18 de mar de 2016

Os Melhores Discos de Todos os Tempos: 1979

sexta-feira, março 18, 2016

1979 ficou marcado por dois álbuns duplos emblemáticos: London Calling e The Wall. Discos que mostravam abordagens totalmente distintas em relação à música, e que fizeram história. No meio desses dois extremos, fatos marcantes: a contínua ascenção do AC/DC, Michael Jackson mostrando a força de sua carreira solo, a popularização do ska, a “darwinização" da disco music com apenas os melhores sobrevivendo, o progressivo soando pop como nunca soou pelas mãos do Supertramp, o hard e o heavy metal vendo surgir novas lendas com Van Halen e Motörhead, os primeiros passos do pós-punk, a estreia do The Cure e muito mais. Um ano repleto de sonoridades distintas, e que mostrou uma pluralidade musical sadia e de muita qualidade.

Os principais eventos de 1979 foram:

  • o ano começou com o fechamento do Winterland Ballroom de San Francisco, uma das casas de shows mais tradicionais dos Estados Unidos. As últimas bandas a pisarem no palco do estabelecimento de Bill Graham foram Grateful Dead e The Blues Brothers
  • o baixista do Sex Pistols, Sid Vicious, é encontrado morto em 2 de fevereiro devido a uma overdose, um dia após ser solto da penitenciária da Rikers Island
  • o The Clash realizou o seu primeiro show nos Estados Unidos no dia 7 de fevereiro. O lendário Bo Diddley abriu a apresentação, que aconteceu em San Francisco
  • com um show em Boston no dia 23 de fevereiro, o Dire Straits iniciou a sua primeira turnê norte-americana
  • B.B. King fez história no dia 26 de fevereiro ao se tornar o primeiro artista de blues a realizar uma turnê pela então União Soviética
  • musa inspiradora de “Layla”, Patty Boyd casou-se com Eric Clapton no dia 27 de março. Boyd era esposa de George Harrison, melhor amigo de Clapton
  • em 27 de abril o Black Sabbath anunciou oficialmente que Ozzy Osborne não era mais o vocalista da banda. Ronnie James Dio assumiu o posto pouco depois
  • o The Who realizou o seu primeiro show sem Keith Moon, falecido no ano anterior. A apresentação aconteceu no dia 2 de maio e contou com o novo baterista da banda - Kenny Jones, ex-Faces
  • após um show com Iron Maiden, Samson e Angel Witch no clube Music Machine no dia 8 de maio, o jornalista Geoff Barton publicou um review na revista Sounds e utilizou pela primeira vez o termo New Wave of British Heavy Metal
  • entre os dias 4 e 11 de agosto o Led Zeppelin tocou no Knebworth Festival. Os dois shows realizados no período, que viriam a ser os últimos em solo inglês até 2007, levaram mais de 400 mil fãs ao local
  • o Aerosmith anunciou oficialmente no dia 10 de outubro que Joe Perry não fazia mais parte da banda
  • no dia 26 de dezembro, o Iron Maiden oficializou Clive Burr como seu novo baterista, substituindo Doug Sampson


Entre as principais bandas formadas em 1979 estão Cólera, Demon, Dokken, Europe, The Exploited, Faith No More, Hanoi Rocks, Hüsker Dü, Killing Joke, Marillion, Michael Schenker Group, The Replacements, Saint Vitus, Toy Dolls e Vicious Rumors. Encerraram suas atividades durante o ano Emerson Lake & Palmer, Little Feat, Novos Baianos, The Runaways e Spirit.

Os cinco maiores hits de 1979 foram “Heart of Glass” do Blondie, “I Will Survive” de Gloria Gaynor, “Pop Muzik” do M, “Hot Stuff” de Donna Summer e “Born to Be Alive” de Patrick Hernandez. Outros sucessos que marcaram o ano foram “Good Times” (Chic), “My Sharona” (The Knack), “Don't Stop ’Til You Get Enough”, “Rock With You" (Michael Jackson), “Heartache Tonight”, “The Long Run" (Eagles), “Sunday Girl” (Blondie), “I Don’t Like Mondays” (The Boomtown Rats), “Message in a Bottle”, “Walking on the Moon”, “Can't Stand Losing You" (The Police), “Another Brick in the Wall Part II”, “Run Like Hell" (Pink Floyd), “Bela Lugosi’s Dead” (Bauhaus), “Boys Don’t Cry” (The Cure), “Breakfast in America”, “Goodbye Stranger”, “The Logical Song”, “Take the Long Way Home" (Supertramp), “California Übber Alles” (Dead Kennedys), “Crazy Little Thing Called Love” (Queen), “Dancing Barefoot” (Patti Smith), “The Devil Went Down to Georgia” (Charlie Daniels), “Do Anything You Want To”, “Waiting for an Alibi", "Sarah" (Thin Lizzy), “Highway to Hell” (AC/DC), “I Was Made For Lovin’ You” (Kiss), “Just What I Needed”, "Good Times Roll" (The Cars), “London Calling” (The Clash), “Oliver's Army” (Elvis Costello), “Parisienne Walkways” (Gary Moore), “Please Don’t Go” (KC & The Sunshine Band), “Rapper's Delight” (The Sugarhill Gang), “Since You Been Gone” (Rainbow), “Transmission" (Joy Division), “We Are Family” (Sister Sledge) e “Whatever You Want” (Status Quo).

Nasceram durante o ano Jason Isbell (01/02), Norah Jones (30/03), Daniel Johns (22/04), Derek Trucks (08/06) e Pink (08/09). Faleceram durante 1979 Charles Mingus (05/01), Donny Hathaway (13/01), Sid Vicious (02/02), Mike Patto (04/03), Nino Rota (10/04) e Jimmy McCulloch (27/09).

Os vencedores das principais categorias da 21ª edição do Grammy foram:

  • Gravação do Ano e Canção do Ano: “Just the Way You Are”, de Billy Joel
  • Álbum do Ano: a trilha sonora de Saturday Night Fever
  • Melhor Artista Novo: A Taste of Honey

Através de uma  extensa pesquisa em diversas listas de vários veículos, identificamos os principais discos lançados em 1979. Então, colocamos em nosso banco de dados e chegamos ao resultado abaixo.

