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12 de mar de 2019

Todo poder e glória de Biff Byford: entrevista com o vocalista do Saxon

terça-feira, março 12, 2019

Poucos são os ídolos do heavy metal que conseguem envelhecer bem. Os excessos da vida na estrada cobram seu preço. Mas essa conta parece não ter chegado ainda para Biff Byford, vocalista do Saxon. Aos 67 anos — mais de 40 deles dedicados à banda que ajudou a fundar —, o inglês mantém a disposição para fazer música e a voz irretocável. 

Ele mesmo afirma que o grupo é “100% ao vivo”, ou seja: mostra o que sabe no palco, postura que demanda energia. A longa cabeleira, que hoje oscila entre tons de louro e de grisalho, esconde algumas rugas, e revela que ainda há muita vida naquele que é um dos grandes frontman do rock até os dias de hoje.

Com uma discografia que inclui mais de 20 álbuns de estúdio, o Saxon faz sua estreia em Porto Alegre dia 13 de março, no Opinião (José do Patrocínio, 834).

Aproveitamos a oportunidade para conversar com o pioneiro da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). Na entrevista que segue, lord Biff aborda o novo trabalho Thunderbolt (2018), dá sua definição de heavy metal e lembra o finado parceiro Lemmy. 

Prepare a calça jeans e a jaqueta de couro, pois o Saxon está prestes a chegar por aqui com todo seu poder e glória.


O Saxon tem mais de 40 anos em atividade. Olhando para trás, quais apontaria como grandes conquistas da banda?

Biff Byford — Ainda estar por aí fazendo som e gravando bons discos. 

Vocês são um dos nomes que despontaram com a New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). Como era a cena à época? Que outras bandas eram parceiras do Saxon?

Era um período bastante excitante. A gente esteve muito tempo ao lado do Motörhead nessa fase, conhecemos muitas bandas. Entre elas, Judas Priest, Iron Maiden, Whitesnake, Nazareth e por aí vai.

Falando em NWOBHM: a banda sente-se confortável com esse rótulo? Afinal, há quem afirma que o Saxon é rock and roll, o que não se pode dizer que é errado.

Somos os dois ao mesmo tempo. Por exemplo: "Wheels of Steel" é mais rock and roll, enquanto "20,000 Ft" é definitivamente heavy metal.

O que era ser heavy metal há quatro décadas e o que define essa alcunha hoje em dia?

Para mim, heavy metal é a mentalidade, o jeito que a música é tocada e escrita para soar 100% de seu potencial.

O Saxon está celebrando o aniversário de 40 anos com shows grandiosos na Inglaterra, previstos para outubro. Quais diferenças dessas apresentações para as que serão executadas no Brasil?

O repertório vai ser o mesmo, mas a produção diferente. Você sabe, o Saxon é uma banda 100% ao vivo. Então, eu posso alterar as coisas se o público deseja um som específico.

Poderia elencar seus trabalhos preferidos do Saxon?

Thunderbolt, Wheels of Steel e Denim & Leather.


O álbum mais recente, Thunderbolt (2018), é tão bom quanto qualquer outra na discografia da banda. Como seguir lançando discos interessantes atualmente?

Sou totalmente dedicado e focado em escrever e produzir boas composições.

Você era bem próximo do Lemmy, um ícone não apenas para o metal, mas também para o rock. Como a passagem dele o afetou?

Fiquei triste ao saber da morte dele, pois era um grande cara e amigo próximo.

A faixa "They Played Rock n Roll", do Thunderbolt (2018), é uma homenagem ao líder do Motörhead. Foi uma necessidade fazer algo assim para homenagear o velho amigo?

Na verdade, é a história de nosso primeiro encontro e turnê juntos com o Motörhead, uma excelente banda e grande influência.

Digamos que você não é mais tão jovem. A morte do próprio Lemmy e de outros rockeiros o fez refletir sobre partir desse mundo?

É algo que está sempre lá. Quando é a hora, não há o que fazer.

O que você diria a bandas novas de heavy metal que pretendem viver da música?

Tente, mostre algo diferente. E nunca desista.

O que uma banda precisa fazer para impressionar o velho Biff?

Se entregar 100%.

Por Homero Pivotto Jr./Abstratti Produtora

31 de jul de 2018

Cordillera: o contemporâneo, acima de tudo

terça-feira, julho 31, 2018

Ruptura é o debut do Cordillera. A banda de Campinas apresenta oito faixas autorais embaladas num rock progressivo marcado pelo contraste entre o refinamento de ambientações atmosféricas e a intensidade do rock e do metal, presente na forte carga dramática das canções. O registro ainda tem momentos viscerais de peso e crueza, cuja estética passa pelo abstrato e pelo enigmático. Nesta entrevista exclusiva para a Collectors, Room, o vocalista Victor Oliveira e o baixista Pedro Ghoneim dão detalhes sobre o debut, falam da escolha do nome e do passado, presente e futuro da música progressiva. Confira e guarde bem esse nome: Cordillera. 

A banda acaba de lançar o primeiro álbum, Ruptura. Conte-nos sobre o conceito do disco, que apesar de ter um nome em português, vem com letras em inglês.

