no gosto do público, levando o disco ao quarto posto na Billboard e à primeira colocação nos charts de rock norte-americanos. Puxado por bons singles como “30/30-150” e “Made of Scars”, além das baladas “Sillyworld”, “Xzyzx Rd.” e “Through Glass” (primeiro grande sucesso da banda), Come What(ever) May foi o nascimento da sonoridade que o grupo iria desenvolver com resultados ainda melhores nos anos seguintes. (Nota 8)

Audio Secrecy (2010)

Este foi o primeiro disco lançado por Taylor e Root após a morte do baixista Paul Gray, companheiro de ambos no Slipknot,que faleceu no dia 24 de maio de 2010. O terceiro álbum do Stone Sour foi dedicado à memória de Gray e chegou às lojas em 7 de setembro de 2010. Repetindo a formação de Come What(ever) May e mantendo Nick Raskulinecz na produção, Audio Secrecy soa mais melodioso que o disco anterior e alcançou a sexta posição da Billboard e o segundo posto nos charts dedicados ao rock. É o disco mais leve da banda, fato evidenciado em seu principal single, “Say You’ll Haunt Me”, e em baladas como “Dying”, “Hesitate”, “Imperfect” e “Anna”. O apelo exageradamente radio friendly torna o álbum insipiente em alguns momentos, fazendo-o soar longo e cansativo. Quatro singles foram lançados - “Mission Statement”, “Digital (Did You Tell)”, “Say You’ll Haunt Me” e “Hesitate”. O crítico Lenny Vowels definiu bem o sentimento em relação a Audio Secrecy: “O disco anseia novas alturas, mas por algum motivo não consegue alcançá-las. O clima é definitivamente mais sombrio que os dois anteriores, mas isso não significa que seja melhor. Basicamente, as faixas boas são realmente boas, mas a grande maioria não tem nada de especial para a história da banda”. Assino embaixo (Nota 6,5)

House of Gold & Bones - Part 1 (2012)

Concebido como dois discos separados, o projeto House of Gold & Bones foi descrito por Corey Taylor como uma mistura de The Wall, do Pink Floyd, com Dirt, do Alice in Chains. Pode-se discutir se a banda alcançou o resultado pretendido, mas o que está acima disso é a qualidade inegável do trabalho. A primeira parte de House of Gold & Bones, lançada em 22 de outubro de 2012, é o ápice do Stone Sour até o momento. Com faixas fortes e muito bem escritas, o disco trouxe a banda adornando o seu já característico hard rock com doses muito bem encaixadas de heavy metal. O grande destaque dado às guitarras, seja nos riffs, solos ou nas sempre agradáveis melodias gêmeas, é um dos ingredientes que exala essa força. A outra é Corey Taylor. Cantando como nunca, o vocalista alcançou neste quarto disco a melhor performance individual de sua carreira - incluindo aí os álbuns gravados com o Slipknot. Há duas mudanças significativas em House of Gold & Bones - Part 1. A primeira é a troca de produtor, com David Bottrill assumindo os comandos e deixando o som mais cheio e grave, com timbres excelentes. E a segunda foi a saída do baixista Shawn Economaki, substituído em estúdio pelo veterano Rachel Bolan, do Skid Row. Funcionando de maneira perfeita como banda, o Stone Sour gravou um disco que mais parece um greatest hits, tamanha a qualidade de suas composições. Um trabalho ambicioso, versátil e agradável, House of Gold & Bones - Part 1 rendeu dois singles - “Gone Sovereign” e “Absolute Zero” - e voou alto nas paradas, ficando na primeira posição no Hard Rock Chart e na sexta no Billboard 200. A qualidade do álbum, somada ao silêncio do Slipknot (cujo último CD, All Hope is Gone, saiu em 2008), provou com solidez que o Stone Sour era muito mais do que um projeto, consolidando o grupo como um dos grandes nomes do hard rock e metal atuais. Se você nunca ouviu a banda, House of Gold & Bones - Part 1 é a porta de entrada perfeita. (nota 9,5)

House of Gold & Bones - Part 2 (2013)

Lançado em 9 de abril de 2013, o quinto álbum do Stone Sour e também a segunda parte do projeto House of Gold & Bones soa mais sombrio que o disco de 2012. Isso fica claro logo na faixa de abertura, a densa “Red City”, cujo arranjo se desenvolve a partir de acordes de piano e a voz de Taylor. Produzido novamente por David Bottrill e mais uma vez com Rachel Bolan no baixo, o álbum mantém a qualidade no alto, com doze faixas fortes e consistentes. O caminho sonoro é o mesmo, porém, como já dito, com uma sonoridade um pouco mais soturna, contraste esse evidenciado nas capas de ambos os discos. O trabalho alcançou a nona posição no Billboard 200 e liderou as paradas no Canadá, Hungria e Japão, sucesso esse puxado pelo single “Do Me a Favor”. Entre as faixas, pedradas como “Black John”, “Gravesend”, “Stalemate” e “House of Gold & Bones”, além de “The Uncanny Valley” e da arrepiante “The Conflagration”. Os arranjos são um dos grandes destaques, com evidente cuidado na construção de composições polidas e sem exageros. Ligeiramente inferior à primeira parte, mas mesmo assim um excelente disco. (nota 8,5)

Por Ricardo Seelig

Machine Head, o novo gigante

quinta-feira, novembro 06, 2014
O topo do heavy metal é pouco propício a mudanças. Lá nas alturas, nas nuvens, acima de todos nós, estão há décadas as mesmas bandas: Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Judas Priest, Iron Maiden e Metallica. Por mais que um novo grupo lance discos excelentes e conquiste cada vez mais o público, é muito difícil alcançar o status que esses cinco possuem.

É claro que existem diversas razões para esse reconhecimento. O Black Sabbath inventou o metal. Ozzy Osbourne, seu ex-vocalista, estourou nos Estados Unidos e se tornou maior que a banda ao lançar a sua carreira solo, durante a década de 80. Mais recentemente, com a série The Osbournes, deixou de ser visto somente como um cantor e se transformou em uma figura da cultura pop, chegando na casa de milhões de pessoas que nunca sequer haviam escutado os seus discos. 

