25 de fev de 2017

Discografia Comentada: Teenage Fanclub

sábado, fevereiro 25, 2017

O personagem Lord Henry do clássico romance O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde) não cansa de afirmar e reafirmar que a juventude é a única coisa que realmente importa. De fato, com sua eloquência, acaba por despertar no protagonista do livro, o belo Dorian Gray, um apego patológico por sua juventude, apego este que o incita, em meio a um momento de desvario, a fazer uma premente prece, por meio da qual vende sua alma em troca de ter sua juventude imaculada pela ação do tempo.
O culto e constante fixação pela idade primaveril não se restringe à ficção. Exploradores diversos, em vários momentos da passagem do tempo, tomaram como objetivo compulsivo, encontrar a lendária e utópica "fonte da juventude", que segundo as mais variadas lendas, possuia águas capazes de rejuvenescer a quem delas bebessem.
Um dos casos mais famosos é o do conquistador espanhol Ponce de Léon, que ao chegar a Porto Rico, em 1508, ficou sabendo por meio dos nativos de um lugar ao norte de Cuba, uma Ilha chamada Bimini, onde tal fonte se encontraria. Em 1513, se aventurou a investigar qualquer ilha tropical que encontrasse, em busca de tal onírico lugar e no domingo de Páscoa desse ano, chegou a uma costa, que batizou “La Florida” (“A Florida”), onde muitos acreditam que ele tenha encontrado a fonte.
Os iondus, em registros que datam de 700 a.C. mencionavam um “poço da juventude”. Por sua vez, Alexandre, o Grande, teria buscado o rio da imortalidade, impelido por um conto hebraico.
Mas, essa alternativa para a juventude eterna não passava de mito. De maneira prática, pessoas de todas as eras apelaram para diferentes tratamentos estéticos e cosméticos variados que não podendo manter a essência da energia viril que caracteriza a idade em flor, apenas emulavam uma aparência mais fresca.
Essa substância pulsante que preenche e faz vibrar cada fibra e nervo em equânime excitação de tesão pela Vida da vida permaneceu intocável, sendo permitido a cada ser humano nesta terra tocá-la por apenas um efêmero período de sua existência. Mas então algo aconteceu. Algum evento inter-estelar, talvez uma configuração extraordinária no alinhamento dos planetas, não se sabe exatamente, mas o certo é que em 1989, algo muito especial ocorreu, pois neste ano nasceu a banda cuja musicalidade sintetizava a essência jovem.
Melodias memoráveis, punch garageiro, riffs vigorosos e cativantes, o perfeito equilíbrio entre barulho e clareza melódica, vocalizações muito próximas do sublime e letras ora encantadoramente tolas, ora de grácil espirituosidade singela. De tais elementos consiste a fórmula musical com a qual os escoceses do Teenage Fanclub, banda cujo atual line-up consiste em Norman Blake (vocais, guitarra), Raymond McGinley (vocais, guitarra solo), Gerard Love (vocais, baixo), Francis MacDonald (bateria) e Dave McGowan (teclados), e cujo núcleo de criação equitativamente formado pelos dois guitarristas e o baixista, conceberam uma obra praticamente irretocável.
De A Catholic Education, seu primeiro álbum de estúdio, de 1990, até Here, o mais recente, lançado no ano de 2016, o que temos é uma das carreiras mais consistentes da história do rock. Um legado tão precioso, quanto inexplorado e subestimado.
A amálgama sonora do grupo explora a tradição do power pop de maravilhas como o Big Star, do folk rock recheado por harmonias vocais lindíssimas e guitarras ressonantes (uma herança que alimentou também o Johnny Marr) do Byrds, da mágica espontânea que emana da alma musical do The Beatles, da cativante pretensão à eterna juventude dos Beach Boys e do folk rock rústico de Neil Young. Confluindo tais influências, elas antes acabam por adornar e iluminar a personalidade própria da banda, que por soar como mero pastiche mistureba.
O Teenage quase explodiu em 1991, quando lançou sua obra-prima, Bandwagonesque e foi escalado para abrir os shows do Nirvana (Kurt Cobain era um dos fãs mais entusiásticos, não cansando de se referir ao grupo como "a melhor banda do mundo"). Mas, o sucesso não veio, e o público casual foi se dispersando, enquanto um culto sólido foi gradualmente se formando, à medida em que os escoceses soltavam, ao decorrer dos anos, um álbum mais lindo que o outro.
Aos interessados em mergulhar nesta eternamente inexplorada fonte das maravilhas, segue um guia para auxilia-los em tal missão.
Ah, é importante frisar que para esta discografia comentada foram considerados apenas os álbuns de estúdio oficiais do catálogo da banda. Logo, The King, disco lançado em 1991, famoso por conter uma inusitada versão para "Like a Virgin" da Madonna, e que veio ao mundo a partir de sobras de estúdio da banda no intento de cumprir um acordo contratual com sua gravadora anterior, a Matador, foi descartado da avaliação, assim como a coletânea de raridades, versões alternativas e b-sides lançada em 1995, a Deep Fried Fanclub.
Todos os outros trabalhos do grupo estão aqui analisados, incluindo a polêmica parceria dos escoceses com o americano Jad Fair.
Tendo isso em mente, iniciemos os trabalhos!

