9 de nov de 2018

Review: The Struts - Young & Dangerous (2018)

sexta-feira, novembro 09, 2018

O rock já não tem aquela mesma relevância dentro do mainstream como acontecia há décadas atrás, mas sempre nos deparamos com coisas legais, como o Greta Van Fleet encarnando o espírito zeppeliniano em suas canções ou até mesmo o Ghost, com seu teatro em doses encorpadas de Black Sabbath e Blue Öyster Cult. Por sua vez, outra banda chama a atenção em seu mais novo lançamento: The Struts.

Formada em 2009, na cidade de Derbyshire, na Inglaterra, o The Struts vem conquistando fãs com seu glam rock revival misturado com indie pop, que remete a nomes como Queen, T. Rex e até aos Rolling Stones. Em seu segundo disco, Young & Dangerous, lançado no dia 26 de outubro pela Intescope, o grupo mantém o glam pop que os consagrou no álbum anterior (Everybody Wants, de 2016), só que ainda mais ousado, diga-se de passagem, ao flertar mais com o glam ao estilo Queen e avançar em outras searas como o rap, na faixa "Bulletproof Baby".

Os destaques são os singles "Body Talks” - que possui duas versões: uma com a banda e a outra com a participação da cantora pop Kesha -, "Primadonna Like Me" - que mantém o clima festeiro do disco anterior chamando o ouvinte imediatamente para a pista - e "Fire", faixa que considero uma das melhores do disco, em que o vocalista Luke Spiller, com seu timbre de voz semelhante ao de Freddie Mercury, deposita o espírito juvenil da banda numa mistura de Queen, The Killers e The Darkness. 

Vamos levar em consideração que vemos um Luke Spiller mais solto e virtuoso, em canções como "Fire" e "Tatler Magazine", no qual o The Struts apresenta sinais de comparações com o Queen, principalmente por sua voz e vigor, tanto nas músicas quanto em suas apresentações ao vivo – basta ver alguns de seus shows no YouTube. O fato de fixarem residência nos Estados Unidos, a mudança de gravadora e uma turnê com o Foo Fighters promovendo seu novo disco são sinais de que a banda está no caminho certo e conquistando cada vez mais fãs. 

O que vale a pena ser considerado é que o The Struts repete a fórmula festeira e pop do disco anterior, mas arrisca mais ao beber da fonte de seus ídolos, como (o muitas vezes citado neste texto, e não por acaso) Queen - presente em muitas faixas do disco -, David Bowie e até Elton John. Se você não para de escutar Greta Van Fleet por lembrar de imediato do Led Zeppelin, certamente o Queen não vai sair da sua cabeça ao ouvir The Struts em seu playlist.

Afinal, ser jovem e perigoso em início de carreira nunca é demais.

Por Renan Esteves

Discoteca Básica Bizz #127: The Police - Reggatta de Blanc (1979)

sexta-feira, novembro 09, 2018

Gravado nos estúdios Surrey Sound, o segundo disco do Police registra um rápido momento de paz entre os integrantes da banda. Além dos três, só o produtor Nigel Gray e o empresário Miles Copeland - irmão de Stewart - assistiram às gravações.

A revolução sonora que se ouve ao longo do álbum é fruto da modernização dos equipamentos utilizados pela banda. O disco é marcado pelas brincadeiras de Andy Summers com os primeiros modelos de efeitos eletrônicos - chorus e delays pré-históricos - e pela incrível performance de Stewart Copeland, que chegava à configuração definitiva de sua bateria ao aliar timbres típicos do reggae à sofisticação dos primeiros efeitos digitais desenvolvidos para o instrumento.

Não há como negar: Reggatta de Blanc é um dos pilares do que mais tarde convencionou-se chamar de rock dos anos 1980. Impulsionado pelos mega hits "Message in a Bottle" e "Walking on the Moon", o álbum abriu uma nova vertente dentro do rock e transformou o Police - formado por Sting (baixo e vocal), Andy Summers (guitarra) e Stewart Copeland (bateria) - numa das maiores e mais copiadas bandas da história.

Mais conhecido como o grupo que estrelava um comercial de chiclete na TV, o trio caiu no gosto do grande público com o lançamento deste seu segundo álbum, criado a partir da soma de dois ingredientes básicos. Aliando toda a energia crua do punk rock à economia sonora do reggae, o Police deu uma verdadeira tacada de mestre. Não por acaso, o título do disco é um trocadilho tolo que poderia ser traduzido como "reggae de branco".