O Judas Priest formatou o heavy metal como o conhecemos hoje em dia, afastando-o das raízes blues, acentuando o peso e acrescentando generosas doses de melodia na receita. Além disso, popularizou o uso do couro com tanhinas de metal, figurino esse inspirado no universo gay sadomasoquista, como ficou claro anos mais tarde, quando Rob Halford finalmente saiu do armário.

O Iron Maiden, alimentado pelo talento e pela disputa interna entre os geniais Steve Harris e Bruce Dickinson, elevou o metal ao status de arte com uma sequência assombrosa de álbuns. 

E o Metallica, ao unir a melodia e as influências neoclássicas da New Wave of British Heavy Metal – cena da qual o Iron Maiden era o principal nome – com a agressividade e urgência de bandas que flertavam abertamente com o punk – como o Motörhead – fez surgir o thrash, influenciando profundamente milhares de grupos e sendo responsável, ao lado do Slayer, pelo nascimento de uma sonoridade cada vez mais extrema, evidenciada em estilos como o death e o black metal. Além disso, o Metallica, uma banda inquieta por natureza, reinventou completamente o seu som no Black Album (1991), disco que teve uma aceitação comercial espetacular e transformou o grupo, em números absolutos, no maior nome da história do heavy metal.

O único nome que mostrou potencial para figurar ao lado desses gigantes foi o Pantera. O impacto do quarteto formado por Phil Anselmo, Dimebag Darrell, Rex Brown e Vinnie Paul na música pesada dos anos noventa é evidente e ainda pode ser sentido. Com álbuns excepcionais como Cowboys From Hell (1990), Vulgar Display of Power (1992) e Far Beyond Driven (1994), a banda reinventou o metal inserindo generosas doses de groove na mistura, resultando em um som que sacudiu, literalmente, a cena. Conflitos internos causados, principalmente, pela personalidade complexa e pelo comportamento errático de Anselmo, levaram à separação. O assassinato de Dimebag por um fã em pleno palco em 8 de dezembro de 2004 acabou com qualquer esperança de retorno.

Todas essas bandas têm como ponto em comum a presença de pelo menos um músico genial em suas fileiras, que puxou para si o controle e a responsabilidade pelo direcionamento musical seguido pelos demais. Tony Iommi era o maestro do Black Sabbath. Ozzy transborda carisma. A dupla K.K. Downing e Glenn Tipton elevou o trabalho da guitarra a um nível inédito no Judas Priest. A voz aguda de Rob Halford influenciou gerações. As composições de Steve Harris transformaram o Iron Maiden em uma lenda. A presença de palco, a voz e a interpretação teatral de Bruce Dickinson servem de parâmetro, até hoje, para qualquer vocalista de metal. Os riffs e as composições de James Hetfield dividiram a evolução do metal entre antes e depois do seu surgimento. E a guitarra sempre surpreendente de Dimebag transformou o Pantera em uma banda milhas a frente de tudo o que havia na época.


Pois bem. Algo similar a isso está acontecendo novamente, bem diante dos nossos olhos. O responsável por isso é Robb Flynn, vocalista, guitarrista e líder do grupo norte-americano Machine Head. No heavy metal atual, não existe nada igual à banda. Antes que os fãs do Mastodon se pronunciem, devo dizer que o trabalho do grupo também é interessantíssimo, porém explora caminhos sonoros que tem como principal característica alargar os limites do metal, usando para isso, principalmente, a total liberdade criativa que sempre marcou o rock progressivo. Já em relação ao Machine Head, a revolução se dá nas entranhas do heavy metal, retrabalhando os seus principais elementos de tal maneira que, ao emergir, traz consigo um som totalmente novo. É como se o Mastodon fosse as pernas e o Machine Head o coração dessa mudança. A diferença é que, enquanto o som do Mastodon exige um envolvimento maior do ouvinte para ser compreendido – e quando isso acontece o impacto sobre o ouvinte é acachapante -, isso não ocorre com o Machine Head. A força da música da banda de Robb Flynn é imediata e não dá opção para o ouvinte respirar.

Ao dar play em Unto the Locust, novo álbum do Machine Head, percebe-se instantaneamente que estamos ouvindo algo especial. A voz à capella de Robb Flynn introduz o clima sinistro de “I Am Hell”, que se desenvolve através de atordoantes riffs agressivos que culminam em uma belíssima passagem de guitarras gêmeas. Preste atenção como o riff extremamente grave que sustenta a canção até os dois minutos é tipicamente Hetfield e saiu direto do núcleo do Metallica.

Um dos pontos fortes de Unto the Locust são as belíssimas linhas vocais, que se desenvolvem em camadas crescentes, em uma espécie de emoção contínua que vai crescendo até atingir o seu ápice nos refrãos. A construção dessas linhas vocais é um exemplo perfeito do nível quase sobrenatural em que a banda está trabalhando agora. A inspiração ecoa, fazendo com que tudo brilhe como uma luz ofuscante, puxando todas as ideias para cima, para o alto, para o infinito e além.


Acredito que o heavy metal, como gênero, possui entre as suas principais qualidades a tradução quase literal das emoções mais básicas do ser humano. Em Unto the Locust isso fica claro como poucas vezes já ficou. As sete canções do disco são jornadas intensas e profundas ao interior de cada um de nós. O mergulho a que somos submetidos revela descobertas atordoantes de maneira sucessiva, e o resultado disso é que a audição do álbum se transforma em algo muito maior do que o ato de ouvir um disco. A sensação que essas músicas transmitem ultrapassa o simples entretenimento, a simples fuga, a simples diversão que, normalmente, buscamos ao colocar um CD para tocar. Unto the Locust é capaz de abrir novas dimensões, agindo de dentro para fora do ouvinte.

Na minha percepção, não existe um gênero musical mais apaixonante que o heavy metal. O poder que ele tem de arrancar o ouvinte de seu estado atual, de cooptá-lo imediatamente e sem deixar outra alternativa, é único. E isso se dá através de álbuns marcantes, que conseguem ir além do que, no final das contas, até os seus criadores imaginavam. A música sempre teve vida própria, desenvolvendo-se, muitas vezes, praticamente sozinha a partir do ponto inicial dado pelo instrumentista. O próprio Flynn reconheceu isso em entrevista, ao afirmar que após ouvir “This is the End”, a primeira canção finalizada de Unto the Locust, percebeu o nível altíssimo em que a banda estava atuando.