A Catholic Education (1990)
O primeiríssimo álbum de estúdio do Teenage Fanclub certamente causará um tanto de estranhamento ao ouvinte médio da banda. Não à toa, é claro. Para aqueles que conhecem o grupo apenas pelas pequenas maravilhas da mais melódica doçura que vieram ao mundo como hits top 20, a perplexidade diante de seu debut se torna inevitável, pois o que a partir do segundo álbum tomaria gosto de sorvete de baunilha com cobertura de chocolate, aqui está mais para um tentador bombom recheado com caramelo e ácido sulfúrico. A doçura está lá, porém condensada à altas doses de perigo iminente, timbres ríspidos, levadas cortantes, guitarras navalhadas e batidas quase agressivas.
Passado o primeiro susto, tal abordagem se mostra natural dentro do contexto: o álbum nasceu para o mundo em 1990, o ano do ajuntamento para o iminente levante grunge, afinal. Porém se por um lado o Teenage não escapou à influência, do outro vê-se claramente que também não se submeteu completamente a ela. O trabalho passa longe da lassidão instrumental de muitas das bandas adeptas do estilo, por exemplo. De fato. Além disso, o cinismo e o humor sarcástico que emana de seus sulcos denotam não apenas bílis sendo descarregada, mas uma genuína inteligência e fino senso de bom humor e ironia- ora, não foi esta banda que se batizou como "Fã Clube Adolescente"?
Se quiser uma definição para este álbum, aqui ofereço humildemente a minha: um disco de grunge do qual um headbanger certamente iria gostar. De nada.
A possível afinidade começa, inclusive, com a faixa de abertura, graciosamente nomeada "Heavy Metal". Um número instrumental melodicamente exemplar, devidamente vigoroso, e que transborda adrenalina. A seguir temos "Everything Flows", a faixa mais conhecida do lote e que é a única fração do trabalho que aponta para o que a banda viria a desenvolver mais tarde.
A primeira faixa-título do disco- existem duas- converge com maestria os caminhos sonoros propostos pelo Velvet Underground e pelo Stooges. Sob a superfície tóxica, consegue-se distinguir lá no fundo uma gema melódica adocicada, que acaba por deixar o ávido ouvinte louquinho na tentação. Mas, é só pôr o dedo e você se queima.
"Too Involved" também traz reminiscências do Velvet- inclusive na demência dos vocais- só que acopladas a uma singeleza melódica a là Big Star. "Don't Need a Drum" é outra pérola da demência, cuja musicalidade bebe nas fontes do rock anos 50. Já "Critical Mass" expõe em suas guitarras descarnadas, anárquicas e enxugadas por boa dose de desleixo, a influência de Glenn Branca, um lendário guitarrista nova-iorquino de vanguarda, influência fundamental para o rock dos anos 1980-1990, de Sonic Youth e My Bloody Valentine até Mogwai, e autor do maravilhoso e indispensável álbum The Ascension.
Neste ponto temos "Heavy Metal II", um magistral número instrumental apoiado em base rockabilly que consegue a proeza de soar ainda mais viscoso que o primeiro tema de mesmo nome.
A segunda parte da faixa-título vem em seguida, com uma frequência rítmica pulsante, quase frenética, como a que teria um possuído anfetaminado. As duas faixas que dão nome ao disco, dois deliberados ataques à igreja católica, foram os dois primeiros e últimos momentos da carreira da banda se aventurando no campo das letras engajadas politicamente.
Encerrando o álbum em altíssimo nível, uma trinca de fazer perder o fôlego, começando com a beleza rústica e dissonante de "Eternal Light", outra pérola baseada no rock anos 1950.
Dando sequência temos "Every Picture I Paint", um caso singular de judiação. Dona de métrica perfeita e melodia irresistível, esta maravilha tinha tudo para ser o mais delicioso rock jovem do qual se havia de ter notícia. Só que o tratamento aqui dado, com o trabalho guitarrístico seco, descarnado, impassível e desleixado, além dos vocais transbordando demência, a afastam drasticamente de qualquer modelo idealista. Acontece que o que poderia ser um clássico caso de desperdício, acaba por se revelar um belíssimo exercício de inventividade, conseguindo deixar a canção ainda mais irresistível do que seria de qualquer outra maneira.
Por fim, o adorável noise de "Everybody's Fool", um grandioso último ato para um magnífico espetáculo.
Neste disco, Norman Blake domina a composição, assinando 10 dos 11 temas do trabalho. A distribuição equitativa da composição entre este, Gerald Love e Raymond McGinley só seria instituída plenamente a partir do quarto álbum de estúdio, Grand Prix.
Auto-financiado, A Catholic Education - grande candidato a melhor título de disco de todos os tempos - só foi oferecido às gravadoras após sua gravação. Foi lançado, finalmente, pela Paperhouse Records na Inglaterra e pela Matador nos Estados Unidos, conquistando reverência imediata da imprensa especializada, além d simpatia do público.
O satisfatório burburinho inicial gerado pela banda atraiu a atenção da Geffen, uma importante gravadora norte-americana, responsável pelo Nirvana, que acabou firmando um contrato com o TFC para representá-lo nos EUA substituindo o selo Matador. O próximo álbum seria a estréia do grupo pela Geffen. (Nota 9,5)

