15 de jan de 2016

Hunky Dory, o clássico não tão badalado de David Bowie

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Hunky Dory foi o disco que me apresentou o universo fantástico de David Bowie. É claro que, no auge da minha adolescência, eu já havia tomado contato com faixas como "Let's Dance", da fase mais pop de Bowie, figurinha fácil nas rádios na década de 1980 e que nunca me agradou muito. Talvez essa preferência se deva justamente pelo impacto que Hunky Dory teve em minha vida, escancarando as portas do momento mais brilhante e cristalino da carreira de um dos maiores artistas que a música pop já conheceu.

O disco está amparado em duas faixas estupendas, e, ao mesmo tempo, antagônicas. Uma, um pop grudento e inspirador. Outra, uma canção densa e com uma das letras mais inteligentes que o rock já pariu. 

"Changes" abre o álbum com uma melancolia doce, que evolui, devagar e sem pressa, para uma exemplar pop song, onde David Bowie parece refletir sobre o momento em que vivia, já que acabara de ser pai. Até hoje o refrão de "Changes" me pega de jeito, mesmo já tendo-o escutado literalmente centenas de vezes. A brincadeira de Bowie, repetindo o início da palavra que dá título à canção como que em uma gagueira intencional, é, para mim, um dos momentos que ratificam todos os comentários, exagerados ou não, sobre a sua genialidade.

Já "Life on Mars?" é uma das raras faixas que, mesmo sendo uma velha conhecida há tempos, estando ao meu lado e fazendo parte da minha vida há décadas, até hoje me surpreende e me causa arrepios a cada nova audição. O modo como David canta a letra é a prova irrefutável do porque Bowie ostentar, desde sempre, o status de um dos maiores intérpretes do rock. Além disso, o refrão de "Life on Mars?" é algo que desafia as minhas vãs tentativas de buscar adjetivos para explicar algo único e antológico, que não cabe em palavras, mas cabe em qualquer momento de nossas vidas, seja qual for a emoção que estejamos sentindo.

Há ainda muito mais em Hunky Dory. "Oh! You Pretty Things" é prima-irmã de "Life on Mars?”. ”Kooks" traz Bowie dissertando sobre o seu então nascente momento familiar. "Quicksand" é uma das grandes baladas da carreira de Bowie, não tão badalada, escondida em um catálogo repleto de clássicos. "Andy Warhol" é uma espécie de folk-hippie-hipnótico em homenagem a um dos heróis de Bowie, assim como "Song for Bob Dylan", tributo de David a Dylan, um dos músicos mais influentes da história. Há ainda o rock cru e selvagem de "Queen Bitch", figura ilustre na longa e subestimada coleção de grandes riffs que frequentemente nos faziam colocar um sorriso de orelha a orelha ao ouvir os álbuns de Bowie lançados durante anos 1970, lista essa que possui ainda canções como "Rebel Rebel", "Ziggy Stardust" e "Suffragette City".

Por um breve momento, a força e a mítica de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars acabou por ofuscar Hunky Dory, mas a qualidade de suas canções tratou logo de corrigir esse erro, e hoje Hunky Dory é visto, de forma clara e extremamente justa, como um dos melhores trabalhos de Bowie. Uma única audição em suas onze faixas atesta o porque de tamanha idolatria.

Discoteca básica, audição fundamental.

Artistas de quadrinhos homenageiam Lemmy em ilustrações

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Além de líder e coração do Motörhead, Lemmy Kilmister acabou se transformando em um ícone da cultura pop nos últimos anos, em uma equação que passa pela atitude e figurino característico do baixista e vocalista, pela imensa influência da banda e pelo ótimo documentário Lemmy, lançado em 2010, que apresentou o músico para um público ainda maior.

Por essa razão, sua morte repercutiu muito além dos fãs e do universo do heavy metal. Alguns ilustradores de quadrinhos criaram artes homenageando o músico, e que mostram o quanto a sua figura era forte e possui um lugar cativo no imaginário popular.

Olha só que legal:





Playlist: jazz-rock

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Guiado por Miles Davis, no início da década de 1970 o jazz caminhou em direção ao rock, que gostou da experiência e também foi ao encontro do jazz. O resultado dessa união foi o nascimento do jazz-rock, onde músicos extremamente técnicos e criativos, muitos deles com formação jazzística, começaram a desenvolver a alquimia entre os dois gêneros. 