Esse poder é transmitido, literalmente, dos músicos para o ouvinte em Unto the Locust. Não há intermediários. Não há intervalos. Não há desvios. O disco funciona como uma força da natureza com vida própria, uma espécie de entidade poderosa que age direto no coração de quem o escuta. E, ao fazer isso, atordoa o ouvinte de tal maneira que, ao seu final, a sensação é física, com o corpo retesando, relaxando e sentindo as dinâmicas das canções.


A evolução do Machine Head é espantosa. De banda relativamente comum e com um ou outro atrativo, o grupo se transformou em protagonista de uma das evoluções mais intensas do heavy metal a partir do ótimo The Blackening, lançado em 2007. Porém, Unto the Locust consegue ir além, em um trabalho extraordinário que não encontra paralelo no metal atual. Quem ousaria gravar uma canção como “Darkness Within”, por exemplo, que começa somente com Flynn cantando a letra ao violão, numa espécie de Bob Dylan contemporâneo, para instantes depois desembocar em uma amálgama de thrash com hard rock que leva o ouvinte direto ao Black Album? – sim, novamente o Metallica. E o que dizer de “Who We Are”, faixa que encerro o disco? O coro de crianças cantando o refrão é arrepiante, em uma melodia ao mesmo tempo simples e macabra, que fica ainda mais maléfica ao contrastar com as inocentes vozes infantis.

A minha jornada como fã de música já me levou a diversos lugares. Tive contato e me apaixonei por diversos sons e artistas ao longo da vida. Beatles, Led Zeppelin, Wilco, Coldplay, Miles Davis, são elementos que me formaram e continuam influenciando a minha maneira de ouvir música. Porém, o meu porto seguro sempre foi o heavy metal. Foi ele que trouxe para o meu cotidiano o Black Sabbath, o Iron Maiden, o Metallica e mais um monte de outras bandas que estão incrustadas em meus poros. Porém, o que eu senti ao ouvir The Blackening lá em 2007 – e que me fez escrever isso sobre o disco - foi incrivelmente amplificado com Unto the Locust. Esse álbum tem a capacidade de reafirmar, com todas as letras, o quanto o heavy metal é único, belo e apaixonante.

Desde o surgimento do Pantera o metal não era abençoado com algo tão incrível como o Machine Head. Com o seu novo trabalho, a banda escreve o seu nome como principal pretendente ao Olimpo do gênero, ao lado dos citados Black Sabbath, Ozzy, Judas Priest, Iron Maiden e Metallica.

Nasceu um novo gigante, e o seu nome é Machine Head!

Por Ricardo Seelig

(texto publicado originalmente em outubro de 2011)

5 de nov de 2014

Veredito Collectors Room: Slipknot - .5: The Gray Chapter (2014)

quarta-feira, novembro 05, 2014
Uma das grandes bandas da história do metal, o Slipknot saiu do silêncio com .5: The Gray Chapter, seu quinto álbum, lançado no último dia 17 de outubro. Muito bem recebido pela crítica (nota 8 na Metal Hammer, 8,5 no Blabbermouth, 4,5 de 5 na Revolver, 4 de 5 no The Guardian), o disco foi também bem aceito pelos fãs.

Retomando o Veredito Collectors Room, analisamos de forma coletiva o trabalho. Participaram da avaliação Ricardo Seelig, Rodrigo Carvalho e o nosso convidado especial Pedro Neto, diretor de arte, guitarrista e fã do grupo.


Leia as análises abaixo, e conte pra gente o que achou desse retorno do Slipknot nos comentários.


Considerando o caos absoluto no qual o Slipknot esteve encarcerado nos últimos anos, marcado para sempre pela perda de não apenas uma, mas duas de suas partes essenciais, o título de seu novo álbum, .5: The Gray Chapter, soa estranho e perfeitamente apropriado. Não apenas referenciando seu baixista, ao mesmo tempo em que a escuridão recente permanece com um peso opressivo em cada nota ou sílaba vomitada, o trabalho é a luz no fim de um corredor torturante e interminável. Talvez esse conjunto complexo de sentimentos proporcione uma obra violenta, crua, instintiva, mas que também ainda parece desorientada, perdida e vagando por seu próprio caminho em rotas já trilhadas anteriormente em Iowa e Vol. 3. Este capítulo cinza é a primeira costura de uma ferida ainda aberta e sangrando, prestes a infeccionar. Resta saber se esta será a força que irá manter o Slipknot no topo do heavy metal, ou se será a gangrena que o definhará e o derrubará de lá. Nota 8,5 (Rodrigo Carvalho)

Há muito tempo não dava atenção às novidades do Slipknot. Quando mais novo, era o que tocava sempre nos meus fones. Se me recordo bem, a última música que tinha escutado foi “Psychosocial". A volta às raízes do que sempre ouvi veio após o show deles no Rock in Rio. Que show! O arrependimento de não ter ido pegou forte… Aí fiquei sabendo da saída do baterista Joey Jordison e novamente perdi um pouco de gosto pela banda. Até ouvir o novo trabalho deles, .5: The Gray ChapterO álbum mostra aos fãs da banda que eles ainda sabem fazer um som de qualidade e, quase em sua totalidade, não deixa a desejar. O disco começa com a atmosférica "XIX" que dá o clima do CD. Com riffs que lembram bastante Iowa, junto a traços do thrash/death metal e industrial, seguimos com "Sarcastrophe". Ali já sabia que a banda que tanto ouvi estava de volta. Fills de bateria sensacionais, com o som marcante da percussão do Chris Fehn. Devo acrescentar que o novo baterista, Jay Weinberg (ex-Against Me!), conseguiu manter elevado o grau técnico das linhas de bateria. "AOV", é pra mim, uma das melhores do álbum. Os riffs puramente thrash, com um refrão melódico bem executado e um interlúdio que retorna a atmosfera de "XIX", é um soco no peito. Esta deveria ter sido o primeiro single de trabalho ao invés de "The Devil In I”, que por sua vez é pesada, mas tem uma pegada Stone Sour que não me agrada. Inclusive, este é um dos pontos negativos do CD. Em algumas faixas como "Killpop" e "Goodbye" as bandas se misturam. O highlight do álbum pra mim fica por conta de "Custer". O riff é animal, agressivo, matador. Os vocais de Corey Taylor dão ainda mais agressividade enquanto ele grita cada frase. Isso sem contar o refrão, que é extremamente percussivo e quebrado. Dá vontade de levantar da cadeira e moshar por aí. .5: The Gray Chapter é um álbum com a sonoridade clássica do Slipknot. Vale a pena o play em alto e bom som. Nota 8 (Pedro Neto)

