25 de nov de 2016

Black Friday: galeria de fotos e playlists para celebrar a música negra

sexta-feira, novembro 25, 2016

Nessa Black Friday, a dica da Collectors é a seguinte: aproveite a temática do dia e mergulhe no maravilhoso mundo da música negra.

Pra entrar no clima, separamos lindas fotos de alguns dos maiores músicos negros da história. E pra cair na dança de vez, tem também algumas playlists lá embaixo pra você curtir.

Vem com a gente!






























Os 50 melhores discos de 2016 segundo a Classic Rock Magazine

sexta-feira, novembro 25, 2016

Em circulação desde 1998, a Classic Rock é uma das revistas de música mais vendidas da Inglaterra, e também do mundo. O foco, como diz o seu título, é o rock dito clássico, mas não se limitando apenas ao passado. A revista é uma ótima plataforma para novas bandas com propostas sonoras que se alinham que que é considerado classic rock pelo mercado atual.

A Classic Rock é publicada pela TeamRock, mesma editora responsável pela Metal Hammer, Prog e The Blues Magazine.

Abaixo está a lista de melhores do ano de acordo com a publicação - a matéria original está aqui. Uma dica: como acontece todos os anos, a lista da Classic Rock é uma ótima fonte para descobrir discos e artistas que passaram batido pelo ouvidos.

Experimente!

50 Heart - Broken Beautiful
49 Weezer - The White Album
48 Purple - Bodacious
47 Joe Bonamassa - Blues of Desperation
46 Drive-By Truckers - American Band
45 Ming City Rockers - Lemon
44 Hey! Hello! - Hey! Hello! Too!
43 Biffy Clyro - Ellipsis
42 Crobot - Welcome to Fat City
41 Brian Fallon - Painkillers
40 Syd Arthur - Apricity
39 Deap Vally - Femejism
38 Scorpion Child - Acid Roulette
37 Royal Republic - Weekend Man
36 The Virginmarys - Divides
35 Jeff Beck - Loud Hailer
34 Zakk Wylde - Book of Shadows II
33 Teenage Fanclub - Here
32 Beware of Darkness - Are You Real?
31 Van Morrison - Keep Me Singing
30 Sturgill Simpson - A Sailor’s Guide to Earth
29 Dream Theater - The Astonishing
28 Eric Clapton - I Still Do
27 Pretenders - Alone
26 Blackberry Smoke - Like an Arrow
25 Metallica - Hardwired … To Self-Destruct
24 Opeth - Sorceress
23 Ian Hunter and The Rant Band - Fingers Crossed
22 Hiss Golden Messenger - Heart Like a Levee
21 Chris Robinson Brotherhood - Anyway You Love, We Know How You Feel
20 Blues Pills - Lady in Gold
19 Tax the Heat - Fed to the Lions
18 Whiskey Myers - Mud
17 Hawkwind - The Machine Stops
16 Black Stone Cherry - Kentucky
15 Purson - Desire’s Magic Theatre
14 Alter Bridge - The Last Hero
13 Big Big Train - Folklore
12 Cheap Trick - Bang, Zoom, Crazy … Hello
11 Steven Wilson - 4 1/2
10 Nick Cave & The Bad Seeds - Skeleton Tree
9 The Answer - Solas
8 The Rolling Stones - Blue & Lonesome
7 The Cadillac Three - Bury Me in My Boots
6 Rival Sons - Hollow Bones
5 The Temperance Movement - White Bear
4 Marillion - F*** Everyone and Run (F E A R)
3 The Struts - Everybody Wants
2 David Bowie - Blackstar
1 Iggy Pop - Post Pop Depression



24 de nov de 2016

Como diferenciar o que é hard rock e o que é heavy metal quando falamos dos anos 1970?

quinta-feira, novembro 24, 2016

Em termos históricos, a grande maioria dos pesquisadores aponta o disco de estreia do Black Sabbath como o marco zero do heavy metal. Lançado em 13 de fevereiro de 1970, uma sexta-feira 13, o álbum merece, com toda justiça, essa reverência. 

Mas o fato é que já existia rock pesado antes do primeiro LP do Black Sabbath, e, obviamente, continuou existindo depois. No entanto, é extremamente difícil definir o que era metal e o que era hard rock naquela período. Aqui, um adendo: apesar de ter adquirido um significado diferente a partir dos anos 1980, com o surgimento da cena glam californiana de nomes como Mötley Crüe, Poison e outros, o termo “hard rock” será utilizado nesse texto como definição para o rock pesado produzido nas décadas de 1960 e 1970 por grupos pioneiros como Cream, Jimi Hendrix, Led Zeppelin e outros. Pessoalmente, uso esse significado para o gênero até hoje, e para o pessoal da cena de Los Angeles e derivados prefiro utilizar definições como glam metal e hair metal.

