12 de fev de 2016

Playlist: Rap Brasil

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Uma coleção de faixas que dá uma geral no rap produzido aqui no Brasil. E um aviso: como não somos os maiores especialistas no assunto que você irá encontrar por aí, evidentemente não se trata de uma compilação que tem como objetivo traçar a evolução do gênero no país, mas sim apenas a reunião de algumas das faixas preferidas da casa (spoiler: ausências serão sentidas, muito provavelmente).

Tem os óbvios Racionais, Criolo, Emicida e MV Bill, mas tem também nomes como Rashid, Instituto, BNegão, Black Alien, Inquérito e outros, além dos já clássicos Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro, Sabotage e Da Guedes. 

Pra ouvir e conhecer sons que você talvez ainda não conheça. Pra prestar atenção nas letras e, sobretudo, entender o significado de cada palavra. 

Enfim, pra ouvir no volume máximo, como sempre!

Discoteca Básica Bizz #017: Robert Johnson - King of the Delta Blues Singers (1961)

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

No quarto de um hotel de segunda, em San Antonio, Texas, o garoto negro, alto, magro e elegante senta-se voltado para a parede. Um enorme microfone à sua frente, o violão de aço National-Steel sobre o joelho. Um fio corre pelo chão de madeira até o outro quartinho, onde, concentrados, atentos, maravilhados, dois homens brancos de meia-idade manipulam pesados gravadores de rolo. 

Faz frio, uma fria noite de novembro de 1936. Olhos fechados, o garoto toca - alguém na sala de controle comenta que não é possível: deve haver mais alguém com ele no quarto. Como é que estamos ouvindo acompanhamento e solo ao mesmo tempo? Mais que isso - que tristeza, que tristeza infinita, que doçura angustiada nessas cordas. O garoto canta, uma voz aguda e ligeiramente fanhosa, e a primeira impressão é de transe, trânsito, fuga, como capturar o vento. Depois, abre-se um universo escuro, um poço das mais absolutas paixões - cada blues é curto, curto, dois minutos e pouco, cantado como quem perseguisse ou fosse perseguido. Nem amor, nem desejo, nem desespero: um pouco de cada uma dessas emoções e mais alguma outra coisa. Alguma coisa que remonta à mais básica humanidade, fatalidade, destino, morte.

O garoto é Robert Johnson, 25 anos, nascido (presumivelmente) no vilarejo de Hazelhürst, Mississipi. Os homens são o pesquisador John Hammond e o então diretor artístico da gravadora Columbia, Don Law. O que eles estão gravando é a primeira parte do único registro da obra do virtual cristalizador do blues moderno. Um ano depois, num "estúdio" improvisado no galpão de um prédio em Dallas, Texas, Hammond e Law fariam uma segunda sessão.

Quando, cinco meses depois, Hammond desceu de Nova York ao sul em busca de Johnson para um grande concerto de blues programado para o Carnegie Hall, voltou apenas com a notícia: ele morrera em circunstâncias misteriosas, aos 27 anos, possivelmente assassinado por veneno, por alguma amante vingativa ou por algum marido ciumento. Isso é blues, baby.


Os dois LPs obtidos dessas sessões são, até hoje, os mais importantes discos de blues que existem. Álbuns de cabeceira de Eric Clapton, Jimmy Page, Jeff Beck, John Mayall, Pete Townshend, Ron Wood, Keith Richards, Mick Jagger, Elvis Costello, Nick Cave. Neles estão blues gravados infinitas vezes por artistas contemporâneos - "Love in Vain", "Crossroads Blues", "Terraplane Blues", "Me and the Devil Blues", "Ramblin' on My Mind", "Stop Breaking Down". Estão neles, também, dezenas de licks - fraseados solistas da guitarra - e riffs - séries de compassos rítmicos -, copiados nota a nota, milhares de vezes, por dúzias de músicos de blues, de jazz, de heavy metal, de rhythm and blues, de rock, de todas as tendências. E está nesses discos, sobretudo, uma das poesias mais intensas e ousadas da história da cultura popular internacional. 

Clichê algum descreve a negra lira de Robert Johnson. Não se trata de "lamento de raça", não se trata de "hino da salvação", não se trata de "lirismo popular". Trata-se de um mergulho sem amarras nos mais escuros desvãos da alma humana, lá onde mora o verdadeiro devil, o que comercia com as paixões, propõe negócios irremediáveis e não aceita tréguas. Havia uma lenda, já durante o tempo em que Johnson vivia, de que ele teria feito um "pacto com o diabo" em troca de seu notável talento com a música e sucesso com as mulheres. Vista de outro ângulo, a lenda vive: era com seu mais íntimo diabo, aquele que o mundo branco das leis e das normas trata de suprimir, que ele dialogava em seus blues.

E em seus blues resume-se sua biografia. Robert Johnson nasceu, amou, tocou, morreu. No espaço de 27 anos. Nos dois minutos de um blues.

(Texto escrito por Ana Maria Bahiana, Bizz #017, dezembro de 1986)

11 de fev de 2016

Review: Amy (2015)

quinta-feira, fevereiro 11, 2016


Amy, dirigido por Asif Kapadia (o mesmo cara que fez Senna, lançado em 2010), é um documentário denso e pesado. O filme conta, sempre através de cenas reais, a trajetória da cantora inglesa Amy Winehouse, um dos maiores talentos que a música viu surgir na última década, falecida em 2011.