Com vocês, os melhores álbuns lançados em 1979:

50 Joe Jackson - Look Sharp
49 Ron Wood - Gimme Some Neck
48 Rory Gallagher - Top Priority
47 The Fall - Dragnet
46 Rickie Lee Jones - Rickie Lee Jones
45 Frank Zappa - Sheik Yerbouti
44 Buzzcocks - A Different Kind of Tension
43 Ian Hunter - You’re Never Alone With a Schizophrenic
42 Blackfoot - Strikes
41 Led Zeppelin - In Through the Out Door
40 Motörhead - Bomber
39 Molly Hatchet - Flirtin’ with Disaster
38 David Bowie - Lodger
37 Nick Lowe - Labour of Lust
36 Van Morrison - Into the Music
35 Supertramp - Breakfast in America
34 Sister Sledge - We Are Family
33 The Ruts - The Crack
32 Madness - One Step Beyond …
31 Stiff Little Fingers - Inflammable Material
30 The Cure - Three Imaginary Boys
29 The Raincoats - The Raincoats
28 Riot - Narita
27 Dire Straits - Communiqué
26 Gary Numan - The Pleasure Principle
25 Chic - RIsqué
24 Thin Lizzy - Black Rose: A Rock Legend
23 Scorpions - Lovedrive
22 Fleetwood Mac - Tusk
21 ZZ Top - Degüello
20 The Undertones - The Undertones
19 Black Uhuru - Showcase
18 The Damned - Machine Gun Etiquette
17 PiL - Metal Box
16 The Police - Reggatta de Blanc
15 Van Halen - Van Halen II
14 Talking Heads - Fear of Music
13 Motörhead - Overkill
12 Tom Petty - Damn the Torpedoes
11 Elvis Costello - Armed Forces
10 The B-52’s - The B-52’s
9 Michael Jackson - Off the Wall
8 The Jam - Setting Sons
7 AC/DC - Highway to Hell
6 The Specials - Specials
5 Pink Floyd - The Wall
4 Neil Young - Rust Never Sleeps
3 Gang of Four - Entertainment!
2 Joy Division - Unknown Pleasures
1 The Clash - London Calling

Pessoalmente, meu top 10 de 1979 ficaria assim:

1 The Clash - London Calling
2 Pink Floyd - The Wall
3 AC/DC - Highway to Hell
4 Neil Young - Rust Never Sleeps
5 The Police - Reggatta de Blanc
6 Michael Jackson - Off the Wall
7 Thin Lizzy - Black Rose: A Rock Legend
8 Scorpions - Lovedrive
9 Supertramp - Breakfast in America
10 Gang of Four - Entertainment!

Como sempre, abaixo está uma lista com as canções que marcaram o ano em questão. E nos comentários, poste a sua lista de melhores discos de 1979. Vem junto!

Yardbirds e Led Zeppelin: relação entre as bandas é destaque na Record Collector

sexta-feira, março 18, 2016

A nova edição da Record Collectors traz como destaque de capa uma matéria sobre as raízes e o nascimento do Yardbirds, a passagem de Jimmy Page pela banda e como tudo isso influenciou o surgimento e a trajetória do Led Zeppelin.

O número 452 da revista vem também com textos sobre Sandy Denny, Everly Brothers, Rolling Stones, Cindy Lauper, Devo e PJ Harvey, além de um tributo ao genial produtor George Martin, falecido recentemente.



Discoteca Básica Bizz #033: Walter Franco - Revolver (1976)

sexta-feira, março 18, 2016


"Apesar de tudo muito leve", cantava esse paulista de formação universitária em plena época da barra-pesada. A sabedoria de Walter Franco está reunida em Revolver e no seu precursor, o enigmático "disco da mosca", de 1973, que tem as antológicas "Me Deixe Mudo” e "Cabeça" (defendida por ele, grande campeão de vaias, no último FIC da TV Globo). Os dois discos são fundamentais, mas foi Revolver que antecedeu e indicou direções mais atuais - ainda - para a música popular brasileira, graças ao tratamento mais roqueiro (arranjos eletrificados, uso de efeitos e outros recursos de estúdio) dado a suas composições.

Como um trovador extraviado da geleia geral da tropicália, ele cria miniaturas, paisagens sonoras independentes entre si, dando corpo a um trabalho extremamente rico na combinação de poesia e música (os arranjos ficaram a cargo do baixista Rodolpho Grani Jr.). No fundo, a concepção entre palavra e som na música de Walter Franco é indissolúvel e indivisível. Ele trabalha o ritmo da palavra, desdobrando-a com pausas curtas e respirações alongadas, criando novos sentidos a partir de frases breves, como na lancinante "Apesar de Tudo é Muito Leve". 

Walter já tinha evoluído muito além da letra colegial/adolescente, que marca o rock dos anos 1980. "Nothing" é um exemplo da construção complexa que faz a partir de elementos extremamente simples: "Nothing to see / Nothing to do / Nothing today / About me / I am not happy now / I am not sad". Junto com "Feito Gente" - ambas deste LP - e "Canalha" (de 1979), forma o tríptico pré-punk anos antes do retardatário punk tupiniquim.


A poesia de Walter evoluiu em duas direções: uma decorrente da influência da filosofia oriental e outra que aborda a agressividade urbana. Da primeira ele herdou a utilização da forma mântrica-circular da frase que retorna sobre si mesma, ou que se revela por etapas, palavra por palavra, como em "Mamãe D´Água" (o verso "Yara eu" vai sendo acrescido de palavras até formar "Yara eu te amo muito mas agora é tarde, eu vou dormir") e no famoso hai-kai caleidoscópico de "Eternamente" ("Eternamente / É ter na mente / Éter na mente / Eterna mente / Eternamente"). Como se vê, novos significados vão surgindo a cada nova palavra que se desdobra a partir da inicial. É um procedimento em sintonia com a poesia moderna, em especial, pelos minimalistas americanos, como Gertrude Stein, E. E. Cummings e, no teatro, Bob Wilson.

Na concepção musical do LP, tentou-se esgotar as possibilidades de um estúdio de dezesseis canais, com utilização de playbacks em sentido contrário, saturação de frequências e pré-mixagens. A complexidade do trabalho desenvolvido com a sonoridade da bateria - que além de usar filtros de frequências, serve-se às vezes de outra bateria - levou a utilizar dois bateristas nos shows. A combinação dos instrumentos acústicos - principalmente os tambores e tumbadoras que reforçam o clima tribal/meditativo de algumas letras - com os teclados e guitarras, sintetiza as boas influências da música contemporânea e do rock.