Voltando, quando olhamos para trás e ouvimos os discos lançados pelas bandas que faziam rock pauleira lá na década de 1970, é bastante difícil definir o que poderia ser classificado como hard rock e o que seria heavy metal. Em certos aspectos, é uma definição até mesmo subjetiva em alguns casos. E não que ela precise necessariamente ser feita, mas ajuda a classificar os artistas para quem quer se aprofundar na trajetória e desenvolvimento de ambos os gêneros.

Embora as origens exatas do que viria a se definir como heavy metal sejam difíceis de se definir (o som do guitarrista norte-americano Link Wray lá na década de 1950, citado por diversos músicos como inspiração, seria um desses inícios), é correto afirmar que o gênero deu os primeiros passos para o seu desenvolvimento durante a década de 1960, influenciado por grandes bandas de blues rock e hard rock como Rolling Stones, The Who, Cream, Jimi Hendrix Experience e Led Zeppelin. Ainda que o senso comum aponte o Black Sabbath como a primeira banda a soar totalmente de acordo com o então novo gênero, grupos como Blue Cheer, Uriah Heep, Deep Purple e Grand Funk Railroad apresentavam elementos que fizeram a ligação entre o hard rock e o metal.


Musicalmente, o heavy metal caracterizava-se pelos riffs distorcidos, bateria agressiva e vocais vigorosos, resultando em uma demonstração de força bruta em forma sonora. Liricamente, as letras exploravam temas que contrastavam com os assuntos abordados no rock em geral, falando sobre assuntos sombrios e pesados como drogas, guerras, morte e suicídio. A postura anti-religião também é recorrente, com a figura do demônio transformando-se em um símbolo onipresente e primordial para o gênero, incorporando a mensagem de individualidade e anti-conformidade que o heavy metal construiu ao longo dos anos.

Já o hard rock surgiu na segunda metade dos anos 1960, fruto do rock de garagem e do blues rock. Artistas que exploravam essas sonoridades começaram a soar cada vez mais pesados, levando ao nascimento de um novo gênero musical que tinha como características marcantes as agressivas performances vocais, guitarras cheias de distorção e o uso constante de power chords. Nomes como The Who, Cream, Jimi Hendrix Experience, Vanilla Fudge e Steppenwolf foram pioneiros no estilo e influenciaram profundamente as gerações posteriores.

Apesar de todos esses parágrafos explicativos, concordo que, na prática, as coisas acabam se confundindo e se misturando um pouco. O jornalista Eddie Trunk usou uma boa definição para separar os estilos, classificando como hard rock aquele som que te puxa pra cima e tem um clima mais festeiro, e heavy metal como aquela música mais sombria e agressiva. Um bom começa, mas que acaba não expressando a plenitude tanto do hard quanto do metal.

E essa confusão acaba gerando uma dificuldade muito grande na hora de definir o que é hard rock e que é heavy metal naqueles discos pesadões (e fantásticos) gravados durante os anos 1970. O Loudwire, por exemplo, não coloca o Led Zeppelin como metal por entender que a banda tinha muita influência de blues e spirituals, gênero musical nascido dos cantos religiosos dos escravos vindos da África e que chegaram aos Estados Unidos nos anos 1800. 


De modo geral, acho que um dos pontos que ajudam a definir melhor o que é hard rock e o que é heavy metal é o distanciamento do blues. Mesmo o Black Sabbath apresentando elementos do estilo, foi afastando o rock de suas origens bluesy que nomes como Judas Priest e Rainbow moldaram o que seria conhecido como metal. Ao inserir riffs e arranjos de guitarras mais ambiciosos e complexos, inspirados em bandas de hard rock como o Wishbone Ash e o Thin Lizzy, e até de nomes vindos do rock sulista norte-americano como Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd, a turma de Rob Halford e Ritchie Blackmore influenciou de maneira profunda tudo que veio depois. O uso de melodias de guitarra, de harmonias construídas através da interação entre dois instrumentistas, foi um fator marcante. Mas como diferenciar essas guitarras gêmeas das que já eram feitas pelos próprios Wishbone Ash e Thin Lizzy, então? Pela agressividade e intensidade do UFO, por exemplo, e pelas melodias mais sombrias e épicas do Priest e do Rainbow, também.

Recentemente, o TeamRock publicou uma lista com os dez discos essenciais do metal setentista elaborada por Malcolm Dome, um dos nomes mais respeitados e conhecidos do jornalismo rock inglês - leia a matéria aqui. Pessoalmente, eu trocaria algumas das escolhas de Dome por outras, assim como você provavelmente fará o mesmo com as minhas escolhas. Pelas razões expostas neste texto até agora, não classifico Deep Purple, Kiss, Van Halen e Scorpions como heavy metal. Pra mim, todas elas são bandas de hard rock. Poderia trocar os discos desses grupos na lista de Dome por trabalhos de nomes como o UFO (a ausência mais sentida na lista, na minha opinião), Sir Lord Baltimore, Budgie, Bang, Riot, Saxon, Samson e outros. 

