29 de jan de 2016

Robb Flynn posta vídeo criticando duramente a atitude racista de Phil Anselmo

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Robb Flynn, vocalista e guitarrista do Machine Head, publica uma série de textos e vídeos dentro de seus The General Journals: Diary of a Frontman … and Other Ramblings. 


O músico soltou um vídeo criticando duramente a atitude racista de Phil Anselmo ocorrida no último dia 22 de janeiro durante a edição deste ano do Dimebash.

Um trecho da fala de Flynn: "Adeus, Phil Anselmo. Nunca mais tocarei uma música do Pantera enquanto estiver vivo. Se tivermos lugar para racismo no metal, estou fora. Não quero fazer parte disso.”

O vídeo completo pode ser assistido abaixo:




A transcrição completa da declaração de Robb pode ser lida abaixo:

E aí estão as últimas palavras do Dimebash 2016: White Power. O que era, aparentemente, uma piada, pois estavam bebendo vinho branco nos bastidores. Entenderam? Vinho branco, poder branco. Estávamos ouvindo “White Christmas” no backstage, então ele decidiu gritar aquilo.

Eu estava lá e posso afirmar que não havia um Chardonnay ou Pinot Grigio. Na verdade, a única coisa que você estava bebendo, Phil Anselmo, era Becks, uma cerveja alemã. Talvez a piada tenha vindo daí, não? Entendeu? Cerveja alemã, poder branco. Histérico.

Em primeiro lugar, quero aplaudir Chris R, o corajoso YouTuber que colocou essa inflamatória ação no ar, após ter editado originalmente. Entendo porque ele fez isso, era demais para acreditar. De certa forma, isso não deveria ser visto. Mas agradeço por ter decidido fazer a coisa certa, mesmo sabendo que precisaria enfrentar a ira da comunidade metálica. Mais de mil comentários no YouTube, outros quinhentos no Blabbermouth. Tiveram que fechar a caixa de comentários. Mesmo coisa no MetalSucks, que fez um pertinente editorial sobre não deixar Phil Anselmo passar incólume novamente.

O mais louco é que a maioria das pessoas dizem que devemos deixar passar, nos chama de PC Police, time da justiça social, falam que precisamos deixar de ser maricas quando alguém grita “white power” e faz saudações nazistas, liberais isso, liberais aquilo. Só no Metal isso acontece. Fosse Chad, do Nickelback, Justin Bieber, Tom Brady ou Lars Ulrich, cabeças iriam rolar. Imaginem o que aconteceria se Lars Ulrich gritasse “white power” no palco. Talvez ele até arrumasse alguns apoiadores, com aqueles argumentos idiotas de porque não ter orgulho branco se há orgulho negro.

Quem pensa assim, precisa de umas aulas de história. Brancos nunca foram oprimidos por negros na América. Negros possuem uma longa história, não apenas de escravidão, mas de opressão nacional, estadual, municipal, de seus condados e vizinhos. Posso afirmar, vivendo no norte da Califórnia. Comprei minha segunda casa, que hoje alugo. No contrato de 1950 está escrito: “Negros não podem morar nessa vizinhança”. Isso em um local chamado Pleasant Hill. Talvez não fosse tão prazerosa se você fosse negro. Esta é a diferença. Não vou nem entrar na história do racismo, dos negros que foram vendidos pelo próprio povo africano… Vamos nos centrar na vida atual, os últimos quarenta, cinquenta anos. Nenhum branco foi oprimido por um negro. Ao contrário. Não é legal gritar “poder branco” e depois falar em piada sobre vinho branco, quando não havia nenhum.

O fato é que estive no Dimebash e me diverti muito. Toquei com Dave Grohl, interagi com Zakk Wylde, Robert Trujillo, Dave Lombardo… Foi uma grande vibe. Quando estava nos bastidores, trombei com Phil e decidi começar uma conversa, já que tocaríamos duas músicas do Pantera juntos. Excursionamos duas vezes em parceria, no ano de 1997. Em trinta segundos de bate-papo ele, bêbado, achou interessante dizer que odiava a “era negra” do Machine Head, referindo-se ao nosso terceiro álbum, The Burning Red. Disse que odiava cada segundo com paixão, além de nosso estúpido visual. Apenas ri em sua cara. Querer me julgar pelo visual e a música do passado? (Nota: neste momento, aparece na tela uma foto da fase “glam” do Pantera).

O mais incrível de tudo é que estamos com medo de falar. O próprio Chris R teve receio de publicar o vídeo. Eu estou com medo enquanto faço esse. Pois isso faz lembrar todas as vezes em que nós usamos a expressão “nigger”. E eu já a disse antes, quando tinha meus vinte anos. Mas, em algum ponto da vida, você muda. Acabamos discutindo, dentro da banda, se deveria responder a tudo isso ou não. E o que me fez sentir força é que eu estava no palco com você, Phil. E agradeça que eu já tinha saído quando você disse aquela merda estúpida. E ninguém fala nada.

Sei desse seu comportamento de gritar “sieg heil” e usar expressões de poder branco em várias turnês. Muitas pessoas me contaram isso. Pergunto porque não falam nada e eles respondem que amam o Pantera e não querem começar encrenca com você, pois é um cara grande, assustador. Mas chega. Acabou. Há certo tempo, não me sinto mais conectado com a comunidade do Metal. E é justamente por não entender como esse tipo de merda é tolerada, aceita. Devemos linchar Phil Anselmo e decapitá-lo? Não. Todos podem falar esse tipo de coisa. Você vive na América. Tem liberdade de expressão. Mas isso não o poupa de críticas. Pois você errou. Quem não se sentiu ofendido que vá se foder. Não há espaço para isso no Metal. Se houver, me cortem fora.

Adeus, Phil Anselmo. Nunca tocarei uma música do Pantera novamente enquanto estiver vivo. E para quem apoia esse tipo de atitude, até logo. Me cortem fora. Não quero mais fazer parte disso.