Através de canções com estruturas repletas de mudanças de andamento e ritmo constante, além do uso dos instrumentos de forma inovadora - a guitarra assumiu o lugar do trompete e outras ideias fora da caixa, por exemplo -, nomes como Frank Zappa, Mahavishnu Orchestra, Return to Forever e Weather Report deram ao mundo composições incríveis e fantásticas.

Algumas dessas pérolas estão na playlist abaixo, feita na medida pra você conhecer mais sobre o jazz-rock ou visitar novamente paisagens já conhecidas. Prepare-se para ouvir solos incríveis, batidas surreais e outras experimentações de cair o queixo.

No Sleep ’Til Hammersmith (e também Leeds e Newcastle): a força absurda do Motörhead no palco

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Fundado em 1932, o Hammersmith Odeon (atual Hammersmith Apollo) é uma das casas de shows mais tradicionais de Londres. Sobre seu palco, artistas transformaram-se em lendas. Suas paredes presenciaram dezenas de shows históricos. Ao longo dos anos vários discos ao vivo foram gravados neste mítico local, e um dos mais importantes foi No Sleep 'Til Hammersmith. Mas será isso mesmo? O que pouca gente sabe é que, apesar do título, o álbum não foi gravado no Hammersmith, mas sim durante apresentações em Leeds e Newcastle.

Lançado em 27 de junho de 1981, o álbum capturou para a eternidade a formação clássica do Motörhead em seu habitat natural: o palco. Promovendo o clássico Ace of Spaces (1980), Lemmy Kilmister, “Fast” Eddie Clarke e Phil “Animal” Taylor convocaram os deuses mais profanos e transformaram o palco em um altar de celebração para o peso, a velocidade e a ferocidade do hard rock.

No Sleep 'Til Hammersmith alcançou o topo da parada britânica apenas uma semana após ser lançado, atestando de forma inequívoca o momento iluminado vivido pelo trio na época. Com uma coleção de faixas irretocáveis, o disco é, literalmente, uma pedrada. Nele estão as versões definitivas de clássicos como “Stay Clean”, “Metropolis”, “The Hammer”, “Iron Horse / Born to Lose”, “No Class”, “(We Are) The Road Crew” e a sensacional “Capricorn”. Hinos indiscutíveis do som pesado como as imortais “Ace of Spades”, “Overkill” “Bomber” e “Motörhead” completam esse que é, sem dúvida alguma, um dos discos ao vivo mais verdadeiros e significativos da história do rock.

Responsável por elevar o nome do Motörhead ao Olimpo do rock e dedicado a “todos que viajaram, beberam, lutaram e treparam conosco pelas estradas da Inglaterra e da Europa por cinco anos”, No Sleep 'Til Hammersmith ganhou uma Deluxe Edition em 2008 carregada de faixas extras e outtakes, para alegria dos devotos de Lemmy.

Pra quem gosta de rock, alguns discos adquirem o status de itens obrigatórios. No Sleep 'Til Hammersmith é um deles.

Ouça SEMPRE no volume máximo!

14 de jan de 2016

O rock está ficando órfão

quinta-feira, janeiro 14, 2016


Está ocorrendo uma mudança no mundo do rock. A geração que construiu e levou o gênero a patamares de popularidade sem precedentes durante as décadas de 1960 e 1970 está partindo. Nossos ídolos estão morrendo, e deixando o bastão na mão de uma (nem tão) nova geração de ícones. 

Neste final de 2015 e início de 2016, fomos sacudidos pelas mortes de Lemmy Kilmister e David Bowie. Apenas nesta década de 2010, faleceram nomes como B.B. King, Joe Cocker, Ian McLagan, Jack Bruce, Lou Reed, J.J. Cale, Ray Manzarek, Jeff Hanneman, Alvin Lee, Jon Lord, Levon Helm, Ronnie Montrose, Davy Jones, Etta James, Amy Winehouse, Scott Weiland, Gary Moore, Ronnie James Dio, Alex Chilton, entre muitos outros. E esse processo se intensificará nos próximos anos, com mais e mais ídolos partindo.