A partir dessa fórmula aparentemente simples, o grupo forjou onze canções inesquecíveis, que vão do quase minimalismo de "Walking on the Moon" à elegância de "The Bed's Too Big Without You" e "Bring on the Night", duas das mais belas canções compostas por Sting. Stewart Copeland desova algumas das suas melhores músicas - coisa rara -, como a deliciosa crônica da vida suburbana exposta em "On Any Other Day".

Armado de uma liberdade criativa impressionante, o grupo brinca com a ópera em "Does Everyone Stare", redescobre o rock and roll em "No Time This Time” - com direito a solos perfeitos de Stewart Copeland e Andy Summers - e flerta com climax mais sombrios em "Deathwish". Mas, no final das contas, Reggatta de Blanc será lembrado por "Message in a Bottle".

Hoje, os integrantes da banda falam da música com todo o respeito que um clássico exige, concordando que essa é a maior canção do trio. Num daqueles surtos de inspiração que só acontecem uma vez na vida, Sting conseguiu criar um riff histórico - tão inesquecível quanto o de "(I Can't Get No) Satisfaction", por exemplo - e resgatar o que a poesia da música pop tem de melhor. Ao usar a metáfora do náufrago cercado por milhões de garrafas com mensagens de outros náufragos para contar sua história, o baixista entrou para o time dos grandes mestres do pop. Pena que hoje tanto talento seja coisa do passado.

Texto escrito por Hélio Gomes e publicado na Bizz #127, de janeiro de 1996

8 de nov de 2018

Review: The Baggios - Vulcão (2018)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Vulcão é o quarto álbum da banda sergipana The Baggios e completa o quarteto formado pela estreia auto-intitulada (2011), Sina (2013) e Brutown (2016). O disco traz também uma mudança na formação do agora trio, com a efetivação do baixista e tecladista Rafael Ramos, que já havia participado do trabalho anterior e passou a ser um integrante oficial do grupo. Completam o time o vocalista e guitarrista Júlio Andrade e o baterista Gabriel Perninha.

O que temos em Vulcão é um disco de rock brasileiro na mais pura concepção da palavra, no sentido de que um álbum com a sonoridade encontrada aqui só poderia vir de uma banda natural do Brasil. Ao lado das influências de rock e blues que acompanham o The Baggios desde sempre, encontramos também sons regionais nordestinos, marchinhas de carnaval, repente, MPB, hip hop e o que mais surgir na musicalidade inquieta do trio. Se é possível sentir a presença de Jimmy Page no violão que abre “Em Si Menor”, na mesma intensidade também está ali Jorge Ben mostrando a sua sombra em “Espada de São Jorge”.

Em relação ao excelente Brutown, que foi um disco mais focado em guitarras e colocou pra fora com força total a admiração dos caras pelo rock dos anos 1970, em Vulcão a banda dá uma guinada em sua sonoridade e apresenta muito mais elementos de música brasileira, bebendo sem medo nas suas raízes regionais. Os arranjos de metais e as orquestrações presentes em todo o disco são fundamentais neste aspecto, dando muito mais profundidade ao som do The Baggios, que já era algo impressionante antes disso. A banda segue sendo guiada pela guitarra e violão de Júlio, que funciona como uma espécie de maestro para a sonoridade que é apresentada, conduzindo o grupo por caminhos invariavelmente deliciosos.

Há ao menos dois momentos sublimes em Vulcão. O primeiro é “Deserto”, uma espécie de marchinha rock and roll que desemboca em um rap com a participação do Baiana System. E o resultado é incrível e traz saudade, veja só, do imortal Chico Science. Um exemplo perfeito de como a música do The Baggios não possui limites.

O segundo é “Espada de São Jorge”, uma blues tropical que começa com um violão meio Jorge Ben e se transforma em um blues torto e atravessado que de repente vira tipo um reggae, com direito a metais e um trabalho de guitarra ótimo de Andrade.

Mas é claro que não é só isso. O disco traz um desfile de ótimas músicas como “Louva-Deus”, “Caldeirão das Bruxas” e “Vermelho-Rubi”, e sua parte final ainda realça o lado mais contemplativo da banda com uma sequência de faixas que é de uma poesia e de um lirismo tocantes: de “Samsara" ao encerramento com a música que dá nome ao álbum, é só emoção em uma espécie de suíte temática.

Outra vez, o The Baggios mostra que, se há bandas superiores ou no mesmo nível que eles aqui no Brasil, elas são poucas. Bem poucas, pra falar a verdade. 

Review: Paradise Lost - Gothic (1991)

quinta-feira, novembro 08, 2018

Gothic é o segundo álbum do Paradise Lost e foi lançado em 19 de março de 1991. E agora volta ao mercado brasileiro em uma nova edição disponibilizada pela Hellion Records, com direito a duas faixas bônus e um DVD chamado The Lost Tapes, com a íntegra de um show realizado durante a turnê de lançamento. Esta é a mesma versão que foi relançada no mercado europeu em 2008, e vem com o som remasterizado.

Foi em Gothic que o Paradise Lost começou a apresentar a sua personalidade sonora. O disco trouxe a banda inglesa unindo de maneira indivisível o metal e o gótico, e criando, por consequência, um novo gênero. A predominância de melodias sombras, intensificadas por teclados e orquestrações bem encaixadas, deu um tremendo toque de originalidade para a música do grupo. As guitarras na cara, despejando riffs e trazendo influência gigantesca do Black Sabbath e até mesmo do heavy metal tradicional, complementam a mistura.

O destaque de Gothic é, entretanto, Nick Holmes. O trabalho que o vocalista faz nas dez canções do disco é exemplar. Seu timbre gutural tem uma profundidade rara, e Holmes consegue imprimir interpretações teatrais que colocam as faixas, invariavelmente, em outro nível.

Gothic é apontado, com justiça, como um dos álbuns mais influentes do metal dos anos 1990. Não à toa, a revista norte-americana Decibel incluiu o disco no seu Hall of Fame, dedicado a elencar os mais importantes álbuns da história do metal extremo. Gothic está lá, ao lado de clássicos incontestáveis como ele: Reign in Blood, Slaughter of Souls, Roots, In the Nightside of Eclipse e outros.

Se você ainda não tem, tenha!

Grant Morrison assina com a Universal e terá suas obras adaptadas para a TV

quinta-feira, novembro 08, 2018

O escritor escocês Grant Morrison, autor de clássicos dos quadrinhos como Homem-Animal, Grandes Astros Superman, Asilo Arkham, Os Invisíveis e outros, assinou um acordo com a Universal Cable Productions para a adaptação de suas obras e a produção de novas séries para a TV.

O primeiro fruto é a adaptação para a televisão de Os Invisíveis. Publicada entre 1994 e 2000, a série une organizações secretas, conspirações, viagens no tempo, magia e super-heróis, e possui uma legião de fãs em todo o planeta. Os Inivisíveis foi publicado de forma completa no Brasil pela Panini em oito encadernados de capa cartão entre 2014 e 2016.

A Universal é a mesma produtora que adaptou outra HQ de Morrison, Happy, para a TV. Com Christopher Meloni no papel principal, Happy foi exibida pelo canal Syfy nos Estados Unidos e está disponível na Netflix.

Scorpions lança o seu próprio whisky

quinta-feira, novembro 08, 2018

A banda alemã Scorpions começa a dar seus passos para fora do mundo do música expandindo a sua linha de bebidas oficiais com o lançamento do seu primeiro whisky oficial.

O whisky do grupo foi produzido pela destilaria sueca Mackmyra e promete ser um drink inovador, com um toque original alemão na tradicional bebida escocesa. A bebida é amadurecida em barris que outrora armazenavam bourbon, com acabamento adicional em barris de vinho de cereja doce alemão.

Batizado como Rock ’n Roll Star, o whisky do Scorpions foi feito sob medida para os fãs e já está à venda em casas especializadas mundo afora.

O Scorpions é uma das atrações confirmadas do Rock in Rio 2019 e se apresentará na Cidade do Rock no dia 4 de outubro, dividindo o palco com Sepultura, Megadeth e Iron Maiden.


7 de nov de 2018

Em entrevista, Criolo afirma: "Enquanto houver desigualdade social, toda paz é uma mentira"

quarta-feira, novembro 07, 2018

A edição de novembro da Revista 29HORAS, publicação distribuída gratuitamente nas salas de embarque e desembarque do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, traz uma entrevista exclusiva com Criolo. O cantor, rapper e compositor expressa sua indignação e preocupação com a desigualdade social no Brasil, assunto que predomina não só nas sete páginas dedicadas à matéria, mas também que ronda a sua vivência. “Costumo dizer que o dia que eu tenho show é o dia que eu não trabalho, é o dia de uma celebração maior da luta de uma existência”, afirma.

Sua atual música de trabalho, “Boca de Lobo”, que ganhou recentemente um videoclipe (assista aqui), é um verdadeiro manifesto contra a atual situação do Brasil. As cenas, fortes e agressivas, fazem referência a escândalos que são consequência do abuso de poder no país. O incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, o desastre ambiental causado pela Samarco em Mariana, a máfia da merenda e a farra dos guardanapos, também no Rio, são alguns dos temas abordados por Criolo. “Eu sinto que a canção não pode ser tratada como um jardim onde eu vou lá podar, moldar e deixar do jeito que tem que ser porque alguém vai ver”, afirma. “A arte é uma força que arranca todas as paredes”, defende.

Criolo é de origem humilde e foi criado numa favela. Ele nasceu e viveu grande parte de sua vida no Grajaú, bairro periférico da Zona Sul de São Paulo, e enfrentou inúmeras dificuldades e injustiças. Por isso, suas falas são intensas e repletas de questionamentos, nunca superficiais. “Eu cresci num ambiente em que falavam que a gente ia morrer de morte matada ou de fome, não ia passar dos sete anos por subnutrição, dos treze por violência humana. O medo é a ferramenta eficaz de manipulação. Junte isso ao sucateamento brutal das escolas públicas, das questões da humanidade, e a gente tem uma situação muito sofrida”, reflete.


Ele é categórico ao afirmar que a desigualdade social é o grande problema da humanidade. “Enquanto houver desigualdade social, toda paz é uma mentira. A desigualdade social vem oferecer tudo aquilo que a alma não precisa, tudo que uma criança não precisa”, alega. “Por que as pessoas têm que comer comida no lixo se a gente exporta comida? Se somos iguais, então por que somos tratados como diferentes? Explica pra mim! Por que tudo se resume a dinheiro?”, questiona.

A família de Criolo é o que ele considera seu maior bem e ele não poupa palavras para enaltecer sua mãe, Maria Vilani, e também seu pai. “Minha mãe é o meu espelho maior, meu céu, meu chão. Ela é tudo. Quando relembro a história da minha mãe, eu tenho esperança no ser humano”, conta. Ambos cursaram juntos o Ensino Médio, quando ele tinha 14 anos e ela 39. A sugestão de estudarem juntos foi do próprio artista, que sempre admirou a sede de conhecimento da mãe, que aprendeu a ler praticamente sozinha e hoje se tornou professora, fez faculdade de filosofia, extensão em história e psicologia e pós-graduação em línguas e semiótica. Além disso, é autora de quatro livros e fundou um café filosófico no bairro do Grajaú. “Tudo o que eu fiz dos 11 anos pra cá é só um complemento do que a minha mãe faz”, diz.

Apesar de vivenciar tanta injustiça e desigualdade social, Criolo conta que tem boas esperanças com relação ao futuro dos jovens do Brasil. “Tenho visto em cada canto do país tanta energia positiva que isso tem me alimentado a alma. São jovens se reunindo e apresentando soluções magníficas de transformação social. E tudo dentro de uma disciplina muito grande. Eu não vou perder nunca a esperança na nossa juventude. Nunca, nunca, nunca. Nun-ca”, diz. Para Criolo, são os jovens que, com suas ações e lutas por igualdade social, em todas as camadas do que essa luta sugere, vêm enchendo o coração dos brasileiros de esperança, pois, para ele, o amor é a solução. “Existem pessoas fazendo coisas especiais por todo o Brasil”, afirma.

Nas imagens abaixo você tem a entrevista que foi publicada na Revista 29HORAS. Basta clicar nas imagens para vê-las em tamanho maior. 

E para saber mais sobre a Revista 29HORAS, acesse o site da publicação.







Artista transforma Turma da Mônica em personagens vindos do morro

quarta-feira, novembro 07, 2018

O artista Gabriel Jardim criou uma releitura para os clássicos personagens da Turma da Mônica, imaginando como seriam Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão se suas histórias se passassem nos morros e favelas brasileiras.

Batizada como Turma do Morro, a interpretação de Jardim para os personagens de Mauricio de Sousa foram inspirados em nomes conhecidos da música brasileira. Todos foram retratados sendo mais velhos do que a imagen tradicional. Mônica foi rebatizada como Monicat e sua inspiração foi a cantora Anitta. Cebolinha vem de DL Kalfani, filho de KL Jay (do Racionais MC’s) e passou a se chamar DJ Cebola. Já Magali veio da MC Pocahontas e agora se chama Maga Li (em uma referência sutil a outro ícone do rap, Negra Li). E Cascão foi inspirado em MC Guiné, dando vida ao MC Cascão.

O trabalho de Gabriel Jardim é importante por trazer a representatividade para personagens que fazem parte da vida de milhões de brasileiros. Segundo o artista: "É a Turma da Mônica com cultura de funk e morro. A música ajuda muito nesse trabalho. Não tinha como ouvir outra coisa que não fosse funk. Estou achando a repercussão incrível, e estou um pouco assustado também. Não esperava uma repercussão tão grande assim, não consigo nem acompanhar tudo que falam. Tem gente dizendo que quer uma Graphic MSP nesse estilo. Eu acharia muito massa, mas bem improvável. A linha editorial deles barraria e eu compreendo perfeitamente”.

Achei o trabalho do Gabriel sensacional. E vocês? Confira o resultado nas imagens abaixo e dê a sua opinião nos comentários.





Discoteca Básica Bizz #126: Gilberto Gil - Expresso 2222 (1972)

quarta-feira, novembro 07, 2018

Quando começou a circular o Expresso 2222, em 1972, a luz no fim do túnel era a locomotiva da ditadura vindo em sentido contrário. Como Caetano, Gilberto Gil voltava de um exílio de dois anos em Londres após uma prisão arbitrária, e recomeçava a carreira a todo o vapor unindo as duas pontas básicas do ideário tropicalista. De um lado, o regionalismo fundador da tosca e revolucionária Banda de Pífanos de Caruaru ("Pipoca Moderna"). De outro, uma canção do exílio universalista, "Back in Bahia", que ao invés de palmeiras e sabiás, planta Celly Campelo e um velho baú de prata.

Entre os extremos dessa arqueologia há espaço para o nordeste agreste de João do Vale (mais Ayres Viana e Alventino Cavalcanti) turbinado por guitarras em "O Canto da Ema", e a parábola da contaminação cultural, do repertório de Jackson do Pandeiro, "Chiclete com Banana". A que fala em samba/rock antes de Lobão nascer e mistura Miami com Copacabana, quando a Era Collor ainda era um brilho fugidio nos olhos psicopatas de seus genitores. Com anos luz de antecedência, o forró-core e o manguebeat já pulsavam nos hormônios ferventes da sucinta "Sai do Sereno" (Onildo de Almeida), em duo com Gal Costa, edificada numa única estrofe poética.


Antes da trilogia Re do autor (o ruralista/macrô Refazenda de 1975, o funkeado Refavela de 1977 e o pop Realce de 1979), este expresso para depois do ano 2000 já falava em estrada do tempo pré infovias de Bill Gates. A clássica faixa-título foi repaginada no recente Acústico de Gil com uma acentuação de sua pisada de xaxado implícita na versão original.

O disco de 1972 também faz um inventário ideológico da geração do desbunde com palavras de ordem com "O Sonho Acabou". Ao mote de John Lennon, Gil acrescenta pitadas tropicalistas ("Dissolvendo a pílula de vida do Dr Ross / na barriga de Maria") e um atestado de que os caretas perderam o bonde da história. "Quem não dormiu no sleeping bag / nem sequer sonhou / e foi pesado o sono pra quem não sonhou". Além de uma distinção de perfis com o xifópago estético Caetano em "Ele e Eu" ("Ele vive calmo / e na hora do Porto da Barra / fica elétrico"), Gil manda o editorial do disco obra-prima em "Oriente": "Se oriente rapaz / pela constatação de que a aranha / vive do que tece / vê se não se esquece".

De tão sólida, a teia do Expresso 2222 sobreviveu ao vírus do tempo.

Texto escrito por Tárik de Souza e publicado na Bizz #126, de dezembro de 1995


Livro: Pancadaria - Por Dentro do Épico Conflito Marvel vs. DC, de Reed Tucker

quarta-feira, novembro 07, 2018

Há poucos livros sobre a história das grandes editoras de quadrinhos norte-americanas publicados aqui no Brasil. Com exceção de Marvel: A História Secreta, de Sean Howe, e mais um ou outro título, o leitor brasileiro de HQs não tem muitas fontes para saber mais sobre a trajetória da DC e da Marvel.

Neste sentido, Pancadaria - Por Dentro do Épico Conflito Marvel vs. DC, é um oásis no meio de um deserto. Escrito pelo jornalista norte-americano Reed Tucker, o livro foi publicado o Brasil pelo selo Fábrica 231, da editora Rocco, e é leitura obrigatória para qualquer apreciador da nona arte.

Tucker conta como surgiu e se desenvolveu a rivalidade corporativa entre as duas maiores editoras de quadrinhos dos Estados Unidos e, por consequência, do planeta. A disputa eterna entre a preferência dos leitores é o tema central, mostrando as estratégias desenvolvidas por ambas para suplantar a concorrência.

Um dos pontos mais atrativos está logo no início, com o autor contando sobre o surgimento da DC e em como a editora se tornou o que é. Esse ponto merece destaque justamente pelo que comentei lá no início do texto: aqui no Brasil há uma escassez bibliográfica sobre o assunto, e não temos nada publicado sobre como uma das maiores editoras de HQs do planeta nasceu e se desenvolveu. Tucker faz esse favor para o leitor, e desde o começo deixa claro a principal diferença entre a DC e a Marvel: enquanto a casa do Batman e do Superman sempre foi mais corporativa e tradicional, o lar do Homem-Aranha e dos Vingadores se destacou justamente por quebrar os paradigmas que a própria DC ajudou a criar.


As mais de 300 páginas de Pancadaria estão cheias de deliciosas e quase inacreditáveis histórias de bastidores, e que irão fazer a alegria dos leitores de quadrinhos. Além da disputa entre as duas empresas, Reed detalha como foi a criação de inúmeros personagens, como aconteceram as mudanças de mercado ao longo das décadas, o que levou ao surgimento de títulos que mudaram a indústria (como Cavaleiro das Trevas, Watchmen, X-Men) e diversos outros pontos.

O texto de Tucker é leve e fácil de ler, com uma dinâmica bastante atraente e que entrega muitas, mas muitas mesmo, informações sobre a Marvel, a DC e toda a indústria de quadrinhos. Há literalmente centenas de depoimentos de artistas, escritores, executivos, lojistas e leitores, formando um painel bastante completo sobre a disputa que, de certa forma, construiu a indústria.

Pancadaria é uma leitura saborosa e que preenche uma lacuna no mercado brasileiro. Um livro ótimo, que ganhou uma bela edição nacional e que tem lugar reservado na estante de todo fã de HQs. Fã esse que há muito tempo já sabe: nesta disputa entre as editoras, o maior vencedor é sempre o leitor.

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6 de nov de 2018

Panini lança box especial de Sandman

terça-feira, novembro 06, 2018

Naquela que pode ser apontada como a consequência definitiva da gourmetização do mercado de quadrinhos aqui no Brasil, a Panini anunciou o lançamento de uma caixa reunindo todas as edições de Sandman. O material celebra os 25 anos do selo Vertigo e estará disponível para pré-venda a partir de 10/11, data do aniversário de Neil Gaiman, apenas no site da editora. O box será lançado na CCXP, que acontece entre 6 e 9 de dezembro em São Paulo.

A caixa custa inacreditáveis R$ 900 e traz as cinco edições de Sandman - Coleção Definitiva, mais Morte e Sandman - Prelúdio, tudo em capa dura. Na ponta do lápis, a soma dos valores dos 7 volumes incluídos na caixa dá um total de R$ 916. Pra mim, é muita grana (isso sem falar que o box poderia ter um preço promocional mais baixo, né?).

Sandman é considerado um dos melhores e mais importantes quadrinhos de todos os tempos. Escrita por Neil Gaiman, a série foi publicada a partir de 1989 e contou com 75 edições. A trama conta a história de Morpheus, responsável pelo Mundo dos Sonhos, que pode acessar os sonhos de toda a humanidade e também das criaturas capazes de sonhar. Quando ele é capturado, o Mundo dos Sonhos fica abandonado e os sonhadores, consequentemente, desamparados.

A série projetou Neil Gaiman como um dos maiores escritores de quadrinhos da história. Após o seu final, o roteirista produziu outras obras marcantes como Deuses Americanos e Coraline, além de colaborações para títulos como Hellblazer e Batman.



Devir anuncia segundo volume de Lazarus

terça-feira, novembro 06, 2018

A Devir está lançando o segundo volume da série Lazarus, da dupla Greg Rucka e Michael Lark. Com o título de Ascensão, o encadernado reúne as edições 5 a 9 da série. Greg e Lark trabalharam juntos na aclamada Gotham, onde o cotidiano dos policiais de Gotham City é mostrada e revela como é viver em uma cidade em que é preciso dividir o espaço com um vigilante como o Batman.