Os últimos vinte anos de música no Brasil atestam que Revolver não perdeu sua atualidade. Continua pulsando de ideias, novas até para o ouvido da era digital. O percurso posterior de Walter Franco seguiu outras direções, principalmente o caminho das baladas meditativas. Mas de quem elaborou dois LPs de tamanha criatividade e inteligência, podem-se esperar sempre novas surpresas. Por enquanto, a Continental Discos bem que poderia relançar Revolver (ele já chegou a ser relançado em 1979, mas é muito difícil encontrá-lo hoje nas lojas) e o "disco da mosca" (também conhecido como Ou Não), que está igualmente fora de catálogo e é outra pérola da música popular brasileira.

(Texto escrito por Lívio Tragtemberg, Bizz #033, abril de 1988)

17 de mar de 2016

Conservadora, saudosista e bairrista: por que a cena heavy metal no Brasil é assim?

quinta-feira, março 17, 2016


O texto publicado pela Overload - leia aqui - aponta várias questões importantes sobre a cena de heavy metal aqui no Brasil. Estão lá vários problemas que todo mundo que ouve música pesada em nosso país está cansado de saber: o conservadorismo do público, a resistência à novas bandas, a aversão a sonoridades atuais e modernas (como se existisse apenas uma maneira de se fazer heavy metal), imprensa “especializada" desatualizada (“especializada" com aspas mesmo porque, convenhamos, escrever e cobrir apenas aquilo que vai ao encontro do gosto pessoal da equipe que produz uma revista ou um site está longe de ser especializado) gerando ouvintes também desatualizados com o que está acontecendo no mundo do metal em todo o planeta, tendências sonoras que já estão consolidadas lá fora chegando às bandas brasileiras com um enorme atraso - o que não faltam são sintomas disso tudo.

Mas por que o público de metal aqui no Brasil possui um ouvido tão conservador? Qual é a raiz disso tudo? De onde vem essa aversão pelo novo, pelo atual, pela evolução, presente em uma parcela significativamente grande do público metalhead brasileiro? É algo bem difícil de responder, e cujas motivações passam por diversos fatores.

Vamos voltar algumas décadas no tempo. O metal explodiu no Brasil em 1985, através do Rock in Rio. Tocaram na primeira edição do festival nomes como Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne e Scorpions, tirando das sombras uma comunidade que já existia e, ao mesmo tempo, mostrando que havia uma alternativa para quem curtia música mas não se identificava com o que era popular naquela época - em grande parte, as bandas nacionais da década de 1980. Em um mundo sem internet, MP3 e serviços de streaming de música (acredite, isso já  aconteceu), foi através do Rock in Rio que toda uma geração teve contato com o gênero que iria fazer parte de suas vidas. Isso está documentado e afirmado em diversas entrevistas, documentários e matérias, atestando o quão importante o RiR 1985 foi para uma geração.

A então já existente Rock Brigade, que começou a circular como um fanzine em 1982, desenvolveu sua linguagem gráfica e editorial, aprofundou o seu conteúdo e se transformou na principal e única revista brasileira especializada em heavy metal, protagonismo que permaneceu durante anos. E foi através de suas páginas que nós, brasileiros daquele tempo, ficamos conhecendo inúmeras bandas. O sucesso, a força e a influência da Rock Brigade eram tão grandes que a revista passou a ter um selo próprio, a Rock Brigade Records, encarregado de lançar em nosso mercado muitos daqueles nomes tão elogiados em suas páginas. Ainda que, para um observador mais crítico e atento, o declínio do império de Antônio Pirani tenha iniciado justamente com a chegada do selo (pouco a pouco a revista foi perdendo credibilidade junto aos leitores, que começaram a perceber que todo disco lançado pela Rock Brigade Records era incensado pelos redatores, enquanto as bandas que não faziam parte do cast da gravadora, mesmo sendo aclamadas mundo afora, eram recebidas a pontapés pela redação da RB), o fato é que a Rock Brigade sempre apostou em uma linha editorial alinhada com o que estava acontecendo no segmento musical que ela cobria. A revista sempre apostou em novidades, não soando nada conservadora em suas pautas. Lembro perfeitamente do impacto de algumas capas de edições lançadas durante a década de 1990 e 2000 trazendo nomes como Alice in Chains, Ramones, Evanescence, Rage Against the Machine, Slipknot, Raimundos e outros, que foram recebidas com ojeriza por uma parcela de leitores por não serem bandas do “verdadeiro metal”. Mas os caras tentavam apresentar ao leitor novas sonoridades, isso era inegável.


Com o lento declínio da Brigade e o surgimento da Roadie Crew, as coisas mudaram de figura consideravelmente. Aquele público que descobriu o metal em meados da década de 1980, que transgrediu o senso comum ao preferir Iron Maiden ao invés de Legião Urbana, cresceu e começou a escrever sobre música. E trouxe junto um inexplicável apego à sonoridades e nomes considerados clássicos, ignorando até os limites do possível tudo que trouxesse o mínimo traço de evolução e modernidade. Uma contradição enorme em se tratando de um gênero que sempre foi marginalizado e que, pelo menos aqui em nosso país, ganhou popularidade por ser a alternativa que os jovens da década de 1980 encontraram para ir contra o senso comum de sua geração. Antes transgressores, agora adultos esses metaleiros assumiram postos no mercado de trabalho, incluindo o jornalismo cultural, e mostraram uma visão conservadora na forma de ouvir música, totalmente contrária à história do próprio gênero que consomem.

Dois exemplos claros desta postura: Mastodon e Trivium, bandas consolidadas e com públicos gigantescos lá fora, até hoje não foram capa da Roadie Crew. É possível ser ainda mais emblemático: o Slipknot, que é gigantesco em todo o planeta e atrai dezenas de milhares de fãs em todo show que faz em qualquer país, nunca esteve na capa da revista - Korn e System of a Down são exemplos similares. Nomes importantes, fundamentais e populares nos últimos anos como Opeth, Disturbed, Avenged Sevenfold, Gojira, Five Finger Death Punch, Bring Me The Horizon, Asking Alexandria e outros, também nunca tiveram essa “honraria”. É o esquema Iron Maiden/Black Sabbath/Metallica, com um Kiss, um Megadeth e um Slayer pra dar uma variada de vez em quando, em um trabalho feito sob medida para o ouvinte conservador. A coisa chega ao ápice de uma realidade imaginativa e da falta de bom senso ao percebermos que bandas como Manowar e Helloween, que foram importantes e influentes no passado mas que não gravam nada digno de nota há anos, seguem sendo vendidas pela revista como algo digno de ser apreciado pelo seu público. 