Ainda que cometa alguns delizes ao se aproximar demais da sonoridade do Stone Sour em canções como “Killpop" e “Goodbye”, o novo disco do Slipknot faz juz à expectativa e proporciona ao ouvinte ótimos momentos de pancadaria e violência sonora. Soando como uma espécie de união entre Iowa e The Subliminal Verses, o álbum traz canções fortes e que possuem a cada vez mais rara qualidade de cativar de imediato o ouvinte. É o caso de “AOV”, “Sarcastrophe”, “Custer" e “Be Prepared for Hell”. Mantendo a qualidade lá em cima, o Slipknot mostra um amadurecimento coerente com a sua história e sonoridade, intensificada pelos momentos traumáticos e marcantes vividos pela banda nos últimos anos: a morte do baixista Paul Gray e a exclusão do baterista Joey Jordison. Recomendo! Nota 8,5 (Ricardo Seelig)

Nosso veredito é 8,33


Leia a análise faixa a faixa do novo álbum do Machine Head feita pela Metal Hammer

quarta-feira, novembro 05, 2014
O aguardado sucessor de Unto the Locust está chegando às lojas, animando nossos ouvidos e nos fazendo sorrir como crianças em idade escolar. Por isso, preparamos uma análise faixa a faixa de Bloodstone & Diamonds para ajudá-lo a decifrar o novo disco de Rob Flynn e companhia.

Now We Die

A menos que você viva em uma caverna isolada e sem eletricidade na Sibéria e possua um gosto musical discutível, já colocou os ouvidos nessa faixa de abertura estrondosa. Sete minutos de Machine Head puro, nobre e aventureiro, um clássico instantâneo que já soa atemporal e emocionante como “Davidian”, “Imperium" e “Clenching the Fist of Dissent”. O metal moderno raras vezes soou mais poderoso e distinto do que em “Now We Die”.

Killers & Kings

A primeira música revelada de Bloodstone & Diamonds, ainda que no formato demo, “Killers & Kings” foi tocada nos shows que o Machine Head realizou recentemente na Inglaterra e foi saudada como uma velha amiga pelo público. Quem mais seria capaz de canalizar a ferocidade e a força de clássicos do thrash de uma forma tão eficaz? A resposta é ninguém , e vem em forma de harmonia, melodia e brutalidade perfeitas.

Ghosts Will Haunt My Bones

Uma das maiores qualidades do Machine Head é a capacidade de manter níveis obscenos de peso enquanto tece grandes quantidades de sutilezas e texturas em suas canções. “Ghosts Will Haunt My Bones” é um exemplo sublime desta habilidade, com versos melancólicos, crescendos monumentais e um coro que exige de imediato a participação do público. São seis minutos de duração, mas parece ser metade disso. Excelente.

Night of Long Knives

Se você vai cantar sobre Charles Manson e seu legado assassino, é melhor fazer algo feio e violento. Felizmente, o Machine Head faz isso muito melhor do que a maioria e “Night of Long Knives” contém, indiscutivelmente, os sete minutos mais grotescos e escabrosos da carreira da banda até o momento. Há uma abundância de thrash em alta velocidade aqui, mas também grooves enormes e uma performance vocal de Robb Flynn que soa como se ele estivesse cuspindo sangue e dentes aos pedaços pelo microfone.

Sail Into the Black

O maior épico e também o momento mais emocionante do disco. A faixa começa com um coro sinistro de tons graves ressonantes, na linha dos cantos dos monges budistas, antes de se transformar em uma tempestade de neve em câmera lenta, repleta de backing vocals que mais parecem corais e uma mudança de andamento de arrepiar no meio. É difícil imaginar qualquer outra banda tentando fazer algo como isso, e muito menos com tamanha arrogância.

Eyes of the Dead

Outro emocionante momento de peso e fúria speed metal, “Eyes of the Dead” soa como outra faixa que se transformará em uma das favoritas ao vivo, até porque suas inúmeras mudanças de ritmo e fluxo funcionam de maneira sublime. O vocal irritado e convincente de Flynn é a cereja do bolo.

Beneath the Silt

Jesus, que riff!!! Vista um colar cervical e deixe a sua barba crescer o máximo possível! O Machine head nunca havia bebido diretamente na fonte do grande Black Sabbath antes, mas o riff de abertura de “Beneath the Silt” bate a grande maioria das bandas de stoner e doom. O que se segue é uma introdução avassaladora, com versos profundamente sinistros se transformando em pontes furiosas e um refrão brutalmente infeccioso, que faz o ebola parecer apenas uma leva fungada.

In Comes the Flood

Uma das piores coisas do metal moderno é a falta de bandas com algo significativo para dizer. O Machine Head nunca foi vítima disso, e em “In Comes the Flood” proclama orgulhosamente a sua recusa em soltar seus corações e cérebros. Um manifesto contra uma realidade rasa, agarrada ao dinheiro, com letra inteligente, sincera e incisiva, grande performance de toda a banda e repleta de orquestrações e peso que conspiram para fazer a coisa toda soar esmagadoramente potente.

Damage Inside

Um momento sombrio, atmosférico e amorfo de trégua entre “In Comes the Flood” e o esmagamento que virá a seguir, “Damage Inside” mostra uma semelhança com o mau humor de ex-viciado presente em The Burning Red - e, deve ser dito, a cura pela desintegração, que Flynn tem elogiado em várias ocasiões. Uma faixa breve mas com grande impacto, uma introdução perfeita para a faixa seguinte.

Game Over

Meu deus! O Machine Head pode não ser capaz de falar publicamente sobre as consequências da saída de Adam Duce, mas não existem tabus na letra de “Game Over”. Sobre riffs serrilhados e um dos refrãos mais fortes já gravados pela banda, Flynn derrama desprezo e sarcasmo em seu ex-colega e deixa totalmente claro que tratava-se de uma divisão que ele próprio cortou até o âmago. Mesmo sem a letra, seria um clássico banhado a ferro. Tente ouvir sem quebrar alguma coisa. Aposto que você não irá conseguir.

