22 de mar de 2016

Os Melhores Discos de Todos os Tempos: 1980

terça-feira, março 22, 2016

A década de 1980 iniciou trazendo novos nomes para a ordem do dia. A nova geração do heavy metal britânico chegou com tudo, com Iron Maiden e Saxon lançando discos emblemáticos. O Black Sabbath renovou a sua sonoridade com a troca de Ozzy por Dio. O Madman lançou a sua carreira solo e deu ao mundo um guitarrista fantástico, o falecido Randy Rhoads. O Judas Priest deu uma bela limpada em sua música e gravou o seu maior clássico. O AC/DC superou a sua maior tragédia gravando o seu disco de maior sucesso.

O pós-punk veio com tudo, trazendo bandas que seriam fundamentais durante toda a década como U2, Siouxie & The Banshees e Pretenders. O Clash explorou ainda mais a sua sonoridade em um álbum triplo ambicioso. Echo & The Bunnymen, XTC, Devo, The B-52’s e outros seguiram fazendo bonito, enquanto nomes consagrados como Queen e David Bowie mostraram estar atentos ao que rolava e incorporaram novos elementos às suas sonoridades.

E John Lennon gravou o seu melhor disco em anos, sem saber que seria o seu último álbum …

Os principais fatos de 1980 foram:

  • o Rush lançou Permanent Waves no dia 14 de janeiro. O disco vendeu pra caramba e ganhou cinco discos de platina
  • no dia 16/01, Paul McCartney foi preso no aeroporto de Tóquio após a polícia japonesa encontrar maconha em sua bagagem
  • o Pink Floyd iniciou a The Wall Tour no dia 7 de fevereiro em Los Angeles. A turnê teria apenas 21 shows e seu registro ao vivo seria lançado apenas 19 anos depois, no álbum duplo Is There Anybody Out There? The Wall Live 1980-81 (2000)
  • o vocalista do AC/DC, Bon Scott, foi encontrado morto no dia 19/02, sufocado pelo próprio vômito após uma noite de bebedeira
  • o AC/DC anunciou no dia 1 de abril que Brian Johnson, ex-Georgie, era o seu novo vocalista
  • no dia 25/04 o Black Sabbath lançou o seu primeiro álbum sem Ozzy Osbourne, Heaven and Hell, que trazia a estreia de Ronnie James Dio nos vocais
  • Ian Curtis, vocalista do Joy Division, morreu no dia 18/05 após se enforcar
  • o AC/DC lançou Back in Black no dia 25/07, e o álbum se tornou o seu maior best seller, vendendo milhões e milhões de cópias em todo o mundo
  • John Bonham, baterista do Led Zeppelin, faleceu no dia 25/09, sufocado pelo próprio vômito
  • no dia 21/11 o Iron Maiden estreou Adrian Smith como seu novo guitarrista, em um show realizado em Londres
  • o Led Zeppelin anunciou o encerramento de suas atividades no dia 4 de dezembro
  • John Lennon foi assassinado no dia 08/12 em frente ao Edifício Dakota, em Los Angeles, local em que residia

As principais bandas formadas em 1980 foram Agnostic Front, Bad Religion, The Church, Eurythmics, Exodus, Happy Mondays, The Hooters, King’s X, Laibach, Manowar, Meat Puppets, New Model Army, New Order, Overkill, R.E.M., The Smithereens, Soft Cell, Trio, Violent Femmes e Warumpi Band. Encerraram suas atividades em 1980 os Eagles, Gente Giant, Geordie, Joy Division e o Led Zeppelin.

Os cinco maiores hits do ano foram “Another Brick in the Wall Part 2” do Pink Floyd, “Woman in Love” de Barbra Streisand, “(Just Like) Starting Over” de John Lennon, “Funkytown" do Lipps Inc. e “Upside Down” de Diana Ross. Outros sucessos de 1980 foram “Call Me” (Blondie), “Sailing" (Christopher Cross), “Another One Bites to Dust” (Queen), “Brass in Pocket” (The Pretenders), “Geno" (Dexys Midnight Runners), “Xanadu" (Olivia Newton-John & Electric Light Orchestra), “Ashes to Ashes” (David Bowie), “The Winner Takes It Al” (ABBA) e “Don't Stand So Close to Me” (The Police).

