5 de fev de 2016

Review: Tedeschi Trucks Band - Let Me Get By (2016)

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Combo liderado pelo casal Susan Tedeschi e Derek Trucks, a Tedeschi Trucks Band segue fazendo bonito. Após dois excelentes discos - Revelator (2011) e Made Up Mind (2013) -, o grupo formado (atualmente) por doze músicos retorna com seu novo álbum, Let Me Get By, lançado no final de janeiro.

Este é o primeiro trabalho lançado pela banda após o fim da Allman Brothers Band, onde Trucks fazia parceria na guitarra com Warren Waynes, do Gov’t Mule. Produzido pelo próprio Derek, o disco foi gravado no Swamp Raga Studios, que fica logo ali, bem atrás da casa onde o casal reside. O processo de composição foi muito interessante, com todos os integrantes se reunindo no estúdio e realizando jams, que evoluíram para as dez faixas que estão no disco.

Há uma adição importante: o baixista Tim Lefebvre, que fez parte da banda que trabalhou com David Bowie em Blackstar, agora faz parte da turma. Dono de um background enorme como músico de estúdio, Lefebvre domina como poucos o instrumento, além de ser fluente na linguagem e abordagem de diversos gêneros como rock, jazz, fusion e rhythm & blues. Esse currículo logicamente causa impacto, e a entrada do baixista pode ser sentida na criação de novas possibilidades de diálogo harmônico e rítmico. Nos backing vocals, outra novidade: Alecia Chakour agora faz companhia a Mike Mattison e Mark Rivers, equilibrando o setor com sua voz feminina.

As novas composições da Tedeschi Trucks Band passeiam, como de costume, por diversos estilos. Temos southern, soul, rock de raiz, blues, funk, jazz e música clássica, além da polirritmia africana e brasileira, no caldeirão sonoro de Let Me Get By.

Susan Tedeschi segue brilhando nos vocais, com seu timbre rouco, repleto de paixão e feeling. E, quando deixa de ser apenas a guitarrista base e assume a linha de frente no instrumento, toca um belo solo em “Don't Know What It Means”. Há espaço também para Mike Mattison nos vocais principais na deliciosa “Right on Time” e em “Crying Over You / Swamp Raga for Hozapfel, Lefebvre, Flute and Harmonium”, onde a força da união entre todos os integrantes é o destaque. 

Em relação à Derek Trucks, o que ouvimos é a excelência de sempre. Dono de um estilo peculiar de tocar guitarra, o músico desliza o seu slide por todo o álbum, encaixando notas nos momentos certos e solando com a classe que só tem quem conviveu desde a tenra idade com músicos incríveis como Buddy Guy, Gregg Allman e outros.

Let Me Get By é um álbum excelente, que escorre musicalidade pelos poros. Um daqueles discos que agradam não apenas fãs dos mais variados gêneros, mas, sobretudo, quem é apaixonado pela música de modo geral - com os próprios integrantes da banda, diga-se de passagem.

Ouça. Faz bem, em todos os sentidos.

Discoteca Básica Bizz #015: Roxy Music - Roxy Music (1972)

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

"Muita gente discordará de que o Roxy Music tenha definido os anos 1970. Ao contrário, todos estarão de acordo que a importância dos Beatles para os anos 1960 tenha sido básica e radical. Não devemos estranhar. Os sessenta foram anos da esperança, os 70, da confusão. Os sixties, anos de unidades. Os seventies, anos de dispersão."

Como Ramón de España - que o enunciou em um interessante livrinho sobre a banda (Ediciones Jucar, Madri, 1982) -, acho que essa é a chave da compreensão da importância do Roxy Music para o rock contemporâneo. O conceito Roxy, tal como foi formulado por Bryan Ferry, ataca o nó cultural daquela década obscura em muitas das suas variantes: consumo versus arte, melodia versus ruído, saída pessoal versus solução coletiva.

Bryan andou metido em uma escola de artes (foi aluno do pintor David Hamilton) antes de decidir que o rock era um suporte mais adequado para as suas aspirações estéticas. Descobriu isso por acaso - ele era crooner, por hobby, em uma banda soul de Newcastle, Inglaterra, por volta de 1967. E sabia tocar o "bife", ou pouco mais, ao piano. Mudou para Londres. Comprou um piano (!). Suas exposições de pintura não foram muito bem-sucedidas, mas em 1970 ele já tinha diversas composições, competentes o suficiente para não escandalizarem Andy Mackay, um novo amigo, saxofonista com trânsito pela música experimental.

Com Mackay e um velho parceiro do grupo de soul, o baixista Graham Simpson, trabalharam o repertório enquanto experimentavam colaboradores: Dexter Lloyd, depois Paul Thompson na bateria, David O´List (ex-Nice), depois Phil Manzanera para a guitarra. Mas o achado foi um jovem vanguardista, apaixonado pela eletrônica, que além do mais era a única pessoa conhecida capaz de tocar o sintetizador ("Meu Deus, o que é isso?!") que Mackay tinha comprado: Brian Eno.


Eis que, em 1972, a EG Records e o letrista e produtor Peter Sinfield, recém rompido com o King Crimson, resolvem lançá-los. Nesse meio tempo, as primárias canções de Ferry foram re-arranjadas, reagindo magnificamente com suas letras cultas, entre o surreal, o irônico e o romântico. Da parte interna da capa do primeiro LP (por fora a modelo Kari-Ann se espalha numa colcha de cetim, sem um apelo sexual) cinco figuras exóticas com topetes pontudos, óculos de homem-mosca, jaquetas de oncinha, lançavam seu manifesto: refaça, remodele.