Caso elaborasse uma lista com os discos essenciais do metal setentista, ela seria essa (optei por seguir a metodologia adotada pelo Team Rock, incluindo apenas um título de cada banda):

Black Sabbath - Black Sabbath (1970)
Lucifer’s Friend - Lucifer’s Friend (1970)
Sir Lord Baltimore - Kingdom Come (1970)
Budgie - Never Turn Your Back on a Friend (1973)
UFO - Phenomenon (1974)
Judas Priest - Sad Wings of Destiny (1976)
Rainbow - Rising (1976)
Rush - 2112 (1976)
Motörhead - Overkill (1979)
Riot - Narita (1979)


Em relação ao hard rock, os discos essenciais lançados durante a década de 1970 seriam esses na minha opinião (também com apenas um título por banda):

Free - Fire and Water (1970)
Mountain - Climbing! (1970)
Led Zeppelin - IV (1971)
The Who - Who’s Next (1971)
Deep Purple - Machine Head (1972)
Wishbone Ash - Argus (1972)
Alice Cooper - School’s Out (1972)
Captain Beyond - Captain Beyond (1972)
Uriah Heep - Demons and Wizards (1972)
Grand Funk Railroad - We’re and American Band (1973)
Kiss - Kiss (1974)
Queen - A Night at the Opera (1975)
Ted Nugent - Ted Nugent (1975)
Aerosmith - Rocks (1976)
Thin Lizzy - Jailbreak (1976)
Van Halen - Van Halen (1978)
Cheap Trick - Heaven Tonight (1978)
Scorpions - Taken by Force (1978)
AC/DC - Highway to Hell (1979)

E para deixar tudo mais completo, acho que vale a pena também citar aqueles que considero os discos essenciais do hard rock dos anos 1960 (também apenas um por banda):

Cream - Disraeli Gears (1967)
Jimi Hendrix Experience - Are You Experienced (1967)
Blue Cheer - Vincebus Eruptum (1968)
Steppenwolf - Steppenwolf (1968)
Jeff Beck - Truth (1968)
Led Zeppelin - Led Zeppelin II (1969)
Grand Funk Railroad - Grand Funk (1969)
The Stooges - The Stooges (1969)
The Who - Tommy (1969)

E pra você, quais são os elementos que diferenciam o que é hard rock e o que é heavy metal quando falamos de discos lançados durante os anos 1970? Nas décadas seguintes a diferença ficou mais clara, mas e lá na névoa setentista, como isso se dava? Conte pra gente e liste os seus discos preferidos do período nos comentários.



Os melhores discos de 2016 segundo a NME

quinta-feira, novembro 24, 2016

A NME é a revista de música mais tradicional da Inglaterra. Publicada desde 1952, foi a primeira publicação inglesa a incluir charts em suas páginas e, durante a década de 1970, foi a revista de música mais vendida no Reino Unido.

Atualmente, a NME faz parte do portfolio da Time Inc. UK, braço britânico do grupo Time Warner responsável também por revistas como a Uncut.

A linha editorial da NME é focada no pop, com uma tradição de sempre buscar inovações dentro do gênero.

Abaixo estão os 50 melhores discos de 2016 segundo a revista - matéria original aqui:

50 Bon Iver - 22, A Million
49 Public Access TV - Never Enough
48 Show Me The Body - Body War
47 Wild Beasts - Boy King
46 Savages - Adore Life
45 Car Seat Headrest - Teens of Denial
44 The Lemon Twigs - Do Hollywood
43 ANOHNI - Hopelessness
42 Whitney - Light Upon the Lake
41 Solange - A Seat at the Table
40 Rihanna - Anti
39 Green Day - Revolution Radio
38 Slaves - Take Control
37 Soft Hair - Soft Hair
36 Swep Shop Boys - Cashmere
35 Glass Animals - How to Be a Human Being
34 Let’s Eat Grandma - I, Gemini
33 Marco Price - Midwest Farmers Daughter
32 Kings of Leon - Walls
31 Bastille - Wild World
30 NAO - For All We Know
29 Kate Tempest - Let Them Eat Chaos
28 Goat - Requiem
27 Giggs - Landlord
26 Biffy Clyro - Ellipsis
25 Blossoms - Blossoms
24 Nick Cave & The Bad Seeds - Skeleton Tree
23 Michael Kiwanuka - Love and Hate
22 Radiohead - A Moon Shaped Pool
21 Anderson Paak - Malibu
20 Lady Gaga - Joanne
19 White - Lung Paradise
18 Tegan and Sara - Love You to Death
17 Drake - Views
16 Danny Brown - Atrocity Exhibition
15 Kano - Made in the Manor
14 Jamie T - Trick
13 Angel Olsen - My Woman
12 Sunflower Bean - Human Ceremony
11 Beyoncé - Lemonade
10 Frank Ocean - Blonde
9 Chance the Rapper - Coloring Book
8 Iggy Pop - Post Pop Depression
7 Diiv - Is the is Are
6 David Bowie - Blackstar
5 Kaytranada - 99.9%
4 Skepta - Konnichiwa
3 Christine and The Queens - Chaleur Humaine
2 Kanye West - The Life of Pablo
1 The 1975 - I Like It When You Sleep For You Are So Beautiful Yet So Unaware of It