Pedro Ghoneim - O álbum Ruptura surgiu a partir da reunião entre os fundadores do Cordillera, Raphael Moretti e Victor Oliveira, e os novos membros Matheus Vazquez, Tarcísio Barsalini e eu. Percebemos dois pontos que guiaram nosso processo: 1) existem muitas bandas de prog que são parecidas 2) praticamente todas as nossas referências são da Europa ou Estados Unidos. E daí surgiu o ensejo de romper com essas duas constatações que chegamos. Nunca quisemos fazer uma música ‘nacionalista’, mas sim internacional, universal. Não queremos necessariamente ser reconhecidos como uma “banda tupiniquim”, mas como um grupo que não veio da Europa ou dos EUA. O nome Cordillera anuncia isso, de certa maneira. A América Latina é majoritariamente falante da língua espanhola. Ao mesmo tempo, as pessoas no Brasil vão entender quando lerem ou ouvirem esse nome, pela proximidade dos dois idiomas. O título do álbum segue a mesma lógica. Ruptura é uma palavra compreensível, não somente para falantes do português, mas também para as pessoas dos países hispânicos e mesmo anglófonos (pela semelhança com “rupture”, em inglês). E dentro das músicas escolhemos o inglês pra que essa comunicação ocorresse com o maior público possível. 

A Cordillera mostra-se preocupada com a identidade visual. Tanto a capa do disco de estreia como o vídeo de "Noumenon" são bem impactantes. Como a estética gráfica se relaciona com a música da banda?

Ghoneim - Bom, todos nós da banda estudamos e trabalhamos com música, somos artistas. Então, acho que antes de mais nada, isso vem do nosso gosto pelas outras artes, de valorizar nossos colegas que trabalham com audiovisual, artes plásticas, dança, teatro. Achamos que uma banda não faz só o seu som, mas também tem sua imagem. Então, desde o começo, pensamos muito em como construir nossa imagem, de maneira que traduzisse bem o que fazemos como músicos no Cordillera. Por isso, fazemos questão de trabalhar com profissionais de outras áreas, sejam fotógrafos, artistas plásticos, editores, dançarinos. Queremos que nosso material gráfico tenha tanto cuidado quanto o sonoro.

Sobre a sonoridade, é interessante notar influências progressivas de nomes contemporâneos, como Pain of Salvation e Porcupine Tree. Fale-nos mais sobre a costura musical proposta pela Cordillera.

Ghoneim - Quando entrei na banda, ela já existia há alguns anos, com outra proposta. Eu, Matheus e Tarcísio entramos praticamente juntos, e trouxemos outras referências pessoais de música, que acabaram se somando às do Victor e Moretti. Enquanto o Victor e o Moretti traziam coisas mais do rock 90, stoner, grunge, o Tarcísio falava do prog de 70, e eu e o Matheus mostrávamos bandas progressivas mais contemporâneas. Foi quando achamos nossas influências comuns, e também bandas que algum de nós não conhecia e passou a conhecer e gostar, e daí foi se formando um corpo de referências compartilhadas. Nessa lista estão as já mencionadas Pain of Salvation, Porcupine Tree, além do Opeth, Soundgarden, Alice in Chains, Steven Wilson. À parte disso, todos nós também trazemos as influências pessoais de maneira mais sutil. E isso sai do âmbito do rock e metal e chega ao jazz, música brasileira, música erudita, pop, etc.


Você acredita que estas bandas citadas da nova cena prog, do rock ou do metal, serão daqui há alguns anos também tidas como clássicas, como um King Crimson ou um Pink Floyd, guardadas as devidas proporções? 

Ghoneim - Acho difícil prever isso. A história da música proporciona muitas improbabilidades. As primeiras bandas de rock progressivo estavam em um momento histórico muito específico, em que o mundo vivia uma tensão causada por uma guerra invisível, e ao mesmo tempo acontecia uma grande efervescência de movimentos artísticos e culturais em várias partes do planeta. Existem bandas atuais de progressivo com mais visibilidade, como o Dream Theater, mas que, na minha visão, não impactam mais na cena prog como faziam antes. Por outro lado, bandas como o Pain of Salvation e Opeth, que surgiram não muito depois do DT, empurram muito mais a cena pra frente, para mim. Mas, tratando-se de música, não dá pra dissociar de mercado, que significa dinheiro. Será que as bandas que serão veneradas são as que hoje possuem mais poder de fogo? Não sei. De qualquer maneira, pode ser que no futuro alguém importante desenterre bandas que nenhum de nós conhece e diga “se liga, esses caras eram geniais”, e aí passam a ser clássicos póstumos – e está cheio de exemplos de como isso pode acontecer.

Voltando ao álbum Ruptura, percebe-se um trabalho minucioso de composição e gravação. Tem dramaticidade, momentos crus e outros complexos. Houve, mesmo, um norte para romper padrões na hora de fazer o disco?

Victor Oliveira – Houve, sim. Nossa busca de identidade musical teve como norte um som contemporâneo, acima de tudo. E quando digo isso, me refiro a uma mistura nova, porque no limite, todos temos influências fortes de gêneros antigos, mas que, na mistura, produzem algo novo. Temos muito a ideia também de incorporar os recursos e usos do estúdio e da tecnologia musical como recurso criativo. Então, sempre levamos em conta a possibilidade de uso de ruído, sintetizador, violões, guitarras. No limite, é um disco de rock, mas propondo uma abordagem nova, fugindo das fórmulas antigas. 

Gostaria que destacasse duas músicas do álbum e explicasse por quê podem ser cartões de vista da Cordillera. 

