13 de abr de 2017

Discoteca Básica Bizz #075: John Lee Hooker & Canned Heat - Hooker 'n Heat (1971)

quinta-feira, abril 13, 2017

Aqui o blues não tem os tradicionais doze compassos. Trata-se de uma levada mântrica, hipnótica, que flui livremente ao sabor dos riffs de guitarra e das profundas modulações vocais de John Lee Hooker.

O inventor do boogie "de-uma-nota-só" foi para o blues de Detroit o que Muddy Waters e Howlin' Wolf representaram para o de Chicago. Como eles, vindo do Mississippi, Hooker partiu das raízes rurais para iniciar-se no processo de eletrificação do estilo que originaria o rock and roll. A essência da coisa toda já estava na interpretação/guitarra/footstomp e na expressividade da voz de Hooker, sempre temperada com as tiradas sacanas das letras e os impagáveis "hey, heys" e "yac, yacs".

Não é à toa que suas canções foram revisitadas por tantos, dos Stones e dos Animals até Nick Cave e Cowboy Junkies. A aproximação de Hooker com o rock veio desde 1959, quando se apresentou pela primeira vez no festival folk de Newport. Foi seu passaporte para ser reverenciado por toda uma geração de músicos americanos e ingleses. Durante os sixties, ele expandiu sua influência pela Europa com várias excursões e ocasionais gravações. Mas o ápice desta associação viria em 1970, seu antológico registro com o quinteto californiano Canned Heat.

Encabeçado pelo gaitista e vocalista Bob “The Bear" Hite e pelo multiinstrumentista Alan "Blind Owl" Wilson, o grupo era um estranho no ninho na cena psicodélica de Los Angeles. A começar pelas figuras de seus frontmen, chamados de Urso (pela obesidade) e Coruja Cega (pelos óculos fundo-de-garrafa que usava). Mas era o som o que os diferenciava das bandas psicodélicas: um blues rock básico, de uma eficiência à toda prova, muito mais para o bourbon do que para o ácido lisérgico. Sob estas condições, projetaram-se com louvor nos festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969).


Com uma posição consolidada em 1970, o grupo foi encontrar John Lee Hooker vivendo na Califórnia, na época sem excursionar. Foi daí que surgiu a ideia de gravarem juntos. O espírito no qual rolaram estas sessões foi perfeitamente expresso nas liner notes da capa interna de Hooker 'n Heat, o álbum duplo lançado no ano seguinte: "Uma vez no estúdio, experimentamos cerca de oito amplificadores antigos até encontrarmos o som real de Hooker - um som que não se ouvia em seus discos havia muito, muito tempo ... Um microfone no amplificador, outro para a voz e um para captar as batidas de seu pé - ele nunca para de batê-los! Não muito longe, uma garrafa de Chivas Regal e um copo d'água para torná-lo mais suave."

A partir deste esquema, Hooker gravou sozinho o primeiro disco do álbum, uma sucessão de clássicos como "Messin' With the Hook", "The Feelin' is Gone", "You Talk Too Much" e "Bottle Up and Go", envoltos em interpretações emocionadas. Como bons discípulos, os membros do Canned Heat foram aparecendo aos poucos só no outro disco: das discretas intervenções do piano e da guitarra de Alan Wilson em "The World Today" e "I Got My Eyes On You", respectivamente, até sua gaita comandando o resto do grupo para acompanhar o mestre na catarse de "Boogie Chillen No. 2". O álbum também foi o epitáfio musical de Wilson, que morreu de overdose pouco depois de gravá-lo. 

Em 1981 surgiu um disco homônimo, documentando novo encontro (ao vivo) de Hooker e o Canned Heat, já nas mãos de Bob Hite. Um belo registro, claro que sem a genialidade do anterior, mas igualmente fatídico: Hite sofreria um ataque cardíaco mortal no mesmo ano. 

Triste sina a da conjunção Hooker n' Heat.

Texto escrito por Celso Pucci e publicado na Bizz #075, de outubro de 1991

Assista documentário da BBC sobre o genial David Gilmour

quinta-feira, abril 13, 2017

Produzido pela BBC, o documentário Wider Horizons foi lançado em 2015, na mesma época em que o mais recente álbum do guitarrista, Rattle That Lock, chegou às lojas. No filme, Gilmour explica as suas influências, conta como aprendeu a cantar e a tocar guitarra e fala sobre o então novo disco.

O material está disponível no YouTube com legendas em português. Uma ótima dica para saber mais a respeito de um dos maiores músicos da história do rock.

Assista abaixo:

12 de abr de 2017

Pra entender: o que é post-punk?

quarta-feira, abril 12, 2017

O post-punk (ou pós-punk, aqui no Brasil) nasceu, como o próprio termo deixa claro, do movimento punk. O termo surgiu para classificar artistas que saíram da fórmula básica do rock de garagem que deu origem ao punk rock em busca de uma variedade maior de possibilidades para a sua música.

Inspirados pela energia e o destemor do punk, mas determinados a romper com os clichês do rock, as bandas de post-punk fizeram experiências com música eletrônica e de vanguarda, além de experimentações com novas formas de gravação e técnicas de produção. Outra característica marcante é a introspecção, com tanto as letras quanto a parte musical explorando temas mais sombrios. Há o discurso político já utilizado no punk rock, mas também a busca de inspiração na teoria crítica, na arte modernista e na literatura. Comunidades artísticas reunindo selos independentes, artes visuais, performances multimídia e fanzines foram fundamentais para o desenvolvimento do estilo/gênero/movimento.

