Review: Sepultura – Quadra (2020)




Após algumas pancadas, como que se anunciasse que uma porta seria arrombada, um clima sombrio com orquestração e coral surge e então o primeiro single, “Isolation”, explode nas caixas acústicas (ou fones ...) e inunda o ambiente com seu som agressivo, solos alucinados e Derrick Green cantando como nunca. Já quando lançada durante o show da banda no Rock in Rio em 2019, dava para perceber que “Isolation” era um cartão de visitas animador e é ela que abre Quadra, novo álbum do Sepultura.

Andreas já tinha explicado o conceito do disco quando lançaram o primeiro single: “Quadra, entre outros significados, é a palavra em português para ‘quadra esportiva’ que, por definição, é uma área limitada de terra com demarcações regulatórias, onde, de acordo com um conjunto de regras, o jogo ocorre. Todos nós viemos de diferentes quadras. Os países, todas as nações com suas fronteiras e tradições, cultura, religiões, leis, educação e um conjunto de regras onde a vida acontece. Nossas personalidades, o que acreditamos, como vivemos, como construímos sociedades e relacionamentos, tudo depende desses conjuntos de regras com as quais crescemos: conceitos de criação, deuses, morte e ética. Dinheiro, somos escravizados por esse conceito. Quem é pobre e quem é rico, é assim que medimos pessoas e bens materiais. Independentemente da sua quadra, você precisa de dinheiro para sobreviver, a regra principal para jogar esse jogo chamado vida.” Kisser explicou também que o álbum foi pensado como um disco de vinil duplo dividido em quatro partes diferentes para cada um dos quatro lados.

O lado A é o Sepultura mais tradicional da fase Derrick Green. Rápido, pesado e brutal, com Eloy Casagrande demonstrando porque é um dos melhores bateristas do planeta. Paulo Jr. e Andreas constroem paredes espessas de peso dando ao ouvinte uma sensação de pesadelo. Oba! “Means to an End” (que entrada de bateria!) e “Last Time”, o segundo single, completam o primeiro lado sem deixar o ouvinte respirar.

O que seria o lado B começa com uma batida tribal remetendo o ouvinte por alguns momentos ao clima de Roots (1996). “Capital Enslavement” tem intervenções de cordas agressivamente colocadas no centro da música. É rápida, percussiva e extremamente pesada. Se segue o petardo “Ali”, que começa com um ótimo riff e coloca Derrick cantando de forma soterrada na mixagem, como se lutasse para chegar à superfície. E quando chega... A faixa teria tudo para ser um hit radiofônico se houvessem rádios que tocassem Sepultura. 
“Raging Void” tem uma batida quase marcial e o baixo de Paulo faz os órgãos internos da gente darem aquela remexida de tão potente. O refrão é poderoso e ótimo para gritar a plenos pulmões nos shows. 

“Guardians of Earth” abre com violões. Tensa, a faixa que dá início ao lado C e tem uma percussão acentuada (Eloy é monstruoso!) e um coro de vozes muito bonito, até que Derrick e a banda entrem com tudo. Tem também um dos solos mais belos de todo o disco. A instrumental “The Pentagram” remete ao passado thrash da banda em várias passagens absurdamente velozes e pesadas, enquanto “Autem” fecha esse lado sendo a mais pesada e gritada do disco.

No último lado, Andreas abre contagem para a linda faixa que dá título ao disco. Surpreendente, é quase uma vinheta e faz sentido estar naquela posição do álbum já que a próxima música é algo que, sendo uma canção do Sepultura, dificilmente alguém chamaria de balada, mas é isso - ou quase. “Agony of Defeat”, com seus quase seis minutos, é a maior do disco. Groovada, meio lenta e arrastada, é a que melhor conversa com o álbum anterior da banda, Machine Messiah (2017). 
O refrão vem acompanhado por um coral que empresta um ar épico à canção. De boas? É arrepiante! “Fear, Pain, Chaos, Suffering” fecha o disco mantendo o clima arrastado e sombrio. A música tem Derrick dividindo os vocais com Emmily Barreto, do Far From Alaska. Ficou ótimo!

O responsável pela capa é o artista Christiano Menezes, da Darkside Books, e Kisser a explica dizendo que a moeda traz a efigie do crânio de um senador representando o conjunto de leis que nos rege, e o mapa mundi representa as fronteiras das nações, com linhas imaginárias separando pessoas por conceitos de raça e crenças.
 