Isso sem falar na enorme quantidade de indivíduos que fazem parte da redação da Roadie Crew e exercem também a função de agentes de bandas ou são donos de assessorias de imprensa. Afinal, imparcialidade é apenas um detalhe, não é mesmo?

Aqui dá pra fazer um paralelo com a Rock Brigade e o caso dos Ramones. Há pouco tempo atrás, era discussão séria na seção de cartas da Roadie Crew a possibilidade dos Ramones estamparem uma capa da publicação ou terem uma matéria dedicada a eles em suas páginas. Uma visão bem radical e xiita do que é e do que não é digno de estar em uma publicação “especializada" em heavy metal, compartilhada por leitores e jornalistas. 

É claro que cada veículo possui a sua linha editorial e baseia suas decisões nisso. O próprio fato de a única publicação dedicada ao heavy metal que temos no mercado brasileiro ser tão conservadora apenas reflete o modo de pensar do mercado, que também é. Mas a decisão consciente de seguir com essa abordagem não é sadia a longo prazo. Nesse ponto, vale a pergunta tão comum nos cursos de jornalismo: qual é o papel da imprensa? Vamos reformulá-la para ficar mais alinhado com o que estamos discutindo: afinal, qual é o papel da imprensa musical?


Acredito que não seja apenas informar. A informação, o ato de levar notícias sobre o que está acontecendo com os artistas e o gênero que recebe cobertura de um veículo, é uma das funções do jornalismo cultural. A outra, tão importante quanto, é apresentar novos artistas, novas sonoridades, novas tendências e abordagens para o público. Mostrar que o gênero que ele tanto ama segue evoluindo e andando para frente. Que não está parado e sem ideias, mas sim pulsando de maneira vibrante e sempre criativa. Sem evolução, sem coragem para apostar, o Metallica não teria gravado “Fade to Black” e “One”, dois de seus maiores clássicos. O Iron Maiden não teria composto algo como “Powerslave" se não tivesse coragem de experimentar. Essas canções são amadas pelo público hoje em dia, e são exemplos de como uma banda pode evoluir e experimentar novas sonoridades. Trazer exemplos como esses ao público, apresentando bandas atuais que fazem algo novo, original, atual e moderno para o heavy metal, é uma das funções mais importantes de uma imprensa que se diz - e quer ser - entendida como especializada no nicho a que se dedica. Se não fizer isso, a auto-intitulada "revista de heavy metal do Brasil" seguirá sendo apenas um fanzine de luxo, quando muito.

Tenho mais de uma década de experiência no jornalismo musical, sendo editando a Collectors Room ou colaborando para sites como Whiplash e revistas como RockHard/Valhalla e outras. E, assim como eu, qualquer pessoa que já esteve à frente de um veículo dedicado ao metal aqui no Brasil sabe o quão frustrante é produzir e postar matérias sobre novas bandas e ver esses textos passarem batido pela grande maioria dos leitores. Na contramão, basta escrever um post falando sobre a saliva de Bruce Dickinson, a cueca suja de Ozzy ou o sanduíche que James Hetfield comeu em seu café da manhã para ver os índices de audiência irem para as alturas. Convenhamos, podemos mais que isso, né gente?

Outro ponto que merece discussão quando falamos no mercado de metal aqui no Brasil é a postura da grande maioria dos veículos, sejam sites, blogs ou revistas, em relação às bandas nacionais. É importante e fundamental divulgá-las e apresentá-las ao público, mas sempre mantendo o senso crítico como pauta do dia. Traduzindo: não é porque uma banda é brasileira que ela possui o status automático de excelente. Isso está muito longe da verdade. Ao analisar um disco de uma banda nacional, é preciso ter coragem tanto para elogiar quanto para criticar o que precisa ser criticado. É dessa maneira, ouvindo uma opinião isenta e crítica vinda de fora, que esses artistas podem perceber onde precisam melhorar, quais as qualidades que possuem e quais os defeitos que precisam corrigir. Existem centenas e centenas de blogs e sites focados em heavy metal em todo o Brasil, e por experiência própria posso afirmar que mais de 95% deles abrem mão de todo e qualquer senso crítico ao resenhar um trabalho de uma banda nacional. Que validade tem um veículo com essa postura? Jornalismo cultural, crítica musical, não é release de assessoria de imprensa. Se toda banda ganha nota 9 ou 10, algo está muito errado.

O modo como as coisas são feitas incentiva essa postura. A gravadora, ou o produtor, ou a banda, envia um CD para um veículo resenhar. Se esse veículo tiver a petulância de falar mal do disco, de criticar o trabalho e apontar o que ele acha que deve ser melhorado, sabe o que acontecerá? Portas se fecharão, em um ciclo que vira uma bola de neve. Você passa a não receber mais materiais promocionais, credenciais para shows e eventos somem, quem era amigo agora não é mais. Fulano fala para ciclano, e quando você percebe está sozinho em um mercado que é corporativista pra caramba, onde a troca de favores e o tapinha nas costas tem mais valor que um trabalho jornalístico desenvolvido de forma séria e independente. Ter e manter uma postura autônoma em um mercado editorial como o nosso, vai, vai, vai … até que cansa e você ou para de escrever, ou fica escrevendo pra você mesmo.


Vivemos uma realidade meio assustadora aqui no Brasil. O termo “classic rock”, por exemplo, é muito mais maléfico do que benéfico. Ele limita os veículos, as rádios, os ouvintes. Produzir a programação de uma rádio de classic rock, ou de uma festa de classic rock, é a coisa mais simples e fácil do mundo. O público que ouve e vai a esses eventos quer escutar sempre a mesma coisa, e fica chateado e ofendido se não encontrar o que procura. Então, dá-lhe “Smoke on the Water”, “Paranoid”, “Sweet Child O' Mine”, “Enter Sandman”, “Fear of the Dark” e afins rodando em eterno repeat. Enquanto isso, Crack the Skye e “Oblivion" trazem o Mastodon desafiando conceitos, Unto the Locust mostra o Machine Head renovando o thrash, e isso é ignorado solenemente.