(Tradução: João Renato Alves, da Van do Halen)


Metal Hammer publica longo texto explicando porque a atitude racista de Phil Anselmo não deve ser ignorada

sexta-feira, janeiro 29, 2016

O texto, escrito pelo jornalista Paul Brannigan e publicado no site da principal revista especializada em heavy metal do planeta, pode ser lido na íntegra abaixo:

PORQUE A EXPLOSÃO DE PODER BRANCO DE PHIL ANSELMO NÃO DEVE SER IGNORADA

No fim de semana, um vídeo feito por um fã durante a edição deste ano do Dimebash, um concerto beneficente anual que reúne all-stars em memória a Dimebag Darrell, começou a sirgir online. Foi, em todos os aspectos, uma noite marcante, com Dave Grohl, Phil Anselmo, Robb Flynn, Zakk Wylde e integrantes do Metallica, Alice in Chains, Stone Sour e muito mais unindo forças para prestar homenagem a Dimebag e arrecadar fundos para o Ronnie James Dio Stand Up and Shout Cancer Fund. As filmagens mostrando Grohl, Anselmo, Robert Trujillo e Dave Lombardo tocando “Ace of Spades” do Motörhead foi especialmente comovente, tanto uma saudação à memória de Lemmy quanto um poderoso lembrete do senso comum de camaradagem e comunidade que a une a família heavy metal mundial.

E então ontem um segundo vídeo com 21 segundos apareceu no YouTube mostrando Phil Anselmo saudando a multidão após o show com um gesto Sieg Heil e uma mensagem “white power”, fazendo com que todas as boas vibrações vindas daquela noite se dissipassem.

As reações às ações de Anselmo foram variadas, e, em alguns casos, alarmantes. Alguns grandes sites especializados em rock, no momento de escrever sobre o evento, não mencionaram o incidente, um descuido vergonhoso e negligente, que mostra uma grande fraqueza editorial. Outros meios de comunicação optaram por uma cobertura com uma linguagem conciliadora, falando sobre o que Anselmo “pareceu" ter dito e “pareceu" ter feito, como se, talvez, não sejamos capazes de verificar as provas apresentadas diante de nossos olhos e ouvidos. Vamos ser claros: na noite de 22 de janeiro um dos vocalistas mais respeitados e emblemáticos em nosso mundo estava em um palco em Los Angeles, onde fez uma saudação nazista e gritou um slogan da supremacia branca. Esse são os fatos, não vamos fingir o contrário.

Poucas horas depois do vídeo aparecer online, Anselmo postou uma resposta a respeito da controversa filmagem. Afirmando que não iria soltar nenhum pedido de desculpas, insistiu que estava apenas brincando, que se tratava de uma “piada interna”, uma referência aos músicos presentes no evento estarem bebendo vinho branco, e concluiu: “Alguns de vocês precisam ser mais casca grossa”. 

“Há uma infinidade de filhos da puta para escolher com uma agenda mais realista”, acrescentou o cantor. “Porra, amo todos vocês, detesto todos vocês, é isso”. 

Vamos embora então, não há nada pra ver aqui.

Notavelmente, esta explicação francamente risível parece ter convencido uma parte significativa da comunidade rock e metal, levando jornalistas, figuras da indústria e músicos - normalmente muito rápidos em partilhar suas opiniões profundamente enraizadas e extremamente importantes em suas redes sociais - a ficaram inexplicavelmente calados sobre este tema específico. Por quê? A resposta, assumindo que a indústria não se tornou um paraíso para os apologistas racistas, só pode ser que não há um constrangimento generalizado em um membro nos deixar tão mal e pra baixo. Ou isso, ou há um monte de covardes neste negócio, com medo das consequências de se posicionar contra comportamentos repreensíveis.

Pelo seu alcance global, o lado “indústria" da comunidade heavy metal é relativamente pequeno. Cerca da metade dos jornalistas da Metal Hammer - este incluído - entrevistou Phil Anselmo pelo menos uma vez nos últimos 25 anos. Entre nosso círculo pessoal e profissional há dezenas de pessoas boas que já promoveram shows para as bandas de Anselmo, arranjando direitos de mídia para o homem, compartilhando festivais com ele ou simplesmente se divertindo em uma noite qualquer. Quase todas essas pessoas tem uma história que ajuda a promover a imagem do cantor como dono de um intimidante e inflexível caráter, dono de grande sagacidade, língua afiada e um temperamento explosivo - mas, em última análise, dono de um bom coração.

Além da indústria, é claro, há os incontáveis milhares de headbangers que já compraram ingressos para assistir o vocalista do Pantera, Down e Superjoint Ritual, e os milhões que se sentem conectados a ele através dos monumentais discos que ele gravou. Essas pessoas, depois de investirem tanto de suas vidas na arte criada por Anselmo, também irão identificar no vocalista o tipo de homem que é um “companheiro de fé”, um cara o qual você ficaria orgulhoso de chamar de irmão do metal. Esta é, provavelmente, a razão pela qual Chris R, o cara que postou os vídeos no YouTube, originalmente havia decidido cortar da edição final as ações de Anselmo, antes de mudar de ideia.

A verdade desagradável, no entanto, além da imagem icônica de Phil Anselmo é que o homem possui um histórico anterior nesse assunto. Após o lançamento de Far Beyond Driven (1994), o vocalista foi entrevistado pela MTV enquanto vestia uma camiseta da controversa banda nova-iorquina da crossover Carnivore com a imagem de três números 7, um símbolo empregado pelo grupo de supremacia branca sul-africano Afrikaner Resistance Movement.