É claro que, quando ocorre a morte de um músico respeitado, conhecido e que é idolatrada por uma multidão de fãs, a comoção é enorme, o choque é repentino, e o sentimento de perda, em alguns casos, chega a ser até mesmo semelhante à partida de um parente ou amigo próximo. Assim como também é claro que, ao deixarem este mundo, artistas como Bowie, Lemmy, Dio e Lord saem de cena com legados gigantescos e sólidos o bastante para manter seus nomes não apenas na memória dos fãs, mas também com força suficiente para conquistar novos admiradores. Suas obras não deixam de existir, eles apenas param de produzir.

Nos próximos cinco, dez anos, mais e mais nomes passarão pela mesma situação. Todo o povo que fez história nos anos 1960 e 1970 está hoje na casa dos 70 e poucos anos. Gente como Paul McCartney, Mick Jagger, Keith Richards, Jimmy Page, Robert Plant, Ozzy Osbourne, Tony Iommi, John Fogerty, Eric Clapton, David Gilmour, Roger Waters, Neil Young, Bruce Springsteen e outros atualmente são senhores de idade, longe da energia da juventude mas com a classe e experiência que só tem quem passou décadas na estrada, tocando para multidões. No entanto, todas essas trajetórias chegarão, cada uma em seu dia, ao inevitável film. Chegará a hora em que McCartney morrerá. Page também. Jagger, idem. Não há como fugir do inevitável: o rock ficará órfão.

O que isso quer dizer? O que isso acarretará ao estilo? Muito provavelmente, nada demais. Basta olhar para trás, aprender com as experiências do passado, para perceber que o mundo segue e que a roda continua girando. Novas lendas surgirão, novos ídolos nascerão. 

O rock and roll é um produto criado por inúmeras cabeças, e muitas dessas já deixaram este plano há tempos. Nomes que hoje são ícones, como Buddy Holly, Eddie Cochran, Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Duane Allman, Marc Bolan, Paul Kossoff, Tommy Bolin, Elvis Presley, Ronnie Van Zant, Keith Moon, Bon Scott, John Bonham, John Lennon, Randy Rhoads, Muddy Waters, Phil Lynott, Cliff Burton, Steve Ray Vaughan, Freddie Mercury, Frank Zappa, Kurt Cobain, Rory Gallagher, Joey Ramone, George Harrison, Joe Strummer, Johnny Cash, Dimebag Darrell e mais um monte de gente, deixaram inúmeras canções e motivos para seguirem vivos nos corações e ouvidos mundo afora. E a música não acabou sem a presença deles. 


O rock é auto-renovável. O artista compõe uma canção, grava um disco, que é ouvido por um adolescente, que encontra o sentido da vida naqueles acordes, e resolve ele mesmo começar a tocar. É um ciclo infinito. Quanto Buddy Holly faleceu em 3 de fevereiro de 1959, Ronnie Van Zant tinha apenas 11 anos. E nos próximos 18 anos faria ele mesmo a sua história liderando o Lynyrd Skynyrd, até perder a vida em um acidente de avião em 20 de outubro de 1977. Nessa data, Kurt Cobain ainda não tinha 10 anos, e passaria os próximos dezessete à frente do Nirvana também construindo a sua trajetória dentro do rock, interrompida em 5 de abril de 1994. Exemplos como esses existem aos montes, e seguem ocorrendo agora mesmo.

A inevitável mudança de comando dentro do rock está em andamento, com gerações mais recentes de bandas conquistando também o seu próprio espaço dentro da história do gênero. O U2 é um destes nomes. O R.E.M., o Pearl Jam, o Red Hot Chili Peppers, o Green Day, o Foo Fighters, o Muse, o Arctic Monkeys, o Wilco, também. Dentro do heavy metal, o inevitável fim do Black Sabbath divide espaço com a enorme popularidade de bandas como Iron Maiden, Metallica, Slipknot e, mais recentemente, Bring Me The Horizon, Mastodon, Machine Head, Trivium, Between the Buried and Me, Lamb of God e outros. No prog, Steven Wilson e o Opeth vem galgando a passos largos os degraus hierárquicos do gênero. E isso acontece de forma infinita.

O rock está ficando órfão de seus ícones históricos. Isso é inevitável e indiscutível. Como também é fato de que novas forças continuam surgindo e se consolidando, em um processo que nunca terá fim. 

Foi doloroso perder David Bowie. A partida de Lemmy, mesmo sendo algo esperado, também deixou um vácuo. Vamos seguir ouvindo seus discos, curtindo suas músicas e descobrindo suas histórias. Assim como continuaremos encontrando boas bandas e ótimas canções pelo caminho, produzidas por artistas que estão fazendo suas próprias histórias agora, neste momento.