'Ao Vivo No Mosh', do Smack: uma pérola do rock underground brasileiro

quinta-feira, novembro 24, 2016

Na Folha Ilustrada do dia 26 de março de 1985, o respeitado jornalista cultural José Augusto Lemos saudou o primeiro álbum do Smack, Ao Vivo No Mosh, e também o álbum de estreia da Legião Urbana, em resenha conjunta, como uma guinada radical no rock nacional. Por qual motivo? Bem, a cena do rock nacional da época era então dominada pelo padrão raso, engraçadinho, caricato e bobo. Efusivamente José Augusto escreveu: "Até que enfim, agora é sério. Ouça estes dois discos e, na pior das hipóteses, pelo menos há sangue e soda cáustica mais que suficientes para lavar o pop nativo de seu bom mocismo, seu laquê e seu bronzeado”.

O lançamento de obras tão expressivas em termos artísticos não só elevava o nível do jogo, como no caso da Legião, que conseguiu vasta visibilidade nacional, impelia as outras bandas a buscarem o mesmo. O surgimento do Smack representa, ainda, outra grande ruptura: a maior parte do rock praticado em terras brasilis por aqueles tempos era rigorosamente calcado nos padrões de bandas gringas, quase sempre caindo na malha fina do plágio ou cópia. Fazendo uso de referências claras, o Smack conseguiu um som original, no mesmo padrão mundial do que se fazia na época.

O grupo era formado pelo guitarrista e vocalista Sergio Pamplona Jr, mais conhecido como Pamps (que já tinha antecedentes como baixista do Itamar Assumpção no Isca de Polícia), o guitarrista Edgard Scandurra (da banda Ira!), a grande Sandra Coutinho no baixo (Mercenárias) e o baterista Thomas Pappon (que tocava na época com o Voluntários da Pátria e posteriormente formaria o Fellini). Pamps conheceu Sandra quando integrou o grupo que acompanhava Eliete Negreiros, no qual tocou baixo e Sandra, teclado. Com Edgard, tentaram sem muito sucesso montar uma banda. Seguiram persistindo na ideia tocando juntos durante o período de 1983-1984, mas as coisas apenas desempacaram com a entrada de Thomas Pappon. Reunida esta formação, a química e entrosamento fluído entusiasmaram os envolvidos. De fato, Pappon ficou tão animado que abandonou o Voluntários para se dedicar completamente ao Smack (para o espanto de todos, afinal, o Voluntários da Pátria era uma banda respeitada na cena, enquanto o Smack era apenas iniciante). A bagagem sonora de cada um deles convergiu numa mistura musical que rapidamente angariou respeito no underground e que segue cultuada ainda hoje pelos mais letrados em rock brazuca. 

Visando uma otimização de despesas e tomando proveito da afinidade natural entre os músicos, a banda decidiu gravar sua estreia ao vivo no estúdio. Fizeram então uma sessão de várias horas passando o repertório todo várias vezes e depois escolheram os melhores takes para mixar. Pamps e Edgard realizaram ainda uma outra sessão à parte para recolocar alguns vocais, pois no dia da gravação estavam gripados. As gravações ocorreram no estúdio Mosh com a presença de alguns amigos, convidados pela banda para dar mais "clima" para a coisa, e segundo Sandra, tudo foi muito fácil e divertido de fazer.

Lançaram o trabalho pela gravadora independente Baratos Afins em 1985, atraindo atenção tanto da crítica nacional como da internacional - na coluna Underground, da revista americana Spin na edição de julho de 1986, o álbum ganhou uma descrição elogiosa: "Uma vibrante e vigorosa fatia de vinil do raramente exposto rock underground brasileiro. Funky, às vezes sincopado e explodindo em energia lúdica, o som do Smack é duro e seco, com núcleos angulares de guitarra e golpes percussivos de baixo". Hoje, o disco permanece como um dos mais duradouros legados não só da obscura cena paulista underground, como de todo o rock nacional.