O filme constrói um retrato bastante revelador da inglesa. Dona de uma voz poderosa e um temperamento irregular, Amy desde cedo sentiu os efeitos da separação dos pais, ocorrida quando ela tinha apenas 9 anos. Desde então, aliou a frágil personalidade com a busca incessante por uma figura masculina forte, refletida em seu primeiro empresário, nos produtores, no próprio pai (que só se reaproximou quando ela já era uma artista conhecida) e no marido, Blake Fielder. 

Alcoólatra e bulímica, Amy desceu ladeira abaixo ao se apaixonar por Fielder, que a apresentou ao mundo da heroína e do crack. Então, basta puxar na memória e relembrar a descida vertiginosa da cantora até a sarjeta. Descontrolada e totalmente fora da realidade, Amy teve a sua intimidade e o seu pior momento retratados minuciosamente pela imprensa inglesa, que cercava cada um de seus passos como urubus famintos em volta de uma carcaça.

No meio disso tudo, vemos a enorme capacidade de Amy em compor canções arrebatadoras, donas de uma beleza dolorida e versos confessionais. Não à toa, Back to Black, seu segundo (e sensacional) disco, transformou-se em um dos álbuns mais conhecidos destes tempos recentes.

O documentário acompanha de maneira extremamente próxima e com cenas de arquivo vindas de amigos, da própria Amy e de pessoas próximas, o seu declínio e mergulho na dependência química. Uma jornada perturbadora, que impacta o espectador de maneira profunda, tornando ainda mais dolorida e sentida a perda de uma artista dona de um talento raro.

Indicado ao Oscar, Amy é um documento impressionante sobre uma das maiores vozes do nosso tempo. Como bem afirma o lendário Tony Bennett em certo ponto: “Amy está no mesmo patamar de Ella Fitzgerald e Billie Holiday, e é assim que deve ser lembrada por todos”. Quem somos nós para discordar?

Discoteca Básica Bizz #016: Miles Davis - Kind of Blue (1959)

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Há pelo menos oito discos de Miles que não podem ficar fora de nenhuma discoteca básica. A boa pergunta é: por que, então, Kind of Blue na pole position?

O estudo da quilométrica carreira do trompetista não pode dispensar Miles Davis - A Critical Biography (Quartet Books, Londres), do músico e crítico Ian Carr. Segundo ele, Kind of Blue seria "talvez o disco a exercer a maior influência na história do jazz". Isto posto, vale lembrar que o próprio Carr concorda que o período entre 1958 e 1960 - quando Miles gravou também Milestones, Porgy and Bess e Sketches of Spain - representa o primeiro pico do amadurecimento de Miles como bandleader, comparável apenas à fase elétrica/eletrônica (1968/1970), que abrange de Miles in the Sky a A Tribute to Jack Johnson, passando pelos básicos In a Silent Way e Bitches Brew.

Acontece que Kind of Blue foi o primeiro disco da história totalmente improvisado. No texto da contracapa, Bill Evans explica que Miles só apresentou o esqueleto de cada faixa horas antes da gravação - nenhum dos cinco temas jamais executados anteriormente pelos músicos.

Os músicos, um capítulo à parte. Completam a textura metálica dos sopros os saxofones de Cannonball Adderley (alto) e o gênio John Coltrane (tenor). Bill Evans é o pianista em todas as faixas, exceto "Freddie Freeloader" (em que Miles, pela simplicidade de blues tradicional do tema, o substituiu por Wyn Kelly). A seção rítmica - Paul Chambers (baixo) e James Cobb (bateria) - não faz mais que armar a cama para metais e piano, em sua exuberante calma anti-virtuose. É o cool, enfim.

O amadurecimento anterior de Miles ocorrera à sombra de Charlie Parker, o canário alimentado à speed ball, que esgotou o jazz com sua fúria de meter 64 notas por compasso. É o bebop, enfim. Quando sai para montar sua própria banda, ele persegue a direção oposta e encontra o parceiro ideal em Gil Evans - um arranjador que domina toda a tradição erudita, mas carrega a convicção de que "a música mais expressiva vem dos guetos, livre de teorização, caso exemplar do blues e do flamenco". 


A partir daí, ambos minam o jazz como reduto do instrumentista por excelência, e nasce o cool, onde importa o clima e o understatement (a frase que dispensa exclamações, seu forte são as reticências, o silêncio, o espaço aberto). O "tipo de blues" obtido segue a linha do argumento favorito de Brian Eno quando quer defender a música popular de sua "inferioridade" diante da erudita: a inovação existe sim, mas os bitolados a procuram no lugar errado - a harmonia - quando ela está na textura.

Tirando "Flamenco Sketches", o disco adota e/ou desmembra o blues tradicional de doze compassos, como suporte para essa busca e também para a espontaneidade que só a improvisação pode dar (desde que o ego seja deixado do lado de fora do estúdio).

A faixa de abertura, "So What", não emprega mais que duas escalas: é a redução máxima do disco, na estrutura modal típica dos cantos africanos de chamado e resposta. Na sequência, "Freddie Freeloader" apresenta o esqueleto do blues tradicional (numa transição quase imperceptível) que será progressiva e matematicamente desmontado até a última faixa, "All Blues". Aí o círculo fecha com uma série de cinco escalas, que podem ser percorridas durante o tempo que cada solista desejar. E ainda assim, ela sai redonda, melódica, concentrada na variação da textura, que acompanha os timbres do trompete - ora aberto, ora abafado - do homem que rege. Fora do círculo, "Flamenco Sketches" esboça o gueto que seria trabalhado no LP seguinte, Sketches of Spain, orquestrado por Gil Evans.

(Texto escrito por José Augusto Lemos, Bizz#016, novembro de 1986)

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