Victor - Bom, na minha opinião, citaria "Noumenon", um dos nossos singles, e “Dialogue". "Noumenon" é uma música bastante representativa daquilo que propomos, porque existe ali uma estrutura de canção de rock, com verso, ponte e um refrão forte e presente, além de um riff marcante e momentos de muita energia. Nela existe um trabalho de textura bem forte, com camadas de instrumentos, timbres diferentes, ruídos, fala, dinâmicas, e ainda assim é uma música bem econômica, fácil de ouvir. Uma síntese do que se pode encontrar no Cordillera. "Dialogue" tem algumas aventuras mais ousadas, muito embora também é possível ver o trabalho textural e de dinâmica, com destaque para as linhas de baixo no começo e fim da música, e uma estrutura também de canção, com verso e refrão e uma parte final com bastante energia também. Contudo, o trabalho de vozes e guitarras é mais minucioso, como se cada frase tivesse uma personalidade distinta, um diálogo mesmo. No limite, é uma balada etérea com momentos de euforia.

Como estão rolando os shows? Estão se apresentando ao lado de outros nomes muito interessantes do novo rock brasileiro, como HammerHead Blues e Odradek. 

Victor - A banda sempre tenta mostrar a que veio nos shows e o público tem respondido muito bem, mas a realidade da cena independente no Brasil é bem precária, com pouco público e poucos espaços. Contudo, existe, sim, um círculo forte de bandas e produtores trabalhando pra fazer acontecer com festivais que ganham mais público e propostas novas de dar visibilidade desse novo rock no Brasil, como o Locomotiva Festival e o Bananada, além de selos importantes que articulam essas bandas e compõem a rede de um país grande como o nosso, como a Abraxas, Sinewave, Bratislava. E é nesse sentido que nos sentimos, sim, felizes de estar ao lado de bandas que atingiram já um patamar de respeito nessa cena, propondo um som com identidade.


O que vem pela frente, ainda em 2018? 

Victor - Nessa realidade de música digitalizada e rapidez de acesso, precisamos sempre lançar materiais novos para continuar fidelizando o público que nos curte nas redes. Então, estamos preparando já para 2018 um lançamento de single inédito, além de live sessions, para que o público à distância possa nos conhecer ao vivo. E, claro, desde agora até o fim do ano estamos organizando shows em cidades do interior de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com destaque para o show com o Menores Atos, em Campinas, em agosto, no aquecimento do Locomotiva Festival.

Cordillera é 
​Victor Oliveira (vocal), Raphael Moretti (guitarra), Pedro Ghoneim (baixo), Tarcísio Barsalini (guitarra) e Matheus Vazquez (bateria).

Cordillera na internet

Ouça Ruptura nas plataformas de streaming
https://www.onerpm.com/al/1247854741 

19 de mar de 2018

Entrevista exclusiva: Glenn Hughes

segunda-feira, março 19, 2018

Glenn Hughes, músico inglês que incrustou seu nome em bandas importantes da história do rock, fará nova turnê pelo Brasil em 2018. Trata-se do espetáculo Glenn Hughes Performs Classic Deep Purple Live, show em que o o artista britânico revisita clássicos do período em que atuou no Deep Purple. Inclusive, está entre sua carta de intenções lançar um documentário sobre a futura turnê.

Hughes esteve no Purple entre 1973 e 1976, participando dos álbuns Burn (1974), Stormbringer (1974) e Come Taste the Band (1975). E agora, mais de 40 anos depois do último show que fez com o grupo (em 15 de março de 1976), o veterano de 66 anos volta a tocar um repertório baseado em suas composições e participações na banda que o tornou uma lenda. A apresentação em Porto Alegre ocorrerá em 28 de abril, sábado, às 20h, no Opinião (Rua José do Patrocínio, 834). Antes da capital gaúcha ele ainda se apresenta em Brasília (17/4), Belo Horizonte (19/4), São Paulo (21/4), Limeira (22/4), Curitiba (24/4) e Manaus (26/4). O último show no Brasil será no Rio (29/4).

Em entrevista exclusiva ao Memorabilia, Glenn fala sobre suas lembranças no Purple: "Aqueles dias foram fantásticos! Aprendi muito. Tudo o que eu queria era aprender: tocar, escrever canções, cantar... Nada mais importava”. Ele também reflete sobre o clima barra pesada que tomou conta do Purple durante as gravações de Come Taste the Band, álbum derradeiro da banda nos anos 1970: "Não tínhamos mais condições de conviver uns com os outros”. Fala ainda da relação com Ritchie Blackmore e Tommy Bolin, revela a fonte de sua influência na música negra, alerta sobre o perigo do abuso nas drogas e nos conta sua expectativa antes dos shows no Brasil.


Acredito que você foi um dos primeiros a misturar a energia da música negra com o hard rock, digo isso no que tange ao desempenho vocal mesmo. De onde surgiu a matriz para essa inspiração?

Essa forma de cantar veio das minhas primeiras influências da música soul - Tamla Motown e Stevie Wonder, principalmente. Então, a veia rock eu busquei no Cream, Beatles, Jimi Hendrix, para depois novamente beber na música negra, falo de roupagens funk que encontrei em artistas como Sly Stone. Eu sempre combinei rock com soul music. 

E como seus colegas de Purple receberam essa influência nas composições? 

A banda era receptiva, pois era formada por grandes músicos. No entanto, todos sabemos que Ritchie Blackmore não apreciou tanto assim o meu estilo. Bem, minha forma de cantar já estava presente no Trapeze (banda de onde Hughes saiu para adentrar as fileiras do Purple), então eles tinham plena consciência de que eu era um cantor que não utilizava apenas o rock como matriz.

