18 de nov de 2016

A crítica musical não morreu, mas deve se transformar

sexta-feira, novembro 18, 2016

Um amigo se perguntou se deveria estar nesse site no início desta semana. Ele não foi o primeiro a refletir sobre isso. Dan Ozzi, do Noisey, ponderou sobre o mesmo assunto no início deste ano, e o Invisible Orange postou um questionamento semelhante cinco anos atrás.

Nenhum deles encontrou uma resposta adequada à pergunta: os reviews de discos se tornaram obsoletos? Todos sugerem essencialmente que “sim”, mas como as resenhas seguem pipocando a cada novo lançamento, a resposta é, obviamente, “não”. A questão persiste. De fato, agora, quando parece que todo pensamento crítico e qualquer tipo de análise cultural está se despedaçando em ritmo acelerado, é o momento mais importante para entender como a crítica funciona, pra que ela serve e qual a sua importância.

A verdadeira resposta é que a crítica musical está, atualmente, em uma espécie de limbo. Ela atravessa um processo de transformação que ainda não chegou ao fim. E o motivo que levou a isso é um só: a internet. A internet expôs e começou a desmantelar a relação econômica entre conteúdo e objeto, que costumava ser a base do criticismo musical.

A cultura pop em geral floresceu após o fim da Segunda Guerra Mundial e chegou até o novo milênio embalada pela ascensão da mídia. E por mídia quero dizer a venda de objetos, de itens, que foram enriquecidos pelo conteúdo. Quando você, ou sua mãe ou quem quer que seja, compra um disco de vinil, a parte musical não é realmente o que você está comprando. O que você está comprando é, literalmente, um disco de plástico. A música, a gravação e a embalagem existem para tornar esse disco de plástico valioso o suficiente para que ele possa ser trocado por dinheiro. Filmes? A mesma coisa. Eles não estão vendendo um ator ou atriz construído em 64 frames por segundo, mas sim um DVD, um fita de vídeo ou um pedaço de papel que permite ao comprador assistir ao filme projetado em uma tela de exibição. Notícias? Estão vendendo pra você uma pilha de papel barato impresso. Revistas de música? Um monte de papel caro e cheio de brilho. O conteúdo - a música, a escrita, os quadros por segundo, as resenhas que você lê - só possui valor a partir do momento em que passui alguma utilidade para você.

O que isso tem a ver com resenhas de discos? Tudo.

A internet tornou o conteúdo infinitamente reproduzível. Esse é o verdadeiro problema com a pirataria. Não é que a pirataria possibilite que você escute o novo disco de sua banda favorita antes de seu lançamento - de qualquer modo, a data de lançamento era apenas uma questão de conveniência e logística. O produto sempre vai chegar ao mercado, razão pela qual artistas como Beyoncé e Frank Ocean podem lançar discos sem nenhum aviso prévio. O fato de que você é capaz de facilmente duplicar e multiplicar o alcance dos arquivos é o que faz com que não valha a pena prensar um disco em formato físico. A pirataria destruiu o valor deste disco de plástico, que sempre foi o que você comprou por anos e anos. 

Esse meu amigo afirma que o valor da crítica de cinema e TV segue intacta. Não, não segue. O Wall Street Journal e o New York Times acabaram de reduzir o número de críticos em suas equipes. O fato de a música bater contra as rochas antes que o cinema e TV se deu porque a pirataria chegou primeiro ao cenário musical. E a pirataria de música só existiu antes porque os arquivos MP3 são bem menores que os arquivos de um filme. A internet desacoplou toda a cultura pop da cultura material, mas é no material que está o dinheiro.

Chega de falar de economia, cara! O que tudo isso tem a ver com a crítica de discos? Bem: como eu disse, tudo.

A crítica musical, principalmente as resenhas de discos, eram uma ferramenta consumista do pós-guerra. Os reviews de álbuns existiam, de modo geral, para ajudar os consumidores a definirem suas listas de compras. Listas de melhores do ano e livros como 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer tiram um pouco do trabalho do leitor. Mas, por causa da internet, o conteúdo não tem valor e as listas de compras perderam o sentido, principalmente quando os próprios indivíduos podem criar suas amostras através do streaming. Sem valor consumista, a crítica musical pós-guerra não tem utilidade.

E isso é uma coisa boa, porque nos liberta da tarefa cansativa de pensar sobre a música como um produto de consumo. Agora, podemos parar de pensar sobre a lógica “bom” versus “ruim” (traduzindo: “vale o seu dinheiro” e “não vale o seu dinheiro”), porque “bom” e “ruim” não importam mais. 

O que importa é dar contexto à paisagem musical, porque, mais do que nunca, é ela que dá sentido à obra de cada artista. A troca de fitas acabou, o underground está plenamente consciente de si mesmo, e a troca de ideias pode ser feita em tempo real.