O play se inicia com "Fora Daqui", com suas guitarras faiscadas e difusas, baixo em sincopado relevo e bateria sólida como uma rocha em suas dinâmicas, apresentando um som essencialmente denso e obscuro, permeado de contrastes dissonantes que promovem um colorido à paisagem geral. "Onde Li" traz a influência dos Talking Heads e do suingue duro de A Certain Ratio e Gang of Four digeridos e perfeitamente aglutinados à linguagem própria da banda, descambando para o rockabilly em seus segundos finais. "O Clone" segue na linha rockabilly traçada no final da faixa anterior, enquanto "Desespero Juvenil" é conduzida por um caminho sonoro mais pungente com sua comovente letra "beco sem saída". As letras, aliás, são uma espécie de poesia decadentista que, perfeitamente ajustadas ao som praticado pelo grupo, mais sugerem que descrevem.

Segundo os que o conheciam, Pamps era um cara de reais ideias pessimistas, o que fica nítido no tom confessional de versos como "Sei me desesperar só não sei viver / se ninguém me encontrar porque não morrer / não sei, não sei o que vou fazer/ já sei, já sei, mas não pode ser”, de "Desespero Juvenil".

Interessante notar a diferença no playing do Scandurra aqui e no Ira!. Tendo de se ater a um estilo de composição mais tradicional na banda na qual ganhou reconhecimento nacional, no Smack, Edgar aparece com um estilo mais diverso e livre. A instrumental "N° 4" e a cortante "16 e Pouco" são nítidos exemplos disso.

"Limite Eternidade" dá seguimento reunindo tensão e atmosfera climática. "Faça umas Compras", a faixa subsequente, parece uma filha insólita de um casamento entre Talking Heads fase Fear of Music e Jorge Ben, e conta com uma das melhores letras já escritas por Edgar Scandurra. Ameaçadoras, "Chance de Fuga" e "Mediocridade Afinal" encerram o álbum. Todas as canções são de curta duração e a maneira como foram produzidas as coloca sob um clima de constante urgência. Se a ansiedade compulsiva pudesse ser ouvida, este seria o som.

Cada vez mais ocupado com o Ira!, Edgar teve de abandonar a banda, que continuou como trio. O grupo remanescente lançou no ano seguinte o álbum Noite e Dia, tão bom quanto o primeiro. Depois, pelo esgotamento da relação entre os integrantes e as muitas ocupações de cada um deles - todos tinham emprego e faziam parte de outras bandas, com exceção do Pamps, o único exclusivo do grupo -, o Smack acabaria por encontrar seu fim.

Em 1996 se reuniram para uma apresentação no Aeroanta, em São Paulo, sem Thomas, que havia se mudado para a Inglaterra. Já em 2005, com Pitchu Ferraz assumindo as baquetas, realizaram alguns shows, e em 2008 soltaram o EP Smack 3 pela gravadora Midsummer Madness, que teve seu lançamento sucedido por algumas apresentações.

No ano de 2015 Pamps veio a falecer, causando grande comoção entre seus colegas e os admiradores na cena e encerrando definitivamente esse capítulo essencial e pouco reconhecido do rock brasileiro.

Por Artur Barros

23 de nov de 2016

Rebirth: um álbum conceitual de trás para frente

quarta-feira, novembro 23, 2016

Em 2001, a banda brasileira de power metal e metal progressivo Angra lançou o seu quarto álbum de estúdio, Rebirth. Esse foi o primeiro a contar com o Edu Falaschi, que assumiu os vocais após a saída de Andre Matos no ano anterior. O disco foi bem recebido pela crítica e pelos fãs, que compraram essa nova fase do Angra e fizeram com que atingisse 100 mil cópias vendidas em menos de dois meses. O registro traz grandes músicas que entraram para a história do grupo, como “Nova Era”, “Acid Rain”, “Rebirth” e “Running Alone”.

O guitarrista Rafael Bittencourt, que assina as letras de todas as faixas de Rebirth, já afirmou que o álbum é conceitual, contando uma história que começa de trás para frente. No entanto, isso não fica muito claro nas letras, passando aos ouvintes a missão de imaginar a história por contra própria, e é isso que proponho nessa matéria. Com o pouco que se sabe sobre cada música, mais a interpretação que podemos fazer das respectivas letras, por que não ir mais fundo em busca dessa história que a banda tenta nos contar?

A partir da última faixa, “Visions Prelude”, até a que abre o CD, “In Excelsis”, vou analisar as letras e tentar ligar os pontos nesse texto, da maneira que eu achar mais sensata. Mas deixo todo e qualquer um que ler isso livre para interpretar as mesmas de maneira diferente- até por que era isso que o Bittencourt queria, não é mesmo?