"Re-Make/Re-Model", a primeira faixa, começa com ruídos de festa. É esse o sentido da exuberância dos rapazes: celebração, e não bichice. O som evoca, frequentemente, o rock dos anos 1950. Mas este é um disco de ideias, mais do que música. O primeiro compacto, com a faixa "Virginia Plain", já tinha posto a banda em evidência. Os trinados de Ferry tratavam de uma de suas obsessões, o glamour do cinema hollywoodiano ("O real e confiável / é que Baby Jane está em Acapulco / e todos estamos voando para o Rio"), de um jeito provocador (Baby Jane Holzer foi estrela em alguns filmes underground de Andy Warhol). Sintetizador, sax e guitarra festejavam.

No LP, esses motivos estão expandidos. Além da profusão de efeitos eletrônicos futuristas, o trabalho de Eno no sintetizador amplia a noção de textura, até então pouco presente no rock. Os timbres de teclados, guitarras, sax (e oboé, o outro instrumento de Mackay) se combinam em camadas, se distribuem em solos rápidos, num certo sentido de música visual, gráfica.

Mas, sobretudo, é Mr. Ferry derramando-se em charme, ao piano, nos vocais brincalhões ou ressentidos, nas letras ricas em imagens, apaixonadas e apaixonantes - não fosse o nome Roxy inspirado naquelas salas de cinema onde se assistiam aos doces encontros e desencontros do amor. 

"Parece que foi ontem / que te vi pela primeira vez / Como poderia esquecer um dia assim?”.

(Texto escrito por Alex Antunes, Bizz#015, outubro de 1986)

4 de fev de 2016

Os melhores discos lançados em janeiro segundo o About Heavy Metal

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

2016 começou muito forte. Na maioria das vezes é difícil encontrar álbuns lançados em janeiro pra montar um top 5, mas esse ano foi diferente. Tivemos vários excelentes lançamentos pra começar 2016, e aqui estão os cinco melhores.


Megadeth - Dystopia

Dystopia é um soco na cara, e sua primeira metade é excelente. A abertura com “The Threat is Real” remete à So Far So Good … So What!. Com um riff assassino, é um novo clássico do Megadeth. Os versos seguem os riffs sincopados, e a pegada da bateria de Chris Adler deixa tudo ainda mais surpreendente. O álbum conta com um trabalho de guitarra excepcional, riffs complexos e brilhantes e tudo que todo fã do Megadeth estava esperando. Dave Mustaine tem uma banda perfeita nas mãos (não sou capaz de elogiar a contribuição de Kiko Loureiro suficientemente), então só nos resta esperar que este seja o início de um período de estabilidade.


Black Tusk - Pillars of Ash

Pillars of Ash traz o Black Tusk retornando após um período bastante difícil. A morte do baixista e vocalista Jonathan Athon após um acidente de moto em novembro de 2014 foi um golpe enorme para a banda. Mas como Athon havia gravado já algumas ideias antes de seu falecimento, a banda decidiu lançar os últimos lampejos de seu talento. Pillars of Ash é o quarto disco do Black Tusk e o primeiro nos últimos cinco anos. O grupo não perdeu a mão. A variedade musical é maravilhosa, também. Um sludge metal com elementos de doom predomina, mas a velocidade também dá as caras em “Punk Out”, que apresenta óbvias influências punk. 


Abbath - Abbath

Abbath é um guitarrista e compositor incrível, dono de um estilo vocal distinto. Todos esses fatores colocam uma grande dose de responsabilidade sobre seus ombros, especialmente depois da saída amarga do Immortal e a formação de sua própria banda. Cercando-se de excelentes músicos, todos obviamente familiarizados com o seu estilo de composição e musicalidade, Abbath lançou um disco incrível, que dá continuidade à sonoridade que o Immortal apresentou em All Shall Fall (2009). Ao deixar o Immortal Abbath foi forçado a se reinventar, e o resultado é espetacular.


Chthe’ilist - Le Dernier Crépuscule

Se o nome Chthe’ilist remete ao universo de H.P. Lovecraft, talvez seja porque Le Dernier Crépuscule é um álbum bestial. Contando com Philippe Tougas e pelo baterista do Beyond Creation, Philippe Boucher, este trio de Quebec executa um death metal atmosférico e brutal, e a devastação resultante é total. Os vocais variam de death/doom a timbres limpos e melódicos, tornando a agressividade estranha e, simultaneamente, acessível. A influência de Voivod e do Opeth é facilmente perceptível. O primeiro lançamento essencial de death metal do ano? Provavelmente, sim.


Wildernessking - Mystical Future 

Um disco extremamente impressionante de uma banda que é uma promessa ascendente. O Wildernessking é um grupo de black metal natural da África do Sul, e Mystical Future traz a combinação perfeita entre melancolia e ambiência, com canções que possuam estruturas fenomenais. Uma interpretação refrescante e um lembrete de porque o black metal nunca deve cair nas armadilhas da repetição. 


Humor involuntário e paixão exacerbada: mais exemplos de como eram os textos nos primeiros anos da Rock Brigade

quinta-feira, fevereiro 04, 2016


Há algumas semanas, publicamos um post mostrando como eram as resenhas de discos da revista Rock Brigade durante a década de 1980. Hoje, trazemos mais alguns exemplos, onde o discurso equilibra-se entre o humor involuntário e a paixão exacerbada.