Em março de 1995, durante um show do Pantera em Montreal, o vocalista disse à multidão que “o Pantera não é uma banda racista” e que ele e seus companheiros no grupo tinham “amigos de todas as cores e tipos”, mas que ele teve um problema com artistas de rap por eles “mijarem na cultura branca”. Além disso, Anselmo continuou, fazendo um apelo à comunidade afro-americana para acabarem com os “crimes de preto”, o que deve ser interpretado como “não há problema al matar brancos”. Pessoas brancas, insistiu o vocalista, precisavam ter mais orgulho em ser quem são. “Hoje à noite é uma coisa branca”, conclui Anselmo.

O cantor mais tarde pediu desculpas pelo seu discurso e as “palavras prejudiciais que podem ter ofendido racialmente o nosso público”, mas a controvérsia o perseguiu durante anos. Nos últimos anos, em seus momentos mais reflexivos, Anselmo não demorou a reconhecer o poder do simbolismo e da fala para propagar ódio e divisão. Em uma entrevista de 2015 para o site Hard Rock Haven, admitiu que “a posteriori” ele não teria incorporado uma bandeira confederada à arte da capa do primeiro álbum do Superjoint Ritual, e afirmou que o conteúdo lírico do segundo disco da banda - A Lethal Dose of American Hatred - foi lamentável. “Tenho um senso de humor louco e faço um monte de bobagens”, disse ele.

Então, devemos atribuir as ações de Phil Anselmo no Dimebash como outro exemplo do seu “senso de humor louco” e interpretar a saudação nazista como uma simples brincadeira? Isso parece um modo bem generoso de enxergar o que aconteceu. Anselmo é um racista? Ele constantemente nega a acusação, seja citando sua admiração por boxeadores negros ou o fato de já ter tido uma namorada negra, como se isso provasse alguma coisa -, mas o fato é que a sua atitude no palco do Dimebash não o ajuda em nada.

Uma resposta comum aos artigos sobre a atitude de Phil Anselmo foi “quem se importa?”. Por trás dessa reação contundente, ainda que em um modo inconsciente, está o argumento de que seria sensato separar o artista da arte que ele produz. É um ponto válido: certamente o Rock and Roll Hall of Fame seria muito menos povoado se todos os abusadores de crianças, espancadores de mulheres e racistas fossem eliminados de suas fileiras.

Mas enquanto jamais alguém irá sugerir que você comece a atear fogo em seus discos do Pantera, Down ou Superjoint Ritual em resposta aos acontecimentos de 22 de janeiro, como uma comunidade devemos ser capazes de apontar os erros quando eles acontecem e não fechar nossos olhos para a intolerância, o preconceito e a ignorância, não encarando e enfrentando questões difíceis. O metal possui uma reputação orgulhosa de inclusão e tolerância, de abrigar e nutrir os oprimidos e maltratados, e essas características mantiveram-se fundamentais para a cena, transformando-se em um movimento verdadeiramente global.

Seria ingênuo fingir que não existem racistas à espreita dentro dessa comunidade feliz - leia os comentários abaixo do post sobre as ações de Anselmo na página da Metal Hammer no Facebook se você tiver alguma dúvida disso -, mas assim como figuras célebres do heavy metal buscaram inspiração no lado mais escuro da natureza humana, uma cena que elogia a individualidade, a diversidade e a liberdade de expressão não combina com o pensamento racista intolerante. Na mesma semana em que o mundo marca o Dia do Memorial pelo Holocausto não deve ser realmente preciso dizer que os símbolos de extrema-direita para cooptação e seus slogans não são corretos, e Phil Anselmo não possui um passe livre por ser um ícone aos nossos olhos. 

Fodam-se os nazistas e foda-se o ódio racial: abrigar todos os credos e todos os tipos de gente é o que nos torna completos e mais fortes.

(Tradução: Ricardo Seelig)


Um dos maiores sites sobre heavy metal dos EUA publica editorial repudiando as atitudes racistas de Phil Anselmo - leia a íntegra

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Um dos maiores e mais influentes sites norte-americanos sobre heavy metal, o Metal Sucks, publicou um longo editorial escrito pelo seu fundador, Axl Rosenberg, a respeito das atitudes racistas de Phil Anselmo. 

O texto, do qual concordamos plenamente, está reproduzido abaixo, e é indicado para todos analisarmos o que está acontecendo com Anselmo e com alguns setores do heavy metal.

A COMUNIDADE METAL DEVE PARAR DE IGNORAR AS DECLARAÇÃO RACISTAS DE PHIL ANSELMO

É hora de todos nós pararmos de deixar as coisas fáceis para Phil Anselmo.

Um usuário do YouTube chamado Chris R postou um vídeo online, filmado na edição deste ano do Dimebash, ocorrido na sexta, 22 de janeiro, em Los Angeles. Chris admitiu que iria cortar da edição final o trecho que postou, mas que decidiu publicá-lo porque “as pessoas merecem ver isso”.


Anselmo, posteriormente, respondeu assim:



Ok. Então Anselmo estava brincando. Ele não é um racista! Inferno, ele disse: “Hoje em dia, eu não quero ter nada a ver com essa merda de a bandeira confederada”. Então está tudo bem, certo?

Bem, na verdade, não. Porque vamos ser realistas: esta não é a primeira vez que Phil Anselmo é o centro de uma polêmica semelhante.

Por exemplo: o discurso abaixo foi feito em um show de 1995, em que o cantor afirma não ser racista antes de fazer uma série de declarações racistas. É incrivelmente perturbador, não apenas por causa do sentimento, mas porque há uma certa doença por trás da lógica da intervenção de Anselmo. É fácil ver como uma criança que observa Phil Anselmo, ou um adulto que simplesmente não é muito bom em pensar por si mesmo, pode ouvir isso e achar que faz sentido. Afinal, o que há de errado com os brancos tendo orgulho da sua herança cultural, não é mesmo?