Todo esse conservadorismo, todo esse apego ao clássico e ao que é julgado "correto" em relação ao heavy metal, ao que “pode e não pode”, faz com que uma banda inovadora, original e, porque não, genial como o Sepultura, siga gerando reações negativas em seu próprio chão. Sejamos claros e diretos: Beneath the Remains e Arise são discos excelentes que mostraram ao mundo que era bom ficar de olho naquele quarteto vindo de um pitoresco país tropical, mas foram Chaos A.D. e, principalmente, Roots, que mostraram que esse país sul-americano tinha dado a luz a uma das bandas mais originais e inovadoras da história do metal. E Roots, principalmente, segue sendo questionado e criticado por uma parcela considerável de fãs e jornalistas brasileiros, que, mesmo passados duas décadas de seu lançamento, ainda parece não ter sido assimilado por aqui. Em um mercado com uma imprensa especializada de verdade, capaz de formar leitores atualizados com o que acontece no heavy metal como um todo, isso não aconteceria.

O ponto é o seguinte: tudo que envolve o metal aqui no Brasil precisa ser mais sério e profissional. A imprensa precisa ser mais independente e não uma ferramenta para troca de favores. Uma crítica de disco que fale de maneira clara as falhas e pontos baixos do trabalho de uma banda nacional deve deixar de ser a exceção. Passa por quem tem o poder de formar opiniões, seja através de uma revista, um site, um programa de rádio ou seja lá o que for, a mudança da mentalidade conservadora, saudosista e bairrista que pauta a cena metal brasileira.

Se nada for feito, daqui há dez anos assistiremos o Mastodon ou qualquer outra banda “nova" e popular tocando só pela TV, enquanto qualquer banda cover mequetrefe do Iron Maiden, Metallica e do Sabbath lotará estádios por aqui. 

Dá pra ser melhor que isso, convenhamos.

Rolling Stones: início da carreira da banda em destaque na Mojo

quinta-feira, março 17, 2016

A nova edição da revista inglesa Mojo tem como destaque de capa os Rolling Stones, em uma matéria que destrincha como foi o ano de 1966 na carreira da banda, fundamental para o desenvolvimento do grupo e que foi marcado pelo lançamento de Aftermath, primeiro disco dos Stones a conter exclusivamente canções compostas por Mick Jagger e Keith Richards. O texto tem a participação mais do que especial de Mick Jagger, que conta inúmeras histórias sobre o período. Completando o pacote, a revista vem com um CD de brinde intitulado Paint It Black, com canções de grandes nomes da década de 1960 como The Yardbirds, 13th Floor Elevators e The Seeds.

O número 270 da Mojo vem também com matérias sobre Miles Davis e o novo filme sobre o trompetista, Graham Nash, Bob Mould e Hüsker Dü, PJ Harvey, Black Sabbath e outros.



Ramones: os 40 anos da banda na nova Rolling Stone Brasil

quinta-feira, março 17, 2016


A nova edição da Rolling Stone Brasil traz uma matéria especial sobre os 40 anos da lendária banda nova-iorquina Ramones, pioneira do punk e um dos nomes mais influentes da história do rock. A revista conta como o quarteto se formou, analisa a trajetória do grupo e passa a limpo a carreira dos Ramones.

A Rolling Stone Brasil número 115 tem também matérias com Chris Martin, Black Sabbath, Bob Odenkirk (o ator da série Better Call Saul), tudo que rolou no Lollapalooza 2016, uma visita ao set de Batman vs. Superman e um Especial Mulher, com entrevistas com Yoko Ono, Elza Soares e outras artistas.


Os 50 Maiores Discos de Metal de Todos os Tempos segundo a Kerrang

quinta-feira, março 17, 2016

Em sua edição de 3 de fevereiro de 2016, o semanário inglês Kerrang! publicou uma lista com os 50 Maiores Discos de Heavy Metal de todos os tempos. Nas palavras da publicação, o levantamento traz os álbuns mais marcantes da história do metal escolhidos pela sua redação com a ajuda de músicos como Kerry King, Henry Rollins, Corey Taylor e outros.

O resultado é um belo equilíbrio entre trabalhos clássicos e outros mais recentes, demonstrando a criatividade e inovação constantes presentes em toda a trajetória da música pesada.

Abaixo, os 50 Maiores Discos de Metal de Todos os Tempos, segundo a Kerrang!:

50 Bring Me The Horizon - Suicide Season (2008)
49 Angel Witch - Angel Witch (1980)
48 Trivium - Ascendancy (2005)
47 Anthrax - Among the Living (1987)
46 Meshuggah - Destroy Erase Improve (1995)
45 King Diamond - Abigail (1987)
44 Carcass - Heartwork (1993)
43 Rammstein - Mutter (2001)
42 Celtic Frost - To Mega Therion (1985)
41 Judas Priest - Stained Class (1978)
40 At The Gates - Slaughter of the Soul (1995)
39 Lamb of God - As the Palaces Burn (2003)
38 Electric Wizard - Come My Fanatics (1997)
37 Napalm Death - From Eslavement to Obliteration (1988)
36 Mayhem - De Mysteriis Dom Sathanas (1994)
35 Avenged Sevenfold - City of Evil (2005)
34 Metallica - … And Justice for All (1988)
33 Killswitch Engage - Alive or Just Breathing (2002)
32 Venom - Black Metal (1982)
31 System of a Down - Toxicity (2001)
30 Sepultura - Chaos A.D. (1993)
29 Type O Negative - October Rust (1996)
28 Opeth - Blackwather Park (2001)
27 Slipknot - Iowa (2001)
26 Mastodon - Leviathan (2004)
25 Slayer - Seasons in the Abyss (1990)
24 Machine Head - Burn My Eyes (1994)
23 Black Sabbath - Master of Reality (1971)
22 Iron Maiden - Iron Maiden (1980)
21 Pantera - Far Beyond Driven (1994)
20 Emperor - In the Nightside Eclipse (1994)
19 Deftones - White Pony (2000)
18 Morbid Angel - Altars of Madness (1989)
17 Ozzy Osbourne - Blizzard of Ozz (1980)
16 Tool - Ænima (1996)
15 Bathory - Bathory (1984)
14 Megadeth - Rust in Peace (1990)
13 Dio - Holy Diver (1983)
12 Iron Maiden - The Number of the Beast (1982)
11 Slipknot - Slipknot (1999)
10 Metallica - Master of Puppets (1986)
9 Black Sabbath - Black Sabbath (1970)
8 Korn - Korn (1994)
7 Motörhead - Overkill (1979)
6 Pantera - Vulgar Display of Power (1992)
5 Slayer - Reign in Blood (1986)
4 Judas Priest - British Steel (1980)
3 Iron Maiden - Seventh Son of a Seventh Son (1988)
2 Black Sabbath - Paranoid (1970)
1 Metallica - Ride the Lightning (1984)