Anthrax - Fistful of Metal
Forjado na mais avançada usina siderúrgica do mundo, a cabeça dos cinco cães selvagens as quais chamam Anthrax. Um verdadeiro torpedo da música pesada. Fruto da população filha da puta de Nova York, eles se manifestaram na tribo heavy metaleira já babando pelos cantos da boca, cuspindo fogo e adrenalina como a boca do dragão. A idade dos Anthrax gira em torno dos 18 anos, o que não deixa de ser um orgulho para a banda. A quarta música se chama “Panic”, e olha, sem que ninguém nos ouça, será que este baterista não toca dopado, não? Porra, um sujeito de “careta limpa” não faz isso que ele está fazendo nem por cinco minutos. A velocidade dos dois bumbos é tamanha que só de ouvir dói as pernas. Dá câimbras. Talvez esteja pensando mal do garoto, más pra PQP, vá estourar assim lá na pedreira do capeta. Das bandas de metal da última geração, o Anthrax certamente será uma das gigantes da nossa era. Ainda vai provocar o desaparecimento de muito valentão por aí. A continuar desta forma a ordem do metal, não reluto em dizer que em poucos anos nem nós vamos suportar a tirania do metal. Mas isso é profecia. Está fora do nosso controle.

Manowar - Hail to England
Salve, Inglaterra! Os que vivem para o metal te saúdam. O clamor da batalha ruge alto em todo o seu furor. Espadas e lanças afiadas pelo demônio despedaçam e dilaceram corpos de colossais guerreiros. ‘Hail to England, hail, hail, hail’, bradam os invasores, oferecendo suas vítimas em sacrifício a seus deuses, pedindo-lhes para fortalecer ainda mais suas legiões metálicas. Homens de guerra protegidos por sua couraça de metal. Invencíveis, magníficos, determinados a destronar os falsos reis do metal. O vento negro desfralda seu estandarte de encontro aos céus. Sua música cortante é capaz de gerar pânico entre os mercenários coletores de dólares, pois é a própria personificação do poder. Assinaram com sangue seu destino e selaram no metal sua sorte. Manowar, uma história épica para o metal como a narração da Odisséia por Homero o é para a mitologia. Eric Adams comanda os vocais com inspiração divina, transformando, assim, suas interpretações em cantos guerreiros descarregando o ar de seus poderosos pulmões com um poder inumano, urrando para a eternidade. O vento negro do Manowar siliba pavoroso por entre o som dos tambores massacrados pelo pulso devastador de Scott Columbus. Guerra pela supremacia do que existe de mais puro no cosmo: o heavy metal! Mate com poder, arraste e empurre para a sepultura tudo o que não presta.

Ozzy Osbourne - Bark at the Moon
Após devorar a cabeça de um morcego, o público delirou. Após explodir porcos com TNT nos fundilhos, a plateia abismou-se e ele tomou processo por isso. Após se fantasia com penas e rasgá-las logo que entrava em cena, daí começou a decair e ganhou um apelido aqui no pedaço: Ozzy Osbournay. Ele canta com tão pouco força de expressão que se parece mais com um bocejo do que com uma afirmação marcante. Além de preferir agora dar mais importância ao visual do que ao seu trabalho musical. Só vale a pena comprar este LP se você é fã de Ozzy a extremos de acreditar que ele voltará a ser como antes.

Metallica - Ride the Lightning
James Hetfield encaixa riffs com tamanha velocidade e precisão tal qual uma máquina encaixa suas centenas de cigarros em seus pacotes, sem uma única falha na produção. Kirk Hammett sola com tamanha tirania que Van Halen soa como animador de festas. O baixo de Cliff Burton e os bumbos de Lars Ulrich, juntos, compõe a mais perfeita banda de metal surgida nesta década de 80, e talvez uma das mais técnicas de toda a história do metal pesado. Desde a sua atômica aparição em 18 de setembro de 1982 até hoje, o Metallica tem tocado o suficiente para destronar qualquer ocupante do trono do verdadeiro e puro heavy metal underground. Não gostam de visual colorido. São cabeludos como a natureza os criou, e selvagens como a cultura os ensinou.

Iron Maiden - Powerslave
Fugi, falsos metaleiros! Escondei, usurpadores do Metal! Aproximai-vos, metaleiros de fé, pois a Donzela de Ferro retornou, e voltou para nos vingar. Insuperável, imbatível, inigualável, inabalável. Perfeito. A prova definitiva de que o metal pode vender bastante, sem ser apelativo e comercial. O som, o peso, a música, as letras, falam por si. Nicko, agora sem a sombra do grande Clive “usina de força” Burr, tem o nariz cada vez mais amassado e os punhos mais fortes. O duo Murray/Smith arregaça de vez as mangas e estão melhores do que nunca. Mr. Harris ultrapassa qualquer contendor. Agora, o nosso amigo fanático por esgrima, o “boquinha de siri”, para esse é difícil arranjar os elogios. Que coisa, é do tipo raro de sujeito que nasce predestinado a mudar alguma coisa na face da Terra. Seu brilho parece não ter fim. Infindável parece a sua ascensão.


Discoteca Básica Bizz#014: Bob Marley - Natty Dread (1974)

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

O pop negro contemporâneo, em raros e intensos momentos, cometeu o pecado mais temido por qualquer religião: destruir a fronteira existente entre o sagrado e o profano. 

Durante toda a primeira metade do século XX, as culturas afro-americanas pareciam distinguir claramente a música divina da música demoníaca. Tanto que vários cantores de blues, no final de suas vidas, se transformaram em reverendos protestantes e passaram a cantar spirituals. Nunca vice-versa.

O soul modifica esta situação. Ray Charles, Sam Cooke e James Brown uniram o gospel ao rhythm and blues, sem cerimônias. Na Jamaica, final dos anos 1960, aparece outra combinação explosiva: os cânticos da religião rastafari se unem aos ritmos sedutores do ska e do rock steady, produzindo o reggae. Bob Marley foi o principal artífice e divulgador desta nova música. Devoção ou sacrilégio?