A vida segue. A música, no entanto, jamais pode parar.

Mutant - Pleiades (2016)

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Groove metal que soa como norte-americano, mas que vem, de maneira surpreendente, da Espanha. Pleiades é o segundo álbum do Mutant, trio natural da Galícia, e foi lançado no início de 2016. O disco sucede Titanomakhia, de 2013.

Formado por Pla (vocal e guitarra), Xalo (baixo e vocal) e Caki (bateria), o Mutant vem com uma sonoridade elaborada, que transita por elementos do prog e thrash, excelentes vocais (tanto os principais quanto os backings e coros) e uma performance instrumental pra lá de competente. Dá pra tentar exemplificar a sonoridade da banda como a união do DevilDriver com o Machine Head, com um certo tempero de thrash metal clássico e passagens instrumentais que flertam com o progressivo e trazem à memória o também trio (neste caso norueguês) Communic.

Pleiades tem oito canções e uma produção de alto nível, com clareza e timbres pesados, o que torna a pancada do Mutant bem eficiente. Ainda que alguns trechos tragam um inegável aroma de déjà vu, o resultado final tem um saldo positivo, mostrando uma banda com um nível excelente, muita musicalidade e um poder de fogo até certo ponto surpreendente para um line-up tão enxuto.

Não vai mudar o mundo e nem o rumo das coisas, mas garante diversão por vários dias.

13 de jan de 2016

David Bowie - Blackstar (2015)

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Analisar um disco de David Bowie é, por si só, uma tarefa complexa. O artista inglês, extremamente inovador e com um gosto eterno pela experimentação, sempre buscou caminhos originais e cheios de desafios em todos os álbuns que gravou. No entanto, resenhar Blackstar, novo trabalho de Bowie, após a morte do cantor, torna tudo ainda mais difícil.

Sucessor do ótimo The Next Day (2013), Blackstar é o vigésimo-sexto e derradeiro disco da carreira de David Bowie. Produzindo pelo próprio e por Tony Visconti, o álbum contém sete faixas que trazem David acompanhado por uma banda formada inteiramente por músicos de jazz - Donny McCaslin (flauta, saxofone e demais instrumentos de sopro), Ben Monder (guitarra), Jason Lindner (piano, órgão e teclado), Tim Lefebvre (baixo) e Mark Guiliana (bateria). O álbum foi lançado no dia 8 de janeiro, dois dias antes da morte de Bowie, e veio precedido pelos vídeos da faixa-título e de “Lazarus”.

O background jazzístico da banda e a personalidade inquieta de Bowie geraram um trabalho naturalmente experimental. É o rock bebendo na sofisticação e na liberdade do jazz, pegando no gênero um passaporte para trilhar caminhos e estruturas que fogem do convencional. Tudo isso, devidamente costurado pela imensa capacidade de David Bowie de tornar a mais estranha das composições naturalmente audível e atraente. Assim, mesmo que naturalmente denso e sombrio (principalmente nas letras), Blackstar acaba se revelando um álbum que desce naturalmente aos ouvidos familiarizados com as harmonias e soluções rítmicas plurais do jazz, distantes do onipresente quatro por quatro do rock and roll.

A música que batiza o disco abre o álbum em uma suíte dividida em duas partes distintas. A primeira, com quase cinco minutos de duração, conta com um arranjo desarmônico e serve de base para a poesia de Bowie. Já a segunda traz a canção para um ponto mais habitual e confortável, e nela David expõe a sua carta de intenções: “I'm not a rockstar, I’m a not a filmstar, I’m not a pornstar, I’m a blackstar”. 

“Lazarus”, o segundo single do trabalho, funciona também como uma canção de despedida de David Bowie endereçada aos seus milhões de fãs em todo o mundo, e traz a frase “olhe para cima, estou no céu”, cantada pelo inglês como que confortando seus admiradores, amigos e familiares. Este mesmo sentimento de despedida pode ser aplicado na interpretação de “Girl Loves Me”, com Bowie dando adeus para sua esposa Iman, companheira de 23 anos. E, como que repassando sua vida, Bowie encerra o disco declarando que não pode dar tudo em “I Can’t Give Everything Away”, frase que nós, seus fãs, respondemos em uníssono: você nos deu muito mais do que poderíamos sonhar, David.