O argumento que Anselmo negligencia é o contexto histórico e social de uma frase como “orgulho branco”. Ele é ignorante a ponto de pensar que as minorias não tem uma experiência que é única na América e no resto do mundo. A América branca nunca poderá saber realmente o que é ser negro. Anselmo está reagindo ao reconhecimento cultural moderno deste fato de uma forma que, quando você começa a pensar, é uma maneira invejosa e juvenil.

Phil Anselmo tinha 27 anos quando fez essas observações, mas é difícil descartá-las como uma indiscrição juvenil. Em 2003, quanto tinha 35 anos, um dos projetos de Anselmo, o Superjoint Ritual, lançou um disco intitulado A Lethal Dose of American Hatred (Uma Dose Letal do Ódio Americano). Este álbum traz uma canção chamada “Stealing a Page or Two from Armed and Radical Pagans” (“Roubando uma página ou duas de pagãos armados e radicais”), cuja letra contém algumas frases encantadoras sobre “não ter nada mais do covarde Maomé” e “não sentir nenhuma piedade sobre os elitistas judeus”.

Então Anselmo também estava brincando há 20 anos atrás? Será que ele tirou isso de algumas das performances de Andy Kaufman de décadas anteriores? Parece improvável.

Então, porque a Comunidade Metal continua a tolerar um comportamento como esse?

A resposta é simples: nós somos covardes.

Somos fãs do Pantera e do Down, e, sim, do Superjoint Ritual, e não queremos ter que enfrentar o dilema de admirar ou não alguém por seu talento mesmo detestando suas visões políticas pessoais. Não parecemos ter esse dilema quando lidamos com Varg Vikernes ou Dave Mustaine, mas, de alguma forma, Phil Anselmo alcançou o status de intocável. Eu não estou exatamente certo do porque disso, mas suspeito que tenha algo a ver com o fato de que o Pantera ganhou destaque em um momento em que o metal estava sendo empurrado de volta para o underground, como resultado de o grunge ter se tornado popular. A carga do Metallica havia acabado e a banda tinha se transformado no Alternica. O Anthrax fazia a transição, deixando de ser uma banda de thrash e passando e a ser uma banda de rock. O Megadeth perseguia desajeitadamente a glória comercial, e veículos mainstream tradicionais como MTV e Rolling Stone ignoravam bandas que continuavam a produzir algo interessante (como Morbid Angel e At the Gates). O Pantera alcançou um nível de sucesso em que eles foram, para todos os efeitos, a face pública do metal na maior parte da década. E a trágica morte de Dimebag aumentou ainda mais a lenda - todo mundo agora olha para o passado com saudosismo e ninguém se lembra de como ficamos decepcionados com o último álbum do grupo, Reinventing the Steel. Acho que tudo isso incutiu em muitos de nós uma devoção cega, que, por sua vez, permitiu que o comportamento de Anselmo passasse incólume pelo escrutínio dos meios de comunicação e se torna-se o pior segredo mais bem guardado do heavy metal.

As coisas ficam ainda mais complicadas se você trabalha na indústria da música: todos são amigos de Phil Anselmo ou amigos de um amigo do cantor. As pessoas querem estar em turnê com ele ou de alguma forma se beneficiar de sua notoriedade, e ninguém quer jogar fora seus fãs, muitos deles fiéis a uma falha de seu caráter e não muito dóceis ao serem confrontados com qualquer crítica ao seu frontman favorito (as represálias a um comentário negativo em relação as posições de Mustaine são relativamente poucas, mas vamos obter muito mais mensagens de ódio se nos atrevermos a questionar a visão de mundo de Anselmo, isso eu garanto).

Então, nós olhamos para o outro lado. Nos lembramos de todas as brincadeiras e piadas racistas que ouvimos atrás de portas fechadas, e nos convencemos de que não é grande coisa, que não é algo que valha a pena chamar a atenção. Anselmo afirma que estava só brincando e escolhemos acreditar nele porque queremos acreditar nele, porque queremos ser capazes de pular enlouquecidos com “5 Minutes Alone” sem considerar o significado da letra - “você usou a cor da minha pele com um contador racista”. 

Mas é um absurdo. Não há absolutamente nenhuma evidência que sugira que Phil Anselmo estava apenas brincando. Se há alguma coisa é o fato de que esta questão tem criado diversos questionamentos sobre sua conduta ao longo de sua carreira, e sugere que é algo que ele acredita tão fortemente que não pode ser ajudado, mas sim algo que precisa colocar para fora, mas quando sabe que isso é algo que o faz parecer ruim. É por isso que ele pode condenar a bandeira confederada, mas seus sentimentos sobre diversas minorias queimam como carvão quente em suas mãos, e ele simplesmente os deixa cair. É a Síndrome de Mel Gibson: o cara trabalha em uma indústria cerca por judeus e afro-americanos, mas ao beber demais começa quase involuntariamente a vomita insultos racistas e anti-semitas.

Então, a má notícia é essa: Phil Anselmo, provavelmente, é um racista.

A boa notícia: isso realmente não significa que você deve queimar todos os seus discos. Você tem a capacidade de não pensar a respeito dessas questões enquanto desfruta de sua música. É uma escolha sua.

Mas todos nós devemos parar de defender Phil Anselmo. Porque não há nada que possa realmente ser defendido em suas atitudes.

(Tradução: Ricardo Seelig)

Discoteca Básica Bizz #010: Os Mutantes - Os Mutantes (1968)

sexta-feira, janeiro 29, 2016


A conhecida falta de memória nacional nada mais é do que a falta de disposição, compreensão e competência das instituições - desde o governo até a imprensa especializada - em apoiar a produção e a preservação da cultura brasileira. Não é à toa que muita gente busca no rock americano ou inglês a sua fonte única de inspiração e conhecimento, enquanto as pérolas da MPB permanecem no esquecimento.