Bandwagonesque (1991)
Perfeição. No contexto da arte sonora, no intento de atingi-la, muitos trilham pelo caminho da lapidação obsessiva, tendo de amargar como resultado, quase sempre, o insosso produto obtido do polimento excessivo e genérico. Sabendo disso, não deixa de soar irônico o fato do Teenage engendrar costumeiramente pacotes e mais pacotes irrepreensíveis de músicas no qual cada uma das canções manufaturadas não apresenta sequer um mínimo pormenor que macule sua espantosa magistralidade. Enquantos muitos buscam a perfeição, o grupo escocês atingiu um estado tal no qual a perfeição é inevitável e brota naturalmente, como mágica.
Mais engraçado ainda é constatar que tal mágica nasce essencialmente de uma simplicidade e desprentensão encantadoras, quase como se estivessem brincando, tamanha sua singular singeleza.
É realmente desafiador (e perigoso) se prestar à tarefa de tentar eleger um "melhor disco" dentre as muitas sequências costuradas de músicas perfeitas encadernadas em álbuns magistrais que o Teenage foi soltando ao decorrer dos anos. Esse trabalho de 1991 preenche todos os requisitos para um candidato a semelhante posição, apenas por seus dotes sonoros. Acresce-se ainda à preferência deste disco para a poli position, o fato de que dada as circunstâncias na qual foi concebido e lançado, pode muito bem ser considerado como o disco mais representativo da história do grupo.
Bandwagonesque simplesmente foi o disco que roubou de Nevermind, obra-prima do Nirvana, a posição de álbum do ano, em eleição realizada pela revista Spin.
Em termos sonoros, não há nada mais irrepreensível. A abertura com "The Concept", leva às alturas da perfeição todos os intentos de convergência entre barulho e melodia (uma verdadeira obsessão no rock anos 1990). Iniciando com microfonia e distorção, a canção segue por sobre a voz mansa do Norman Blake e em guitarras de timbres límpidos (onde, pontualmente, a guitarreira distorcida e microfonada entra rasgando em intervenções sonoras quase palpáveis). Ao final de cada estrofe e nos versos finais do refrão, os "oooh yeaaah" mais expressivos da história da música popular. A meio tempo, a música muda de direção, indo por toadas de caráter ricamente emocional. Nos dois blocos distintos, dois dos solos de guitarra mais preciosos dos anos 90, tão graciosos em sua naturalidade, tão maravilhosos em sua falta de quaisquer traços rebuscados, que bem poderiam ter saído de qualquer um dos melhores LPs do Neil Young com o Crazy Horse.
"Satan", a faixa seguinte, é o momento de maior proximidade com o então muito em voga, Grunge. Um número rápido e cortante, que mais parece saído de seu primeiro disco.
Para o que vem a seguir, as guitarras saturadas e a distorcidas que fizeram contraponto à beleza melódica em "The Concept", e que encontraram seu ápice na feroz "Satan", vão se dispersando e dando lugar à clareza em alguns dos mais belos momentos do rock noventista. Primeiro com "December", uma das mais graciosas canções de amor em todos os tempos, transbordando da mais encantadora singeleza juvenil. Quando Gerald Love canta "I've had this plan for many years but now I can't remember/I wanted to assassinate december", ele acaba matando a nós. De amores. Quem nunca elaborou os mais fantásticos planos para expor seus sentimentos à pessoa amada, mas na hora h simplesmente os viu escapulir diante da timidez, vergonha ou ansiosidade. Qual é...
Depois vem "What You Do To Me", uma potente canção de punch country que se sustenta em apenas três versos. Não é necessário mais nada.
O link com o country persiste na maravilhosa "I Don't Know", um dos momentos mais The Byrds do Teenage Fanclub, e em "Star Sight", os escoceses soltam um de seus mais energéticos e carismáticos rocks. Carisma também é o que não falta na faixa seguinte, a deliciosa "Metal Baby", na qual Norman narra com impagável humor, sobre estar excitadíssimo por sua garota, uma moça muito quente, fã de heavy metal e louquinha, e que por isso mesmo, o deixa desesperado de susto: "Metal baby, I met her, baby/I'm her mother and she's got me on her arm", "I'm not the sort of person she'll admit she knows/She's not the sort of person as driven white as snow".
"Pet Rock" mistura uma energia Beach Boys à sutis adereços soul e então, surge ela, a obra-prima negligenciada do álbum, "Sidewinder", uma das canções de amor mais significativas do século XX, onde tudo transborda perfeição. A voz principal e as contra-vozes, as expressivas guitarras. Até a tolice juvenil da letra é deslumbrante- e ora, o que seria o amor, que não a mais encantadora das tolices?
"Alcoholiday" é outra obra-capital, e parece ter saído direto de "Radio City", maravilhoso segundo álbum do Big Star- inclusive, a semelhança entre os caminhos sonoros propostos pela banda americana e os trilhados pelos escoceses neste trabalho rendeu muito o que falar na época, com as opiniões da crítica pendendo entre os extremos daqueles que enxergaram o álbum como uma celebração do legado power pop e aqueles que deliberadamente acusavam o grupo de plágio. A resposta do Teenage viria em forma de fina ironia no título do próximo álbum.
Por fim, "Guiding Star" abre caminhos por nobres toadas de resgate da herança gospel americana, enquanto a maravilhosa "Is This Music?" resgata as frequências sônicas new wave em outro dos momentos cruciais deste trabalho, que configura o mais duradouro legado do power pop noventista. (Nota 10)

Thirteen (1993)
Batizar o seu terceiro disco como Thirteen, nome de uma das mais emblemáticas canções do Big Star logo após a enxurrada de críticas recebidas por causa da proximidade entre o universo sonoro explorado pelo grupo em seu anterior disco, o definitivo Bandwagonesque e o engendrado pela seminal banda americana configura um delicioso exercício de bom humor petulante.

Estranhamente, este trabalho tem sido injustamente subestimado desde seu lançamento. Claro que depois de um trabalho como Bandwagonesque, qualquer álbum subsequente, por melhor que fosse, veria diante de si, invariavelmente, o árduo desafio de não soar como um anticlímax. Thirteen, porém, se mostra um sucessor muito digno desta obra-prima, e até mesmo um passo importante na evolução sonora dos rapazes.
"Hang On" dá início aos trabalhos, e é um dos ápices criativos do grupo. Iniciando com um esporro violento, a canção logo muda de rumo em direção aos mais melódicos caminhos sonoros, onde o ruído segue fazendo contraponto. A terceira parte vem logo em seguida. Um festim sonoro onde correm todos os vinhos e todos celebram ao acompanhamento de flautas, metais, violas e violinos, uma maravilha!
"The Cabbage" e "Radio" são dois belos, pujantes e jovialíssimos rocks, enquanto que maravilhosa "Norman 3" é dessas pérolas únicas e singulares. Uma legítima herdeira da mais nobre linhagem melódica.
"Song to the Cynic" como ouvir o Big Star explorando nuances a là The Byrds, enquanto "120 Mins" soa como o oposto: os divinos pássaros americanos a alçar vôo em direção à grandíssima estrela.
"Escher" e "Fear of Flying" são outros dos maiores momentos do disco, enquanto que por sua vez, "Commercial Alternative" expõe o mal-estar do grupo para com a gravadora Geffen, que queria transformar o Teenage no "novo Nirvana".
"Tears are Cool" é uma exposição da admiração do grupo pelo mestre Neil Young e "Ret Liv Dead", a prova definitiva do gênio pop de Norman Blake.
A empolgante "Get Funky" dá prosseguimento, e encerrando o trabalho, mais um belíssima homenagem, e dessa vez, dupla. "Gene Clark" presta reverência ao lendário cantor/guitarrista/compositor e fundador do Byrds, enquanto que os rumos sonoros sobre os quais a canção investe soam como qualquer uma das melhores coisas que Mr. Young gravou com o Crazy Horse. (Nota 9)

