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10 de jan de 2017

Dropkick Murphys: entrevista exclusiva com o baterista Matt Kelly

terça-feira, janeiro 10, 2017

Em sua primeira visita ao Brasil, em 2014, vocês tocaram em suas datas sold out em São Paulo. Esperavam ser tão bem recebidos aqui por aqui?

Não, realmente a recepção do público foi uma surpresa, e das mais agradáveis. Ficamos muito satisfeitos com o amor demonstrado por nossos fãs brasileiros.

Vocês chegaram a preparar algo especial para esses novos shows aqui no Brasil?

Fizemos uma boa mistura com músicas dos últimos vinte anos, para que as pessoas possam curtir e provar de tudo.

Vocês certamente já responderam essa, mas lá vai: de onde surgiu a ideia de unir o punk com a música celta, que resultou em algo tão original e cativante como o Celtic Punk?

Foi quase por acidente. Quando um amigo ouviu a nossa primeira canção, "Barroom Hero", disse que soava como se os Pogues estivessem socando os Ramones. Eu acho que foi um som não intencional, mas fazia sentido ao olharmos para as nossas origens. Então penso que fomos expandindo lentamente o nosso Oi! e punk para incluir influências celtas. Isso já havia sido feito antes pelos Pogues e depois pelo Pist´n´Broke, mas acho que conseguimos encontrar o nosso próprio som usando a mesma forma.

O Dropkick Murphys sempre teve um posição política clara. Agora, com a eleição de Donald Trump, vocês pretendem intensificar o discurso contra os Republicanos, ainda mais devido ao caso envolvendo o uso sem autorização de uma canção da banda, "I´m Shipping Up to Boston", por Scott Walker, governador do Wiscosin?

Não. Não vejo Trump utilizando nenhuma de nossas músicas para promover suas ideias. Eu não sou anti-Republicano, assim como não sou anti-Democrata. Acho que nosso país está dividido o suficiente para que as pessoas tratem seus partidos políticos como times de futebol e quem pensa diferente como um inimigo, ao invés de apenas dois pontos de vista diferentes para o mesmo assunto. Se Trump ajudar a promover mais empregos ao nosso país e reconstruir a indústria, então isso será algo positivo. Agora é esperar pra ver no que vai dar.

O que você conhece de música brasileira, especialmente sobre as cenas rock e punk brasileiras?

Eu sei que o punk, o Oi! e o hardcore, assim como o thrash metal, são muito populares no Brasil desde os anos 1980, embora me entristece admitir que não conheço muitas bandas além de Virus 27, Histeria, o clássico Ulster, e um par de nomes mais novos como Blind Pigs e Belfast.


Depois de quatro anos sem nada inédito, vocês estão lançando nesse início de 2017 o seu novo álbum, 11 Short Stories of Pain & Glory. O que os fãs podem esperar desse novo disco?

É um disco duro e áspero, com letras sobre assuntos que nos interessam. Estamos muito orgulhosos do trabalho e esperamos que nossos fãs mantenham esse sentimento em seus corações tanto quanto nós.

As vendas de CDs, LPs e de outros formatos físicos caíram muito com a popularização dos downloads e dos serviços de streaming. Tendo essa realidade em mente, ainda vale a pena gravar novos discos?

Sim. Nós sempre gravaremos discos, e teremos o cuidado de colocar as músicas em uma boa ordem, para que, quando o álbum for ouvido, ele flua bem. Tempos, sons e emoções são sempre levados em conta na hora de colocar um novo álbum em ordem.

Em qual país em que vocês ainda não tocaram e gostariam de realizar um show?

Eu adoraria tocar no Egito, Índia, Coreia, China, Indonésia e na África do Sul. Acho que seria muito interessante ter contato com essas culturas, conhecer a arquitetura, as pessoas e os nossos fãs (caso existam) nesses lugares.

Que banda você curte e os fãs não fazem nem ideia?

Steely Dan! É o que chamam de guilty pleasure para mim.

Pra fechar: que música você indicaria para uma pessoa que nunca ouviu nada do Dropkick Murphys?

Eu provavelmente teria que recomendar "Worker´s Song" e "The Warrior´s Code". Ambas possuem muitos dos diferentes elementos do nosso som, incorporando a instrumentação diferente que usamos e que torna a nossa música exclusiva. Muito obrigado pela entrevista, e saudações aos nossos fãs brasileiros.

22 de nov de 2016

Entrevista exclusiva: João Gordo

terça-feira, novembro 22, 2016

Viva La Vida Tosca, autobiografia de João Gordo escrita em conjunto com o jornalista André Barcinski, está chegando às livrarias pela editora Darkside Books. O lançamento oficial acontece dia 23/11, em um evento no Teatro Eva Herz, no Conjunto Nacional, em São Paulo, a partir das 18h.

Batemos um papo com João Francisco Benedan, o icônico e lendário João Gordo do Ratos de Porão, da MTV e do Panelaço, onde conversamos sobre o livro e alguns assuntos de sua vida. Um papo sincero, autêntico e divertido, como tudo que cerca o universo do João.

Divirtam-se!


Por que lançar uma autobiografia?

Porque tenho muita história para contar e quem melhor do que eu mesmo? Melhor lançar a autobiografia vivo do que morto.

O livro contém várias passagens marcantes e não esconde o seu passado com drogas e afins. Hoje, você é pai de dois pré-adolescentes. Como eles enxergam todo esse lado da sua vida, da dependência química, do vício e de tudo que quase levou você à morte?

Eles ainda não tem uma noção profunda. Os dois são crianças de 12 (Victoria) e 11 (Pietro) anos, que estão entrando na adolescência. Com as minhas histórias expostas no livro, eles vão acabar vindo cheios de questionamentos. Mas isto não é problema aqui em casa. Meus filhos são seres iluminados criados na base de muita conversa e amor.
  
Teve alguma história que, depois que o livro ficou pronto, você lembrou e gostaria que tivesse entrava em Viva La Vida Tosca?

Várias, dá para fazer uma segunda parte brincando e tem outras que eu guardo (risos).