"Que pérolas?", pergunta o leitor, atarantado. Pois é. A MPB está na pior - não temos qualquer música vital, forte ou espirituosa. Mas há vinte anos não era assim. Houve a bossa nova, a tropicália (anote aí: "bossa nova" não é uma invenção da vanguarda londrina), coisas que poderiam dar um forte impulso ao rock nacional, em sua busca de identidade. Realmente, não é justo que só a tal "geração AI-5" tenha conhecido o primeiro LP dos Mutantes, lançado em 1968 … eis as pérolas!

Pelo ineditismo para a época e pelo seu distanciamento dos clichês roqueiros, este pode ser considerado o melhor disco do grupo (sem menosprezar os posteriores, Mutantes de 1969 e A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado de 1970). Rita Lee, Arnaldo e Serginho Baptista faziam música, está na cara, pelo puro barato de criar, de se divertir. 

Assim como outras obras-primas da tropicália, este disco contou com o auxílio do George Martin (nota: produtor dos Beatles) brasileiro, Rogério Duprat. Sintetizar orquestralmente as ideias lisérgicas que os Mutantes simplesmente jorravam não deve ter sido fácil, mas com certeza Duprat curtiu adoidado. 


Vejam só: o disco abre com "Panis et Circensis", de Caetano e Gil. De repente a música se interrompe como se alguém tivesse tropeçado no fio do toca-discos. Em seguida ela continua para acabar em meio a ruídos de sala de jantar, com talheres e conversas familiares. Tudo isso com orquestração digna de aberturas wagnerianas. Depois vem "Minha Menina" (Jorge Ben) e "O Relógio", de autoria do grupo, um dos grandes momentos deste lado, graças à estranheza do contraste entre a melodia leve e o non-sense da letra ("O relógio parou / desistiu para sempre de ser antimagnético, 22 rubis / eu dei corda e pensei / que o relógio iria viver / pra dizer a hora de você chegar").

"Maria Fulô", de Leonel de Azevedo e José de Sá Roris, cai num clima de quilombo, com marimbas, kalimbas e cuícas no maior samba. "Baby", de Caetano, é cantada (imaginem só) por Arnaldo. A última faixa do lado A é "Senhor F" ("O senhor F / vive a querer / ser senhor X / mas tem medo / de nunca voltar / a ser senhor F outra vez"), mais uma pérola de autoria do grupo, com arranjo inspirado (assim como em outros momentos desde LP) em coisas do Sgt Pepper’s, dos Beatles.

O lado B abre com "Bat Macumba" e segue com Rita cantando, à la Françoise Hardy, o clássico francês "Le Premier Bonheur du Jour". "Trem Fantasma", Mutantes em parceria com Caetano, destaca uma bela combinação de vozes com metais. "Tempo no Tempo", versão de uma música dos The Mamas & The Papas, tem um solo de carrilhão no final, e "Ave Gengis Khan" encerra o disco num pique de George Harrison, com fortes toques orientais.

É isso aí. De resto, só mesmo ouvindo. Os climas mudam, de faixa para faixa, da água para o vinho. Sem nenhum preconceito, os Mutantes fizeram uma viagem psicodélica pela música universal, bastante influenciados pelos Beatles e auxiliados pelas partituras mágicas de Rogério Duprat. É um disco de MPB, tratado com o espírito efervescente da época, o espírito de libertação das formas e padrões. Por isso é um disco que os roqueiros brasileiros devem conhecer. Junte-se ao coro dos que exigem o relançamento dos LPs dos Mutantes. "Tem que dar certo…"

(Texto escrito por Thomas Pappon, Bizz#010, maio de 1986) 

28 de jan de 2016

Algumas opiniões sobre The Astonishing, novo disco do Dream Theater

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Ainda não ouvi o disco. Sei que já vazou, mas estou aguardando o lançamento oficial, que ocorrerá nesta sexta, dia 29/01. Alguns amigos estão enlouquecidos com o disco, afirmando que é uma obra-prima. E, como você pode ver nos textos abaixo, retirados de diversos reviews publicados pela imprensa especializada mundo afora, a crítica também está embasbacada com o álbum.

Já ouviu The Astonishing? Então publique nos comentários a sua opinião sobre o disco.

Um disco espantosamente complexo e cinematográfico, ambicioso quase ao ponto da loucura.
Metal Hammer

Segundo a própria banda, The Astonishing é o álbum mais ambicioso do Dream Theater. O disco conta uma história sobre a importância da música através da música, e que grupo mais adequado para esta tarefa do que o Dream Theater? A banda deu aos fãs, antigos ou novos, um álbum para ser apreciado por um longo tempo.
Metal Wani

Um disco fantástico, e que se coloca facilmente entre os três melhores registros da banda.
Heavy Metal Geeks

Nos últimos álbuns o Dream Theater havia optado por um caminho fácil, arrastado e preguiçoso do heavy metal. Faltava ao grupo uma vontade de fazer mais e sair da zona de conforto, de provar aos fãs (sejam eles antigos ou recentes) que ainda era possível criar um álbum com a grandiosidade de um Scenes From a Memory Pt. 2. Guardadas as devidas proporções, The Astonishing traz de volta a ambição aos álbuns do Dream Theater. Este disco desperta nos músicos novamente a capacidade de imersão em algo grandioso, tanto musicalmente quanto no que diz respeito às letras. Enfim, temos Dream Theater de corpo e alma – mais uma vez.
Escuta Essa

Poucas bandas poderiam conceber e lançar o exercício de excesso que o Dream Theater fez em The Astonishing. John Petrucci, a mente por trás do projeto, procurou criar algo tão grande quanto Tommy, The Wall e Operation: Mindcrime. Se ele e a banda alcançaram ou não sucesso, é assunto para debate durante um longo tempo. Concebido como uma ópera-rock, The Astonishing não deve ser desmontado na hora do julgamento, mas sim avaliado de maneira holística. Ele foi planejado assim, como uma experiência musical imersiva. Ainda que a audição completa do álbum exija um tempo do ouvinte (são 34 faixas em mais de 2 horas), a história e a música valem o esforço. Em um tempo em que os discos são cada vez mais apenas envelopes embalando singles, o Dream Theater investe no conceito de álbum e na atenção que ele demanda do ouvinte.
All Music