Grand Prix (1995)
O que há para dizer deste álbum é simplesmente que muito poucas vezes na história da música houve uma convergência tão exemplar entre o rock e pop. A trinca que abre o álbum, nomeadamente "About You", "Sparks Dream" e "Mellow Doubt", é o que de mais irrepreensível existe nestes termos, sendo que dentre estas sobressai-se a segunda, o mais jovial rock de que se tem notícia, uma canção de tal envergadura melódica que daria muito orgulho ao Brian Wilson. Por falar no mestre, ecos deste se convergem a maravilhosas ressonâncias de Neil Young e The Byrds nas mágicas "Don't Look Back", "Verisimilitude" e "Neil Jung", três músicas tão impressionantemente boas que te deixam com um amplo sorriso de encanto e pasmo.
"Tears" dá prosseguimento, e é um momento de intensa beleza. "Discotile" vem depois e é capaz de te fazer ficar um tempão olhando pra cima, todo bobo pensando sobre essa raríssima habilidade que o Teenage possui de produzir rocks e mais rocks de qualidade tão acima da média e tão relevantes para o contexto no qual estão inseridos.
O intercâmbio Neil Young-Beach Boys é o motor propulsor da linda "Say No", enquanto que em "Going Places", as guitarras ressoantes e mercuriais dão o tom em outro dos momentos de destaque deste álbum sem baixas. A influência do Big Star ressurge no folk rock de "I'll Make It Clear", já "I Gotta Know" é um exemplo clássico de composição que só poderia ter sido engendrada pelo grupo.
Encerrando o trabalho, "Hardcore/Ballad", um curto número, que como o nome dá a indicar, abarca em sua primeira metade um estridente hardcore e em sua parcela final, uma pungente balada ao violão.(Nota 10)

Songs From Northern Britain (1997)

Um decisivo afastamento dos ímpetos barulhentos e uma maior ênfase na construção esmerada de ricas rendas guitarrísticas tecidas à guitarras e violões em acordes noivos enlaçados. Um maior e mais sofisticado uso de lindíssimas harmonias vocais trabalhadas em camadas e sobrepostas perfeitamente. A plena coesão do grupo enquanto entidade coletiva- sem as diferenças disparatadas de antes. Era a maturidade que enfim pairava sobre o Teenage Fanclub.
Este disco marca a definitiva adoção dos escoceses aos nobres raptos do folk, e os resultados advindos desta mudança de rumos não poderiam ser mais deslumbrantes. Uma das mais notáveis mudanças ocorreram no tocante às letras. Outrora costumeiramente de encantadora frivolidade, a partir daqui passaram a transparecer um caráter reflexivo e uma madura clareza de julgamento assustadoramente sábia, explicitados em pérolas como "Start Again", "Ain't The Enough" e "I Don't Want Control Of You".
Para saciar os possíveis saudosos do antigo Teenage, o disco reserva "Can't Feel My Soul", um belo rock que foge pela tangente do óbvio ao brincar com as métricas.
Nos momentos em que a singular genialidade melódica da banda encontra o perfeito ponto de convergência com a nova abordagem escolhida, temos pontos altos como "Planets"- um alento- e "It's a Bad World".
Em momentos como "Take The Long Way Round", "Winter" e "I Don't Care" é como se fôssemos jogados subitamente dentro de um pujante possante, com o pé fundo no acelerador a percorrer as mais cinematográficas estradas norte-americanas. Vento no rosto, a sensação única da terra estar passando em velocidade furiosa por bem debaixo de nossos pés, excitação a mil, a vida sendo vivida, plenitude!
Já nos momentos de pé no freio, como em "Mount Everest"- talvez maior música do lote- somos arrebatados por branda e inebriante brisa. Um deleite.
A fração final do trabalho ainda contém duas maravilhas. "Your Love Is The Place Where I Come From" é uma dessas canções únicas, pela qual procuramos uma vida inteira, e que a partir do momento em que temos o privilégio de a encontrar, passa a nos acompanhar pelo resto de nossas vidas. "Speed of Light" é um momento ousado, um pop que mira, sem pretensão oca, o futurismo sutil e elegantemente- um espécime inusitado no catálogo de um grupo que nunca objetivou tais alturas. O que parece é que, vocalista do Grandaddy, ouviu devotamente esta para compor o mais recente álbum do grupo- que irá aportar neste ano de 2017. (Nota 9,5)

Howdy! (2000)
Eternamente subestimado, este sexto álbum de estúdio do Teenage Fanclub apresenta um pop fresco e cativante, nunca banal e sempre expressivo. Dito isto, parecerá confusa ao leitor a razão deste trabalho não ser devidamente valorizado. Acontece que ao contrário de tudo o que a banda havia feito antes em sua carreira, o trabalho é apenas ótimo, mas não brilhante.
Tudo aqui transpira competência, e a despeito deste trabalho realmente não fazer parte da lista dos mais inspirados discos da banda, o registro ainda mantém o diferencial sempre notável dos escoceses em relação às outras bandas. Guitarras faiscantes, uma música leve, agradável, porém nunca inofensiva. O que temos aqui é o álbum perfeito para ser tocado ao cabo de um estressante dia de trabalho, por exemplo. Ouça, relaxe.
Além disso, o disco abarca uma das melhores coisas do catálogo do grupo, como "Accidental Life", pérola que através de fina sutileza traça conexão com escalas orientais.
O restante, apesar de não ser igualmente soberbo, pertence a um alto nível. Inclusive, acabei de pensar numa frase lapidar: Teenage Fanclub, uma banda de tal maneira excelente, que mesmo o seu ótimo foi considerado abaixo do esperado (desculpem a imodéstia, mas a frase foi boa mesmo). (Nota 8,5)


Words of Wisdom and Hope (2002)

Uma parceria de tal maneira inusitada como esta só de saída já levanta duas questões. Primeiro, qual o motivo de ser deste registro? Ora, afinal não muitos links podem ser traçados entre a o teor iconoclasta que sempre norteou a carreira de Jad Fair e a pureza melódica do Teenage, o expoente máximo dentre os detentores da chama do power pop da década de 1990.
Os palpites para resolução de tal charada acabam, por fim, pendendo entre os extremos da genialidade e do ridículo.
Optando hipoteticamente pela primeira opção (ou por alguma outra mais razoável que a última), abrimos o portal para a segunda questão, que invariavelmente é: supondo que a idéia tenha sido realmente boa (ou ao menos praticável), o resultado obtido estaria à altura da ousadia? A resposta, óbvio, dependerá da sua maneira de enxergar as coisas.
Words of Wisdom and Hope é um trabalho coeso que consegue equilibrar de maneira satisfatória os extremos musicais nos quais estão inseridos os participantes do projeto. A costumeira verve docemente pop dos escoceses fornece uma lupada de frescor restaurador, interagindo de maneira um tanto curiosa com a demência excêntrica do americano.
Como não sou dado a absolutices nem a arroubos de exagero, por fim digo que o trabalho é um objeto de interesse pela curiosidade. Você (provavelmente) não vai ficar de joelhos pelo que ouvir aqui, mas também não perde nada. Tente.


Man-Made (2005)

Neste disco, o Teenage provou definitivamente dominar a dura arte de amadurecer. Sem dúvida, todas as qualidades que sempre estabeleceram o rico diferencial dos escoceses em relação ao que se passava em sua época persistem, porém todo o disco transparece um elemento desconcertante de auto-consciência, que os mantêm longe da armadilha de reprisar infinitamente o passado. Há algo novo permeando tudo, e este algo não fornece pistas, mas apenas e tão somente, uma contínua sensação de estar diante de um enigma atrás do outro.
O pop adulto por excelência de "It's All In My Mind" inicia os trabalhos numa singular incursão pelas searas de música tradicional americana.
"Time Stops" vem em seguida e amplia nosso sentimento de perplexidade diante do que estamos a ouvir. É uma coisa além, um passo adiante, algo realmente especial, e tudo que se diz desta canção pode-se aplicar à faixa subsequente, a mágica "Nowhere".
O que se ouve em "Save" é simplesmente memorável. O mesmo pode-se afirmar de "Slow Fade", com seu passo contagiante, e de "Only With You", linda pérola baseada no gospel, uma das grandes canções do grupo.
A atmosfera sonora misteriosa de "Cells" é inebriante. "Feel" e "Fallen Leaves" dão prosseguimento trazendo doses maciças de veneno pop do mais singular e irresistível. "Flowing" é um resgate com os arroubos folk dos tempos de "Songs From Northern Britain", e é um belo momento, e "Born Under a Good Sigh" é mais um pérola de inventividade pop faiscante. Rematando o lote, "Don't Hide", a beleza plena da singeleza.
Gravado no estúdio Soma (de propriedade de John McEntire, frontman do Tortoise) em Chicago, e contando com o próprio McEntireem nos controles e nos ocasionais (e certeiros) teclados, Man-Mad representa o renascimento definitivo do Teenage, após uma parceria esquisita e um álbum (lamentavelmente) subvalorizado. Traçando a perfeita ponte entre o futuro e passado, este registro com toda a certeza figura na lista de melhores álbuns da década de 2010, sendo provavelmente, o maior álbum do grupo neste século. (Nota 10)


Shadows (2010)
Cinco anos após o lançamento de seu ultimo disco, o Teenage Fanclub retomou os trabalhos com Shadows, um registro que concentra e amplia o irresistível composto formado pela verve musical de encantadora doçura aveludada e o engendrar de um pop mais maduro- consequência natural da evolução dos escoceses, não mais rapazes a muito tempo.

O trabalho captura o grupo refuçando seu passado como que em busca de compreender seu presente. Um passo um tanto confuso após o seguro e desconcertante desbunde de Man-Made. No final das contas, porém, isso acaba por não ter importância, tendo em vista que em termos práticos, o registro apresenta um sólido e coeso acetato de 12 ótimas canções, sempre inteligentes, sempre agradáveis, enfim, um pop tanto delicioso quanto duradouro.
A mistura apresenta-se mais refinada também, com novos elementos sendo trazidos para a mesa, o que acaba por configurar o registro como um exercício duplo: um quase diário sentimental e uma assimilação a novos horizontes.
Nos pontos de convergência, temos pérolas como "Sometimes I Don't Need To Believe In Anything" (inclassificável em sua singularidade), "Into The City" (um resgate mais que moderno do psicodelismo sessentista, tão bom quanto qualquer uma das melhores músicas do Tame Impala), "Dark Clouds" (simplesmente pop de ouro), "The Past" (confluência única entre as searas modernas do folk e pop), "Shock and Awe" (rock energético e enevoado, a meio tempo entre o ontem e o hoje) e "Today Never Ends" (melancólico arroubo country).
Quando a coisa pende mais para o lado dos tempos idos, temos coisas igualmente boas como "Baby Lee" (um folk pop estilo anos 50), "Fall" (pérola de comovente beleza), "When I Still Have Thee" (cativante incursão country pop típica das décadas de 1950/60), "Live With The Seasons" (outro desbravamento folk), "Sweet Days Waiting" (soa como uma fusão entre Neil Young e The Byrds) e "The Back Of My Mind" (mais uma amostra da devoção do grupo aos Byrds". (Nota 9)

Here (2016)
Lançado em setembro de 2016, Here é um álbum indispensável, tanto para o veterano na obra do grupo, quanto para o iniciante.
Neste trabalho, o grupo retornou à fórmula infalível de power pop mágico sobre a qual possuem total domínio, resultando num trabalho que vem se tornando, de maneira cada vez mais unânime, o queridinho dos fãs dos escoceses neste século.
Começa com a ótima "I'm In Love", canção que dá o tom do que predomina no trabalho. Guitarras no perfeito equilíbrio entre o áspero e o cream, melodias irresistíveis, linhas vocais belíssimas e aquela pulsação latente, capaz de no curto tempo de duração de uma canção, injetar a mais vibrante sede pela Vida. "Thin Air" segue na toada, só que com guitarras e trunfos pop ainda mais amplificados. Nas adoráveis "Hold On" e "The Darkest Part Of The Night", o rock bebe em límpida fonte folk, enquanto "I Was Beautiful When I Was Alive" traça sublime conexão com a musicalidade desenvolvida pelo ídolo Steve Winwood no Traffic (e que, inclusive, encontra seu ápice na epifânica "Sea Of Joy", composição sua para o mítico super-grupo Blind Faith, lançada no clássico álbum homônimo).
"The First Sight" encontra seu ponto num flerte com a latinidade, e "Live In The Moment" é conduzida pela mescla de influências espanhola e soul.
"Steady State" traz a límpida pureza de uma beleza quase sublime, e por sua vez, "It's a Sign" é a celebração aos tempos idos canalizada pela experiência da maturidade.
Na parcela final do trabalho temos ainda "With You", uma gema tecida a um pop melancólico a là The Zombies e a plenitude reflexiva de "Connected to Life". (Nota 9,5)

23 de fev de 2017

Show: Renato Bandeira & Som de Madeira | 17 de fevereiro de 2017 | Paço do Frevo | Recife

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Na sexta-feira pré-carnaval, quarteto pernambucano apresentou sua potência monolítica em vibrante apresentação ao vivo no templo do frevo.

A definição de uma identidade. O duro empreendimento de prover contornos nítidos a um todo cultural tão difuso quanto possível. Se tem uma coisa que impressiona no show deste grupo é a constatação de sua insólita e aparentemente espontânea habilidade de encontrar sua unidade no exercício da dispersão.
Dito isto, esqueça o rótulo "música regional", pois no final das contas, ele não se mostrará nada mais que uma camisa de força usada para amarrar as mil e uma nuances que este quarteto pernambucano explora com sete fôlegos e ampla coragem.

O chassis é, de fato, o regionalismo, o explorar do encanto, mágica e carisma que possui a cultura popular. Só que no lugar de seguir reto nesta via única, os pernambucanos acabam por buscar seu caminho próprio na torta e incerta trilha que leva o regional ao universal.

A formação é exuberante. Na linha de frente há Renato Bandeira, proeminência da guitarra brasileira que ao longo de mais de três décadas de uma sólida carreira, tem se estabelecido como um dos maiores expoentes não só no seu instrumento, como também no campo da composição, arranjo, produção e direção musical.

Compondo a tapeçaria sonora junto ao guitarrista, temos o sanguíneo acordeon do excelente Júlio César, um dos máximos denominadores entre os contemporâneos talentos da música nordestina. Na cozinha, uma dupla dos sonhos: o originalíssimo Hélio Silva, com seu inominável estilo serpenteante, por vezes funkeado ao contrabaixo e o sobrehumano Augusto Silva, dono de uma técnica excêntrica a tal ponto que atinge as raias do inclassificável.

Uma excentricidade: todos os instrumentistas compõe a base sonora, ao passo que cada um destes também detêm a liberdade para alçar vôos em solos, não raro, mais de um por vez. Algo ainda mais excêntrico: cada solo realizado pelos músicos denota um claro e genuíno exercício de expressão da individualidade intrínseca a cada componente a tangenciar de maneira curiosa a entidade coletiva. Anos luz do lugar cada vez mais comum entre músicos virtuosos de render-se ao insosso exercício da auto-indulgência. Aqui não há espaço para o trivial ou para o fútil. Cada nota significa algo.

De fato, os maiores trunfos do grupo residem no inusitado: conseguem ser extremamente acessíveis sem em momento algum cederem às tentações dos atalhos fáceis e banais. Sua música não ficaria deslocada num bloco de carnaval de rua, nem numa requintada apresentação num restrito club. Fazem parte, para encerrar este prelúdio, do cada vez mais restrito ecossistema de artistas cuja arte produzida detêm apelo tanto sobre as massas, quanto sobre o público mais seleto e crítico.

O minucioso exercício do tecer de sua música, a despeito de ser minucioso num nível preciosista, ocorre de forma natural e absolutamente fluida. A guitarra e o acordeon se dividem em sofisticadas interações, ora revezando-se no tecer das texturas sonoras, ora distribuindo-se em solos dos mais expressivos.


Sobrepondo-se em camadas, os instrumentos viajam por diferentes níveis hipnóticos repletos de vastidão gerando uma perspetiva visual a partir do som. Uma experiência sensitiva.


A gama sonora é de tal maneira abrangente que qualquer tentativa de interpretação crítica acaba caindo invariavelmente de cabeça no ridículo. As referências ao rico imaginário da cultura nordestina abundam, só que o tratamento que recebem é de tal maneira inusitado que estas acabam por se tornarem capazes de soar igualmente familiares tanto ao nativo quanto aquele completamente alheio a este universo.

A apresentação teve início pouco depois do meio dia na tradicional Hora do Frevo, excelente programa no qual o célebre museu abre espaço para a tão negligenciada, porém efervescente cena de música instrumental brasileira. A beldade pernambucana Naara Santos, produtora cultural e cantora de expressivo talento- que ainda há de ser descortinado ao grande público- dá as boas vindas à audiência, cuja composição sempre é realmente diversa, constatação que me fez pensar, durante a ocasião, que programas como este são os que verdadeiramente promovem o democrático acesso à cultura, sem as demagogias que costumeiramente cercam o tema.

Palavras iniciais trocadas, clima agradável, todos em seus lugares e o show começa. O primeiro bloco da apresentação é um rolo compressor. A começar pela exclamativa "De Cabeça pra Baixo", com suas finas e singulares células rítmicas se alternando em momentos de suavidade e vigor; fazendo uso de uma métrica de tal maneira entortante que no exercício de tentar seguir cada sagaz movimento de sua intensa trama, acaba de fato por deixar o atônito ouvinte de cabeça pra baixo.

A versão dos pernambucanos para "Mexe Com Tudo" do lendário Levi Fernandes, com arranjo próprio da banda, nada mais é que um pujante comboio sonoro, uma locomotiva desvairada indo em sua direção. Neste momento de plena celebração e reverência aos mestres, grupo e audiência entram em sublime sinergia. Todos em estado de extâse, músicos possessos. Renato se debulhando em seu vibrante estilo desconcertantemente intuitivo, o acordeon de Júnior a transpirar sangue e suor, Hélio distribuindo-se entre golpes percusivos, marcações angulares e solos sinuosos e sincopados numa peformance de independência de espírito simplesmente arrasadora e um prodigiosamente detonador Augusto a disparar rajadas potentes com um estilo que une a um só tempo, o vigor sanguíneo do frevo de rua e a genuína e intrínseca sofisticação oriunda do jazz.

A seguir, mais uma pérola de Levino Ferreira, "Último Dia", mais que merecidamente considerada o frevo mais belo do século. Nas mãos do grupo, a composição sai a navegar por toadas ricamente atmosféricas no mar de uma noite recifense como que deslizando por sobre um espelho embaçado.


Sem dar tempo para respirar, o grupo saiu emendando com mais uma notável composição histórica. Desta vez, investiram por sobre "Forró Novo", notável gema de Mestre Camarão. Júlio assume a direção predominante na canção e segue pegando fogo numa intensidade frenética. Há uma verdadeira cartase em ação. Os mais velhos se emocionam, os mais novos vibram ao descortinar de uma nova descoberta. Difícil é conter o impulso de sair dançando e se segurar no assento (como brinde, tivemos ainda um irreverente senhor bradando ao cabo da canção palavras de excitação no melhor do léxico nordestino: "É pra lascar, meu filho! Aqui é madeira! Bota pra lascar!!").

O momento máximo da apresentação vem a seguir com mais uma homenagem. Desta vez ao professor Nilton Rangel, com "Morena". Encostando a guitarra, Renato assume a viola de dez cordas numa arrepiante introdução solo com timbres ressoantes numa intensidade maníaca. Seus escudeiros asseclas o acompanham passado certo tempo e no break, um alucinado Augusto comete o mais expressivos dos solos de bateria que já ouvi em minha vida, que acaba por arrancar do público fogosas palmas antes mesmo da canção findar. Incrível! (alguém conserve o material genético deste homem para termos a matéria-prima para clona-lo num futuro em que tivermos tecnologia necessária para isto!).

Contra qualquer acusação tola possível de trilharem um percurso estritamente dentro da casinha, o grupo ainda tira um ás da manga, com a execução em primeira mão de novíssima composição própria, o excelente frevo de bloco "Duas Estrelas". 
Na fração final da apresentação temos mais um clímax com a tresloucada "Maluvida".

O bis veio magro, porém apoteótico, com os quatro colocando a casa abaixo novamente com um número de "Mexe Tudo" ainda mais energético, e então ao remate, as palavras finais de agradecimento e então uma exultante platéia explode em comoção como um estádio na hora do gol com a tradicional apresentação dos componentes da banda.

Sigo meu caminho. Na saída dois rapazes imberbes atônitos com o que presenciaram gesticulam e falam animadamente, quase saltitando. Da conversa deles, flagro um trecho no qual um deles diz para o outro: "Meu irmão, que cacete da mulesta!!!"- como eu amo o léxico nordestino!

É um trabalho magnífico, é um belo dia, a paisagem do Recife Antigo é tão lírica quanto sempre. Sou um homem de sorte e é isso aí.

Renato Bandeira e seu Som de Madeira estão indo para um lugar diferente na música. Mesmo em versão para composições alheias, as idéias são sempre surpreendentes e arejadas, e quando em fruto próprio, sente-se o sabor cada vez mais raro da inventividade. É isso aí, é vida que segue, só que agora mais bela.

Por Artur Barros

22 de fev de 2017

Review: Edenbridge - The Great Momentum (2017)

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

O nono álbum da banda austríaca de metal sinfônico Edenbridge, The Great Momentum, foi lançado com a excelência do selo Lanvall de qualidade. Posso estar enganado, mais o multi-instrumentista Lanvall (pianista, guitarrista, baixista, violinista e sabe-se mais lá o quê) deve ter sido aquele menino que passou a infância ouvindo e estudando música clássica, jazz e tinha um poster do Iron Maiden na parede do quarto.

Lanvall faz do seu Edenbridge um daqueles tipos de sons que dá vontade de ouvir sem cansar, onde todo o peso colocado nas canções é sempre meticulosamente equilibrado com a melodia e harmonia, sem tirar nem por. Aqui nem um som é em vão, não há nenhuma "barulheira" nem "gritaria", tudo é muito bem composto, arranjado por ele e entoado e cantado pela regularíssima vocalista Sabine Edelsbacher, uma daquelas cantoras que com seu timbre aveludado na nota alta e na baixa nos despertam a vontade de ouvi-las cantar da noite até amanhecer o dia.

E assim é o álbum The Great Momentum já na primeira canção "Shiantara", aquela música certeira, para abrir o disco sem erro. Na segunda, "The Die Is Not Cast", a coisa pesa um pouco mais, mas não menos elaborada, com Lanvall aplicando bons acordes de violão no seu decorrer.

Como nada ou quase nada é perfeito, a terceira música, "The Moment is Now", é o ponto fraco deste trabalho. Não que seja uma música ruim, mas fica aquém do todo, talvez Lanvall estivesse com sono ou cansado ao compô-la, fazendo uma água com açúcar dispensável e infelizmente foi um susto quando justamente essa música deu vida a um videoclipe ainda nesta semana. Felizmente todas as outras canções são bem melhores.

A quarta faixa é uma música lenta belíssima, na qual Sabine ganha a companhia ao microfone do cantor  Erik Martesson, da banda sueca Eclipse, com Lanvall novamente abusando de seus rebuscados arranjos ao piano guitarra e violão. Sequenciando, "The Visitor" nos traz uma canção mais rápida e com bela vocalização de Sabine e um marcante coral. A próxima, "Return To Grace" é a maior pancada do disco, aqui a dupla Lanvall e Dominik Sebastien discorrem suas habilidades como exímios guitarristas.

Seguindo com "Only a Whiff Of Life", predominantemente voz e piano, um duo que dá extremamente certo no Edenbridge, com Sabine e Lanvall, a exemplo do que fizeram no projeto de ambos "Voiciano".

O seguimento final é a parte mais sinfõnica propriamente dita deste álbum e que nos traz as duas mais longas músicas. A penúltima, "A Turnaround in Art", se inicia com um riff imponente temperado com a orquestração, desembocando na voz de Sabine, que entoa uma melodia inebriante e bonita. Aqui o peso e o lírico casam perfeitamente.

A canção "The Greatest Gift of All" é a mais longa de todas e fecha a obra magistralmente, fazendo a linha de "Arcana", clássico do grupo do álbum homônimo de 2001. Esta é uma canção completa, com todos os bons elementos inerentes ao Edenbridge, o belo canto de Edelsbacher, a orchestração impecável e as inúmeras váriações de andamento que Lanvall sabe fazer como ninguém.

Concluindo, The Great Monentum é, acima de um ótimo álbum de symphonic metal, um disco de música de alta qualidade.

Lanvall não erra, apenas comete pecadilhos (tais como a terceira faixa).


Por André Floyd, da Confraria FloydStock

21 de fev de 2017

Música Urbana, a loja de discos de João Pessoa

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Gosto de imaginar que cada cidade possui um templo da resistência, um lugar - normalmente tocado por um guerreiro da cena - que se recusa a morrer, apenas pela lacuna que deixaria na cidade.  Sem seu templo, a cidade finalmente terá cedido ao progresso predador que uniformiza e engole as tribos urbanas. Por isso, esses sujeitos são mais do que microempreendedores, eles cumprem uma função social messiânica:  enquanto viverem, e seus templos, a cidade viverá. Não sei se é exatamente assim em toda cidade. Nem sei quantos pequenos Messias ainda resistem. 

O que eu sei é que, como qualquer experiência religiosa, a primeira epifania é inesquecível. O meu momento da revelação veio quando eu tinha 14 anos. Um jovem adulto, com trocados no bolso, que saía do colégio bradando ser uma enciclopédia do metal com a arrogância típica de quem não conhece nada. Foi quando fui levado por um amigo - sempre um sujeito mais velho, sempre um guru - ao templo da resistência  da cidade de João Pessoa. A Música Urbana fica no coração do centro da cidade, numa região já abalada pelo crescimento da cultura dos shoppings e ainda mais pela decadência da indústria musical.


Eu costumava comprar meus CDs nas grandes lojas online, Submarino e Americanas eram as favoritas. Eu já conhecia seus estoques, limitados, de cor, por isso, atravessar aqueles portões causou uma verdadeira revolução espiritual em mim. Ter a oportunidade de conhecer um desses templos faz parte do crescimento musical de qualquer colecionador ou admirador da música. As conversas, recomendações, amizades que surgem, só se comparam às descobertas que ocorrem ao dedilhar as prateleiras. Essa comunhão, para mim, passou a surgir semanalmente. Uma passadinha rápida, uma olhadinha nas prateleiras, novidades, e sempre um tesouro levado pra casa.



Vez por outra se ouve a voz do messias, do sacerdote que cuida do templo. Nesse caso, o quieto Robério, que sempre achava espaço para dizer algo do tipo "chegou um power metal aqui...". Poucas visitas foram necessárias para que ele compreendesse o meu gosto musical. Nunca me recomendou um disco que não fizesse sentido. O pastor é assim, conhece as ovelhas pelo nome. Lembro de cada disco que comprei na Música Urbana, outros tantos que deixei por lá. Nunca paguei caro por um disco lá, por vezes, me perguntei como aquilo era possível. Com o tempo, entendi que o dinheiro tinha uma função secundária na Música Urbana. Importante, mas não fundamental.


Hoje, tenho uma coleção grande, são mais de 400 itens. Me especializei, li, fiz um doutorado. Mergulhei no mundo da música e me tornei mais entendido e, curiosamente, menos arrogante. Quando piso nesse templo, no entanto, volto a ser um moleque de 14 anos que perguntava "esse tal de Kamelot é bom?". Como fiz na primeira vez, com o primeiro disco que comprei por ali.



Com o tempo, a cidade murchou, migrou em direção à praia, e o centro foi ficando empoeirado. Os CDs e vinis da Música Urbana continuam lá. O sacerdote, Robério, continua os organizando, ao lado de HQ's, livros e miniaturas. O templo ampliou os horizontes, mas manteve seu espírito. Continua um lugar humilde, até meio apertado pelas prateleiras e clientes. Parece que não foi feito para caber muita gente. E nem precisa. As lojas ao redor já estão de portas fechadas. A economia não foi gentil com elas. O que só prova que a Música Urbana é mais do que um estabelecimento comercial. O templo se mantém vivo pela fé. A fé na música como um elo que conecta aqueles que acreditam nela. Que tem suas experiências auditivas solitárias, em casa, com fones, mas que sentem a necessidade de externar e compartilhar essa fé e que, por isso, precisam de um altar. Sei bem da quantidade de fiéis que encontro na rua, e trocamos aquela saudação silenciosa, um balançar de cabeça de quem não é íntimo, mas sabe, e na cabeça ouve "nos vemos no sábado, na Música Urbana".


Hoje, a loja que é mais que loja é mais que um templo. É um reduto formal da resistência pessoense. Tornou-se espaço para shows, no espaço que nem tem. Seu altar é do lado de fora, sua plateia são os fiéis clientes e amigos, sua comunhão são os vinis, CDs e, eventualmente, uma cervejinha. E o sermão vem sempre de uma tirada sarcástica e não menos espiritual do seu sacerdote, Robério.


Não sei dizer por quantos anos mais a Música Urbana estará viva, bem no centro de João Pessoa, mas arrisco dizer que, enquanto correr música na veia de alguém, por aqui, ela será bombeada para o coração da cidade. E como o homem é feito de corpo e de alma, ela irá convergir para esse templo, e a fé não morrerá.


Por Fábio Nobre, do Unlimited Decibels

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