Blackstar é um álbum diferente de The Next Day, assim como todos os trabalhos de David Bowie possuem sua própria personalidade e são distintos entre si. A comoção gerada pela sua morte, naturalmente, influenciará a recepção que o disco receberá do público e da crítica, mas o fato é que Blackstar é uma despedida muito forte, um grande trabalho que fecha com maestria uma das mais consistentes, inovadoras e influentes trajetórias da história do rock.

Obrigado por tudo, David. Vá em paz, Bowie. O que você deixou neste mundo nos acompanhará durante toda a vida.

Making a Murderer e o lado podre da justiça norte-americana

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Às vezes, a TV adquire um papel muito maior e mais abrangente do que aquele ao qual está comumente associada, o entretenimento. O caso mais recente envolve Making a Murderer, série documental lançada pelo Netflix na segunda metade de dezembro. Dividida em dez capítulos de 1 hora cada, o seriado conta a trajetória de Steven Avery, um dos mais conhecidos e polêmicos casos criminais dos Estados Unidos.

Natural do pequeno condado de Manitowoc, no estado do Wisconsin, Avery foi acusado e condenado em 1985 pelo estupro e agressão de Penny Beerntsen, crime do qual sempre se declarou inocente. No entanto, Steven só conseguiu comprovar que não era culpado em 2003, após passar 18 anos na prisão, e somente depois da criação e aprimoramento dos exames de DNA. Steven Avery foi libertado em 2003 e então, como era de se esperar, abriu um processo contra o estado do Wisconsin e o condado, reclamando uma indenização de 36 milhões de dólares.

Por si só, tudo isso já daria uma história e tanto. E foi justamente o que pensaram as diretoras Laura Ricciardi e Moira Demos. Em 2003, com a comprovação da inocência de Avery, as duas iniciaram a produção de um documentário sobre o caso. Mas as surpreendentes reviravoltas que vieram a seguir acabaram transformando o propósito de Laura e Moira em algo muito maior. Com o encaminhamento do processo contra o estado e a tomada de depoimentos dos policiais acusados de negligência e conduta suspeita na investigação do crime de estupro, tudo andava para que Steven Avery vencesse e recebesse a milionária indenização. Mas é claro que nada seria tão simples.

Em 31 de outubro de 2005, a fotógrafa Teresa Halbach desapareceu em Manitowoc. E uma das últimas pessoas com quem ela teve contato foi Avery. O resto é fácil de adivinhar: sem pensar duas vezes e sem provas convincentes, o departamento de polícia da cidade partiu com tudo pra cima de Steven e sua família, em uma espécie de vingança pelo processo que ele estava movendo. Com a ajuda da cidade vizinha de Calumet, encabeçada pelo promotor Ken Kratz (uma das figuras mais repugnantes a surgir em uma série de TV em anos), o que temos então é uma investigação cheia de erros e procedimentos questionáveis, que vão desde provas plantadas até manobras para incriminar Steven Avery.

Todo esse processo foi gravado e registrado em tempo real pela dupla de diretoras, e o resultado é um documento contundente que expõe o lado menos amigável e, no mínimo, repulsivo do sistema judicial norte-americano. Não há nada da eficiência, da transparência e do senso de justiça que nos é vendido através de séries como Law & Order, CSI e Criminal Minds. O que vemos em Making a Murderer é uma gigantesca manipulação que tem apenas um objetivo: incriminar Steven Avery. 

Totalmente produzido com cenas reais, a série mostra passo a passo o desenvolvimento do processo, culminando com o julgamento de Steven e seu sobrinho, acusados do crime. Se bem que o termo “julgamento" aqui adquire um novo significado, já que o que se vê na tela é um desfile de manobras, provas questionáveis e depoimentos que beiram o surreal. Enquanto isso, você, que está sentado no sofá em frente à TV, vai sendo tomado por uma indignação cada vez maior, não conseguindo acreditar no que está assistindo.