Uma jornada musical com expressão, estruturação, profundidade e orquestrações, juntamente com uma narrativa épica: tudo que o Dream Theater tem lutado desde os seus primeiros dias foi refinado com perfeição em The Astonishing.  Seja como compositores ou como intérpretes, temos o Dream Theater no auge neste novo álbum.
Metal Glory

Simplesmente um ótimo trabalho, ainda que com um número excessivo de baladas e fechamentos bombásticos.
Crossfire Metal

Vamos esquecer os discos que a banda gravou no automático até o encerramento de seu contrato com a Roadrunner, bem como os álbuns com estruturas idênticas, as canções que gritam “isto é Metallica, isto é Tool, isto é Muse”, e o medley sobre alcoolismo. Estamos diante de um disco que irá trazer de volta velhos fãs. É o Dream Theater soando novamente com líder do prog metal.
RockHard Grega



O lado sombrio do metal: Phil Anselmo faz saudação racista em show, e fãs saem do armário para expressar seus preconceitos

quinta-feira, janeiro 28, 2016

Em show realizado dia 22/01 durante o Dimebash, evento tributo ao falecido guitarrista Dimebag Darrell, o vocalista do Pantera, Phil Anselmo, fez uma saudação com o braço direito erguido (semelhante ao que os nazistas faziam para reverenciar Adolf Hitler) e soltou um sonoro “White power!”, tudo isso em cima do palco, pra todo mundo ver. E gravar, já que o episódio foi documento por um fã, conforme mostra o vídeo abaixo:


O que Anselmo, desafeto declarado dos irmãos Darrell, fazia no evento, é algo a ser discutido. Infelizmente, a sua atitude, como era de se esperar, fez muitos “fãs" saírem do armário e postarem mensagens de teor racista nos comentários dos posts relativos ao assunto, publicados pelo Whiplash e pela Van do Halen.

Abaixo, estão alguns destes comentários. Não tive o trabalho de esconder os autores das mensagens porque os próprios, além de claramente se orgulharem de suas posições, ainda fizeram isso utilizando suas redes sociais.

É o lado negro do heavy metal, que possui uma grande parcela do público cada vez mais alinhada com posições políticas conservadoras, racistas e xenófobas. 

Se tiver estômago, deguste a estupidez e a ignorância alheia …








Discoteca Básica Bizz #009: Frank Zappa - We're Only in It for the Money (1968)

quinta-feira, janeiro 28, 2016


Não é exagero considerar indispensáveis a qualquer discoteca bem informada praticamente todos os discos lançados por Frank Zappa. Mas o LP básico para se entrar em contato com o universo de Zappa talvez seja mesmo esta obra-prima de experimentalismo e humor. A começar pelo nome, Nós Só Estamos Nessa Pela Grana, que ironiza a motivação da maior parte das pessoas que já se envolveram de alguma forma com o rock and roll.

O deboche continua na capa, parodiando Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, lançado pouco antes. Conta a lenda que Paul McCartney ficou tão indignado com a brincadeira que acionou seus advogados, processou Zappa e atrasou em alguns meses o lançamento de We're Only in It for the Money

Outra extravagância zappiana foi convidar Eric Clapton, na época o "deus da guitarra", para participar do disco. Ele aceitou e, ao chegar ao estúdio ficou muito surpreso ao ser informado de que não precisaria tocar guitarra. Em vez disso, Clapton aparece simplesmente murmurando algumas frases quase inaudíveis, sepultadas na mixagem final.

Um comentário na contracapa anuncia que "toda esta monstruosidade foi concebida e executada por Frank Zappa, como resultado de algumas desagradáveis premonições sentidas entre agosto e outubro de 1967". Com as antenas ligadíssimas, Zappa sustenta, em plena explosão do movimento hippie, que toda aquela história de flor, paz e amor não passava de papo furado de uma geração anestesiada e inepta. O personagem de uma das canções, "Flower Punk", é um garoto próximo da debilidade mental, que sonha ir a São Francisco para se juntar a uma banda psicodélica. No final da faixa, um toque de sarcasmo: "Neste exato momento/  2.700 microgramas de STP (um alucinógeno) que Flower Punk tomou pouco antes de iniciar a canção / Começam a fazer efeito / Diante de seus ouvidos a cabeça dele explode / Deixando um bizarro resíduo de áudio / Espalhado sobre seu toca-discos adolescente."

Referências "eruditas" não faltam. Além de citações do compositor de vanguarda Edgard Varese, o álbum inclui também um "modo de usar", onde Zappa recomenda expressamente: "Não escute este disco sem antes ter lido A Colônia Penal, de Franz Kafka". 

O clima de contestação política, que atingiria o ponto máximo de efervescência nos meses seguintes, é refletido em "Are You Hang Up?", que descreve os Estados Unidos como um campo de concentração disfarçado, sob controle da polícia e dos nazistas eleitos para o Congresso. 


Mas tudo isso é de menor importância diante da impressionante intensidade sonora de We're Only in It for the Money, o terceiro LP dos Mothers of Invention, editado no início de 1968. O grupo era formado então por Zappa (composições, vocais, guitarra, piano e edição de fitas), mais Billy Mundi (bateria e vocais), Roy Estrada (baixo e vocais), Bunk Gardener (instrumentos de sopro), Jimmy Carl Black (bateria, trompete e vocais) e Motorhead Sherwood (sax soprano e barítono). Uma surpreendente mistura de surf music, rock dos anos 1950, jazz, rhythm and blues e música concreta, além de vinhetas malucas onde mulheres se agridem via telefone e sons de instrumentos acústicos são transformados através de engenhosos truques de estúdio, até ficarem irreconhecíveis. 