A história de Rebirth fala sobre um mundo destruído, e os esforços que os seres humanos que restaram fazem para reconstruir a sociedade e os valores de uma nova maneira, mais humana e correta.

Visions Prelude 

Trazendo o título de “Prelúdio das Visões”, a faixa apresenta o início da história. Um homem tem visões da terra após a mesma ter sido devastada, mostrando todos os tormentos que levaram a sua destruição.

Visão da terra após o horrendo fim 

Essa visão tenta cegamente alertar as pessoas dos riscos que a humanidade está correndo, mas poucos parecem ouvir o alarde. 

Tormentos trouxeram o fim
Nós construímos novamente do princípio
Santo coração indulgente

Ao fim dos versos alguém clama por ajuda, por uma divindade que consiga os perdoar e os livrar daquele fim. Mas ao mesmo tempo que a visão mostra o horrível destino do nosso planeta, ela também diz que as pessoas conseguirão retomar o rumo de suas vidas em uma nova sociedade que elas erguerão das cinzas, acendendo a esperança nos poucos que dão ouvidos a profecia. 

Running Alone 

Depois do prelúdio, a profecia começa a se concretizar. Vemos o ponto de vista de um soldado que foge da grande guerra por não ver mais motivos pelos quais lutar. Versos falam sobre como essa guerra dividiu a humanidade. 

Apressando nosso destino de agora
Dividindo todos nós

Velhos amigos como inimigos, seja forte!

Ao perceber o quão sem sentido e suicida era aquela guerra, o soldado tenta avisar alguns de seus companheiros, mas eles parecem não lhe dar ouvidos.

Responda-me, o que aconteceu com sua vida? 

Você não vê salvação sem luta?
Você não vê que está cego? 

Depois disso, ele foge da guerra, sozinho. Os versos que se seguem mostram como ele não sabe bem para onde está indo, sabe apenas não podia mais ficar lá e lutar. 

Embaixo do sol em um mundo solitário
Eu estou correndo sozinho
Cicatrizes na minha face
Mãos cansadas de escavar sujeira
Eu estava morrendo sozinho

Sabendo que deixou tudo para trás e que agora é o único sobrevivente, ele procura por outras pessoas que tentem, como ele, achar uma maneira de recomeçar em meio a tudo aquilo.

Deixei eu futuro para trás
Eu não sou nada além do único sobrevivente

Judgement Day

A letra dessa música fala sobre um prisioneiro que espera pelo seu julgamento, e alterna seus pensamentos entre ódio e esperança. Às vezes ele teme o futuro, outras vezes aceita o seu destino de modo otimista. Mas com todo esse papo de morte e julgamento, talvez algumas pessoas deixem passar batida a primeira estrofe da música, que pode nos dar uma visão diferente dessa história.

Dentro da prisão da sua mente
Esperando pelo dia
Apenas uma vítima da culpa
Vivendo no desespero

O primeiro verso já diz que o homem está dentro da jaula de sua mente, e a estrofe segue a falar que o mesmo é uma vítima de sua culpa e vive no desespero. Isso leva a entender que talvez essa “pena de morte” seja apenas uma metáfora para a aceitação pessoal de quem se sente imensamente culpado. O homem que fugiu da guerra em “Running Alone” agora se culpa por tudo que fez, por todas as pessoas que matou, pelas atrocidades que cometeu.  

E sua consciência não está segura
Levando você à loucura

O dia do julgamento, que na verdade, é feito por nós mesmos, passa a atormentar esse homem, que resolve ir para o tudo ou nada e aceitar o seu destino. A letra segue falando sobre como não há maneiras de fugir do julgamento, e que todos nós passaremos por ele, dando a entender que talvez a melhor saída seja aceitar, como o personagem faz. 

Ele mostra-se apreensivo quando o momento chega, pede por mais tempo. Logo após vê que como aquele pode ser seu último momento antes de ser acometido pela insanidade, deve aproveitar e sentir-se um homem livre, tudo que no momento ele não é. 

Um último minuto passa pela sua alma
Só mais um minuto no horizonte

Quando você encarar o dia do julgamento
Grite livremente pelo ar
Não haverá mais tempo para rezar

Rebirth 

A faixa que dá nome ao CD talvez seja a que mais fala por si mesma. O homem passou pelo julgamento e agora está renovado. As primeiras estrofes falam sobre um novo dia, reconfortante, agradável. 