16 de mar de 2016

Pra entender: o que é metalcore?

quarta-feira, março 16, 2016


Tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, a imprensa especializada em metal classifica o termo metalcore em duas vertentes distintas. A primeira, e pioneira, surgiu em 1990 combinando elementos de hardcore e heavy metal, diferenciando-se de uniões semelhantes como o crossover por dar uma ênfase muito maior nas paradas e mudanças de ritmo e pelo uso constante da dissonância.

A primeira geração de bandas a executarem e desenvolverem o estilo veio dos Estados Unidos e contou com nomes como Integrity, Earth Crisis, Unearth, Downcast e Rorschach, entre outras. Para essa primeira geração de artistas, é comum vermos o termo “metallic hardcore” sendo utilizado, principalmente em matérias escritas na época em que esses grupos estavam surgindo. 

Esse tipo de som, extremamente agressivo e violento e, como já dito, repleto de dissonância, segue sendo feito até hoje por bandas como Converge, Burst, Misery Signals, Yakuza e outras. A banda norte-americana Converge se transformou, com o passar dos anos, na principal referência do gênero, através de discos clássicos como Jane Doe (2001), You Fail Me (2004), Axe to Fall (2009) e All We Love We Leave Behind (2012).

Já a segunda vertente atende é classificada lá fora como melodic metalcore, e traz, a grosso modo, a sonoridade que o mercado brasileiro associa ao estilo. O metalcore melódico emergiu no final da década de 1990 e início dos anos 2000, também nos Estados Unidos, através de nomes como Shadows Fall, Killswitch Engage, God Forbid e Avenged Sevenfold, unindo em um mesmo caldeirão a mistura de hardcore com metal já presente nos nomes da primeira geração e acrescentando mais itens na receita, notadamente uma grande influência de death metal melódico e alguns elementos de thrash e groove metal. As características principais do metalcore melódico são a onipresença dos bumbos duplos, riffs de guitarra com muita melodia e influência de thrash metal, quebras constantes de andamento (os chamados "breakdowns"), e a variação entre vocais guturais e limpos em uma mesma faixa.

O estilo tem como seu principal centro produtor os Estados Unidos, onde se desenvolveu e mostrou-se viável para o mercado, com as bandas vendendo muitos discos e conquistando legiões de fãs. Entre as principais referências do estilo estão bandas como Killswitch Engage, Trivium, As I Lay Dying, All That Remains, Avenged Sevenfold, Demon Hunter, God Forbid e Shadows Fall.

Para entender o metalcore melódico, sugiro a audição atenta das bandas e discos abaixo:

All That Remains: The Fall of Ideals (2006)
As I Lay Dying: The Powerless Rise (2010) e Awakened (2012)
Avenged Sevenfold: Waking the Fallen (2003)
Darkest Hour: Undoing Ruin (2005) e Deliver Us (2007)
Demon Hunter: The Triptych (2005)
God Forbid: IV: Constitution of Treason (2005) e Earthblood (2009)
Heaven Shall Burn: Antigone (2004)
Killswitch Engage: Alive or Just Breathing (2002), The End of Heartache (2004), As Daylight Dies (2006) e Disarm the Descent (2013)
Shadows Fall: The Art of Balance (2002), The War Within (2004) e Fire From the Sky (2012)
Unearth: The Oncoming Storm (2004)
The Human Abstract: Nocturne (2006)
Times of Grace: The Hymn of a Broken Man (2011)
Trivium: Ascendancy (2005), The Crusade (2006), Shogun (2008) e In Waves (2011)

15 de mar de 2016

Playlist: Todo Mundo Tocando Led Zeppelin

terça-feira, março 15, 2016


Seguindo com nossa série de playlists trazendo reinterpretações para o catálogo de bandas clássicas, chegamos ao Led Zeppelin. A metodologia é a mesma: em ordem cronológica, trazemos as canções da banda inglesa na mesma sequência em que estão nos discos, porém tocados por outros artistas.

A ideia é fugir de covers manjados e conhecidos, apresentando novas abordagens e versões não tão divulgadas para o catálogo do Led Zeppelin. E, no final, algumas canções de bônus pra seguir na vibe.

Aumente o volume, ouça no player abaixo e siga também no Spotify:

Discoteca Básica Bizz #032: Captain Beefheart - Trout Mask Replica (1969)

terça-feira, março 15, 2016


O "Capitão Coração-de-Boi" - nome verdadeiro: Don Van Vliet - nasceu em Glendale, Califórnia, em 1941, e formou sua primeira Magic Band em 1964. Sua música é única e de importância histórica já reconhecida. Na lista de 100 melhores LPs de todos os tempos publicada no New Musical Express em 1985, Beefheart recebeu votos para oito de seus discos, perdendo apenas para os Beatles (com onze) e Bob Marley (dez).

Trout Mask ReplicaRéplica de Máscara de Truta -, um álbum duplo e seu terceiro lançamento, partiu de um convite de Frank Zappa, o produtor, para que Beefheart gravasse em seu selo Straight. O Capitão recebeu controle artístico total e tempo de estúdio praticamente ilimitado. Muita gente o considera a conquista mais importante na música desde que o homem primitivo bateu, pela primeira vez, duas pedras uma na outra.

As principais influências e a inspiração de Beefheart foram o blues e o jazz de vanguarda, evidentes em toda a sua obra. Os resultados que atinge, porém, a partir desta matéria-prima, são tão ricos e soltos - e, ainda assim, contagiantemente rítmicos - que desafiam qualquer descrição.

Beefheart nunca foi um músico formal. Ele apresenta as diferentes partes a seus músicos de vários jeitos - entre eles o assobio - e trabalha diretamente com eles até obter exatamente o som desejado. O resultado é um trabalho em conjunto altamente organizado, que soa como se estivesse sendo composto ali, no ato.