Como é ser um punk com 50 anos de idade?

Eu sou um senhor de 52 anos, pai de família, que paga impostos e tem que ralar para poder pagar as contas. Foi punk com 18, 19, 20 anos. Depois que misturou tudo, o punk ficou restrito para mim. Eu abracei o metal, o rap e outras tendências que me agradavam. Mas eu sempre disse: "Sou nada por fora, punk por dentro, toco rápido porque é gostoso".


Toda a sua passagem pela TV, pela rádio e agora também pelo YouTube, o transformou em uma espécie de ícone pop Brasil afora. Como é a sua relação com esse público que o conhece desse trabalho na MTV, Record e afins, e não do seu passado com Ratos de Porão?

Hoje em dia, em virtude de meu programa na internet, o assédio do público é muito carinhoso, mas há muitos idiotas que querem tirar foto comigo e nem sabem meu nome, só "pá pô no feicebuque".

Se alguém decidisse levar a sua vida para o cinema, quem você gostaria que dirigisse o filme e quem você acha que faria um João Gordo convincente na telona?

Para diretor, queria o Scorsese. E como João Gordo, o Jack Black. Viajei grande! (risos).

O trabalho no Panelaço é divertido pra caramba. Algo que, pra quem conhece apenas o seu trabalho no Ratos, repleto de agressividade e crítica social, choca em um primeiro momento. De onde veio esse seu senso de humor, Gordo? Você sempre foi assim?

Eu sou uma espécie de comediante. Tenho um senso de humor ácido, crítico e amo um nonsense. Assunto é o que não falta na nossa república de bananas. 

Você e o Max, do Sepultura, foram grandes amigos por muito tempo, mas depois se afastaram. O que você cozinharia para ele no Panelaço? E se pudesse fazer apenas uma pergunta para o cara, qual seria?

Impossível tal empreitada, aquele Max que conhecia morreu em 96.

Quem você gostaria de levar no Panelaço e ainda não levou?


Lampião.

17 de nov de 2016

Cesar Bravo: o som e a fúria do novo terror nacional

quinta-feira, novembro 17, 2016

O terror e o metal têm muito em comum. A começar pela devoção de seus fãs. Você não deixa de ouvir Black Sabbath ou de ler Clive Barker porque a moda passou. Amar rock pesado ou literatura e cinema casca grossa é como fazer um pacto para toda a vida – quem sabe até para depois?

Mas mesmo com tanta gente talentosa produzindo e com multidões fanáticas de admiradores, muitos costumam olhar com desdém para essa arte que se veste de preto. Foi preciso o Sepultura estourar lá fora para a mídia reconhecer: Yes, nós temos metal!

Com o terror nacional a história não é muito diferente. O mestre Zé do Caixão ganhou o merecido título de gênio depois que virou Coffin Joe na gringa. Novos diretores surgiram desde então, como Rodrigo Aragão (Mar Negro), Davi de Oliveira Pinheiro (Porto dos Mortos), Dennison Ramalho (ABC da Morte 2) e Peter Baiestorf (Zombio).Vale a pena conferir o talento brazuca.

A boa notícia vem agora: a literatura de terror nacional – que remonta ao século XIX com Álvares de Azevedo – acaba de revelar seu novo Sepultura. Seu nome é Cesar Bravo. Mas não pense que ele é um novato. Na verdade, Cesar Bravo é um grande nome underground, que já arrebanhou muitos seguidores com seus ebooks repletos de sangue e estilo. É como se, agora, ele conseguisse levar seu talento para uma gravadora major. Na verdade, uma editora, a DarkSide Books, primeira do país inteiramente dedicada ao terror e à fantasia. A mesma editora que lançou as biografias de Zé do Caixão – Maldito e João Gordo – Viva La Vida Tosca.

Nós conversamos com Cesar Bravo, autor do recém lançado Ultra Carnem sobre terror, é claro, e sobre sua paixão por rock e heavy metal. Não é todo dia que você descobre um autor que escreve ouvindo Motörhead no talo.


Sua incursão na literatura de horror aconteceu bem cedo. E seu primeiro contato com a música, como foi?

Lembro que a primeira banda que me pegou de jeito foi Guns N' Roses. Eu era muito jovem, arredio, e de repente senti que havia mais gente se sentindo como eu me sentia. As letras, a agressividade, estava tudo ali, diluído nos vocais rasgados de Axl Rose e nos solos melancólicos de Slash. Praticamente ao mesmo tempo descobri Kill 'Em All, do Metallica. Aquilo me pegou como um soco, quero dizer, tudo o que havia no disco era frustração e raiva, sentimentos que eu conhecia de perto. A terceira banda foi Black Sabbath, que apareceu domando meus gostos musicais de uma maneira irreversível. Sabbath foi o casamento perfeito entre música e horror, minhas duas paixões. Nas fases mais conturbadas, me descobri um súdito fiel dos Ramones. Nos anos noventa presenciei o aparecimento das bandas de Seattle; Nirvana, Alice in Chains, Pearl Jam, foi um momento único para alguém que gostava de andar com a mesma roupa seis dias por semana (risos). Desde então tento acompanhar os furacões musicais que despontam aqui e ali.

Sabemos que você já ocupou cargos na indústria da música. Pode falar mais um pouco sobre essa experiência e se ela te impactou de alguma forma?

Bem, eu tinha dezessete anos e pensava que poderia ser um rock star movido à adrenalina (essa é a verdade, por mais bizarra e cômica que possa parecer). Com essa vontade irrefreável, montei e desmanchei algumas bandas, conheci gente de verdade, aprendi a “consertar vitrolas para ouvir música”. Passei muito tempo compondo, algo que faço até hoje, mas mantenho no fundo das gavetas. Eu não sei, talvez essa canções ainda apareçam no momento oportuno, mas nada que me mova hoje em dia. Também atuei como roadie em algumas bandas pequenas, a troco de cerveja e entradas grátis em shows menores ainda. A maior parte dessas bandas sequer existe hoje em dia, mas foi uma época divertida.