Imaginal Cells

Uma faixa instrumental maravilhosamente sutil e intrincada, coberta por um diálogo fascinante que, imaginamos, foi retirada dos filmes Zeitgeist da internet que Robb Flynn citou como fontes de inspiração para as faixas de Bloodstone & Diamonds. Aqui mais uma vez vemos o desinteresse do Machine Head em favorecer os gostos estreitos e limitados da geração metalcore. Essencial para o fluxo do disco como qualquer outra faixa, é a preparação cintilante para o grande final.

Take Me Through the Fire

Uma canção de ritmo médio que traz para Bloodstone & Diamonds um fim adequado e substancial, “Take Me Though the Fire” é outra faixa feita para agradar o público, com riffs atraentes e momentos de força melódica que não são encontrados na maioria dos discos (e nas próprias carreiras) de um grande número de bandas. Há também um trecho pra lá de emocionante no meio da faixa, onde toda a banda ataca com riffs voando de um lado para o outro e prováveis danos permanentes ao pescoço dos ouvintes. Tal como tudo que compõe este álbum extraordinário, soa como o Machine Head e só como o Machine Head. E ninguém chega, mesmo que remotamente, perto.

(Tradução de Ricardo Seelig)

4 de nov de 2014

26 Bandas para o Matias: L de Led Zeppelin

terça-feira, novembro 04, 2014
Tenho uma teoria: se você precisar explicar para um ouvinte de rock a importância e a qualidade do Led Zeppelin, essa pessoa não é um bom ouvinte. Tudo que ela escutou nos seus 5, 10, 15, 20 anos como fã do estilo, entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Não lembro a primeira vez em que ouvi a banda de Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e John Bonham. O que recordo é que sabia a letra de “Stairway to Heaven” do início ao fim na minha adolescência, ao ponto de recitá-la e transcrevê-la a todo instante. 

Mas o momento em que o Led Zeppelin bateu forte e alterou a minha vida completamente aconteceu em uma noite fria de inverno. Estava reunido com uma turma de amigos na casa de um deles, um bando de adolescentes sozinhos bebendo e discutindo assuntos improváveis quando o nome do grupo surgiu. E um desses brothers, como que revelando um segredo e dando a chave das portas da percepção, sussurrou no meio da sala: vocês precisam ouvir é o disco das janelinhas.

O disco das janelinhas. Também conhecido como o mais completo álbum de rock já gravado. O melhor disco do mundo. Mas, se você preferir, pode chamar apenas de Physical Graffiti, não tem problema. De “Custard Pie” a “Sick Again”, quinze faixas que desafiam rótulos e definições. E, lá no meio, as jóias da coroa: “The Rover”, “In My Time of Dying”, “Kashmir”, “In the Light” e “Ten Years Gone”. A primeira é um desfile de riffs, uma construção evolutiva repleta de peso e que pode ser classificada como uma das mais perfeitas definições do que é o hard rock e o heavy metal. A segunda é um estrondo emotivo, uma explosão sonora, um chute no peito. As guitarras em camadas no solo, o pontapé proporcionado pela bateria de Bonzo. “In My Time of Dying” é até hoje uma das canções mais impressionantes que os meus ouvidos já tiveram contato - e olha que eles passaram por muitos caminhos. “Kashmir" é o encontro do oriente com o ocidente, com um arranjo simplesmente genial. “In the Light” é espiritual, transcedental, linda e arrepiante. E “Ten Years Gone” traz Jimmy Page em uma sinfonia de guitarras, como uma compositor do século XVIII reencarnado na Londres setentista. Um Mozart chapado, e sempre genial.

E o Led Zeppelin seguiu, ano após ano, sempre ao meu lado. E a cada novo ano, soando diferente. A maturidade, o crescimento e as novas experiências me fizeram ouvir suas músicas sempre com uma percepção diferente. A cada época, a mesma canção soava distinta, revelando detalhes e significados que antes haviam passado despercebidos. 

A banda cresceu e tomou contato do meu DNA. Até o ponto de afirmar, sem medo e exagero, que trata-se do grupo de rock mais importante da minha vida, responsável não apenas por me definir como ouvinte, mas pelo desenvolvimento e curiosidade constantes que mantenho sobre o gênero e sobre a música como um todo.

Com o Matias, o Led Zeppelin também já tem uma história. Meu filho já conhece a banda, já assistiu aos vídeos, já ouviu os discos. Já elaborou, inclusive, raciocínios sobre o quarteto, como certa vez quando, ao escutar uma versão ao vivo de “Stairway to Heaven”, soltou o comentário: “esse guitarrista é bom hein, papai, a música dele evolui”.

Não sei se o Led Zeppelin terá sobre o Matias a mesma influência que teve sobre a mim. Música é uma experiência pessoal que envolve não apenas os sons, mas lembranças, sentimentos, significados. Mas o que eu sei é que, se continuar com o ouvido apurado que vem demonstrando, não precisarei explicar para o meu filho a importância do trabalho de Page, Plant, Jones e Bonham. Ele descubrirá sozinho.


Por Ricardo Seelig

Discografia Comentada: Slayer

terça-feira, novembro 04, 2014
Para além de sucesso, reconhecimento e popularidade, há um predicado muito mais importante no mundo da música e que poucas bandas angariaram tanto quanto o Slayer: respeito. Os motivos são vários, a começar pela identidade ímpar desenvolvida ao longo do tempo e que gerou discografia praticamente imaculada. Neste post, mergulhamos de cabeça na obra desses californianos justamente para dissecar cada um dos dez álbuns de estúdio lançados em 30 anos de carreira, bem como os registros ao vivo e o inusitado disco de releituras.

Uma análise de cada ato do cofundador do thrash metal ao lado do Metallica. De um dos pilares do que viria a ser o death e o black metal. Do elo entre metal e punk/hardcore em uma época em que os dois gêneros eram equivocadamente vistos de forma dissociada. Em suma, de uma banda que atingiu níveis de agressividade até então impensáveis na música. E que novamente desembarca no Brasil, desta vez para tocar no último dia de shows da quinta edição do Rock in Rio, neste domingo, ao lado do Iron Maiden. Confira!