A repercussão de Making a Murderer foi tamanha que além da série ter se transformado em um dos maiores sucessos recentes do Netflix, levou também a um debate público sobre o polêmico caso envolvendo Avery. Megyn Kelly, apresentadora do conservador Fox News, realizou um debate ao vivo entre o promotor Ken Kratz e Dean Strang, um dos advogados de Steven. Simultaneamente, um abaixo-assinado que já conta com mais de 300 mil assinaturas pediu ao presidente norte-americano, Barack Obama, que perdoasse Avery, o que levou a Casa Branca a divulgar uma nota oficial sobre o caso, afirmando que a condenação havia acontecido na esfera estadual e que eles não poderiam intervir no assunto. E, nos últimos dias, o próprio Avery entrou com um pedido de anulação do julgamento, cuja resposta ainda não foi dada pela justiça dos Estados Unidos.

A questão é que a história de Steven Avery lança inúmeras perguntas sobre a eficácia do sistema judicial e penal, questionando a forma como toda essa engrenagem funciona. Um dos pontos-chave é que partimos da ideia que os policiais, detetives e oficiais envolvidos nesses processos são isentos e buscam apenas a verdade, o que muitas vezes não é o caso. E a simples constatação desse fato deveria ser suficiente para derrubar toda a pirâmide envolvida nesse segmento essencial da sociedade, gerando inúmeras consequências.

Muito mais do que um programa de TV, Making a Murderer, como já dito, é um documento poderoso sobre todo o processo envolvendo Teresa Halbach e Steven Avery, que fica ainda mais forte por revelar reviravoltas dignas de um elaborado enredo ficcional, mas que realmente aconteceu. Com a enorme repercussão da série não apenas nos Estados Unidos, mas em diferentes partes do mundo, será muito interessante acompanhar os próximos eventos de toda essa história. O canal Investigação Discovery, por exemplo, já anunciou que produzirá um novo programa sobre o caso, apresentando novas evidências.

A conclusão de toda essa história pode ser resumida nas palavras de Jerry Buting, que faz dupla com Dean Strang na defesa de Avery: "você pode mesmo jamais cometer um crime, mas nada impede que a polícia te acuse de ter cometido um crime."

E isso, meus caros, é um problema e tanto.


Saga Volume 2 (Devir, 2015)

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Desde que foi publicada nos Estados Unidos, em março de 2012, Saga se tornou uma das HQs mais vendidas do mercado norte-americano. Vencedora de diversos prêmios, entre eles os respeitados Eisner (por três vezes, em 2013, 2014 e 2015) e Hugo Awards, a história é um dos maiores e melhores eventos dos quadrinhos nos últimos anos.

Escrita por Brian K. Vaughan (X-Men, Capitão América, Homem-Aranha) e ilustrada por Fiona Staples (Authority, Jonah Hex), Saga é uma ficção científica que conta a história de amor entre Alana e Marko, naturais de planetas historicamente rivais. É uma espécie de Romeu e Julieta misturado com Star Wars e temperado com alguns toques de Game of Thrones, tudo imaginado de maneira a contar uma história cativante e original. Com diálogos muito bem escritos, a trama conta com a linda arte de Staples, dona de um traço limpo e elegante que resulta em páginas donas de uma beleza indiscutível. O trabalho de concepção visual dos personagens é sensacional, como o Príncipe Robô cuja cabeça é um monitor de computador (e há muito mais nas páginas, sempre).

Partindo de arquétipos universais como o amor impossível, a guerra entre povos rivais, a relação entre diferentes raças e o domínio do mais forte sobre a resistência do mais fraco, Vaughan e Staples ainda inserem figuras do imaginário pop como dinossauros, ciclopes, centauros e seres medievais em um enredo que aponta sempre para o futuro. Utilizando o narração em off como fio condutor e ferramenta complementar da trama - sendo que este recurso fica a cargo de um bebê com poucos dias de vida -, Saga é extremamente cativante e ganha o coração do leitor desde as suas primeiras páginas. 

Adulta, elaborada e visualmente muito rica, a HQ não tem nada a ver com o universo de super-heróis ou com publicações destinadas ao público infantil, os estereótipos mais comuns associados às histórias em quadrinhos (um exemplo: estava lendo o Volume 2 durante as minhas férias, e minha mãe perguntou porque eu estava com uma revista do Matias na mão - não era dele não, Dona Elzira, era minha mesmo). 