Nasceram durante o ano nomes como Regina Spektor (18/02), Win Butler (14/04), Isaac Hanson (17/11) e Christina Aguilera (18/12). Faleceram em 1980 Professor Longhair (30/01), Bon Scott (19/02), Ian Curtis (18/05), Carl Radle (30/05), Bill Evans (15/09), John Bonham (25/09) e John Lennon (08/12).

Os principais vencedores da 22ª edição do Grammy foram:
  • Gravação do Ano e Canção do Ano: “What a Fool Believes” do The Doobie Brothers
  • Álbum do Ano: 52nd Street, de Billy Joel
  • Melhor Artista Novo: Rickie Lee Jones

Através de uma pesquisa em listas de melhores do ano de diversos veículos, identificamos os principais lançamentos do período. Então, aplicamos as avaliações do Rate Your Music, All Music e Discogs, lançamos em nossa planilha e chegamos ao resultado abaixo.

Com vocês, os melhores discos de 1980:

50 Steely Dan - Gaucho
49 The Teardrop Explodes - Kilimanjaro
48 The Specials - More Specials
47 The Psychedelic Furs - The Psychedelic Furs
46 Ultravox - Vienna
45 Saxon - Wheels of Steel
44 Devo - Freedom of Choice
43 Magazine - The Correct Use of Soap
42 The Cramps - Songs the Lord Taught Us
41 Saxon - Strong Arm of the Law
40 The Police - Zenyatta Mondatta
39 George Benson - Give Me the Night
38 Echo and The Bunnymen - Crocodiles
37 Captain Beefheart - Doc at the Radar Station
36 Stiff Little Fingers - Nobody’s Heroes
35 Siouxie and The Banshees - Kaleidoscope
34 Dexys Midnight Runners - Dexys Midnight Runners
33 XTC - Black Sea
32 Bob Marley - Uprising
31 Dire Straits - Making Movies
30 Elvis Costello - Get Happy!!
29 The Duritti Column - The Return of The Duritti Column
28 Angel Witch - Angel Witch
27 The B-52’s - Wild Planet
26 John Lennon & Yoko Ono - Double Fantasy
25 U2 - Boy
24 The Michael Schenker Group - The Michael Schenker Group
23 Killing Joke - Killing Joke
22 Queen - The Game
21 Squeeze - Argybargy
20 X - Los Angeles
19 Ozzy Osbourne - Blizzard of Ozz
18 The Beat - I Just Can’t Stop It
17 The Pretenders - Pretenders
16 Prince - Dirty Mind
15 Van Halen - Women and Children First
14 Diamond Head - Lightning to the Nations
13 David Bowie - Scary Monsters
12 Rush - Permanent Waves
11 Bruce Springsteen - The River
10 Motörhead - Ace of Spaces
9 Peter Gabriel - Peter Gabriel
8 Judas Priest - British Steel
7 The Jam - Sound Affects
6 Talking Heads - Remain in Light
5 Iron Maiden - Iron Maiden
4 Black Sabbath - Heaven and Hell
3 Dead Kennedys - Fresh Fruit for Rotting Vegetables
2 Joy Division - Closer
1 AC/DC - Back in Black

Pessoalmente, meu top 10 de 1980 ficaria assim:

1 AC/DC - Back in Black
2 Black Sabbath - Heaven and Hell
3 Iron Maiden - Iron Maiden
4 Judas Priest - British Steel
5 Dead Kennedys - Fresh Fruit for Rotting Vegetables
6 Rush - Permanent Waves
7 Bruce Springsteen - The River
8 Siouxie and The Banshees - Kaleidoscope
9 John Lennon & Yoko Ono - Double Fantasy 
10 U2 - Boy

Enquanto curte a nossa playlist dedicada inteiramente ao ano, faça você também a sua lista de melhores discos de 1980 e poste nos comentários.