We're Only in It For the Money não foi ainda lançado oficialmente no Brasil, embora uma versão nacional pirata tenha circulado alguns anos atrás. Ela é facilmente identificável pelas fotos da capa, muito desbotadas, e pela péssima qualidade de som. Mesmo assim, se por acaso você encontrar este disco por aí, não marque bobeira.

(Texto escrito pot Roberto Navarro, Bizz #009, abril de 1986)

27 de jan de 2016

A morte de David Bowie nas capas de revistas pelo mundo

quarta-feira, janeiro 27, 2016

A morte de David Bowie repercutiu de maneira profunda em todo o mundo. Textos, especiais, retrospectivas: não faltaram matérias mostrando como o Starman foi influente e transformou a vida das pessoas.

Compilamos abaixo as capas de algumas da principais revistas do mundo, mostrando como cada uma delas homenageou David Bowie em suas edições.

E aproveite que estamos falando sobre o nobre inglês e coloque um dos seus discos pra rodar. Sempre faz bem.











Review: Borknagar - Winter Thrice (2016)

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Décimo álbum do Borknagar, Winter Thrice traz a banda norueguesa em um dos mais belos discos de black metal lançados nos últimos anos. Com a experiência e pedigree de um line-up formado por músicos criativos e altamente rodados, o grupo voa alto e sem medo.

A gangorra característica do Borknagar, equilibrando-se entre o black metal e o rock progressivo, segue dando o tom em Winter Thrice. As oito faixas do trabalho transitam, invariavelmente, por momentos de agressividade e outros mais limpos e calmos, sempre conduzidas por intrincadas e belas linhas vocais, onde Vintersorg e ICS Vortex alternam-se no protagonismo.

Com sabedoria e habilidade, a banda se posiciona no meio termo entre a pomposidade barroca e muitas vezes exagerada do Dimmu Borgir e a crueza e rispidez sonora marcantes do black metal oriundo da Noruega. Isso faz com que a sonoridade de Winter Thrice seja gorda, limpa e agressiva ao mesmo tempo, mas sem cair nos excessos. A parte instrumental é intrincada e cheia de reviravoltas, com todas essas passagens sendo costuradas pelos excepcionais vocais.

Há uma riqueza sonora e harmônica onipresente em todo o disco, com as ideias propostas pela banda entrando pouco a pouco no ouvinte, até conquistá-lo por inteiro. Sem soar pretensioso ou desnecessário, o grupo coloca para fora a complexidade de seu processo criativo, e o resultado é absolutamente deslumbrante. Em uma analogia que pode ou não fazer sentido, o novo álbum do Borknagar soa como se o Gentle Giant fosse uma banda de black metal.

Muito além dos adeptos do gênero, Winter Thrice é um daqueles discos multifacetados, cheios de nuances e movimentos, que encontramos de tempos em tempos pelo caminho. Você não vai colocá-lo para ouvir e esquecê-lo em um canto. Não, isso não é possível. Você retornará para suas faixas em um ciclo que durará um longo período, e fará isso com uma satisfação cada vez maior.

Tá na mão o primeiro grande álbum de heavy metal de 2016, e ele atende pelo nome de Winter Thrice. Deguste-o sem moderação.

Uma aula de música com André Christovam e Sérgio Martins

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Sérgio Martins, crítico de música da Veja e um dos grandes jornalistas culturais do Brasil, bateu um longo papo com André Christovam, pioneiro do blues em nosso país e um estudioso e teórico do gênero.

A conversa, que passa pela história, termos técnicos e curiosidades deliciosas, é uma verdadeira aula prática de música. 

Discoteca Básica Bizz #008: João Gilberto - Amoroso (1977)

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Se tivesse sido gravado no Brasil, eu não hesitaria em apontar Amoroso, de João Gilberto, como o melhor disco brasileiro de todos os tempos. Como não foi, posso apenas declarar que é, desde que saiu, meu disco mais querido e ouvido, permanentemente. Tanto que a cópia atual já é a quarta ou quinta, com as anteriores vencidas pela paixão e o uso.

Amoroso - como todos os discos de João - é perfeito, mas é mais, porque é mais brasileiro e mais internacional. João canta Gershwin em inglês, Consuelo Velasquez em espanhol e Bruno Martino em italiano. E Tom Jobim, Chico Buarque, Haroldo Barbosa, Newton Mendonça, o Brasil.

Quando canta "'S Wonderful" e se ouve, pela primeira vez, o sotaque baiano de João, é quase engraçado. Mas logo se descobre que nada ali é acaso ou limitação. Ou alguém é capaz de imaginar que, sofisticado como é, com o mitológico ouvido que tem, João não seria capaz de reproduzir com precisão absoluta as sonoridades da letra original?  Mas não: ele preferiu uma maneira de dizer a letra onde as palavras inglesas soassem como se brasileiras fossem - em rigorosa harmonia com o ritmo e o clima sinteticamente brasileiros que ele criou com sua voz, violão e gênio. Uma das expressões máximas das práticas (teorias) de antropofagia cultural de Oswald de Andrade. E da "universalidade do regional" de Mário de Andrade. Assim, um clássico do melhor jazz americano, uma canção já mil vezes cantada de mil formas, não só resulta e soa como nova na interpretação de João como indiscutivelmente brasileira, inclusive a letra em inglês.

"Estate" é, talvez, entre todas as canções que amo de meu artista mais querido, a mais amada. Escrita na década de 1950 pelo italiano Bruno Martino, a música virou outra depois de João, como o autor e os críticos italianos reconhecem. O que era uma música de piano-bar como tantas do estilo night club que marcou a música italiana da época, com João ganhou uma harmonização sofisticada, elegante e surpreendente, como as já belas sonoridades da letra italiana valorizadas ao máximo através do "abrasileiramento" sonoro integrando ao ritmo e ao som do violão. E mais: João eliminou da letra original a desamorosa expressão "ti odio" ("te odeio"), que precedia as palavras de Martino sobre o verão (estate, em italiano), numas de "te odeio, ó verão, pelos beijos perdidos, amores, ilusões etc ...".