O primeiro encadernado de Saga foi publicado no Brasil no final de 2014 pela Devir. O segundo volume chegou às bancas e livrarias no final de 2015, pela mesma editora. E aí está o único problema disso tudo: a grande demora da Devir em disponibilizar no mercado nacional as edições. É tudo muito bem feito, o trabalho é lindo, com capa dura e papel de alta qualidade, mas não dá pra entender porque o enorme intervalo entre um volume e outro, ainda mais ao constatarmos que  a revista original já passou de 30 edições lá fora e trata-se de uma série aclamada tanto pelo público quanto pela crítica. Pra você ter ideia, os dois encadernados lançados por aqui trazem os volumes de 1 a 6 e 7 a 12, sendo que já foram disponibilizados nos Estados Unidos mais três encadernados - dois deles durante 2014 e o último em setembro de 2015. Vamos lá Devir, vocês podem fazer melhor.

Independentemente deste problema, Saga é uma HQ sensacional e que faz jus à toda repercussão e reconhecimento que tem recebido. Se você é um leitor de quadrinhos, ou mesmo para quem quer se iniciar neste universo incrível, eis aqui um item indispensável.



17 textos sobre David Bowie

quarta-feira, janeiro 13, 2016

A morte de David Bowie me deixou chocado, e acredito que a maioria das pessoas, ao saber da partida do camaleão, sentiu algo similar. Bowie sempre foi um dos meus artistas preferidos, além de autor de várias canções que estão na trilha da minha vida: “Life on Mars?”, “Changes", “Song for Bob Dylan”, “Ziggy Stardust”, “Heroes" e “Sound and Vision”, além de muitas outras.

Ontem ouvi pela primeira vez Blackstar. O disco é violento. Lindo, emocional, com canções fortíssimas, e que ganham ainda mais significado ao sabermos que David gravou o trabalho sabendo que seria o seu último álbum. 

Abaixo, estão alguns textos excelentes que li nos últimos dias sobre o inglês, indo de análises de Blackstar, passando pela repercussão de sua morte e a análise de sua carreira e influência. 

Um pequeno tributo de todos nós, que amamos a música, a esse gênio singular.




















12 de jan de 2016

Os Oito Odiados, a nova obra-prima de Quentin Tarantino

terça-feira, janeiro 12, 2016

Oitavo filme de Quentin Tarantino, Os Oito Odiados (The Hateful Eight no título original) foi lançado no dia de Natal nos Estados Unidos e está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil. Como o título dá a entender, trata-se de um filme de western, uma homenagem do diretor a um dos mais populares gêneros cinematográficos.

Trabalhando novamente com atores com os os quais possui uma relação bastante forte como Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Michael Madsen e Tim Roth (completam o elenco principal Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Bruce Dern, James Parks e Channing Tatum), Tarantino entrega uma obra repleta de referências não apenas ao cinema (característica onipresente em sua filmografia), mas também ao teatro. 

Filmado praticamente em apenas uma locação (a estalagem onde 95% da história se passa), Os Oito Odiados é marcado fortemente por uma das marcas registradas do diretor: os diálogos. O foco está sempre nos personagens e na interação entre eles, com interpretações excepcionais de Samuel L. Jackson, Walton Goggins e Tim Roth (este último praticamente incorporando Christoph Waltz, o inesquecível Coronel Hans Landa de Bastardos Inglórios). 

Dividido em oito capítulos (um recurso já utilizado anteriormente por Tarantino e que continua eficaz), o filme é praticamente uma peça de teatro filmada. A estalagem onde se passa a história é um grande salão sem divisórias, transmitindo para o espectador a experiência de estar em uma sala presenciando a trama. Os planos e cortes, sempre longos e bem feitos, reforçam ainda mais essa sensação. Fato que se torna pra lá de evidente quando, em um flashback, o próprio Quentin Tarantino surge em uma locução em off e um dos personagens repassa o texto e os papéis dos personagens, para em seguida esconder-se no sótão em uma metáfora que remete ao diretor que se esconde na coxia.

A economia de locações pode dar a impressão de que Os Oito Odiados possa ser um filme menor de Tarantino, sem a riqueza de cenários e situações de títulos como Bastardos Inglórios e Django Livre, mas basta começar a assistir o filme para perceber o quão inspirado e rico é o roteiro. Com grande presença de violência visual (outra das características do diretor, e que nesse caso levou a película a ser classificada como imprópria para menores de 18 anos), Os Oito Odiados mantém-se na área de domínio de Tarantino e é um grande exercício de estilo do diretor.

A cereja do bolo é a trilha sonora, a cargo do icônico Ennio Morricone, autor de trilhas para Um Por Punhado de Dólares, Três Homens em Conflito e outros clássicos do western spaghetti.