Como guitarristas/compositores, quais as diferenças que você identifica entre a abordagem de Ritchie Blackmore e de Tommy Bolin? 

Ambos tinham personalidades e abordagens muito diferentes. Ritchie era o clássico herói da guitarra, um cara estranho fora do palco e todos sabemos disso. No entanto, Ritchie sempre foi muito gentil comigo e como colegas de banda tivemos um excelente relacionamento. Já Tommy era um trovador moderno, muitos estilos de tocar guitarra num único instrumentista, e além de tudo um ser humano amável e doce. 


Você é Tommy eram muito íntimos, não é?

Ele era como um irmão pra mim

E como foi o convívio com Blackmore? 

Foi bacana trabalhar com Ritchie. Fora do palco ele sempre foi muito amável, sem rusgas ou  coisas do gênero.

Reza a lenda de que ele sempre foi um músico complicado no que compete a seu relacionamento com colegas de banda. Ah, é verdade que ele determinava um espaço específico para você transitar no palco? 

A marcação existia sim, era uma linha imaginária no palco criada por ele, que me pediu para não ultrapassar essa tal marca. Eu passei uma vez, e ele enlouqueceu comigo! Bem, todos assistiram California Jam, dá pra perceber as explosões dele, isso sempre foi um risco iminente enquanto tocamos juntos! Na verdade eu queria contagiá-lo com essa vibração, e os fãs adoravam. Rock and roll é feito por personagens e atuações, e você sabe, era assim que a MARK 3 (como ficou conhecida entre os fãs essa terceira encarnação do DP) atuava.

Como se deu o processo de escolha dos temas e qual foi o critério para montar a banda que o acompanha no tour?

Eu tentei criar um repertório visual, consistente e emocionante, um verdadeiro espetáculo para fãs de rock. E eu acredito que temos esses ingredientes! Eu também precisava de músicos que pudessem interpretar o sentimento e o espírito do rock dos anos 1970 no Deep Purple. Será nossa primeira vez com o novo baterista (o músico sueco Pontus Engborg, sideman de outro ex-Purple/Rainbow, John Lynn Turner). Eu acho que os fãs vão adorar.

Você ainda conversa com algum músico dos seus tempos de Deep Purple? 

Não tenho contato com nenhum deles, exceto David Coverdale. 

E como você vê o Deep Purple hoje?   

Não ouvi um único registro do Deep Purple em 30 anos, então, pra ser sincero, não posso me pronunciar a respeito.


Você mesmo teve sérios problemas com drogas. Que recado você daria para o Glenn Hughes de 22 anos, prestes a ser integrado ao Deep Purple?

Vejo um jovem que encontra nas drogas e no álcool algo excitante e disponível.  O lado obscuro é que esse comportamento leva ao vício e consequentemente até mesmo a morte. Não são muitos que sobreviveram para contar esse experiência, mas eu sobrevivi! Hoje procuro alertar a todos para manter distância dessas tentações. Meu o 'eu' mais novo certamente não teria ouvido meu 'eu' mais experiente. Ele teria que descobrir da maneira mais difícil.

Você também anunciou que irá gravar os shows do atual tour para posterior lançamento de um documentário. Isso tudo também não pode virar um álbum ao vivo?

Eu espero que sim! Será algo especial captar esse material ao vivo.

Em perspectiva, como você vê o rock de hoje e para onde aponta o futuro do gênero?

Com todo o devido respeito, não vejo nada excepcional, nada ambicioso e transgressor como o que foi feito nos dias de glória do Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. Estou sempre na expectativa de me deparar com uma nova banda que acabe por me surpreender, mas até agora não há nada comparável com a música criada nos anos 1960/70. Hoje tudo é descartável, não há mais magia no rock. 

O público brasileiro sempre o recebeu bem por aqui. Qual sua expectativa para essas novas apresentações no Brasil e América do Sul?

Estou construindo um material sólido o bastante para sair em tour com o Classic DP Live. Chegou o momento de dar aos fãs o que sempre quiseram ver de Glenn Hughes no palco: um show de rock com material clássico. Estou ansioso para cair na estrada. Será emocionante e intenso. Não percam!

Colaboraram: Cristiano Radtke/Lúcio Brancato  

7 de mar de 2018

Entrevista exclusiva: Marcelo Nova

quarta-feira, março 07, 2018

Ele se autodefine como o "Nero do rock baiano", e isso revela bastante sobre sua personalidade. Marcelo Nova foi o primeiro punk made in Bahia e liderou uma das melhores bandas do rock nacional, Camisa de Vênus. "Não havia nenhuma cena de rock em Salvador, a cidade era completamente parada. Achei que era a hora de alguém fazer algo em relação a isso. Como ninguém se apresentou como candidato, resolvi montar uma banda e chamei meu amigo Robério Santana”.

O pioneiro de um estilo, um compositor sarcástico, um cara apaixonado por Little Richards. Qualidades essas que despertaram a atenção de Raul Seixas e juntos gravaram A Panela do Diabo (1989), último disco do icônico roqueiro, também baiano. "O início da minha turnê com o Raul surgiu de um convite para irmos à Bahia fazer um show de lançamento para o meu primeiro disco solo. Ele aceitou e deu uma canja. Após o término do show, combinamos mais dois ou três shows... e acabaram virando cinquenta", relembrou Marcelo

Se a discografia do Camisa de Vênus é excelente, o mesmo é possível dizer sobre sua carreira solo, cheia de grandes discos sempre com músicos do mais alto quilate. Blackout (1991), tido por muitos como o primeiro disco brasileiro totalmente acústico, conta com o bluesman André Christovam. Já A Sessão Sem Fim (1994) trazia a guitarra do experiente Luis Carlini, parceiro de Rita Lee no Tutti Frutti. "Depois do Blackout, que era um disco inteiramente acústico, quis fazer justamente o oposto, um álbum com guitarras elétricas, consistente e pesado. Estava com uma banda que era ideal para esse projeto: Franklin Paolillo na bateria, Carlos Alberto Calasans no contrabaixo e Luis Carlini na guitarra", contou.