A primeira leva de bandas classificadas e identificadas como post-punk inclui nomes como Siouxsie and The Banshees, Wire, Magazine, Gang of Four, Public Image Ltd, Joy Division, The Cure, The Fall, Talking Heads e Bauhaus, entre outras. O movimento esteve intimamente ligado ao desenvolvimento de estilos como gothic rock, no wave, neo-psicodelia e música industrial, variando entre uma predominância maior ou menor de uma determinada sonoridade conforme o direcionamento artístico de cada banda, mas tudo embalado por um verniz pop.

Em termos de estilo, a espinha dorsal da maioria das bandas de post-punk consiste em um som proeminente e pulsante, com destaque para o baixo e a bateria. A criação de atmosferas com instrumentação e melodias minimalistas também são constantes. Em relação aos vocais, geralmente encontramos vozes ameaçadoras, monótonas e até mesmo robóticas.

O post-punk experimentou um revival no início da década de 2000 através do surgimento de nomes como Franz Ferdinand, Interpol, The National, British Sea Power e outros, reafirmando a importância e influência duradoura do gênero.

Abaixo está uma playlist com algumas das canções mais marcantes do post-punk, mas que também inclui bandas mais eletrônicas dos anos 1980 (principalmente do synthpop), uma vertente que associo ao estilo devido ao caminho seguido pelo New Order, surgido das cinzas do Joy Division após a morte de Ian Curtis, em 18 de maio de 1980.

Review: Deep Purple - Infinite (2017)

quarta-feira, abril 12, 2017

Infinite é o vigésimo álbum de estúdio do Deep Purple, e uma adição surpreendentemente bem-vinda a uma discografia que já namora a marca dos três dígitos. Surpreendente porque, do alto de seus 49 anos de carreira (a banda foi formada em 1968), o lendário grupo segue lançando discos interessantes e que mostram que os músicos ainda possuem combustível para queimar. Quem escutou o trabalho anterior, Now What?!, de 2013, já havia percebido a boa fase do quinteto, que se mantém em Infinite.

Produzido por outro veterano da indústria, o canadense Bob Ezrin (um dos mais renomados produtores da história, responsável por clássicos de nomes como Kiss, Pink Floyd, Kansas e inúmeros outros), Infinite vem com dez faixas, incluindo entre elas uma inusitada versão para “Roadhouse Blues”, clássico do The Doors. Pra quem não acompanha o Deep Purple há alguns anos e não sabe como as coisas estão, ao lado Ian Gillan (vocal), Roger Glover (baixo) e Ian Paice (bateria) temos Steve Morse (guitarra, no grupo desde 1994 no posto anteriormente ocupado pelo temperamental Ritchie Blackmore) e Don Airey (teclado, substituto do falecido Jon Lord). Um time de respeito e muito azeitado.

Mesmo que as apresentações mais recentes do Purple tenham mostrado alguns problemas naturalmente vindos com a idade (a voz de Gillan não é mais a mesma e Paice ainda se recupera de uma isquemia), em estúdio esses percalços não tem vez e a banda soa criativa e na boa. É claro que estamos falando de um grupo com dois integrantes com mais de 70 anos, e cujo caçula (Morse) já está com 62 anos de idade, então não dá pra esperar a explosão sonora do passado. Porém, isso está longe de ser um problema. Usando a experiência a seu favor, o Purple repete a fórmula de Now What?! e entrega um disco gostoso de ouvir.


Em relação ao último disco, Infinite soa mais direto ao ponto, enquanto o anterior tinha passagens mais experimentais e que não agradaram a todos. Aqui, o papo é o hard sempre refinado do quinteto, rico em performances instrumentais acima de qualquer suspeita e que pega direto na memória afetiva. Você não vai ouvir um novo Machine Head, nem um novo Burn e muito menos um novo Perfect Strangers, até porque a banda já gravou esses discos e disse o que queria dizer naquelas canções. Mas você ouvirá um novo álbum forte e pulsante, um fato raro para uma banda com quase cinco décadas de carreira e que ainda sente a necessidade não só de se expressar artisticamente, mas até mesmo de se desafiar musicalmente.

Lançado em 7 de abril passado, Infinite tem recebido reviews positivos, e esse texto engrossa o coro. Ainda que uma parcela de ouvintes de música, sempre mais interessados na última novidade em evidência e deixando muitas vezes de lado a qualidade, prefiram se perguntar o porque de o Purple ainda gravar um álbum de inéditas a essa altura da carreira ao invés de curtir o merecido descanso, esse questionamento se responde sozinho em uma simples audição do disco. E vale lembrar outro ponto: bandas como o Deep Purple não possuem apenas músicos que estão na estrada há décadas, mas também fãs que acompanham o grupo há tanto tempo quanto. Afinal, se músicos de gêneros como jazz e blues registraram alguns de seus melhores momentos já na aurora de suas trajetórias, por que artistas de rock também não podem fazer o mesmo?

Infinite é, em suma, um disco honesto de uma banda que não precisa provar ou mostrar ou justificar nada. O negócio aqui é apenas música, verdadeira como ela sempre deve ser. Sem forçar e sem querer soar o que não é, o Purple inseriu mais uma bela adição ao seu catálogo.

Vale a pena ouvir!

10 de abr de 2017

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