Com João, o verão de Martino perde o ódio por tudo de bom e bonito que fez nascer, terminar e se transformar em clássico universal contemporâneo - nas vozes que melhor ouvem, segundo dizem e escrevem.


"Wave", a original, está em "moroso, junto com a hitchcockiana versão de "Retrato em Branco e Preto", de tirar o fôlego. E o não menos clássico "Triste", como veio primeiro à luz do som.

O disco, a obra-prima, foi penosamente produzido por um doce amigo americano, craque do mundo da música, chamado Tommy Li Puma, produtor de Miles Davis para cima e legionário do joão-gilbertismo militante. Arranjos de Claus Ogerman, o mestre que jobino-gilbertizou o jazz com precisão germânica e mãos de seda.

Um disco onde nada é de mais ou de menos, e a extrema complexidade soa amorosamente clara e simples, junto, dentro e em volta da voz de João.

P.S.: se for um disco gravado no Brasil, o favorito é Brasil - o disco -, com Caetano, Gil e Bethânia sintetizando a música e a mágica da Bahia e do Brasil - o país. Obra-prima absoluta em design, repertório, arranjos (de Johnny Mandel) e interpretações, cada um exercendo sua luminosa individualidade a partir, em volta e além do gênio.

(Texto escrito por Nelson Motta, Bizz#008, março de 1986)

26 de jan de 2016

Review: Abbath - Abbath (2016)

terça-feira, janeiro 26, 2016

Entre todos os integrantes do chamado True Norwegian Black Metal, Abbath talvez tenha sido o que ficou com a imagem mais caricata nos últimos anos. Não me entendam mal: isso não se deu pela música em si, mas sim pela imagem do guitarrista e vocalista do Immortal. Sua icônica maquiagem, bem como a prestatividade em posar para fotos bem humoradas (ainda que algumas dessas imagens sejam fruto de um humor involuntário), transformaram Abbath em um dos maiores memes musicais dos últimos anos. Um status um tanto injusto, visto que Olve Eikemo (seu verdadeiro nome) possui papel central e determinante na trajetória do Immortal e do próprio black metal norueguês.

Abbath, sua estreia solo, foi lançada em 22 de janeiro pela gravadora francesa Season of Mist e traz o vocalista e guitarrista acompanhado por King ov Hell (baixo, Gorgoroth, Audrey Horne), outro dos grandes nomes da cena norueguesa. Kevin Foley, baterista que atende pelo codinome de Creature e tem passagens por bandas como Decapitated e Sabaton, completa o time que gravou o disco. Trata-se de um álbum que, de acordo com declarações do próprio Abbath, é composto por canções que eram destinadas ao próximo disco do Immortal, mas que com a sua saída da banda acabaram sendo aproveitadas aqui.

O que temos nas oito faixas (dez na versão deluxe) é um black metal que não soa muito distante da típica sonoridade da cena norueguesa, mas que consegue, ao mesmo tempo, soar contemporâneo e atual. A parceria entre Abbath e King ov Hell, músicos rodados, experientes e, acima de tudo, protagonistas da construção da típica sonoridade do metal extremo escandinavo, renova elementos como os clássicos riffs cíclicos de guitarra, os onipresentes blast beats e o clima épico tão natural à carreira de Abbath.

A escolha por uma produção e mixagem mais atuais e distantes da rispidez e crueza comuns aos discos clássicos de bandas da mesma geração dos músicos envolvidos é um acerto a ser elogiado. O próprio Immortal estava trilhando caminho semelhante em seus últimos álbuns - All Shall Fall (2009) é um ótimo exemplo -, e ainda que isto retire o ar gélido penetrante das canções, compensa com peso e muito mais profundidade sonora, em todos os aspectos.

Com uma coleção de faixas fortes e consistentes, Abbath alcançou um resultado digno de nota em sua primeira experiência solo. O disco é muito bom, atestando a forte herança da árvore genealógica natural da Noruega, profundamente influente em toda a cena do metal extremo.

Excelente!


Review: The Baggins - Flat Songs (2016)

terça-feira, janeiro 26, 2016

O The Baggins vem do Rio de Janeiro, e vem bem. Com dois EPs na bagagem, o quinteto carioca aposta em uma sonoridade que traz elementos de folk e rock alternativo, em canções bem desenvolvidas e que descem redondas.

Flat Songs, novo lançamento do grupo, saiu dia 15 de janeiro e comprova o talento dos caras. As três canções presentes no disco - “Behind the Scene”, “Sunday Song” e “Claim Digger” - mostram uma banda madura e com boas ideias, com potencial para alçar vôos bem interessantes num futuro próximo.

Seja apostando na energia do rock - “Behind the Scene” - ou na delicadeza do folk - na bela “Sunday Song” e na melancólica “Claim Digger"-, fica clara a capacidade dos Baggins em criar faixas com inerente apelo, que agradam de imediato e atiçam a curiosidade do ouvinte em relação à banda.

Comparando com o EP anterior, Daughters and Sons (2015), percebe-se uma simplificação e uma limpeza maior nos arranjos, o que torna as faixas de Flat Songs mais palatáveis e de assimilação instantânea. Parece que os caras pegaram as duas melhores canções de Daughters and Sons, “Play a Game” e “Toy and Mask”, e entenderam que o caminho para se destacarem, a estrada para o futuro do grupo, estava ali.

Está aí uma ótima dica para quem procura novos e interessantes sons, sejam eles brasileiros ou de qualquer lugar do mundo.

Pra sentir qual é a do The Baggins, abaixo estão os players dos seus dois EPs. Enjoy!

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