13 de abr de 2015

Paul Di’Anno e Machine Head: como esses dois artistas explicam o heavy metal aqui no Brasil

segunda-feira, abril 13, 2015
Paul Di’Anno, vocalista dos dois primeiros discos do Iron Maiden, está rodando o Brasil e cidades do interior do país em uma turnê onde toca clássicos do Maiden e, vá lá, uma ou duas canções de discos que lançou após sair da Donzela - e que o público que vai a esses shows não só não conhece como nem faz questão de ouvir. Paul canta sentado, devido aos problemas crônicos no joelho acentuados, ao que parece, por uma queda de moto. Um quadro deprimente, pra dizer o mínimo.

No outro extremo temos o Machine Head, uma das bandas mais interessantes do metal atual, que fará um único show no Brasil (no próximo dia 07/06, em São Paulo), em um local com capacidade menor que a última passagem do grupo por aqui, há alguns anos. E cujo líder, Robb Flynn, se viu obrigado a postar um esclarecimento aos que o questionaram diretamente, nas redes sociais, de o porque de a banda, que está vivendo o seu ápice criativo e crescendo comercialmente, fazer apenas um show por aqui - leia o texto de Robb

Essas duas situações retratam a cena metal do Brasil e levantam questões. O saudosismo exacerbado faz fãs pagarem para ver um vocalista decadente, que há décadas não lança um disco relevante, tocar versões de clássicos da banda que o mesmo músico adora falar mal sempre que tem uma oportunidade. Enquanto isso, um dos nomes mais importantes e criativos do heavy metal vem para o Brasil, mas não tem público para colocar em seus shows. Estamos falando de Paul Di’Anno e Machine Head, mas essa lógica se aplica a diversos outros nomes. Guns ’N Roses e os músicos convidados de Axl, que mais parecem uma banda cover, enchem arenas por aqui. Mastodon, uma banda sensacional, provavelmente não lotaria uma casa de shows sozinha - a banda tocará no Rock in Rio. Dave Evans, vocalista original do AC/DC, tem os álbuns de sua banda lançados no Brasil - quem compra álbuns assim, não faço ideia. O mesmo Mastodon só tem o seu último disco em versão nacional. Ou pode ser a comoção e a histeria coletiva dos sites especializados brasileiros por Kiko Loureiro ser anunciado como novo guitarrista do Megadeth, banda que não grava um álbum minimamente decente desde Endgame (2009), enquanto espaço para bandas nacionais realmente interessantes, como Uganga e Thirven, é cada vez mais restrito.

Esse culto exagerado ao passado é maléfico. Evidentemente, é preciso respeitar e valorizar os artistas importantes do estilo, isso é óbvio. Mas ter a crença de que apenas Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden e Metallica - complete a lista com outros nomes clássicos - gravaram álbuns relevantes para o gênero, é de um desconhecimento e de uma ignorância assustadores. Já afirmei aqui que Unto the Locust, álbum lançado pelo Machine Head em 2011, é um disco tão bom quanto Powerslave, LP lançado pelo Iron Maiden em 1984. E continuo com essa opinião. É preciso valorizar e reconhecer os grandes nomes que fizeram a história do gênero que amamos, mas para isso não é preciso fechar os ouvidos para o novo. É preciso abrir e manter os ouvidos abertos para o que está sendo produzido agora, mas para isso não é preciso esquecer o passado.


Paul Di’Anno que me desculpe, mas não dá. Seus discos com o Maiden são ótimos, mas sair de casa para ver o vocalista cantar de forma decadente, sentado em uma cadeira porque não consegue se manter em pé, é deprimente, triste e não entra na minha cabeça. Na sua pode ser que sim, mas na minha, não. Prefiro ficar sentado em casa ouvindo o novo do Machine Head, mesmo.

Por Ricardo Seelig

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