Natty Dread é um disco decisivo na carreira de Bob Marley, seu primeiro passo "solo" em direção ao mega estrelato. Inicialmente, os Wailers foram um trio vocal composto por Marley, Bunny Wailer e Peter Tosh. Com esta formação, mais a famosa seção rítmica dos irmãos Barrett (Aston no baixo e Carlton na bateria), eles chegaram a lançar dois LPs internacionais, já pela Island, extremamente bem recebidos pela crítica e pelos músicos de rock (como Eric Clapton, que gravou "I Shot the Sheriff"). Mas, em 1974, tanto Peter Tosh quanto Bunny Wailer abandonaram o grupo, falando em divergências, ou religiosas ou políticas ou profissionais. Bob Marley assume a liderança do que restou dos Wailers (os irmãos Barrett) e começa imediatamente a gravar o álbum Natty Dread, com a participação dos teclados de Bernard "Touter" Harvey, da guitarra do americano Al Anderson, um naipe de metais e o vocal das I-Threes.

Política e religião, diversão e militantismo convivem problematicamente nos discos reggae. A tensão entre esses opostos é a fonte de toda a riqueza musical de Bob Marley. O rastafarianismo tem aspectos interessantes (a reinterpretação subversiva dos textos bíblicos, o combate a todas as formas de opressão, o abandono da esperança no paraíso celeste), mas também possui facetas ingênuas e até mesmo ridículas (maniqueísmo - a Babilônia é a origem de todo mal, milenarismo político, culto a Hailé Selassié). Marley não escapa destas contradições. Natty Dread é a melhor prova: seu disco mais brilhante, mais furioso, mais sincero. Ao mesmo tempo, seu disco mais frágil e mais poderoso.


Vários clássicos de Bob Marley estão aqui presentes: a conhecidíssima "No Woman No Cry", a incandescente "Lively up Yourself", o hino rasta "Natty Dread". "Lively up Yourself" e "Bend Down Low" são regravações de hits jamaicanos dos anos 1960. "Rebel Music (3 O´Clock Road Block)" é um ataque direto contra os abusos policiais: poderia ser um retrato fiel das favelas brasileiras. "Them Belly Full (But We Hungry)" poderia ser mais uma ressentida denúncia da desigualdade social. Mas Bob Marley dá a volta por cima com versos surpreendentes para quem pensa que reggae é exaltação do sofrimento ou puro lamento: "Esqueça seus problemas / Esqueça sua tristeza / E dance".

Instrumentalmente, Natty Dread é um disco límpido, cristalino. Muitas das inovações produzidas pelo reggae posterior, do dub à utilização de baterias eletrônicas, já estão anunciadas em suas faixas. Foi através de suas ousadias rítmicas e instrumentais, e não pela filosofia rastafari, que o reggae influenciou todo o cenário pop dos anos 70/80. 

Mas isto na verdade não é tão importante. Bob Marley, em discos como Natty Dread, transcendia as limitações do rastafarianismo e o dogmatismo reggae. Bob Marley fez músicas excelentes. Isto basta.

(Texto escrito por Hermano Vianna, Bizz#014, setembro de 1986)

3 de fev de 2016

Review: Anderson Paak - Malibu (2016)

quarta-feira, fevereiro 03, 2016


Segundo álbum de Anderson Paak, Malibu é um ótimo exemplo da qualidade do R&B atual. O norte-americano (que além do vocal, também responde pela bateria do disco) cercou-se de feras, e o resultado transparece isso.

Apostando em uma sonoridade predominante orgânica e utilizando com parcimônia os samplers, Paak mostra em Malibu um grande talento como compositor. As faixas, todas muito bem arranjadas, trazem influências de nomes como Curtis Mayfield, Marvin Gaye e Michael Jackson (ouça “Heart Don’t Stand a Chance”), além de artistas atuais, como Kendrick Lamar e Frank Ocean.

Variando entre momentos predomina o rap com outros em que o rhythm & blues e o soul assumem o protagonismo, Malibu é um disco bastante agradável e transparece uma vibe relaxante, construída através do clima da canções, da bela voz de Paak e de sua inegável capacidade como intérprete.

O álbum vem sendo puxado por quatro singles - “The Season | Carry Me”, “Am I Wrong”, “Room in Here” e “Come Down” -, o que deve levar a carreira do norte-americano a um nível mais elevado, comercialmente falando. Pessoalmente, gostei mais das composições onde o soul assume a linha de frente, como “The Bird”, “Put Me Thru”, “Parking Lot” e a deliciosa “Celebrate”, que parece saída de uma compilação de pérolas da Motown. Vale mencionar ainda que a já citada “Come Down” foge um pouco do padrão, com uma sonoridade funk que não faria feio em um disco de James Brown.

Malibu é boa pedida pra quem curte música pop de qualidade, e traz uma coleção de excelentes faixas. 

Ouça, vale a pena!

Review: X-Men de Ontem (Panini Comics, 2016)

quarta-feira, fevereiro 03, 2016


Adoro X-Men. Foi por causa da clássica Grandes Heróis Marvel #7, publicada no Brasil em fevereiro de 1985, que me tornei um leitor de quadrinhos. A edição trazia a conclusão da Saga da Fênix Negra, com a trágica história da morte de Jean Grey (a primeira de muitas) e uma capa impactante com uma ilustração emblemática com Ciclope segurando seu corpo nos braços.

No entanto, confesso que não tenho acompanhado a fase recente do grupo. Nos meus cálculos, parei nos encadernados que traziam os arcos de histórias escritos por Joss Whedon e lançados por aqui como Surpreendentes X-Men. Portanto, não tenho ideia de como a equipe está atualmente.