Viver da música — ou pelo menos tentar — me mostrou que nem tudo é o que parece ser, que você precisa ser incrível para ganhar algum destaque, e me mostrou principalmente que a rebeldia é algo belo, é a essência vital de qualquer artista.

Quais são suas bandas favoritas?

Black Sabbath, Ramones, AC/DC, Metallica, Slayer, Motörhead. Também me amarro em Twisted Sister e no material mais antigo do Guns N' Roses.

Que músicas não poderiam faltar na playlist de Ultra Carnem?

- Paint It, Black – Rolling Stones
- I Put a Spell on You – Screamin’ Jay Hawkins
- Children of the Damned - Iron Maiden
- Saturday Night – Misfits
- When the Sun Burns Red - Kreator
- Highway to Hell – AC/DC
- I Don’t Believe a Word – Motörhead
- Raining Blood – Slayer
- Lord of This World - Black Sabbath
- Welcome to the Jungle - Guns N' Roses
- Orgasmatron - Sepultura



Um gênero que sem dúvidas divide temas com sua obra é o metal. Existe alguma banda do gênero que você acha que dialoga mais com seu trabalho?

Creio que seja mesmo Black Sabbath e Motörhead. Existe algum tempero thrash também, gosto da pancadaria necessária de bandas como Slayer, Megadeth e Sepultura.

De que modo a música faz parte do seu processo criativo? Você tem o costume de ouvir músicas enquanto escreve ou antes de começar a escrever?

Ouço música o tempo todo. Ao escrever, tenho alguns momentos, geralmente um pouco antes de começar o trabalho. Funciona como um catalizador, de repente a música te arranca do mundano e te arrasta com ela. No ápice do processo criativo, quando as palavras chegam sem esforço, a música mantém o fluxo. Às vezes, ao final de um dia desafiando os olhos, a escrita é exaustiva, e nesse ponto um pouco de distorção musical chega como um bálsamo. Eu provavelmente escreveria de uma maneira diferente sem o impulso da música — e possivelmente seria uma merda.

Quem conheceu seu trabalho sabe que você é fã dos mestres Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Clive Barker e Stephen King.  Mas quais são suas inspirações musicais? E de que modo elas te inspiram?

Tenho o vício de procurar pelas letras das música de que mais gosto. Muitas delas me inspiram, sobretudo nos contos, onde a liberdade é quase total. Citaria aqui novamente Black Sabbath, Dio, Ozzy Osbourne, The Doors, Megadeth e muitas outras bandas de rock e heavy metal. O que me inspira muito, além das letras e das melodias, são os caras que meteram a cara contra o mundo e conquistaram seu espaço. São homens e mulheres que descobriram um sentido para a própria vida, que tiveram a audácia e a ousadia de contestar o maldito status quo.


Você conseguiria definir Ultra Carnem em uma música?

Essa é bem difícil, mas a essência de Ultra Carnem é a ausência de Deus, é o momento em que o Sagrado vira o rosto quando nós mais precisamos. O livro trata basicamente de homens e demônios. Creio que “God Was Never on Your Side”, do Motörhead, seja uma menção justa.

Se Ultra Carnem pudesse cair na mão de um de seus artistas favoritos, quem seria? 

Oh, boy! Dos músicos brasileiros eu escolheria Andreas Kisser, do Sepultura. Dos gringos, gostaria muito que dois fãs de horror lessem meus livros, alguém como Slash e Kirk Hammett (sonhar alto é preciso, não? Mesmo que seja para se esborrachar no chão - risos). Para fechar, meu expoente na música: Mr. Madman. Creio que, artisticamente, Ozzy Osbourne tenha um nível de insanidade bem parecido com o meu.

Você tem o costume de ir em shows e festivais de música?

Sempre que possível (o que equivale a dizer que é muito difícil). Meus últimos shows foram Black Sabbath — com Ozzy e com o Dio (RIP, man) —, e um show do Sepultura que rolou em Taubaté. Sou meio “bicho do mato”, às vezes tudo o que preciso é colocar o som no talo e escrever um pouco. Mas adoro a energia dos shows.

E instrumentos? Toca algum ou tem vontade de aprender?

Toco guitarra e já me aventurei com contrabaixo. Para ser sincero, estou bem fora de forma. Tenho vontade de aprender a tocar harmônica, gaita. Um blues bem tocado faz meu peito arfar depressa. Bateria também parece incrível, mas minha coordenação motora não chegaria tão longe.

Aliás, aproveitando o espaço, eu gostaria de agradecer meu leitor Renatinho Caveira e Buba-Baleia pelas montagens incríveis das capas que tanto amo. Olhar para cada uma delas me faz voltar no tempo e querer dar vida a todos os monstros que ainda moram em mim.


12 de jul de 2016

Robert Plant: “O processo por plágio de ‘Stairway to Heaven’ foi uma perda de tempo"

terça-feira, julho 12, 2016

Até de bermuda parece um gentleman. Robert Plant chega com o The New York Times na mão e sem indício de ressaca depois da brutal apresentação da noite anterior. Às 10h30 da manhã e desperto, como provam seus olhos que seguem cada mulher que se move pela piscina de seu hotel de Cascais. 

Robert Plant sente-se um sobrevivente de uma época em que o provável, em sua profissão, era bater as botas. A seus quase 68 anos – que completa em agosto – o vocalista e letrista do Led Zeppelin (1968-80) continua na estrada a seu ritmo. Desde a separação do Led Zeppelin, trabalhou com o guitarrista do grupo, Jimmy Page (1994-98), com a cantora country Alison Krauss (2007-08) e com diversas bandas. Desde 2012 é acompanhado pela Sensational Space Shifters, com quem se apresenta na quinta-feira 14 de julho em Madri dentro da programação das Noches del Botánico, “colidindo” o som pesado de seu lendário grupo com músicas africanas e do Mississipi.


Pergunta. Um astro do rock acordado às 10 da manhã!