O primeiro encadernado de Lazarus saiu em maio deste ano. O segundo segue a mesma fórmula que a Devir adotou anteriormente e será disponibilizado em capa cartão e em capa dura, sendo que esse último estará disponível apenas na Amazon. Ascensão vem com 128 páginas e formato 17x26.

O que temos em Lazarus é uma obra de ficção científica distópica, onde o poder do planeta está dividido entre poucas famílias, que contam com profissionais que lhes prestam serviços e são chamados de servos. Quem não se enquadra nesse status é marginalizado e encontra muitas dificuldades para sobreviver. No meio disso temos uma garota geneticamente alterada que luta contra mentiras, traições e atos de terrorismo executados por um grupo que se intitula Os Livres.

No release enviado à imprensa, a Devir também informou que os volumes 3 e 4 da série serão lançados no Brasil em 2019. Nos Estados Unidos, Lazarus já teve 28 edições publicadas e está no quinto encadernado.

Confira abaixo alguns previews do segundo volume:








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Quadrinhos: Refugiados - A Última Fronteira, de Kate Evans

terça-feira, novembro 06, 2018

A questão dos refugiados é um dos maiores flagelos do mundo atual. Milhões de pessoas fogem de países da África e do Oriente Médio em busca de destinos melhores, com a esperança de deixar a fome e a miséria para trás. Esse êxodo moderno gera tragédias como as dezenas de acidentes com barcos super lotados no Mar Mediterrâneo, e que foram responsáveis por uma das imagens mais tristes já clicadas: a foto de um menino sírio morto em uma praia da Turquia em 2015.

Um dos destinos mais procurados é a cidade portuária francesa de Calais, onde milhares de pessoas vão com o objetivo de cruzar o Canal da Mancha, entrar na Inglaterra e conseguir construir uma nova vida. Conhecido como Selva de Calais, o campo de refugiados lá localizado abrigava cerca de 8 mil pessoas vivendo em péssimas condições de higiene e com pouco comida, e foi desmantelado pelo governo francês em 2016.


Esse é o cenário de Refugiados - A Última Fronteira, da escritora e artista britânica Kate Evans, que a Darkside Books está lançando aqui no Brasil (formato 21x28, capa dura, 176 páginas). Autora de Rosa Vermelha - Uma Biografia em Quadrinhos de Rosa Luxemburgo (que saiu por aqui pela Martins Fontes em 2017), Kate relata o que viu na Selva de Calais a partir de várias viagens ao local. E o resultado disso é uma HQ poderosa e perturbadora.

Há quem pense que a única coisa que importa é a sua própria vida, e o resto que se dane. Aqui em Florianópolis, onde vivo, as pessoas que não conhecem o centro da cidade ficam chocadas ao perceber a enorme quantidade de sem teto que dormem nas ruas todos os dias. Você pode contá-los às dezenas, fácil, e esse número só cresce. Há também quem não se importa com o que acontece além das fronteiras do seu país. "O que é lá de fora não me diz respeito", pensam essas pessoas. Aqui no sul do país, esse sentimento é especialmente forte em relação aos cidadãos haitianos que vieram para o Brasil após o terremoto que atingiu o Haiti em 2010 e devastou a capital, Porto Príncipe. Muitas desses haitianos que vemos nas ruas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e outros estados brasileiros possuem instrução superior, mestrado e até mesmo doutorado, mas são olhados de cima para baixo pela maioria dos nossos compatriotas - como se um curso superior ou um diploma justificassem um tratamento diferenciado, mas, enfim, é o que muitos pensam aqui neste estranho pedaço de terra teoricamente abençoado por Deus e bonito por natureza. O fato de serem negros também não ajuda, afinal sabemos bem o quanto o Brasil é um país racista e, cada vez mais, também xenófobo.

Como bem aprendemos com a recente passagem de Roger Waters por aqui, o mundo não tem fronteiras. Eu, você, Roger e aquele cara que dorme na rua somos todos cidadãos do mundo. As fronteiras entre os países, quando estamos falando de algo físico, praticamente não existem (com exceções construídas pelo homem como a Muralha da China, o finado Muro de Berlim e o infame muro entre os Estados Unidos e o México que Donald Trump quer construir). Já o sonho de uma vida melhor, de ser alguém na vida e poder oferecer um futuro para nossos filhos, esse é universal. E é o que move, por exemplo, a imensa caravana que partiu da América Central e caminha em direção aos Estados Unidos neste exato momento. O mundo é, afinal de contas, de todos nós.