Marcelo Nova é old school não apenas por ser um aficionado colecionador de discos ou por dissecar a obra de Jerry Lee Lewis. Fala o que pensa e, diferentemente do que é visto atualmente, pensa de forma independente e inteligente. É um chute no saco desses artistas artificialmente enlatados, um sopro de resistência. O coroa - ele completará 67 anos no dia 16 de agosto - é rock and roll até o último grama da alma e isso é muito bom! Saudemos aliviados, o rock vive! 


Marcelo, é um grande prazer falar com você. Me identifico demais contigo desde o dia que te vi falando algo como “não tenho saco para nada novo, eu quero escutar folk rock!”. Porra, te entendo demais! Nunca falaremos mal de um Jimi Hendrix ou Led Zeppelin, mas não há nada como passar um dia inteiro escutando a discografia do The Band ou da fase clássica do Neil Young, como Zuma e Harvest! Isso sem falar no Byrds! Folk rock é a parada, né?

Sim, o folk rock é essencial. Bandas clássicas como Byrds e The Band, de certa maneira, forjaram essa trajetória que vem até os dias de hoje.

Você certa vez falou que é o “Nero do rock baiano”. Isso aí dá pano para manga! Imagino a Bahia ao final dos anos 1970, sem internet, com mercado fonográfico bem limitado por estar fora do eixo Rio/São Paulo. Aquela coisa do carnaval, tudo colorido,  e você de preto escutando Elvis e Little Richard. Como foi se descobrir roqueiro naquele clima?

Eu descobri Little Richard por acaso, e a partir dali foi uma espécie de tsunami que passou pela minha vida. Comecei a colecionar discos e não parei mais, até hoje.

Quem você considera o pai do rock: Elvis, Little Richard ou Jerry Lee Lewis? Por falar em Elvis, você concorda com aquela visão de que ele “roubou o rock a partir do blues dos negros”?

O rei do rock sou eu, Chuck Berry, Raulzito, Jerry Lee Lewis, Little Richard. Não existe essa de “roubou”. Cada um vai chegando e pegando emprestado do outro, depois ninguém sabe mais de onde partiu tudo isso.

Voltando ao “Nero baiano”: quando e como você começou a incendiar Salvador com o rock?

Não havia nenhuma cena de rock em Salvador, a cidade era completamente parada. Achei que era a hora de alguém fazer algo em relação a isso. Como ninguém se apresentou como candidato, resolvi montar uma banda e chamei meu amigo Robério Santana. Foi assim, começamos a montar essa banda que veio a se chamar Camisa de Vênus e o resto é história.


Antes de formar o Camisa de Vênus você viu a cena punk e hardcore bem de perto nos EUA. Claro que isso te influenciou, assim como ao Camisa de Vênus, mas gostaria de saber como foi ver aquela cena? Foi um susto ou meio que um “puta que pariu, existem outros babacas como eu...”? Chegou a ver o show de alguma banda de maior nome?

Quando cheguei em Nova York em 1980 aquela cena toda era uma novidade para mim. Conhecia os discos, mas nunca tinha visto a cena, de fato, em ação. Percebi rapidamente que toda aquela ideia preconcebida de que era necessário músicos virtuosos na banda, com larga experiência, não era verdade. Partindo disso aí, fui em frente!

Gosto muito de punk e hardcore. Diversas bandas faziam críticas diretas ao sistema ou ao que fosse, mas eu sempre preferi as bandas mais irônicas. Por isso sempre gostei da sua atitude: sarcasmo ácido com um humor cretino!

É, o Camisa de Vênus sempre teve uma dose bem grande de sarcasmo e ironia nas letras, mas nem sempre. Essa é apenas uma das características do Camisa …

Como foi o seu primeiro contato com o Robério Santana? Bicho, aqueles primeiros discos são demais...

Ele trabalhava na TV Aratu e eu na Rádio Aratu. Nós éramos amigos e ele foi a primeira pessoa a quem expus a ideia do que viria a ser o Camisa de Vênus. Estou falando de 1980, começamos a conversar e a colocar rapidamente essa ideia em prática.


Você gravou com um dos maiores guitarristas brasileiros, André Christovam. Já o entrevistei duas vezes, sempre uma aula de música, afinal foi o primeiro bluesman brasileiro. Ele participou do disco Blackout, certo? Como foi? 

Gravar com o André foi um prazer muito grande. Nós já éramos amigos, ele trouxe uma série de violões, dobros e bandolins para o estúdio. Foi muito divertido fazer o Blackout com a participação dele. O que pouca gente sabe é que esse disco tem uma canção que é parceria minha e dele, chama-se "O Que Você Quer?”.

Logo depois você faz um disco todo elétrico com Luis Carlini, outro grandíssimo guitarrista. A Sessão Sem Fim trazia uma onda diferente. Poderia falar sobre o álbum e sobre o Carlini?

Depois do Blackout, que era um disco inteiramente acústico, quis fazer justamente o oposto, um disco com guitarras elétricas, consistente e pesado. Estava com uma banda que era ideal para esse projeto: Franklin Paolillo na bateria, Carlos Alberto Calasans no contrabaixo e Luis Carlini na guitarra. Já admirava o Carlini desde a época que ele tocava com o Tutti Frutti, foi o guitarrista certo para o disco certo.


O Eric Burdon gravou algumas músicas suas. Como a sua música chegou até ele? Chegou a conhecê-lo pessoalmente ou viu algum show dele? Sempre o considerei o vocalista mais versátil do rock, podendo cantar rock, blues, soul, funk, etc. 

Sim, o Eric Burdon gravou duas músicas minhas e fizemos uma em parceria. Já o conhecia antes da gravação do disco dele, já havíamos trabalhado juntos. Ele participou do disco do Camisa de Vênus, Quem é Você? (1996), isso lá pelo meio dos anos 1990. Depois viramos amigos, nos gostamos e nos respeitamos até hoje.

Bicho, essa pergunta eu PRECISO FAZER: A Sílvia existiu de verdade ou ela foi uma mera criação artística?

A pessoa, a figura Sílvia, nunca existiu. A letra estava lá e precisava de um nome, acabou que foi Sílvia, mas poderia ser qualquer outro.


O seu disco O Galope do Tempo (2005) é MUITO BOM! Poderia falar sobre ele?

O Galope do Tempo é um disco diferenciado na minha carreira porque ele traz dezesseis canções, todas elas sobre o mesmo tema: a minha passagem através do tempo. É um disco autobiográfico de cunho existencial, acabou se tornando um marco na minha carreira.

Um dos motivos para você virar roqueiro foi ter visto Raulzito e os Panteras. Anos depois vocês gravaram A Panela do Diabo. Ele já estava bem baleado de saúde. Como nasceu o projeto? Poderia falar sobre o convívio curto com o Raul?

O início da minha turnê com o Raul surgiu de um convite para irmos à Bahia fazer um show de lançamento para o meu primeiro disco solo. Ele aceitou e deu uma canja. Após o término do show, combinamos mais dois ou três shows... e acabaram virando cinquenta!


Seus últimos registros foram 12 Fêmeas (2013, solo) e Dançando na Lua (2016, com o Camisa de Vênus). Planeja algum novo registro no estúdio? 

Compor é o meu ofício, então nunca fico sem escrever, sem pegar no violão. Estou sempre tentando escrever novas canções, é um trabalho e eu adoro trabalhar.  

Marcelo, muito obrigado pelo papo. Tu é um cara que eu considero demais! No seu próximo show aqui no Rio de Janeiro espero que possamos tomar um álcool e escutar um disco do Bruce Springsteen, We Shall Overcome: The Seeger Sessions, ou do Black Crowes, Before the Frost … Until the Freeze, todos folk rock/americana! Manda teu recado para os leitores do Coluna Blues Rock!

Ok! É isso aí, um abraço a todos da Coluna Blues Rock!



23 de mai de 2017

Entrevista exclusiva com Heleno Vale, baterista e idealizador do Soulspell

terça-feira, maio 23, 2017

O Soulspell lançará no próximo dia 25/05 o seu quarto disco, The Second Big Bang. Para saber mais sobre o álbum, sentamos e batemos um longo papo com Heleno Vale, baterista da banda, idealizador e líder do projeto. 

Heleno, pra começar eu gostaria que você comentasse um pouco sobre a história que é contada pelas músicas do novo disco, The Second Big Bang?

Obrigado pela oportunidade. A saga do Soulspell é contada desde o primeiro ato e será a mesma história até seu desfecho, muito provavelmente no sétimo ato. Esse é um diferencial importante do projeto que acredito torná-lo mais especial e interessante. No quarto álbum a história voltou a ser narrada no encarte, portanto para obter todos os detalhes desse ato, comprem o disco (risos). Resumidamente, esse ato conta o momento em que um cientista brilhante de uma grande agência aero espacial descobre, ilegalmente, que o universo está próximo de seu fim. Mesmo sem saber disso ainda, a mente de Timo, aprisionada no Labirinto das Verdades, é a única esperança de retrocesso do segundo Big Bang.

O disco foi todo gravado aqui no Brasil?

Nem todo. Algumas participações internacionais gravaram em seus próprios estúdios.

Como sempre, temos a participação de diversos vocalistas dos mais diferentes países. Como se deram as gravações das partes destes músicos? Elas foram registradas lá fora e enviadas posteriormente?

Muitos vocalistas gravaram aqui conosco, mas alguns fizeram questão de gravar em seus estúdios e nos mandar o material pronto. 

Na sua opinião, qual foi a contribuição de cada uma destas vozes neste novo disco do SoulSpell?

Na verdade a contribuição musical maior provém dos artistas que estão envolvidos na pré-produção, que acontece antes de qualquer gravação. São eles: Daísa Munhoz, Cleiton Carvalho, Tito Falaschi, Leandro Erba, Jefferson Albert, etc. Os demais artistas, na maioria das vezes, apenas interpretam as linhas guia que foram criadas aqui por mim e lapidadas pela Daísa e pelo Tito.


Ouvi The Second Big Bang e achei o disco muito bom, no mesmo nível do segundo álbum, Labyrinth of Truths (2010). Quais elementos dos três discos anteriores você enxerga no novo trabalho?

Que bom, muito obrigado. O Labyrinth of Truths é um grande álbum do metal brasileiro e acredito que este novo disco tem tudo para o suceder adequadamente quanto à preferência dos fãs. Enxergo nesse novo álbum uma aura única. Todo disco do Soulspell é diferente dos demais e enxergo isso como um ponto positivo. Geralmente, as bandas e principalmente os projetos soam um pouco enjoativos, mas acredito que o Soulspell não sofra desse mal. Assim, esse novo álbum não pode ser comparado aos demais. Ele é verdadeiramente único. Ele é mais maduro e mais ousado ao mesmo tempo. Gostamos de experimentar coisas novas e vamos continuar fazendo isso ao longo da saga. Mas, se eu tivesse que apontar algumas semelhanças desse disco com seus anteriores, eu diria que há algumas faixas que remetem à velocidade e ingenuidade do primeiro ato, como, por exemplo, a faixa-título e o single "Dungeons and Dragons", além das novas e lindas versões de "Soulspell" e "Alexandria". Outras faixas abordam, de certa forma, todo o mistério de Labyrinth of Truths, como "Game of Hours" e "Super Black Hole". Por fim, outras possuem leves pitadas de prog, remetendo assim ao terceiro ato, como "Horus’s Eye" e algumas são totalmente únicas da aura desse ato, como "The End You’ll Only Know At the End" e "Sound of Rain" (algumas de minhas faixas favoritas, dentre todos os álbuns). 

O disco será lançado apenas no mercado brasileiro ou já há um acordo para lançá-lo também em outros países? 

O disco será lançado mundialmente no dia 25 de maio, dessa vez pela Valetes Records. E o CD físico nacional será novamente lançado pela Hellion, no começo de junho.

Vamos ter uma turnê de lançamento de The Second Big Bang por diversas cidades brasileiras? E há planos de tocar no exterior para promover o álbum?

Sim. Está nos planos fazer shows nas principais cidades do país a serem divulgadas em breve e faremos de tudo para viabilizar uma turnê internacional.

The Second Big Bang é o quarto álbum do SoulSpell e, assim como os três anteriores, é um disco conceitual. Por que sempre esse formato?  Ele é o mais adequado às histórias que cada um dos álbuns do SoulSpell conta?

Todos os álbuns do Soulspell são parte de uma mesma história. Funciona como um seriado de TV, como Game of Thrones. Ainda não sabemos quantos atos levaremos para contar toda a saga, mas o certo é que todos os atos farão parte desta mesma história. 


O último disco do Soulspell, Hollow’s Gathering, saiu em 2012. Passaram-se cinco anos até o novo trabalho. O que você andou fazendo durante todo esse período?

Muita coisa. Não paramos de trabalhar um dia sequer. Nesse período fizemos o álbum mais complexo que jamais fizemos, o The Second Big Bang, que envolveu inúmeras participações nacionais e internacionais, estúdios diferentes, diversos novos contatos, etc. Além disso, nos dedicamos um pouco a gravar merecidos tributos e pretendemos, em breve, lançar um álbum só de tributos. Gravamos um tributo ao Helloween que contou com mais de quinze artistas e hoje já está com mais de 1 milhão de views no YouTube. Que eu saiba, nenhum vídeo do próprio Helloween para a música "We Got the Right" possui mais views que este nosso. Gravamos um tributo à Celine Dion, com um final super inusitado e surpreendente, cantado por Pedro Campos e Daísa Munhoz. Gravamos um tributo ao Edu Falaschi, onde interpretamos a música "Spread Your Fire" com Tim Ripper Owens, Ralf Scheepers e Daísa Munhoz cantando. E, por fim, gravamos um tributo ao Ayreon com 1h30 de duração em áudio e vídeo. Esse último tomou dois anos do nosso tempo e todos esses vídeos somados demandaram muito, mas muito tempo e dedicação da nossa equipe. 

Outro ponto é o conceito da Metal Opera, explorado pelo SoulSpell desde o início. Como surgiu a ideia de montar algo nessa linha, e quais foram as dificuldades para concretizá-la?

A ideia surgiu porque gostamos muito do estilo e havia uma lacuna, pois nenhuma banda estava fazendo shows desse tipo na época em que começamos. Hoje em dia há algumas poucas bandas que fazem shows de Metal Opera, mas, mesmo assim, não é algo teatral, como o Soulspell tenta fazer sempre que pode. A exceção é o Ayreon que acabou de lançar um DVD teatral, mas a pegada é totalmente outra, é prog e não power metal. Quanto às dificuldades para montar algo desse tipo, elas são inúmeras e muito maiores que as dificuldades que uma banda normalmente tem para se firmar. Lidar com um número gigantesco de contatos e músicos não é nada fácil. São muitas cabeças pensando e nem sempre elas pensam numa mesma direção. Foi difícil encontrar uma formação ideal para a banda, mas, agora, dez anos depois, acredito que encontramos. Estamos com uma formação excelente já faz algum tempo e pretendo continuar com esses músicos até o fim. Inclusive, eles devem ser os responsáveis diretos por uma nova fase do projeto, onde tentaremos gravar o quinto e os próximos álbuns de uma forma diferente. Vamos nos reunir e lapidar as ideias juntos antes das gravações. Acho que os próximos álbuns soarão um pouco mais diretos que os anteriores. 

Qual o tamanho da influência, tanto musical quanto conceitualmente, do Avantasia de Tobias Sammet no SoulSpell?