Iron Maiden: os 34 anos de 'The Number of the Beast', o disco mais importante da banda

terça-feira, março 22, 2016


Um dos discos mais importantes e emblemáticos do heavy metal, The Number of the Beast completa 34 anos de seu lançamento hoje, 22 de março de 2016. Terceiro álbum do Iron Maiden, o trabalho talvez seja o mais importante da carreira da banda inglesa, trazendo uma mudança de sonoridade e a entrada do vocalista Bruce Dickinson. No outro extremo, o play também foi o último gravado pelo baterista Clive Burr, substituído por Nicko McBrain.

The Number of the Beast foi o segundo álbum do Iron Maiden produzido por Martin Birch, que havia começado a trabalhar com o grupo no disco anterior, Killers (1981). Pouco mais de 13 meses separam um LP do outro, período rico em mudanças para a banda liderada pelo baixista Steve Harris. Os problemas envolvendo Paul Di’Anno, inconstante em relação à horários e compromissos devido ao seu envolvimento cada vez maior com álcool e cocaína, levou a banda a tomar a decisão de procurar outro cantor - mais detalhes sobre toda essa história você pode ler aqui

Harris e Rod Smallwood, manager do grupo, tinham apenas um alvo: Paul Bruce Dickinson, frontman do Samson. Conhecido por seu grande alcance vocal e uma performance de palco arrebatadora, Bruce também já estava de olho no Maiden, então foi só questão de unir a fome com a vontade de comer. O trio bateu um papo após o show do Samson no Reading Festival de 1981, ocorrido no dia 29 de agosto, e poucos dias depois o vocalista entrou em estúdio para gravar algumas canções com o quarteto e ver como soava. O resultado foi arrebatador, e após dois shows realizados na Suécia no mês em setembro Paul Di’Anno recebeu o pé na bunda que estava procurando e Bruce assumiu como vocalista do Iron Maiden.

Há uma clara evolução em The Number of the Beast em relação aos dois discos anteriores. Ainda que Iron Maiden (1980) e Killers (1981) possuam inúmeras qualidades e sejam ótimos discos, ficou evidente o passo adiante que o grupo deu ao colocar Dickinson em seu line-up. E entrada do vocalista abriu novas possibilidades para o Maiden, que entendeu o potencial de Dickinson e gravou canções que exploraram ao máximo o seu potencial, como é o caso de “Hallowed Be Thy Name”. Nas palavras de Martin Birch: “Eu sabia o que Steve queria fazer, e Paul não tinha capacidade para cantar como ele queria. A entrada de Bruce tornou tudo isso possível”. 

Bruce, ainda que não creditado como autor, contribuiu com ideias importantes em três faixas: “Children of the Damned”, “The Prisoner” e “Run to the Hills”. Há até uma teoria de que ele seria co-autor dessas músicas, mas acabou não sendo creditado como compositor devido ao fato de o seu contrato com o Samson ainda estar em vigor.


O primeiro single de The Number of the Beast foi “Run to the Hills”, lançado em 12 de fevereiro de 1982. A letra da faixa, uma das mais conhecidas canções do Maiden e um dos maiores clássicos da banda, relata o conflito entre índios e desbravadores norte-americanos, com cada parte da canção cantando a letra a partir do ponto de vista de um dos lados. O clipe, com cenas dos filmes clássicos do cineasta Buster Keaton, relata de forma cômica a guerra entre ambos. O single de “Run to the Hills” trouxe no lado B “Total Eclipse”, incluída no tracklist normal nas reedições futuras do disco. “Total Eclipse”, com seu riff bastante influenciado pelo Judas Priest, caiu nas graças dos fãs, e muitos defendem a ideia de que ela poderia estar no tracklist original no lugar de “Gangland”.