Show No Mercy (1983)
Se em julho de 1983 o Metallica lançou Kill 'Em All e criou o thrash metal, cinco meses depois, em dezembro, o Slayer mostrou que o recém-nascido gênero não tinha limites. Para ultrapassar as fronteiras do inferno, Jeff Hanneman, Tom Araya, Kerry King e Dave Lombardo catapultaram a sonoridade thrash, agressiva por si só, a um outro patamar. Para tanto, fundiram a influência natural de Iron Maiden e Judas Priest ao peso e velocidade absorvidos do Venom, precursor de tudo que é thrash, death ou black metal. A aura e a estética satânica/anticristã vieram do Mercyful Fate. Logo, Show No Mercy é um disco de NWOBHM, só que potencializado pela raiva de espírito descomunal desses quatro californianos de Huntington Park, Los Angeles. O resultado é um thrash metal distinto e mais insolente do que tudo que se tinha notícia até então. Ainda que de forma tímida, já era possível notar também nuances da pegada punk/hardcore oriunda do gosto pessoal de Jeff Hanneman e que viria a ser mais explorada posteriormente. Em cerca de 35 minutos, o Slayer deixou claro que tomar de assalto o cenário subterrâneo do metal seria apenas questão de tempo. Na época, Show No Mercy foi o álbum mais vendido da Metal Blade, que acabara de ser fundada por Brian Slagel.

Destaques obrigatórios: "Black Magic", "Evil Has No Boundaries", "The Antichrist", "Die By The Sword" e "Crionics"

Nota: 9,5


Hell Awaits (1985)

Com Show No Mercy, o Slayer ajudou a criar o thrash metal. Com Hell Awaits, pavimentou o death metal. Basta ouvir as sete singelas canções que compõem o disco para entender onde praticamente todas as bandas da cena da Flórida foram buscar inspiração. De Death à Morbid Angel, passando por Deicide. Dos ícones aos expoentes mais obscuros. Difícil achar um que fuja à regra. Apenas dois anos separam os dois trabalhos, mas o curto tempo foi suficiente para que todos os integrantes agregassem novos elementos ao som do Slayer. Em especial, Jeff Hanneman e Kerry King. Os riffs são mais elaborados e intrincados. A influência da NWOBHM é bem menos latente e dá lugar a uma violência sonora um pouco diferente. Mais madura, mas ainda urgente e incisiva. E o jogo já começa ganho. Tudo porque "Hell Awaits", faixa homônima ao álbum, consegue ser, ao mesmo tempo, a introdução e o clímax do play. Simplesmente a melhor intro da história do metal, com a progressão perfeita entre guitarra, baixo e bateria. Uma espécie de "Smoke on the Water" death/thrash e sem teclado, só que logo no início da bolacha. Um convite irrecusável a uma experiência que só a música pode proporcionar: a sensação de sentir a veia fervendo por dentro.

Destaques obrigatórios
: "Hell Awaits", "At Dawn They Sleep" e "Kill Again"


Nota: 9,5


Reign in Blood (1986)
Simplesmente o auge. Do Slayer, do thrash metal e da música extrema. Nada se compara a Reign in Blood. O único parâmetro possível de ser estabelecido é a divisão entre o que veio antes e o que veio depois desse álbum, lançado em outubro de 1986 e que alterou por completo todas as bases do que se entende por peso, agressividade, velocidade e precisão. Jamais um disco havia sido tão intenso. Passados 27 anos, isso ainda continua valendo. Nenhum vocal gutural ou blast beat mais rápido que ejaculação precoce conseguiu chegar perto da sonoridade animalesca que sai do aparelho ao se colocar Reign in Blood para rodar. Um coquetel molotov de riffs perfeitos, distribuindo insultos e personificando a desgraça em forma de ondas sonoras. As músicas são curtas. Das dez faixas, apenas "Angel of Death", "Postmortem" e Raining Blood" ultrapassam três minutos. Além disso, vão direto ao ponto e já apresentam consolidada a influência punk/hardcore de Jeff Hanneman, que brilha com suas melhores composições. Outro destaque é Dave Lombardo. É em Reign in Blood que o baterista revoluciona a utilização do pedal duplo e se torna um ícone mundial do instrumento. Reign in Blood marca o início da parceria entre Slayer e o produtor Rick Rubin. Um casamento perfeito. A temática lírica também passa por alterações e a veia anticristã da banda começa a ser abordada de forma menos explícita, mas não menos transgressora e contundente. Tudo isso em menos de meia hora. Mais precisamente, 28:59 minutos. Que alteraram o curso natural da música e que fazem jorrar sangue até hoje. O melhor disco de heavy metal da história? Para muitos, sim. E não há exagero algum em cogitar isso. Obra-prima!

Destaques obrigatórios
: tudo, sem exceção


Nota: 10


South of Heaven (1988)

Como proceder após gravar um clássico absoluto? Gravar outro clássico, claro. E o Slayer definitivamente conseguiu. Não com a mesma intensidade e genialidade, mas muito próximo disso. Se Reign in Blood não tem limites de velocidade, South of Heaven dá uma pisada no freio. O que se vê é a banda apostando mais em partes cadenciadas e climáticas para chegar ao 'sul do paraíso', como fica claro logo na introdução da faixa-título. O groove começa a ter papel de destaque no som dos californianos. Com um leque maior de possibilidades, Tom Araya passa a explorar novas estruturas vocais, mais cantadas e melódicas - dentro dos padrões do Slayer, obviamente. Em plena evolução, Dave Lombardo se mantém com linhas de bateria cada vez mais intrincadas, provando ser o maior dentre os bateristas de thrash. O que compromete um pouco South of Heaven é que a inspiração não paira ao longo de todas as dez músicas. Há verdadeiros hinos no track list, mas, talvez, um número menor de faixas pudesse ter realçado melhor o trabalho. Um grande álbum, mas que, inevitavelmente, surge como ponto de inflexão na trajetória da banda, até então sempre ascendente.

Destaques obrigatórios
: "South of Heaven" e "Mandatory Suicide"


Nota: 9,0 


Seasons in the Abyss (1990)

Apesar de vir depois, Seasons in the Abyss situa-se exatamente no meio do caminho entre Reign in Blood e South of Heaven. Nem tão veloz e insano como o primeiro, mas também nem tão cadenciado e recheado de grooves quanto o segundo. O melhor dos dois mundos. Além de preparar o Slayer para a nova década, foi o disco responsável por alçar a banda a outro degrau em termos de popularidade graças ao clipe da faixa-título, constantemente exibido mundo afora. Musicalmente, mantém a tendência de incorporar elementos cada vez mais melódicos ao turbilhão de riffs criados por Hanneman e Kerry King. É claro que o peso extremo ainda se faz presente, mas ele passa a ter que conviver com outras variantes na escala de produção slayeriana. Um disco bem mais fácil de ser digerido em relação aos anteriores, mas, talvez por isso, sem o mesmo charme da hecatombe sonora que marcou os três primeiros trabalhos da banda. Clássico, mas alguns centímetros atrás dos líderes.