Por tudo isso, X-Men de Ontem, lançado recentemente pela Panini, não só me atraiu, como também me surpreendeu. Como já dito, não tinha conhecimento dos eventos recentes da cronologia mutante, e fiquei bastante interessado em ir atrás de algumas sagas pelas quais passei batido, como Dinastia M e outros.

X-Men de Ontem tem 132 páginas, capa dura e lombada quadrada. A impressão é em papel couché, e a edição segue o protocolo padrão da Panini, com galeria de capas e alguns extras. Escrito por Brian Michael Bendis e ilustrado por Stuart Immonen, o encadernado reúne as edições de 1 a 5 de All New X-Men, publicadas no mercado norte-americano entre novembro de 2012 e março de 2013.


A trama é a seguinte: Ciclope, antigo líder dos X-Men, cometeu uma série de atos horríveis, incluindo o assassinato de Charles Xavier, e agora é praticamente um vilão, temido em todo o planeta. Pra tentar consertar tudo, Hank McCoy, o Fera, viaja de volta no tempo e vai ao encontro da equipe original dos X-Men, formada pelos jovens Scott Summers, Jean Grey, Bobby Drake, Warren Worthington e a versão mais nova dele próprio. O objetivo é levar o inocente e idealista Ciclope do passado para o futuro e confrontá-lo com o atual Scott Summers, na esperança de que isso mude a situação em que tudo se encontra.

Muito bem escrita por Bendis, a história está cheia de pequenos detalhes que fazem a alegria de quem acompanhava os X-Men no passado. Com diálogos inteligentes, Bendis confronta a equipe clássica com seus equivalentes no futuro, levantando questões que podem levar a um arco de enredos muito interessante - “quantas vezes eu morri”, pergunta uma jovem Jean Grey a certa altura para McCoy.

A revista funciona como um novo começo para quem quer acompanhar a fase atual dos X-Men, pois aqui neste encadernado está o início de todo o contexto pelo qual a equipe atravessa neste exato momento, e que está sendo publicado nas edições mensais do título. Além disso, retoma as questões sempre presentes e cada vez mais importantes da cronologia mutante, como a busca pela igualdade racial, a luta contra o preconceito, por direitos iguais e pela plena aceitação daqueles que são julgados como diferentes. E, claro, devolve o protagonismo de Jean Grey, talvez a mais importante personagem de toda a história dos X-Men.

X-Men de Ontem é uma bela história, que emociona os fãs dos velhos tempos e abre uma trama com possibilidades incríveis. Se você, assim como eu, não acompanha a fase atual dos X-Men, esta edição é uma bela porta de entrada.


Discoteca Básica Bizz #013: Bob Dylan - Blonde on Blonde (1966)

quarta-feira, fevereiro 03, 2016


Tente imaginar o seguinte: você tem 25 anos. Nos últimos cinco anos de sua vida, você se tornou, primeiro, um campeão dos direitos humanos, herói da política estudantil, trovador querido dos universitários e de todas as colorações da esquerda. Depois, numa velocidade que lhe parece absolutamente alucinante, você se viu no trono do estrelado pop, adorado agora por multidões de jovens. Só alguém foi tão famoso em seu país, os Estados Unidos: Elvis Presley era um bronco, um ingênuo, uma criatura de seu empresário. E você, não: você sofre de lucidez crônica, muitas vezes paranóica, um lirismo brotando por todos os poros, uma consciência crítica que não o deixa dormir. Você leu, foi ao cinema, gosta de poesia. Mas, hoje, na América, ninguém é mais famoso do que você.

Foi nesse contexto que Bob Dylan criou Blonde on Blonde, um álbum duplo vital, obsessivo e transformador, capítulo derradeiro no livro número um de sua biografia. Blonde on Blonde foi lançado em maio de 1966. Em julho, Dylan foi cuspido fora de sua moto Triumph 500, nas cercanias de Woodstock e, com várias costelas quebradas, suspeita de fratura de crânio e lesão cerebral, viu-se confinado a uma cama de hospital por três meses, seguidos de mais um ano de afastamento da vida artística - começava aí o livro dois de sua vida. Mas voltemos atrás.

Voltemos ao jovem Dylan pop star, recém-casado com Sarah Lowndes - artista plástica, poetisa, adepta do zen-budismo -, consumidor de anfetaminas, excursionando sem cessar de uma costa à outra da América e, nos intervalos, ainda achando tempo para sessões de gravação nos estúdios da Columbia, em Nashville. O jovem Dylan que, no ano anterior, chocara o mundo careta e bem-pensante do festival folk de Newport subindo ao palco com uma guitarra elétrica ao pescoço, e que, na sequência, colocara no topo das paradas de sucesso uma longa diatribe sobre os rigores da vida errante, "Like a Rolling Stone".


Todos e cada um desses elementos, características de um momento rico, mas tenso, de sua vida, estão na música mercurial de Blonde on Blonde, um álbum duplo, mas não muito - o lado D é inteirinho ocupado por "Sad Eyed Lady of the Lowlands", uma pungente balada de adoração a Sarah onde Dylan atinge o auge de sua capacidade poética de expressar amor.

"Sad Eyed Lady of the Lowlands" acaba sendo um dos raros momentos de serenidade num álbum que respira a energia nervosa da anfetamina. Outro instante de doçura é também uma balada de amor - "Visions of Johanna”. No caso, um adeus sentido, mas terno, a um grande ex-amor, Joan Baez. Muitos vêem tanto em "Sad Eyed Lady of the Lowlands" quanto em "Visions of Johanna" as primeiras manifestações de sentimento realmente religioso em Dylan, a busca de uma dimensão metafísica, espiritual, para a existência.

