19 de out de 2016

Uma análise da letra de “The Logical Song”, clássico do Supertramp


A Canção Lógica 

Quando eu era jovem
Parecia que a vida era tão maravilhosa
Um milagre, oh ela era tão bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Estavam cantando tão felizes
Oh alegres, brincalhões, me observando
Mas aí eles me mandaram embora
Para me ensinar a ser sensato
Lógico, oh responsável, prático
E me mostraram um mundo
Onde eu poderia ser muito dependente
Doentio, intelectual, cínico

Tem vezes, quando todo o mundo dorme
Que as questões seguem profundas demais
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

Agora cuidado com o que você diz
Ou eles vão te chamar de radical
Um liberal, oh fanático, criminoso
Você não vai assinar seu nome?
Gostaríamos de sentir que você é
Aceitável, respeitável, apresentável, um vegetal!

À noite, quando todo o mundo dorme,
Que as questões seguem tão profundas
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou


No final de março de 1979, o grupo britânico Supertramp lançou o seu sexto disco, intitulado Breakfast in America. Não entraremos nos detalhes de como foi a gravação, o momento pelo qual a banda passava ou a recepção que o álbum teve diante do público e da mídia naquela época. Queremos nos ater a uma música específica desse trabalho, a chamada “The Logical Song”, segunda faixa do disco, que se tornou uma das músicas mais conhecidas do Supertramp e com o passar dos anos a marca registrada da banda para os ouvintes menos atentos aos outros LPs e à trajetória da banda como um todo. 

De certa maneira, a música soa como um Supertramp mais pop e acessível, sem flertar com elementos progressivos (como apresentados no primeiro álbum, Supertramp (1970), ou em canções mais longas como "Fool's Overture" e "Child of Vision"), não deixando de lado o que é característico do grupo: a parceria entre os pianistas e vocalistas Roger Hodgson e Rick Davies, compositores de todas as canções presentes em Breakfast in America.

Nessa faixa, que traduzindo para o português podemos chamar de “Canção Lógica”, a letra expressa um pouco das angústias sobre os caminhos que seguiremos com o passar dos anos, fenômeno presente na trajetória de qualquer ser humano que vive, continua vivendo e traz memórias consigo mesmo. À primeira vista, a música parece ser simples, mas analisando bem ela possui uma profundidade crítica, nostálgica e atual, que oferece uma reflexão sobre o nosso crescimento pessoal, seus diferentes momentos e a consciência que tivemos deles. Podemos dizer que em nossa trajetória da vida, desde o seu começo, quando ainda éramos crianças, a nossa compreensão do mundo e da vida possuía certa “lógica” própria, que podemos associar a um momento mágico, magnífico e feliz. Como diz a letra:

Parecia que a vida era tão maravilhosa
Um milagre, oh ela era tão bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Estavam cantando tão felizes

Nesse momento da nossa vida (a infância), não tínhamos muitas responsabilidades sociais, dúvidas sobre o futuro e dúvidas sobre questões mais complexas como a política, o preço das mercadorias, o desemprego e por aí vai. No entanto, precisamos fazer uma breve consideração, pois nem todas as crianças possuem uma vida privilegiada, sem todas as preocupações, e, portanto, estamos nos referindo às pessoas de classes mais privilegiadas, que não precisaram trabalhar, viveram uma infância miserável na periferia ou abandono social. Assim, a transição é lógica e determina que mudanças precisam ocorrer em nossas vidas.


Ao crescermos, quando nos tornamos jovens, tudo se torna mais complicado. As responsabilidades aumentam com a possibilidade de constituir uma família, relacionamentos, arrumar um emprego, sair de casa e se dedicar aos estudos. Precisamos ser “lógicos”, “sensatos”, “práticos”, nos afastando daquele mundo que antes era um conto de fadas e nos aproximando de algo mais cruel e realista, cheio de manchetes que retratam problemas sobre violência, desigualdade social e a corrupção. Quebra-se a ilusão de que o mundo é mágico para entrar em seu lugar um mundo cínico e doente, que precisa ser pensado. É a estrutura lógica da vida que impõe essa transição entre o mundo infantil e a entrada na vida adulta. 

À medida que ficamos mais adultos, os julgamentos sobre a pessoa que você é tornam-se mais presentes (“liberal”, “fanático”), assim como os problemas pessoais (depressão, frustração, decepções). As pressões se intensificam, através da coerção, das normas e condutas que a sociedade espera de nós e devemos seguir, para não sairmos dessa lógica. Portanto, devemos ser aceitáveis, responsáveis, futuros burocratas presos em um escritório todo dia, trabalhando em algo que não nos realiza, decepcionados com o salário que sempre parece pouco para atender às nossas necessidades materiais.

Diante de tudo isso, a canção nos faz refletir sobre esses dois momentos (infância e vida adulta) e traz consigo o sentimento de nostalgia, de que o passado era melhor do que o presente momento. Talvez fosse, talvez não. O importante, segundo a composição, é não deixarmos de lado essa nostalgia para tentarmos sair em alguns momentos dessa estrutura lógica, mesmo apenas quando todo o mundo dorme, e carregar conosco esse espírito alegre e ingênuo que um dia foi vívido e que hoje apenas compartilha de cinismo e desesperança.
A frase final da letra - “Quem eu sou?” - deixa uma pergunta que está presente em todos nós. Quem nos tornamos? O que poderíamos ter sido? Quais caminhos escolhemos?. Essas dúvidas nós mesmos que devemos responder. Qualquer “homem simples” deve se questionar e encontrar a sua própria lógica, fora da imposição que lhe foi determinada pelo mundo. 

Creio que seja essa a reflexão trazida por esse clássico do Supertramp, que também encontra ecos em outra canção da banda, “School”, presente no excelente álbum Crime of the Century (1974) e que critica a função do ensino institucional em nossa sociedade. No entanto, essa análise fica para outro momento. Vamos permitir que a imaginação nunca deixe de existir e que cada um descubra melhor a si mesmo em algum momento da vida. 

Como o filósofo Sartre diz: "O importante não é o que fazemos de nós, mas o que nós fazemos daquilo que fazem de nós." 

Por Felipe Andrade

3 comentários:

Raí BonJovi disse...

Adoro ver as letras de músicas,principalmente de rock,sempre nos proporciona algo a mais do que uma música comum.Me faz pensar,Refletir e me questionar....Ótima música,perfeita interpretação!Parabéns

Unknown disse...

Parabens Felipe, Nossa, tudo que pensei e senti voce escreveu. Parabens

Alessandra Paula Veizaga disse...

Ótima interpretação, enfatiza realmente o q a sociedade nos impõe veladamente, nos obrigando a ser completamente zumbis, obedecendo regras impostas e caso esse conceito n seja cumprido, causam frustrações, nostalgia e perda total de identidade,de autoestima ocasionando preconceito, tornando as pessoas doentes e pobres de espírito.
Enfim...
Para sermos seres humanos (considerados normais), temos q seguir regras subordinada pela mídia ,religião e nos submeter a corrupção escrota e asquerosa da vida em sociedade.

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE