O loop infinito do classic rock


Tony Iommi fala sobre as chances de Bill Ward voltar ao Black Sabbath. Max Cavalera afirma que reunião do Sepultura era pra ter acontecido há dez anos atrás. Keith Richards diz que o Led Zeppelin é uma banda inócua. Fontes não oficiais afirmam que a formação clássica do Guns N’ Roses tocará no Rock in Rio Lisboa. Gene Simmons dá mais uma declaração polêmica.

Todas essas notícias, por incrível que pareça, foram publicadas nos últimos dias em alguns dos principais sites sobre música aqui do Brasil. Não, não estamos em 1970. Nem em 1980. Muito menos em 1990. Estamos em 2015, ainda que, passando os olhos de maneira rápida, a localização temporal não fique clara.

Sou um crítico do crescimento da demanda pelo classic rock. Acho desproporcional, desnecessário, um tanto sem sem sentido. Como se a única possibilidade pra quem ouve rock é ficar em Stones, Beatles e Doors. Acho que as coisas podem ser melhor equilibradas. Há espaço para todos, não apenas para os mesmos nomes de sempre. Não quero saber qual foi a última bobagem dita por Gene Simmons, prefiro ser informado sobre as novidades do novo álbum do Baroness. Pouco me importa se Bill Ward tocará ou não com o Black Sabbath, amei o último disco da banda e não senti a mínima falta dele. Analiso a estratégia de dar declarações polêmicas para promover um novo álbum (e aí você pode colocar o Keith Richards falando mal de um monte de gente, além de mais uma penca de músicos que usa esse mesmo artifício pra ganhar espaço na mídia) totalmente ultrapassada, acho mais produtivo eu mesmo escutar o trabalho e chegar às minhas próprias conclusões.

A alta procura pelo classic rock tem lá as suas explicações, como o apego excessivo ao passado e o desprezo quase que total pelo que é novo. Exemplo simples, porém eficaz: folheando a última edição da única revista dedicada ao heavy metal que temos em nosso mercado, leio a declaração de um dos jornalistas da publicação afirmando que “está começando a gostar de Lamb of God”. Contextualizando: o Lamb of God foi formado em 1994 e lançou o seu primeiro álbum em 2000. Ou seja: quem quer escrever a sério sobre música, sobre heavy metal, há muito tempo não apenas conhece e está familiarizado com a banda, como sabe que o quinteto de Virginia é, hoje, um dos mais importantes nomes do metal norte-americano. Enfim, não dá pra “começar a gostar agora” do grupo se você se define como um jornalista especializado.

E é justamente esse o principal problema da popularização excessiva do classic rock. O ouvinte casual, que consome música de maneira menos profunda, não tem a mínima obrigação de saber quem é a nova sensação inglesa, o novo fenômeno sueco, a nova promessa brasileira. Ele está bem, acomodado em sua zona de conforto, variando entre os mesmos nomes de sempre. Mas quando essa postura chega até o jornalismo musical, a coisa muda de figura.

Nesse ponto, vale voltar alguns anos no passado, entrar novamente em uma sala de aula ou mergulhar mais uma vez nos livros, e pesquisar sobre qual é o papel e a função da imprensa. Resumindo em apenas uma palavra: informar. O papel do jornalista, seja ele de qual área for, é trazer até o leitor/espectador o maior número de informações sobre um assunto. Nem vou entrar muito na questão do jornalismo imparcial, que na minha opinião não existe e é apenas uma utopia, já que, no meu modo de ver, ao pesquisar e absorver a informação que irá passar adiante, muitas vezes o jornalista já insere, mesmo que de leve ou de maneira inconsciente, a sua opinião e o seu ponto de vista (é o que diz a sabedoria popular: toda história tem três lados - o meu, o seu e o verdadeiro). E é justamente isso que falta em um mercado cada vez mais pautado pelo classic rock: a informação.

Ao ler um veículo especializado em música, o que se espera encontrar são informações sobre os mais variados aspectos do segmento que ele cobre. Em um site especializado em heavy metal, sei que vou ler matérias sobre Sabbath, Maiden e Metallica, mas esse não pode ser, em nenhum momento, o conteúdo total levado até o leitor. É preciso dar espaço para novas bandas, ter capacidade de reconhecer quem está vivendo o seu auge atualmente, equilibrando tudo isso com os nomes clássicos. E, levando essas informações até o leitor, vamos conseguir apresentar novos nomes e possibilidades até mesmo para aquele ouvinte casual de música, que vive deitado no berço esplêndido da sua zona de conforto.

Se não fizemos isso, o loop infinito do classic rock vai nos levar sabe pra onde? Pra lugar nenhum.

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