Resposta. Realmente os tempos são outros. Os heróis modernos precisam estar sempre ativos. Se quer continuar trabalhando nestes dias em que a música passa por tantas mudanças, tantas inovações, precisa estar acordado, muito atento, e precisa amar este mundo. Não é mais como nos anos 1970 em Los Angeles.

P. A época de seu grande sucesso com o Led Zeppelin?

R. Sim, mas também com experiências dramáticas. Sofri um acidente de carro muito grave, perdi um filho de cinco anos... Não fiquei apegado ao país das maravilhas. Não acredito que seja possível se esconder da realidade... Mas, de repente, você se torna mais consciente de seu talento, do que consegue fazer e do que não. Compreendi que não podia ser apenas um cantor, que tinha de ser algo mais para me estimular mesmo. Não espero que ninguém o faça por mim.

P. Sua voz, escolhida em várias ocasiões como uma das melhores da história do rock, continua intacta. Não me diga que toma mel antes de deitar-se?

R. Claro que sim. Mel, limão e gengibre toda noite. Mas também estou com um grupo que deixa espaço para que eu me expresse e eu deixo espaço para que eles cresçam, por isso posso visitar velhas canções e mudá-las de cima a baixo. Ainda são incríveis, mas aparecem de diferentes ângulos, com outra energia, e isso faz cantar com esse dinamismo. Quando você chega a determinado ponto da vida, precisa dar sentido ao que diz. E precisa saber repeti-lo com a mesma energia sempre, precisa ser crível. Precisa conquistar as pessoas.

P. Dezesseis apresentações em oito países só em julho. Muito para seu corpo?

R. Não, esta é uma das turnês fáceis. Não é o trabalho de um herói, é o trabalho de um pragmático. Se demorar muito entre um show e outro, você perde a motivação, o ritmo, a adrenalina das apresentações. Esta é uma turnê tranquila, mas como obviamente não sou mais jovem, para mim está bom assim.

P. O formato atual dos festivais é muito diferente de uma apresentação exclusiva para seus fãs. É mais complicado se conectar com o público?

R. É verdade que em festivais onde há tanta mistura de grupos, as pessoas muitas vezes não conhecem essa música. É preciso entender quem está ali na frente. É como um mágico que vai tirando os elementos da cartola. Com o Sensational Space Shifters cada um faz seu papel.

P. Entre o hard rock do Led Zeppelin e a sensibilidade do Raising Sand com Alice Krauss há vários mundos. Como se chega a essa transformação?

R. Um dia meus filhos me disseram: “Pai, você vem para Ibiza?”, e eu respondi: “Não, vou a Louisiana”. Minha obsessão é encontrar os rastros da história da música norte-americana, a música cajun, tipo Bon Ton Roulá, as últimos sombras desse black blues extraordinário que se fez nos anos 1940 e 1950, Carl Perkins, música dos montes Apalaches, e juntar com sons mais contemporâneos. Você tem um tecladista como o do Massive Attack e um cara que toca um violino de uma só corda. Consegue uma colisão, não está compondo aquela merda de música bonita, mas uma colisão incrível.

P. O que resta do seu lado inglês?

R. Quando fui à América, bebi daquela música afro-americana, voltei e deixei de lado os ingleses, a pobre, velha e esgotada Inglaterra, com todos os seus pecados e seus hábitos ridículos. Deixei o chá das cinco, o futebol e voltei a trabalhar neste projeto com a Sensational, onde misturamos tudo.

P. Um grande salto, em todo caso...

R. Veja só, eu posso fazer coisas muito diferentes e trabalhar em qualquer parte do mundo. Não dá para trazer a Alice Krauss a um festival que reúne uma multidão e tocar música de violino, seria perigoso. Isto é energia pura, mas nós trabalhamos muito bem juntos. Eu gosto de cantar com mulheres.

P. Todo artista luta entre duas forças antagônicas: continuar fazendo o que pedem os fãs ou entrar no desconhecido. Como lida com isso?

R. É verdade. O mais importante é a criatividade; a auto-satisfação vem em primeiro lugar, o público é só um voyeur. Pode olhar e ficar com o que vê ou deixar para lá. Um artista precisa ser honesto e poderoso e precisa misturar. Conheço, e é muito triste, muita gente famosa que me diz “Robert, você pode fazer isso, você é livre”‘. E é verdade.

P. Sempre foi livre?

R. Fui livre durante os últimos 36 anos (desde a separação do Led Zeppelin em 1980), quando comecei a estabelecer minhas próprias regras.

P. Há anos lhe ofereceram um cheque de 200 milhões de dólares para fazer uma turnê com o Led Zeppelin e você recusou, mas não se recusa a cantar músicas de seu antigo grupo.

R. Claro, fiz um bom trabalho no Led Zeppelin. Eu sou Led Zeppelin, cantei, escrevi as letras...

P. Há algumas semanas foi absolvido de plágio pela emblemática Stairway to Heaven...

R. Foi uma loucura, uma insanidade, uma tremenda perda de tempo. Existem doze notas fundamentais na música ocidental, e você se dedica a movê-las. Não precisávamos ter chegado aos tribunais, mas era nossa música. Falei com o Jimmy e dissemos: “Vamos enfrentá-los”. Se você não defender seus direitos, o que vai fazer? Nunca imagina que vai passar por isso. Você se senta de um lado da colina, olha as montanhas, escreve uma música e 45 anos depois saem com essa. Deus do céu!

P. Como lida com a Internet, a pirataria?

R. Não me importo com a pirataria. Faz parte de como tudo está se abrindo. Adoro o desconhecido e a Internet ajuda porque permite descobrir coisas que você não vai ouvir no rádio nem na mídia internacional. Música dark, muito bonita, que você não vai escrever porque é underground, e aí começou o Led Zeppelin. A pirataria não é o fim do mundo.