O fluxo criativo de Beefheart é espontâneo. Tudo o que ele tem a fazer é abrir uma torneira interna para vir jorrando. Consta que compôs todas as 28 faixas deste disco em oito horas e meia, utilizando um piano e um gravador. Ele diria, depois, que só demorou tanto porque tinha apenas um conhecimento superficial do teclado! Levou, então, os músicos ao isolamento quase total de sua casa no deserto de Mojave e instruiu-os ali por oito meses, antes de entrarem no estúdio. O efeito final é galvanizante.


A formação básica consistia em Antennae Jimmy Semens (Jeff Cotton) na guitarra e Drumbo (John French) na bateria - ambos de formações anteriores da Magic Band - com Zoot Horn Rollo (Bill Harkleroad) na segunda guitarra e Rockette Morton (Mark Boston) no baixo. Estes dois eram, nessa época, desconhecidos que tocavam em bares. Beefheart os chamou porque queria gente sem ideias pré-concebidas, a quem pudesse ensinar desde a estaca zero. Seu primo, The Mascara Snake, tocava clarineta barítono, assim como o próprio Capitão, também nos sax tenor e soprano.

Beefheart foi abençoado com a voz de Howlin' Wolf, meio Nelson Cavaquinho - com o alcance de uma multi-oitava. Algumas faixas são cantadas sem nenhum acompanhamento e permanecem entre suas canções mais populares. Ele canta em cima de dissonâncias ou ritmos pulsantes - na maioria das vezes, ambos simultaneamente intervêm com os mais lúcidos solos de sax free imagináveis.

Trout Mask Replica não envelheceu quase nada, tanto que muita gente ainda está tentando assimilá-lo. Nenhum instrumento ocupa um papel secundário. Todos os músicos de Beefheart estão sempre solando e sempre tocando tangencialmente. Em torno de um penetrante e profundo som de baixo, o baterista elabora padrões rítmicos complexos de extraordinária fluidez e habilidade. A base do som de guitarra é um toque de slide fantástico - Jimmy Semens e Zoot Horn parecendo dois cachorros loucos brigando - mas, ainda assim, de um lirismo sublime. As letras do Capitão partem de uma livre associação e jogos de palavras alucinatórios, o verbo encarnado entre a loucura total e a lucidez absoluta.

Com a exceção de algumas canções de Ian Anderson e de uma banda londrina chamada Screw, que fazia covers, foi apenas durante o punk que as pessoas realmente começaram a seguir os caminhos musicais mapeados pelo Capitão. O New Musical Express chamou 1978 de O Ano de Captain Beefheart. Os mais afetados foram Pere Ubu, Devo, The Pop Group, Clock DVA e Gang of Four. Peter Murphy e Mick Karn batizaram seu trabalho em conjunto com o título de uma das faixas de Trout Mask Replica, "Dali´s Car". Desde então, o fator Beefheart reaparece constantemente - mais recentemente no trabalho dos grupos Stump e World Domination Enterprises.

(Texto escrito por Peter Price, Bizz#032, março de 1988)

Existe uma indústria de heavy metal no Brasil?

terça-feira, março 15, 2016


Via Marquês, 21 de abril de 2012. Steven Wilson pergunta ao público, de forma desastrada, por que havia tão pouca gente em seu show naquela noite. A questão, injustamente interpretada como arrogante, era pertinente. Por que o show em São Paulo foi, de longe, o mais vazio em toda a turnê sul-americana? Importante lembrar: a tour passou até por Caracas, que não é exatamente a capital mundial do rock.

Não era arrogância, era uma curiosidade legítima. Vejam bem, não é um artista fracassado que não entende por que as pessoas não vão aos seus shows. A pergunta era especificamente para aquela noite. Como explicar tamanha disparidade? Como a gigantesca São Paulo leva menos de 20% do público presente em uma apresentação em Santiago, Cidade do México, Nova York ou Londres?

A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: a indústria da música pesada no Brasil é ineficiente e defasada. Absolutamente todos os membros da cadeia não funcionam como deveriam: mídia, gravadoras, produtoras, agências, bandas, etc. O resultado é um público desinformado e desinteressado por novidades, bandas medíocres, mídia inexpressiva e gravadoras inúteis.

Steven Wilson parece um exemplo ruim para iniciar um texto sobre a decadência da indústria do heavy metal no Brasil. Afinal, ele não é exatamente um artista de metal e sua música não é lá tão pesada. Porém, ele é o exemplo perfeito de uma indústria internacional que evoluiu e não chegou aqui.

Em 2002 foi lançado In Absentia, o primeiro trabalho do Porcupine Tree em uma gravadora major. Este é, sem dúvida, o disco mais importante da carreira do Steven Wilson. Foi aí que sua música escapou do submundo do underground progressivo e atingiu novos públicos. Além de atingir o público mais mainstream do prog, foi no metal que Steven Wilson encontrou novos ouvintes. A indústria rapidamente entendeu o recado. O progressivo não era mais música para nossos pais ou avós. Existia uma clara demanda por um som pesado, interessante, complexo e novo.

Logo surgiram gravadoras, revistas especializadas, festivais, novas bandas. De repente Opeth, Porcupine Tree, Anathema e Devin Townsend estavam fazendo um sucesso que era inimaginável poucos anos antes. Sucesso real, com públicos consideráveis e dinheiro suficiente para que os músicos vivessem confortavelmente de sua arte (o que por si só já é impressionante).

Mas nada chegou aqui no Brasil com a mesma proporção. Nada. O que justifica um público tão desinteressado por novidades? Não estamos falando apenas deste progressivo moderno: o power metal (estilo popular no Brasil) do Sabaton arrasta multidões em festivais europeus e aqui não enche o Carioca Club. Volbeat e Five Finger Death Punch são headliners de grandes festivais e nem tocam no Brasil. Deafheaven chama atenção até da mídia mainstream gringa e por aqui mal é mencionado na imprensa especializada. O nosso Overload Music Fest tem o mesmo impacto midiático que uma turnê qualquer do UDO. Nossas bandas de metal que querem fazer um som “moderno” soam como o Disturbed em 2001.