Em vez de dizer às pessoas o que comprar, os críticos pós-internet precisam realizar um trabalho diferente: dar aos ouvintes o contexto do que eles estão ouvindo. A melhor crítica não é aquela que dá uma nota de 0 a 10, mas sim aquela que diz ao leitor como uma determinada peça musical se encaixa no ecossistema da música.

Não me diga que o Diadem of Twelve Stars do Wolves in the Throne é uma obra-prima - essa é uma decisão minha como ouvinte, e nenhuma opinião é certa ou errada. Em vez disso, mostre-me que o Weakling fez algo similar anos atrás, mas que foi o Wolves in the Throne que gerou uma série de imitadores. E, caso você seja um crítico muito bom, explique-me porque esse disco inspirou várias pessoas naquele momento. Por que o álbum poderia me inspirar?

Os críticos perderam sua utilidade como agentes de recomendação. Temos, literalmente, algoritmos para isso. Mas os algoritmos não podem oferecer o contexto. Um computador não pode oferecer ideias e pontos de vista que irão ajudar a abrir a sua mente enquanto você ouve um disco, fazendo com você enxergue aquele álbum de uma maneira totalmente nova. 

Contexto é algo muito mais difícil de entender do que o “bom” versus “ruim”. Os melhores escritores são aqueles capazes de descrever a música. O ouvinte pode ouvir por si mesmo. O contexto é o que nos faz encontrar reflexões e associações entre a música que ouvimos e o mundo que nos rodeia.

Isso vai deixar algumas pessoas loucas, especialmente as que pensam que a música é um sistema fechado, ou apenas uma boa ferramenta para o escapismo e que deve ser mantida separada da “política”. Mas essas mesmas pessoas precisam admitir, por exemplo, que a sombra da Guerra Fria responsável pela paranoia nuclear foi o que fez o Metallica e o Celtic Frost serem tão legais nos anos 1980. Elas precisam admitir que a mentalidade liberal que tomou conta do mainstream na Noruega da década de 1990 foi o que tornou o black metal possível. E é o consumismo da cultura pop do pós-guerra que tornou possível o seu próprio escapismo. Eventos recentes como a eleição de Donald Trump e o Brexit vão mudar o mundo da música de formas que ninguém poderá ignorar.

Agora, mais do que nunca, vamos precisar de grandes críticos que consigam entender o panorama geral. Quando isso se tornar o padrão para a crítica musical, a transformação que o Napster iniciou estará completa. Qualquer um capaz de executar essa tarefa ganhará uma nota 10 de 10. Os que não forem capazes, ganharão um belo zero.

Por Joseph Schafer, da Decibel
Tradução de Ricardo Seelig

Lá fora e aqui dentro, como estão sendo os reviews do novo disco do Metallica

sexta-feira, novembro 18, 2016

Hoje, 18 de novembro, é a data de lançamento de Hardwired … To Self-Destruct, décimo disco do Metallica. O álbum já está disponível nas lojas e nos serviços de streaming de todo o mundo.

Compilamos abaixo trechos de reviews publicados por veículos nacionais e internacionais sobre Hardwired … To Self-Destruct. No geral, percebe-se uma recepção muito positiva para o disco, que vem sendo saudado como o melhor trabalho do quarteto norte-americano desde o Black Album (1991).

Longe de ser perfeito e ter pelo menos uma meia hora a mais do que deveria, Hardwired … To Self-Destruct é facilmente o álbum mais forte do Metallica nos últimos 25 anos. (Metal Hammer)

Hardwired … To Self-Destruct mostra o Metallica dando sequência ao que fez em Death Magnetic, enquanto incorpora elementos de discos como Kill ‘Em All, Master of Puppets e Load. O resultado é um álbum familiar e que proporciona uma audição confortável, mas também impulsiona a banda para a frente. (Loudwire)

Faixas épicas que soam como fúrias melodicamente construídas, mostram a banda despejando riffs em série e inúmeras mudanças de tempo. Se você for ouvir o disco no seu iPhone, tome cuidado: pode ser perigoso. (Rolling Stone)

Com os melhores riffs da banda em décadas, o disco é muito bom. Com uma edição mais eficiente e que cortasse os excessos, teria potencial para ser um clássico. Mesmo assim, é um retorno triunfante do Metallica à boa forma. (The Guardian)

Um ataque intransigente de raiva feroz, machista e paranóica, que talvez seja o disco que a América mereça ouvir agora. (The Telegraph)

Hardwired … To Self-Destruct é uma promessa desajeitada, e muitas vezes encantadora, que a banda faz a si mesma, de continuar a ser o Metallica. (Consequence of Sound)