P. Mas não pagam?

R. Hehehe, eu já fui pago. Agora meu pagamento é sentir-me bem com o que faço. Certamente, para mim, é fácil dizê-lo.

Fonte: El País

9 de mar de 2014

Boogarins: entrevista e cobertura do último show antes da turnê Estados Unidos/Europa

domingo, março 09, 2014
Fernando Almeida Filho, o Dinho, é de Apucarana (PR). Pouco moderno, fugiu do Sul. Foi em Goiânia que a vida do vocalista/guitarrista com pinta de Jimi Hendrix pôde se cruzar com a de outro músico das seis cordas: Benke Ferraz. Juntos, montaram o Boogarins, que começou como dupla e sem muita pretensão. Coisa de amigo de escola. Só depois chegaram o baixista Raphael Vaz, de Ceres (GO), e o baterista Hans Castro, de Araguaína (TO).

Assim como a união dos quatro é fruto de uma improvável mistura geográfica que encontrou ponto comum em Goiânia, a somatória de influências de cada um explica em partes o leque de gêneros que culminou na sonoridade peculiar do Boogarins. Rock, música brasileira e estética psicodélica formam apenas a tríade básica que caracteriza a banda. Há mais coisas por trás da musicalidade desses 'goianos'. Amizade e uma certa inocência, por exemplo.

O fato é que, há exato um ano, o Boogarins soltava o EP As Plantas que Curam, que depois foi estendido e virou full lenght lançado pelo selo Other Music Recording. Sem dúvida, uma das grandes estreias de 2013. A banda, constantemente comparada ao Tame Impala, estourou em um curto espaço de tempo e agora está prestes a embarcar para uma turnê de quase 60 datas por Estados Unidos e Europa. O show de despedida do Brasil foi sexta-feira (7/3), no Metropolis, em Goiânia. A Collector's Room marcou presença e bateu um papo com Benke, Dinho, Raphael e Hans. Confira a entrevista e também como foi a apresentação.


O que esperar dessa turnê, que será a primeira do Boogarins fora do Brasil?

Benke: Realmente é uma incógnita... Acredito que será boa, pois o disco tem sido vendido lá fora e gente de vários lugares tem pedido shows e interagido a respeito disso por redes sociais. São muitas datas, então tem também uma expectativa da gente se provar nessa experiência, ver como vamos nos sentir nessa rotina de shows. Nunca vivemos isso na nossa vida. Queremos conhecer o máximo de gente possível, ver o máximo de shows...

O fato de a banda cantar em português gera apreensão? Talvez uma recepção menos calorosa do que tem sido em Goiânia e outros lugares do Brasil?

Raphael: Acho que não. De jeito nenhum. Isso é um diferencial nosso. Muito da procura pelo disco lá fora vem do fato de as letras serem em português. Lá, somos exóticos. Não tem 'nêgo' bonito assim (risos). Isso contribui para o que a gente tem.

Dinho: Lá vai ser mais tranquilo ainda. Aqui é que temos que ter medo, pois o povo entende o que estamos cantando. Lá, ninguém vai entender nada. Então, é outro tipo de interação, de troca de energia, de convencimento do público.

Alguns shows serão em grandes festivais, como South by Southwest (Austin, EUA) e Primavera Sound (Barcelona, Espanha). Esses são realmente os mais esperados ou algum outro tem deixado vocês mais ansiosos?

Dinho: Três shows que abriremos para o Temples, banda que gostamos muito. Estou bem ansioso. Os shows em Londres também acho que serão bacanas. Com Vertical Scratchers...

Essa experiência nova pode influenciar no processo de composição?

Hans: Com certeza. São muitas coisas, bandas, lugares... Acaba influenciando um pouco.


O Boogarins ouve o quê?

Benke: Ouvimos muita coisa diferente. Na época da gravação do EP, estávamos ouvindo muito o primeiro disco do Syd Barret. Eu e o Dinho, principalmente. Na última viagem que fizemos para Brasília, fomos ouvindo Beastie Boys e Miles Davis. No repeat. Ouvimos também bandas que vamos conhecendo na estrada para ver o que está sendo feito. Difícil falar de um estilo só. Tenho procurado muita coisa nova que tem saído. Lançamentos do ano e música brasileira.

Dinho: Coisa demais. Tivemos um tempo viciados em Milton (Nascimento), Clube da Esquina e Lô Borges... Em viagens de carro, ouvimos Ariel Pink. Em casa, Velvet Underground.

Raphael: Música contemporânea e antiga. 

O Boogarins toca o quê?

Benke: Música brasileira de qualidade (risos). Rock. Eu falaria rock. Acho muito brega falar que é psicodélico. É rock de canção.

Dinho: Rock de menino novo. Se dizer psicodélico é fora do próprio psicodélico. Nosso rock é natural. Até entortamos um pouco nosso som, mas muito baseado no primeiro sentido. Psicodélico pra gente é ser natural. Algo que o Mutantes fazia no sentindo de desconstrução.

Benke: É psicodélico mais pelo jeito que o ouvinte apreende as coisas. No disco, nenhuma das músicas passa de quatro minutos. Não tem uma longa sessão instrumental. Concordo muito mais com o termo psych pop. Nosso som é acessível, fácil de assimilar. Ninguém precisa ficar se forçando a gostar. Só ao vivo é que improvisamos mais.

Raphael: Música brasileira de várias camadas (risos).

A música "Erre" tem uma veia até progressiva. É algo que vocês ouvem?

Benke: Ela tem mesmo esse ar, mas acho que mais pelo clima. Ao vivo, é uma das poucas que tocamos igual está no disco. Uma canção fechada. Tem introdução, verso, refrão, um interlúdio, que é a melodia da introdução... Depois repete e tem um solo no final. Nunca tocamos ela de um jeito diferente. Não é uma canção difícil. É pop. Já ouvi muito progressivo. Acho que o Dinho nem tanto. Ele acha chato.


Como pegar o que vocês ouvem e transformar no que tocam?

Hans: Vem de tudo que absorvemos. É como se mastigássemos isso tudo, desde o princípio, desde quando ouvia Metallica, aos dez anos, e tentar encaixar de alguma maneira.

Como é ter uma banda assim, cuja sonoridade é difícil de classificar, em uma cidade onde as bandas, em sua maioria, são stoner ou fazem questão de se dizer stoner?