A maioria dos músicos de Blonde on Blonde é formado por feras de Nashville - do country & western, portanto. Para afiar o gume cortante, ele acrescenta o grande guitarrista de blues Al Kooper e seus amigos canadenses e rockers, Levon e Robbie Robertson, do grupo que viria a ser a The Band. Órgão, guitarra e harmônica formam o coração elétrico da sonoridade, e o disco todo é puxado nos agudos, um som nervoso, quase diáfano. 

Nos textos, atrás de uma bateria de metáforas, Dylan despeja rancores, paranóias e um insistente pedido de trégua. Ele tem raiva dos hipócritas em "Leopard-Skin Pillbox Hat", das amantes mentirosas em "Just Like a Woman", das situações irremediáveis em "Memphis Blues Again". Não há solução, diz a voz mercurial, ou melhor, a solução é "todo mundo ficar chapado" (ou "ser apedrejado", os dois sentido de "get stoned", refrão crucial da faixa de abertura, "Rainy Day Women 12 & 35”).

(Texto escrito por Ana Maria Bahiana, Bizz#013, agosto de 1986)

2 de fev de 2016

Review: SIMO - Let Love Show the Way (2016)

terça-feira, fevereiro 02, 2016

J.D. Simo nasceu em Chicago em 1985. Começou a tocar guitarra aos 5 anos, e aos 15 montou a sua primeira banda. Com performances explosivas, logo em seguida gravou um disco ao vivo (Burning Live EP, 2000) e fez a sua reputação crescer. Em 2006, o jovem foi para Nashville e entrou na banda do bluesman Don Kelley, além de iniciar uma bem sucedida carreira como músico de estúdio. Ou seja, estrada o cara tem. 

Até que, em 2010, uniu forças com o baixista Frank Swart e com o baterista Adam Abrashoff e criou a sua própria banda, batizada como SIMO. O primeiro disco dos rapazes, auto-intitulado, saiu em novembro de 2011. Depois, o trio ainda lançou um single e um EP, além de sofrer uma mudança na formação: saiu Swart, substituído por Elad Shapiro.

O som do SIMO chegou aos ouvidos de Joe Bonamassa, que virou amigo pessoal dos caras, apadrinhou a turma e os colocou em seu cruzeiro, o Blues Rock Titan. Durante 2015, o grupo abriu shows de lendas como Gregg Allman e Deep Purple, enquanto J.D. Simo fez participações especiais em apresentações de nomes como Blackberry Smoke e Trigger Hippy, além dos concertos de Bonamassa. Ou seja, pedigree o cara tem. 

Tudo isso está demonstrado de maneira clara e convincente em Let Love Show the Way, segundo álbum do trio, lançado no final de janeiro. Com dez faixas, o disco é excelente e chega pra colocar o SIMO nos alto-falantes e nos corações de quem adora rock e blues rock.

O play abre com “Stranger Blues”, versão para a canção de Elmore James. É o início de uma performance arrebatadora. Com muita pegada, a banda tem na guitarra e nos vocais de J.D. Simo a sua alma. Ótimo vocalista e guitarrista melhor ainda, o cara solta a mão em riffs e solos inspirados. A sonoridade crua e ríspida do disco deixa ainda mais evidente a pegada selvagem de Simo. O rapaz é claramente influenciado por nomes como Rory Gallagher, James Gang e Warren Haynes, o que leva a um resultado final absolutamente incrível. Há ecos de outros ícones da guitarra por todo o play, como Jimi Hendrix, Duane Allman e Jimmy Page. E não, isso não é exagero: ouça e perceba.

Entre as faixas, destaque para “Long Way You Sail” (repleta de solos animalescos), “I'd Rather Die in Vain” (blues pesado e com um longo e incendiário solo), “Stranger Blues” e “Can't Say Her Name”.

Let Love Show the Way é um daqueles discos perfeitos pra pegar a estrada e seguir sem rumo. Se você gosta de rock, periga encontrar aqui a sua nova banda favorita.


Discoteca Básica Bizz#012: Sex Pistols - Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols (1977)

terça-feira, fevereiro 02, 2016


"Esqueça os escrotos, aqui estão os Sex Pistols” lembra aquele breve período quando o rock e a moçada britânica - e mesmo a sociedade britânica - foram forçados a cair na real. É um documento histórico, já era no dia de seu lançamento. A trilha sonora de um golpe cultural planejado com impressionante atenção a detalhes de promoção e "imagem pública" (a cargo de Malcolm McLaren).

O som representa uma caricatura do rock. Assim como o caricaturista exagera os traços dominantes de um rosto, os Sex Pistols eliminaram todos os detalhes supérfluos de um gênero musical já por demais conhecido, projetando o que restara com uma ferocidade deslumbrante.

Um som cru e simples. A bateria (de Paul Cook) nada mais do que adequada. O baixo sólido, presente mas sem nenhum destaque (no disco é Steve Jones quem toca). O timbre da guitarra é sujo e até indistinto, com uma acumulação de overdubs (também de Steve Jones) batalhando por espaço - uma guitarra em cima da outra até o som atingir uma força danada mas, mesmo assim, estranhamente impessoal. Cria um clima de música complemente descartável mas que, ao mesmo tempo, pega você pelo pescoço. É um efeito esquisito, fundamental na trajetória da banda. E, acima de tudo, a voz essencial de Johnny Rotten, transmitindo ódio e desprezo levados ao extremo.