Com quase quatro décadas de história, eles conseguiram transcender o tempo e manter os fãs curiosos pelo que estava por vir. E mesmo Hardwired … To Self-Destruct não sendo muito diferente que Death Magnetic, o Metallica segue sendo - ainda que seus integrantes já estejam na casa dos 50 anos - vital e inovador. E ninguém no rock recebeu mais aplausos do que eles. (NME)

O Metallica parou de tentar agradar a todo mundo e lançou um disco que incorpora toda a sua trajetória. (Sputnik Music)

Há uma abundância de sangue nos olhos carregada de diversão, e a maioria vai se contentar com isso. Para uma banda que está chegando à sua quarta década de vida, o Metallica ainda soa notavelmente em forma. (Rock Sound Magazine)

O disco vai superar as expectativas da maioria das pessoas, e mostra que o Metallica ainda soa melhor quando mete o pé no fundo do acelerador, tocando rápido e pesado. (Exclaim)

Só por trazer “Halo on Fire”, percebe-se que o Metallica entregou o excelente disco que todos estavam esperando. (Q Magazine)

O Metallica soa mais selvagem, inspirado e, crucialmente, mais divertido em Hardwired … To Self-Destruct do que nos últimos 25 anos. (Mojo)

O melhor de Hardwired… To Self-Destruct é que não é apenas “mais do mesmo”, como algumas bandas tem feito. O Metallica não teve medo de sair de sua zona de conforto e entrega um verdadeiro petardo pra estourar nossos tímpanos. (Roadie Metal)

Hardwired … To Self-Destruct não é um dos melhores discos do Metallica, mas provavelmente será um dos melhores discos do ano. É muito impressionante que, trinta anos depois, Ulrich, Hetfield e Hammett ainda consigam produzir música dessa qualidade e relevância. (WikiMetal)

O Metallica mostra força, mas peca pelo excesso em novo disco. (G1)

Em termos de composição, o álbum não é perfeito. As faixas se acomodam em ideias que soam bem metaleiras, mas que talvez pudessem ser resumidas. Contudo, Hardwired… To Self-Destruct tem o vigor e o pulso firme em grande escala que faltava à banda – ou que alguns fãs que não foram muito com a cara dos discos dos últimos 20 anos acharam que faltava. Não é o melhor disco de metal do ano, mas um dos mais aguardados e dos que satisfazem, daquele tipo em que os pontos positivos estão tão bem sedimentados que dá para relevar os negativos. E assim Hetfield, Ulrich, Hammet e Trujillo provam que possuem o que é preciso ter para ser uma grande, longeva e ainda boa banda de metal – e de quebra garantiram estádios lotados por mais 10 anos. (Escuta Essa)

No fim das contas, "Hardwired...To Self-Destruct" é um bom disco e nada mais. Tem seus ótimos momentos e tem faixas que, dependendo do humor do ouvinte, merecem ser puladas. (Whiplash.Net)

Concluindo, "Hardwired … To Self-Destruct" é o auto-resgate do Metallica. É a banda percebendo a força de sua história, o tamanho de sua importância e bebendo em sua própria fonte de ideias, clichês e fórmulas. E isso é feito de uma forma tão autêntica, sem buscar pretensas (e muitas vezes pretensiosas) inovações, que faz o resultado ser algo verdadeiro, como a banda não soava há anos. (Collector Room)

Review: Black Mountain - IV (2016)

sexta-feira, novembro 18, 2016

O número quatro é emblemático para qualquer fã de hard rock. Se você for um, e eu falar para você de um álbum chamado IV, você muito provavelmente vai pensar no Led Zeppelin. Talvez tenha sido essa a intenção do Black Mountain, mas não deixa de ser um risco muito grande. As comparações tendem a ser cruéis.

Esses canadenses têm bolas. Ou não tem miolos.

Além disso, o álbum número quatro tende a ser significativo para muitas bandas. É uma coisa meio mística, confesso, mas aparentemente as bandas atingem sua maior maturidade no quarto lançamento, trazendo obras que as alçam a um novo patamar. Precisa de exemplos? Além do já citado caso do Led, lembre-se dos quartos desses dinossauros: Deep Purple lançou o Fireball, Rush lançou o 2112, Jethro Tull com Aqualung, Molejo gravou o Brincadeira de Criança... E a lista vai por aí.

Outra referência, que me veio logo quando vi a capa, foi da banda britânica UFO. A capa do Black Mountain tem uma estética muito similar, lembrando um remake futurista do álbum Phenomenon.

Todas essas referências de lendas do hard rock tem uma única finalidade: Deixar você perdido. Porque quando a música rolar, você verá que nem tudo é o que parece.

“No álbum IV do Led Zeppelin há uma música que chama Black Dog e outra chamada Misty Mountain Hop. Repare: Black Dog + Misty Mountain Hop = Black Mountain. Black Mountain tem 13 letras. Coincidência? Acho que não.”