Dinho: De uns dois anos para cá, isso tem mudado. Já tem menos e a tendência é diminuir. Já rolam outros sons em Goiânia. A cena pede stoner, mas existem várias outras bandas boas com outra sonoridade. Esse destaque que estamos tendo cantando em português também acho que encoraja muita gente a botar mais a cara, buscar outra pegada. Tem a Bruna Mendes, o Carne Doce, o Diego (de Moraes), que desde muito tempo vem rachando tudo aí com um som diferente. Quem viu o show dele em 2008, com certeza já deve estar aí montando uma banda por agora cantando em português e sem ser stoner. É tudo uma questão de formação. Tivemos vários anos de Mechanics, MQN... A molecada que viu isso, foi fazendo. Tipo Black Drawning Chalks, Hellbenders e várias outras. Mas o tempo vai passando, as pessoas vão vendo outros shows e coisas diferentes. A tendência é diminuir.

A banda começou só com Benke e Dinho. Como vocês se conheceram?

Dinho: Conheço o Benke desde 2008, quando ele entrou no CEFET e começamos a estudar juntos. Tocávamos violão e depois começamos a gravar. Sempre tivemos essa ligação por causa de música. Mostrar sons um para o outro.

Além de música, vocês compartilham algum outro interesse?

Dinho: Gravar coisas. Acaba ainda sendo música, mas é uma coisa que fazemos muito juntos. Já gravamos e mixamos outras bandas.

Quem compôs "Lucifernandis"?

Benke: O Dinho, a letra e a música.

Quem é Lucifernandis?

Dinho: É um trocadilho de um amigo meu da Vila Alzira. O trocadilho entre Luci e Fernandes, que vira Lúcifer. Essa é a onda. Dentro da canção, é quem você quiser.

Mas é um garoto ou uma garota?

Dinho: É sem sexo. Anjo não tem sexo.


Mutantes ou Novos Baianos?

Benke: Mutantes. Teve mais discos bons. Essa é consenso na banda.

Psicodélico americano ou psicodélico britânico?

Dinho: Britânico. Apesar de também ser muito fã do som da Costa Oeste dos Estados Unidos, os ingleses têm uma onda de experimentação muito absurda.

Caetano Veloso ou Gilberto Gil?

Raphael: Caetano. Mais original, né meu chapa? (risos) Ele tem pelo menos uns quatro discos que nenhum do Gil consegue ser melhor.

Dinho: Gil. Ele é menos fresco que o Caetano. Mais pau dentro.

Secos e Molhados ou Clube da Esquina?

Dinho: Clube da Esquina. O pessoal de Minas como um todo. O disco solo do Lô Borges, o 'disco do tênis', é frito demais. Beto Guedes também. Eles têm um timbre, uma coisa de canção e de voz que é demais. Minas é fino.

Tame Impala ou Temples?

Benke: Tame Impala

Quatro boas bandas brasileiras recentes?

Benke: Supercordas
Raphael: Luziluzia
Hans: Dona Onete
Dinho: Siba

Para terminar, não tem como não perguntar: ao idealizar o Boogarins, vocês já conheciam o Tame Impala? Qual tamanho da influência deles?

Benke: De início, não sacávamos. Eu, pelo menos, não sacava. A maioria das músicas já estavam prontas quando eles lançaram o último disco e aí tivemos mais contato. Depois disso, algumas, sim, tiveram influência, como "Erre".

Dinho: É isso. No começo, não, mas depois fritei a cabeça com o Tame Impala. Fiquei chocado. Parece muito com o primeiro do Pink Floyd. Virou uma influência.


O show

A apresentação do Boogarins tem evoluído bastante. Por mais que as canções sejam simples, não é tão fácil assim reproduzi-las ao vivo. Justamente pelo fato de serem singelas e pedirem cuidados minuciosos com melodias e arranjos. Além disso, não há teclado ou algo do tipo. Logo, as várias camas do 'rock de camadas' dos garotos dependem exclusivamente da guitarra de Benke e seus quase oito pedais de efeito. No estúdio, com computador, tecnologia e podendo repetir quantas vezes for necessário, é fácil. Barbada. No palco, a história é outra. E ele tem segurado a bronca e se saído muito bem. Robert Fripp certamente aprovaria.

Outro ponto positivo é a mescla entre as músicas. Canções dançantes, jams e as mais aclamadas - "Doce" e "Lucifernandis" - estão bem intercaladas, tornando a apresentação um tanto quanto homogênea e evitando cansaço. Dinho tem a plateia na palma da mão e vem se revelando cada vez mais um grande frontman, que toca, dança e interage. Sempre com sorriso contagiante. Muito carismático. Só não pode descuidar dos vocais, ainda que a proposta da banda seja não deixá-los 100% inteligíveis o tempo todo. Hans é preciso na batera, e Raphael preenche com um som forte de baixo os espaços na hora dos solos de Benke.

Além das já citadas "Doce" e "Lucifernandis", destaque obrigatório para "Infinu", "6 Mil Dias", "Despreocupar" e a genial "Resolvi Ir". Quem estiver de bobeira nos Estados Unidos ou em países como Inglaterra, Espanha, Itália, França, Bélgica, Holanda e Suíça de agora até maio, tem o dever de tentar pegar pelo menos uma das quase 60 datas da turnê. Satisfação garantida. Quem estiver aqui no Brasil mesmo, terá que aguardar até o Bananada, em Goiânia, no dia 17 de maio. E ir matando vontade ouvindo o As Plantas Que Curam.


Texto, fotos e vídeo de "6 Mil Dias" por Guilherme Gonçalves

5 de jan de 2014

Entrevista: Steve McKnight (guitarrista, Cry Wolf)

domingo, janeiro 05, 2014

Quando tocar hair metal virou sinônimo de grana fácil, um punhado de bandas surgiu, abarrotando a cena e facilitando as coisas para a chegada do rock de Seattle. Ao passo que muitas dessas bandas apenas reproduziam a fórmula na esperança de serem contratadas por uma grande gravadora, outras buscavam incorporar elementos que as distinguissem da maioria e acabaram não obtendo o sucesso merecido. O CRY WOLF é um desses grupos que, se dependessem somente do nível do material que produziam, teriam vendido milhões. 