Já as letras carregam uma acusação. São difíceis de traduzir - mil imagens, uma atrás da outra, com muita gíria e trocadilhos. E eles sabiam chegar na hora certa. "God Save the Queen", por exemplo, já havia sido lançada em compacto para coincidir com a celebração do Jubileu de Elizabeth II, e começa assim: "Deus salve a Rainha / o regime fascista fez de você um imbecil / bomba H em potencial ... / Deus salve a Rainha / ela não é um ser humano / não há futuro nos sonhos da Inglaterra” (o papel de Sid Vicious na banda era exemplificar este imbecil). Provocação máxima: durante um tempo, Johnny Rotten nem podia andar na rua sem sofrer agressões.


Criaram também a maior confusão nas negociações com as gravadoras. Estiveram sob comando com a EMI (rescindindo pouco depois) e saíram da A&M antes que as assinaturas tivessem tempo de secar. As rescisões dos contratos deram uma bela grana ao grupo. Referem-se a isso na faixa “EMI": "E vocês acharam que estávamos fingindo / que nós todos só queríamos dinheiro / vocês não acreditam que somos para valer / ou perderiam sua atração barata - como a EMI".

Seus alvos eram a complacência e a rigidez, não só em formas musicais, como também da sociedade que as valorizava e mantinha.

Se fosse apenas uma questão de garra e raiva, o disco não apresentaria mais que "um novo marco no rock”. E, no fundo, ele não apresenta mais que a mesma bobagem de sempre. O que tornou a posição dos Pistols imprecedente foi que este desprezo estendia-se até ao que eles próprios tocavam. A garra de Johnny Rotten era alimentada pelo ódio ao rock, o que não excluía o som dos Pistols.

O grupo estava programado para destruir e se autodestruir.

A tensão sonora vem do fato que explode e implode ao mesmo tempo. Não deixavam ninguém esquecer que, apesar de toda sua intensidade, estavam mesmo era chovendo no molhado. Paradoxalmente, foi o que trouxe tanto sucesso. 

1976 será lembrado como o ano em que o rock foi ridicularizado ao ponto de se reduzir a uma piada, na Inglaterra. O ano em que toda uma geração foi acordada e ordenada em busca de novas linguagens musicais, e também de novos meios de divulgação que não dependessem do poder das gravadoras. E esses meios ainda estão abertos.

(Texto escrito por Peter Price, Bizz#012, julho de 1986) 

1 de fev de 2016

Review: Dream Theater - The Astonishing (2016)

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

The Astonishing, décimo-terceiro álbum do Dream Theater, é um trabalho colossal. Um disco duplo conceitual com 34 faixas e mais de 2 horas de duração, cuja história conta a luta de um povo contra um governo ditatorial comandado por robôs. A grande arma de quem busca a liberdade é a música, utilizada como ferramenta para uma sociedade melhor e mais justa.

Criada pelo guitarrista John Petrucci, a trama de The Astonishing é, na verdade, uma ópera-rock inspirada em clássicos como The Wall do Pink Floyd e Tommy e Quadrophenia do The Who. O novo trabalho do Dream Theater dá sequência à essa tradição, e faz isso de uma forma grandiosa.

O conceito de ópera-rock (ou metal, chame como quiser) deve ser entendido pelo ouvinte, pois as mais de trinta canções contém diversos interlúdios, além de faixas que trazem efeitos sonoros que marcam momentos da história. Dessa maneira, trata-se, portanto, de uma obra que exige disposição e uma parceria do ouvinte, para ser absorvida e entendida em sua totalidade. Não é um disco para escutar de maneira casual. Em um tempo onde a música fica cada vez mais abstrata e baseada em singles, a banda norte-americana resgata a força e conceito do álbum em toda sua plenitude e grandiosidade.

Curiosamente, não há em The Astonishing as tradicionais longas canções do Dream Theater, repletas de ambiências e mudanças de climas, além de passagens instrumentais feitas sob medida para que cada um dos instrumentistas brilhar individualmente. A canção mais longa do disco tem 7 minutos e pouco, e é uma exceção. No geral, The Astonishing é composto por faixas com duração média de quatro a cinco minutos - logicamente, muitas delas interligada entre si. Ou seja, é um álbum duplo conceitual e com mais de duas horas de duração, porém enxuto e conciso. É uma contradição, eu sei, mas essa característica facilita bastante a assimilação do trabalho.

Aclamado pela crítica - 4 de 5 estrelas na Classic Rock, nota 8 de 10 na Metal Hammer, 4,5 estrelas de 5 no Metal Sucks, 4 de 5 estrelas na Kerrang! -, The Astonishing é também um disco feito sob medida para uma considerável parcela de fãs do Dream Theater. O motivo é o resgate da influência e tradição progressiva na sonoridade da banda, deixada bastante de lado nos últimos anos, ofuscada por álbuns que focaram quase que exclusivamente no heavy metal. The Astonishing é um disco mais leve e musical do que os trabalhos recentes dos norte-americanos, com a banda soando mais solta.

Individualmente, os destaques são três. John Petrucci, criador da história e a mente por trás de todas as faixas e conceito, em um trabalho exemplar de composição. Jordan Rudess, principal parceiro de Petrucci na definição dos caminhos sonoros do álbum, variando de maneira criativa entre o teclado e o piano em todo o trabalho. E James LaBrie, que interpreta todos os vários personagens da trama, impondo personalidades distintas para cada um deles em um trabalho vocal que pode ser classificado como o mais completo de sua carreira.

Em um disco dessa magnitude, destacar uma ou outra canção é algo desnecessário. A força está no conjunto - e é preciso dizer que The Astonishing brilha intensamente como um trabalho complexo, ambicioso e dono de grande originalidade.

O Dream Theater entregou um dos seus melhores discos. Um álbum para ser assimilado com o tempo, e que proporciona uma experiência sem precedentes ao ouvinte. Não será surpreendente se daqui há alguns anos, ao olharmos para o passado, o senso comum apontar The Astonishing como o trabalho definitivo do Dream Theater. Será um reconhecimento mais do que justo.