Refrescante brisa num dia de verão
Ouvindo ecos do seu coração
Aprendendo a recompor as palavras
Deixo o tempo voar

Ao dizer “deixe o tempo voar” ele expressa um sentimento total de liberdade, de alívio. Não há mais culpa, nem preocupação, ele pode deixar o tempo voar livremente para onde ele queira. Agora, renascido, o homem se lembra claramente dos momentos de seu julgamento, descrevendo-o como algo desesperador e torturante. Pode também estar lembrando dos momentos da guerra, que também fazem parte de sua vida passada, mas quando fala “em minha cabeça” eu imagino que seja seu julgamento.

Oh! Minutos giram e giram
Em minha cabeça
Oh! Meu peito explodirá
Caindo em pedaços

Logo após veio o seu perdão, ele se arrependeu de seus pecados e renasceu da culpa, tornando-se um homem livre. 

Um minuto para sempre
Um pecador se arrependendo
Termina minha vulgar desgraça

Lembra-se do último minuto que ele pedia para ver o horizonte? Então, agora que foi perdoado, ele tem esse minuto, que se estende pela eternidade. A música acaba dizendo que após reencontrar a esperança, o homem está livre para buscar seus objetivos e tentar reconstruir a sociedade.

Reencontrei minha esperança e orgulho
Renascimento de um homem
Hora de voar

Unholy Wars 

A faixa folclórica desse CD, como de costume nos registros do Angra. Essa música trata sobre guerras profanas (como diz o título), guerras religiosas. Na história do álbum estas guerras teriam sido fatores para o fim do mundo. Logo, retornamos na cronologia do álbum para entender mais sobre o que causou o fim da civilização que conhecíamos. 

Um raio letal perfura o ar
Como uma estrela cadente
(Jovens olhos observam na escuridão)

Raio letal seria uma maneira de chamar armas como mísseis e bombas atômicas usadas nestas batalhas. A guerra teria chegado a todos os lugares, sem piedade, mostrando que nem os jovens escondidos escapariam da desgraça. 

A humanidade vai aprender logo
Que o fim chegou a tempo

Há tempo o fim teria chegado, pois essas guerras seriam consequências do rumo que a humanidade estava tomando a muito tempo, mas não notou. Ou talvez não quisesse notar.

Dividindo terras, refazendo
Todas as fronteiras irão colidir
Revelando eras em que a ausência
Do perdão governa nossas vidas

As terras foram divididas, unidas de novo por ideais compartilhados e não por suas fronteiras. A ausência do perdão domina nossa era, onde matamos sem pestanejar e não nos importamos com o sofrimento alheio (algo irônico para ideais religiosos, não?)

Perdoe-nos, nosso pai
Por nós termos pecado

Teu reino será feito
Por guerras santas

Em meio a destruição, algumas pessoas tentam buscar o perdão, mesmo não demostrando nenhum arrependimento. A obsessão por defender os ideais da religião acabou os tornando pecadores, e os botou em um beco sem saída. Agora, diz a música, o paraíso estará lotado de almas de pessoas que morreram por guerras santas. 

Heroes of Sand 

Os heróis descritos nessa faixa somos todos nós, pessoas que nascem, crescem, evoluem, tem seus problemas e seus conflitos pessoais, mas acabam achando um jeito de seguir adiante. Nessa história os heróis estão lutando pelo futuro do nosso planeta após a horrível guerra.

Assim como uma vida milagrosa
Começa com a dor
Para sempre será assim

Fecho meus olhos
Os trovões não cessarão

Aqui fala o quanto a dor é recorrente na vida de todos nós, e nós não podemos fugir dela. Por mais que tentemos ignorar, a dor chegará e não esqueceremos dela, mas devemos aprender a conviver com a mesma. Os trovões não param quando se fecha os olhos, esse verso pode se referir aos sons de guerra que não paravam e não podiam ser ignorados.

Grito alto
Movendo em frente
Cavalgo os cavalos da justiça

Como num sonho você está retornando
Voltando dos mortos-vivos!

A música ganha peso e narra agora a volta por cima dos ditos heróis. Seguindo em frente, bradando por justiça sem desistir. Estão retornando da guerra, algo que parecia impossível de se fazer, logo, vivem um sonho simplesmente por estarem vivos e terem passado pela dor.

Todos os heróis caem
Derramando seu sangue na terra
De algum modo sonhando
Que as divindades se ergam

Aqui fica melhor explicado o conceito de herói, como eu frisei no começo dessa interpretação. Todos os heróis caem, derramam sangue, eles não são algum tipo de divindade perfeita, eles são humanos, pessoas como nós. Eles sonham com dias melhores e lutam por eles.

Com seus corações em suas mãos
Construindo seus castelos na areia

Construir castelos de areia seria uma analogia para reconstruir a nossa sociedade. Por mais que um castelo na areia seja algo frágil, eles tentarão de toda forma construí-lo para um bem maior, isso os torna heróis. 