Toda a estética, envolvendo a capa e os nomes, cria uma expectativa. E ela cai por terra quando o botão play é acionado. Eu esperava uma pegada bem hard rock setentista e o Black Mountain não vai por esse caminho. Logo na abertura, "Mothers of the Sun” praticamente te derruba da cadeira. Um sintetizador e uma atmosfera dramática dão as caras, interrompidos por uma guitarra distorcida. Muito distorcida e genialmente breve. Logo a guitarra se vai e entra o vocal de Amber. A voz dela funciona muito bem e a música soa quase como um culto em certos momentos, enquanto em outros adquire um tom bem mais pesado.

Como já disse, eu não esperava me deparar com essa sonoridade. Primeiro que, talvez até por certo preconceito meu, jamais esperaria trombar com um vocal feminino. E o segundo é a levada mais psicodélica, que pende para um space rock em muitos momentos, e para o stoner em outros. O Black Mountain nos mostra um universo paralelo. Esqueça tudo o que você estava esperando encontrar, e simplesmente embarque na viagem.

Bem, nem tudo são flores. Tenho uma notícia ruim e uma boa para você. Vou começar pela ruim: "Mothers of the Sun” é a melhor faixa do trabalho. Isso significa você já ouviu o que há de melhor em IV. Agora a notícia boa: apesar de não chegarem ao mesmo nível, IV está recheado de músicas excelentes que valem ser ouvidas.

A segunda é praticamente um proto-punk, surpreendendo novamente por ser totalmente diferente da abertura. Nela, Amber adota um quê meio de Joan Jett. "Florian Saucer Attack” é bem agressiva e agitada, e um tanto quanto manjada.

Os pontos mais fortes são quando o IV consegue conciliar bem a psicodelia e o space, sem abusar demais dos sintetizadores. Um desses abusos ocorre em "(Over & Over) The Chain", com uma intensidade acima do suportável.

Liricamente o Black Mountain tem seus bons momentos, como no caso de "Cemetery Breeding”. Outras canções partem para um lado mais meloso. "Crucify Me" é interessante e parece ter saído diretamente de Blunderbuss, de Jack White.

Por fim, "You Can Dream” e seu refrão emprestado de "Dream Baby Dream”", da banda de eletro punk Suicide, é a prova da capacidade do Black Mountain de beber das mais variadas referências e paradoxalmente produzir um som quase único e facilmente reconhecível. Até que me mostrem o contrário, não conheço nenhuma banda que transite por tanta coisa sem perder a essência do seu som. Ponto para os canadenses.

Pois é, apesar do número 4 do nome, o Black Mountain consegue escapar ileso de qualquer tipo de comparação. Simplesmente porque não é possível fazer nenhuma. A referência fica apenas no visual, não há uma sonoridade minimamente similar à de bandas como Led Zeppelin e UFO.

Parece que o nome IV é mais uma provocação. Uma provocação em que eu, e provavelmente muitos, caíram.

“This city screams like heaven is gone haunted. And I am waiting for that girl who told me once; she would love me forever.”




17 de nov de 2016

Nerdcore: o hip hop do universo geek se aproxima das duas décadas e ganha adeptos brasileiros

quinta-feira, novembro 17, 2016

As interseções históricas entre o hip hop e a ficção científica são longas e variadas – do funk interplanetário de Afrika Bambaataa à nostalgia retro-futurista dos Beastie Boys de “Hello Nasty”, passando pelo freakshow dos Ultramagnetic MCs e a paranoia alien do Company Flow – mas é possível que nem o mais nerd dos rappers, digamos, o GZA aka The Genius do Wu-Tang Clan e suas variadas referências ao xadrez ou seus discos conceituais sobre astrofísica, imaginaria a existência de um subgênero totalmente dedicado à interseção entre cultura geek e hip hop. Mas há quase 20 anos o chamado nerdcore tem se estabelecido como uma das novas forças do hip hop underground, criando uma verdadeira plataforma de criação de uma legítima cultura hacker.

Nascido do espaço nerd por excelência, a internet, o nerdcore se destaca de seus predecessores espirituais acima listados ao escolher deliberadamente apelar para a cultura nerd como sua principal fonte de inspiração lírica. Para além das referências aos quadrinhos e ficção científica, o nerdcore também se embrenha em aspectos mais mundanos e ao mesmo tempo esotéricos do cotidiano do hacker médio, detalhando testes de segurança e usando com desenvoltura o vocabulário de códigos de programação, ao ponto de criar o sub-subgênero do geeksta rap – um “gangsta” que não se gaba de ter os maiores carros e as armas mais letais, e sim de ter uma maior habilidade de invadir redes fechadas e quebrar códigos, quase numa celebração do hacker enquanto fora-da-lei.