A COLLECTOR'S ROOM bateu um papo exclusivo com STEVE MCKNIGHT, guitarrista do Cry Wolf, que, sem papas na língua, contou a história da banda e revelou detalhes de sua volta, depois de quase uma década de hiato.

Por Marcelo Vieira

COLLECTOR'S ROOM: O Cry Wolf foi formado por você, Phil e Timmy. Como vocês se conheceram? Haviam tocado juntos anteriormente? 
STEVE MCKNIGHT: Nós estávamos em uma banda chamada Heroes, que tinha um som mais na linha de Journey e Foreigner. Eu fiz um teste, depois Phil apareceu. Foi assim que nos conhecemos. Havia um baterista chamado John Freixas e um tecladista chamado JC Crampton. Perdemos John e Paul, que já havia tocado com Timmy, assumiu a bateria. Nos mudamos para Los Angeles para ficarmos mais próximos do nosso empresário, o tecladista saiu e nos tornamos um quarteto. 

COLLECTOR'S ROOM: A banda teve origem na Bay Area, região conhecida como berço do thrash metal nos EUA. Foi difícil obter destaque? 
STEVE MCKNIGHT: Eu dava aulas de guitarra, o baterista dava aulas de bateria, então nós tínhamos o nosso grupo de adeptos garantido. Musicalmente falando, éramos muito bons e isso atraía muita gente para os shows. Quando voltamos de Los Angeles para tocar na Bay Area, decolamos. Éramos a atração principal e os ingressos para os nossos shows simplesmente esgotavam. 

COLLECTOR'S ROOM: Você disse que a primeira formação contava com um tecladista e que o som tinha contornos mais melódicos no começo. Quais bandas mais influenciaram vocês? 
STEVE MCKNIGHT: Minhas influências são várias — hard rock, metal, trilhas sonoras de filmes, música erudita, big bands etc. Mas as principais, certamente, são Rush, Van Halen, Ozzy, UFO e Loudness. 

COLLECTOR'S ROOM: O nome Cry Wolf foi escolhido de maneira incomum. Você poderia nos contar como? 
STEVE MCKNIGHT: Nós lançamos um concurso "escolha um nome para a banda" na revista BAM de Los Angeles. O vencedor ganharia um par de convites para um show do Mötley Crüe e um passeio de limusine. Havia nomes como Bastard Sword, PS: Dump Your Boyfriend e Cry Wolf foi o vencedor! Criamos uma mala direta a partir dos inscritos para mantê-los informados a respeito dos próximos shows da banda.

Formação clássica da banda: Timmy Hall (vocais), Steve McKnight (guitarra), Phil Deckard (baixo) e Paul Cancilla (bateria) 

COLLECTOR'S ROOM: Como você descreve a cena hard rock de Los Angeles daquela época? 
STEVE MCKNIGHT: Mais de três mil bandas disputando a preferência do público em uma área de três quarteirões. Gente entornando nas calçadas todas as noites. Festas loucas, muita energia e diversão. Uma cena de verdade! 

COLLECTOR'S ROOM: A primeira demo do Cry Wolf fez um tremendo sucesso no Japão. Vocês chegaram mais longe lá do que nos EUA. Qual a sensação de ter o trabalho reconhecido no exterior? 
STEVE MCKNIGHT: Era raro uma banda chegar ao Japão sem ser por meio de uma gravadora. Assinamos com a Epic/Sony de lá. Depois, assinamos com a Grand Slamm/IRS, do antigo selo MCA, nos EUA. No Japão foi absurdo! Era fantástico ver as pessoas acampando nos saguões dos hotéis por dias, ter os próprios seguranças no seu andar etc. Nós realmente pensamos que era um grande começo para um excelente futuro, mas talvez nem soubessemos o que estávamos fazendo. Voltar do Japão era um choque de realidade interessante. Nós estivemos lá duas vezes num período de seis a nove meses. 

COLLECTOR'S ROOM: Na sua opinião, ter reconhecimento no Japão foi fundamental ou mais cedo ou mais tarde vocês acabariam assinando com algum selo nos EUA, considerando o mercado da época? 
STEVE MCKNIGHT: Eu acho que assinar com a Sony no Japão realmente nos ajudou. Uma resenha da nossa demo publicada na Kerrang! deu início às agitações no Japão e na Inglaterra. Foi aí que as coisas começaram a acontecer para a gente nos EUA. 

COLLECTOR'S ROOM: Quais são as diferenças entre Crunch (1991) e o álbum autointitulado do Cry Wolf lançado em 1989 apenas no Japão? 
STEVE MCKNIGHT: Crunch contém remixes da maioria das músicas gravadas para Cry Wolf. O álbum japonês trazia um cover de "I Am The Walrus" dos Beatles. Nossos empresários disseram que lançar essa música nos EUA seria um tiro no pé. E Crunch tem uma ilustração de capa muito bacana também!


COLLECTOR'S ROOM: "Pretender" é a canção mais famosa do Cry Wolf. Na minha opinião, é também a melhor. Guitarra fantástica, a letra etc. Como ela tomou forma? 
STEVE MCKNIGHT: Antes de mais nada, obrigado! A canção escreveu a si própria. Tim e eu nos reunimos e ela estava pronta em 15-20 minutos. A melodia vocal segue o riff da guitarra. Nós queríamos algo dinâmico e um solo bastante melódico. Nos sintonizamos com o que estava em alta nas rádios e a coisa fluiu! 

COLLECTOR'S ROOM: O Cry Wolf dividiu o palco com bandas como Judas Priest, Lynch Mob e Savatage. Mesmo com o hard rock perdendo espaço na mídia, você pode dizer que "viveu o sonho"? 
STEVE MCKNIGHT: Nós fizemos alguns shows memoráveis. Conheci alguns dos meus ídolos e senti o gostinho de viver de música. Meu envolvimento com a música data da 5ª série primária, então essa coisa toda de sair em turnê era algo que já estava no meu sangue. Até hoje eu componho, melhoro como guitarrista e amo tudo isso. É como respirar — e não dá para não respirar. 