A faixa-título conta com uma introdução declamada por Bruce Dickinson e pelo ator inglês Barry Clayton citando trechos do livro das Revelações presentes no Novo Testamento. A intro dessa canção se transformou em uma espécie de oração para os fãs, que recitam suas frases em tom quase religioso nos shows. A música, como esperado, causou controvérsia, levando grupos religiosos conservadores a acusarem a banda de ser satanista. Inspirada no filme A Profecia II (1978), “The Number of the Beast” é, muito provavelmente, o maior clássico da carreira do Iron Maiden. As antológicas guitarras, que se entrelaçam em harmonias e melodias, casam perfeitamente com o baixo de Harris e o andamento quebrado criado por Clive Burr. A cereja do bolo é a interpretação de Bruce Dickinson, que ao final da introdução solta um grito similar ao de Roger Daltrey em “Won't Get Fooled Again”, do The Who.

Outro grande momento do álbum está em “Hallowed Be Thy Name”, música que fecha o disco. A letra relata os últimos momentos de vida de um prisioneiro que está prestes a ser enforcado, e foi classificada pelo AllMusic como “o exemplo mais bem acabado dos extensos épicos da banda, contando com uma das letras mais filosóficas já escritas por Harris”. “Hallowed Be Thy Name” é a canção favorita de um grande número de fãs do Maiden, incluindo este que vos escreve, e conta com aquela que pode ser classificada como a melhor interpretação vocal de Bruce Dickinson em toda a sua carreira.


Há ainda mais curiosidades sobre as canções. “Children of the Damned”, com sua estrutura crescente e progressiva, foi inspirada nos filmes A Aldeia dos Amaldiçados (lançado em 1960 e dirigido pelo alemão Wolf Rilla) e sua continuação, A Estirpe dos Malditos (1964, dirigido por Anton Leader). As duas obras cinematográficas são adaptações do livro The Midwich Cuckoos, publicado em 1957 pelo escritor inglês John Wyndham. Anos mais tarde, ao falar sobre a canção em seu programa de rádio na BBC, Bruce afirmou que uma das inspirações para “Children of the Damned” foi a igualmente clássica “Children of the Sea”, lançada pelo Black Sabbath dois anos antes no álbum Heaven and Hell (1980).

Já “The Prisoner”, com seu riff com influência de hard rock, tem a sua raiz em um programa de TV inglês homônimo, transmitido entre setembro de 1967 e fevereiro de 1968 pela ITV (foram produzidos apenas 17 episódios da atração). A faixa conta inclusive com um trecho original de um dos episódios em sua introdução. O Maiden voltaria a se inspirar no programa dois anos mais tarde, na canção “Back in the Village”, presente em Powerslave.

Fechando o pacote, “22 Acacia Avenue” faz parte da trilogia de canções que relata a saga da prostituta Charlotte, iniciada no disco de estreia do Maiden com “Charlotte the Harlot” e concluída com “From Here to Eternity”, presente no álbum Fear of the Dark (1992). Está em “22 Acacia Avenue” um dos melhores solos da carreira de Adrian Smith, que cospe melodia, agressividade e inspiração em um trabalho de guitarra memorável.


Para promover o álbum, o Maiden caiu na estrada na tour batizada como The Beast on the Road, que contou com 10 meses e 184 shows realizado, iniciando em 25 de fevereiro e terminando em 10 de dezembro de 1982. Essa excursão está documentada no álbum duplo ao vivo Beast Over Hammersmith, lançado em 2002 como parte do box Eddie’s Archive. O disco traz na íntegra o show realizado pelo Iron Maiden no Hammersmith Odeon no dia 20 de março de 1982, e é um dos melhores registros ao vivo da banda.

A recepção da crítica para The Number of the Beast foi muito boa, com o disco recebendo elogios unânimes. Com o passar dos anos, o álbum alcançou o status de clássico indiscutível, e é, sem sombra de dúvida, um dos discos essenciais para quem quer conhecer e saber mais sobre o heavy metal.