O termo “nerdcore” foi forjado pelo rapper norte-americano MC Frontalot na faixa “Nerdcore Hiphop”, em 2000. Naquele momento o nerdcore já existia enquanto subcultura ainda em desenvolvimento, mas não tinha ainda encontrado um nome para chamar de seu. Apadrinhado pela dupla de quadrinistas responsáveis pela webcomic Penny Arcade, Frontalot acabou se tornando sinônimo de nerdcore, junto com seu visual característico – camisa, gravata, óculos de aro grosso –, com seis álbuns oficiais no currículo e como principal estrela do documentário Nerdcore Rising.


Junto com Frontalot, inúmeros nomes começaram a pipocar, especialmente na nerdosfera norte-americana, quase sempre seguindo a receita de começar a carreira com gravações caseiras de paródias geek de sucessos do hip hop, antes de começarem a criar suas canções próprias – o fato de muitos nerds também serem entusiastas de música eletrônica e de beatmaking ajuda bastante. Nomes como MC Chris, Beefy e MC Router foram retratados no documentário Nerdcore for Life, junto com grupos como Optimus Rhyme.

Muita gente da primeira grande onda do nerdcore veio da interseção entre a comédia musical – um gênero bastante popular nos EUA – e a nascente cultura geek. Weird “Al” Yankovic, um dos nomes mais famosos do universo das paródias nos EUA, é frequentemente citado como uma grande influência, por exemplo. Mas isso não quer dizer que o subgênero seja feito apenas de nerds “espirituais”, aqueles que amam a cultura geek mas nunca compilaram um kernel – o MC YTCarcker, por exemplo, tem uma longa carreira como “defacer”, e inclusive já foi processado e condenado por isso nos anos 1990. E indo além do hip hop tradicional, nomes como MC Lars dobram a aposta geracional e se aproximam da própria nostalgia ao samplear artistas de hardcore e da terceira geração do emo, de Fugazi a Brand New.


Com tanta fanfarra e história, mesmo que dentro de um espaço underground, chega a ser estranho que o nerdcore tenha demorado tanto tempo para desembarcar no Brasil, um país onde a cultura nerd tem sua própria história, é antiga e enraizada – sem contar a fama internacional da nossa zoeira sem limites, que renderia histórias épicas nas mãos de um bom MC. É por isso que a vinda da dupla bi-nacional Dual Core – o MC americano Int Eighty e o DJ britânico C64 – ganha os corações dos geeks brasileiros. O duo se apresenta no Roadsec, o maior festival hacker da América Latina, nesta sexta (18/11). Eighty, o MC da dupla, é um poeta do hacking, daqueles que rimam como se falassem uma mistura bilíngue de inglês e C++. 

O Roadsec mostra também que o nerdcore está começando a criar seus filhotes brasileiros. O curitibano MC Hackudão, também convidado para a edição de 2016 do evento, começou fazendo paródias hackers de funk e agora rima com segurança em sons como “Hacker dos Hackers” – em um atestado de como o nerdcore pode absorver as práticas colaborativas do mundo hacker, muitas vezes Hackudão conta com a ajuda online de fãs para compor suas novas faixas. Quem sabe agora o leetspeack brasileiro tenha um nerd para chamar de seu?

Por Amauri Gonzo, do Vice
Release enviado pela FlipSide

Roadsec SP16
Shows: Os Paralamas do Sucesso, Dead Fish, Dual Core e Mc Hackudão
Quando: 18 de Novembro
Horário: Começa às 19h e vai até às 00h.
Onde: AUDIO CLUB
Av. Francisco Matarazzo, 694, Barra Funda – São Paulo
Saiba mais: www.roadsec.com.br/saopaulo2016

Cesar Bravo: o som e a fúria do novo terror nacional

quinta-feira, novembro 17, 2016

O terror e o metal têm muito em comum. A começar pela devoção de seus fãs. Você não deixa de ouvir Black Sabbath ou de ler Clive Barker porque a moda passou. Amar rock pesado ou literatura e cinema casca grossa é como fazer um pacto para toda a vida – quem sabe até para depois?

Mas mesmo com tanta gente talentosa produzindo e com multidões fanáticas de admiradores, muitos costumam olhar com desdém para essa arte que se veste de preto. Foi preciso o Sepultura estourar lá fora para a mídia reconhecer: Yes, nós temos metal!

Com o terror nacional a história não é muito diferente. O mestre Zé do Caixão ganhou o merecido título de gênio depois que virou Coffin Joe na gringa. Novos diretores surgiram desde então, como Rodrigo Aragão (Mar Negro), Davi de Oliveira Pinheiro (Porto dos Mortos), Dennison Ramalho (ABC da Morte 2) e Peter Baiestorf (Zombio).Vale a pena conferir o talento brazuca.