Os Oito Odiados é mais um grande filme de Quentin Tarantino, afirmação que cada vez mais soa como um pleonasmo de redundância. Sorte nossa!

Jack Daniels anuncia edição especial em homenagem a Lemmy

terça-feira, janeiro 12, 2016

Bebida preferida do falecido Lemmy Kilmister e de uma enorme quantidade de músicos - Frank Sinatra, inclusive, foi enterrado com uma garrafa de Jack Daniels ao seu lado -, o tradicional e icônico whisky norte-americano terá uma edição especial em memória ao líder do Motörhead.

Ainda não foram revelados detalhes e nem a data de lançamento do The Lemmy, mas alguém tem dúvida de que será um sucesso?

Barulho Infernal: A História Definitiva do Heavy Metal (Conrad Editora, 2015)

terça-feira, janeiro 12, 2016

Com 720 páginas e literalmente milhares de informações, Barulho Infernal é uma das obras sobre heavy metal mais completas já publicadas no Brasil. Lançado originalmente em 2013 nos Estados Unidos, o livro traz mais de 250 entrevistas compiladas pelos jornalistas Jon Wiederhorn e Katherine Turman, em um trabalho meticuloso e que faz jus a um dos mais populares gêneros musicais do planeta.

Organizado em capítulos que contam a história dos subgêneros mais populares da música pesada, o livro traz os próprios músicos envolvidos no processo contando como tudo aconteceu. Assim, ao invés de um texto contextualizando tudo, o que temos é Tony Iommi, Ozzy e praticamente todo músico que teve o seu nome envolvido com o heavy metal contando detalhes, curiosidades e histórias de suas bandas e carreiras. Esse método, extremamente eficaz devido à ótima edição de Wiederhorn e Turman, imprime uma enorme profundidade e veracidade à Barulho Infernal, transformando a obra em um documento de inestimável valia para quem consome heavy metal ou quer apenas saber mais sobre o nascimento e desenvolvimento do estilo.

Das origens com Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Blue Cheer e MC5, passando por pioneiros como Alice Cooper e Judas Priest, transitando pela New Wave of British Heavy Metal, pelo thrash, death e black, além de gêneros mais recentes como o industrial, o metalcore e a New Wave of American Metal, o que temos é um estudo incrivelmente detalhado das muitas vertentes que fazem do metal um gênero tão apaixonante. Ouvir da própria boca dos músicos detalhes de como cada disco foi gravado, de como era a cena em cada época, das sempre nababescas experiências com drogas e sexo, além das tretas envolvendo nomes famosos, faz da leitura das mais de 700 páginas uma tarefa surpreendente leve e nada cansativa.

Barulho Infernal é um livro espetacular, que documenta como poucas obras já fizeram todo o processo que envolve o heavy metal, da sua origem até os dias atuais. Ao lado de Heavy Metal: A História Completa, de Ian Christie, trata-se da mais abrangente obra sobre o gênero publicada até hoje no Brasil.

Pra fechar, vale mencionar o excelente trabalho realizado pela Conrad Editora, que publicou Barulho Infernal em uma linda edição com capa dura aqui no Brasil, com tradução exemplar (são raros os deslizes) e com páginas em papel couché trazendo dezenas de fotos coloridas dos mais variados artistas. 

Se você ouve heavy metal, tá na hora de ler também sobre o gênero.

Os 10 melhores discos de 2015 na opinião dos leitores da Collectors Room

terça-feira, janeiro 12, 2016

Estamos de volta após uma breve pausa. E, como sempre, retornamos com a lista de melhores do ano dos leitores da CR. Durante quase um mês, convidamos você que acessa o site todos os dias a dividir com a gente quais foram os melhores lançamentos de 2015.

O resultado, com os 10 melhores álbuns do ano que acabou há algumas semanas atrás, está logo abaixo. Boa lista, gostei ;-)

1 Baroness - Purple
2 Ghost - Meliora
3 Steven Wilson - Hand. Cannot. Erase.
4 Iron Maiden - The Book of Souls
5 Lamb of God - VII: Sturm und Drang
6 Riverside - Love, Fear and the Time Machine
7 Faith No More - Sol Invictus
8 Trivium - Silence in the Snow
9 Between the Buried and Me - Coma Ecliptic
10 Graveyard - Innocence & Decadence

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