Uma matéria sobre The Number of the Beast não estaria completa sem mencionar a sua capa. Criada por Derek Riggs, a arte foi desenvolvida originalmente para o single de “Purgatory”, presente em Killers, mas Smallwood a achou boa demais para ser desperdiçada em um compacto e a guardou para o próximo disco da banda. Riggs declarou que a inspiração para a ilustração veio de uma história do Doutor Estranho, personagem da Marvel que é um mestre das artes místicas.



Com o passar dos anos, a discografia do Iron Maiden foi recebendo seguidas reedições em CD, o que trouxe para o mercado versões bastante interessantes do disco. As mais atrativas são a edição dupla lançada pela gravadora Caste em 1996 e atualmente fora de catálogo, e que traz um segundo CD com “Total Eclipse” e uma gravação ao vivo de “Remember Tomorrow” com Dickinson nos vocais, e a edição enhanced disponibilizada pela EMI em 2008 e que inclui “Total Eclipse” no tracklist normal e traz material multimídia com os clipes de “Run to the Hills” e “The Number of the Beast”. Essa reedição de 2008 tem outra característica importante: a arte da capa foi, digamos assim, “remasterizada”, e uma nova coloração com predominância de tons cinzas mais escuros foi aplicada na ilustração.

Um dos mais importantes discos da carreira do Iron Maiden e da história do heavy metal, The Number of the Beast chega aos 34 anos de vida mantendo a sua relevância para o gênero, justificando o status de clássico inquestionável que possui. 


Discoteca Básica Bizz #034: Love - Forever Changes (1967)

terça-feira, março 22, 2016


Com o neo-psicodelismo inglês, que vem desde a passagem da década (Echo & the Bunnymen, Teardrop Explodes, Monochrome Set) e até a recente consolidação das bandas assumidamente regressivas (Primal Scream, Weather Prophets, Primitives, Brilliant Corners, Razorcuts, Mighty Lemondrops, Shamen) - onde reconstitui-se com uma nova roupagem a estética dos anos 1960 -, uma lado mais obscuro da geração psicodélica passou a ser fortemente reverenciado. Tornou-se fashion rebuscar as melhores doses de inspiração não apenas nos expoentes da West Coast Music (Jefferson Airplane, Grateful Dead, Doors) como também nas bandas de folk rock (Buffalo Springfield, Byrds) e em obscuros e insólitos cult groups californianos como H.P. Lovecraft, Strawberry Alarm O' Clock, Spirit e Smoke.

A mais cultuada e reconhecida fonte de ideias, entretanto, foi o Love, grupo criado pelo guitarrista e vocalista Arthur Lee, que em 1964 largou sua terra natal (Memphis) e se picou para L.A., onde recrutou os guitarristas Bryan McLean e John Echols, o baixista Ken Forssi e o baterista Don Conka (logo substituído por Alban "Snoopy" Pfisterer). Contratados pela Elektra, debutaram em vinil com o LP Love (1966), que conta com canções inesquecíveis como a ode lisérgica "Signed D.C." e duas covers, uma de Burt Bacharach/Hal David ("My Little Red Book") e outra infernal do clássico "Hey Joe". 

No segundo disco, Da Capo, que conta com o acréscimo de Tjay Cantarelli nos sopros e Snoopy (substituído na bateria por Michael Stuart) comandando os teclados, o Love solidificou sua musicalidade - ritmos e melodias de uma psicodelia pouco ortodoxa, condensada por idiossincráticos elementos de folk rock e turvas passagens de rhythm and blues que, aliadas a tons de balada, fizeram de seu som um dos mais originais e peculiares do desbunde americano.


O disco em questão é o seguinte: Forever Changes, lançado no final de 1967 e considerado um dos mais importantes dos anos sessenta e o mais significativo do Love. A partir deste LP, a banda original dissolveu-se, cabendo a Lee carregá-la nas costas por mais quatro álbuns que, embora interessantes, já não continham mais a expressividade que os havia caracterizado.