A boa notícia vem agora: a literatura de terror nacional – que remonta ao século XIX com Álvares de Azevedo – acaba de revelar seu novo Sepultura. Seu nome é Cesar Bravo. Mas não pense que ele é um novato. Na verdade, Cesar Bravo é um grande nome underground, que já arrebanhou muitos seguidores com seus ebooks repletos de sangue e estilo. É como se, agora, ele conseguisse levar seu talento para uma gravadora major. Na verdade, uma editora, a DarkSide Books, primeira do país inteiramente dedicada ao terror e à fantasia. A mesma editora que lançou as biografias de Zé do Caixão – Maldito e João Gordo – Viva La Vida Tosca.

Nós conversamos com Cesar Bravo, autor do recém lançado Ultra Carnem sobre terror, é claro, e sobre sua paixão por rock e heavy metal. Não é todo dia que você descobre um autor que escreve ouvindo Motörhead no talo.


Sua incursão na literatura de horror aconteceu bem cedo. E seu primeiro contato com a música, como foi?

Lembro que a primeira banda que me pegou de jeito foi Guns N' Roses. Eu era muito jovem, arredio, e de repente senti que havia mais gente se sentindo como eu me sentia. As letras, a agressividade, estava tudo ali, diluído nos vocais rasgados de Axl Rose e nos solos melancólicos de Slash. Praticamente ao mesmo tempo descobri Kill 'Em All, do Metallica. Aquilo me pegou como um soco, quero dizer, tudo o que havia no disco era frustração e raiva, sentimentos que eu conhecia de perto. A terceira banda foi Black Sabbath, que apareceu domando meus gostos musicais de uma maneira irreversível. Sabbath foi o casamento perfeito entre música e horror, minhas duas paixões. Nas fases mais conturbadas, me descobri um súdito fiel dos Ramones. Nos anos noventa presenciei o aparecimento das bandas de Seattle; Nirvana, Alice in Chains, Pearl Jam, foi um momento único para alguém que gostava de andar com a mesma roupa seis dias por semana (risos). Desde então tento acompanhar os furacões musicais que despontam aqui e ali.

Sabemos que você já ocupou cargos na indústria da música. Pode falar mais um pouco sobre essa experiência e se ela te impactou de alguma forma?

Bem, eu tinha dezessete anos e pensava que poderia ser um rock star movido à adrenalina (essa é a verdade, por mais bizarra e cômica que possa parecer). Com essa vontade irrefreável, montei e desmanchei algumas bandas, conheci gente de verdade, aprendi a “consertar vitrolas para ouvir música”. Passei muito tempo compondo, algo que faço até hoje, mas mantenho no fundo das gavetas. Eu não sei, talvez essa canções ainda apareçam no momento oportuno, mas nada que me mova hoje em dia. Também atuei como roadie em algumas bandas pequenas, a troco de cerveja e entradas grátis em shows menores ainda. A maior parte dessas bandas sequer existe hoje em dia, mas foi uma época divertida.

Viver da música — ou pelo menos tentar — me mostrou que nem tudo é o que parece ser, que você precisa ser incrível para ganhar algum destaque, e me mostrou principalmente que a rebeldia é algo belo, é a essência vital de qualquer artista.

Quais são suas bandas favoritas?

Black Sabbath, Ramones, AC/DC, Metallica, Slayer, Motörhead. Também me amarro em Twisted Sister e no material mais antigo do Guns N' Roses.

Que músicas não poderiam faltar na playlist de Ultra Carnem?

- Paint It, Black – Rolling Stones
- I Put a Spell on You – Screamin’ Jay Hawkins
- Children of the Damned - Iron Maiden
- Saturday Night – Misfits
- When the Sun Burns Red - Kreator
- Highway to Hell – AC/DC
- I Don’t Believe a Word – Motörhead
- Raining Blood – Slayer
- Lord of This World - Black Sabbath
- Welcome to the Jungle - Guns N' Roses
- Orgasmatron - Sepultura



Um gênero que sem dúvidas divide temas com sua obra é o metal. Existe alguma banda do gênero que você acha que dialoga mais com seu trabalho?

Creio que seja mesmo Black Sabbath e Motörhead. Existe algum tempero thrash também, gosto da pancadaria necessária de bandas como Slayer, Megadeth e Sepultura.

De que modo a música faz parte do seu processo criativo? Você tem o costume de ouvir músicas enquanto escreve ou antes de começar a escrever?

Ouço música o tempo todo. Ao escrever, tenho alguns momentos, geralmente um pouco antes de começar o trabalho. Funciona como um catalizador, de repente a música te arranca do mundano e te arrasta com ela. No ápice do processo criativo, quando as palavras chegam sem esforço, a música mantém o fluxo. Às vezes, ao final de um dia desafiando os olhos, a escrita é exaustiva, e nesse ponto um pouco de distorção musical chega como um bálsamo. Eu provavelmente escreveria de uma maneira diferente sem o impulso da música — e possivelmente seria uma merda.