Um assunto que não pode ser esquecido: 12 textos condenando as atitudes racistas de Phil Anselmo

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Racismo é um assunto muito sério. Nunca o tema pode ser motivo de piada (como alegou Phil Anselmo) ou “estão fazendo muito mimimi” (declaração que está presente nos comentários em praticamente todos os textos sobre o tema). 

Curiosamente, a autoproclamada “revista de heavy metal do Brasil”, também conhecida como Roadie Crew, estranhamente não publicou uma única palavra sobre o tema em seu site (nem mesmo noticiou as atitudes de Anselmo). Pelo visto, seus editores acreditam que não se trata de um assunto relevante para seus leitores, afinal, Phil Anselmo é um ídolo, um “deus do metal”, e, como tal, está acima do bem e do mal. Sabe como é, né: “quem somos nós pra discutir as suas opiniões”, “isso não tem nada a ver com a música que ele faz”, “temos que separar a música e sas suas declarações”.

Balela, obviamente.

Ah, mas ele fez um vídeo pedindo desculpas”. Olha, um comportamento recorrente há mais de 20 anos não pode ser perdoado por um vídeo onde o rapaz aparece todo humilde dizendo que se arrependeu. Pelo menos não no meu ponto de vista.

Abaixo estão 12 textos publicados aqui no Brasil e no exterior, que falam sobre o assunto e expressam a opinião de diversos veículos sobre o assunto. Leia, divulgue: qualquer forma de racismo é horrível e extremamente condenável, e o ato de Phil Anselmo não pode passar batido e ser esquecido.






Discoteca Básica Bizz #011: Led Zeppelin - Physical Graffiti (1975)

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Uma escolha que pode contrariar muita gente entre as viúvas do Led que ainda hoje habitam o planeta. Afinal, não existe nenhuma razão para se excluir de qualquer discoteca básica os quatro primeiros LPs do grupo. Desde sua estréia em vinil, com Led Zeppelin (1968), o quarteto já traz todos os extremos para que aponta a gula estilística do maestro Jimmy Page - do rockabilly ao folk de raízes celtas, passando por blues épicos como tratores encharcados de combustíveis ilícitos. Sem contar, claro, com a cristalização do gênero que seria batizado como heavy metal (pelo que, talvez, a história nunca os perdoe).

Seja como for, Physical Grafitti foi o único disco que eu me arrependi de ter jogado fora quando - há uns cinco, seis anos - tive um acesso de limpeza provocado pela audição ininterrupta de Talking Heads e Joy Division e pelos ideais do levante de 1977. É verdade - nesta fatídica data, eu doei a coleção completa do Led, e só não tinha nenhum pirata por falta de grana. Eles viraram, de fato, os Judas favoritos dos punks - do sexismo arrogante de Robert Plant e do virtuosismo de Page ao sucesso medido em pilhas de platina, representavam tudo o que havia de errado com o rock na primeira metade da década de 1970.

Noutra data fatídica, porém, eu simplesmente tive de entrar na primeira lojinha de discos para comprar um Physical Grafitti novo em folha, antes que a saudade matasse.

Está lá, levadas às últimas consequências, a potência monolítica, porém filigranada, que sempre foi o segredo e o veneno da banda. Junto com o momento máximo do produtor Jimmy Page - e é aí que a porca chamada história torce o rabo.

Contemporâneo e amigo de Beck e Clapton uns cinco anos antes de entrar para os Yardbirds, Jimmy - por motivos de saúde - não foi pulando para dentro da primeira banda de blues psicodélico que passou pela porta de sua casa. Ao contrário, fez carreira como músico de estúdio até aperfeiçoar-se como arranjador e produtor de grupos como os Stones, os Kinks e o Who. Sem nenhum crédito por isso, é bem provável que tenha sido o legítimo criador do rhythm and blues mod(erninho) que a velha Inglaterra espalhou para o mundo no começo dos anos 1960. O que já bastaria para colocá-lo pau a pau com Hendrix entre os guitarristas de sua geração.

Quando entrou para o Led Zeppelin, portanto, Jimmy não só tocava como um demônio - fosse com a palheta, com os dedos ou com seu arco de violino -, como conhecia estúdios e eletrônica musical de A a Z. Foi o homem, enfim, que introduziu no rock o teremim - um instrumento eletrônico da década de 1930, deixado às traças com a invenção do sintetizador.


Sobrepondo guitarras e guitarras com timbres tratados diferentemente, criou um turbilhão wagneriano que atinge o gozo final nos três tours-de-force monumentais de Physical Grafitti. "Kashmir" e "In the Light" atacam escalas orientais com performances demolidoras dos exagerados Plant e Bonham, contrabalançadas pela finesse climática de John Paul Jones no baixo e - principalmente nessas duas faixas - nos teclados. 

A terceira, "In My Time of Dying", era um belo spiritual recuperado por Bob Dylan. Era, porque a bordo do "zepelim de chumbo" se transforma numa exaltação simultaneamente heróica e debochada, com o histriônico Plant implorando aos berros pela presença de Jesus e do arcanjo Gabriel. Paroxismo é isso aí, principalmente para uma garganta acostumada a simular orgasmos múltiplos.

Junto a rocks concisos e musculosos como "Custard Pie" e "Trampled Underfoot", não precisava mais. Aí o grupo resolveu acoplar sobras dos LPs anteriores - algumas, meras jams -, transformando Physical Grafitti num álbum duplo que não tem (surpresa!) sequer um sulco supérfluo.

(Texto escrito por José Augusto Lemos, Bizz#011, junho de 1986) 

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