Destaques obrigatórios
: "War Ensemble", "Dead Skin Mask" e "Seasons in the Abyss" 


Nota: 9,0


Divine Intervention (1994)

O primeiro sem o mestre Dave Lombardo, que havia deixado a banda e fora substituído por outro monstro: Paul Bostaph, ex-Forbidden. Reposição difícil de ser feita tendo em vista a identidade estabelecida, mas, se Divine Intervention é um disco menor perante os clássicos, em nada se deve à troca de baterista. Até para comprovar a capacidade de Paul Bostaph, boa parte das dez músicas faz questão de ressaltar a invejável técnica do novo integrante tendo partes voltadas exclusivamente para o desfile de pedais duplos, dentro outros atributos. Um disco não tão marcante na primeira audição, mas que cresceu com o passar do tempo e que se mostra maduro diante da primeira mudança - e única até 2013 - na formação do Slayer. Muito à frente de uma infinidade de álbuns simplesmente ridículos lançados nos anos 90 por bandas clássicas da década anterior.

Destaques obrigatórios
: "Killing Fields", "Divine Intervention" e "Fictional Reality"


Nota: 8,0


Diabolus in Musica (1998)

O pior disco do Slayer. Disparado e com todas as forças. Depois de lançar Undisputed Attitude (1996), álbum com covers de bandas punk, talvez a tendência natural fosse voltar mais veloz e agressivo ao estúdio para gravar material inédito. Definitivamente, não foi o que aconteceu. Diabolus in Musica nem de longe lembra a fase áurea da banda. Se não bastasse a inspiração quase nula das composições, há no trabalho experimentos com sonoridades eletrônicas, nuances de rap/hip hop, levadas vergonhosas, além de inúmeros outros aspectos de gosto duvidoso. "Stain of Mind", escolhida como single, é ridícula. Se em algum momento o Slayer chegou ao fundo do poço, é examente aqui. Diabolus in Musica é um disco seco e sem o menor brilho. Onde estão os riffs de Jeff Hanneman e Kerry King? Os vocais absurdos de Tom Araya? Coitado do Paul Bostaph, que, depois de uma ótima estreia, se viu em meio a uma verdadeira enrascada. Disco deprimente.

Destaques obrigatórios
: absolutamente nada


Nota: 3,5


God Hates Us All (2001)

Três anos após o fisco com Diabolus in Musica, o Slayer retorna em 2001 com God Hates us All. Não é nem de perto um primor, mas está anos luz à frente de seu antecessor. Realmente nada poderia ser pior, mas o fato é que o álbum até mostra algumas coisas interessantes, como o resgate de uma agressividade que vinha sendo deixada de lado e, claro, fez muita falta. Dois fatos marcam o disco. Primeiro, por ser o trabalho que encerra a primeira passagem de Paul Bostaph pela banda. Uma espécie de despedida um pouco mais honrosa do que se tivesse sido com Diabolus in Musica. Segundo, a coincidência de ter sido lançado no dia 11 de setembro de 2001, data dos ataques ao World Trade Center, em Nova York. Só mesmo com o Slayer para acontecer essas coisas. Ainda mais com um álbum denominado Deus odeia a todos nós. No mínimo sintomático. Claro que não é o disco que todo maníaco por Slayer gostaria que fosse, mas, de certa forma, serviu como um alívio depois do pavoroso registro anterior. E tem umas duas ou três músicas realmente bem legais.

Destaques obrigatórios
: "Disciple" e "Bloodline"


Nota: 6,5


Christ Ilussion (2006)

Novamente com Dave Lombardo nas baquetas, o Slayer voltou a dar as caras somente em 2006, cinco anos após God Hates Us All e depois do que se tornou o maior intervalo entre discos de inéditas na carreira dos californianos. Se valeu a pena esperar? Apenas em partes. Christ Ilussion acabou se mostrando um trabalho confuso. Há momentos interessantes, mas a impressão que fica é de que as músicas não chegam a lugar algum. Às vezes começam bem, mas se perdem. Às vezes têm um início derivativo, mas encontram o caminho das pedras do meio para o final. Tal oscilação é o que compromete o álbum. Além disso, por marcar o retorno de Lombardo, as expectativas na época foram nas alturas, mas apenas parte delas se confirmou. Um pena.

Destaques obrigatórios
: "Cult"


Nota: 6,5


World Painted Blood (2009)

O melhor desde Divine Intervention. World Painted Blood se mostra bem mais eficaz na tarefa de reunir a química entre banda e Dave Lombardo. Boas linhas de bateria e vocal são o forte do disco, que apresenta vários momentos interessantes. Mais regular que Christ Ilussion, conseguiu superar o antecessor e indicava um bom caminho a ser trilhado pelo Slayer. Com um pouco mais de inspiração, talvez até fosse possível sonhar com um novo clássico, digno dos primeiros registros, nos futuros trabalhos. Difícil, mas não impossível. Infelizmente, não deu tempo. Jeff Hannemam morreu antes. Se o Slayer vier a lançar algo inédito com Gary Holt assumindo definitivamente o posto de Hanneman, ficará marcado como um grande divisor de águas na trajetória banda, já que terá sido o último com seu principal compositor. E também por selar mais uma saída de Dave Lombardo, demitido por Kerry King no início de 2013 e novamente substituído por Paul Bostaph.

Destaques obrigatórios
: "World Painted Blood", "Hate Worldwide" e "Public Display of Dismemberment"


Nota: 7,5



Apêndices

Um ao vivo?


Live Undead (1984)


Sim,
Decade of Aggression (1991) é muito mais completo, abrangente e traz praticamente todos os clássicos do Slayer. Mas, justamente por isso, tem mais cara de coletânea. A banda já era enorme e amplamente reconhecida. 


Live Undead
, lançado quando os californianos tinham soltado apenas Show no Mercy e o EP Haunting the Chapel (1984), é muito mais charmoso. Transborda mais sentimento e registra um show pequeno, acanhado, capturando todas as adversidades, contratempos e detalhes da apresentação. Bem mais 'aconchegante'.