Em quase 52 minutos de duração, o Sepultura trouxe um disco digno de figurar entre os melhores da banda. Rápido, pesado, inventivo e inquieto, Quadra é grandioso mas sem ser grandiloquente, e impressiona ao mesmo tempo que mostra que álbuns conceituais podem sim ser divertidos sem se arrastarem por passagens instrumentais masturbatórias e pouco relevantes ao conjunto da obra.




Comentários

  1. Eu acho engraçado que todo disco novo do Sepultura é o melhor da fase Derrick. Pra mim a fase Derrick é extremamente maçante, mas não por culpa do vocal, que é bom, mas a falta de criatividade na hora das composições.

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    1. Cara, sei que gosto é pessoal, mas o Sepultura nunca foi menos maçante do que hoje!

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    2. De repente pode significar que melhoram a cada lançamento, o que de certa forma não deixa de ser verdade.

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    3. Faz tempo que eu sempre brinco com isso. Se procurar no Whiplash, deve ter comentários que fiz quando do lançamento do Machine Messiah dizendo que o próximo disco do Sepultura (que nem existia ainda) seria taxado como o melhor da fase Derrick rsrs. Outro dia mesmo eu fiz um comentário sobre isso num canal do youtube sobre heavy metal e o dono do canal ficou putíssimo.

      Se tem uma banda que não pode reclamar das críticas especializadas é o Sepultura. As críticas têm sido majoritariamente favoráveis, desde sempre. Se fizermos um paralelo inevitável com a recepção da carreira de Max Cavaleira, desde a separação, isso fica ainda mais claro. Os discos do Soulfly/CC foram recebidos com elogios, críticas, pontos positivos apreciados, pontos negativos ressaltados. A crítica soube avaliar que o Pandemonium tem uma produção cagada que estrago o disco, ou que o Savages é um disco bem cumpridor de tabela (ou genérico) do Max. Normal.

      Agora vai ler as críticas dos discos do Sepultura desde a entrada do Derrick. Eu já fiz isso, e posso dizer que você vai ver duas coisas na maior parte delas: 1) uma reprimenda aos fãs que deixaram de acompanhar o Sepultura com Derrick; 2) uma certa exaltação da banda e do disco analisado. Mas eu fiquei em vão esperando alguém apontar que falta potência pro vocal do Derrick em vários momentos. Ou que o Andreas fez vários riffs genéricos em muitas músicas. Ou que aquela ênfase em músicas mais hardcore não rendia bons resultados. Poucos resenhistas falavam disso ou daquilo.

      E é curioso de observar agora, com um distanciamento temporal. Discos que hoje não são tão bem considerados, mesmo pelos entusiastas da fase Derrick, como Against e Nation, foram bem recebidos nas resenhas. Discos que hoje em dia são meio apagados, que ninguém mais comenta, como Roorback ou A-Lex foram aclamados em boa parte das resenhas. É curioso.

      Acho que uma das poucas exceções é o próprio Seelig, que nunca foi um grande entusiasta dessa fase da banda.

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    4. Eu não sou nem fui um grande entusiasta do Derrick, concordo com a parte da potência, adoraria ouvir o Howard Jones no Sepultura, seria o match pra banda. Agora, em relação aos álbuns, acredito que desde o The Mediator... o Sepultura tem estado em sua segunda melhor fase, muitas vezes até comparável à fase áurea, de Roots e adjacências. Acho, inclusive, muito mais válido esses experimentos do que, p.e, a emulação de Thrash gringo do início de carreira. O sepultura encontrou sua identidade de Chaos AD em diante, apartando-se dos demais, e caminha novamente pra isso agora, expandindo cada vez mais suas fronteiras.
      Acho bacana sua opinião.bem esclarecida, de quem entende e conhece a banda. Eu acho foda é quando sacaneiam o Sepultura e escutam essa nova onda de Thrash, que é cópia deslavada da cena oitentista. Enfim,a beleza da coisa é essa, existir um espaço desses aqui pra gente conversar!
      Forte abraço, irmão!

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  2. Fora que melhorar progressivamente a cada lançamento também não quer dizer muita coisa se a sua barra for muito baixa (não estou dizendo que é o caso do Sepultura). Mas se posso dar minha opinião, acho que houve realmente uma queda acentuada após o ápice de Roots da qual a banda meio que veio se recuperando de forma crescente (e devagar) a cada disco. Se não atingiu o nível do ápice (e creio que nunca mais conseguirá isso), a formação dos últimos anos (e discos) me parece bem consistente em termos de qualidade (boa).

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