Produzido em conjunto por Bruce Bostnick (que depois produziria o L.A. Woman dos Doors), é um LP voltado às transformações que, literalmente, revolucionaram boa parte do cenário pop. Desde a inclusão de sopros e cordas até o turbilhão eclético que permeia os arranjos das onze faixas, pode-se dizer que Forever Changes é o Sgt. Pepper's do Love, ou seja, a ruptura com elementos mais formais e uma recriação do toda a psico-parafernália do cérebro - queimado de ácido - de Lee. As letras, iluminadas pela aura surrealista, divagam, entre trocadilhos elegantes e rimas aparentemente ingênuas em torno do desassossego, da dúvida e do comportamento (re)visto por uma ótica chumbada de lindos sonhos dourados.

Quanto às canções, encontramos baladas flamenco-orquestrais como "Alone Again Or" e "Maybe the People Would Be the Times or Between Clark and Hilldale", o bucolismo folk de "Old Man" e "Live and Let Live" (essa é bem à la Donovan), as baladas-romântico-psicopop "Andmoreagain" e "The Good Humor Man He Sees Everything Like This", as complexas texturas psico-clássicas que discutem as situações do homem perante a existência na legendária "The Red Telephone", as sofisticações psicodélicas com inesperadas ou ásperas mudanças e distintas modulações nas harmonias presentes em "A House is Not a Motel", "The Daily Planet" e "You Set the Scene" e o curioso dylanesco semi-rap-psicodélico "Bummer in the Summer". Essas canções eram mais ou menos assim. 

Hoje tenho muitas saudades desse amor derretido por excesso de ácido e criatividade.

(Texto escrito por Fernando Naporano, Bizz #034, maio de 1988)

21 de mar de 2016

Pra entender: o que é power metal?

segunda-feira, março 21, 2016

O power metal surgiu no final da década de 1970, e as duas bandas pioneiras do gênero foram o Judas Priest e, principalmente, o Rainbow. Mas foi apenas no início dos anos 1980 que o estilo começou a se popularizar e a se desenvolver de maneira consistente, com a aparição de uma geração de bandas europeias que deram seguimento às sementes plantadas pelo Rainbow e pelo Priest.

Há um certo senso comum entre os pesquisadores de que “Kill the King”, música presente no terceiro disco do Rainbow, Long Live Rock 'n' Roll (1978), foi a primeira composição a apresentar os elementos que caracterizariam o power metal nos anos seguintes. Estão ali o andamento acelerado, o clima épico, os vocais grandiosos, a técnica explícita dos músicos e uma letra falando sobre temas medievais. 

Musicalmente, o power metal se caracteriza por combinar elementos do heavy metal tradicional e do speed metal, mantendo andamentos rápidos e a ênfase sempre na melodia e na harmonia. A imensa maioria das bandas do estilo utiliza vocais limpos, quase sempre com cantores com timbres altos e agudos. Alguns grupos incorporam aspectos sinfônicos e clássicos em suas composições, mas não de maneira tão profunda quanto as bandas de symphonic metal. Um ponto marcante do power metal está nas letras, que costumam explorar temas focados em fantasia e mitologia, com exemplos textuais específicos como as séries O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia. Uma nova geração de bandas atualizou essa temática, trocando os temas vindos da literatura por letras que exploram histórias de guerras mais recentes, como é o caso do Sabaton.

Uma curiosidade interessante: no início da década de 1980, antes de o power metal ser considerado um subgênero do heavy metal, diversas bandas utilizavam o termo como forma de se diferenciar dos nomes mais clássicos e que estavam na estrada há mais tempo. O Metallica, por exemplo, utilizava a classificação “power metal” em um cartão de apresentação nos seus primeiros anos, como forma de dizer que a sua música era mais poderosa e agressiva do que aquele tipo de som que os metalheads estavam acostumados até então, de nomes como Judas Priest, Iron Maiden e outros.