Nota: 8,5


Disco de covers?


Undisputed Attitude (1996)


Álbum em que o Slayer apenas comprova o óbvio, mas que muitos se negam a aceitar: a gigantesca importância do punk/hardcore para o thrash metal. Para tanto, gravou 14 versões para músicas de bandas como Minor Threat, D.R.I, Verbal Abuse, dentre outros. 


O resultado, na verdade, nem é excepcional e fica bastante atrás, por exemplo, de
Garage Inc. (1998), disco de covers do Metallica lançado dois anos depois. Mas vale muito pelo reconhecimento e pelo significado histórico musical.


Nota: 6,5


Por Guilherme Gonçalves

3 de nov de 2014

Para entender: New Wave of American Metal

segunda-feira, novembro 03, 2014
Assim como a lendária New Wave of British Heavy Metal, a New Wave of American Metal pode ser definida mais corretamente como uma cena de bandas responsável por reativar um cenário e colocá-lo novamente em evidência do que um grupo de artistas com sonoridades similares. Há elementos em comum entre as bandas, é claro, mas essas características não são as responsáveis exclusivas por classificar se um nome faz ou não parte da NWOAM.

As origens da NWOAM estão na metade dos anos 1990, em nomes como Pantera, Biohazard, Slipknot e Machine Head. Apesar de alguns destes grupos terem surgido anos antes, foi a partir da segunda metade dos anos 1990 que tornaram-se extremamente populares e bastante influentes, e foram responsáveis por reconduzir o metal de volta ao mainstream norte-americano. Alguns críticos definem a origem da NWOAM no pós-grunge, responsável, segundo eles, por devolver a brutalidade ao metal, afastando-o das suas raízes blues e aproximando-o de gêneros como o hardcore, thrash e punk. Nesse ponto, é interessante perceber como há algo em comum entre o movimento norte-americano e a cena britânica que fez nascer a NWOBHM: ambas foram responsáveis por uma mudança de direção no núcleo do heavy metal, com as bandas inglesas do final dos anos 1970 e início da década de 1980 inserindo elementos do rock progressivo e também do punk em sua mistura, resultando no rompimento original com a passado blues do metal, influência chave nos criadores do estilo como Black Sabbath, Led Zeppelin, Grand Funk e Deep Purple.

A explosão definitiva da New Wave of American Metal, entretanto, ocorreu somente a partir dos anos 2000. A saturação e estagnação do nu metal contribuíram para isso, com o público querendo algo além do groove intenso e dos vocais gritados do estilo. Essa demanda encontrou a sua resposta em bandas como Lamb of God, Unearth e Shadows Fall, que ofereciam riffs bem construídos, melodias e o retorno dos solos de guitarra. O cineasta e antropólogo canadense Sam Dunn, em seu documentário Metal: A Headbanger’s Journey (2005), define a NWOAM como “um grupo de bandas que une a agressão fervilhante no hardcore à técnica do death e do thrash, turbinando isso com a melodia onipresente do metal tradicional. Os vocais alternam-se entre o gutural e trechos com vozes limpas, sendo que muitas vezes essa outra voz é responsabilidade de outro integrante que não o vocalista”.

O falecido jornalista inglês Garry Sharpe-Young complementa a definição e a classificação do que seria a NWOAM em seu livro New Wave of American Heavy Metal, lançado em 2005: “Incluí algumas bandas mais antigas que têm as suas raízes no metalcore, como Agnostic Front e toda a cena hardcore de Nova York, bem como os grupos que levaram o metal para um novo território após o grunge, como Pantera, Biohazard e Machine Head. Com os anos a cena ficou bastante diversificada, indo em direção a estilos como o death metal melódico e o prog”. Para Young, a NWOAM engloba diversos gêneros distintos como metalcore, groove metal, metal alternativo, death e prog metal, entre outros.

Dentro dessa definição, que é mais geográfica e histórica do que estilística, estão bandas que foram importantes para tornar o heavy metal novamente popular nos Estados Unidos após o surgimento do grunge. Talvez o principal ponto em comum entre todos esses grupos seja a agressividade elevada, que, ao invés de afastar novos admiradores, acaba por cativar novos devotos. É interessante notar também que, ao contrário da cena europeia no período - e também de modo geral -, as bandas que mais se deram bem no metal norte-americano possuíam influências evidentes dos gêneros mais extremos do metal, enquanto que no velho mundo a onipresença é de estilos como o power metal. Raízes históricas explicam isso, certamente, e dariam um bom assunto para uma matéria futura.

Entre as bandas mais importantes da New Wave of American Metal estão Pantera, Biohazard, Machine Head, Lamb of God, All That Remains, Shadows Fall, Byzantine, Norma Jean, Slipknot, Trivium, DevilDriver, Hatebreed, Five Finger Death Punch, The Dillinger Escape Plan, Killswitch Engage, Chimaira, Mastodon, Avenged Sevenfold e Superjoint Ritual.

Em relação aos discos mais emblemáticos do movimento, a audição dos álbuns abaixo é recomendada para quem deseja conhecer mais sobre a NWOAM:

Slipknot - Slipknot (1999)
Shadows Fall - The Art of Balance (2002)
Norma Jean - Bless the Martyr and Kiss the Child  (2002)
Machine Head - Through the Ashes of Empires (2003)
Superjoint Ritual - A Lethal Dose of American Hatred (2003)
Hatebreed - The Rise of Brutality (2003)
Chimaira - The Impossibility of Reason (2003)
Killswitch Engage - The End of Heartache (2004)
Lamb of God - Ashes of the Wake (2004)
Mastodon - Leviathan (2004)
The Dillinger Escape Plan - Miss Machine (2004)
Trivium - Ascendancy (2005)
Byzantine - ... And They Shall Take Up Serpents (2005)
Mastodon - Blood Mountain (2006)
Lamb of God - Sacrament (2006)
All That Remains - The Fall of Ideals (2006)
Avenged Sevenfold - Avenged Sevenfold (2007)
DevilDriver - The Last Kind Words (2007)
Throwdown - Venom & Tears (2007)
Unearth - The March (2008)
Mastodon - Crack the Skye (2009)
Avenged Sevenfold - Nightmare (2010)
Five Finger Death Punch - American Capitalist (2011)

Por Ricardo Seelig

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