O que Kate Evans apresenta em Refugiados é um retrato cru e sem filtros do que ela viu em Calais. Não há sutilezas e nem uma mera tentativa de suavizar o que a história conta. O que vemos é o contraste que o ser humano é capaz: enquanto um busca uma vida mais digna, o seu semelhante o humilha, bate e faz o diabo para que ele não consiga. E tudo isso em nome de fronteiras, cidadanias e independências que, convenhamos, não poderiam ser o combustível para tamanha estupidez.

A arte de Kate não traz maiores refinamentos e é, em certos aspectos, até mesmo grosseira. Essa característica deixa ainda mais forte a mensagem que o quadrinho transmite. Tudo é muito expressivo, derramando desespero, dor e desamparo em praticamente todas as páginas. O texto vai na mesma linha, não economizando palavras para contar o horror de uma situação chocante e que ocorreu há pouquíssimo tempo.

Ao final da leitura, a sensação é de que Refugiados é uma HQ que pode ser colocada no mesmo nível de outras grandes obras do jornalismo em quadrinhos como os livros de Joe Sacco (Palestina, Reportagens, Noites sobre Gaza e outros) e outros nomes que exploram o estilo.


Há muito tempo as histórias em quadrinhos deixaram de ser uma mídia (ou linguagem, ou meio, chame como preferir) exclusiva do público infantil. HQs como Refugiados - A Última Fronteira são mais um exemplo de como os quadrinhos são uma plataforma perfeita para contar histórias sobre a benção e o flagelo que é (tentar) ser humano. 

Uma leitura obrigatória e que ajuda a entender o tempo em que vivemos.

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Saiba mais sobre Beowulf, novo lançamento da editora Pipoca & Nanquim

terça-feira, novembro 06, 2018

Já está pré-venda Beowulf, o novo quadrinho da editora Pipoca & Nanquim. Seguem as informações do release enviado para a imprensa:

Santiago García e David Rubín uniram os seus talentos para recriar a lenda de Beowulf, um poema épico que, passado de geração a geração, perdura há mais de mil anos e tornou-se parte fundamental e um dos pilares da literatura inglesa, inspirando centenas de autores, entre os quais cabe destacar J.R.R. Tolkien e Neil Gaiman. Beowulf narra a história de um herói escandinavo em terras que viriam a se tornar o que hoje conhecemos como Dinamarca e Suécia. Um terrível monstro chamado Grendel tem atacado o reino dos daneses por doze anos, devorando homens e mulheres, até que Beowulf chega para salvá-los, em busca de glória eterna para seu nome. García capta o tom e os detalhes mais importantes do milenar poema e entrega um roteiro impecável para o desenhista David Rubín brilhar com sua arte e narrativa poderosíssimas, provando ser um dos quadrinistas mais vigorosos desta geração. A dupla de espanhóis segue fielmente o argumento e a estrutura em três atos da história original, mas imprimem sua marca e a transformam em um quadrinho épico com perspectiva contemporânea. A edição da editora Pipoca & Nanquim traz a graphic novel completa acompanhada de textos extras, em grande formato (21 x 30 cm), capa dura com verniz localizado e papel couché colorido de alta gramatura.

Santiago García é um roteirista espanhol que possui uma longa lista de títulos publicados, com destaque para El Vecino (ao lado ilustrador Pepo Pérez), Fútbol: La Novela Gráfica (com Pablo Ríos) e Las Meninas (com Javier Olivares). Este último venceu o prêmio principal do Salón del Cómic de Barcelona em 2015 e o Premio Nacional del Cómic no mesmo ano. Já David Rubín também é espanhol e é o artista da série de HQs Rumble e tem o seu trabalho também em títulos como Ether, The Hero e Black Hammer.

Beowulf foi publicado no mercado norte-americano pela Image Comics no início de 2017 e é o primeiro título da editora americana que a Pipoca & Nanquim lança no mercado brasileiro. Torço para que esse seja o início de uma relação duradoura entre as duas editoras, e que a PN traga mais material da Image para o Brasil, já que a empresa criada por Todd McFarlane e outros artistas é um dos principais pólos criativos do quadrinho mundial já há alguns anos.

Abaixo você confere alguns previews de Beowulf:













E aqui você pode comprar a HQ em pré-venda e com desconto:

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