Talvez o principal celeiro de bandas do estilo tenha sido a Alemanha, terra natal de nomes fundamentais para o power metal como o Helloween, Gamma Ray, Blind Guardian, Running Wild e Edguy. No entanto, o estilo também sempre foi forte em outros países. Os Estados Unidos, por exemplo, deram ao gênero nomes importantes como Virgin Steele, Riot e Iced Earth, além de serem a terra natal de uma das bandas responsáveis pelo rejuvenescimento do gênero, o Kamelot. 

Aqui no Brasil o power metal é conhecido pelo termo “metal melódico” e possui uma enorme quantidade de fãs. Durante a década de 1990 e 2000, foi sem dúvida o tipo de som preferido da imensa maioria dos fãs de metal brasileiros, e um dos fatores fundamentais para isso foi a popularidade de bandas nacionais como Viper, Angra e Shaman.

Ainda que atravesse uma certa entressafra e queda de popularidade, o power metal segue dando ao mundo bandas muito interessantes. O Kamelot vem renovando o gênero ao inserir influências góticas em sua música. O Edguy faz o mesmo, mas trocando o gothic por aspectos de hard rock. Bandas como Sabaton, Dragonland, Theocracy, Sinbreed, Galneryus, Orden Ogan e Civil War lançaram discos excelentes nos últimos anos, mostrando que o estilo segue firme e forte.

Para quem quer saber mais sobre o power metal, segue um discografia selecionada do estilo:

Rainbow: Rising (1976) e Long Live Rock 'n' Roll (1978)

Judas Priest: Sad Wings of Destiny (1976), Sin After Sin (1977), Stained Class (1978) e Killing Machine (1978)

Riot: Narita (1979), Fire Down Under (1981) e ThunderSteel (1988)

Jag Panzer: Ample Destruction (1984)

Helloween: Walls of Jericho (1985), Keeper of the Seven Keys Part I (1987), Keeper of the Seven Keys Part II (1988), Master of the Rings (1994), The Time of the Oath (1996), Better Than Raw (1998) e The Dark Ride (2000)

Running Wild: Under Jolly Roger (1987), Port Royal (1988), Death or Glory (1989) e Black Hand Inn (1994)

Viper: Soldiers of Sunrise (1987) e Theatre of Fate (1989) 

Gamma Ray: Heading for Tomorrow (1990), Sigh No More (1991), Insanity and Genius (1993), Land of the Free (1995), Somewhere Out in Space (1997), Power Plant (1999) e Blast From the Past (2000)

Sanctuary: Into the Black Mirror (1990)

Iced Earth: Night of the Stormrider (1991), Burnt Offerings (1995), The Dark Saga (1996), Days of Purgatory (1997), Something Wicked This Way Comes (1998) e Horror Show (2001)

Blind Guardian: Somewhere Far Beyond (1992), Imaginations From the Other Side (1995), Nightfall in Middle-Earth (1998), A Night at the Opera (2002), At the Edge of Time (2010) e Beyond the Red Mirror (2015)

Rage: Trapped! (1992), Black in Mind (1995) e Soundchaser (2003)

Angra: Angels Cry (1993), Holy Land (1996), Rebirth (2001) e Temple of Shadows (2004)

Virgin Steele: The Marriage of Heaven and Hell Part I (1994), The Marriage of Heaven and Hell Part II (1995) e Invictus (1998)

Stratovarius: Episode (1996), Visions (1997), Destiny (1998) e Infinite (2000)

Grave Digger: Tunes of War (1996) e Knights of the Cross (1998)

Edguy: Vain Glory Opera (1998), Theater of Salvation (1999), The Savage Poetry (2000), Mandrake (2001) e Hellfire Club (2004)

Kamelot: Karma (2001), Epica (2003), The Black Halo (2005) e Ghost Opera (2007)

Lost Horizon: Awaking the World (2001) e A Flame to the Ground Beneath (2003)

Avantasia: The Metal Opera (2001), The Metal Opera Part II (2002) e The Scarecrow (2008)

Shaman: Ritual (2002)

Masterplan: Masterplan (2003)

Hybria: Defying the Rules (2004)

Powerwolf: Bible of the Beast (2009)

ONLINE

PAGEVIEWS

PESQUISE