Fãs e bandas de metal frequentemente reclamam de falta de espaço do estilo na grande mídia, sem perceber que, na verdade, nos falta uma mídia especializada mais relevante. Lógico que uma presença na imprensa mainstream não é desprezível, mas não é essencial. No Brasil é até mais fácil emplacar uma notinha de assessor de imprensa sobre shows de artistas relativamente irrelevantes na Folha de São Paulo ou O Globo. Ou você acha que o New York Times está noticiando um show de death metal no Bronx? O metal é auto sustentável, por isso uma mídia especializada relevante é muito mais importante que pequenos espaços em veículos mainstream. O problema é que não temos uma mídia formadora de opinião desde os tempos da Rock Brigade e Vitão Bonesso.

Sim, a Rock Brigade foi uma legítima formadora de opinião até o começo dos anos 2000. Goste você ou não do metal melódico, o que a revista fez pelo estilo no país foi inestimável. A Brigade era tão relevante que o Brasil virou o principal mercado de heavy metal melódico no mundo. As bandas tinham aqui públicos que não tinham em nenhum outro lugar. De forma mais regional, o Vitão fazia o mesmo no rádio, com um programa relevante e muito ouvido em São Paulo.

Ainda temos a Roadie Crew, muito boa no que se propõe a fazer. Porém, ela se posiciona como um veículo de classic rock, compreensivelmente não se arriscando tanto nos estilos mais modernos. Não há julgamento ou crítica em relação a isso: existe espaço para revistas como ela no mercado. O problema é não existir também uma revista que aposte em novidades e que fale diretamente com o público mais atual.

Mesmo que o futuro não esteja no meio impresso, não existe um único site realmente relevante e formador de opinião. O maior do Brasil, Whiplash!, em seu formato colaborativo, é eficiente para divulgação de notícias. Porém, seu conteúdo próprio é muito irregular e muitas vezes abaixo do aceitável para um veículo de seu porte. Existem também dezenas de sites e portais voltados ao heavy metal, quase todos com conteúdo pobre, textos sem muita inspiração e irrelevantes. Existe uma falta de coragem generalizada para se criticar e criar conteúdo instigante. Os poucos bons escritores que temos não conseguem conquistar a audiência que merecem e se tornam irrelevantes por falta de público interessado.

O desinteresse por novidades do nosso público obviamente reflete na qualidade das nossas bandas. Nossos músicos de heavy metal são técnicos, bem preparados e competentes. Diria até que são superiores, tecnicamente, que boa parte dos músicos estrangeiros. Mas também são compositores pouco inspirados. Produzimos muitos discos razoáveis ou até bons, mas quase nada é realmente genial, quase nada nos emociona ou impressiona como nossos discos favoritos de bandas internacionais. Temos que parar de nivelar nosso metal por baixo com a desculpa de estarmos “apoiando a cena nacional”. E necessário julgar o produto local na mesma escala que julgamos o internacional. Não é coincidência que as três bandas brasileiras que conseguiram sucesso internacional de verdade (Sepultura, Angra e Krisiun) sejam realmente excepcionais e inovadoras dentro de seus estilos. Lógico que temos outras bandas excelentes, mas elas se perdem no meio da mediocridade.


As nossas gravadoras também têm pouca importância. A maioria delas são meras prensadoras de CDs, já que elas também não conseguem fugir deste mercado medíocre. A Overload foi uma gravadora lá no início, em 2005. Fomos terríveis. Não conseguíamos fazer nada de diferente pelos nossos artistas. Nossa divulgação era aquele básico que todo mundo faz: anúncio na Roadie Crew, entrevistas para alguns sites, etc. Todos os discos recebiam ali suas notas 7, 8 ou 9 pela mídia especializada e ficava nisso. Nada ia para a frente.

As gravadoras são completamente sem personalidade. As maiores são licenciadoras das gravadoras estrangeiras, lançando no mercado nacional o que tem de mais relevante (comercialmente) no metal mundial. Nenhuma delas consegue fazer um trabalho mais relevante do que a outra, já que todas usam as mesmas distribuidoras e divulgam nos mesmos meios. Com um show business tão capenga, não existe muito para onde fugir. As gravadoras até tentaram coisas diferentes no auge do metal melódico, trazendo as bandas para festas de lançamento ou coletiva de imprensa. Não durou muito, já que todo o mercado fonográfico entrou em colapso.

O mais triste é não existirem gravadoras relevantes lançando bandas nacionais. Selos com curadoria, especializados em algum sub gênero, com filtro de qualidade… Seria muito interessante alguém aparecer no mercado lançando só bandas realmente boas, explorando todas as novas plataformas (streaming, download pago, diferentes formatos físicos).

O mercado de shows também deixa a desejar. As produtoras normalmente agem em papéis duplos: são produtoras e agências ao mesmo tempo. E, ao exercer ambas as funções, existe um claro conflito de interesse. Se uma produtora está trazendo banda X para tocar em São Paulo, pode ser que ela não tenha incentivos para agendar mais shows pelo país, já que um show único em São Paulo pode ser mais lucrativo.

No formato do show business na Europa ou América do Norte, os agentes são responsáveis pelo agendamento de todas as datas de uma turnê, e não um produtor local de uma cidade, como muitas vezes acontece no Brasil. Funciona mais ou menos assim: o agente consegue ofertas de vinte produtores diferentes em diversas cidades dos Estados Unidos e do Canadá. A banda, após pagar a comissão do empresário e do agente, recebe todo o dinheiro dos produtores e com ele financia os gastos de turnê: voos, vistos, equipe, vans, ônibus, etc. Desta forma, a banda sempre tem o incentivo para agendar mais datas, já que precisa do dinheiro para pagar os custos fixos da turnê.

Aqui no Brasil, na maioria dos casos, o interesse de agendar mais shows está nas mãos do produtor, que acaba exercendo um papel de agente sem nem sempre ter os interesses da banda como prioridade.

Além de todos os problemas específicos do show business de heavy metal, os problemas estruturais também atrapalham as tours: estradas ruins, equipamentos caros e difíceis de encontrar em mercados secundários, poucas casas de show, etc.

Com um público pouco interessado em novidades, o produtor não tem incentivos para investir em artistas novos, entrando no ciclo vicioso das mesmas bandas sempre voltando ao nosso país. Público preguiçoso, mídia especializada desatualizada, gravadoras irrelevantes, bandas datadas, produtoras cautelosas e com conflito de interesses… Por onde começar? Como nos renovamos?
Não sabemos a resposta, mas estaremos no dia 20 de março vendo o Steven Wilson no Brasil mais uma vez com os mesmos 599 amigos de sempre.

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