COLLECTOR'S ROOM: Enquanto estavam em Houston, o caminhão que levava todo o equipamento da banda foi roubado e vocês tiveram que cancelar shows. Isto, de alguma forma, acelerou a separação do grupo? 
STEVE MCKNIGHT: O roubo do caminhão foi o começo do fim. Ainda tínhamos sete shows a cumprir. Chegamos ao hotel em Houston à noite e, de manhã cedo, o caminhão havia sumido. O mesmo aconteceu com outras bandas. Moradores roubam o caminhão, o esvaziam em algum galpão e depois o abandonam no acostamento da Interstate 45, que liga Houston a Dallas. Pouco tempo depois, a gravadora nos despediu. Entendemos que estava na hora de voltar para Los Angeles. 

COLLECTOR'S ROOM: Como foi a vida logo após o fim da banda? 
STEVE MCKNIGHT: Paul se mudou para Minneapolis. Contei com um grande amigo, o baterista John Link, na procura de outra gravadora, mas a coisa crepitou pouco tempo depois e voltamos a dar aulas. 

COLLECTOR'S ROOM: Em que momento você sentiu que era hora de começar de novo? 
STEVE MCKNIGHT: Um dos nossos antigos roadies nos levou a criar uma página no MySpace e pagar para ver, pois bandas como Dokken e Ratt ainda estavam fazendo turnês e se saindo bem. Existiam festivais como Rocklahoma e Rock on the Range, especializados em bandas do nosso gênero, que tinham público. Decidimos voltar e estamos aqui até hoje.


COLLECTOR'S ROOM: Há alguns anos atrás, o Cry Wolf lançou algumas músicas na Internet, entre elas, "She's Got The Thunder", que eu adorei. Como foi a resposta dos fãs? 
STEVE MCKNIGHT: A resposta não poderia ter sido melhor! Eles se mostraram contentes de nos ver juntos e tocando novamente. Nos sentimos uma daquelas bandas que deveriam ter sido maiores e atingido mais pessoas. 

COLLECTOR'S ROOM: O álbum Twenty Ten (2010) foi lançado exclusivamente em formato digital. Você acha que o futuro da indústria musical está, de fato, nos downloads? 
STEVE MCKNIGHT: Nós estamos passando longe dos formatos físicos como CDs. Não dá para competir com iPods e celulares capazes de armazenar milhares de músicas. A desvantagem vem na qualidade do .mp3 — o som é de baixa qualidade, não possui a resolução em termos de som que os formatos anteriores possuíam. 

COLLECTOR'S ROOM: Timmy saiu em 2012. O que houve? 
STEVE MCKNIGHT: Tim começou a se envolver com o rockabilly e lidera uma banda chamada Fast Otto, que toca regularmente em Los Angeles. Em determinado momento, ele deixou claro que preferia seguir tocando rockabilly, e foi o que fez. 

COLLECTOR'S ROOM: Aí vocês deram as caras com uma mulher no vocal! Curiosamente, eu sempre imaginei como seriam algumas músicas da banda com vocal feminino. Qual foi a reação do público quando vocês anunciaram Susie Major como vocalista? 
STEVE MCKNIGHT: Ao contrário de você, muita gente não imaginava o Cry Wolf com uma mulher no vocal, mas acabou dando uma chance e aprovando! Eu gosto de desafiar pessoas de mente fechada; no caso, as surpreendi com uma mulher no vocal. Alguns pagaram pela língua, pois o rock continuou rolando. Susie acabou saindo e, desde então, estamos trabalhando com Dyna Shirasaki, que é dona de uma voz estridente e poderosa; definitivamente, uma cantora de rock n' roll!

Formação atual da banda: Dyna Shirasaki (vocais), Steve McKnight (guitarra, vocais) e Phil Deckard (baixo, vocais) 

COLLECTOR'S ROOM: Pelo que vejo no Facebook, o Cry Wolf tem tocado regularmente. Pode-se dizer que, mais de vinte anos após o apogeu do hard rock, uma nova cena está em ascensão? 
STEVE MCKNIGHT: O que você chama de cena mudou de forma. Eu não acredito que haverá algo tão grande novamente. As pessoas interagem com as bandas mais pela Internet. Antes da Internet, você tinha que mexer o seu traseiro e ir de encontro à música; ir às lojas para ficar por dentro dos últimos lançamentos, ler revistas, assistir shows ao vivo. É difícil tirar as pessoas do conforto do lar hoje em dia! Estamos nos divertindo e aprendendo a usar as ferramentas online para manter contato com os fãs mais antigos e atrair novos fãs! 

COLLECTOR'S ROOM: Vocês planejam lançar material inédito ou a prioridade, por enquanto, é apenas fazer shows? 
STEVE MCKNIGHT: Eu vou tocar guitarra até o dia em que eu morrer, mas nós continuaremos apenas compondo, gravando e fazendo shows por enquanto. 

COLLECTOR'S ROOM: Há propostas para que vocês toquem em outros países? 
STEVE MCKNIGHT: Recentemente conversamos com alguns produtores japoneses para uma volta ao Japão. E nós adoraríamos tocar no Brasil! 

COLLECTOR'S ROOM: Sério? O que você sabe sobre o público daqui? 
STEVE MCKNIGHT: Dizem que o público é fantástico, que os fãs são os mais insanos! Dá para sentir de longe a energia e nós não vemos a hora de tocar no Brasil! 

COLLECTOR'S ROOM: Então, para encerrar, deixa uma mensagem para esses fãs insanos! 
STEVE MCKNIGHT: Em primeiro lugar, muito obrigado, Marcelo e Collector's Room. A música é tudo para mim e eu agradeço todos os dias por poder fazer aquilo que realmente amo. Fãs brasileiros, continuem apoiando as bandas! Nós amamos vocês e queremos muito dar a vocês 110% de rock n roll! Um abraço a todos!

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