Quem conheceu seu trabalho sabe que você é fã dos mestres Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Clive Barker e Stephen King.  Mas quais são suas inspirações musicais? E de que modo elas te inspiram?

Tenho o vício de procurar pelas letras das música de que mais gosto. Muitas delas me inspiram, sobretudo nos contos, onde a liberdade é quase total. Citaria aqui novamente Black Sabbath, Dio, Ozzy Osbourne, The Doors, Megadeth e muitas outras bandas de rock e heavy metal. O que me inspira muito, além das letras e das melodias, são os caras que meteram a cara contra o mundo e conquistaram seu espaço. São homens e mulheres que descobriram um sentido para a própria vida, que tiveram a audácia e a ousadia de contestar o maldito status quo.


Você conseguiria definir Ultra Carnem em uma música?

Essa é bem difícil, mas a essência de Ultra Carnem é a ausência de Deus, é o momento em que o Sagrado vira o rosto quando nós mais precisamos. O livro trata basicamente de homens e demônios. Creio que “God Was Never on Your Side”, do Motörhead, seja uma menção justa.

Se Ultra Carnem pudesse cair na mão de um de seus artistas favoritos, quem seria? 

Oh, boy! Dos músicos brasileiros eu escolheria Andreas Kisser, do Sepultura. Dos gringos, gostaria muito que dois fãs de horror lessem meus livros, alguém como Slash e Kirk Hammett (sonhar alto é preciso, não? Mesmo que seja para se esborrachar no chão - risos). Para fechar, meu expoente na música: Mr. Madman. Creio que, artisticamente, Ozzy Osbourne tenha um nível de insanidade bem parecido com o meu.

Você tem o costume de ir em shows e festivais de música?

Sempre que possível (o que equivale a dizer que é muito difícil). Meus últimos shows foram Black Sabbath — com Ozzy e com o Dio (RIP, man) —, e um show do Sepultura que rolou em Taubaté. Sou meio “bicho do mato”, às vezes tudo o que preciso é colocar o som no talo e escrever um pouco. Mas adoro a energia dos shows.

E instrumentos? Toca algum ou tem vontade de aprender?

Toco guitarra e já me aventurei com contrabaixo. Para ser sincero, estou bem fora de forma. Tenho vontade de aprender a tocar harmônica, gaita. Um blues bem tocado faz meu peito arfar depressa. Bateria também parece incrível, mas minha coordenação motora não chegaria tão longe.

Aliás, aproveitando o espaço, eu gostaria de agradecer meu leitor Renatinho Caveira e Buba-Baleia pelas montagens incríveis das capas que tanto amo. Olhar para cada uma delas me faz voltar no tempo e querer dar vida a todos os monstros que ainda moram em mim.


Leia o review da Metal Hammer para o novo álbum do Metallica

quinta-feira, novembro 17, 2016

Mais importante revista especializada em heavy metal no planeta, a inglesa Metal Hammer traz o review sobre o novo disco do Metallica em sua nova edição. O jornalista Dom Lawson analisou Hardwired … To Self-Destruct, elogiando seus pontos fortes e apontando os problemas do trabalho. No final, deu uma nota 3,5 de 5. 

Abaixo está a crítica de Lawson sobre o disco.


Para muitos fãs do Metallica, a espera pelo sucessor do relativamente bem sucedido Death Magnetic (2008) tem sido uma mistura entre antecipação febril e nervosismo premonitório. Ao arrastar a gestação de seu novo disco por quase uma década, o Metallica insinuou uma relutância em se comprometer com qualquer caminho musical. A divulgação da tórrida e longa “Lords of Summer” em 2014 não fez muito para cultivar o otimismo. Mas 2016 já está sendo um grande ano para a maior banda de metal de todos os tempos, não apenas pela reação causada pela divulgação dos primeiros singles de seu novo disco, saudados pela maioria dos ouvintes como tão bons quanto qualquer coisa que o Metallica lançou desde o Black Album. Abençoadamente, as boas novas não acabam por aí, porque, mesmo longe de ser perfeito e ter pelo menos uma meia hora a mais do que deveria, Hardwired … To Self-Destruct é facilmente o álbum mais forte do Metallica nos últimos 25 anos.