O projeto Avantasia é um projeto maravilhoso, liderado por uma mente brilhante e foi o pioneiro quanto ao uso da nomenclatura “Metal Opera”. Ninguém pode tirar isso deles. O Soulspell foi a segunda banda, acredito eu, a adotar o termo e, claro, esse termo foi proveniente do Avantasia, uma de nossas influências. Já no quesito “Opera”, nem Avantasia, nem Soulspell são pioneiros, já houve diversos álbuns de bandas de rock que se arriscaram nessa vertente, como Savatage e Queen, por exemplo. Eu realmente gosto muito dos dois primeiros discos do Avantasia, mas, musicalmente falando, há diversas outras bandas que influenciam bem mais nosso trabalho, como Sonata Arctica, Iron Maiden, Blind Guardian, etc

Um trabalho dessa magnitude, com o envolvimento de diversos músicos e com uma história contada em partes em cada uma das músicas, só funciona com a liderança central de um dos músicos, como é o seu caso?

Eu centralizo alguns aspectos do projeto em mim, para que haja um ponto de equilíbrio e para que as coisas não saiam do eixo. No entanto, musicalmente, deixo os músicos livres para criar.


Eu acho o trabalho da banda legal pra caramba e bastante diferenciado, além de muito complexo. Deve ser extenuante liderar um projeto assim, ainda mais quando não há, pelo menos ao meu ver, um reconhecimento comercial e financeiro equivalente aqui em nosso país. Isso chega a desmotivar todo o processo?

É bem difícil, mas não desmotiva a esse ponto. Nunca deixarei que as composições em si sejam afetadas pela falta de retorno financeiro. Ainda acreditamos que o projeto possa dar retorno financeiro a médio prazo. Por enquanto, para lidar com isso, optamos por não viver da música e fazermos somente o som que amamos. 

Levar tudo isso para o palco nem sempre é fácil, devido a presença de um grande número de músicos. Há planos de realizar um show ao vivo com a presença de todos os nomes que já participaram dos discos do SoulSpell, em uma grande celebração aos dez anos do primeiro disco, A Legacy of Honor (lançado em 2008) e ao trabalho da banda?

Os custos são bastante altos, mas, sim, está em nossos planos uma turnê comemorativa do A Legacy of Honor e um show com todos, ou com a maioria das participações. Nesse aspecto, precisamos de um suporte financeiro externo, alguém que queira investir no projeto ou a aprovação de algum projeto de incentivo. Eu acredito muito no Soulspell e acho que ele poderia ser sustentável e até produzir frutos financeiros tão bons quanto as maravilhosas mensagens de carinho que colhemos de nossos fãs a cada lançamento. 

Como o Soulspell tem sido aceito no Brasil e no exterior?

Eu sei que não deveria, mas não penso muito nesse lado. Como não vivo da música, me dou o direito de criar apenas o que curto e não algo que possa ser mais bem aceito no mercado atual. Claro que torço para que um dia nosso som seja tão bem aceito quanto os sons mais modernos, mas não vou mudar nosso estilo para isso. O mundo da música é uma espiral e um dia os estilos que estão em alta, estarão em baixa. Sendo assim, tudo leva a crer que haja alguma possibilidade de que o estilo feito por sua banda possa um dia estar em alta. Espero estar vivo para ver isso. Sendo um pouco mais direto na resposta, posso dizer que os álbuns e vídeos estão recebendo excelentes críticas e resenhas. Sentimos que estamos aprendendo a cada dia, a cada nova música. Estamos felizes e orgulhosos com o que fazemos. Os fãs estão se acumulando no YouTube e no Facebook, já são mais de 30 mil no Facebook e mais de 10 mil no YouTube. Então, acredito que, se analisarmos toda a trajetória, a tendência é positiva e acelerada. Estamos muito animados e confiantes para lançar novos trabalhos. As ideias estão fluindo e nossa química como banda está cada vez melhor.

Imagino que você leia bastante, já que as histórias contadas nos discos do Soulspell são bem interessantes. De onde vem a inspiração para elas?

A inspiração vem de tudo que faço no ramo da ciência e de todas as relações pessoais, conversas, discussões, etc. Também de tudo que leio e assisto, mas, principalmente, dos meus próprios pensamentos sobre a vida e a existência. Eu não faço nada forçado. Tento escrever o que eu gostaria de ler, o que acho interessante e diferente, ou engraçado. Não quero mudar a crença de ninguém, trata-se apenas de uma boa história para virar teatro, livros, filmes e, principalmente, música.


Quais são as suas principais influências não apenas na música, mas também na maneira de tocar bateria?

Minhas influências musicais são estranhamente variadas: Iron Maiden, Blind Guardian, Sonata Arctica, Slayer, Ayreon, Sepultura, Tears For Fears, Michael Jackson, Celine Dion, Metallica, Maná, Judas Priest, Alanis Morissette, Queen e por aí vai. Como baterista gosto muito do Alex González do Maná, Neil Peart, John Bonham, David Grohl, Ian Paice, Dave Lombardo, Nicko McBrain, Chad Smith, etc.

Heleno, você já está na estrada com o Soulspell há quase 10 anos, e antes já tinha uma carreira como músico. Pergunta simples e direta: atualmente, dá pra sobreviver de música aqui no Brasil tocando heavy metal?

Essa é fácil: não.

Cara, obrigado pela entrevista, e sucesso nesse novo capítulo da saga do SoulSpell.

Eu que agradeço a oportunidade. Muito obrigado!

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