Acid Rain

Essa música, para mim, é a de mais difícil interpretação. A chuva ácida de que o título fala foi sim consequência da guerra, podendo ter se originado de ataques nucleares e coisas do gênero, mas o tempo em que ela se passa na nossa “jornada do herói” é algo meio indefinido. Alguns versos me levam a pensar que essa chuva ácida não volta na linha cronológica da história, e sim, que acontece enquanto o nosso personagem procura pelos “heróis” de quem ele já tem conhecimento, descritos em “Heroes of Sand”. 

Quando o mundo teve um destino trágico

Apenas um de nós sobreviveu

Bem acordado! Eu estou sozinho neste lugar
Alguém me ouve? Minha única esperança! 

Como os versos implicam, o mundo teve um destino trágico por causa da guerra, e ele foi o único sobrevivente entre os homens que lutavam com ele. Durante sua busca por outras pessoas, ele começa a ponderar, e chega a pensar que está sozinho no mundo. Desesperado, grita por ajuda.

A chuva ácida está queimando
Direto dentro de seus olhos
De novo seus sonhos poderão perder o brilho
Deixe a tristeza dos seus pensamentos se reunirem ao nascer do sol

A chuva ácida está caindo, e o homem pode novamente perder a esperança, mas ele já trata aquilo com mais otimismo do que antes. Diz que deve guardar suas tristezas até o nascer do sol, esperar a chuva passar. Pensamentos de um homem renascido da guerra. 

Misericórdia Santa pelos pecados humanos! 

E nos famosos versos em latim da música, ele pede para que Deus tenha misericórdia da Terra, e não a culpe pelos pecados humanos. 
Essa música mostra uma fase difícil na jornada para encontrar outras pessoas em meio a tanta desgraça. 

Millennium Sun

O encontro finalmente aconteceu, e agora temos um grupo de pessoas juntas lutando por um mesmo ideal. É dessa luta que a faixa fala.

Como velas na escuridão
Nós lutamos contra o vento

Quando é dito que “nós lutamos” já sabemos que o nosso homem encontrou a outros. Mas ao mesmo tempo que os sobreviventes da guerra, em sua maioria, tentam reestabelecer a sociedade, alguns tentam se estabelecer como ditadores e tiranos, reis de um novo mundo por meio da alienação. 

A devoção a seus ídolos
Logo derrubará o rei

Alienação da população
Perdendo toda a afeição

Estagnação iminente
Controlada à distância
Pela TV, de novo

Nessa nova luta para que a nova sociedade não surja como uma ditadura, nossos heróis se veem frustrados pela maldade que ainda há no ser humano. Temem que o futuro não tenha realmente chegado como eles tanto imaginavam. Clamam pelo “sol do milênio”, analogia para a esperança de renascimento desse novo milênio (vale lembrar que o álbum foi lançado em 2001).

Então venha, sol milenar
Não vai nos mostrar o caminho?
O futuro começou

Nova Era

Essa música tem em sua letra o final apoteótico e grandioso da história do álbum. As pessoas conseguiram encontrar o otimismo em sua jornada, e agora nasce a nova era descrita ao longo dos versos.

De alguma maneira eu sei
Que as coisas mudarão

Brilha o novo dia, anjos caídos se levantarão
Nova Era traz as cinzas de volta à vida
Tudo acabado, as dores e mentiras
Anjos se erguerão de volta à vida! 

Anjos se levantarão, como se a divindade olhasse novamente com esperanças para o nosso planeta. A forte motivação das pessoas é descrita em mais alguns versos, como que nos convocando a lutar junto. 

Encontre um sentido para sua vida
Não há como limitar nossos objetivos

Agora com tudo a seu favor, a história se concluirá, a nova era será estabelecida graças a luta de todos os sobreviventes da “antiga sociedade”.

In Excelsis 

Apesar de não ter uma letra para se analisar, essa faixa instrumental não está no disco a esmo. Ela abre o álbum com sons mais densos, um clima misterioso, alguns coros ao fundo. Então essa “escuridão” cessa, e um som limpo toma conta. Seria uma representação da história em geral, com um começo tão obscuro, mas que aos poucos teve seu fim, envolta pela esperança, com um sinal divino dando fim à mesma. O próprio nome da faixa, “Nas Alturas” pode nos dizer donde vem esse acordes ao fim da faixa. Seria Deus abençoando a Nova Era? Eu penso que sim.

Depois de ler e interpretar faixa por faixa, você está vendo este álbum do Angra de uma maneira diferente? Da minha parte, fiquei maravilhado ao ter conhecimento de toda essa história por trás do registro, mostrando que o nome para o mesmo não foi escolhido por acaso.  Uma história de renascimento, não só da sociedade, mas do ser humano.  E você? O que vê nas letras do Rebirth?

Por Eduardo Palini

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