O disco abre com a faixa-título, uma explosão primorosa de thrash vicioso com um refrão irresistível, além de espírito e veneno suficientes para calar a boca de qualquer pessoa que pensava que o Metallica estava velho demais para gravar algo com uma pegada tão agressiva. Em contraste com grande parte da horrível produção de Death Magnetic, Hardwired … To Self-Destruct é preciso e brutal. Talvez Lars tenha praticado mais, ou talvez algum truque de computador esteja envolvido, mas o fato é que o Metallica está mais perto da máquina devastadora de Master of Puppets (1986) do que jamais esteve em décadas. O mesmo se aplica a “Moth Into Flame”, outra majestosa demonstração de heavy metal autêntico e pesado, e que exibe fortes vínculos com os triunfos alcançados pela banda nos anos 1980, mas sem nunca soar como uma tentativa desanimada e frustrante de voltar às origens.

De fato, quase todo o primeiro CD está no mesmo padrão, mais notavelmente em “Atlas, Rise!”, com suas irresistíveis harmonias de guitarra na linha Iron Maiden e que retomam a adoração de Lars e James pela NWOBHM. “Morra como se você sofresse em vão”, vocifera Hetfield. “Possuir toda a tristeza e dor / Morra enquanto você segura os céus / Atlas, levante!”. Não importa a música, é incrivelmente emocionante ouvir Papa Het cantando letras como essa, ao invés do desajeitado foco na auto-ajuda que ele explorou nos últimos tempos. Da mesma forma, a influência do Black Sabbath em “Dream No More” é gloriosamente grotesca, assim como a primeira aparição de Cthulhu em um disco do Metallica desde 1984, “inalando céus negros”, como Hetfield deixa claro de maneira vívida.

O lado não tão bom de Hardwired … To Self-Destruct está em seu segundo disco. Deixando a furiosa “Spit Out the Bone” de lado, as canções sofrem com o mesmo problema que tem atormentado o Metallica desde Load: a total incapacidade que a banda possui de se auto-editar. Alguns riffs soberbos à parte, canções como “Confusion”, “Am I Savage?” e “ManUNkind" são muito longas e carentes de dinâmica. “Here Comes Revenge” é o melhor exemplo desse desigualdade, e o tributo a Lemmy em “Murder One” poderia ser melhor, mas é apenas esquecível.

O aspecto negativo não importa, no entanto. A melhor notícia é que Hardwired … To Self-Destruct é, em sua maior parte, um forte disco de metal com algumas canções fantásticas e incontáveis momentos que farão você pensar “Yes, isso é Metallica!”. Mais gratificante do que querer ouvir essas canções ao vivo, é perceber que a excruciante espera de oito anos valeu a pena!

Por Dom Lawson, da Metal Hammer
Tradução de Ricardo Seelig




Assista aos clipes de todas as músicas do novo disco do Metallica

quinta-feira, novembro 17, 2016

Em uma iniciativa inédita (pelo menos eu não lembro de algo parecido, me corrijam caso esteja errado), o Metallica produziu vídeos para todas as canções de seu novo disco, Hardwired … To Self-Destruct, além de um para “Lords of Summer”, música divulgada em 2014 e que está na edição deluxe do álbum.

Cada um dos clipes foi assinado por um diretor diferente e explora o tema da respectiva canção, formando um painel audiovisual que traduz em imagens as ideias apresentadas pelo Metallica em seu novo trabalho.

Abaixo estão todos os vídeos para você assistir:

16 de nov de 2016

California Jam 1974, clássico show do Deep Purple, será lançado em Blu-ray pela primeira vez

quarta-feira, novembro 16, 2016

O ano era 1974. No ensolarado estado norte-americano, berço do Flower Power, do movimento hippies e da contracultura, acontecia um festival que iria entrar para a história. 

Para o Deep Purple, o show no palco do California Jam foi ainda mais emblemático. Irritado com as câmeras que estavam ao seu redor registrando a performance da banda - o evento estava sendo transmitido ao vivo para todo os Estados Unidos -, Ritchie Blackmore partiu pra cima do cinegrafista, agredindo-o com o instrumento. Logo depois, ateou fogo na guitarra e em alguns amplificadores, com a banda deixando o palco em chamas.

A performance de Blackmore deixou os promotores do festival ensandecidos. Os caras foram atrás do Purple para cobrar os custos pelos prejuízos, mas o quinteto já havia embarcado em um helicóptero e vazado do local. No entanto, a disputa permaneceu durante anos, com Blackmore sendo inclusive acionado judicialmente pelo caso.

Tudo isso agora sairá em Blu-ray pela primeira vez. California Jam 1974 chegará às lojas dia 2 de dezembro pela earMUSIC, e estará disponível também em DVD. As imagens foram restauradas, há uma nova edição de cenas, uma nova capa e novos textos contando como tudo aconteceu.

Abaixo está o tracklist de California Jam 1974:

1. Burn
2. Might Just Take Your Life
3. Lay Down, Stay Down
4. Mistreated
5. Smoke on the Water
6. You Fool No One / The Mule
7. Space Truckin'

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